Violência nas relações de namoro entre adolescentes: Avaliação do impacto de um
programa de sensibilização e informação em contexto escolar
Violência nas relações de namoro entre adolescentes: Avaliação do impacto de um
programa de sensibilização e informação em contexto escolar
Rosa Saavedra* e Carla Machado**
*Associação Portuguesa de Apoio à Vítima;
**Escola de Psicologia, Universidade do Minho
Correspondência
ABSTRACT
This paper presents the evaluation of the impact of a preventive action about
violence in dating relationships, conducted in a secondary school context. This
action was composed by three sessions, 90 minutes each one, and involved 578
students from 15 schools in the north of Portugal. All students filled, before
and after the intervention, self-report questionnaires about their attitudes
toward physical, psychological and sexual violence in dating relationships and
about the conflict resolution strategies they use with their intimate partners.
Results showed that the intervention reduced violent prone attitudes, but had
no impact in the conflict resolution strategies used by the participants. These
results can be due to the fact that the program had a brief duration and a more
informative than behavioral orientation. The question of the differential
impact of such programs by gender did not provide, in this study, conclusive
results.
Key-words:Dating violence, Impact assessment, Prevention.
INTRODUÇÃO
Nas últimas três décadas, as estratégias de prevenção dirigidas à violência nos
relacionamentos íntimos (referenciada na literatura como partner violenceou
intimate partner violence) adoptaram uma linha de intervenção sobretudo
reactiva, numa lógica de combate contra um problema inequivocamente grave
(e.g., Atkinson, Indermaur, & Blagg, 1998; Hammond, Whitaker, Lutzker,
Mercy, & Chin, 2006; Matos, 2002; Schewe, 2002; Wolfe & Jaffe, 1999)
mas focando-se, sobretudo, nas relações estabelecidas pela população adulta
(Whitaker, Morrison, Lindquist, Hawkins, O'Neil, Nesius, Mathew, &
Reese, 2006).
A violência no namoro tem visto, contudo, mais recentemente, a atenção de
muitos profissionais e investigadores dirigida sobre si, não apenas pela
frequência que parece assumir dentro dos relacionamentos íntimos - alguns
autores referem taxas de prevalência entre 12% e 59.1% (cf. Jackson, Cram,
& Seymour, 2000)1 - e pelo impacto que causa nas suas vítimas mas,
sobretudo, por ser considerada um forte preditor da violência nas relações de
conjugalidade (e.g., Wekerle & Wolfe, 1999). Um estudo efectuado por
O'Leary (1989, citado por Cleveland, Herrera, & Stuewig, 2003), em
que este acompanhou a transição para o casamento de casais com experiências de
abuso físico nas relações de namoro e verificou que cerca de metade relatavam a
continuidade dessas experiências após o casamento, parece corroborar esta
ideia. Outros estudos de carácter retrospectivo com mulheres batidas na
conjugalidade denunciam também experiências precoces de violência (cf.
Cleveland et al., 2003).
Em Portugal, num estudo realizado junto de estudantes universitários (Machado,
Matos, & Moreira, 2003), 15% dos sujeitos avaliados referiram ter sido
vítimas, durante o último ano, de pelo menos um acto abusivo perpetrado pelo
namorado/a e 27% dos inquiridos assumiram ter adoptado condutas violentas
dirigidas aos seus parceiros. Apesar de os actos mais frequentemente referidos
se tratarem de formas aparentemente menos graves de violência (actos como
"insultar, difamar ou fazer afirmações graves para humilhar ou
ferir"), comportamentos mais graves como "actos sexuais contra a
vontade", "murros", "pontapés" ou
"cabeçadas", entre outros, também estavam presentes, com
percentagens a variar entre os 2.1% e 0.3%. A corroborar a necessidade de
focalizar a atenção na violência que tem lugar nas relações juvenis de
intimidade, no mais recente estudo realizado em Portugal no domínio da
violência no namoro, com uma amostra de 4667 estudantes do ensino secundário,
do ensino profissional e do ensino superior, 25.4% dos jovens, entre os 13 e os
29 anos, referiram ter sido vítimas de violência na sua relação de namoro
durante o último ano (Machado, Caridade, & Martins, 2009).
Outro elemento relevante abordado nestes dois estudos relaciona-se com a
relação entre as atitudes de minimização ou legitimação da violência e os
comportamentos de vitimação e de agressão. Crenças erradas acerca da violência
parecem promover a culpabilização da vítima, a desresponsabilização do agressor
e ser importantes preditores do envolvimento em relacionamentos abusivos
(ibidem).
Estes dados, associados ao facto de alguns estudos correlacionarem
positivamente a duração da relação com índices mais elevados de severidade e de
frequência da violência (Hamberg, Holtzworth, & Monroe, 1994, citados por
Caridade & Machado, 2006) impelem a que os esforços de prevenção devam
iniciar-se o mais precocemente possível.
Analisaremos de seguida o que tem caracterizado os esforços preventivos neste
domínio.
No final da década de 90, Wekerle e Wolfe (1999) efectuaram uma análise
comparativa de seis programas de prevenção da violência no namoro e concluíram
que todos os programas apresentavam um modelo teórico subjacente,
maioritariamente as perspectivas feministas2 ou a teoria da aprendizagem
social3; a maioria dos programas focava de forma directa a problemática da
violência no namoro; dirigia-se a estudantes do ensino secundário; a
intervenção era feita no contexto escolar, na comunidade ou numa modalidade
mista; a lógica de intervenção era sobretudo universal, embora dois programas
efectuassem uma intervenção selectiva, seleccionando uma população de risco
(e.g., com história passada de violência familiar); as intervenções eram
conduzidas em grupo, por um ou mais facilitadores treinados para o efeito; e a
duração destas variava entre 1 e 20 horas.
Mais recentemente, Whitaker e colaboradores (2006) efectuaram uma análise
comparativa de onze programas de prevenção e reiteraram a associação da base
teórica das intervenções às teorias feministas e à teoria de aprendizagem
social, o carácter sobretudo universal dos programas, a sua realização em
contexto escolar, a sua curta duração (apenas três programas apresentavam uma
duração superior a 5 horas) e a condução da intervenção predominantemente pelos
professores (em seis dos onze programas), depois de alguma formação para este
efeito (a descrição dos programas é, em geral, omissa no que concerne ao
detalhe dos conteúdos desta formação).
Apesar de a maioria dos programas descritos utilizar designsexperimentais,
segundo os autores, a sua qualidade era bastante reduzida, fundamentalmente em
virtude dos curtos períodos de follow-upe da falta de instrumentos
estandardizados para a população adolescente. Por outro lado, todos os
programas mediram o impacto da intervenção ao nível dos conhecimentos, atitudes
ou crenças, mas apenas quatro mediram o seu impacto ao nível comportamental.
Esta dificuldade parece, segundo os autores, estar associada, não à falta de
consciência da necessidade de o fazer, mas à dificuldade em concretizar os
indicadores a utilizar para a obtenção destes dados. Algumas das alternativas
apresentadas relacionam-se com a possibilidade de aceder aos relatos do
agressor através dos relatos da vítima. Contudo, a volatilidade dos
relacionamentos de namoro poderá ser uma condicionante nesta análise (Whitaker
et al., 2006).
Outra crítica resultante desta revisão resulta da percepção de que, apesar de
todos os programas apresentarem a teoria da aprendizagem social como base da
sua intervenção, e sendo a aquisição de novas competências um dos seus
objectivos primordiais, nenhum deles contemplava esta componente na sua
avaliação. A questão da avaliação surge, desta forma, como um problema comum e
muito significativo destes programas. De facto, de acordo com Schewe (2002),
apesar de na última década muitas escolas terem dedicado algum espaço à
realização de programas de prevenção em diversas áreas da violência, a
preocupação com a eficácia destas mesmas intervenções só mais recentemente
mereceu igual atenção. E isto porque aparentemente "documentar o sucesso
da intervenção na violência é muito mais difícil do que documentar a existência
de violência"(ibidem, p. 4). Assim, apesar do investimento percebido ao
nível da execução e proliferação destas dinâmicas preventivas, a avaliação da
eficácia dos resultados parece continuar a ser o "calcanhar de
Aquiles" destes esforços.
Em Portugal, com base numa recolha de programas efectuada em 2007 (Saavedra
& Machado, no prelo), a amostra de programas de prevenção de que dispomos
neste domínio é bastante restrita, sobretudo tendo em conta o número de
entidades e serviços que se dedicam à intervenção na violência doméstica/
íntima. Num universo de oitenta e três serviços referidos no Guia de Recursos
na Área da Violência Doméstica(Estrutura de Missão contra a Violência
Doméstica, 2006) como sendo Estruturas de Atendimento Especializado da Rede
Nacional de Atendimento para Vítimas de Violência Doméstica, e contactados
através de questionário, apenas foram identificadas seis iniciativas de
prevenção da violência na intimidade juvenil.
Apesar desta escassez de acções, os dados obtidos a partir deste levantamento
corroboram algumas das reflexões internacionais neste domínio (e.g., esforços
de curta duração, em contexto escolar, com problemas ao nível da avaliação),
com a agravante de os esforços de prevenção em Portugal serem sobretudo
realizados por ONG, sendo que a sua execução está, de um modo geral, dependente
de financiamentos extraordinários, tornando estas iniciativas algo de pontual.
Acresce que a maioria dos resultados faz parte apenas do espólio das
instituições, não havendo publicação ou disseminação destes (Saavedra &
Machado, no prelo).
Em suma, os dados disponíveis sobre a prevalência da violência nas relações
juvenis de intimidade justificam a necessidade premente da sua prevenção no
nosso país. Importa, porém, conhecer e avaliar de forma aprofundada os esforços
nacionais e internacionais já desenvolvidos neste domínio, de forma a procurar,
por um lado, preencher as lacunas e evitar a repetição de erros já
identificados e, por outro, disseminar e replicar as boas práticas. O estudo
que aqui apresentamos visa, precisamente, contribuir para a avaliação de um
destes programas.
OBJECTIVOS DO ESTUDO
O Projecto IUNO II - sensibilização e informação sobre violência
doméstica e sexualfoi promovido pela Associação Portuguesa de Apoio à Vítima
(APAV) e aprovado pela Comissão para a Cidadania e Igualdade de Género (CIG),
no âmbito Programa Operacional Emprego, Formação e Desenvolvimento Social
(POEFDS) - Medida 4.4. Tipologia de Intervenção 4.4.3.1 Pequena Subvenção
às ONG.Foi implementado em contexto escolar, entre 1 de Setembro de 2005 e 31
de Dezembro de 2006.
Os objectivos gerais desta intervenção foram três: (1) criar um espaço que
permitisse a sensibilização e a informação acerca de questões relacionadas com
a violência física, psicológica e sexual nos relacionamentos de namoro; (2)
estimular os adolescentes na procura e valorização das suas competências e
aptidões nos domínios pessoal e comportamental, promovendo uma atitude
responsável de minimização dos fenómenos referidos; e (3) implementar e testar
a eficácia de uma intervenção desta natureza ao nível das atitudes e
comportamentos dos alunos.
Relativamente às expectativas face aos resultados desta intervenção, estas
eram, essencialmente, as seguintes: (1) promover atitudes mais realistas e
informadas do grupo-alvo em relação ao fenómeno da violência do namoro, nas
suas dimensões física, psicológica e sexual; (2) diminuir a concordância com
atitudes de legitimação da violência física, psicológica e sexual nas relações
de namoro; (3) aumentar a utilização de estratégias de resolução de conflitos
positivas e não abusivas.
METODOLOGIA
Descrição da intervenção
Esta intervenção foi desenvolvida ao longo de três sessões de 90 minutos cada,
realizadas com um intervalo de duas semanas. No plano teórico, adoptou uma
combinação de modelos:
a) uma abordagem educativa, que procurou contribuir para um melhor conhecimento
do grupo relativamente à problemática, ao seu impacto físico, psicológico e
social, aos principais recursos comunitários disponíveis para quebrar o ciclo
de violência e à identificação de comportamentos não violentos de resolução de
conflitos;
b) uma componente socio-cognitiva, que incidiu na valorização da compreensão
social e cultural do fenómeno através do desafio de atitudes de legitimação/
minimização da violência nos relacionamentos de namoro e da compreensão do
impacto que as crenças acerca dos papéis de género podem desempenhar nas
atitudes e comportamentos nos relacionamentos íntimos. Da teoria feminista,
foram seleccionados dois conceitos explicativos da violência: a
"desigualdade de poder" e "o controlo", ainda que sem
recorrermos ao conceito de violência de género, ou seja, sem identificarmos a
violência como associada a uma estrutura patriarcal e sem a tipificarmos como
sendo predominantemente exercida pelos homens contra as mulheres.
Os tópicos abordados nas sessões estão sumariamente descritos na Tabela_1.
Relativamente à duração da intervenção, experiências anteriores compostas por
duas sessões4 fundamentaram a nossa convicção da necessidade de adicionar uma
sessão mais prática ao programa, em que os alunos fossem convidados a planear,
apoiando-se na sistematização dos conteúdos anteriormente abordados,
estratégias de prevenção passíveis de ser implementadas na sua escola (e.g.,
exposição de cartazes e folhetos acerca das problemáticas em análise). Apesar
de o IUNO II se manter como uma intervenção de curta duração (duração total:
4.5 horas), esta estrutura em três sessões permitiu abordar com alguma
especificidade os conceitos de violência física, psicológica e sexual. A
importância deste debate detalhado das diferentes formas de violência foi
reforçada por um estudo recente acerca das significações atribuídas pelos
adolescentes à violência na intimidade, em que é percebida a sua relutância em
admitir actos de violência sexual no âmbito de relacionamentos íntimos,
considerando-os como actos não consentidos, mas não como actos de violência
(Caridade, 2009).
Por outro lado, ainda no que à duração diz respeito, quando a intervenção tem
lugar em contexto escolar, como neste exemplo, é relativamente simples obter a
concordância e apoio logístico das escolas para a realização de acções cuja
duração não seja demasiado comprometedora do funcionamento do calendário
escolar e do programa curricular. Pelo contrário, uma acção de média ou longa
duração exigiria uma conquista de um espaço na escola e no programa educativo
nem sempre possível de negociar.
Esta implementação foi assegurada por uma equipa multidisciplinar de três
técnicos5 da Associação Portuguesa de Apoio à Vítima, com formação nas áreas do
Direito, Psicologia e Ciências da Educação e com experiência e/ou formação no
apoio a vítimas de crime e no trabalho de sensibilização e informação com
crianças e jovens.
Procurámos facilitar o processo de transferência de informação através da
utilização de estratégias de brainstorming,projecção de conteúdos em
powerpoint,debate em grupo, e elaboração por parte dos alunos de materiais de
informação, como folhetos ou cartazes, com vista à prevenção do fenómeno. Com o
intuito de desafiar estereótipos de género associados a esta problemática e de
desconstruir imagens de culpabilização da vítima e desresponsabilização do
agressor, foram discutidos dois casos práticos.
Amostra
O Projecto IUNO II - sensibilização e informação sobre violência
doméstica e sexual, foi desenvolvido ao longo de 16 meses, em quinze escolas de
concelhos do norte de Portugal (Matosinhos, Santo Tirso, Vila Nova de Gaia,
Vila do Conde, Paços de Ferreira, Porto, Paredes, Espinho, Santa Maria da Feira
e Oliveira de Azeméis), envolvendo 578 alunos. O projecto interveio também
junto dos auxiliares de acção educativa e profissionais de educação, ainda que
os resultados apresentados neste texto digam respeito apenas à amostra dos
alunos.
A amostra total deste estudo foi composta por um grupo experimental e um grupo
de controlo. O grupo experimental (GE) integrou os 578 alunos já referidos, com
idades compreendidas entre os 14 e os 21 anos (M=16.4; SD=1.32), sendo 314
(54.3%) do sexo feminino e 264 (45.7%) do sexo masculino. Dos 578 alunos que
compuseram a amostra inicial, apenas 313 completaram as três fases de avaliação
(pré-teste, pós-teste e follow-up). A mortalidade de parte da amostra inicial
esteve associada a três causas: à dificuldade em emparelhar os questionários
preenchidos pelos alunos (devido ao preenchimento incorrecto de vários
questionários); à existência de questionários não preenchidos na sua totalidade
e que por essa razão foram eliminados; e também porque em algumas escolas a
implementação tardia e muito próxima do final do ano lectivo impediu a recolha
de dados de follow-up.
O grupo de controlo (GC) foi composto por 145 sujeitos, com idades
compreendidas entre os 13 e os 20 anos (M=16.6; SD=1.13), sendo 78 (53.8%) do
sexo feminino e 67 (46.2%) do sexo masculino.
A diferença de idades entre o grupo experimental e o grupo de controlo não era
significativa [t(718)=-0.820, p>.05], assim como também não eram significativas
as diferenças verificadas na variável sexo [χ2(723)=-.013, p>.05].
Com vista a minimizar a desvantagem imposta ao grupo de controlo, em virtude da
sua não inclusão nas dinâmicas de intervenção previstas neste projecto, após a
aplicação do "pós-teste", foi realizada junto do mesmo uma acção de
sensibilização de sessão única, com duração de 90 minutos, sobre a violência
nas relações de namoro entre adolescentes. Face às limitações temporais
associadas ao final de ano lectivo, não foi possível adiar a realização desta
curta intervenção, o que impossibilitou a recolha de dados de follow-upque
pudessem ser comparados com os valores de follow-updo grupo experimental.
Instrumentos
A selecção dos instrumentos de avaliação utilizados teve a preocupação de
escolher materiais especificamente concebidos para a população adolescente,
nomeadamente ao nível da linguagem utilizada e das situações de conflito
relacional apresentadas.
Assim, para conhecer as atitudes dos adolescentes face à utilização de
violência nas relações de namoro utilizámos a "Escala de atitudes acerca
da violência no namoro" (EAVN), uma tradução e adaptação autorizada das
Attitudes Toward Dating Violence Scales(Price & Byers, 1999; Price, Byers,
Scars, Whelan, Saint-Pierre, & The Dating Violence Research, 2000),
validada pelas autoras para a população portuguesa (Saavedra, Machado, &
Martins, no prelo). Na sua versão adaptada, tal como na original, a escala é
composta por 76 itens e seis subescalas - (1) Atitudes acerca da
violência psicológica masculina, (2) Atitudes acerca da violência física
masculina, (3) Atitudes acerca da violência sexual masculina, (4) Atitudes
acerca da violência psicológica feminina, (5) Atitudes acerca da violência
física feminina e (6) Atitudes acerca da violência sexual feminina - ,
cujos níveis de alphade Cronbach variam entre 0.7 e 0.8 e que permitem avaliar
as atitudes acerca da violência física, psicológica e sexual no contexto das
relações de namoro, seja esta perpetrada por rapazes seja por raparigas. As
três alternativas de resposta expressam o nível de concordância ou discordância
com cada um dos itens (1=discordo; 2=não concordo nem discordo; 3=concordo).
Para a avaliação do impacto das sessões nos comportamentos de resolução de
conflitos foi aplicado o "Inventário de conflitos nas relações de namoro
entre adolescentes" (ICRNA). Este instrumento de auto-relato é uma
tradução e adaptação autorizada do Conflict in Adolescent DatingRelationships
Inventory(Wolfe, Scott, Reitzel-Jaffe, Wekerle, Grayley, & Straatman,
2001), também validado pelas autoras para a população Portuguesa (Saavedra,
Machado, Martins, & Vieira, 2011). Na sua versão adaptada, tal como na
original, o inventário é composto por duas dimensões: numa primeira dimensão,
com 35 itens, é avaliada a utilização pelo respondente de estratégias de
resolução de conflitos abusivas ou não abusivas; numa segunda dimensão, também
composta por 35 itens, é avaliada a utilização de estratégias de resolução de
conflitos abusivas ou não abusivas por parte do(a) namorado(a) de quem responde
ao questionário. As estratégias de resolução de conflitos abusivas referem-se à
utilização de alguma forma de comportamento violento, enquanto as estratégias
positivas ou não abusivas procuram a resolução da disputa sem recurso a
comportamentos agressivos ou violentos. Assim, cada parte do questionário é
composta pelos mesmos dois factores, revelados através da análise factorial dos
dados, a saber: (1) estratégias de resolução de conflitos positivas ou não
abusivas, e (2) estratégias de resolução de conflitos abusivas. O valor da
consistência interna do inventário obtido no estudo de validação conduzido em
Portugal, avaliado pelo alphade Cronbach, foi de 0.90, tratando-se, pois, de um
instrumento com um elevado nível de consistência interna. As alternativas de
resposta indicam a frequência do comportamento (Nunca: isto nunca aconteceu no
teu relacionamento; Raramente: isto aconteceu 1-2 vezes no teu relacionamento;
Às vezes:isto aconteceu 3-5 vezes no teu relacionamento; Frequentemente: isto
aconteceu mais do 6 vezes no teu relacionamento).
O questionário é preenchido apenas por um indivíduo, relativamente aos seus
comportamentos e àqueles de que é alvo por parte do outro elemento da sua díade
amorosa. Afere ainda a ocorrência de formas específicas de abuso, como o
comportamento ameaçador, o abuso físico, o abuso sexual, o abuso emocional ou
verbal e o abuso relacional.
Finalmente, com vista a avaliar o nível de satisfação dos alunos relativamente
à intervenção, foram aplicados no final da terceira sessão questionários de
satisfação referentes aos conteúdos e dinâmicas utilizadas.
Procedimentos
No grupo experimental, os questionários foram aplicados pela equipa de técnicos
do projecto junto dos alunos que participaram nas acções de sensibilização e
informação, em três fases distintas: pré-teste, pós-teste e follow-up.Os
procedimentos de administração foram uniformizados e treinados. Os sujeitos
foram informados acerca do carácter voluntário do preenchimento dos
questionários, bem como sobre o facto de os dados recolhidos serem
absolutamente confidenciais. Reforçou-se a não existência de respostas certas
ou erradas, salientando-se a importância da opinião pessoal relativamente às
afirmações apresentadas.
O pré-testefoi aplicado cerca de duas semanas antes da realização das acções, o
pós-testeno final da terceira sessão e o follow-upentre três a quatro meses
após a finalização da intervenção.
No grupo de controlo, os questionários foram aplicados apenas nos momentos pré-
teste e pósteste,em virtude das dificuldades já elencadas para a condução do
follow-up, mas com um intervalo de tempo equivalente ao do grupo experimental.
RESULTADOS
Apresentaremos de seguida os resultados referentes ao impacto da intervenção
nas atitudes de legitimação da violência nas relações de namoro e nas
estratégias de resolução de conflitos nos relacionamentos amorosos. Começaremos
por analisar os resultados referentes às atitudes, primeiro comparando os
diferentes momentos da intervenção e depois analisando estes em função do
género. De seguida, analisaremos os resultados a nível comportamental, também
em função dos diferentes momentos de avaliação e do género.
Resultados ao nível das atitudes
Impacto da intervenção
De seguida, serão apresentados os dados relativos ao impacto da intervenção.
Começaremos por estabelecer a comparação entre os dados do grupo experimental e
do grupo de controlo no pré e no pós-teste. Posteriormente, apresentaremos uma
análise mais detalhada dos resultados do grupo experimental (comparando os três
momento de avaliação realizados) e do grupo de controlo (comparando apenas pré
e pós-teste).
Os resultados sistematizados na Tabela_2 permitem-nos comparar as atitudes do
grupo experimental e do grupo de controlo relativamente à violência física,
psicológica e sexual, exercida por rapazes e raparigas nos relacionamentos de
namoro, no pré-teste e no pós-teste.
Verificamos que não existiam diferenças significativas entre o grupo
experimental e o grupo controlo no pré-teste, nem na nota total [t(598)=1.725,
p>.05] nem em quatro das seis subescalas que integram o questionário [VFM: t
(665)=1.885, p>.05; VSM: t(697)=1.516, p>.05; VFF: t(666)=.497, p>.05; VSF: t
(665)=-.751, p>.05]. Existiam, no entanto, diferenças significativas nas
subescalas de legitimação da violência física masculina [t(216.786)=3.405,
p<.05] e na legitimação da violência psicológica feminina (t(698)=2.384,
p<.05), em ambos os casos superiores no grupo experimental.
Apesar destas duas diferenças no pré-teste, considerámos justificada a
utilização deste grupo de controlo, pelas seguintes razões: (1) o facto de a
diferença entre grupos no valor da nota total não ser estatisticamente
significativa, (2) o facto de a diferença entre o grupo experimental e de
controlo não ser significativa na maioria das subescalas do questionário, e (3)
o facto de nos dois casos em que existem diferenças, os valores de tolerância
do grupo experimental serem, em pré-teste, superiores ao do grupo de controlo,
não colocando o segundo em desvantagem clara em relação ao primeiro.
Como podemos também ver na Tabela_2, no pós-teste o grupo experimental e de
controlo apresentaram diferenças estatisticamente significativas em todas as
escalas, à excepção da referente à legitimação da violência sexual masculina
[VSM: t(599)=-1.487, p>.05]. Essas diferenças foram todas no sentido da maior
elevação dos valores de legitimação das diferentes formas de violência no grupo
de controlo [nota total: t(529)=-2.080, p<.05; VPM: t(183.612)=-2.546, p<.05;
VFM: t(180.382)=-2.468, p<.05; VPF: t(186.686)=-3.803, p<.05; VFF: t(170.863)=-
3.914, p<.05; VSF: t(176.114)=-2.869, p<.05].
Apresentamos de seguida (cf. Tabela_3) uma análise mais detalhada do impacto da
intervenção no grupo experimental, comparando os resultados atitudinais nos
três momentos de avaliação: pré-teste, pós-teste e follow-up.
Os resultados da análise estatística realizada (ANOVA para medidas repetidas)
apontam para a existência de diferenças estatisticamente significativas entre
os resultados recolhidos nas diferentes fases de aplicação dos
questionários.Verificou-se após a intervenção uma diminuição das atitudes
legitimadoras da violência, quer a um nível mais global, expressa através dos
valores da nota total [F(1.889, 464.738)=135.380, p<.001], quer ao nível dos
diferentes factores: violência psicológica masculina [F(1.923, 471.147)=70.671,
p<.001], violência física masculina [F(2, 490)=20.341, p<.001], violência
sexual masculina [F(1.967, 481.898)=43.465, p<.001], violência psicológica
feminina [F(2, 490)=80.540, p<.001], violência física feminina [F(1.884,
461.493)=69.328, p<.001) e violência sexual feminina [F(1.750, 428.654)=54.332,
p<.001].
Analisando o impacto da intervenção a médio prazo, através da comparação entre
o pós-teste e o follow-up,verifica-se uma manutenção do impacto (ausência de
diferenças estatisticamente significativas) nas escalas de atitudes acerca da
violência exercida pelos rapazes e nas escalas de violência física e sexual
feminina. Já nas escalas de violência física feminina e na nota global existem
diferenças significativas entre estes dois momentos de avaliação [VFF: F(1,
245)=8.851, p<.05; nota total: F(1,245)=7,537, p<.05], com um aumento das
médias de legitimação no follow-up.Note-se, contudo, que apesar deste acréscimo
as diferenças do follow-uppara o pré-teste permanecem significativas (cf.
Tabela_3).
Por sua vez, os resultados do teste tpara amostras emparelhadas realizado com o
grupo de controlo (cf. Tabela_4) apontam para ausência de diferenças
significativas entre os resultados recolhidos nas duas aplicações,
correspondentes aos momentos de pré-teste e pós-teste no grupo experimental.
Apesar de se verificarem variações nos valores médios entre os dois momentos de
avaliação, estas não foram estatisticamente significativas, nem a um nível mais
global, traduzido pela nota total [t(80)=1.825, p>.05], nem ao nível dos
diferentes factores: violência psicológica masculina [t(113)=1.935, p>.05]
violência física masculina [t(117)=-1.762), p>.05], violência sexual masculina
[t(94)=.871, p>.05], violência psicológica feminina [t(119)=.634, p>.05],
violência física feminina [t(113)=1.894, p>.05] e violência sexual feminina [t
(117)=.763, p>.05].
Impacto da intervenção em função do género no grupo experimental
Na Tabela_5 podemos verificar que os níveis de acordo dos rapazes com as
crenças legitimadoras da violência são, de um modo geral, superiores e
significativamente diferentes dos das raparigas nos três momentos de análise.
Contudo, a análise individualizada dos resultados por género, permite-nos
confirmar que o impacto da intervenção, com base na evolução dos resultados, é
significativo para ambos os géneros (cf. Tabela_6)
Quando comparamos, para cada género, o impacto da intervenção realizada,
constatamos que, quer nos rapazes quer nas raparigas, se verificam diferenças
estatisticamente significativas entre os diferentes momentos de avaliação
[feminino: F(1.867,276.382)=87.346, p<.001; masculino: F(1.872,
179.667)=55.702, p<.001]. A comparação múltipla dos dados permite confirmar a
diminuição estatisticamente significativa do acordo com atitudes legitimadoras
da violência, imediatamente após a intervenção, em ambos os géneros. A médio
prazo verifica-se uma ligeira elevação dos valores, também em ambos os géneros,
apesar de em nenhum dos casos se aproximarem significativamente dos resultados
iniciais (a diferença entre as médias do pré-teste e do follow-upé sempre
estatisticamente significativa, reforçando a tendência para a manutenção dos
resultados da intervenção realizada, pelo menos a médio-prazo). Note-se,
contudo, que a manutenção dos resultados no follow-upparece mais sólida no caso
das raparigas, já que nestas a diferença verificada entre pós-teste e follow-
upnão é significativa, ao contrário do constatado nos rapazes.
Resultados ao nível comportamental
Impacto da intervenção
As Tabelas 7 e 8 procuram sistematizar a comparação do grupo experimental (GE)
e do grupo de controlo (GC), nos dois momentos de avaliação (pré e pós-teste).
Os dados da Tabela_8 confirmam a inexistência de diferenças significativas
entre o grupo experimental e o grupo de controlo na utilização de estratégias
positivas ou não abusivas de resolução de conflitos, no momento prévio à
intervenção, quer ao nível das estratégias adoptadas pelo próprio [t
(578)=-.678, p>.05], quer ao nível das estratégias adoptadas pelo outro [t
(571)=-1.287, p>.05]. Esta ausência de diferenças mantém-se no momento do pós-
teste [estratégias adoptadas pelo próprio: t(401)=.573, p>.05; estratégias
adoptadas pelo outro: t(391)=-.053, p>.05].
Estes resultados repetem-se relativamente às diferenças entre o grupo
experimental e o grupo de controlo na utilização de estratégias de resolução de
conflitos abusivas: ausência de diferenças antes da intervenção [estratégias do
próprio: t(584)=-1.606, p>.05;estratégias do outro: t(570)=-1.379, p>.05] e
também após a intervenção [estratégias do próprio: t(401)=-1.242, p>.05;
estratégias do outro: t(149.371)=-1.507, p>.05].
Passamos de seguida a analisar mais especificamente a evolução de cada grupo ao
longo dos diferentes momentos da avaliação (cf. Tabela_8). Nesta tabela não
serão apresentados dados de follow-up, nem para o grupo experimental, nem para
o grupo de controlo. Tal como já foi anteriormente explicado, relativamente ao
grupo de controlo, em virtude dos condicionamentos impostos pelo final do ano
lectivo e pela necessidade de realizar uma acção de sensibilização, não foi
possível recolher dados de follow-up.Quanto ao grupo experimental, foi
presumido que, sendo o intervalo de tempo decorrido entre o início e o final da
intervenção de apenas 45 dias, e avaliando o questionário comportamentos
sucedidos ao longo do último ano, a avaliação imediata após a última sessão não
permitiria detectar as eventuais mudanças comportamentais ocorridas. Por isso,
a avaliação de pós-teste comportamental foi realizada cerca de 4 meses após a
intervenção, no mesmo momento em que foi efectuado o follow-uprelativamente às
atitudes.
No que concerne ao impacto da intervenção no grupo experimental quanto à
adopção de estratégias positivas de resolução de conflitos, as diferenças
verificadas entre o momento anterior e posterior à intervenção apenas são
estatisticamente significativas no relato das estratégias positivas ou não
abusivas adoptadas pelo outro [t(267)=-2.050, p<.05]. No grupo de controlo, em
nenhum dos factores foram percebidas diferenças significativas entre o
"pré-teste" e o "pós-teste" (cf. Tabela_8).
Relativamente ao impacto na utilização de estratégias abusivas adoptadas pelo
próprio, os dados revelam a inexistência de diferenças estatisticamente
significativas entre o pré-teste e o pós-teste, quer no grupo de controlo [t
(92)=.619, p>.05], quer no grupo experimental [t(281)=.730, p>.05] (cf. Tabela
8).
Impacto da intervenção em função do género
A Tabela_9 compara os resultados obtidos em função do género dos participantes,
nos diferentes momentos da intervenção.
Como podemos ver na Tabela_9, numa fase anterior à intervenção, a utilização
das estratégias de resolução de conflitos positivas ou não abusivas pelo
próprio e pelo outro, por parte dos rapazes e das raparigas, diferia
significativamente [respectivamente t(469)=2.462, p<.05 e t(464)=3.140, p<.05].
As raparigas relatavam uma maior utilização de estratégias positivas ou não
abusivas do que os rapazes, ao mesmo tempo que também mais facilmente
identificavam no seu parceiro a utilização destes comportamentos. Após a
intervenção, estas diferenças deixaram de ser estatisticamente significativas.
Por sua vez, também previamente à intervenção existiam diferenças
estatisticamente significa tivas entre rapazes e raparigas, quer no relato das
estratégias de resolução de conflitos abusivas utilizadas pelo próprio [t
(476.303)=3.156, p<.001], quer no relato das estratégias abusivas utili zadas
pelo outro [t(417.501)=2.429, p<.05]. As raparigas relatavam maior utilização
pessoal de estratégias abusivas, ao mesmo tempo que denunciavam também uma
maior utilização de estratégias abusivas pelos seus parceiros. Tal como nos
dados relatados na tabela anterior, após a intervenção estas diferenças
dissiparam-se, deixando de ser significativas.
Finalmente, a Tabela_10 apresenta a evolução dos resultados de cada género ao
longo da intervenção.
Os dados sistematizados na Tabela_10 permitem perceber uma elevação
significativa, após a intervenção, na identificação pelos rapazes de
estratégias de resolução de conflitos positivas ou não abusivas adoptadas pelas
suas parceiras [t(94)=-2.449, p<.05]. Relativamente aos restantes factores,
apesar das pequenas variações encontradas, verifica-se que, para nenhum dos
géneros, ocorrem mudanças significativas após a intervenção.
Em suma, de um modo geral há diferenças de género no momento prévio à
intervenção, mas não há diferenças ao nível do impacto da mesma.
DISCUSSÃO DOS RESULTADOS
No que concerne à mudança de atitudes, os resultados a curto e a médio prazo da
intervenção realizada pelo Projecto IUNO II são, de algum modo, encorajadores.
De facto, e apesar de os adolescentes se mostrarem, na generalidade,
previamente intolerantes face à utilização de comportamentos de violência
física, psicológica ou sexual nos seus relacionamentos, podemos considerar que
esta intervenção, ainda que provavelmente coadjuvada por outros factores (e.g.,
outras acções de informação e sensibilização desenvolvidas na escola ou na
comunidade, o papel dos pares na censura de determinados comportamentos,
experiências pessoais durante o período em análise), terá contribuído para a
diminuição das atitudes de tolerância dos adolescentes face a determinados
comportamentos abusivos nas relações íntimas e a um reforço da sua intolerância
face a outros.
Ainda assim, importa referir que os rapazes apresentaram níveis
significativamente mais elevados de tolerância às diferentes formas de
violência, quer estas fossem perpetradas por rapazes ou por raparigas. Esta
superior legitimação tem sido encontrada em diferentes estudos e por diferentes
autores (e.g., Katz, Kuffel, & Coblentz, 2002; Machado et al., 2009; Matos,
Machado, Caridade, & Silva, 2006), e tem sido explicada, nomeadamente, pelo
facto de os rapazes serem socializados no sentido de uma maior agressividade
nos seus relacionamentos interpessoais. Contudo, esta diferença não condicionou
o impacto da intervenção a nível atitudinal, sendo este significativo quer na
amostra de rapazes, quer na amostra de raparigas.
Em nosso entender, para este resultado poderão ter contribuído algumas das
actividades desenvolvidas junto do grupo (informação acerca do tema, discussões
de grupo, desafio de mitos), mas também o permanente esforço efectuado em não
identificar, ao longo da intervenção, um perfil de agressor como pertencente ao
género masculino e um perfil de vítima como pertencente ao género feminino,
diminuindo a potencial resistência dos rapazes à intervenção.
Os dados do impacto da intervenção relativamente às mudanças de comportamento
já não são tão encorajadores, uma vez que os resultados esperados ao nível do
aumento da utilização de estratégias positivas de resolução de conflitos e ao
nível da diminuição da utilização de estratégias abusivas não se verificaram.
Todavia, a experiência internacional dos programas de prevenção realizados
nesta área, fazia já antecipar que a mudança de comportamentos seria um
objectivo mais difícil de atingir do que a mudança de atitudes (Whitaker et
al., 2006).
Estes resultados podem também estar associados com características inerentes à
própria intervenção, como o facto de ter uma duração breve e uma orientação
mais informativa do que comportamental. Na verdade, apesar de terem sido
discutidas algumas estratégias de resolução de conflitos, através da
apresentação de casos práticos, não podemos considerar que tenha existido um
efectivo treino de competências de resolução de conflitos.
Finalmente, as próprias características do instrumento de avaliação poderão ser
responsáveis pela não identificação de mudanças. Efectivamente, o inventário de
comportamentos utilizado questiona os alunos acerca dos comportamentos
ocorridos nas suas relações de namoro durante o último ano. Ora, se a segunda
administração do questionário acontece num período inferior a um ano, como foi
o caso, poderia acontecer um aumento, mas seria pouco provável que ocorresse
uma diminuição significativa do número de comportamentos anteriormente
elencados. Por outro lado, a volatilidade associada aos relacionamentos de
namoro pode ser limitadora da validade da informação dada pela vítima
relativamente ao agressor, uma vez que a díade poderá ter mudado no intervalo
de tempo decorrido entre a primeira e a segunda recolha de informação.
No que concerne às diferenças comportamentais em função do género, os dados
recolhidos na fase anterior à intervenção revelam um padrão assimétrico: as
raparigas relatam maior utilização de estratégias abusivas, ainda que, também
em maior grau, considerem que os seus parceiros fazem uso destas estratégias;
por outro lado, no que se refere à utilização de estratégias positivas ou não
abusivas de resolução de conflitos, também se distinguem dos rapazes, relatando
mais estratégias de resolução de conflitos positivas, quer usadas por si quer
pelos seus namorados.
De um modo geral, os estudos nacionais e internacionais conduzidos neste
domínio têm corroborado esta tendência de maior relato de agressão por parte
das raparigas, pelo menos no que respeita a actos de menor gravidade (e.g.,
Lewis & Fremouw, 2001; Machado, Matos, & Moreira, 2003; Machado,
Caridade, & Martins, 2009; Magdol, Moffitt, Caspi, Newman, & Fagan,
1997; Paiva & Figueiredo, 2004). As justificações para estes resultados
podem ser diversas: as raparigas serão alvo de menores sanções sociais por
exercerem violência e por isso poderão não ter tanta relutância em assumi-la,
enquanto nos rapazes as pressões sociais limitam e censuram estes
comportamentos e a sua admissão (Avery-Leaf & Cascardi, 2002); por outro
lado, as jovens podem não ter a percepção da gravidade do seu comportamento,
dado o diminuto dano físico causado pelas suas acções, comparativamente com as
dos rapazes (Hickman, Jaycox, & Aronoff, 2004).
Quanto aos valores relatados pelos rapazes, estes podem reflectir a tentativa
de minimizar a adopção de comportamentos agressivos, não os valorizando ou
assumindo, optando por uma resposta socialmente mais desejável e menos passível
de reprovação social (Feiring, Deblinger, Hoch-Espada, & Haworth, 2002). Em
relação à menor utilização de estratégias positivas de resolução de conflitos,
tal poderá estar associado a uma socialização predominantemente agressiva, em
que alternativas não violentas não são tão estimuladas e reforçadas.
Relativamente às mudanças pós intervenção, as diferenças entre rapazes e
raparigas quanto às estratégias de resolução de conflitos tornaram-se
praticamente inexistentes. Estes dados poderão reflectir um superior impacto da
intervenção nos rapazes, superando as diferenças previamente existentes,
sugerindo mesmo que alguns alunos poderão beneficiar mais deste tipo de
programa do que outros. Esta interpretação poderá ser reforçada pelo facto de
ser precisamente no grupo dos rapazes que se verifica a única diferença
significativa entre o pré e o pós-teste, ao nível da capacidade de
identificação de estratégias positivas usadas pelas namoradas. Contudo, a
inexistência de mudanças nas outras escalas sugere que esta possibilidade de
interpretação deve ser cautelosamente tomada e que a questão do impacto
diferencial deste tipo de programas em função do género deve ser alvo de
estudos posteriores.
Em termos gerais, os resultados deste estudo, assentes na comparação de um
grupo experimental e de um grupo de controlo, apontam para a probabilidade de a
intervenção realizada, embora de carácter relativamente breve e com ênfase
informativa/educacional, ter contribuído de forma positiva para a mudança de
atitudes. Contudo, é certo que a mudança de comportamentos não pode ser
presumida a partir da mudança atitudinal (Whitaker et al., 2006) e os dados
deste estudo, de facto, não nos permitem constatar uma mudança comportamental
como resultado da inter venção realizada. Julgamos, assim, fundamental, em
resposta à necessidade de prevenir compor tamentos de risco, mas também de
promover comportamentos positivos nos relaciona mentos, investir na
identificação de modelos de intervenção capazes de promover mudanças ao nível
comportamental e de identificar nos seus componentes, conteúdos, dinâmicas ou
modelos teóricos subjacentes, quais os ingredientes para o impacto positivo nos
comportamentos. Consideramos, a este propósito - e porque a intervenção
aqui avaliada foi claramente insuficiente nesse domínio - que as próximas
abordagens de prevenção deverão incluir um trabalho mais sistematizado e
intensivo ao nível da aprendizagem e treino de competências de assertividade,
resolução de conflitos e tomada de decisão.
Ainda no que diz respeito à avaliação do impacto, consideramos neste momento
que os instrumentos utilizados deveriam ter incluído também a avaliação dos
conhecimentos dos participantes, já que esta era uma das componentes essenciais
desta dinâmica de sensibilização e informação. Salvaguardamos, contudo, que a
última sessão, dedicada à produção de cartazes e de materiais de informação,
nos permitiu formular uma impressão qualitativa sobre os conhecimentos dos
alunos relativamente às formas de violência, impacto e procedimentos de pedido
de ajuda. Também na última sessão foi percebida a reacção positiva dos alunos
face aos conteúdos e dinâmicas utilizadas nas sessões, através do preenchimento
de um questionário de satisfação.
Por outro lado, percebida a violência no namoro como parte de uma
"constelação" de comportamentos de risco que têm lugar na
adolescência e que têm trajectórias de desenvolvimento em tudo semelhantes
(Whitaker et al., 2006), consideramos neste momento fundamental desenvolver
programas com uma abordagem integrada à prevenção dos comportamentos de risco
dos adolescentes. De facto, esta intervenção incidiu fundamentalmente nas
questões relacionadas com as relações de namoro, apesar de incluir também
alguns elementos associados à pressão dos pares. Ainda que, nos 270 minutos
desta acção, fosse impossível abordar outros elementos, ou efectuar uma
articulação com outros comportamentos de risco, consideramos fundamental que
futuros esforços de prevenção, mais alargados no tempo, possam investir numa
abordagem mais integrada da prevenção.
Salientamos, contudo, que esta lógica integrada só será sustentável se fizer
parte de um investimento na prevenção mais continuado. Com este programa,
percebemos que as sessões de curta duração poderão produzir, pelo menos a curto
e a médio prazo, efeitos positivos ao nível da mudança de atitudes, mas estamos
convictos de que a mudança de comportamentos só será atingível através de uma
intervenção mais continuada no tempo. Os exemplos mais conhecidos
internacionalmente são o programa Safe Dates(Foshee et al., 1996, 1998, 2000,
2004, citados por Whitaker et al., 2006), o Youth Relationship Project(Wolfe,
Wekerle, Gough, Reitzel-Jaffe, Grasley, Pittman, Lefebvre, & Stumpf, 1996)
e o The Fourth R(Wolfe, Crooks, Chiodo, Hudges, & Jaffe, 2005), este último
ainda numa fase de experimentação e validação.
A possibilidade deste esforço continuado é, ela própria, um desafio técnico e
institucional. De facto, sabemos que um elemento limitador da continuidade e
investimento por parte das entidades neste tipo de intervenções é a sua
dependência de financiamentos extraordinários, como sejam os fundos
comunitários (Saavedra & Machado, no prelo). O IUNO II, independentemente
da qualidade dos seus resultados e da sua aceitação por parte dos alunos e das
escolas, tinha, à partida, um tempo de início e de fim definido. Findo o
financiamento, a equipa externa que se deslocou às escolas deixou de o poder
fazer. Cumpre, assim, encontrar soluções organizacionais e técnicas que
permitam assegurar a continuidade temporal dos esforços de prevenção e a
capacitação das próprias instituições neste sentido, reduzindo a sua
dependência de equipas exteriores. A reforçar este facto, mais uma vez fazemos
referência à revisão de programas efectuada por Whitaker e colaboradores
(2006), na qual seis dos dez programas realizados em contexto escolar foram
assegurados pelos professores, apesar de também existir um número equiparável
de programas assegurados por elementos da comunidade.
Futuras experiências preventivas deverão também dar continuidade e refinar a
metodologia de avaliação aqui ensaiada. Efectivamente, como já atrás referimos,
um dos erros mais comuns das intervenções realizadas tem sido a inexistência de
grupos de controlo, a ausência de pré-teste, pós-teste e follow-up, os períodos
excessivamente curtos para a aplicação de follow-up, as limitações dos
instrumentos utilizados e a sobrevalorização da avaliação da satisfação dos
sujeitos em detrimento da avaliação do impacto (Saavedra & Machado, no
prelo; Whitaker et al., 2006). Na nossa intervenção procurámos ultrapassar
algumas destas limitações, nomeadamente incluindo um grupo de controlo e
seleccionando instrumentos validados para a população adolescente. Mas
reconhecemos que o período de avaliação de follow-upfoi insuficiente para nos
permitir fazer afirmações mais peremptórias relativamente à eficácia da
intervenção a médio prazo. Por sua vez, a impossibilidade da avaliação de
follow-upno grupo de controlo foi também uma clara limitação deste estudo. Em
futuras intervenções consideramos ainda fundamental aumentar o número de
follow-uprealizados, com vista a aferir o impacto a intervenção também a longo
prazo.
Finalmente, no que ao contexto de intervenção se refere, consideramos que a
opção pela inter venção em contexto escolar tem efectivamente vantagens, na
medida em que possibilita uma abordagem universal, permitindo um fácil acesso a
alunos com características bastante distintas e diminuindo a possibilidade de
gerar situações de estigmatização ou discriminação. Contudo, em algumas
situações poderá ser importante conduzir uma intervenção selectiva, sobretudo
em contextos ou indivíduos que evidenciem a presença de factores de risco
(e.g., já ter sido vítima ou agressor num relacionamento de namoro, ter
experiências familiares de vitimação directa ou vicariante).
CONCLUSÃO
Portugal tem feito um investimento bastante lacunar ao nível da prevenção da
violência nos relacionamentos íntimos. A comprovar esta afirmação, no estudo de
Saavedra e Machado (no prelo), atrás referido, apenas foi identificado um
número residual de iniciativas de informação, sensibilização ou prevenção e,
entre estas, foram verificadas diversas deficiências ao nível da sustentação
teórica da intervenção, da definição de metodologias de avaliação do impacto e
da continuidade dos esforços preventivos realizados.
Neste programa procurámos colmatar algumas destas lacunas, nomeadamente através
da identificação de uma problemática que fosse inequivocamente interessante
para o grupo alvo, ou seja, os relacionamentos de namoro; promovemos o aumento
do tempo de intervenção, com vista a uma discussão mais detalhada dos temas, à
identificação de estratégias de prevenção e de estratégias de resolução de
conflitos positivas e à criação de uma relação de maior proximidade com os
grupos; e incluímos um grupo de controlo. O resultado destes esforços foi o
reconhecimento do contributo deste modelo de intervenção de curta duração na
diminuição das atitudes de legitimação da violência nos relacionamentos, ainda
que não tenha sido confirmado o seu impacto nas estratégias de resolução de
conflitos utilizadas.
Neste sentido, percebida a necessidade de desenvolver esforços mais específicos
para a promoção do impacto ao nível dos comportamentos, reconhecemos a
importância de um investimento, em futuras intervenções, centrado no treino
efectivo de competências e numa avaliação direccionada para a aplicação prática
destas aprendizagens.
Porém, estes propósitos não podem ser dissociados da necessidade de promover
esforços mais continuados no tempo e de encontrar estratégias que permitam a
sua sustentabilidade, nomeadamente através da formação de agentes chave dos
contextos de intervenção - como por exemplo os professores -,
dotando-os de competências e de instrumentos para uma maior autonomia na
prossecução destas iniciativas.
Para finalizar, acrescentamos que a descrição desta intervenção procurou não
apenas sistematizar o esforço realizado pela Associação Portuguesa de Apoio à
Vítima neste domínio mas também, através da apresentação das dinâmicas
realizadas e do reconhecimento dos limites da eficácia desta intervenção,
permitir que outros práticos e investigadores possam usar esta experiência e a
reflexão a partir dela realizada como ponto de partida para novos esforços de
prevenção da violência nos relacionamentos íntimos.