Efeitos contextuais na escolha intertemporal: Evidência contra modelos de
desconto
Efeitos contextuais na escolha intertemporal: Evidência contra modelos de
desconto
Duarte Pimentel*; Gui Gonçalves*; Marc Scholten*; Pedro Le Mattre de Carvalho*;
Manuela Faia Correia**
*ISPA - Instituto Universitário;
**Universidade Lusíada
Correspondência
ABSTRACT
Intertemporal choice has a direct relation with phenomena that pertain to
every-day life, such as saving, consumption, and investment behavior. This
study advances our understanding of intertemporal choice, in that it considers
triadic choice contexts (three options) and not only dyadic ones (two options),
to which most empirical studies are limited. For the first time, this study
tries to understand how the preference between options is influenced by other
options in the choice context. Current models of intertemporal choice, the so-
called discounting models, do not consider such influences, because each option
is evaluated independently from the others. We focus on polarization effects,
induced by the introduction of a third option to the choice set and the framing
of the third option as the default option. The results confirmed these effects.
We discuss how discounting models must be replaced by other models, in which
people make direct comparisons between the options. The results also confirmed
phenomena that until today have been accommodated by discounting models: The
delay, magnitude, and sign effects.
Key-words:Dyadic choice, Intertemporal choice, Polarization, Triadic choice.
INTRODUÇÃO
Escolhas intertemporais definem-se como escolhas que envolvem trocas entre
custos e benefícios que ocorrem em diferentes pontos temporais (Loewenstein,
Read, & Baumeister, 2003). A investigação sobre a escolha intertemporal
apresenta-se em franco crescimento nas últimas décadas. Cada vez mais é
reconhecido o seu contributo e devida importância na vida económica, pois a
grande maioria das decisões tomadas em contexto económico abrange vários
períodos de tempo, o que faz com que seja indispensável o recurso a análises
intertemporais (e.g., comportamentos de poupança, de consumo, de investimento).
Nos estudos psicológicos sobre a escolha intertemporal, os participantes são
normalmente confrontados com escolhas diádicas entre resultados menores mais
cedo e resultados maiores mais tarde. Exemplos do terreno são consumir agora ou
poupar para o futuro, e fumar agora ou viver em melhor saúde no futuro. Um
exemplo de estudos laboratoriais é a escolha entre receber €100 agora ou €150
daqui a 1 ano. Neste trabalho, pretende-se contribuir para o estudo da escolha
intertemporal, analisando as preferências dos indivíduos quando confrontados
com escolhas triádicas. Exemplos do terreno são investir poupanças em
aplicações de curto, médio ou longo prazo, e deixar de fumar agora, no dia de
ano novo, ou nunca Um exemplo de estudos laboratoriais é a escolha entre
receber €100 agora, €125 daqui a ½ ano, ou €150 daqui a 1 ano.
Em modelos convencionais de escolha intertemporal, os modelos de desconto, o
decisor atribui um valor presente, ou um valor descontado, a cada opção,
independentemente das outras opções disponíveis, e escolhe a opção com maior
valor presente. Estes modelos de desconto predizem que a terceira opção, a de
"compromisso," não afecta a preferência entre o resultado menor
mais cedo e o resultado maior mais tarde. Isto é o postulado da independência
de alternativas irrelevantes. No entanto, pretende-se demonstrar neste artigo
que de facto tem influência, e que os modelos convencionais devem ser revistos
ou até substituídos por outros.
O plano deste artigo é o seguinte. Primeiro discutimos diversos padrões de
preferência na escolha intertemporal que os modelos convencionais conseguem
acomodar. De seguida, apresentamos um modelo alternativo, que permite acomodar
violações à independência de alternativas irrelevantes. Este desenvolvimento
fornece a base para estabelecer as hipóteses de investigação. Apresentamos um
estudo experimental em que testamos e confirmamos estas hipóteses. Concluimos
com uma discussão mais abrangente da nossa investigação.
QUATRO PADRÕES DE PREFERÊNCIA NA ESCOLHA INTERTEMPORAL
São diversos os padrões de preferência na escolha intertemporal. Para este
estudo em particular considerou-se pertinente focar a atenção em quatro deles,
reportados pela primeira vez pelo Thaler (1981): O efeito de diferimento, o
efeito de magnitude, o efeito de sinal, ou a assimetria ganhos
-perdas, e a assimetria adiamento-adiantamento. Todos este padrões revelam
variações nas taxas de desconto observadas, onde uma maior taxa de desconto se
refere a maior impaciência em ganhos e uma maior procastinação em perdas.
O efeito de diferimentoé que as taxas de desconto tendem a ser maiores para
períodos de espera mais curtos do que para períodos de espera mais longos. O
exemplo das maças fornecido pelo Thaler (1981) é elucidativo: um indivíduo
tanto pode preferir uma maçã hoje a duas amanhã, como, em simultâneo, preferir
duas maçãs daqui a 51 dias a uma maçã daqui a 50 dias. Desde Strotz (1955-
1956), passando por Ainslie (1975) até Loewenstein e Prelec (1992), este efeito
foi apontado como um propulsionador de comportamentos dinamicamente
inconsistentes, ou impulsivos, pois está relacionado com uma impaciência
decrescente por parte dos indivíduos (Benzion, Rapoport, & Yagil, 1989;
Chapman & Elstein, 1995; Thaler, 1981). Esta impaciência decrescente é uma
propriedade fundamental que retrata o comportamento de sensibilidade
decrescente relativa ao tempo (a diferença entre hoje e amanhã parece maior do
que a diferença entre 50 e 51 dias).
O efeito de magnitudeé que as taxas de desconto tendem a ser maiores para
consequências menores do que para consequências maiores (Benzion et al., 1989;
Chapman & Elstein, 1995; Holcomb & Nelson, 1992; Thaler, 1981). Uma das
principais explicações para a ocorrência deste efeito anómalo reside, de acordo
com Loewenstein e Thaler (1989), no facto das pessoas serem sensíveis, não
apenas às diferenças relativas (contempladas pela taxade desconto), mas também
às diferenças absolutas (Loewenstein & Prelec, 1992). Receber €100 agora ou
€150 daqui a 1 ano envolve uma diferença maior do que receber €10 agora ou €15
daqui a 1 ano, embora a taxa de desconto seja igual em ambas as escolhas (1/3).
Pela maior diferença entre as consequências, as pessoas tendem a ser mais
pacientes, i.e., tendem a inclinar mais para a consequência maior mais tarde.
Em perdas, as pessoas tendem a ser menos procrastinadores, i.e., tendem a
inclinar mais para a consequências menor mais cedo.
O efeito de sinaleste remete para uma premissa fundamental: o comportamento dos
indivíduos é qualitativamente diferente para enquadramentos de ganhos e
enquadramentos de perdas. A preocupação por esta anomalia foi despoletada pela
avaliação dos resultados de diversos estudos empíricos, onde se verificou a
tendência das taxas de desconto serem mais baixas em situações de perdas do que
em situações de ganhos (Benzion et al., 1989; Loewenstein, 1988; Thaler, 1981).
Por exemplo, uma pessoa que prefere receber €100 agora a receber €150 daqui a 1
ano (revelando-se impaciente) pode preferir pagar €100 agora a pagar €150 daqui
a 1 ano (nãose revelando procrastinador). O fenómeno da aversão às perdas,
primeiramente conceptualizado por Kahneman e Tversky (1979), torna-se
pertinente para explicar estas diferenças comportamentais dos indivíduos entre
ganhos e perdas. Esta aversão é caracterizada por Thaler e Benartzi (1995) como
sendo um comportamento do indivíduo direccionado para evitar reduções do bem-
estar actuais, pois o desprazer associado a uma perda pesa mais que o prazer
associado a um ganho. Pode-se concluir então que os indivíduos serão mais
pacientes num enquadramento de perdas e mais impacientes num enquadramento de
situações de ganhos. O efeito de sinal estará central na nossa investigação.
O efeito do sinal normalmente interage com o efeito de magnitude, no sentido do
efeito do sinal ser maior para consequências pequenas do que para consequências
grandes (Loewenstein & Prelec, 1992). Por exemplo, o efeito de sinal será
mais pronunciado na escolha entre €100 e €150 do que na escolha entre €1,000 e
€1,500.
Por fim, a assimetria adiamento-adiantamento, primeiramente documentada por
Loewenstein (1988), consiste numa preferência assimétrica entre adiantar e
adiar o consumo. De um modo geral, este autor tentou perceber como seria a
variação das taxas de desconto para diferentes tipos de enquadramento, e
verificou que a quantia necessária para as pessoas adiarem um recebimento num
dado intervalo de tempo era consideravelmente maior do que a quantia que as
pessoas estavam dispostas a sacrificar para adiantar o consumo no mesmo
intervalo. Por exemplo, uma pessoa, quando adiar um recebimento de $100 por um
ano, pode exigir receber pelo menos $150, mas esta mesma pessoa, quando
adiantar o recebimento de $150, pode exigir receber mais do que $100 hoje. Uma
vez que os dois pares de escolhas são, na realidade, diferentes representações
do mesmo par de opções subjacente, os resultados constituem um efeito de
enquadramento clássico que assim é inconsistente com qualquer teoria normativa,
como o modelo de utilidade descontada (Samuelson, 1937).
Os quatro padrões de preferência acima discutidos são, em grande parte,
anómalos ao modelo normativo da escolha intertemporal proveniente da economia,
o Modelo de Utilidade Descontada (Samuelson, 1937). De seguida, discutimos
brevemente este modelo.
MODELO DE UTILIDADE DESCONTADA
Samuelson (1937) propôs o modelo de utilidade descontada com o intuito de
apresentar um modelo generalizado para a escolha intertemporal que fosse
aplicável em múltiplos períodos de tempo e que servisse para ordenar as
diferentes opções em termos de utilidade. Desde a sua introdução este modelo
tem dominado as análises económicas da escolha intertemporal (Loewenstein &
Prelec, 1992).
O modelo de Samuelson defende que os indivíduos atribuem uma utilidade a uma
consequência futura, integrando-a no nível de consumo base, e descontam a
utilidade da consequência por uma taxa constante por unidade de tempo (Strotz,
1955). Por exemplo, um indivíduo que acredite que a utilidade resultante de
receber €1 decresce 5% do tempo tpara t+1, então essa mesma utilidade seria
também 5% inferior de t+1para t+2e assim sucessivamente. Isto é desconto
exponencial.
O desconto exponencial garante a consistência no tratamento do tempo de forma
que as preferências temporais não se alterem apenas porque o tempo passou
(Strotz, 1955-1956). A preferência entre uma consequência menor mais cedo
(Smaller-but-Sooner, designado por SS)e uma consequência maior mais tarde
(Larger-but-Later, designado por LL) quando separados por 3 meses de intervalo,
será a mesma independentemente se o intervalo tem início daqui a 1 ou 9 meses.
As anomalias clássicas não são acomodadas pelo Modelo de Utilidade Descontada.
Por exemplo, o efeito de diferimento mostra que a taxa de desconto não é
constante ao longo do horizonte temporal. Outra implicação do modelo é que o
efeito de sinal será, pela atribuição de utilidade a consequências integradas
no nível de consumo base, maior para consequências maiores, mas a interacção
entre a magnitude e o sinal das consequências mostra exactamente o contrário
(Loewenstein & Prelec, 1992). Por fim, efeitos de enquadramento, como a
assimetria adiamento-adiantamento, não estão contemplados pelo Modelo de
Utilidade Descontada. Portanto, tornou-se necessário a criação e
desenvolvimento de novos modelos teóricos explicativos que acomodem as
anomalias. O Modelo de Desconto Hiperbólico, proposto por Loewenstein e Prelec
(1992), resulta desta preocupação.
MODELO DE DESCONTO HIPERBÓLICO
O Modelo de Desconto Hiperbólico foi proposto por Loewenstein e Prelec (1992),
pois são vários os estudos empíricos que sugerem que as pessoas são,
tendencialmente, extremamente impacientes para consequências num futuro
próximo, mas muito mais pacientes para conse quências que ocorrem num futuro
mais longínquo (Benzion et al., 1989; Thaler, 1981), isto é, os indivíduos
tendem, de um modo geral, a descontar o futuro hiperbolicamente. Os modelos que
apoiavam a ideia da existência de desconto exponencial (e.g., Modelo da
Utilidade Descontada) foram sendo progressivamente abandonados, verificando-se,
por isso, um foco crescente de atenção nos modelos descritivos de desconto
hiperbólico que, por sua vez, incorporam a diminuição das taxas de desconto com
a progressão do tempo, como os de Ainslie (1975) ou de Loewenstein e Prelec
(1992). A noção de impaciência decrescente tem vindo a tornar-se cada vez mais
popular, na medida em que se constitui como uma alternativa explicativa para
comportamentos dos indivíduos na tomada de decisão temporal (Thaler &
Benartzi, 2004).
As preferências temporais, segundo este modelo, são governadas pelos valores
descontados das opções. Estes valores descontados são definidos, em primeiro
lugar, pela atribuição de valores a mudanças face ao nível de consumo base e,
de seguida, pelo desconto hiperbólico destes valores em função do adiamento das
consequências. O desconto hiperbólico é que as taxas de desconto diminuem com o
afastamento temporal das consequências. Por exemplo, um indivíduo que acredite
que o valor resultante de receber €1 decresce 5% do tempo tpara t+1, então esse
mesmo valor poderia ser 2.5% inferior de t+1para t+2. O desconto hiperbólico é
motivado pelo efeito de diferimento (Loewenstein & Prelec, 1992), o que
demonstra que, existe mais desconto num intervalo que começa mais cedo do que
num que começa mais tarde. De um modo geral, o modelo de desconto hiperbólico é
capaz de acomodar diversas anomalias do modelo de utilidade descontada,
anteriormente mencionadas.
As consequências são submetidas a uma função de valor, definida para mudanças
positivas (ganhos) e mudanças negativas (perdas) face a um ponto de referência
neutro, que normalmente é o nível de consumo base. A função de valor é côncava
sobre ganhos e convexa sobre perdas. O efeito de magnitude e o efeito de sinal
são atribuídos à elasticidadeda função de valor. Especificamente, a
elasticidade cresce, ou seja, a função de valor fica progressivamente mais
linear, com o aumento da magnitude das consequências, explicando assim o efeito
de magnitude. Por outro lado, a elasticidade é maior, ou seja, a função de
valor é mais linear, no domínio de perdas do que no domínio de ganhos,
explicando assim o efeito de sinal.
Para a assimetria adiamento-adiantamento, Loewenstein e Prelec (1992) avançam
com uma explicação que reside no facto de os indivíduos se adaptarem a
resultados esperados, de modo que o ponto de referência para um determinado
momento inclua tudo aquilo que estes indivíduos esperam ganhar ou perder
naquele mesmo momento. Receber uma quantia quando esperada, tem então um valor
neutro, pois os indivíduos já se adaptaram a essa situação. Pela mesma razão o
não receber a quantia é encarado como uma perda, que deve ser compensada por um
ganho num outro momento. Ao adiar um recebimento, a perda inicialmente tem de
ser compensada por um ganho mais tarde. A aversão à perda inicial conduz ao
aumento da magnitude do ganho compensatório, levando a um maior desconto. O
contrário acontece quando se adianta o recebimento no mesmo intervalo, a perda
tardia tem de ser compensada por um ganho mais cedo. A aversão à perda tardia
leva então ao aumento da magnitude do ganho compensatório, resultando assim num
desconto menor.
Embora o Modelo de Desconto Hiperbólico seja um avanço significativo no
pensamento sobre a escolha intertemporal, também tem as suas anomalias. Uma
anomalia importante é a intransitividadeda escolha intertemporal (Roelofsma
& Read, 2000; Scholten & Read, 2010). Considere, para além das opções
SSe LL, uma opção MM, com uma consequência intermédia e um diferimento
intermédio. Um sujeito pode preferir SSa MMe preferir MMa LL, mas preferir LLa
SS. Outra anomalia, uma nova explorada neste artigo, é que a preferência de
SSem relação a LLpode depender de MM. Um modelo que tem potencial para
incorporar estas anomalias é o Modelo de Troca, apresentado de seguida.
MODELO DE TROCA
No Modelo de Troca, ou Tradeoff Model(Scholten & Read, 2010), as escolhas
intertemporais têm por base uma comparação directa das opções (SSe LL) ao longo
dos dois atributos, o atributo tempo e o atributo valor monetário. Imagine-se
então que frepresenta a vantagem temporal de SSem ganhos e de LLem perdas, e
que grepresenta a vantagem monetária de LLem ganhos e de SSem perdas. Desta
forma, quando f<g, o indivíduo terá como preferências, no caso particular de
ganhos a opção representativa de LLe no caso de perdas a opção SS. Em
contraste, quando se verifica f>g, o indivíduo optará SSem situações de ganho e
pela opção LLem situações de perda.
As vantagens fe gconstituem-se como diferenças do tempo e diferenças do valor
monetário ponderadas, sendo esta ponderação efectuada através de funções de
ponderação intra-atributo e inter-atributos. As funções de ponderação intra-
atributo são: a função de ponderação do tempo (w), através da qual são
avaliados os diferimentos temporais e, a função valor (v), que avalia as
consequências monetárias. As funções de ponderação inter-atributos são as
funções de troca QT|Xe QX|T, que avaliam a diferença absoluta entre os
diferimentos ponderados, que é designada por intervalo efectivo e dada por T,
em relação à diferença absoluta entre as consequências monetárias, designada
por compensação efectiva e dada por X. As diferenças efectivas são ponderações
atribuídas às diferenças de tempo e dinheiro no processo de tomada de decisão.
Descrito em termos de v, w, QT|X, e QX|T, o indivíduo será indiferente entre
SSe LLquando,
Este é um modelo pioneiro pois contempla pela primeira vez a tomada de decisão
na escolha intertemporal a partir de comparações directas entre as opções em
consideração. A intransitividade da escolha intertemporal é explicada pelas
funções de troca, QT|Xe QX|T. Estas funções incluem um limiar, e diferenças
abaixo do limiar são sobponderadas em relação a diferenças acima do limiar.
Agora, assume que, num determinado contexto, todos as diferenças monetárias
estão acima do limiar, e recebem um peso constante, mas que pequenas diferenças
temporais (entre SSe MMe entre MMe LL) estão abaixo do limiar, recebendo um
peso pequeno, enquanto que diferenças temporais maiores (entre SSe LL) estão
acima do limiar, recebendo um peso maior. Assim, pode acontecer que MMé
preferido a SSe LLé preferido a MM(por causa da sobponderação das pequenas
desvantagens temporais), mas que SSé preferida a LL(por causa da
sobreponderação da maior vantagem temporal).
Actualmente, o Modelo de Troca contempla apenas escolhas diádicas, como as três
escolhas entre SSe MM, MMe LL, e SSe LL. Ainda não contempla escolhas
triádicas, como a escolha entre SS, MM, e LL. Neste artigo, queremos explorar
se a escolha triádica tráz igualmente sinais de um processo de avaliação por
atributos. Se for assim, então o Modelo de Troca terá que ser devidamente
generalizado.
INTRODUÇÃO DA TERCEIRA OPÇÃO
Shafir, Simonson e Tversky (1993) postulam que as preferências dos indivíduos
podem ser influenciadas pela adição de opções à configuração inicial. Esta
ideia é corroborada pelos estudos de Huber e Puto (1983) onde é sugerido que a
passagem de uma configuração de escolha diádica para uma configuração de
escolha triádica pode, de facto, alterar as preferências e utilidades que cada
indivíduo atribui a cada uma das opções. Esta influência contraria o princípio
da maximização da utilidade e do valor, onde é defendido que uma opção
preferida não poderá passar a ser não preferida apenas pela adição de novas
opções.
Uma das maiores e mais importantes descobertas resultantes da investigação da
escolha sob risco é o fenómeno da aversão às perdas. Este fenómeno vem explicar
uma variedade de manifestações do comportamento dos indivíduos, como é o caso
do status quo bias, ou do efeito de dotação (Tversky & Kahneman, 1991).
Conforme exposto, uma das principais implicações da aversão às perdas traduz-se
na noção de que os indivíduos apresentam uma forte tendência para permanecer no
estado actual, status quo, isto porque as desvantagens de abandonar esse estado
são mais avultadas do que vantagens correspondentes (Samuelson &
Zeckhauser, 1988), o que contribui para que as pessoas não alterem os seus
comportamentos pré-estabelecidos, a menos que os incentivos para a mudança
sejam irresistíveis.
De acordo com o efeito de dotação, primeiramente introduzido por Thaler (1980),
as pessoas avaliam um bem como mais valioso a partir do momento em que este se
torna propriedade sua, ou seja, as pessoas tendem a atribuir mais valor a
objectos que possuem do que a objectos que não possuem (Carmon & Ariely,
2000; Kahneman, Knetsch, & Thaler, 1990, 1991; Thaler, 1980). Um exemplo
claro deste efeito é apresentado no estudo realizado por Heberlein e Bishop
(1986) que mostra que, em média, as pessoas estavam dispostas a pagar $31 por
uma licença de caça, no entanto, não estavam dispostas a vender essa mesma
licença por menos de $143.
Carmon e Ariely (2000) sugerem que este efeito não se verifica apenas com
objectos que são efectivamente propriedade dos indivíduos, mas também em
situações em que estes indivíduos apenas "sentem" os objectos como
sendo propriedade sua, ou aquilo a que têm direito. O efeito de dotação é
claramente inconsistente com a teoria económica clássica, pois o valor que os
indivíduos consideram que é justo pagar por um objecto, deverá ser o mesmo para
o venderem.
Simonson e Tversky (1992) tentam dar sentido à influência dos efeitos de
contexto nas escolhas dos indivíduos e para tal estenderam a noção de aversão
às perdas, focalizando a sua atenção no tratamento das vantagens e das
desvantagens das opções em consideração. Tal como acontece com os ganhos e as
perdas, as vantagens e desvantagens pesam, também elas, com diferentes
intensidades, na medida em que as desvantagens avaliadas de uma opção em
relação às opções alternativas pesam mais que as respectivas vantagens. De
acordo com estes autores, o facto de as desvantagens pesam mais que as
respectivas vantagens faz com que, numa condição de escolha triádica, haja uma
tendência para que a opção intermédia seja mais popular, na medida em que só
apresenta ligeiras desvantagens.
Quando um indivíduo está perante uma escolha entre duas opções (SSe LL), cada
opção tem uma vantagem, e depende da ponderação das vantagens qual opção será
mais popular. Se for introduzida uma terceira opção (MM), que ocupa uma posição
intermédia (opção de compromisso) e apresenta, por isso, menores desvantagens e
menores vantagens em relação às opções extremadas (SSe LL), a escolha dos
indivíduos recairá tendencialmente para esta opção mais equilibrada em ambos os
atributos (efeito de compromisso), porque a aversão às perdas penaliza
desproporcional mente grandes desvantagens.
Contudo, a avaliação das vantagens e desvantagens depende da importância
relativa dos atributos. Quando os atributos são de igual importância, verifica-
se o padrão descrito acima (efeito de compromisso). Quando os atributos são de
importância desigual, a aversão às perdas irá funcionar apenas ao longo do
atributo mais importante, dando origem a um efeito de compromisso assimétrico,
chamado um efeito de polarização. Considere o domínio de ganhos e uma situação
em que dinheiro é mais importante do que tempo. Se for introduzida a opção MM,
SStem uma desvantagem ao longo do atributo mais importante, mas LLnão tem.
Logo, a introdução da terceira opção irá favorecer LLem relação a SS,
provocando assim um efeito de polarização. Neste artigo, exploramos o efeito de
polarização na escolha intertemporal, para saber se o processo de tomada de
decisão em contexto triádico é um processo por atributo (como contemplado pelo
Modelo de Trocas) e saber qual dos atributos é mais importante, quer no domínio
de ganhos, quer no domínio de perdas.
Exploramos como a preferência entre SSe LLse altera não apenas com a entrada de
MMno conjunto de escolha, mas também com a descrição de MMcomo a opção
incumbente, relativamente à qual SSé uma opção de adiantamento e LLé uma opção
de adiamento. Pelo status quo bias, acima referido, MMirá ganhar em relação a
SSe LL, mas também queremos saber qual opção, SSou LL, irá ganhar em relação à
outra.
PROBLEMA E HIPÓTESES
Criamos três condições. Uma condição diádica neutra, onde a escolha é
simplesmente entre SSe LL; uma condição triádica neutra, em que MMé
introduzida, e uma condição triádica enviezada, em que MMé descrita como a
opção incumbente, relativamente à qual SSé uma opção de adiantamento e LLé uma
opção de adiamento. Assim, consideramos pertinente:
1) Quer em ganhos quer em perdas, verificar qual dos atributos, tempo ou valor
monetário, assume um papel mais preponderante na escolha intertemporal. Em
ganhos, se tempo for mais importante do que dinheiro, haverá, na passagem de
escolha diádica neutra para escolha triádica neutra, uma polarização para SS, e
se o dinheiro for mais importante do que tempo, haverá uma polarização para LL.
Em perdas, haverá polarização para LLe SS, respectivamente.
2) Quer em ganhos quer em perdas, verificar se a importância relativa dos
atributos se altera com a descrição da MMcomo opção incumbente, relativamente à
qual SSé uma opção de adiantamento e LLé uma opção de adiamento. Assim,
verificar se há, na passagem de escolha triádica neutra para escolha triádica
enviezada, uma polarização para SS(tempo torna-se mais importante em ganhos;
dinheiro torna-se mais importante em perdas) ou para LL(dinheiro torna-se mais
importante em ganhos; tempo torna-se mais importante em perdas).
3) H1: Quer em ganhos quer em perdas, verificar se a descrição da MMcomo opção
incumbente faz com que esta opção ganha em relação a SSe LL(status quo bias).
A presença de anomalias tem sido claramente evidenciada nos estudos empíricos
desta temática. Deste modo, e acrescentando a necessidade de averiguar esta
presença numa configuração de escolha triádica, torna-se pertinente:
4) Confirmar a presença dos efeitos de diferimento, magnitude e sinal em todas
as condições experimentais. H2: Efeito de diferimento. Quanto maior for o
intervalo de tempo, e mantendo a taxa de juros constante, maior será a
probabilidade de escolha de LLpara situações de ganhos e de SSpara situações de
perdas.
H3: Efeito de magnitude. Quanto maior for o valor monetário, e mantendo a taxa
de juros constante, maior será a probabilidade de escolha de LLpara situações
de ganhos e de SSpara situações de perdas.
H4: Efeito de sinal. Mantendo a taxa de juros constante, a probabilidade de
escolha de SSem perdas é maior do que a probabilidade de escolha de LLem
ganhos.
MÉTODO
Delineamento
Os estímulos foram construídos de acordo com um design 3 (Condição Diádica
Neutra, Triádica Neutra, Triádica Enviesada) x 2 (Diferimento) x 2 (Magnitude)
x 2 (Sinal), onde o primeiro factor foi manipulado entre sujeitos e os
restantes factores intra sujeitos. Os estímulos do design intra sujeitos são
apresentados na Tabela_1. A condição de escolha atribuída variou entre
participantes, 104 foram submetidos à condição diádica neutra, 274 responderam
à condição representativa de escolha triádica neutra, e os restantes 239
participaram na condição triádica enviesada.
A distribuição de participantes por condições realizou-se deste modo, porque a
dispersão dos participantes seria maior quanto confrontados com três opções
(escolhas triádicas) do que quando confrontados com duas opções (escolha
diádica neutra), uma vez que de acordo com a literatura a opção do meio
normalmente é mais popular (Simonson & Tversky, 1992).
Participantes
A amostra deste estudo é constituída por 617 elementos de ambos os géneros 41%
do género masculino, com idades compreendidas entre os 17 e os 66 anos, sendo
que a média é de 31 anos. No que diz respeito às habilitações académicas dos
participantes a grande maioria (73%) tem o ensino superior, 24% completou o
ensino secundário e os restantes tem como habilitações o ensino primário ou
preparatório. Em relação ao estatuto profissional, esta amostra foi constituída
por 55% de indivíduos que estão empregados, 35% são estudantes e os restantes
encontram-se em situação de desemprego ou reforma. O questionário foi aplicado
a indivíduos residentes em Portugal continental e nas regiões autónomas dos
Açores e da Madeira. O tipo de amostragem utilizado foi a amostragem por
conveniência, uma vez que o recrutamento foi efectuado através da metodologia
de bola de neve. Os elementos da amostra participaram de acordo com a sua
disponibilidade para responder ao questionário on-line e não receberam qualquer
renumeração pela sua participação.
Procedimento
Num primeiro momento procedeu-se à realização de um pré-teste para a condição
diádica neutra com o intuito de averiguar quais os valores, entre os quais os
indivíduos seriam indiferentes. Foram então construídos, de forma intuitiva,
conjuntos de dois valores apresentados posteriormente a uma amostra de cerca de
30 participantes para cada conjunto de valores. Concluído este processo o
conjunto de valores que os participantes consideraram como mais indiferente foi
o de 400€ agora ou 610€ daqui ½ ano, servindo de base para a construção da
condição diádica neutra. Num segundo momento avançou-se para a criação e
consequente disponibilização através da aplicação on-line Web Survey Software
Qualtrics dos três questionários representativos de cada condição. Foram
utilizados meios de comunicação informáticos (correio electrónico e redes
sociais) para contactar os participantes. Aos participantes que mostraram
disponibilidade para o preenchimento dos questionários, foi enviado um e-mail
onde constavam as instruções gerais para a sua realização, a hiperligação de
acesso ao questionário, o contacto para esclarecimento de dúvidas ou para
eventuais comentários, um agradecimento antecipado pela disponibilidade, uma
solicitação de confirmação após a conclusão do preenchimento do questionário,
bem como um pedido para reen caminhamento do e-mail para os contactos mais
próximos, recorrendo para tal à funcionalidade BCC de forma a garantir a
privacidade.
Relativamente às tarefas pedidas aos participantes, para a condição diádica
neutra, foi primeira mente dito aos participantes que tinham o direito a
receber dinheiro, e de seguida foi pedido para escolherem qual das opções
apresentadas preferiam. Uma das opções reflectia a opção representativa de
Smaller-but-Sooner(SS), "Receber €85 hoje", e a outra opção era
representativa de Larger-but-Later(LL), "Receber €115 daqui a ½
ano". Na condição triádica neutra, foi introduzida uma terceira opção na
configuração de opções em avaliação, esta opção foi a de "Receber €100
daqui a ¼ ano" que é representativa da opção MM. Finalmente para a
condição triádica enviesada, foi dito aos participantes que tinham direito a
receber €100 daqui a ¼ ano, no entanto poderiam escolher adiantar o recebimento
e receber um valor monetário menor, ou por outro lado, adiar o recebimento e
receber mais dinheiro. A primeira opção foi a de "Adiantar o recebimento,
e receber €85 hoje" a outra foi a de "Adiar o recebimento, e
receber €115 daqui a ½ ano". Tanto nesta última condição experimental
como na condição triádica neutra, a opção MMfoi sempre apresentada em primeiro
lugar. Quando o número de participantes atingiu o valor previamente estipulado,
procedeu-se ao encerramento do acesso on-line aos questionários.
Instrumento
Como instrumentos deste estudo foram utilizados três questionários de auto-
preenchimento. Para cada questionário foram criadas duas versões de forma a
garantir o contra balanceamento dos itens. Cada questionário é constituído por
duas partes, na primeira parte são dadas as instruções de preenchimento e de
seguida são apresentadas aos participantes 8 questões/problemas onde é pedido
que estes realizem uma escolha, a segunda parte é composta por um conjunto de
indicadores sócio-demográficos.
RESULTADOS
Os resultados obtidos foram analisados com recurso ao Teste do Qui-quadrado de
independência. Para avaliar os efeitos de polarização, considera-se a
probabilidade de escolher LLem relação SS, ignorando MM. Assim, a popularidade
relativa de LLem relação a SSem escolha triádica pode ser comparada com a sua
popularidade relative em escolha diádica.
Os resultados relativos à questão exploratória demonstram a presença de um
efeito de polarização em direcção a ganhar mais cedo, no entanto, este efeito
não é verificado em situações de perdas. Na situação de ganhos, a escolha da
opção LLna escolha triádica neutra (.41) foi menos comum do que na escolha
diádica neutra (.55), χ2(4)=32.42, p<.05, no entanto, em caso de perdas, a
escolha da opção SSna escolha triádica neutra (.80) foi tão comum como na
escolha diádica neutra (.81), χ2(4)=2.03, p=.73.
Na comparação entre a escolha triádica neutra e triádica enviesada verificou-se
uma polarização em direcção a ganhar mais, mais tarde, e perder menos, mais
cedo. Em situações de ganhos a escolha da opção LLfoi mais observada na escolha
triádica enviesada (.65) do que na escolha triádica neutra (.41) χ2(4)=87.34,
p<.05, por outro lado, em perdas a escolha da opção SSfoi mais popular na
escolha triádica enviesada (.86) do que na escolha triádica neutra (.80), χ2
(4)=11.08, p<.05.
A escolha da opção intermédia (MM), foi mais frequente na escolha triádica
enviesada (.28) do que na escolha triádica neutra (.14), χ2(8)=158.40, p<.05,
confirmando H1.
O efeito de diferimento (H2) foi observado nesta investigação, uma vez que a
escolha da opção representativa de LL(em ganhos) e de SS(em perdas) foi mais
comum para períodos de tempo maiores (.73) do que para períodos menores (.64),
χ2(4)=84.85, p<.05. Os resultados confirmam, de igual modo, a presença do
efeito de magnitude (H3), no qual a escolha da opção representativa de LL(em
ganhos) e de SS(em perdas) é maior para quantias maiores (.70) do que para
quantias mais pequenas (.66), χ2(4)=42.23, p<.05. Finalmente, foi observada a
presença do efeito de sinal (H4), uma vez que a escolha da opção SSem perdas
(.81) foi mais popular do que a escolha da opção representativa de LLem ganhos
(.51), χ2(4)=337.49, p<.05. Os resultados referentes às três anomalias
clássicas contemplam as escolhas de SSou LLdas três condições experimentais.
DISCUSSÃO
A conclusão principal é que existem efeitos de polarização na escolha
intertemporal, o que vem invalidar mais uma vez os modelos convencionais de
escolha intertemporal, em que cada opção recebe o seu valor descontado,
independentemente das outras opções disponíveis, e a opção com o maior valor
descontado é escolhido. O Modelo de Trocas será capaz de incorporar os efeitos
de polarização, mas, para o efeito, terá que ser generalizado para além da
existência de apenas duas opções.
Os resultados encontrados mostram uma polarização das escolhas a favor da opção
SSem perdas, ou seja, perder menos, e a favor da opção LL, em ganhos ou seja,
ganhar mais. Portanto, logo à partida é possível afirmar que a presença de um
enquadramento de adiamento e adiantamento alterou as preferências dos
indivíduos. Mais precisamente, ganhar mais e perder menos tornou-se mais
importante do que ganhar mais cedo e perder mais tarde. Nas situações de ganho,
a interpretação do enquadramento efectuada, por parte dos indivíduos, é
diferente da interpretação do mesmo enquadramento nas situações de perda. Em
ganhos os termos que reivindicam o atributo temporal já estão ponderados
explícita e implicitamente, o que pode fazer com que o indivíduo se foque no
outro atributo - valor monetário, reforçando as escolhas da opção
LL- ganhar mais, mais tarde. Esta explicação torna-se mais simples ao
recorrer-se ao seguinte exemplo, quando os indivíduos estão perante uma escolha
entre adiantar e receber xou adiar e receber x+1, vão focalizar a sua atenção
nos atributos que correspondem às consequências finais dessa escolha, neste
caso xou x+1, pois é plausível que a partir do momento em que são manipulados
os atributos estritamente relacionados com o tempo, como é o caso da utilização
das palavras adiar e adiantar, as pessoas não encaram estes atributos como
consequências finais que se podem traduzir verdadeiramente numa alteração do
seu bem-estar, contribuindo para que as escolhas sejam realizadas tendo por
base, simplesmente, as consequências finais (valor monetário) de cada opção. É
ainda interessante discutir a presença óbvia de um dos efeitos clássicos da
escolha intertemporal, o efeito de sinal, pois nos resultados obtidos
verificou-se que a escolha de SSem situação de perdas foi maior do que a
escolha de LLem situações de ganhos o que demonstra, tal como é referido na
literatura, que o comportamento dos indivíduos é qualitativamente diferente
quando estes estão perante situações de perdas ou de ganhos, o que vai de
encontro as investigações de Thaler (1981).
No caso particular de perdas estes resultados podem ser debatidos à luz do
princípio da aversão às perdas proposto por Kahneman e Tversky (1979), de
acordo com este princípio a "dor" resultante de uma perda é maior
do que do prazer associado a um ganho. O que é consistente com a noção de que
os indivíduos escolheriam a opção que traduzisse uma menor perda, o que na
realidade foi o que se observou pois verificou-se uma preferência por SSque é
exactamente a opção que representa a menor perda.
Relativamente à passagem da escolha diádica neutra para triádica neutra, a
polarização revela que ganhar mais cedo é mais importante do que perder mais
tarde, ou ganhar mais é menos importante do que perder menos, esta confirma-se,
uma vez que no caso de situações de ganhos observou-se uma polarização a favor
de SS, opção que representa receber menos dinheiro mas mais cedo, propondo que
neste caso o tempo assumiu o papel de atributo preponderante na escolha. No que
concerne às situações de ganhos, verificou-se uma alteração de uma preferência
pelo atributo monetário para o atributo temporal, que passou a ser proeminente
(Tversky, Sattath, & Slovic, 1988). Este fenómeno indica que os indivíduos
demonstraram níveis elevados de impaciência quando confrontados com uma
configuração triádica o que poderá indicar que os indivíduos tenham sido
afectados pelo contexto triádico, na medida em que, pela adição de uma nova
opção, tenha existido uma influência na percepção da utilidade e do valor dos
atributos das opções que integravam a configuração inicial, preferindo ganhar
menos, mais cedo. O que corrobora os resultados dos estudos de Huber e Puto
(1983) e de Shafir, Simonson e Tversky (1993). No entanto, este fenómeno não é
congruente com o princípio da maximização da utilidade do valor que postula que
uma opção não preferida não poderá passar a ser preferida no caso de uma adição
de novas opções.
A polarização observada pode ficar a dever-se ao facto de os indivíduos serem
impacientes quando estão perante ganhos, isto porque podem encarar a opção
MMcomo algo garantido à partida e assim preferem alterar sua escolha para a
opção SS, uma vez que ainda que recebam um valor monetário menor recebem-no
mais cedo, aumentado rapidamente o seu nível de bem-estar actual, contribuindo
para uma sensação de prazer imediato. Numa abordagem psicofísica, a adição de
uma nova opção à configuração inicial poderá ter influenciado a percepção da
opção LL, enviesando-a, uma vez que a introdução de uma nova opção à
configuração inicial pode dificultar ainda mais a percepção dos indivíduos, na
medida em que já não se trata de SSou LL, mas sim SS, MMe LL. A forma como os
indivíduos tratam a informação com mais uma opção em jogo pode, em jeito de
especulação, influenciar a distância percepcionada entre SSe LL, assim, a opção
MMpode influenciar a percepção dos indivíduos tanto a favor de uma diminuição
da distância da opção LL, pois esta passa a ser percepcionada de MMa LL, como a
favor de um aumento da distância de LL. A opção MMé então encarada como mais um
"obstáculo", mais uma "data" para chegar à opção LL.
Relativamente às situações de perdas, é notório o elevado peso e
"dor" que estas representam para os indivíduos (princípio da
aversão às perdas), sendo portanto natural a assunção de que, mesmo quando é
adicionada uma alternativa à configuração inicial de opções, os indivíduos
continuem a preferir perder menos, admitindo, a preferência pelo atributo
monetário.
A primeira hipótese deste estudo, que propõe que a opção intermédia (MM) é mais
popular na escolha triádica enviesada do que na escolha triádica neutra, é
confirmada. Este fenómeno sugere que o enquadramento que é dado aos indivíduos
na condição enviesada seja um potenciador para a assunção, por parte dos
indivíduos, da opção intermédia, como a opção "a que têm direito",
como algo que já é da sua propriedade, algo que, segundo Kahneman, Knetsch e
Thaler (1990), é interpretado como um efeito de dotação. Tendo o indivíduo a
opção incumbente como a opção garantida, haverá, no caso do adiantamento, uma
sensação de perda (Kahneman & Tversky 1979), pois está a retirar de algo
que já tem, e, no caso de adiamento, o indivíduo torna-se impaciente, pois não
estará disposto a esperar mais para receber mais tarde. Esta dificuldade que o
indivíduo sente em relação às escolhas alternativas à opção incumbente é
reforçada pelo facto do indivíduo atribuir um valor exacerbado ao bem que
considera que já lhe pertence. O indivíduo terá, então, uma grande
probabilidade de agir segundo o princípio da inércia (status quo) - não
querer abdicar do que já tem. A inércia pode até surgir, simplesmente, pelo
facto do indivíduo preferir poupar recursos cognitivos que seriam necessários
para uma avaliação do que seria justo receberem se adiantassem ou adiassem essa
consequência.
Com o suporte da bibliografia, nomeadamente, de Simonson e Tversky (1992), é
possível avançar com uma segunda explicação: as escolhas dos indivíduos estarem
associadas às noções de aversão às perdas e aversão aos extremos. Em vez da
opção incumbente (opção MMna condição de escolha triádica enviesada) ser
encarada como um ponto de referência neutro, passa a ser encarada como uma
opção intermédia que apresenta apenas ligeiras vantagens e desvantagens, em
ambos os atributos, em relação às opções extremadas. A noção de que as
desvantagens têm um maior peso que as respectivas vantagens e pelo princípio de
aversão às perdas, existirá uma tendência a favor da escolha da opção
intermédia
Relativamente à segunda hipótese deste estudo, o efeito de diferimento,
observou-se, de facto, uma exigência de maiores taxas de desconto para períodos
de espera mais curtos, o que vem corroborar as investigações de Thaler (1981)
que concluíram que as taxas de desconto tendem a ser maiores para períodos de
espera mais curtos do que períodos de espera mais longos. A opção LLfoi, então,
mais popular em situações de ganhos o que pode ser explicado através da
propriedade da sensibilidade decrescente relativa ao tempo (e.g., diferença
entre 0 e 2 anos parece maior do que a diferença entre 6 e 8 anos). De um modo
geral os indivíduos parecem, então, descontar o futuro hiperbolicamente, isto
é, apresentam maiores níveis de impaciência para um futuro mais próximo, mas
menores níveis de impaciência para futuros mais longínquos (Benzion et al.,
1989; Thaler, 1981).
A terceira hipótese ilustra o efeito de magnitude e que sugere que quanto maior
for o valor monetário, e mantendo a taxa de juros constante, maior será a
probabilidade de escolha de LLpara situações de ganhos, e de SSpara situações
de perdas. De acordo com os resultados obtidos neste estudo, esta hipótese
confirma-se, reforçando o que é proposto na literatura sobre este fenómeno,
pois diversos são os estudos empíricos que comprovam que para grandes quantias
de dinheiro o desconto proporcional é menor do que para pequenas quantias. Um
desses estudos é o de Thaler (1981), onde foi verificado que em média, os
participantes, eram indiferentes entre receber $15 agora e $60 dali a 1 ano,
eram de igual modo indiferentes entre receber $250 no momento imediato e $350
no espaço de 1 ano, bem como $3000 agora e $4000 dentro de 1 ano. A literatura
acerca deste efeito clássico oferece duas explicações comportamentais
plausíveis para a sua ocorrência. A primeira tem a sua base na psicologia da
percepção (psicofísica), e de acordo com esta explicação as pessoas são
sensíveis, não apenas, a diferenças relativas nas quantias de dinheiro, mas
também a diferenças absolutas (Loewenstein & Prelec, 1992), por exemplo, a
diferença perceptual entre €100 agora e €150 daqui a 1 ano, parece maior do que
a diferença entre €10 agora e €15 daqui a 1 ano, deste modo a maioria das
pessoas estão dispostas a esperar pelos €50 no primeiro caso, mas não pelos €5
no segundo. A segunda explicação advém da noção de contabilidade mental
proposta por Shefrin e Thaler (1988), por exemplo se ganhos pequenos são
inscritos "conta corrente", o que contribuí para que estes sejam
amplamente consumidos, por sua vez já os ganhos de quantias maiores são
inscritos numa "conta de poupança", onde a propensão para o consumo
é muito menor. Deste modo o custo de esperar por um ganho pequeno pode ser
entendido como uma renúncia ao consumo, em contraste, o custo de oportunidade
de esperar por um ganho maior é simplesmente percepcionado como um interesse
renunciado. De acordo com esta explicação se a renúncia ao consumo for mais
tentador do que uma renúncia ao interesse, então o efeito de magnitude será
observado.
Finalmente para a quarta e última hipótese proposta neste estudo, segundo a
qual ao manter-se a taxa de juros constante, a probabilidade de escolha de SSem
perdas é maior do que a probabilidade de escolha de LLem ganhos, hipótese esta
que é construída com o objectivo de verificar a presença do efeito de sinal,
esta confirma-se como se pode constatar nos resultados obtidos, pois tal como
previsto foram observadas mais escolhas da opção representativa de SSem
situações de perdas do que da escolha da opção de LLem situações de ganhos. O
que é consistente com o estudo de Loewenstein e Thaler (1989) onde foi
verificado a taxa de desconto para situações de ganho é muito maior do que para
situações de perda. A presença deste efeito nos resultados pode mais uma vez
ser explicada recorrendo ao princípio de aversão às perdas proposto por
Kahneman e Tversky (1979) e que se refere ao facto, como já debatido
anteriormente, de os indivíduos sentirem mais a redução dos seus níveis de bem-
estar actuais do que as melhorias, ou seja, a dor associada a uma perda é maior
do que o prazer associado a um ganho.
Como referido anteriormente, a existência de polarização na escolha
intertemporal revela que convencionais modelos de desconto não estão adequados.
De forma mais fundamental, violações de independência de alternativas
irrelevantes podem revelar indecisão, em oposição à indiferença(Eliaz & Ok,
2006). As pessoas não sabem ao certo o que querem e usam as características do
conjunto de escolha como um apoio à decisão. "Escolhe o
compromisso" é uma maneira de resolver a indecisão. "Escolhe a
opção melhor no atributo mais importante" é outra. A nossa análise
pressupõe que indecisão está subjacente às violações da independência de
alternativas irrelevantes. No entanto, Eliaz e Ok (2006) mostram que, a partir
de violações da independência de alternativas irrelevantes, é possível
distinguir entre situações de indiferença e situações de indecisão.
LIMITAÇÕES DO ESTUDO E FUTURAS INVESTIGAÇÕES
A principal limitação desta investigação prende-se com o facto do design
experimental utilizado sido entre sujeitos, ou seja, não foi utilizada a mesma
amostra para estudar os padrões de escolha apresentados pelos indivíduos, no
entanto. Logicamente, com a entrada de MM, a preferência entre SSand LLpode
mudar devido a duas coisas: (1) a frequência de trocar SSpor LLdifere da
frequência de trocar LLpor SSe (2) a probabilidade de trocar SSpor MMdifere da
probabilidade de trocar LLpor MM. Só um design intra sujeitos consegue
distinguir estas duas hipóteses, das quais apenas a primeira revela uma
verdadeira mudança de preferência entre SSe LL. Sugerimos para futura
investigação a replicação dos nossos resultados com um design intra sujeitos.
Sendo este um estudo puramente experimental e laboratorial, surge a questão em
que medida os seus resultados dizem alguma coisa sobre o "mundo
real". A escolha entre SSe LLpode ser enquadrada de muitas maneiras, mas
um exemplo concreto referido muito frequentemente na literatura é a escolha
entre "consumo hoje" e "maior consumo no futuro". Em
princípio, as pessoas que tendem a escolher SSno laboratório deviam ser aquelas
mais envolvidas em sobreconsumo e subpoupança. As pessoas que tendem a escolher
LL, deviam ser mais prudentes na "vida real". A polarização em
direcção a SSem ganhos, como observada na nossa experiência, é interessante
deste ponto de vista. Uma perspectiva que a pessoa pode adoptar é de
"consumir hoje" ou "consumir mais na reforma". Os
nossos dados sugerem que, se esta pessoa mudasse de perspectiva e contemplasse
mais oportunidades de consumo entre hoje e a altura da reforma, ela tornar-se-
ia mais impaciente e inclinava mais para o consumo imediato. Procurar
estabelecer a validade externa dos nosso resultados parece um interessante
caminho para futura investigação.