A adaptação ao cancro da mama nas fases de diagnóstico e sobrevivência: Será o
investimento na aparência um factor explicativo relevante?
(2)
tempo máximo de diagnóstico da doença de 4 meses;
(3)
não realização anterior de qualquer tratamento neo-adjuvante; (4) idade
igual ou superior a 18 anos; e (5) capacidade para ler e escrever
Português. As doentes foram convidadas a participar no estudo durante o
período em que estavam internadas, tendo-lhes sido explicados, numa
entrevista individual, os objectivos da investigação, o papel do
investigador e do participante e as normas de confidencialidade
subjacentes ao estudo. Nesta entrevista, e quando as doentes aceitavam
participar no estudo, eram preenchidos o consentimento informado e a
ficha de dados sociodemo gráficos, dadas as instruções de preenchimento
dos questionários e esclarecidas quaisquer dúvidas relacionadas com
estes. O protocolo de avaliação era preenchido posteriormente pela doente
e entregue aos investigadores durante o período de hospitalização. A
informação clínica das doentes foi obtida através da consulta dos
respectivos processos clínicos hospitalares. Todas as doentes tinham já
conhecimento prévio do seu diagnóstico e a sua inclusão no estudo era do
conhecimento da equipa médica responsável.
O grupo de sobreviventes de cancro da mama (G2) foi recrutado nas diversas
extensões da associação de voluntariado "Movimento Vencer e Viver",
do Núcleo Regional do Centro da Liga Portuguesa Contra o Cancro (n=52) e no
Serviço de Ginecologia dos HUC (n=34). Foram utilizados como critérios de
inclusão: (1) ausência de diagnóstico actual de recidiva da doença ou de uma
qualquer outra doença oncológica; (2) não realização de tratamentos adjuvantes
(quimioterapia ou radioterapia) há pelo menos um ano; (3) idade igual ou
superior a 18 anos; e (4) capacidade para ler e escrever Português. As
participantes recrutadas no "Movimento Vencer e Viver" eram
voluntárias nessa mesma associação ou mulheres que se dirigiram ao movimento
para adquirir algum material disponibilizado na mesma (e.g., prótese mamária).
A todas as participantes foram explicados os objectivos do estudo, o papel do
investigador e do respondente e as regras de confidencialidade subjacentes à
investigação. Àquelas que concordaram participar foi entregue o protocolo de
avaliação, o consentimento informado e um envelope pré-pago e endereçado, para
que posteriormente devolvessem os questionários preenchidos por correio. A
informação clínica foi auto-relatada pelas respondentes. Paralelamente, foi
recrutado no Serviço de Ginecologia dos HUC um grupo de sobreviventes que se
encontravam internadas para cirurgia de reconstrução da mama ou ooforectomia
(ablação cirúrgica dos ovários). A recolha dos dados seguiu os procedimentos
anteriormente descritos para o mesmo hospital.
As características clínicas e sociodemográficas da amostra são apresentadas no
Quadro_1.
Relativamente às principais características sociodemográficas, não foram
encontradas dife renças estatisticamente significativas entre os grupos. De uma
forma geral, todas as participantes apresentam uma idade média entre os 52 e os
54 anos, sendo maioritariamente casadas ou unidas de facto e apresentando, na
sua maioria, um nível básico de escolaridade.
No que diz respeito às características clínicas, os grupos apresentaram
diferenças significativas em algumas variáveis. Relativamente ao tempo
decorrido desde o diagnóstico, o G1 apresentou um tempo médio de 1.48 meses e o
G2 de 93.58 meses, tendo esta diferença sido estatisticamente significativa, F
(1,146)=108.42, p≤.001. Embora o tipo de cancro mais frequente em ambos os
grupos tenha sido o carcinoma ductal invasivo (CDI), verificaram-se diferenças
estatisticamente significativas na distribuição pelas diferentes categorias de
diagnóstico, χ²(4, N=115)=11.91, p=.036. Quanto ao tipo de cirurgia, enquanto a
grande maioria das participantes do G1 realizou cirurgia conservadora, a maior
parte das sobreviventes efectuou mastectomia, tendo, portanto, esta diferença
sido também significativa, χ²(1, N=163)=53.17, p≤.001. Por fim, os grupos
apresentaram-se significativamente diferentes entre si no tipo de tratamento,
χ²(3, N=162)=132.84, p≤.001, uma vez que nenhuma doente do G1 tinha ainda
iniciado qualquer tipo de tratamento adjuvante.
Instrumentos
Investimento na aparência. Para avaliar o investimento na aparência, foi
utilizada a versão Portuguesa do Inventário de Esquemas da Aparência Revisto
[ASI-R] (The Appearance Schemas Inventory - Revised; Cash, Melnyl, &
Hrabosky, 2004; Versão Portuguesa: Nazaré, Moreira, & Canavarro, 2010).
Trata-se de um questionário de auto-resposta constituído por 20 itens,
divididos em duas subescalas: (1) a saliência auto-avaliativa(SAV), composta
por 12 itens, refere-se às crenças que o indivíduo tem acerca da forma como o
seu aspecto físico influencia o seu valor pessoal ou social e a sua identidade
(e.g., A minha aparência é uma parte importante daquilo que sou); (2) a
saliência motivacional(SM), que inclui 8 itens, avalia os esforços
implementados pelo indivíduo para manter ou aumentar a sua atractividade física
e gerir a sua aparência (e.g., Tento ser fisicamente tão atraente quanto
consigo).As questões são respondidas com base numa escala de Likert de 5 pontos
(1=Discordo fortementea 5=Concordo fortemente), oscilando a pontuação final de
cada subescala entre 1 e 5. Pontuações mais elevadas reflectem um maior nível
de investimento esquemático na aparência. Na presente amostra, o G1 apresentou
um valor de alphade Cronbach para a faceta SAV de .74 e o G2 de .75; já na
faceta SM, o G1 apresentou um valor de .75 e o G2 de .76.
Desconforto com a aparência.Para avaliar o desconforto ou inibição com a
aparência foi utilizada a versão Portuguesa da The Derriford Appearance Scale
24[DAS24] (Carr, Moss, & Harris, 2005). Este instrumento é constituído por
24 itens (e.g., Até que ponto se sente angustiado(a) quando se olha ao espelho
ou vê o seu reflexo numa janela?; Evito despir-me em frente ao meu/à minha
companheiro) e a pontuação final da escala oscila entre 10 e 96, sendo que 10
questões são cotadas de 1 a 4 e 14 questões de 0 (não aplicável) a 4.
Pontuações mais elevadas reflectem um nível mais elevado de constrangimento com
a aparência. Observaram-se níveis adequados de consistência interna (G1=.86 e
G2=.91).
Medo da avaliação negativa dos outros.Foi utilizada a versão Portuguesa do
instrumento Fear of Negative Evaluation[FNE] (Watson & Friend, 1969).
Trata-se de um questionário de auto-resposta, constituído por 30 itens, que
pretende avaliar a expectativa e o medo da avaliação negativa dos outros e o
evitamento de situações sociais avaliativas (e.g., Receio com frequência que os
outros notem os meus defeitos; Tenho receio que os outros não me aprovem). Ao
contrário da versão original, que adopta uma escala de resposta do tipo
verdadeiro/falso, a versão portuguesa é constituída por uma escala de tipo
Likert, na qual os sujeitos devem posicionar-se relativamente à forma como o
item caracteriza a sua maneira de ser (1=descreve de um modo nada
característico a minha maneira de sera 5=descreve de um modo muitíssimo
característico a minha maneira de ser). A pontuação total varia entre 30 e 150,
sendo que pontuações mais elevadas reflectem um maior medo da avaliação
negativa dos outros. Na presente amostra o valor de alpha de Cronbach foi de
.74 para o G1 e de .65 para o G2.
Qualidade de vida psicológica. Para avaliar a QdV psicológica foi utilizada a
versão breve do World Health Organization Quality of Lifepara Português de
Portugal [WHOQOL-Bref] (WHOQOL group, 1998a, 1998b; Versão Portuguesa: Vaz
Serra et al., 2006). Este instrumento é uma medida genérica, multidimensional e
multicultural, que permite a avaliação subjectiva da QdV, podendo ser utilizada
num vasto conjunto de perturbações psicológicas, doenças físicas e em
indivíduos da população geral. É constituído por 26 questões, duas relativas à
percepção geral de QdV e à percepção geral de saúde (que constituem a faceta
geral), e as restantes 24 respeitantes a cada uma das 24 facetas específicas
que constituem o instrumento (e.g., actividade sexual, dor e desconforto, apoio
social). Estas facetas organizam-se em quatro domínios distintos: Físico,
Psicológico, Relações Sociais e Ambiente. No presente trabalho apenas foi
utilizado o domínio Psicológico da qualidade de vida. Este instrumento utiliza
uma escala de resposta do tipo Likertde 5 pontos, sendo as questões respondidas
através de quatro tipos de escalas (dependendo do conteúdo da pergunta):
intensidade, capacidade, frequência e avaliação. A pontuação para cada domínio
varia entre 0 e 100, sendo que valores mais elevados representam uma melhor
QdV. Na presente amostra, a subescala de QdV Psicológica apresentou valores de
alpha de Cronbachde .76 e de .77 para o G1 e o G2, respectivamente.
Sintomatologia depressiva e ansiosa.Para avaliar a presença de sintomatologia
depressiva e ansiosa foi utilizada a escala de Depressão e Ansiedade Hospitalar
[HADS] (Zigmond & Snaith, 1983; Versão Portuguesa: Pais-Ribeiro et al.,
2007). Este instrumento é constituído por 14 questões, que se distribuem por
dois factores (depressão e ansiedade) e utiliza uma escala de resposta de tipo
Likert com quatro opções de resposta (0 a 3), variando a pontuação total para
cada subescala entre 0 e 21. Pontuações mais elevadas correspondem a níveis
mais elevados de sintomatologia depressiva e/ou ansiosa. Na presente amostra, o
G1 apresentou um valor de consistência interna de .90 para a ansiedade e .80
para a depressão, e o G2 de .87 para a ansiedade e .74 para a depressão.
Dados sociodemográficos.Foi utilizada uma ficha de dados sociodemográficos e
clínicos para avaliação de informações relevantes relacionadas com o contexto
sociodemográfico das participantes e com aspectos centrais da sua doença e/ou
tratamentos.
Análises estatísticas
O tratamento estatístico dos dados foi realizado recorrendo ao pacote
estatístico SPSS, versão 17. Para a caracterização da amostra recorreu-se à
estatística descritiva (frequências relativas, médias, desvios-padrão), tendo-
se utilizado o teste do qui-quadrado e a análise de variância univariada
(ANOVA) para a análise de diferenças nas características sociodemográficas e
clínicas entre os grupos.
Para explorar as diferenças de médias nas facetas do investimento entre os dois
grupos em estudo, efectuou-se uma análise de variância multivariada
(MANOVA)".
Com o objectivo de testar se a SM e se a SAV contribuem para a explicação da
variância dos diferentes indicadores de adaptação, foram efectuadas análises de
regressão linear hierárquica múltipla, para cada grupo clínico estudado.
Previamente, foram calculadas as correlações de Pearsonentre as variáveis
sociodemográficas e clínicas contínuas e as variáveis dependentes, bem como as
correlações point-biseralquando as primeiras eram dicotómicas, para avaliar a
necessidade de controlar estatisticamente o seu efeito nas análises de
regressão posteriores. O tipo de tratamento (com 4 categorias: quimioterapia,
radioterapia, quimioterapia e radioterapia e nenhum tratamento) foi
transformado em 3 variáveis dummy,utilizando como grupo de referência a não
realização de qualquer tratamento adjuvante. Assim, as análises de regressão
foram efectuadas em dois blocos, tendo sido introduzidas num primeiro bloco as
variáveis sociodemográficas e/ou clínicas signi ficativamente correlacionadas
com a variável dependente e, num segundo bloco, uma ou ambas as facetas do
investimento (método enter). Apenas foram incluídas na equação as facetas
significativamente correlacionadas com a variável dependente. Quando nenhuma
covariável se correlacionava significativamente com a variável dependente, uma
ou ambas as facetas do investimento foram introduzidas simultaneamente em
apenas um bloco.
A significância estatística foi definida como p<.05, mas diferenças
marginalmente significativas foram também reportadas, p<.10. O Eta quadrado
parcial (ηp²) foi usado como medida da magnitude do efeito na MANOVA e o
coeficiente de determinação (R²) nas regressões múltiplas.
RESULTADOS
O investimento na aparência em fases distintas da doença
Foram analisadas as diferenças entre os grupos nas pontuações médias das
facetas SAV e SM. A MANOVA revelou que o efeito multivariado do grupo não é
estatisticamente significativo, Pillai's trace=.017, F(2,161)=1.42,
p=.244, η²p=.02, não se tendo prosseguindo, deste modo, para a análise
univariada em cada variável dependente.
Investimento e adaptação
Diagnóstico recente de cancro da mama.Através da análise das correlações entre
as variáveis em estudo (ver Quadro_2), verificou-se que a faceta SAV apenas se
encontra significativamente correlacionada com o medo da avaliação negativa dos
outros (r=.30, p=.023) e com o desconforto em relação à aparência (r=.50,
p≤.001). Por sua vez, a faceta SM apenas se correlaciona significativamente com
a depressão (r=-.24, p=.045).
No que diz respeito às associações encontradas entre as variáveis
sociodemográficas e clínicas e as variáveis dependentes significativamente
correlacionadas com as facetas do investimento, observaram-se correlações
significativas entre o medo da avaliação negativa dos outros, o estado civil
(r=.27, p=.035) e a idade (r=-.32, p=.012) e entre o desconforto com a
aparência e a duração da doença (r=.24, p=.044). Estas variáveis foram, assim,
controladas nas análises de regressão posteriores.
Assim, relativamente ao modelo para o medo da avaliação negativa dos outros, F
(3,55)=5.08, p=.004, pode verificar-se, no Quadro_3, que contribuiu para a
explicação de 21.7% da variância total, tendo a SAV contribuído individualmente
para 8.1% dessa variância. No que diz respeito ao desconforto com a aparência,
o modelo final foi igualmente significativo, F(2,64)=16.22, p≤.001, explicando
33.6% da variância total, tendo a inclusão da SAV, no segundo bloco,
contribuído para a explicação de 27.9% dessa mesma variância. Por fim,
observou-se que 5.5% da variância total da depressão foi explicada pela faceta
SM, num modelo igualmente significativo, F(1,71)=4.15, p=.045.
QUADRO 3
Análises de regressão - Diagnóstico recente de cancro da mama
R² ΔR²?β Final
Medo da avaliação negativa
Bloco 1: Estado civila .21
Idadeb .136 .136* -.22
Bloco 2: SAV .217 .081* .29*
Desconforto com a aparência
Bloco 1: Duração da doençac .057 .057* .17
Bloco 2: SAV .336 .279*** .53***
Depressão
Bloco 1: SM .055 .055* -.24*
Nota. *p<.05, ** p<.01, *** p<.001; a0=solteira, divorciada ou viúva, 1=casada
ou unida de facto, bidade em anos, cduração em meses.
Sobreviventes de cancro da mama.No grupo de sobreviventes encontraram-se
diversas associações significativas entre as duas facetas do investimento e as
variáveis dependentes em estudo (ver Quadro_2). Assim, a faceta SAV
correlacionou-se significativamente com o medo da avaliação negativa dos outros
(r=.44, p≤.001), com o desconforto com a aparência (r=.34, p=.004) e
marginalmente com a ansiedade (r=.20, p=.077). Já a faceta SM apresentou
associações significativas com o domínio psicológico da QdV (r=.27, p=.014),
com a depressão (r=-.30, p=.007) e com a ansiedade (r=-.28, p=.012).
Relativamente às correlações entre as variáveis sociodemográficas e clínicas e
as variáveis de adaptação correlacionadas com as facetas do investimento,
constatou-se que o medo da avaliação negativa dos outros se associou
significativamente com a variável dummyde tratamento "nenhum tratamento
vs.quimioterapia" (r=.25, p=.039); o desconforto com a aparência com o
estado civil (r=.25, p=.042); por fim, a depressão correlacionou-se com a
realização de reconstrução (r=-.22, p=.046).
Tal como é possível observar no Quadro_4, foram encontrados diversos modelos
preditores no grupo de sobreviventes. Assim, para o medo da avaliação negativa
dos outros, o modelo observado, F(2,63)=10.23, p≤.001, contribuiu para a
explicação de 24.6% da variância total, da qual 18.1% é explicada apenas pela
faceta SAV. O modelo encontrado para o desconforto com a aparência foi também
significativo, F(2,63)=7.23, p≤.001, explicando 18.7% da variância total, tendo
a faceta SAV contribuído individualmente para a explicação de 13.9% dessa mesma
variância.
QUADRO 4
Análises de regressão - sobreviventes de cancro da mama
R² ΔR²?β Final
Medo da avaliação negativa
Bloco 1: Tratamento 1a .065 .065* .23*
Bloco 2: SAV .246 .181*** .43***
Desconforto com a aparência
Bloco 1: Estado civilb .048 .048† .27*
Bloco 2: SAV .187 .139** .38**
Domínio Psicológico QdV
Bloco 1: SM .073 .073* .27*
Depressão
Bloco 1: Reconstrução mamáriac .047 .047* -.17
Bloco 2: SM .116 .069* -.27*
Ansiedade
Bloco 1: SM Bloco 2: SAV .202 .202*** -.45***
.39***
Nota.†p<.10, *p<.05, **p<.01, ***p<.001; aNenhum tratamento vs.quimioterapia,
b0=solteira, divorciada ou viúva, 1=casada ou unida de facto, c0=não, 1=sim.
Já no que diz respeito à faceta SM, verificou-se contribuir significativamente
para a explicação de 7.3% da variância do domínio psicológico da QdV, F
(1,80)=6.33, p=.014. Relativamente à depres são, observou-se que a mesma faceta
explicou individualmente 6.9% da variância, F(2,77)=5.06, p=.009. Por fim,
também a ansiedade foi parcialmente explicada pela SM e pela SAV, tendo as duas
variáveis contribuído para a explicação de 20.2% da variância total, F
(2,76)=9.63, p≤.001.
DISCUSSÃO
O presente estudo teve como principal objectivo investigar o papel das duas
facetas do investi mento na adaptação a duas fases distintas da doença,
explorando simultaneamente as diferentes funções da SAV e da SM. De uma forma
global, os resultados corroboraram a nossa hipótese de que a SAV funcionaria
como um factor de vulnerabilidade, associando-se a piores resultados
adaptativos, e de que a SM funcionaria como um factor protector, associando-se
a melhores resultados a este nível. Estes dados vão, assim, ao encontro dos
resultados encontrados em estudos anteriores, tanto naqueles conduzidos em
amostras da população geral (e.g., Cash, 2005; Cash, Melnyk, & Hrabosky,
2004; Jakatdar et al., 2006), como nos estudos desenvolvidos com doentes com
cancro da mama (Moreira & Canavarro, 2010; Moreira et al., 2010),
evidenciando que estas duas facetas desempenham papéis distintos e mesmo
opostos no processo de adaptação ao cancro da mama e às alterações corporais
resultantes.
Quanto ao primeiro objectivo específico do presente trabalho, que passava por
comparar os dois grupos de participantes relativamente às facetas do
investimento, os resultados encontrados corroboraram a nossa hipótese inicial.
Ou seja, não foram encontradas diferenças entre doentes recentemente
diagnosticadas e sobreviventes de cancro da mama nas duas facetas que
constituem o investimento na aparência. Esta é uma variável estrutural, que
reflecte o conteúdo e a activação do esquema da aparência. De acordo com o
modelo teórico de Cash (2002), este esquema resulta de aprendizagens e
experiências passadas e consiste num conjunto de generalizações cognitivas,
relativamente estáveis e solidificadas, sobre a importância e as funções da
imagem corporal na vida do indivíduo. Não sendo um conceito estático, também
não se caracteriza por uma mudança fácil ou rápida perante determinados
acontecimentos, não sendo por isso de esperar a sua mudança ao longo do curso
da doença. No entanto, é interessante observar que, não obstante esta
semelhança, no grupo de sobreviventes, as facetas do investimento contribuíram
para a explicação de um maior número de indicadores de adaptação, por
comparação com o grupo de diagnóstico recente. Este resultado sugere-nos que,
apesar da semelhança em termos das pontuações médias nas facetas do
investimento, a importância que estas têm na explicação de diversos indicadores
de adaptação é diferente consoante a fase da doença.
Assim, verificámos que, no grupo de mulheres sobreviventes de cancro da mama, a
SAV associou-se particularmente às variáveis dependentes relacionadas com a
adaptação à própria imagem corporal e com a ansiedade social (i.e., desconforto
com a aparência e medo da avaliação negativa dos outros), variáveis estas mais
próximas de constructos como a auto-estima e o auto-conceito. Assim, são as
mulheres que mais fazem depender a sua auto-estima e o seu auto-valor da sua
imagem corporal que se sentem mais constrangidas e desconfortáveis com a mesma,
temendo uma avaliação negativa por parte dos outros em interacções sociais. As
alterações físicas decorrentes da doença e dos tratamentos, que podem persistir
durante anos (e.g., amputação da mama), parecem constituir uma ameaça acrescida
para estas mulheres, dificultando a sua adaptação. Adicionalmente, tal como
Petronis et al. (2003) assinalaram, o grau de ameaça imposto pelo cancro da
mama depende do grau em que a doente investe na sua aparência, o que por sua
vez, irá reflectir-se no seu bem-estar psicológico, social e sexual.
Já a SM, associou-se, neste grupo, aos indicadores gerais de adaptação, como a
QdV psicológica e os estados emocionais. No entanto, é importante assinalar que
a percentagem de variância explicada é reduzida, existindo, portanto, outros
factores com maior influência na explicação destas variáveis, não explorados no
âmbito deste trabalho. Ainda assim, os resultados parecem indicar que a
implementação de esforços dirigidos à melhoria da imagem corporal, bem como uma
atitude proactiva relativamente às alterações corporais vividas, contribui para
uma melhor QdV psicológica, bem como para níveis inferiores de sintomatologia
depressiva e ansiosa.
No grupo de mulheres recentemente diagnosticadas com cancro da mama, as facetas
do investi mento contribuíram para a explicação de um menor número de
indicadores. Assim, enquanto a SAV contribuiu para a explicação de níveis
superiores de ansiedade social e desconforto com a aparência, a SM apenas se
associou a níveis inferiores de depressão, explicando uma pequena percentagem
da variância total desta variável. Assim, nesta fase inicial da doença, o
investimento parece não desempenhar um papel tão relevante na adaptação da
mulher, por comparação com a fase de sobrevivência. Tal como alguns autores têm
assinalado (Bloom, Stewart, Johnston, & Banks, 1998; Fobair, Stwart, Chang,
D'Onorio, Banks, & Bloom, 2005; Spencer et al., 1999), numa fase
inicial do cancro da mama, as principais preocupações da doente tendem a
relacionar-se com questões ligadas à sua saúde física e sobrevivência e não
tanto com a sua imagem corporal, que apenas surge como tema central mais tarde.
Outros factores, como as estratégias de coping, as representações da doença, o
apoio social recebido, a relação conjugal, entre outros, poderão nesta fase
adquirir maior poder explicativo, devendo, por isso, ser explorados em estudos
posteriores, de forma a obter-se uma maior compreensão do processo de adaptação
a esta fase do cancro da mama.
Em suma, ambas as facetas do investimento mostraram ser relevantes para a
explicação da adaptação a esta doença. A SM parece funcionar como um factor
protector, podendo proporcionar à mulher um sentimento de controlo sobre a sua
imagem corporal. Por exemplo, a implementação de estratégias (e.g., uso de
próteses capilares, maquilhagem, etc.) que lhe permitam melhorar a sua imagem
pode ser perspectivada como uma estratégia de controlo sobre a sua aparência,
conduzindo a resultados mais positivos, como melhor QdV psicológica e menor
sintomatologia ansiosa e depressiva. Por outro lado, a SAV pode ser
perspectivada como um factor de vulnerabilidade, predizendo piores resultados
como, por exemplo, um maior desconforto com a aparência e maior ansiedade
social. Efectivamente, acreditar que a aparência é um importante determinante
do auto-valor e da auto-estima parece deixar a mulher mais vulnerável a uma
maior insatisfação corporal e a uma maior preocupação com a avaliação dos
outros.
Algumas limitações inerentes a este estudo devem ser consideradas na
interpretação dos resultados. Em primeiro lugar, a natureza transversal do
estudo limita a compreensão do processo dinâmico de adaptação e também o
estabelecimento de conclusões sobre a relação causal entre o investimento na
aparência e os diferentes indicadores de adaptação. Em segundo lugar, o grupo
de sobreviventes é quase totalmente constituído por doentes mastectomizadas, ao
contrário do grupo de doentes recentemente diagnosticadas, o que limita a
comparação entre grupos e a generalização dos resultados a outras sobreviventes
submetidas a outro tipo de cirurgia.
Apesar das limitações assinaladas, este estudo oferece dados importantes sobre
o papel do investimento na aparência na adaptação de mulheres com cancro da
mama ou sobreviventes desta doença. Para além de abordar uma área
insuficientemente estudada, o presente trabalho apresenta como vantagens a
inclusão de vários resultados de adaptação e a utilização do instrumento ASI-R,
que permite a distinção entre as facetas SM e SAV.
Conclusões e implicações clínicas
A compreensão da importância e do valor que a mulher atribui à sua aparência
física revelouse, assim, de extrema importância para um conjunto de indicadores
de adaptação, corroborando a opinião de Pruzinsky e Cash (2002), de que
qualquer avanço na compreensão da imagem corporal deve basear-se, em primeiro
lugar, na compreensão fundamental da natureza do investimento, na medida em que
a aparência objectiva não é necessariamente indicativa da experiência
subjectiva da mesma. Como tal, estudos que tenham como objecto de estudo a
imagem corporal, seja em doentes oncológicos, como noutro tipo de populações,
deverão ter em conta esta premissa, procurando compreender e analisar a
influência do investimento nos seus resultados.
A um nível prático, importa que os profissionais de saúde tenham em
consideração que nem todas as mulheres reagem da mesma forma às alterações na
aparência decorrentes da cirurgia e/ou dos tratamentos, existindo a este nível
importantes diferenças individuais. Como tal, é muito importante que seja
efectuada uma correcta avaliação da valorização que a mulher atribui à sua
imagem para que ao longo das fases da doença possam ser implementadas, se
necessário, estratégias adequadas a cada caso particular.
Os nossos resultados, ao mostrarem que a SAV se encontra associada a um
conjunto de resultados inadaptativos apontam para a necessidade de se proceder
a uma avaliação cuidada desta variável. Estas mulheres, que se encontram em
maior risco de um percurso inadaptativo ao longo do curso da doença, poderão
beneficiar de uma maior discussão (idealmente antes da cirurgia) das possíveis
alterações que a sua aparência poderá sofrer, no sentido de, por um lado,
prevenir possíveis dificuldades ao lidar com essas mesmas modificações e, por
outro, trabalhar estratégias que facilitem a vivência das mesmas. Por exemplo,
pode ser muito relevante para estas doentes que, no período de internamento
hospitalar, a equipa de enfermagem e/ou de psicologia, prepare e acompanhe a
doente no momento em que esta vê pela primeira vez a cicatriz após a cirurgia;
mostre as próteses mamárias temporárias e ajude a doente a utilizá-las e
adaptar-se a elas antes da alta hospitalar; transmita informação sobre as
próteses mamárias definitivas (como utilizar, qual o seu aspecto, onde pode
obtê-las, etc.), entre outros aspectos. É importante que estas estratégias
sejam utilizadas por rotina, com todas as doentes; no entanto, consideramos que
para as doentes que mais investem na sua aparência, estas podem assumir
especial importância, podendo contribuir para a prevenção de futuras
dificuldades. Parece-nos igualmente importante que as opções cirúrgicas sejam
detalhadamente debatidas com estas doentes, apresentando-se a possibilidade de
cirurgia reconstrutiva sempre que as doentes efectuem mastectomia.
Adicionalmente, julgamos que uma intervenção psicoterapêutica dirigida a estas
doentes deverá contemplar um trabalho cognitivo sobre os esquemas da aparência
que determinam, subsequente mente, o investimento feito sobre a mesma, bem como
estratégias comportamentais que trabalhem a auto-estima e o valor pessoal da
mulher. Ambas teriam como objectivo central desconfirmar o conteúdo do esquema
e, deste modo, intervir sobre o processamento de informação, influenciando a
atenção, a memória e a interpretação da informação relacionada com a aparência
física (Cash & Labarge, 1996; Cash, Melnyk, & Hrabosky, 2004;
Hargreaves & Tiggemann, 2002), bem como as emoções e as estratégias de
coping relacionadas com a imagem corporal (Cash, 2002). Tendo em conta que
qualquer intervenção psicoterapêutica deverá ser teoricamente sustentada,
conside ramos que os modelos de Cash (2002) e de White (2002) poderão e deverão
sustentar conceptual mente as estratégias referidas.
Os nossos resultados mostraram também que uma maior SM se encontra associada,
de uma forma geral, a resultados mais adaptativos. Estes dados parecem, assim,
apontar para a importância de incentivar a doente a implementar comportamentos
dirigidos à manutenção ou melhoria da sua aparência física. Tal poderá passar
por estratégias simples, como o cuidar da imagem e do vestuário, usar próteses
mamárias ou efectuar cirurgia reconstrutiva, entre outras. Pela importância que
estes comportamentos poderão ter na adaptação da mulher, os profissionais de
saúde que acompanham a doente ao longo de diferentes etapas têm um papel muito
importante na divulgação e no incentivo destas estratégias.