Aspectos psicológicos na obesidade mórbida: Avaliação dos níveis de ansiedade,
depressão e do auto-conceito em obesos que vão ser submetidos à cirurgia
bariátrica
Aspectos psicológicos na obesidade mórbida: Avaliação dos níveis de ansiedade,
depressão e do auto-conceito em obesos que vão ser submetidos à cirurgia
bariátrica
Carla Rocha*; Eleonora Costa*
*Universidade Católica Portuguesa, Braga
Correspondência
ABSTRACT
Obesity is a public health problem, in view of its high prevalence, the
difficulty in the control and in the raised index of relapse. Methodology: This
is a study with a correlacional design which was developed in a Hospital Center
of the Region North of Portugal (CHAA), with a non-random sample of 100
participants, of both genders, with morbid obesity and candidates to bariatric
surgery. The objective of this study is to assess levels of anxiety, depression
and self-concept in obese patients about to undergo bariatric surgery,
specifically, to characterize the emotional state (anxiety, depression) of
users morbidly obese candidates for bariatric surgery, verify the relationship
between levels of anxiety, depression and self-concept, analyzing whether there
are significant relationships between dimensions of self-concept (acceptance/
rejection of social self-efficacy, psychological maturity, impulsivity/
activity) and anxiety and depression. Another objective is to assess the
relationship between BMI and anxiety, depression, and evaluate the relationship
between BMI) and self-concept. For the realization of this study was
administrated a socio-demographic and clinical questionnaire, the Hospital
Anxiety and Depression Scale (HADS) of Zigmond and Snaith (1983) and the
Clinical Inventory of Self-Concept (ICAC) of Vaz Serra (1986). Results: The
results indicate a statistical significant association between levels of
anxiety and depression and the self-concept in individuals with morbid obesity.
It was also verified that it does not exist a statistical significant
correlation between the body mass index (BMI) and the levels of anxiety,
depression and self-concept. It was also verified that anxiety is present in
individuals with morbid obesity but there are not significant correlations
between anxiety, depression, self-concept and BMI. Although some studies show
that obese individuals have a higher predisposition to express some degree of
psychopathology, however this does not indicate that all the subjects present
significant degrees of psychological disturbances. We hope to help expand the
knowledge and understanding of the psychological aspects of this disease,
associated with the dimensions of analysis - depression, anxiety and
self-concept that has been studied mainly in terms of medical, nutritional and
aesthetic, but only incidentally by psychology, thus contributing to the
further development of this area and future plans for intervention in the
practice of Clinical Psychology and Health.
Key-words:Anxiety, Bariatric surgery, Depression, Morbid obesity, Self-concept.
INTRODUÇÃO
De acordo com a literatura, a obesidade é descrita como presumivelmente a
enfermidade metabólica mais antiga da existência humana (Oliveira, 2006). A
Organização Mundial de saúde (OMS, 2003) definiu a obesidade como um problema
de saúde pública, sendo já considerada pela sua dimensão, uma das mais graves
doenças que o homem tende a enfrentar. A sua elevada prevalência, a dificuldade
no controlo e o elevado índice de reincidência, classificam-na como a epidemia
do século XXI (Carmo, 2008).
Esta temática tem sido alvo de muitos questionamentos na comunidade científica,
entre os profissionais de saúde, principalmente por afectar a qualidade de vida
devido às comorbilidades a ela associadas (Direcção-Geral da Saúde, DGS, 2005).
A obesidade é uma doença crónica, com génese multifactorial, que exige esforços
contínuos no seu controlo, constituindo uma ameaça para a saúde e um importante
factor de risco para o desenvolvimento e agravamento de outras doenças (ADEXO,
2008). Alterações metabólicas, como a dislipidémia, a hipertensão e a
intolerância à glicose, considerados factores de risco para a diabetes e para
as doenças cardiovasculares, patenteadas no adulto, podem ser hoje presenciadas
nos mais jovens. A obesidade é ainda encarada como factor de risco para outras
doenças como apneia do sono, osteoartrite e alguns tipos de cancro, bem como
problemas psicológicos e sociais, particularmente na obesidade mórbida (Allen
et al., 2003; Oliveira & Fisberg, 2003; Shortt, 2004).
Do ponto de vista quantitativo, para avaliar a presença de obesidade clínica
para estudos epidemiológicos, a OMS (WHO, 1997), utiliza o método chamado de
Índice de Massa Corporal (IMC=peso (kg)/[altura(m)]²), sendo considerada a
forma mais objectiva para classificar a obesidade (ver Quadro_1).
A OMS em cooperação com a International Association for the Study of
Obesityanunciou a nova estimativa de excesso de peso e obesidade no mundo,
aproximadamente 1.7 biliões de pessoas (Deitel, 2003). Relativamente à Europa,
as taxas mais altas referem-se à Lituânia, Malta, Rússia e Sérvia, e as mais
baixas na Suécia, Irlanda, Dinamarca e Reino Unido. Portugal coloca-se entre os
países europeus com maior prevalência de excesso de peso e de obesidade. Num
trabalho publicado em 2008, Carmo e colaboradores (2000) salientam que a
prevalência de excesso de peso e obesidade em Portugal entre 1995 e 1998 era de
49.6%. contudo, entre 2003 e 2005 esta prevalência aumentou para 53.6%, o que
mostra que ainda há muito trabalho a realizar para combater esta doença. A
elevada prevalência da obesidade em Portugal e a sua taxa de crescimento anual,
a morbilidade e mortalidade muito altas que, directa ou indirectamente, a
acompanham, a diminuição da qualidade de vida e os elevados custos que
determina, bem como a dificuldade do seu tratamento, instituem a preocupação
para o Ministério da Saúde que alicerça o Programa Nacional de Combate à
Obesidade desde 2005 (DGS, 2005). A principal questão e que permeia as
investigações científicas é a prevalência dessa doença, o rápido progresso, sem
distinguir raça, sexo, idade ou nível social (Repetto, Rizzolli, & Bonatto,
2003). Alguns autores enfatizam e atribuem maior peso à hereditarie dade e aos
factores genéticos (corrente organicista), enquanto outros salientam os
factores psicológicos e sociais (corrente psicossomática), embora todos admitam
uma interacção de factores de ambos os tipos na origem e desenvolvimento da
mesma (Azevedo & Spadotto, 2003). Para compreender com alguma profundidade
a obesidade mórbida será necessário adoptar uma análise multidisciplinar, para
perceber todas as suas dimensões, como as suas causas, implicações, formas de
intervenção e tratamento.
Ansiedade e obesidade mórbida
Um factor bastante citado pela literatura como estando presente na dinâmica da
personalidade do indivíduo obeso é a ansiedade. No estudo de Guisado e
colaboradores (2002), com indivíduos obesos mórbidos submetidos à cirurgia
bariátrica, detectou-se a presença de perturbações psiquiátricas do Eixo I com
uma prevalência de 40%, sendo as perturbações afectivas e as de ansiedade as
mais frequentes.
Um outro estudo recente (Simon et al., 2006) avaliou a associação entre
obesidade e grau de humor, ansiedade e perturbação no uso de substâncias.
No estudo participaram 9.125 indivíduos. Os resultados indicam que as pessoas
obesas têm aproximadamente 25% maior probabilidade de apresentar depressão e
ansiedade do que a popu lação geral. Essa taxa aumenta para 44% na população
branca e com maior grau de escolaridade. Não foi possível determinar no estudo
se a depressão conduz à obesidade ou vice-versa, mas os autores ponderam a
possibilidade da associação operar nos dois sentidos.
Entre as pesquisas que não referiram a presença elevada de problemas
psicológicos, antes da cirurgia, está um estudo realizado em Portugal (Travado,
Pires, Martins, Ventura, & Cunha, 2004). Os dados indicam ainda que a
perturbação psicológica e de personalidade não são significativas, em termos
estatísticos nos utentes obesos. Contudo, verificaram-se algumas alterações de
personalidade sugestivas de instabilidade emocional, entre elas, a
personalidade compulsiva, tal como uma ténue alteração da ansiedade
relativamente ao comportamento alimentar.
Depressão e obesidade mórbida
É bastante conhecida a relevância da depressão no contexto clínico, causando
limitações significativas ao indivíduo, à família e à sociedade. Friedman e
Brownell (1995), examinando a literatura, observaram discrepâncias entre os
estudos, revelando que alguns estudos apontam que a obesidade aumenta o risco
de desenvolvimento de sintomas depressivos como é o caso do estudo de Faith e
colaboradores (2011), enquanto outros indicam que a obesidade diminui o risco
para a depressão e ainda outros referem que a obesidade não tem influência no
risco para depressão.
Uma pesquisa (Dixon, Dixon, & O'Brien, 2003) estudou a associação da
depressão com obesidade mórbida antes e depois da cirurgia. A amostra foi
composta de 487 utentes. A conclusão deste estudo refere que os obesos
mórbidos, especialmente as mulheres, com imagem corporal frágil, têm alto risco
de desenvolverem depressão. A pesquisa também sustenta a melhoria da
sintomatologia depressiva com a perda de peso e suporta a hipótese de que a
obesidade mórbida causaria ou agravaria a depressão.
Um outro estudo realizado na Holanda (Gemert, Severeijns, Greve, Grenman, &
Soeters, 1998, citados por Oliveira, 2006) investigou os efeitos a longo prazo
da perda de peso induzida pela cirurgia no funcionamento psicológico de
indivíduos obesos mórbidos. Participaram do estudo, 62 obesos mórbidos. Os
resultados psicométricos antes da cirurgia apontaram para somatização,
depressão, sentimentos de insegurança, negação de stressemocional,
incompetência social e uma atitude indiferente em relação a certos aspectos do
comportamento interpessoal e baixa autoestima. Toda a sintomatologia, excepto a
somatização foi revertida no pós-cirúrgico. A melhoria da psicopatologia foi
determinada e sustentada pelo sucesso da perda de peso e não influenciado pelo
procedimento cirúrgico, apontando para o facto de que as perturbações
psicológicas no préoperatório são resultados mais do que a causa da obesidade
mórbida.
Veggi, Lopes, Faerstein e Sichieri (2004) descrevem que vários estudos
transversais e prospectivos indicam comorbilidade psiquiátrica em sujeitos
obesos mencionando que a associação entre obesidade e depressão depende da
gravidade da obesidade (Wit et al., 2010). Embora os demais autores se
mantenham em uníssono que sustentam uma distribuição análoga de psicopatologia
entre obesos e não obesos na população geral, Faith e Allison (1996, citados
por Segal, Cardeal, & Cordás, 2002) exprimem que "o júri" ainda
está a trabalhar nesta hipótese, sendo prematuro afirmar categoricamente que
não há correlatos psicológicos únicos ou particulares da obesidade.
Auto-conceito e obesidade mórbida
Neste contexto, urge avaliar o auto-conceito enquanto recurso para a
compreensão dos aspectos psicológicos relativos à obesidade mórbida, na medida
em que o que a pessoa pensa sobre si mesma, diz muito sobre a satisfação que
extrai da sua vida e das actividades que realiza, sendo um factor de risco ou
protector para a sua saúde mental (Bandura, 1986, citado por Cataneo, Carvalho,
& Galindo, 2005).
Dos estudos realizados em Portugal, o trabalho realizado por Vaz Serra, Firmino
e Matos (1987) comprovou que quanto melhor é a atmosfera familiar, melhor é
também o auto-conceito do indivíduo e os seus sentimentos de aceitação social e
de auto-eficácia. Alguns estudos referem uma pobre autoeficácia, auto-confiança
(Tanco, Linden, & Earle, 1998) e auto-estima por parte destes utentes
(Glinski, Wetzler, & Goodman, 2001). As reacções e atitudes da sociedade em
relação à obesidade repercutem-se nas reacções e atitudes dos indivíduos
obesos, que tendem a fazer auto-declarações depreciativas e a apresentar um
auto-conceito comprometido (Schwatz & Brownell, 2004). As consequências das
críticas da sociedade interferem, muitas vezes, na auto-estima e na auto-imagem
dos indivíduos com obesidade (Heller, 2006). Castilho (2004, citado por
Oliveira, 2005) relata que a insatisfação com a própria imagem é o mediador da
relação entre obesidade e estados psicológicos disfuncionais nos adultos. Os
dados apontam para a existência de uma realidade social de discriminação que
influencia o funcionamento psicológico do indivíduo obeso, existindo como que
uma aversão à gordura que contribui para o comprometimento da auto-estima e da
auto-imagem (Almeida, Loureiro, & Santos, 2002). Assim, o auto-conceito do
indivíduo obeso, referente ao conhecimento que o indivíduo tem de si,
abrangendo aspectos cognitivos, afectivos e comportamentais merece uma atenção
acrescida (Sisto, Bartholomeu, Rueda, & Fernandes, 2004).
Cirurgia bariátrica: O papel do psicólogo
No tratamento desta patologia os insucessos devem-se, sobretudo, ao seu
carácter unimodal, em que se privilegia uma intervenção biológica, bioquímica e
prescritiva, específica do modelo biomédico, em detrimento dos aspectos
psicossociais do sujeito no seu processo de doença e de tratamento (Reis, 1998,
citado por Travado et al., 2004). As variáveis psicológicas, particularmente as
variáveis de personalidade, parecem ter um papel essencial nesta patologia
(Grana, Coolidge, & Merwin, 1989), pelo que uma abordagem terapêutica que
considere as dimensões biopsicossociais da pessoa através de uma equipa
multidisciplinar deve ser privilegiada com vista a assegurar o êxito do
tratamento desta patologia e a sua manutenção a longo prazo, contribuindo para
a melhoria de saúde, qualidade de vida, bem-estar e satisfação dos indivíduos
(Travado et al., 2004). Actualmente, a cirurgia bariátrica apresenta uma grande
relevância como opção terapêutica essencial para esta doença (Lima, 2008). De
acordo com Oliveira, Linardi e Azevedo (2004), um dos principais objectivos da
cirurgia bariátrica é tornar o indivíduo "consciente" dos seus
problemas, possibilitando o planeamento antecipado de comportamentos
alternativos que viabilizem a resolução de tais problemas. Assim, da fase pré-
cirúrgica o que se pretende é, efectivamente a avaliação e caracterização
psicológica de cada utente, com o fornecimento de parecer técnico sobre as
circunstâncias psicológicas para a realização da cirurgia, incluindo critérios
clínicos de morbilidade psicológica e de motivação, colaboração e
responsabilidade do utente face aos procedimentos de tratamento e
transformações relacionadas (Oliveira, Linardi, & Azevedo, 2004). Com base
nestes pontos são delimitados graus de prioridade para a realização da
cirurgia, tendo em consideração a estabilidade emocional do utente e a sua
adesão às condições do tratamento ou a sua indicação para consulta de
especialidade prévia ao mesmo. Torna-se crucial ainda abordar a adaptação ao
novo estilo de vida que é totalmente distinto ao precedente, uma vez que o
utente terá de lidar com condições de privação de alimentos que anteriormente
eram ingeridos em grande quantidade. A cirurgia engloba enormes mudanças
internas e externas, compreendendo um período de adaptação emocional, física e
social, mas sobretudo ao nível da qualidade de vida (Oliveira & Rodrigues,
2006).
Em suma, o papel do psicólogo em todo este processo é o de avaliar se o
indivíduo está adequado em termos emocionais para a cirurgia e auxiliá-lo na
compreensão de todos os aspectos subsequentes do pré e pós-cirurgia (Ramos,
Bruscato, & Branco, 2006), pois um acompanhamento psicológico proporciona
condições para que o utente compreenda a amplitude do processo pelo qual irá
passar, ajudando-o a tomar decisões mais conscientes de acordo com cada
indivíduo em particular.
METODOLOGIA
Participantes
Este estudo foi realizado numa amostra portuguesa de utentes de ambos os
géneros, diagnosticados com obesidade mórbida, candidatos à cirurgia bariátrica
do Serviço de Cirurgia da Obesidade de um hospital da região norte do país.
Definiu-se como população para este estudo (critérios de inclusão) sujeitos de
ambos os géneros que frequentassem as Consultas de Cirurgia de Obesidade, que
possuíssem como diagnóstico médico Obesidade Mórbida (IMC>40Kg/m²), que fossem
candidatos à cirurgia bariátrica e que possuíssem capacidade de leitura e/ou
compreensão de português, tendo estes critérios sido aplicados no procedimento
de recrutamento. Nesta investigação procedeu-se a uma amostragem não aleatória
como método de amostragem (Almeida & Freire, 2003). Tendo em consideração
os critérios anteriormente mencionados, a amostra final do estudo ficou
constituída por 100 utentes. A participação dos utentes foi voluntária sendo
estes antecipadamente informados sobre a constituição e objectivos da
investigação.
Nenhum dos participantes que compareceram à consulta recusou participar no
estudo, sendo a taxa de participação de 100%.
Procedimento de recolha de dados
Para se proceder à recolha de dados foi necessária a formulação de um pedido de
autorização por escrito ao Comité de Ética do hospital. A este pedido foi
anexada uma breve descrição do projecto de investigação. Após o deferimento do
pedido de autorização, o encaminhamento dos utentes para esta investigação foi
efectuado na sequência das consultas marcadas, ou seja, os utentes que foram
encaminhados para o Departamento de Psiquiatria e Saúde Mental para uma
avaliação psicológica para posteriormente serem submetidos à cirurgia
bariátrica. Nestas consultas destinadas às avaliações psicológicas destes
utentes foi ainda verificado se estes satisfaziam os critérios de inclusão
estabelecidos. Caso os critérios estivessem presentes, o utente era convidado a
colaborar nesta investigação, sendo-lhe explicado o intuito da sua colaboração,
aclarando-se de seguida as finalidades da mesma (e.g., objectivos, metodologia
utilizada, relevância do estudo). Todos os participantes foram ainda advertidos
de que a sua participação era estritamente pessoal e voluntária e que era
garantida a confidencialidade dos dados pessoais fornecidos.
Instrumentos de avaliação
Na presente investigação e tendo em consideração as variáveis em estudo foram
administrados quatro instrumentos de avaliação aos utentes. O questionário
sociodemográfico que avalia variáveis como a idade, género, estado civil,
habilitações académicas, situação profissional, especificando o tipo de
profissão que exerce, localização da residência, número de filhos e suporte
social. Foram ainda acrescentadas duas questões, numa escala tipo likert,
referentes à sua imagem corporal e satisfação com a vida. O questionário
clínico que avalia dados referentes à situação clínica dos utentes,
nomeadamente, peso, altura, número de refeições por dia, história familiar de
excesso de peso, tratamentos para diminuir peso e o resultado desses
tratamentos, problemas de saúde que se desenvolveram/apareceram com o aumento
de peso, tempo que passa na cama ou sentado, interferência do peso na vida
profissional, saúde actual e recurso a apoio na área da saúde mental.
O "Hospital Anxiety and Depression Scale"- HADS de Zigmond e Snaith
(1983) com versão experimental portuguesa de McIntyre, Pereira, Soares, Gouveia
e Silva (1999) com o objectivo de avaliar, de uma forma breve, os níveis de
ansiedade e depressão em utentes com patologia física e em tratamento
ambulatório, seleccionando apenas sintomas psicológicos. É uma escala
frequentemente utilizada e desenvolvida para uso em contexto hospitalar,
composta por 14 itens divididos em duas sub-escalas: Ansiedade (7 itens) e de
Depressão (7 itens) que conjuntamente produzem um resultado total. A resposta
do instrumento pode variar entre zero (baixo) e três (elevado), numa escala de
Likertde 4 pontos. Os resultados da escala podem assumir valores de 0 a 21,
onde os valores mais elevados indicam níveis mais altos de ansiedade e
depressão. Neste sentido, operacionalizando, o grau de gravidade da depressão e
ansiedade, este pode ser classificado de normal para o intervalo de valores 0 a
7, leve de 8 a 10, moderada de 11 a 14 e grave de 15 a 21 (Pais Ribeiro, 2007).
O Inventário Clínico de Auto-Conceito(ICAC) de Vaz Serra (1986) é um
instrumento aferido para a população portuguesa que se destina a avaliar os
aspectos emocionais e sociais do autoconceito. O ICAC é uma escala subjectiva
de auto-avaliação, composta por 20 itens com cinco possibilidades de resposta.
Cada questão pode ser classificada numa escala de tipo Likertde um a cinco
valores. Nas questões negativas as pontuações são revertidas. Este inventário,
para além de fornecer uma nota global, possui vários índices que no seu
conjunto permitem a análise das percepções que a pessoa tem de si própria,
tendo estes índices sido o resultado directo de processos de análise factorial
(Vaz Serra, 1986). Este instrumento avalia as seguintes dimensões do
autoconceito: aceitação-rejeição social (F1), auto-eficácia (F2), maturidade
psicológica (F3) e impulsividade-actividade (F4) e mais dois factores espúrios
que os autores não utilizam embora os refiram nos relatórios de investigação
publicados (Pais Ribeiro, 2007). No que respeita à cotação, o inventário está
construído no sentido de que "quanto maior o valor global, melhor é o
auto-conceito do indivíduo" (Almeida, Simões, & Gonçalves, 1995, p.
160). Esta pode variar de um mínimo de 20 a um máximo de 100 pontos.
Procedimentos de análise de dados
Após a recolha dos dados estes foram processados no programa estatístico SPSS
(Statistical Package for the Social Sciences -versão 17.0). Os dados
referentes à caracterização da amostra em estudo foram obtidos a partir da
estatística descritiva, análises de distribuições e frequências. Nas hipóteses
do estudo recorreu-se à estatística não paramétrica quando os parâmetros de
normalidade da distribuição e homogeneidade de variância não se encontravam
respeitados. Assim, para dar resposta às questões desta investigação, foram
utilizadas medidas descritivas e o teste não-paramétrico de Spearmanpara obter
os coeficientes de correlação, dado que se pretendia analisar uma relação entre
as variáveis. Foram ainda efectuadas algumas análises exploratórias com o
intuito de verificar a influência de diversas variáveis sócio-demográficas e
clínicas nas variáveis em estudo (ansiedade, depressão e auto-conceito). Para
avaliar a possível existência de diferenças significativas a amostra foi
subdividida utilizando o teste de Kruskal-Wallise o teste U de Mann-Whitneypara
as variáveis não paramétricas. No caso de diferenças significativas entre três
grupos, foram feitas análises de post hocde Bonferroni. Nas análises
estatísticas realizadas, assumiu-se um alfaigual a .05 como valor crítico de
significância dos resultados dos testes de hipóteses, rejeitando-se a hipótese
nula quando a probabilidade do erro de tipo I for inferior a .05.
RESULTADOS
Caracterização sócio-demográfica e clínica da amostra
A amostra é constituída por 100 indivíduos, sendo sete homens (7%) e 93
mulheres (93%), em que 28% dos participantes tem entre 21 e 35 anos (n=28), 51%
(n=51) tem entre 36 e 50 anos e 21% (n=21) dos participantes tem idade ≥ a 51
anos. Quanto ao pesoactual dos participantes, verifica-se um valor médio de
112.22 kg (DP=12.473; mín.-máx.=83kg-154kg). Em relação ao Índice de Massa
Corporalactual, este foi ≥ 40 kg/m², sendo o valor médio encontrado de 44.62kg/
m2(DP=4.364; mín.-máx.=40kg/m2-62kg/m2). No que diz respeito ao estado civil, a
amostra é composta maioritariamente por indivíduos casados (83%) e dos
restantes, 11% são solteiros e 3% são divorciados. Uma minoria é viúva (2%) ou
vive em união de facto (1%). Verifica-se que, no que diz respeito à
residênciados indivíduos, 67.7% da amostra reside no meio rural e 32.3% vive no
meio urbano. Relativamente às habilitações literáriasverifica-se que, de um
modo geral, o grau de escolaridade dos participantes é baixo (79% dos sujeitos
têm apenas o primeiro ciclo do ensino básico). Em relação ao estatuto
profissionaldos participantes deste estudo, verifica-se que a maioria se
encontra empregado (55%), contudo um número considerável são desempregados
(25%). Existem ainda alguns indivíduos reformados (12%) e de baixa médica (5%).
Indivíduos estudantes (1%) e com outro estatuto (2%) são uma minoria. Do total
da amostra 91% já se submeteu a tratamentos no passado para diminuir o peso,
sendo as dietas alimentares e a medicação os tratamentos mais referidos (65%).
Não obstante, quando questionados sobre o resultado desses tratamentos, 44% da
amostra referiu que os resultados dos tratamentosforam negativos, 36%
mencionaram que foram positivos, enquanto para 11% não houve nenhuma mudança.
Por fim, e relativamente à necessidade de recorrer a apoio na área da saúde
mental, 70% nunca teve necessidade de recorrer a apoio na área da saúde mental,
contudo, 30% já recorreu, tendo a maioria recorrido à intervençãoda
psiquiatria.
Morbilidade psicológica: Alterações emocionais
Relativamente à presença de alterações emocionais e quanto ao total do HADS
(ver Quadro_2) verificamos um valor médio de 14.47 (DP=7.68; mín.-máx.=0-38).
Quanto à sub-escala de ansiedade, verifica-se nos 100 participantes um valor
médio de 8.33, classificada como de intensidade leve (DP=4.39; mín.-máx.=0-20).
Quanto à sub-escala de depressão, verifica-se um valor médio de 6.14
classificada como de intensidade normal (DP=3.87; mín.-máx.=0-20). Assim, os
utentes apresentam valores médios de ansiedade superiores aos da depressão.
Podemos verificar que a maior parte da amostra (45% para a ansiedade e 67% para
a depressão) não apresenta valores com significado clínico, apesar de
verificarmos a existência duma percentagem não muito baixa de sujeitos com
valores de ansiedade moderada (21%).
Quanto ao auto-conceito total, verifica-se um valor médio de 75.61 (DP=6.02;
mín.-máx.=5888) (ver Quadro_3) que segundo Vaz Serra (1986) se pode considerar
dentro dos valores médios para a população normal (70.4±7.8).
Assim, analisando os valores médios obtidos no total do ICAC e em cada dimensão
constituinte, podemos verificar que os sujeitos desta amostra tendem a
apresentar uma percepção positiva de si próprios, apresentando resultados
compatíveis com os valores médios para a população normal.
Correlação entre variáveis
Para analisar a relação entre a ansiedade, depressão e o auto-conceito,
variáveis com distribuição não paramétrica, utilizamos o coeficiente de
correlação de Spearman(ver Quadro_4). Os resultados demonstram que a ansiedade
se encontra significativa e negativamente relacionada com o autoconceito
(r=-.372, p<.001) e que a depressão se correlaciona significativa e
negativamente com o auto-conceito (r=-.439, p<.001). Neste sentido, os valores
encontrados sugerem que menores níveis de ansiedade e depressão relacionam-se
com um auto-conceito mais elevado em obesos candidatos à cirurgia bariátrica.
No Quadro_5 (ver Quadro_5) verificamos que o teste de Spearman's rhopara
verificarmos a associação entre o IMC e os níveis de ansiedade e depressão
revelou que não se verifica uma correlação estatisticamente significativa entre
o IMC e os níveis de ansiedade (r=.006, p=.951) e depressão (r=070, p=.487).
Portanto, não se pode verificar a associação proposta de que um elevado IMC
corresponde a elevados níveis de ansiedade e depressão.
A análise realizada através do coeficiente de correlação de Spearman's
rhopara avaliar a possível relação entre as variáveis IMC e o auto-conceito
demonstram que o IMC não se correlaciona significativa e negativamente com o
auto-conceito (r=.010, p=.923), ou seja, podemos verificar que os níveis de
auto-conceito dos utentes com obesidade mórbida não estão significativa e
negativamente correlacionados com os seus valores de IMC (ver Quadro_6).
Foram ainda realizadas análises exploratórias com o intuito de investigar a
relação existente entre as variáveis sócio-demográficas (idade, habilitações
literárias, estado civil, zona geográfica, situação profissional e imagem
corporal), as variáveis clínicas (início da obesidade, história familiar de
obesidade, interferência da obesidade na vida profissional, tratamentos para
diminuir peso, problemas de saúde que se desenvolveram com o aumento de peso e
recurso a apoio na área da saúde mental) e as variáveis psicológicas estudadas
(níveis de ansiedade, depressão e autoconceito). As variáveis sócio-
demográficas também têm efeito nas variáveis psicossociais, com excepção das
habilitações literárias e da zona geográfica. A idade tem efeito na dimensão da
autoeficácia. O estado civil mostrou efeito significativo na dimensão da auto-
eficácia e maturidade psicológica. A imagem corporal mostrou efeito na
ansiedade e depressão. O efeito da variável clínica início da obesidade
mostrou-se estatisticamente significativo para a depressão. Relativamente ao
efeito da variável interferência da obesidade na vida profissional também este
se mostrou significativo para a ansiedade, depressão, para o total do ICAC,
para a dimensão da auto-eficácia e para a dimensão de impulsividade/actividade.
DISCUSSÃO DOS RESULTADOS
Através da aplicação do questionário HADS verificamos que a maior parte da
amostra não apresenta valores com significado clínico, apesar de verificarmos a
existência de uma percentagem considerável de sujeitos com ansiedade moderada.
Estes resultados contrariam em parte as expectativas desta investigação, que
esperava encontrar níveis mais elevados de ansiedade, visto que ela é apontada
por alguns autores como estando associada à obesidade mórbida (e.g., Mazzoni,
Mannucci, Rizzello, Ricca, & Rotella, 1999, e Simon et al., 2006, citados
por Gorayeb, Luiz, Júnior, & Domingos, 2005). Nesta investigação a amostra
estudada também não apresenta valores estatisticamente significativos ao nível
de sintomatologia depressiva, encontrando-se dentro de valores médios para a
população normal, contrariando assim as conclusões de alguns estudos em que
sujeitos com obesidade apresentavam maior prevalência de sintomas depressivos e
ansiosos, sobretudo nas mulheres, quando comparado com sujeitos não obesos,
pessoas com outras condições crónicas e a pessoas com obesidade de IMC<35kg/m2
(Sullivan et al., 1993).
Analisando os valores médios obtidos no total do ICAC e em cada dimensão
constituinte, segundo Vaz Serra (1986) podemos verificar que os sujeitos desta
amostra tendem a apresentar uma percepção positiva de si próprios, apresentando
resultados compatíveis com os valores médios para a população normal. Neste
sentido, os resultados relativos ao auto-conceito não foram de encontro ao
esperado por se enquadrarem nos parâmetros normais para a população geral, o
que contraria os dados de alguns estudos que referem uma pobre auto-eficácia,
auto-confiança (Tanco et al., 1998) e auto-estima por parte destes indivíduos
(Almeida, Loureiro, & Santos, 2002; French, Story, & Perry, 1995;
Glinski et al., 2001; Schwatz & Brownell, 2004).
Neste estudo esperávamos encontrar uma correlação entre a ansiedade, depressão
e o autoconceito. Os resultados demonstraram que a ansiedade e depressão se
encontram significativa e negativamente relacionadas com o auto-conceito. Neste
sentido, os valores encontrados sugerem que menores níveis de ansiedade e
depressão relacionam-se com maior auto-conceito em obesos candidatos à cirurgia
bariátrica, ou seja, quanto maior é o auto-conceito menores os níveis de
ansiedade e depressão nos obesos mórbidos. Estes resultados vão de encontro à
literatura, nomeadamente com o estudo de Travado e colaboradores (2004), onde
se verificaram correlações negativas e estatisticamente significativas entre o
auto-conceito, os níveis de ansiedade e depressão. Os resultados do teste de
Spearman's rhorevelaram que não há uma correlação estatisticamente
significativa entre o IMC e os níveis de ansiedade e depressão. Assim, elevados
valores de IMC não estão associados a elevados níveis de ansiedade e depressão.
Apesar das perturbações psicológicas serem citadas como comorbilidades da
obesidade, o presente estudo verificou que a ansiedade e depressão não se
relacionam com o IMC. Os resultados do nosso estudo vão, de algum modo, de
encontro a outros estudos mencionados na literatura (Faith & Allison, 1996,
citados por Segal et al., 2002; Friedman & Brownel, 1995; Moore, Stunkard,
& Srole, 1997; Wadden & Stunkard, 1993; Williamson & O'neil,
1998, citados por Segal et al., 2002). Os nossos resultados indicaram ainda que
os níveis de auto-conceito dos utentes com obesidade mórbida não estão
significativa e negativamente correlacionados com os seus valores de IMC. Estes
resultados vêm contrariar a nossa hipótese, pois esperávamos encontrar dados
que indicassem uma correlação entre as variáveis. Apesar de alguns estudos
encontrarem associações significativas entre obesidade e auto-estima (French,
Story, & Perry, 1995), outros não chegaram a tais resultados, referindo que
nem todos os indivíduos obesos têm sentimentos negativos sobre o seu corpo,
esses sentimentos seriam mais abundantes em pessoas com o início da obesidade
na infância, cujos pais e amigos desvalorizam o seu corpo (Stunkard &
Wadden, 1992).
Relativamente às análises exploratórias efectuadas foram encontrados efeitos
significativos na idade, situação profissional, imagem corporal e interferência
da obesidade na vida profissional. Em termos gerais, o efeito da idade mostrou-
se estatisticamente significativo para a dimensão de auto-eficácia do ICAC, tal
como demonstrado no estudo de Travado e colaboradores (2004), sugerindo que
sujeitos com idades compreendidas entre 36 e 50 anos apresentaram mais
autoeficácia do que aqueles com mais de 51 anos. Relativamente ao efeito da
situação profissional nas variáveis psicossociais, os resultados indicaram que
sujeitos a exercer uma actividade profissional apresentam maior auto-eficácia
do que aqueles que estão reformados. Não foram encontrados dados que
corroborassem estes dados, sendo um campo interessante para futuras
investigações. Em relação à imagem corporal os resultados evidenciaram que
sujeitos que nunca se sentem bem com a sua imagem corporal apresentam mais
sintomatologia depressiva do que sujeitos que se sentem bem com a sua imagem
corporal. Estes dados vão de encontro a outros estudos realizados (Saikili,
Soubhia, Scalfaro, & Cordás, 2004; Silva, 2008). As restantes variáveis
sócio-demográficas e clínicas não obtiveram resultados estatisticamente
significativos. Estes resultados encontrados assemelham-se a outros estudos,
nos quais a associação entre factores sócio-demográficos, clínicos e factores
psicossociais nem sempre têm sido corroborados (Lorence Lara, 2008).
Podemos considerar alguns aspectos que poderão contribuir para explicar os
resultados no nosso estudo. Apesar de estudos revelarem que indivíduos obesos
apresentam uma maior tendência a manifestar algum grau de psicopatologia, no
entanto tal não indica que todos os sujeitos apresentem graus significativos de
perturbações psicológicas (Faith & Allison, 1996, e Williamson &
O'neil, 1998, citados por Segal et al., 2002). Uma das hipóteses da não
correlação pode ser explicada por todo suporte oferecido aos utentes do Serviço
de Cirurgia de Obesidade da instituição onde recolhemos a amostra para o nosso
estudo, para além da hipótese da existência de todo um suporte familiar que
acaba por auxiliar os utentes neste processo. Todavia, é importante mencionar
que a amostra é candidata à realização da cirurgia e a confiança que têm
depositada neste tipo de tratamento poderá estar a aumentar a sua esperança em
melhorar e o seu nível de auto-estima, podendo assim contribuir para explicar
os resultados no nosso estudo. No entanto, o facto dos sujeitos deste estudo
apresentarem níveis de ansiedade, depressão e auto-conceito considerados dentro
de valores médios para a população normal leva-nos a colocar a hipótese de que
estes dados poderão indicar a tendência que os indivíduos obesos mórbidos têm
para se apresentar socialmente de uma forma favorável (desejabilidade social)
(Travado et al., 2004) dissimulando dificuldades pessoais e procurando a
aceitação e aprovação dos outros, neste caso particular, tendo em vista a
selecção para a cirurgia.
Finalizando, de forma divergente de alguns estudos (Guisado et al., 2002; Simon
et al., 2006) não foram encontrados, no presente estudo, indicadores de
problemas emocionais nos indivíduos obesos em maior proporção. No entanto, os
resultados deste estudo são semelhantes a alguns estudos referidos na
literatura quanto à suposição de que a psicopatologia presente nos casos de
obesidade é semelhante à da população geral (Faith & Allison, 1996, citados
por Segal et al., 2002; Friedman & Brownell, 1995; Moore, Stunkard &
Strole, 1997; Williamson & O'neil, 1998, citados por Segal et al.,
2002). Ou seja, os indivíduos com obesidade mórbida não apresentam
necessariamente índices elevados de psicopatologia quando comparados com
indivíduos não obesos. Assim, a linha de pesquisa que visa explorar as relações
entre obesidade mórbida e psicopatologia continua ainda em aberto.
CONCLUSÕES
Esta investigação surgiu como uma tentativa de aumentar o conhecimento da
comunidade científica acerca da obesidade mórbida. A realização deste trabalho
permitiu-nos, sobretudo, compreender melhor as características do grupo de
obesos avaliados, bem como as dificuldades com que estes se deparam. Neste
sentido, podemos tecer algumas considerações acerca de orientações para a
intervenção e prevenção. Por um lado, é fundamental repensar a avaliação dos
candidatos à cirurgia bariátrica salientando-se a importância de um maior
acompanhamento por parte destes sujeitos ao longo de todo o processo. A maioria
dos pesquisadores defende a posição de cautela na generalização sobre o aspecto
psicopatológico na obesidade (Fabricatore & Wadden, 2003; Wajner, 2000). O
importante é perceber quando e como a psicopatologia aparece e que papel ela
desempenha, dependendo de cada caso. Mais do que compreender a causa e as
consequências da obesidade, é necessário falar em prevenção. Com a dificuldade
de se diagnosticar e tratar a obesidade, questões acerca da prevenção e
promoção da saúde devem ser contempladas. A prevenção da obesidade mórbida
assume uma importância fundamental uma vez que esta epidemia de saúde pública
tem aumentado largamente nos últimos anos. Contudo, devemos repensar a
filosofia dos programas de prevenção tendo presente a necessidade de encarar os
indivíduos de forma holística, destacando-se a importância de programas de
intervenção de carácter multidisciplinar e ecológico.
Seria igualmente interessante analisar até que ponto o contexto de avaliação
influencia os resultados dos indivíduos. E, porque não, tentar clarificar a
direcção da (possível) relação: é o auto-conceito (e suas dimensões) que é
influenciado pela obesidade ou é ele que influencia o comportamento dos
indivíduos colocando-os em maior risco de desenvolver este quadro clínico
(estratégias de copinginadaptadas)? Entre outros aspectos, torna-se evidente a
importância de trabalhos futuros na reformulação destas e de outras questões.
Finalizando, espera-se que as informações descritas neste estudo possam
contribuir com novos questionamentos e instigar novas investigações neste
domínio. Esperamos com este trabalho, contribuir para ampliar o conhecimento e
compreensão dos aspectos psicológicos desta doença, associada às dimensões em
análise - depressão, ansiedade e auto-conceito que tem sido estudado,
sobretudo, do ponto de vista médico, nutricional e estético, mas ainda de forma
incipiente pela psicologia, contribuindo, deste modo, para o aprofundamento
desta área e o desenvolvimento de futuros planos de intervenção.