Repertórios interpretativos sobre o amor e as relações de intimidade de
mulheres vítimas de violência: Amar e ser amado violentamente?
(ii) A linha de investigação que remete para a violência feminina como auto-
defesa e comportamento de retaliação tem como base os pressupostos das teorias
feministas, que salientam que a violência é mais sofrida no feminino, tanto em
termos de prevalência como em termos de impacto e amplitude. Defendem que a
violência na intimidade tem por base diferenças genderizadas de poder e de
estatuto no contexto das quais as dinâmicas violentas têm como objectivo
dominar a mulher através do uso de várias acções de controlo e de coerção,
tanto na esfera pública como na esfera privada, para manter o sistema
patriarcal actual (Dasgupta, 1999). Nesta linha, vários estudos indicam que as
mulheres que usam violência física contra o parceiro são, elas próprias,
vítimas de violência e que agridem para parar ou escapar à violência dos
parceiros (e.g., Barnett, Lee, & Thelen, 1997; Dasgupta, 1999; Miller,
2001; Straus, 1999), defendendo que o fenómeno está relacionado com a vitimação
continuada de que as mulheres são alvo.
(iii) A linha de investigação ecológica e da multicausalidade - os
autores que se situam nesta linha (e.g., Dasgupta, 2002) referem que limitar a
compreensão da violência feminina à análise dos seus motivos - como a
auto-defesa ou a retaliação - é negligenciar a complexidade do fenómeno e
da vida da mulher. Assim, defendem a necessidade de compreender o enquadramento
geral e de proceder à análise interactiva dos múltiplos factores que podem
concorrer para que a mulher adopte comportamentos violentos no contexto da
intimidade, desde um nível mais macro (que inclui valores e crenças culturais,
estruturas sociais formais e informais, instituições, etc.), até a um nível
mais micro (características mais imediatas do contexto onde a violência ocorre,
dinâmica da relação) e individual (história desenvolvimental, características
psicológicas da mulher).
Por exemplo, o estudo de Dasgupta (1999) apresenta uma grande variedade de
factores que podem levar a mulher a ser violenta na intimidade: reivindicar a
perda de respeito próprio, proteger os membros da família, manter a imagem de
uma mulher forte, o historial das experiências de abuso (que pode ter
influência na forma como a mulher percepciona o perigo), a ausência de
respostas adequadas por parte dos sistemas e instituições sociais (que cria o
sentimento de impotência e desamparo, criando a percepção de que não há outra
forma de parar o abuso que não seja o recurso à violência). Conside ramos, no
entanto, que, apesar de esta linha já reconhecer o papel dos factores culturais
e procurar integrá-los na sua análise, postula modelos causais bastante
complexos e de difícil operacionalização.
(iv) As abordagens culturais e narrativas - destacam a dimensão
sociocultural e enfatizam a análise crítica da dimensão histórica, cultural,
social, económica e política do fenómeno da violência feminina. Ao introduzirem
estas dimensões, conduziram também à adopção de novas e diversificadas
metodologias de análise, nomeadamente, o recurso às metodo logias qualitativas.
Assim, vários estudos procuram analisar a forma como os discursos
socioculturais constrangem a identidade da mulher e a violência feminina no
contexto da intimidade (e.g., Gilbert, 2002; Miller & Meloy, 2006; Pearson,
1997). De uma forma global, os resultados indicam que grande parte das mulheres
agressoras é ou foi também vítima (Miller, 2001; Saunders, 2002) e enfatizam
que a agressão feminina é vivenciada e experienciada de uma forma distinta da
agressão masculina, com implicações práticas diferentes (Gilbert, 2002; Miller
& Meloy, 2006). Neste contexto, concluem que o fenómeno da violência
feminina na intimidade tem um enquadramento social completa mente diferente da
agressão masculina, sendo desaprovada social e culturalmente porque colide com
as prescrições, expectativas e papéis historicamente atribuídos à mulher
(passiva, submissa, não violenta) (idem).
Com base nesta análise, consideramos que a análise sociocultural do fenómeno da
violência na intimidade não pode ser negligenciada. Os discursos socioculturais
sobre as relações de intimidade, os seus actores e a violência têm implicações
nas práticas relacio nais, na medida em que constrangem o posicionamento e
acções na relação. Assim, não é possível compreender a violência na intimidade
sem proceder à análise crítica do enquadramento sociocultural da violência e,
mais especificamente, sem considerar as relações no contexto das quais a
violência ocorre. Para uma melhor compreensão do fenómeno é necessário atender
às histórias das mulheres que o vivenciam, analisando criticamente a forma como
constroem discursivamente a sua experiência e acções.
METODOLOGIA
Objectivos e questões de investigação
O presente estudo procura compreender a forma como as mulheres vítimas de
violência falam sobre o amor e as relações de intimidade e como experienciam e
significam o fenómeno da violência - a sofrida e a perpetrada. Neste
sentido, procuramos explorar como é que dão sentido à violência no contexto da
intimidade - identificar os repertórios interpretativos culturais sobre o
amor e a intimidade que utilizam e de que forma tais repertórios constrangem a
experiência da violência nas relações de intimidade - nomeadamente, a
experiência de vitimação e o uso de violência por parte das próprias. A partir
daqui, e numa perspectiva construcionista social, discutimos a necessidade da
transformação social, analisando criticamente as grelhas interpretativas sobre
o amor e a violência em que as mulheres são socializadas, permitindo a sua
desconstrução e a possibilidade de tomarem posições alternativas àquelas que as
mantêm na experiência de "ser amadas/amar violentamente".
Para tal, procuramos dar resposta a três questões de investigação: (a) que
repertórios interpre tativos sobre o amor e as relações de intimidade são
utilizados pelas mulheres vítimas de violência quando nos relatam a sua
história? (b) a experiência da vitimação surge no seu discurso? Se sim, como é
significada e de que forma os seus discursos sobre o amor e a intimidade
constrangem a sua vivência?; e (c) o uso da violência por parte destas mulheres
surge no seu discurso? Se sim, como é significada e de que forma os seus
discursos sobre o amor e a intimidade constrangem a sua vivência?
Por fim, discutem-se os discursos socioculturais mais alargados veiculados nas
narrativas destas mulheres, as possíveis implicações destes discursos nas
práticas relacionais e no posicionamento das mulheres na relação e os possíveis
constrangimentos à experiência da vitimação e da perpetração femininas que os
discursos acarretam.
PARTICIPANTES
O grupo é constituído por doze mulheres vítimas de violência, relatada pelas
próprias ou sinalizadas pelo sistema judicial, cuja história relacional se
caracteriza pela conflitualidade constante e vitimação física. Com o objectivo
de obter uma amostra teoricamente relevante, procurou-se seleccionar mulheres
com backgrounds diferentes, pelo que considerámos a variedade ao nível da faixa
etária (jovens vsadultas), nível educacional e social, estado civil e
permanência/ /saída da relação (ver Quadro_1). Nenhuma das participantes
apresenta diagnóstico de psico patologia ou deficiência mental, nem foi alvo de
intervenção psicoterapêutica.
QUADRO 1
Participantes
Casos Escolaridade Classe social Estado civil Idade Permanência na relação
violenta
1 12.º Ano Média/baixa União de facto 45 Sim
2 4.º Ano Média/baixa Divorciada 43 Não
3 4.º Ano Média Divorciada 29 Não
4 4.º Ano Baixa Divorciada 40 Não
5 12.º Ano Média Divorciada 32 Sim
6 4.º Ano Média/Baixa Casada 52 Sim
7 4.º Ano Média Divorciada 45 Não
8 Doutoramento Média/Alta Solteira 30 Não
9 12.º Ano Média/Baixa União de Facto 30 Sim
10 1.º Ano Média/Alta Solteira 20 Sim
(Univers.)
11 2.º Ano Média Solteira 20 Sim
(Univers.)
12 11.º Ano Média/Baixa Solteira 17 Não
PROCEDIMENTOS
No presente estudo foram analisadas narrativas de mulheres sobre o amor,
procurando compreender como conceptualizam e atribuem sentido â conflitualidade
e à violência no contexto da intimidade e das relações amorosas.
Com cada participante foi realizada uma entrevista semi-estruturada ("a
história de amor da sua vida"), adaptada do guião da entrevista de
McAdams (1995), The Life Story Interview. Após o consentimento informado,
advertindo para as possíveis consequências emocionais da situação de
entrevista, foi pedido que identificassem e contassem a história de amor da sua
vida, focando todos os tópicos do guião (resumo e fases da história, momentos
importantes, desafios, futuros possíveis, valores e crenças pessoais). Apesar
desta estrutura prévia, as questões foram formuladas de forma a permitir que a
narrativa fluísse de acordo com os interesses das participantes (e.g., "
eo que é que pensa sobre o que acabou de me contar?"; "como se
sentiu face a isso?"), explorandose os pensamentos, comportamentos,
emoções e contextos situacionais dos relatos. Assim, apesar de se inquirirem
todas as participantes sobre todos os tópicos do guião, a ordem e organização
do material do material variou de entrevista para entrevista.
É de referir ainda que a temática da violência não foi inquirida directamente,
de forma a podermos perceber se a violência era ou não espontaneamente abordada
nas histórias. Nos casos em que a violência foi abordada, analisámos se
referiam ou não o uso da violência por parte das próprias contra os parceiros
e, neste caso, como é que esta era significada e contextualizada. O objectivo
foi o de compreender como é que as mulheres experienciavam, recordavam e
falavam sobre a violência.
Todas as entrevistas foram conduzidas pela investigadora responsável do estudo,
variando o tempo de duração entre os quarenta e cinco minutos e as duas horas e
meia. Foram gravadas e transcritas na íntegra, no sentido de preservar a
integridade dos relatos, e todas as entrevistas foram analisadas separadamente,
codificando-se todo o seu conteúdo. Posteriormente, identificaram-se os
diferentes temas abordados pelas participantes e focámos a nossa análise nos
relatos referentes ao amor e à violência (sofrida e/ou perpetrada) nas relações
de intimidade.
Utilizou-se o NVivo 9.0 software(QSR, 2010) para organizar, codificar e
analisar os dados, aplicando a abordagem da análise do discurso, como indicada
por Potter e Wetherell (1987):
(i) O processo inicial de codificação foi feito indutivamente e a
construção das categorias foi definida e redefinida sistematicamente
em cada entrevista, ao longo de todo o processo de categorização;
(ii) Após a codificação inicial de todas as entrevistas,
organizaram-se e agruparam-se as codificações em "unidade de
significado" que constituem os repertórios interpretativos,
considerando como as participantes usam padrões partilhados de
compreensão sobre o amor e a intimidade;
(iii) Paralelamente à identificação e descrição dos repertórios,
procurou-se mostrar como os repertórios são utilizados para fazer
sentido e compreender a violência;
(iv) Recorreu-se a extractos dos relatos das participantes para
ilustrar a análise e discussão, atendo aos padrões de significados
usados nesses exemplos.
Dada a natureza e características do estudo, assume-me a natureza local e
específica dos seus resultados, sem a ambição de os generalizar. Apesar de
identificarmos a utilização de repertórios interpretativos específicos, sob
determinadas formas e por determinadas participantes, tal não significa que
estes resultados sejam partilhados por todas as mulheres que possuam
características idênticas.
ANÁLISE
A partir da análise das histórias narradas por cada participante, procuramos
dar resposta às nossas questões de investigação. Assim, para facilitar a
leitura dos resultados, procederemos à sua descrição e discussão tendo por base
as questões de partida.
Que repertórios interpretativos sobre o amor e as relações de intimidade são
utilizados pelas mulheres vítimas de violência quando nos relatam a sua
história?
Nas entrevistas seleccionou-se todo o discurso das vítimas referente ao amor e
às relações de intimidade, identificando-se cinco Repertórios Interpretativos:
45.89%1do discurso sobre o amor remete para o Amor Romântico, 18.3% para o Amor
Apaixonado, 18.39% para o Amor Companheiro, 16.3% para o Amor Pragmático e
0.59% para o amor Game-Playing. Procedendo a uma análise global, verificamos
que o repertório amor romântico é o mais utilizado pelas vítimas.
Repertório amor romântico.O Repertório amor romântico tende a surgir no início
das narrativas, sendo o ponto de partida das histórias que as participantes nos
relatam. Remete para o "script" tradicional, que associa o amor a
uma relação duradoira e de compromisso (namoro e casamento) e destaca-se a
noção do amor eterno/verdadeiro ou a existência da pessoa certa (Caso7:... eu
só tive um amor na vida... para mim só há um amor na vida). É de notar que
neste script se veicula a noção da turbulência/zangas iniciais e, ainda assim,
existe uma extrema idealização da relação e do parceiro (Caso 11: foi um namoro
que no início foi um bocado atribulado - começávamos, acabávamos. Agora
estamos há 3 anos juntos e a coisa até agora tem corrido bem. Caso 12: ... foi
aquele tempo em que não havia problemas, em que tudo era cor-de-rosa, tudo
estava muito bonito, risinhos para ali, risinhos para aqui, risinhos para ali e
ia sendo assim).
Este repertório inclui ainda duas metáforas:
(i)A metáfora do amor vencedor, aquele que é proibido ou não aceite
socialmente mas cujos obstáculos, enfrentados em conjunto e com amor,
serão ultrapassados (Caso 2: Até é interessante haver problemas e
ultrapassarmos juntos, unidos, ultrapassar os problemas e a relação
ficar mais forte... De poder dizer que houve problemas, que houve
crises no casamento e conseguir ultrapassar).
(ii)A metáfora do amor sacrifício, nomeadamente, a noção de abdicar e
ceder por amor, em prol do companheiro e da relação (Caso 2: ... eu
pensar mais nos outros do que em mim, aguentar tudo por pensar mais
nele, no nosso casamento, do que em mim. Isso fez a relação durar...
aguentar tudo).
Paralelamente, uma construção discursiva presente no amor romântico e que
constitui um sub-repertório deste é o amor desencantado, surgindo em todas as
participantes (à excepção das participantes jovens). Esta construção veicula a
imagem do desencanto/desilusão dos ideais e sonhos românticos, em que surge a
noção do sofrimento e mal-estar psicológico face à frustração dos sonhos
românticos (Caso 2: Mal-estar... uma ansiedade, um mal-estar que não
conseguimos explicar...) e a descrença no amor e nas relações (Caso 6: A gente
casa, faz um sonho mas nada acontece como nos sonhos. Tudo o que eu sonhei foi
tudo por água abaixo, nada se realizou. O amor da minha vida... olhe, morreu!).
Como veremos na análise da experiência da violência, as participantes recorrem
bastante a este sub-repertório para darem sentido à conflitualidade e à
violência.
Repertório amor companheiro.O repertório amor companheiro veicula a associação
entre o amor e a amizade/companheirismo, defendendo como valores essenciais a
sinceridade, a honesti dade e a confiança (Caso 5: amor é o companheirismo,
amizade, inter-ajuda; Caso 12: O amor é isso: compreensão, sinceridade,
amizade, carinho.). O respeito mútuo e a tomada de decisão a dois surgem
enfatizados, assentes no diálogo e na comunicação (Caso 1: Para mim o
verdadeiro amor é haver respeito, essencialmente. Haver diálogo com a pessoa e
respeitar. Quando se tomaruma decisão, acho que se deve tomar a dois), bem como
a necessidade da adequação dos parceiros, da aceitação, compreensão e
entendimento entre ambos (Caso 2: Não há dois seres iguais. Aceito que as
pessoas tenham de se moldar um ao outro, também temos de ceder, aceitar que
temos de mudar. Caso 5: As cedências, compreendermo-nos um ao outro).
É no notar que este repertório tende a ser mais utilizado no final das
narrativas, quando as participantes são questionadas sobre os valores que
defendem numa relação, fazendo uso prescritivo deste repertório para conseguir
manter uma relação de amor funcional e feliz ao longo do tempo.
Repertório amor apaixonado.O repertório amor apaixonado surge quase de forma
equitativa ao amor companheiro. Veicula a noção de que o amor constitui uma
alteração do estado normal dos indivíduos, em termos cognitivos, emocionais e
físicos (Caso 3: Eu naquela altura fiquei sem palavra. Senti-me muito feliz,
assim por dentro! Ah... não sei explicar (suspiro)! O meu coração batia, batia,
batia! Ali não lhe sei explicar o que é que foi!), associando-se a esta
alteração também a sua expressão mais violenta e o ciúme como manifestações de
amor (Caso 5: Eu sentia-me bem. Ele gostava de mim porque eu sabia que ele
tinha ciúmes... ele ficava muito zangado, muito bravo!).
Dois aspectos específicos presentes neste repertório são a noção ambivalente do
amor/ódio (Caso 8: aquilo foi uma relação muito complexa, muito difícil de
gerir e de amor-ódio. Não é propriamente uma história de amor, é uma história
de amor-ódio) e a conceptualização do amor como prisão - de não poder
viver sem a pessoa amada, de não conseguir libertar-se devido à intensidade e
profundidade do amor (Caso 2: Eu querer libertar-me e não conseguir. Eu pensava
que não conseguia viver sem ele, que a vida não era possível sem ele).
Repertório amor pragmático.O repertório amor pragmático surge habitualmente no
final das narrativas, como balanço da história relacional das vítimas. Remete
para uma perspectiva mais racional e ponderada do amor, com uma noção da
finitude, temporalidade e contingências das relações (Caso 9: Também não acho
que o amor tem de durar a vida inteira, não, não tem. Queo amor seja para
sempre, não! Caso 12: quando chegar ao ponto em que vir que a coisa não dá ou
que o amor está a acabar, seja da parte dela ou seja da parte dele, que é
desnecessário lutar quando o outro não quer).
Integra a imagem de aprendizagem, insighte amadurecimento resultantes das más
experiências amorosas (Caso 2: Porque agora estar a criar uma relação de fazer
vida, para mim é difícil, já fui burra uma vez. Caso 11: teve impacto na forma
como eu vejo as relações, deixei-as de ver, se calhar, de uma forma tão
inocente...).
Repertório amor game-playing.O repertório amor game-playingsurge numa reduzida
percen tagem na nossa amostra (0,59%), sendo o que concebe as relações como um
jogo, envolvendo menor investimento emocional e compromisso. Sendo mais
utilizada no passado, esta forma relacional é associada, essencialmente, às
relações fugazes e passageiras e é conceptualizada como "não amor"
(Caso 10: E foi só esse namoro que foi mesmo um namoro a sério. Os outros foi
mais curtes, mas namoro a sério foi só esse). É de notar que apenas uma
participante o utiliza no presente, associando-o à noção de aproveitar o
momento e à prescrição de evitar o compromisso (Caso 2: Neste momento da minha
vida, preferia ter uma amizade colorida, não sei se me entendes... Porque agora
estar a criar uma relação de fazer vida, para mim é difícil, já fui burra uma
vez, agora vai-se vivendo).
A experiência da vitimação surge no discurso? Se sim, como é
significada e de que forma os discursos sobre o amor e a intimidade
constrangem a sua vivência?
Considerando todo o discurso presente nas entrevistas, apenas 19% se refere à
violência no con texto da intimidade e, considerando especificamente o discurso
sobre a violência, 68% deste discurso refere-se à experiência de vitimação e
32% ao relato da perpetração de violência sobre os parceiros. O tema da
violência, tanto a sofrida como a perpetrada, surge no contexto dos diferentes
repertórios - à excepção do "game-playing"um repertório que,
como já foi referido, surge com reduzida frequência. Vejamos então como é
abordada a violência no contexto dos dife rentes repertórios sobre o amor e as
relações de intimidade, apresentando os repertórios pela ordem decrescente:
romântico (53,85%), companheiro (20,4%), apaixonado (17.88%) e pragmático
(7,87%).
O repertório amor românticoé o mais utilizado pelas vítimas adultas para dar
sentido à experi ência da vitimação, mais precisamente o amor desencantado, em
que descrevem a conflitualidade/ /violência para justificar a frustração das
idealizações/expectativas românticas e o desencanto para com as relações e o
amor. Assim, como motivos para o "desencanto" face às expectativas
român ticas surge principalmente a infidelidade por parte do companheiro (Caso
2: O mais infeliz foi quando tive a certeza de que existia outra pessoa), o
investimento unidireccional da mulher na relação (Caso 7: A maior dificuldade
foi quando ele deixou de trabalhar porque eu tive de criar os filhos e ainda
mantê-lo a ele, dar-lhe de comer... Foi muito difícil, que eu trabalhava mas
tinha que pagar casa, tinha que pagar tudo e o dinheiro não chegava) e a
desilusão do dia-a-dia associada à violência física e verbal (Caso 7: foi tudo
muito bom, nos primeiros tempos, era muito meu amigo, ele não tinha mais que me
fazer! Depois ele começou-me a tratar mal, a encher-me de nomes, e depois veio
a violência. Batia-me, chamava-me todos os nomes, dizia-me que eu andava metida
com todos os homens).
Na consequência deste "desencanto", relatam a descrença no amor e
nas relações, bem como o extremo sofrimento e trauma psicológico que as faz
rejeitar novas relações (Caso 4: Eu não confio em mais homem nenhum. Ficar
sozinha, é a melhor solução. Caso 7: Para mim os homens são todos iguais. Eu
estou cansada... Para mim, um homem chegou). Verifica-se também a tentativa de
justificarem o comportamento violento por parte do parceiro, usando factores
externos que o "transformaram" e o levaram ao uso da violência: o
consumo de álcool (Caso 1: Começou a beber, ele tem um muito mau beber. Quando
chegava bêbado a casa, desancava-me e chamava-me do piorio. Até que me bateu,
deu-me um biqueiro...), as dificuldades do dia-a-dia (Caso 9: Ele tornar-se
violento foi, sem dúvida, toda a situação económica porque nós passámos) e a
infide lidade (Caso 4: Sempre que a gente se zangava ele batia-me, tinha a ver
com as amantes dele).
De salientar que as vítimas jovens não recorrem a este repertório para
significar a experiência de vitimação - no nosso entender porque os seus
relatos românticos se centram na idealização da relação e na expectativa da
vivência de um grande amor no futuro e de um final feliz, que não lhes permite
o "desencanto" dos sonhos românticos, apesar da experiência de
vitimação.
As mulheres recorrerem também ao repertório amor companheiropara dar sentido à
violência sofrida, conceptualizando-a como consequência da falta de
entendimento/desacordo e da incompatibilidade do modo de ser/estilos de vida
entre os parceiros (Caso 8: ... e foram dias de manipulação, de ameaça... eu na
altura compreendia que ele não se identificava com o meu estilo de vida e
contextos. E apesar dele saber que eu me identificava, ele... nunca houve
tolerância por essas práticas).
Há que destacar que são as mulheres que se mantêm na relação violenta as que
mais utilizam o repertório amor companheiro, como forma de justificar a sua
permanência na relação, nomeadamente através da crença da consciencialização,
arrependimento e mudança por parte do parceiro, que ocorrerá do entendimento
futuro entre ambos, adiando, dessa forma, a ruptura (Caso6:O que eu gostava é
que ele compreendesse. Eu estou a tentar... Se ele dizer "Eu realmente
falhei, eu realmente reconheço que errei", se houver este reconhecimento,
eu ainda lhe dou uma chance).
No caso das mulheres jovens, a expectativa de conseguir o entendimento, a
crença de que ocorreu uma mudança e, principalmente, a percepção de uma imagem
de "paridade" entre ambos no que respeita a restrições mútuas,
permite-lhes justificar a tolerância e a permanência na relação abusiva (Caso
11: Houve ali uma mudança porque eu ali consegui perceber que estava a ser
repressiva com ele e ele também conseguiu perceber aquilo que estava a fazer
mais mal. Houve mudança).
O repertório amor apaixonadoé maioritariamente utilizado pelas vítimas juvenis,
em relações em que a violência surge associada à noção de ciúmes, possessão e
dificuldades de controlo por parte do companheiro. Neste repertório, a
violência do companheiro é significada como manifestação de ciúmes, prova do
seu amor e "querer"/obsessão, não conseguindo controlar a
intensidade do afecto (Caso 10: começou a ser possessivo ele queria-me ter à
força toda, entre aspas. (...) Ciúmes, era muito possessivo. Tinha medo de me
perder... Caso 12: Começou a sofrer um bocado daquela obsessão. Ele começou a
ser um bocadito agressivo por amar de mais, acho eu... violento).
Neste contexto, a violência surge como sinónimo de amor e tende a ser
minimizada ou a não ser conceptualizada como tal, responsabilizando-se a si
próprias por provocarem o parceiro (Caso10:Ele começou a tornar-se possessivo
e, por vezes, também agressivo. E eu entrava também mais ou menos no jogo dele,
porque também o "picava" e ele... A primeira vez que ele me
agrediu... não é bem agredir...).
De notar, ainda, que são também as mulheres mais jovens que mais recorrem a
este repertório para justificar a sua tolerância à violência - à noção de
que o amor "cega" ou interfere na percepção que fazem do parceiro e
da relação (Caso 10: O primeiro amor, a primeira paixão, não é! Assim, aquela
magia... Porque eu só o via a ele. Ele era a minha vida e não via mais nada!).
A experiência da vitimação parece ser menos compatível com o repertório amor
pragmático- pelas próprias características deste repertório - sendo
este utilizado essencialmente na descrição do processo de tomada de decisão
acerca da permanência vs.abandono da relação violenta. Este repertório inclui
um modelo racional (quase economicista) da relação, em que são ponderadas as
suas vantagens e desvantagens, pelo que lhes permite equacionar os ganhos e as
perdas de permanecer ou abandonar a relação. Aqui, identificamos diferenças na
forma como a ponderação é feita pelas mulheres que se mantêm na relação e pelas
que saíram, identificando-se também características específicas nas vítimas
juvenis.
Verifica-se que a maioria das mulheres adultas (tanto as que saíram como as que
estão na relação) partilha o desejo de sair da relação (Caso 1: O melhor futuro
possível era eu separar-me dele, completamente. E ficar sozinha com os meus
filhos) e que são os constrangimentos económicos, sociais e familiares que
dificultam ou dificultaram a ruptura, nomeadamente: a falta de recursos
económicos e habitacionais, a ausência de respostas judiciais e sociais
adequadas, a crítica social e a ausência de uma rede de suporte e apoio
familiar (Caso 1: Neste momento não tenho situação financeira estável que possa
sair de casa, só tenho o meu trabalho, e não tenho família nenhuma que me dê
apoio. Estou com ele por causa do miúdo, o caso foi parar a tribunal! Caso 6: O
meu medo é a falta de dinheiro para criar os meus dois filhos. Porque eu não
trabalho. E eu sujeito-me é por causa disso, porque é o dinheiro dele que entra
em casa.... E eu sujeito-me).
O que se verifica no caso das mulheres que saíram da relação é que a ruptura se
efectivou quando sentiram o bem-estar e/ou a vida dos filhos em causa (Caso 2:
Senti que era um basta quando ele começou também a ser mau com a
filha...") em concomitância com a obtenção de suporte e apoio externos
(Caso 2: Foi bom perceber que o médico entendeu e dizer-me que já tinha ouvido
histórias como a minha. Ajudou-me muito).
No caso das vítimas juvenis, verifica-se que a ambiguidade entre sair e
permanecer é maior, sendo a falta de liberdade pessoal e a restrição das suas
actividades/relações um factor essencial na sua ponderação (Caso 11: porque me
sentia sem liberdade. E fiquei a pensar "como é que vou aturar assim uma
pessoa para o resto da minha vida?"), ao contrário das vítimas adultas,
onde a integridade física e psicológica recebe maior relevo.
O uso da violência por parte destas mulheres surge no seu discurso?
Se sim, como é significada e de que forma os seus discursos sobre o
amor e a intimidade constrangem a sua vivência?
O recurso à violência por parte destas mulheres também surge no seu discurso
mas, como já foi referido, assume menor relevância (no âmbito da violência,
apenas 32% do relato se refere à perpetração de actos violentos sobre os
parceiros). À semelhança do que sucede na experiência da vitimação, também a
perpetração é abordada no contexto dos diferentes repertórios: romântico
(47,28%), apaixonado (28,76%), companheiro (14,93%) e pragmático (9,03%).
O repertório amor romântico-desencantadocontinua a ser o mais utilizado pelas
vítimas adultas, num discurso em que o recurso à violência emerge da frustração
extrema de determinados ideais românticos: a fidelidade e a expectativa de
"cuidado/protecção". Assim, o uso da agressão verbal e física é
justificado principalmente pela infidelidade do parceiro, numa tentativa de
salvaguardar uma auto-imagem positiva e recuperar respeito próprio (Caso 4: mas
depois andava com outra. Eu andava sempre a ver onde é que ele andava e
discutia com ele porque sabia que andava com outra. Dizia-lhe: "Ouve lá
seu Cxxxx, tiveste com a Pxxx?" e pegávamo-nos...).
Quando não conseguem encontrar um motivo para a violência do parceiro, o que
aumenta a dissonância face à expectativa de receber cuidados e protecção do
companheiro, as mulheres relatam reagir de forma agressiva. A violência surge
como estratégia de expressar a sua frustração e desencanto dos sonhos/ideais
românticos que as levaram à relação (Caso 7: Já não acredito em nada,
desiludida é o que estou. Batia-me constantemente, rasgava-me a roupa e enchia-
me de nomes. E sem explicação! Mas eu, agora, já não me deixava ficar. Ele
insultava-me e eu respondia-lhe. Quando vinha para me bater desviava-me e
defendia-me).
O repertório amor apaixonadoé usado quase exclusivamente pelas vítimas juvenis
e principalmente no âmbito da violência física. A violência é conceptualizada
como fazendo parte da dinâmica dos ciúmes excessivos e do amor extremo e como
manifestação da ambiguidade amor-ódio decorrente da intensidade do afecto e da
relação. Surge no sentido de restaurar alguma simetria/paridade na relação,
ainda que violenta, e como forma de "provar" a sua
"integridade" e fidelidade face aos ciúmes excessivos do namorado
(Caso 11: Discutimos. Ele acusou-me de dar trela a outros, de andar com outros
e eu, como já estava farta, respondi-lhe mal. Senti-me insultada e também o
insultei... Caso 12: Tivemos uma pequena discussão. Ele ficou agressivo e eu
dei-lhe uma bofetada... porque ele me insultou... chamou-me... que era uma
"vai com todos").
A agressividade feminina, ainda que com menor frequência, é conceptualizada
também no contexto do amor companheiro, surgindo como estratégia de resolução
de desentendimentos/ /desacordo, havendo um discurso de
"normalização" da violência verbal na resolução de conflitos (Caso
9: Ou enervo-me e expludo, começo a discutir com ele. Mas acho que eu tenho o
direito de ter um dia de má disposição).
Por fim, a violência feminina surge também conceptualizada no contexto do
repertório amor pragmático, em que, na ponderação de ganhos e perdas face à
vitimação reiterada, as mulheres postulam a defesa da sua integridade física e
a dos filhos como prioritária, reagindo violentamente como último recurso (Caso
2: Foi quando ele me agrediu... eu andei marcada na rua e isso eu nãoaceitei. E
depois ele começou a tratar mal a minha filha. E aí tive de me impor... tive de
me defender a mim e a ela).
Da análise dos relatos sobre a violência e a agressividade destas mulheres,
resulta que, em todos os repertórios, a violência surge essencialmente num
contexto de defesa face à violência continuada e reiterada que sofreram por
parte dos parceiros. No caso das mulheres adultas, todas fazem referência ao
uso de violência (tanto verbal como física) num contexto de defesa da sua
integridade física e/ou psicológica e/ou quando percepcionam perigo para os
filhos.
No caso das mulheres jovens, a violência surge em todas como uma resposta
pontual e isolada face à manifestação violenta e extrema de ciúmes por parte
dos namorados (como vimos no repertório amor apaixonado) - o que nos leva
a concluir que se procede a uma "normalização" da violência (tanto
a masculina como a feminina) no contexto do namoro, não sendo esta concebida
como violência (Caso 10: A primeira vez que ele me agrediu... não é agredir,
pronto... Eu cheguei a um ponto que respondia, mas claro que um murro meu, ou
uma bofetada, não tem nada a ver com os dele. Caso 11: Não foi bem violência...
agarrou-me e deu-me um safanão. E dei-lhe outro e empurrei-o).
No caso das participantes adultas, é de notar que, mesmo no caso das que
agridem por ciúmes ou devido à infidelidade dos companheiros, já existia um
historial de vitimação física e verbal anterior. Parece-nos que as mulheres,
nesta situação, tomam a iniciativa de agir violentamente porque existe um
enquadramento sociocultural que lhes "permite" fazê-lo em
determinadas situações (usando formas de "violência menor", como a
bofetada), sendo a infidelidade uma delas. Por outro lado, consideramos que a
manifestação de violência neste contexto de ciúme pode funcionar como
estratégia protectora face a eventuais retaliações dos parceiros - neste
contexto a agressão tenderá a não ser percepcionada pelo companheiro como uma
afronta à sua autoridade/poder mas como manifestação de afecto e de amor.
Aliás, verifica-se pelo relato das vítimas adultas que, quando a agressão
ocorre neste contexto, as reacções do parceiro são menos violentas,
comparativamente às que ocorrem no contexto da defesa da integridade física ou
de uma discussão motivada por outras razões. Um bom exemplo disto ocorre no
caso 6.
Caso 6: Eu segui-o e vi-o lá com ela, ao fundo de umas escadas, aos beijos e
aos abraços. E eu agarrei-me a ela aos cabelos! E ele ficou a ver, ficou a ver.
Tentou separar... mas também levou... Ele também já me batia... Mas agarrei-me
a ele também(contexto infidelidade); Eu já estava assim habituada com a
vizinhança e conversava e ele veio um dia e bateu-me! E eu assim "Ah, seu
cabrão!" Ai o que eu disse! Foi a primeira vez e a última, ele tratou-me
logo da saúde! Levou-me para dentro de casa e bateu-me(contexto de defesa da
integridade física e afronta à autoridade masculina).
CONCLUSÃO
A partir do exercício de integração das respostas às nossas questões de
investigação e procedendo a uma leitura transversal dos resultados obtidos, há
três ideias centrais que consideramos importantes destacar:
(i) Os discursos socioculturais sobre o amor e a intimidade veiculam
uma associação entre amor e violência
É notória nos relatos das nossas participantes a associação entre a violência e
as dinâmicas relacionais amorosas, havendo um discurso
"romantizado", "passional" e de
"companheirismo" sobre as relações de amor/conjugais que acaba por
"normalizar" a violência, sustentar uma posição de tolerância face
a esta e manter a vítima na relação violenta (ou retardar a sua saída).
Verifica-se, no relato destas mulheres, no que diz respeito à experiência de
vitimação, uma tentativa de encontrar uma justificação para a violência do
parceiro, recorrendo a factores externos (problemas do dia-a-dia, álcool,
infidelidade), à intensidade dos afectos ou a desentendimentos conjugais,
permitindo-lhes, dessa forma, desresponsabilizar o parceiro e dissociar o
parceiro "violento" do "verdadeiro" parceiro.
Os repertórios que sustentam a permanência numa relação onde sofreram vitimação
continuada (romântico e companheiro) reflectem, em nosso entender, os discursos
socioculturais mais alargados que veiculam a associação da felicidade/
realização feminina ao contexto da conjugali dade e, simultaneamente,
responsabilizam a mulher pelo êxito das relações (Dias & Machado, 2007).
Tal constrange a actuação da vítima, na medida em que a faz manter-se na
relação abusiva, sujeitando-se aos maus-tratos, não só para sustentar a relação
mas também pela responsa bilidade social que recai sobre si quando uma relação
fracassa. Um estudo sobre a representação da mulher nos mediaem Portugal (Dias
& Machado, 2007) revela a prescrição da necessidade da mulher ter uma
relação estável e de compromisso, no sentido de constituir família e conseguir
alcançar a felicidade/bem-estar emocional. Tais discursos reforçam a crença de
que a mulher terá como principal objectivo ter uma relação estável e veiculam a
expectativa de que a mulher adopte uma atitude de submissão quando o consegue
(mesmo que isso implique suportar ou tolerar situações de violência e de
assimetria). No nosso entender os repertórios que promovem a permanência das
mulheres nas relações insatisfatórias relacionam-se com uma representação
sociocultural ideali zada do amor prescrita no feminino - encontrar o
verdadeiro amor e, encontrando-o, cuidar e manter a relação.
No que diz respeito ao recurso à violência por parte das mulheres, no caso das
participantes adultas é essencialmente o sub-
repertório"desencantado" que associa o amor à violência feminina
(frustração das expectativas românticas - fidelidade, cuidado) e, no caso
das jovens, é exclusiva mente o repertório amor apaixonado que associa a
violência feminina à defesa da " integridade moral" da jovem e como
forma de enfatizar o seu amor e fidelidade perante os ciúmes e a desconfiança
do namorado.
(ii) Os discursos socioculturais sobre o amor e a intimidade
sustentam a "tolerância" à vitimação feminina e
restringem amplamente a agressão feminina
O facto do discurso das mulheres incidir maioritariamente na experiência de
vitimação, com descrições longas e pormenorizadas, comparativamente com a
experiência da perpetração de violência contra os parceiros (descrições breves
e vagas), leva-nos a concluir a existência de um enquadramento sociocultural
que, por um lado, "compreende" melhor a vitimação feminina/ /
violência masculina e, por outro, que restringe amplamente a agressividade
feminina/vitimação masculina.
Vários estudos indicam a existência de normas, expectativas e padrões de
conduta genderizados, no contexto dos quais a mulher é socializada para ser
dócil e não agressiva, para prestar cuidados, para ser gentil, carinhosa e
compreensiva, preparando-a, assim, para o seu papel de mãe e companheira,
suporte do lar e do marido (Cancian & Gordon, 1988; Williams, 2002). Pelo
contrário, o homem é socializado para ser activo, agressivo, competitivo e
líder/chefe (Boonzaier & De La Rey, 2003; Totten, 2003).
Outros estudos indicam ainda um tratamento diferencial, em função do género,
das situações de violência (Carll, 2003; Dias & Machado, 2007). Carll
(2003), por exemplo, refere a existência de estereótipos de género na
representação mediática da violência doméstica - quando a mulher é a
vítima, os casos são tratados como crimes menores, mas quando a mulher é a
agressora, são tratados como crimes hediondos - sendo a mulher descrita
de forma muito negativa. Um estudo desenvolvido em Portugal (Dias &
Machado, 2007) revela que os mediatendem também a desresponsabilizar o agressor
masculino, perspectivando a violência como um acto emocional e de descontrolo,
e a sobre-responsabilizar a mulher agressora, descrita como maquiavélica/
perversa. Assim, à semelhança do panorama internacional (Carll, 2003), também
em Portugal existem, no discurso mediático, diferenças
genderizadasrelativamente à violência na conjugalidade (Dias & Machado,
2007) - uma maior tolerância da agressão masculina e uma clara
desaprovação da agressão feminina, também presentes no discurso das
participantes do presente estudo.
As narrativas das nossas participantes revelam que estas fazem uso da violência
mas não recorrem a ela de forma similar aos companheiros. Remetem para os
standards em que a violência feminina no contexto conjugal é permitida,
revelando-se em situações muito específicas e com contornos muito limitados:
surge contextualizada em situações de defesa, como último recurso e só depois
de se terem esgotado todas as outras possibilidades; e tende a ser
discursivamente construída dentro dos limites considerados socialmente
razoáveis (violência física menor e violência verbal).
Assim, o nosso estudo parece indicar que a violência feminina assume
características e tem implicações práticas diferentes, relacionadas com
diferenças de género. Enquanto a violência masculina vai ao encontro dos papéis
de género masculinos, que postulam a agência, a supremacia e a autoridade
(Barnett et al., 1997; Dasgupta, 2002), a violência feminina vai contra o que é
socialmente esperado da mulher (passiva, dócil, prestadora de cuidadosos)
(Dasgupta, 1999; Straus, 1999). Implicitamente, as mulheres parecem reconhecer
o seu comportamento agressivo (principalmente a violência física) como uma
violação ou transgressão dos papéis de género prescritos, pelo que tendem a
construir a sua "transgressão" dentro dos limites que o contexto
sociocultural postula como aceitáveis e/ou razoáveis: contexto de defesa,
situações de infidelidade, violência física menor e violência verbal.
(iii) Os relatos da violência perpetrada no feminino veiculam um
discurso genderizado tradicional mas, simultaneamente, revelam a
capacidade de agência, resiliência e autosuperação da mulher
Verifica-se que as nossas participantes são mulheres que, na sua maioria, foram
vítimas de violência continuada e, num processo de escalada em termos de
severidade e frequência, acabam por agredir os parceiros para parar ou escapar
à sua violência (corroborando o que vários estudos indicam - e.g.,
Barnett, Lee, & Thelen, 1997; Dasgupta, 1999, 2002; Miller, 2001; Miller
& Melloy, 2006).
Numa primeira análise, o discurso das nossas participantes indica que a sua
violência tem por base a assimetria de poder e estatuto que, no contexto da
vitimação continuada, tem como objectivo diminuir a sua posição de
vulnerabilidade e a sua impotência face às acções de controlo e de coerção do
companheiro. Assim, a violência feminina surge com características específicas
e diferentes da violência masculina: além de se tratar maioritariamente de
violência menor ("bofetada", "agarrei-me a ele"), surge
em episódios isolados e/ou únicos, com reduzido impacto no parceiro, quer em
termos psicológicos quer em termos físicos. Além disto, verificamos que a
violência das nossas participantes tem também implicações práticas diferentes:
em vez de lhes possibilitar algum controlo ou dominância na relação (como
ocorre na violência masculina) acaba por desencadear retaliações severas por
parte do parceiro e com maior violência - remetendo para a tentativa do
parceiro restabelecer e reforçar a sua autoridade e dominância. Como vimos, a
violência das participantes em situações de ciúme constitui a única excepção,
sendo, provavelmente, significada pelo parceiro como manifestação de amor e não
como desafio à sua autoridade ou poder.
No entanto, consideramos que o uso da violência por parte das mulheres surge
também como estratégia para lidar com a adversidade, no sentido de conseguir
algum controlo sobre a relação e o sentido de si próprias - revelando a
capacidade de luta, sobrevivência e resiliência destas mulheres. Alguns autores
(e.g., Werner-Wilson, Zimmerman, & Whalen, 2000) referem como elementos da
resiliência a capacidade de mudar ou se adaptar a circunstâncias de vida
negativas, a capacidade de "lutar" e ser bem-sucedido face a
expectativas negativas e a capacidade de lidar activamente com os problemas, em
vez de utilizar estratégias de evitamento ou de fuga.
CONSIDERAÇÕES FINAIS
No nosso estudo verificamos que, de facto, tanto as narrativas de vitimação
como as de perpetração produzidas pelas mulheres se inscrevem em discursos
socioculturais mais amplos sobre o amor e as relações de intimidade -
discursos que promovem a vitimação sofrida no feminino e limitam a
agressividade feminina.
Os discursos "romantizados" ocultam da percepção das vítimas a
dimensão intencional e instrumental da violência masculina, obscurecem o
exercício de poder e controlo da violência e perpetuam as desigualdades de
género que persistem na nossa sociedade e cultura. Todos os repertórios, à
excepção do pragmático, que é utilizado para enquadrar a ruptura (quando todos
os outros recursos já se esgotaram), veiculam claramente esta associação entre
violência e relações de "amor", desresponsabilizam o agressor e
mantêm as vítimas na relação - seja por contingências externas que
concorrem para o "desencanto" da imagem do amor romântico, seja
pela dimensão "passional" no repertório amor apaixonado, seja pela
"incompatibilidade"/desentendimento e desacordo no repertório amor
companheiro.
No caso específico da perpetração/violência das nossas participantes, constata-
se que a violência feminina emerge da expressão da frustração e da dor pela
vitimação continuada (amor desencantado), para expressar a sua frustração e
obter respeito emocional (amor apaixonado), para lidar com os desentendimentos
e problemas da relação (amor companheiro) e, por fim, como recurso último para
escapar à violência e sair da relação, quando não percepcionam apoio externo
nem possibilidade de mudança (amor pragmático).
Alguns autores (e.g., Holtzworth-Munroe, 2005) têm procurado estudar a
violência feminina e chamar a atenção para a necessidade de clarificar os
modelos de explicação para o fenómeno - compreender se a violência
feminina e masculina podem partilhar modelos teóricos ou se requerem modelos
diferentes de explicação (dado que tal terá implicações práticas em termos de
acções de prevenção e tratamento). Além disto, alertam também para a distorção
ou enviesamento da leitura de alguns resultados sobre a violência feminina em
função dos interesses "políticos" de diferentes grupos (Holtzworth-
Munroe, 2005), tanto no sentido da desvalorização como da sobrevalorização.
Neste contexto, há que referir que não é objectivo do presente estudo proceder
à comparação da violência masculina com a feminina, ou procurar explicar a
violência feminina em si. Numa perspectiva construccionista social, procurámos
compreender como as práticas e discursos socioculturais dão forma à vivência da
violência (tanto a sofrida como a perpetrada) e como constrangem as práticas
relacionais. No entanto, ao concluirmos que as narrativas das mulheres veiculam
discursos socioculturais mais alargados que sustentam a vitimação sofrida no
feminino e limitam a agressividade feminina, entendemos que - existindo
um enquadramento sociocultural genderizadoe assimétrico da violência e das
relações onde esta ocorre - a grelha de leitura ou da compreensão/
explicação da violência masculina vs.feminina não pode ser a mesma.