TEITOK@C-I   |   Corpora@C-I   |   CELGA-ILTEC   |   Contacto

EN | PT

Representação em texto

EuPTHUHu0870-82312011000400006

variedadeEu
ano2011
fonteScielo

O script do Java parece estar desligado, ou então houve um erro de comunicação. Ligue o script do Java para mais opções de representação.

Pais responsáveis, filhos satisfeitos: As responsabilidades paternas no quotidiano das crianças em idade escolar MÉTODO Participantes Participaram no estudo 346 crianças do ano de escolaridade (sexo masculino, n=175; sexo feminino, n=171) de 23 turmas distribuídas por 10 escolas do Ciclo do Ensino Básico do Centro da Área Educativa do Porto. A idade dos participantes varia entre os 8 e os 10 anos (M=8.17, DP=0.47). A variável Sexo distribui-se equitativamente pelas turmas χ2(22, N=346)=23.55, ns, pelas escolas, χ2(9, N=346)=9.46, ns,e também pela Idade das crianças, t(344)=1.06, ns. Os pais e as mães vivem com as crianças participantes no estudo.

Instrumentos Utilizou-se a Escala de Responsabilidade Parental - ERP (Lima, 2009) para avaliar a perceção das crianças relativamente à forma como os pais e as mães assumem responsabilidades parentais. Este instrumento é composto por 27 itens com escalas de autorrelato de cinco níveis de resposta, rotulados da seguinte forma: "nunca" (=0), "raramente" (=1), "algumas vezes" (=2), "muitas vezes" (=3), "sempre" (=4).

A escala é constituída por quatro subescalas relativas às seguintes dimensões: Cuidados e Interesse (CI), Apoio Emocional e Estimulação (AEE), Escola (Esc.) e Autoridade e Disciplina (AD).

Sumariamente, CI diz respeito à assunção de responsabilidades implicando o interesse pelos cuidados, atividades e quotidiano da criança (por exemplo, "O teu pai mostra interesse pelo teu dia-a-dia?"); AEE considera o assumir da responsabilidade do pai pelo bem-estar emocional e estimu lação do filho (por exemplo, "O teu pai conversa contigo quando estás preocupado ou triste?"); Esc. incide sobre formas que relacionam o envolvimento paterno nas atividades escolares (por exemplo, "O teu pai vai às reuniões da tua escola?"); AD relaciona a responsabilidade com aspetos relativos à autoridade, supervisão e disciplina da criança (por exemplo, "O teu pai manda em casa?").

Os resultados de uma Análise em Componentes Principais (ACP, com rotação Varimax) mostram que estas subescalas explicam 50.74% da variância (KMO=.93; teste de esfericidade de Bartlett, χ2(300)=3025.02, p<.001; menor MSA=.83.). As subescalas CI e AEE apresentam valores elevados de consistência interna (α=.87 e α=.86, respetivamente), sendo mais baixos nas subescalas Esc. e AD (respetivamente, α=.65 e α=.55). A consistência interna total da escala é de α=.91.

Foi também utilizada a Escala de Satisfação com o Envolvimento Parental - ESEP (Lima, 2009). Esta escala é composta por 13 itens e procura avaliar o grau de satisfação das crianças com tarefas e atividades consideradas representativas das formas de envolvimento parental. Engloba itens relacionados com os cuidados, a autoridade, a escola, o apoio emocional e estimulação.

A resposta às questões é dada na seguinte escala de 5 pontos: "Não gosto nada" (=0), "Gosto pouco" (=1), "Gosto mais ou menos" (=2), "Gosto bastante" (=3), "Gosto muito" (=4). Cada uma das questões era colocada relativamente ao pai e à mãe.

A ACP indica que a ESEP se organiza em duas componentes: (1) Social e Estimulação; (2) Cuidado e Interesse. A variância explicada é de 60.79%; KMO=.95; teste de esfericidade de Bartlett, χ2(78)=2335.69, p<.001; menor MSA=.93. As duas subescalas apresentam valores elevados de consistência interna (ambos os α=.88).

Procedimento O procedimento utilizado na administração da Escala de Responsabilidade Parental - ERP, e na administração da Escala de Satisfação com o Envolvimento Parental - ESEP, foi muito similar pelo que será reportado em conjunto.

Para cada um dos grupos de crianças participantes (na maioria das situações pertencentes a uma mesma turma) a administração foi coletiva e decorreu numa sala ou outro espaço considerado adequado e autorizado pela escola. Foram realizadas duas sessões pelo que a administração da ESEP foi realizada numa segunda ocasião e após os participantes terem respondido à ERP. Cada uma das sessões foi orientada por dois entrevistadores. Um destes elementos explicava aos participantes o objetivo geral do estudo e o formato de resposta dos instrumentos. Seguidamente, de forma clara e pausada, era lida cada uma das partes que constituem a Escala de Responsabi lidade Parental. Para além de se procurar respeitar o ritmo de resposta de cada um dos partici pantes, um dos entrevistadores, procurava estar particularmente atento para esclarecer quaisquer dúvidas que fossem colocadas pelas crianças.

RESULTADOS Para tornar mais clara a apresentação dos resultados e das respetivas análises, optou-se por estruturar esta secção tendo em conta as questões de investigação formuladas.

Q1: Como se caracteriza a assunção da responsabilidade paterna para com os filhos em idade escolar? Começou-se por analisar o padrão de envolvimento do pai através dos quatro fatores da Escala de Responsabilidade Paterna. AANOVA de medidas repetidas revelou diferenças significativas entre as quatro dimensões de responsabilidade paterna, F(3,1023)=234.37, p<.001, η2=.41. Este efeito mostra que o pai assume mais responsabilidade em tarefas relativas à dimensão Cuidado e Interesse, M=3.45, DP=0.78, seguindo-se a dimensão de Apoio Emocional e Estimulação, M=2.72, DP=0.77, a dimensão Autoridade e Disciplina, M=2.57, DP=0.96, e, finalmente, a dimensão relativa à Escola, M=2.00, DP=1.15 (menor t341=2.82, p=.005).

Pode-se ainda constatar que as crianças consideram que os seus pais assumem responsabilidade mais do que "muitas vezes" (=3) nas tarefas que dizem respeito à dimensão Cuidado e Interesse (t341=10.67, p<.001), e que nas que dizem respeito às dimensões de Apoio Emocional e Estimulação e de Autoridade e Disciplina o seu pai assume responsabilidade mais do que "algumas vezes" (valor 2, menor t341=6.72, p<.001). no que concerne à sua assunção de responsabilidade em tarefas relacio nadas com a Escola, as crianças consideram que o pai apenas se envolve "algumas vezes" (=2), t341<1.

Considerando as variáveis Sexo, Número de Irmãos e Posição na Fratria, reportam-se duas ANOVAs de medidas repetidas, incluindo, respetivamente, os fatores inter-sujeitos Sexo e Número de Irmãos e os fatores Sexo e Posição na Fratria. Assim, a ANOVA de medidas repetidas entrando as quatro dimensões de Responsabilidade Paterna (AEE, CI, Esc., AD) e Sexo e Número de Irmãos (categorizados em: filho único vs. com um irmão vs. dois ou mais irmãos) como fatores inter-sujeitos revelou os seguintes efeitos: Número de Irmãos, F (2,294)=3.14, p=.05, η2=.02; Responsa bilidade Paterna, F(3,882)=187.24, p<.001, η2=.39; Responsabilidade Paterna x Sexo, F(3,882)=4.50, p=.004, η2=.02 (maior efeito restante, F6,882=1.19, ns).

O efeito principal de Responsabilidade Paterna foi acima descrito e corresponde à ordenação da frequência percebida da assunção de cada uma das dimensões de responsabilidade por parte do pai: CI, AEE, AD e Esc. Por seu turno, o efeito principal de Número de Irmãos mostra que, inde pendentemente da dimensão de Responsabilidade considerada - que se pode assumir como a responsabilidade como um todo - os participantes que têm dois ou mais irmãos, M=2.51, DP=0.77, consideram que o seu pai assume menos Responsabilidade consigo (menor t136=2.03, p=.05) do que aqueles que têm apenas um irmão, M=2.74, DP=0.67, ou são filhos únicos, M=2.75, DP=0.58. Estes não diferem entre si, t(136)<1.

No Quadro_1 apresentam-se os resultados da análise relativa à interação Responsabilidade Paterna x Sexo. Esta indica que no que concerne à dimensão Apoio Emocional e Estimulação e à dimensão Escola, não diferenças entre rapazes e raparigas quanto à perceção da responsabi lidade paterna a esse respeito (maior efeito F1,340=2.10, ns).

Porém, e como se pode observar na Figura_1, as raparigas percecionam maior Responsabilidade do pai na assunção de tarefas relacionadas com a dimensão Cuidado e Interesse, F(1,340)=4.69, p=.03, verificando-se o inverso no que se refere à dimensão Autoridade e Disciplina, F(1,340)=4.48, p=.04. Nesta, são os rapazes que percecionam uma maior participação do pai.

A ANOVA sobre as quatro dimensões de Responsabilidade Paterna entrando os factores Sexo e Posição na Fratria revelou os seguintes efeitos: Responsabilidade Paterna, F(3,876)=187.42, p<.001, η2=.39; Responsabilidade Paterna x Sexo, F(3,876)=3.69, p=.01, η2=.01 (maior efeito restante, F9, 876=1.43, ns). Estes efeitos foram descritos acima.

Q2: Em que medida a assunção de responsabilidades por parte do pai varia em função da assunç ão da responsabilidade materna? A ANOVA de medidas repetidas revelou efeitos de Responsabilidade Parental (AEE, CI, Esc., AD), F(3,897)=254.88, p<.001, η2=.46; Pais, F(1,299)=149.17, p<.001, η2=.33; Responsabilidade Parental x Pais, F(3,897)=59.48, p<.001, η2=.17. O efeito principal de Responsabilidade Parental mostra que as crianças consideram que os pais, conjuntamente, assumem mais Responsabilidade no que diz respeito a Cuidado e Interesse, M=3.62, DP=0.46, segue-se o Apoio Emocional e Estimula ção, M=2.89, DP=0.57, a Autoridade e Disciplina, M=2.72, DP=0.75, e, finalmente, consideram que os pais assumem menos Responsabilidade no que toca a Escola, M=2.58, DP=0.68 (menor diferença, F1,299=8.61, p=.004). Por seu turno, o efeito de Pais indica que as crianças consideram que, no geral, a mãe, M=3.16, DP=0.47, assume mais Responsabilidade do que o pai, M=2.74, DP=0.60.

A interação entre os dois fatores, como podemos verificar no Quadro_2, indica um padrão diferente de assunção de Responsabilidade por parte do pai e da mãe através das quatro dimensões consideradas.

As crianças consideram que a mãe assume mais Responsabilidade no Cuidado e Interesse, seguidamente no Apoio Emocional e Estimulação e na Escola, e finalmente, que assume menor Responsabilidade na dimensão Autoridade e Disciplina. relativamente ao pai, elas consideram igualmente que este assume mais Responsabilidade no Cuidado e Interesse do que nas restantes dimensões, seguindo-se, respetivamente, o Apoio Emocional e Estimulação, a Autoridade e Disciplina e a Escola. Merece destaque o facto de as crianças considerarem que o pai assume muito menos Responsabilidade na Escola do que a mãe, sendo a única dimensão em que estas fazem uma apreciação que não ultrapassa o ponto médio da escala (entre 0 a 4; t299=1.38, ns).

Para analisar em que medida a assunção de Responsabilidade por parte da mãe tem efeito na Responsabilidade assumida pelo pai, procedeu-se à categorização do nível de responsabilidade materna partindo do valor da Mediana nesta variável, Md=3.19. O grupo que se convencionou designar por nível de responsabilidade "baixo" é composto por 151 mães, M=2.79, DP=0.32, e o grupo com nível de responsabilidade "alto" é composto por 149 mães, M=3.54, DP=0.21, t(298)=24.33, p<.001.

A ANOVA de medidas repetidas sobre a assunção de responsabilidade pelo pai através das quatro dimensões da escala (Responsabilidade Paterna), entrando Nível de Responsabilidade Materna como fator inter-sujeitos, revelou os seguintes efeitos: Responsabilidade Paterna, F(3,894)=202.47, p<.001, η2=.41; Nível de Responsabilidade Materna, F(1,298)=25.09, p<.001, η2=.08; Responsabilidade Paterna x Nível de Responsabilidade Materna, F(3,894)=5.75, p=.001, η2=.02. O efeito principal de Responsabilidade Paterna foi descrito acima, e corresponde ao padrão de assunção de Responsabilidade pelo pai através das quatro dimensões.

Por seu turno, o efeito de Nível de Responsabilidade Materna mostra que a criança considera que o pai assume maior Responsabilidade, independentemente da dimensão, quando a mãe assume nível "alto" de responsabilidade, M=2.91, DP=0.60, do que quando esta tem nível "baixo", M=2.57, DP=0.55. Contudo, a interação qualifica estes dois efeitos e corresponde ao facto de o pai assumir mais Responsabilidade com a criança, nas várias dimensões, quando a mãe tem um nível de responsabilidade "alto".

Como podemos observar na Figura_2, a única exceção refere-se à dimensão Escola, na qual, o pai assume Responsabilidade equivalente, quer a mãe tenha nível "alto" ou "baixo" de responsabilidade (F1,299=1.03, ns).

Q3: Como se caracteriza a satisfação da criança com o envolvimento paterno? Comparando o nível de satisfação das crianças verifica-se que estão mais satisfeitas com o envolvimento do pai na componente Social e Estimulação, M=3.42, DP=0.72, do que na compo nente Cuidado e Interesse, M=3.07, DP=0.85, t (295)=11.26, p<.001. De todo o modo, as crianças manifestam-se satisfeitas com o grau de envolvimento paterno em ambas as dimensões (escala entre 0=nada satisfeito, 4=muito satisfeito), como revela a sua comparação com o ponto médio da escala (menor t295=21.66, p<.001) Ao comparar o nível da satisfação da criança com o envolvimento de cada um dos pais, nas duas dimensões de ESEP verifica-se que a ANOVA de medidas repetidas revelou o efeito de Satisfação com o Envolvimento (SE vs.CI), F(1,295)=88.33, p<.001, η2=.23, e de Pais (Pai vs.Mãe), F(1,295)=50.59, p<.001, η2=.15, qualificados pela interação dos dois factores intra-sujeitos, F(1,295)=67.50, p<.001, η2=.19. Esta interação indica que, apesar das crianças reportarem estarem sempre mais satisfeitas com o envolvimento da mãe, a magnitude da diferença entre os dois pais é maior na dimensão Cuidado e Interesse, F (1,295)=80.74, p<.001, do que em Social e Estimula ção, F(1,295)=13.24, p<.001.

Os valores médios são os seguintes: (1) Cuidado e Interesse - Pai, M=3.07, DP=0.85; Mãe, M=3.45, DP=0.57; (2) Social e Estimulação - Pai, M=3.42, DP=0.72; Mãe, M=3.55, DP=0.48.

Efetuando uma análise através dos 13 itens, comparando a satisfação com o envolvimento do pai e com o envolvimento da mãe, constata-se que apenas no item relativo a "brincar ou jogar" não se verifica uma média de satisfação mais elevada com o envolvimento da mãe, t(298)=1.24, ns(restantes diferenças, t298>2.33, p=.02).

Finalmente, verifica-se também que a satisfação das crianças com o envolvimento do pai está positivamente correlacionada com a satisfação relativa ao envolvimento da mãe, qualquer que seja a dimensão considerada, SE ou CI (menor r=.55, p<.001).

Q4: Em que medida a satisfação da criança com o envolvimento paterno varia em função da assunção de responsabilidades por parte do pai? Numa abordagem correlacional entre a satisfação manifesta pela criança com o envolvimento do pai e a responsabilidade paterna verifica-se que existe uma forte relação direta entre a satisfação da criança e a assunção de responsabilidade por parte do pai, tanto na dimensão Social e Estimula ção como na dimensão Cuidado e Interesse (ambos r=.54). Portanto, quanto mais o pai assume responsabilidade, maior a satisfação da criança com o seu envolvimento.

Para se analisar em que medida a assunção de responsabilidades pelo pai afeta a satisfação manifesta pela criança com o envolvimento do pai, categorizou-se aquela variável em dois níveis - baixo vs.alto - partindo dos valores da medianas (Md=2.79).

A ANOVA relativa ao Nível de Responsabilidade Paterna revelou efeitos de Satisfação com o Envolvimento Paterno (SE vs.CI), F(1,293)=131.02, p<.001, η2=.31, e de Nível de Responsa bilidade Paterna (baixo vs. alto), F (1,293)=60.74, p<.001, η2=.17. Estes efeitos são qualificados pela interação de ordem, F(1,293)=9.94, p=.002, η2=.03.

Como se pode verificar pelo padrão de médias apresentado no Quadro_3, esta interação indica que, quer o nível de responsabilidade assumida pelo pai seja baixo ou seja alto, as crianças estão mais satisfeitas com o envolvimento do pai na dimensão Social e Estimulação do que na dimensão Cuidado e Interesse.

Contudo, verifica-se que esta é mais acentuada no grupo de crianças que consideram mais baixa a assunção de responsabilidades por parte do pai. Noutros termos, entre estas crianças, é menor o grau de satisfação com o Cuidado e Interesse manifesto pelo pai (M=2.71).

DISCUSSÃO E CONCLUSÃO Em conformidade com a literatura neste domínio, a mãe continua a assumir mais responsabi lidades do que o pai nas atividades e tarefas desenvolvimentais quotidianas das crianças (e.g., Craig, 2006; Lamb & Lewis, 2004; Yeung, Sandberg, Davis-Kean, & Hofferth, 2001). Contudo, a exceção reporta-se precisamente ao tipo de interação Jogo, no qual os pais não se diferenciam.

Nesse mesmo sentido, quando se compara a satisfação da criança com o envolvimento do pai e com o envolvimento da mãe, constata-se que apenas no item relativo a "brincar ou jogar" não se verifica uma média de satisfação mais elevada com o envolvimento da mãe. De resto, o jogo e o brincar com a criança parece continuar a ser uma marcado envolvimento paterno (cf.

Paquette, 2004; Pleck & Masciadrelli, 2004).

Reconhece-se alguma mudança e uma progressiva maior assunção de responsabilidades paternas em dimensões relativas aos cuidados, ao apoio emocional e à estimulação das crianças (nas quais o pai tradicionalmente não se envolvia). Com efeito, os resultados indicam que é na dimensão Cuidado e Interesse (a qual, relaciona a responsabilidade do pai pelos cuidados básicos, atividades e dia-a-dia do filho) que a criança considera que o pai assume mais responsabilidade.

Apesar disto, o pai também continua a desempenhar um papel relevante na dimensão autoridade e disciplina, em particular para com os filhos. Encontramos aqui mais uma especificidade na forma de envolvimento com um filho, que de resto é encontrada na literatura (cf. Pleck & Pleck, 1997), acentuando que os pais procuram ser um modelo de Autoridade e Disciplina em especial quando de trata de um rapaz. De facto, é de mencionar a relevância e atualidade de muitos dos aspetos que caracterizam um papel mais tradicional do envolvimento paterno, como sejam a proteção, a disciplina ou a orientação ética e moral (e.g., Andrews, Luckey, Bolden, Whiting-Fickling, & Lind, 2004). Curiosamente as crianças consideram que é precisamente nesta dimensão que as mães assumem menor responsabilidade, o que indiciará uma complementaridade de papéis parentais, percecionada e distinguida pelas próprias crianças (cf. Lamb, 2005), concebendo que esta dimensão de Autoridade e Disciplina na família fica sob maior responsabilidade do pai.

Neste sentido, o jogo, o sustento económico da família, a autoridade e a disciplina, surgem como dimensões reveladoras da ideiade paternidade.

Outro elemento que merece destaque diz respeito ao facto das crianças considerarem que o pai assume muito menos responsabilidade na dimensão Escola do que a mãe, assumindo apenas "algumas vezes" responsabilidades a respeito das atividades relacionadas com este microssistema. Na realidade, diversas investigações no campo da Psicologia da Educação têm evidenciado que a participação do pai nas atividades escolares (nem que seja a mera presença nas reuniões da escola) é manifestamente pouco frequente. Como se sabe, muitas crianças passam mais de 8h por dia em contexto escolar e uma apropriada articulação mesossistémica pode potenciar a qualidade de cenários desenvolvimentalmente adequados. É fundamental que a escola implemente estratégias facilitadoras do estabelecimento de canais de comunicação com a família, e que os pais se consciencializem da sua importância nesta dimensão educativa.

Verifica-se ainda que a assunção da responsabilidade por parte da mãe relaciona-se significativamente com o nível de responsabilidade assumida pelo pai. Este resultado remete para a importância de considerarmos o sistema familiar na compreensão do processo de envolvimento paterno e, em particular, a natureza da relação conjugal. Com efeito, o pai necessita frequente mente de um ambientefavorável à sua participação, dependendo de fatores extrínsecos para se envolver, nomeadamente o apoio da companheira e de outros significativos (cf.

Bouchard & Lee, 2000; Formoso, Gonzales, Barrera, & Dumka, 2007). Tal como mostra a literatura (e.g., Fagan & Barnett, 2003), a mãe desempenha um papel reguladordo envolvimento do pai, fomentando, permitindo ou inibindo esse mesmo envolvimento. Aliás, também a satisfação das crianças com o envolvimento do pai está positivamente correlacionada com a satisfação relativa ao envolvimento da mãe, qualquer que seja a dimensão considerada.

Finalmente, quando se atende à satisfação da criança com o envolvimento paterno verifica-se que quanto mais o pai assume responsabilidades, maior é a satisfação da criança com aquele envol vimento. Esta evidência chama à atenção de que o envolvimento do pai no processo desenvolvi mental dos filhos é, em si mesmo, muitas vezes causae consequênciadesse mesmo envolvimento. Por exemplo, à medida que vai interagindo com os filhos, o pai revela mais auto-estima, competência parental e satisfação com esse mesmo envolvimento (cf. Almeida, Wethington, & McDonald, 2001). Naturalmente não será difícil dar conta que este processo transacional se autoalimenta e reforça, isto é, pais mais envolvidos e crianças mais satisfeitas, vão reforçando o comportamento do parceiro de interação o que, por sua vez, fortalecerá um vínculo (desejavel mente) seguro entre a criança e o pai, e consequentemente mais bem-estar biopsicossocial para o pai, para a criança e para a família como um todo.

Por último realça-se a evidência empírica decorrente dos resultados deste estudo, que suporta a matriz bioecológica da assunção de responsabilidades por parte do pai relativamente às tarefas desenvolvimentais dos filhos. Na realidade, consideram-se fundamentais os contributos do pai e da mãe para o desenvolvimento da criança. Como diria Bronfenbrenner (1995, p. 119) "para entrar na dança do desenvolvimento são precisas três pessoas". Esse contributo plural de pai e de mãe remete para a significância de um envolvimento singular e próximo entre o pai e a criança. É nessa dissemelhança, diversidade e riqueza de processos proximais que se alicerça o desenvolvimento humano e os pais não podem (pelo menos não devem) abdicar desse envolvimento.


transferir texto