Burnout, satisfação com a vida, depressão e carga horária em professores
Burnout, satisfação com a vida, depressão e carga horária em professores
Ana Paula Rodrigues Gomes*; Sónia dos Reis Quintão**
*Agrupamento de escolas Eugénio dos Santos, Lisboa;
**Faculdade de Ciências Médicas da Universidade Nova de Lisboa; CEDOC -
Centro de Estudos de Doenças Crónicas
Correspondência
ABSTRACT
The purpose of the present investigation was to study the relationship between
burnout, satisfaction with life, depression and the workload in teachers of
several teaching levels, in a sample of 308 teachers, 123 of the male gender
and 185 of the female gender, with an age average of 41,63 years old
(SD=10,12). The following measures were used: Maslach Burnout Inventory
(Maslach, Jackson, & Leiter, 1996), Satisfaction with Life Scale (Diener,
1984) and Beck Depression Inventory (Beck, Steer & Garbin, 1988).
The results showed that teachers with a larger workload presented more symptoms
of depression, but the data didn't show a relationship with burnout or
satisfaction with life. Women showed higher levels of burnout, in terms of
depersonalization and emotional exhaustion in comparison to men.
Key-words:Burnout, Depression, Satisfaction with life, Teachers, Workload.
O desenvolvimento do conceito de burnout como fenómeno psicológico teve origem
nos Estados Unidos da América em meados da década de setenta. Uma definição
actualizada e amplamente aceite foi a proposta por Maslach, Schaufeli e Leiter
(2001), que define burnout como uma resposta prolongada a stressores crónicos a
nível pessoal e relacional no trabalho, determinado a partir das dimensões
conhecidas como, exaustão emocional, despersonalização, e reduzida realização
profissional. Nesta definição fica patente o carácter tridimensional da
síndroma de burnout que afecta, por um lado a nível pessoal (exaustão
emocional: sensação de não poder dar mais de si a nível emocional), por outro
lado, a nível social (despersonalização: atitude distante perante o trabalho e
as pessoas em geral, até mesmo para com os colegas) e a nível profissional
(falta de realização pessoal: sensação de não realizar adequadamente as tarefas
e de se considerar incompetente).
Ao contrário do que ocorre com a maioria das perturbações mentais, o burnout é
pouco estigmatizante para o indivíduo, dado que ao reconhecê-lo se enfatizam
determinantes contextuais, de natureza socioprofissional, não se atribuindo
qualquer tipo de culpa ao indivíduo. Sendo um processo que surge como
consequência do stresse laboral crónico no qual se combinam variáveis de
carácter individual, social e organizacional é considerado, na actualidade,
como um dos danos laborais de carácter psicossocial mais importante. Trata-se,
por isso, de um síndroma com conotações afectivas negativas que afecta os
trabalhadores nos diferentes níveis, pessoal, social e laboral.
Embora o burnout afecte várias profissões, o seu estudo centra-se especialmente
na área do ensino e serviços de saúde, por serem actividades que envolvem
intenso contacto com pessoas (Maslach & Leiter, 1999).
Ensinar é uma actividade, em geral, altamente stressante com repercussões
evidentes na saúde e no desempenho profissional dos docentes (Reis, Araújo,
Carvalho, Barbalho, & Silva, 2006).
Kyriacou (1987) e Friedman (1991) afirmam que a experiência de stress no
professor deve ser entendida como uma ameaça ao seu bem-estar e auto-estima,
podendo levar ao desenvolvimento de sentimentos negativos, como a desmotivação
e a insatisfação, que na prática se manifestam pela diminuição da qualidade das
actividades desenvolvidas na sala de aula, o que pode acabar por traduzir-se em
efeitos indesejáveis no rendimento académico dos alunos.
Num estudo realizado com professores de uma escola secundária do distrito do
Porto, onde se avaliaram diversos indicadores relacionados com o trabalho e o
bem-estar pessoal (saúde física, stresse, burnout e satisfação profissional),
os resultados revelaram valores acima dos 30% de stresse ocupacional e de 13%
ao nível da prevalência de esgotamento e vários problemas de saúde física
(Gomes, Silva, Mourisco, Silva, Mota, & Montenegro, 2006).
Desta forma, é previsível que exista uma relação estreita entre burnout e a
satisfação da vida em geral, tal como Lloyd, Steiner e Shannon (1994) defendem.
De acordo com Hayes e Weathington (2007), a desvalorização pessoal provocada
pelo burnout medeia a relação entre o optimismo e a satisfação com a vida. Já
Demerouti, Bakker, Nachreiner e Schaufeli (2000), num estudo que teve por base
um modelo de burnout e satisfação com a vida, defendem que o burnout tem um
papel mediador entre as condições de trabalho e a satisfação com a vida.
A inclusão da problemática da depressão torna-se pertinente, uma vez que, em
todo o mundo existem milhões de deprimidos, havendo um estudo muito recente
sobre a prevalência das doenças mentais em Portugal, levado a cabo pela
Universidade de Harvard, Organização Mundial de Saúde e Universidade de
Ciências Médicas, com uma amostra representativa da população portuguesa, de
3849 pessoas, tendo apresentado uma prevalência de 7.9% para as perturbações
depressivas em Portugal (World Mental Health Consortium, 2010).
Num estudo de Fonseca, Chaves e Gouveia (2006), os autores referem que embora
os professores pareçam gozar de afectos positivos e satisfação com a vida,
contrariamente, pontuam alto em depressão e no bem-estar geral e que este facto
parece estar ligado aos aspectos da síndrome de burnout.
As exigências quantitativas do emprego (por exemplo, demasiado trabalho para o
tempo disponível) têm sido estudadas por pesquisadores, e os resultados apoiam
a noção geral de que o burnout é a resposta a uma sobrecarga. A carga de
trabalho experimentada e a pressão quanto ao tempo estão fortemente e
consistentemente relacionadas com o burnout, em particular na dimensão da
exaustão emocional (Maslach, Schaufeli, & Leiter, 2001). Neste sentido, van
Horn, Schaufeli, Greenglass e Burke (1997), concluíram que o número de horas de
trabalho dos docentes está positivamente relacionado com o burnout.
O fenómeno burnout e a sua eventual relação com a depressão têm sido objecto de
investigação. Um estudo de teste à validade discriminante do burnout em
contraste com a depressão, realizado por Reime e Steiner (2001), indicou a
validade para o burnout diferenciando-o da depressão.
Em estudos realizados, alguns autores acreditam que a depressão pode seguir-se
ao burnout, sendo que altos níveis de exigência psicológica, baixos níveis de
liberdade de decisão e de apoio social no trabalho, e stresse devido a trabalho
inadequado são preditores significantes para subsequente depressão (Iacovides,
Fountoulakis, Kaprinis, & Kaprinis, 2003; Mausner-Dorsch & Eaton,
2000). Sugere-se também que, embora sejam entidades separadas, partilham várias
características, especialmente nas formas mais graves de burnout, e em
indivíduos vulneráveis com baixos níveis de satisfação no seu trabalho diário
(Iacovides et al., 2003).
Diante da hipótese de que a susceptibilidade para depressão se associa ao
aumento de risco para desenvolvimento de burnout, Nyklicek e Pop (2005)
avaliaram os índices pessoais, história familiar de depressão e sintomas de
burnout e os resultados do seu estudo confirmaram essa hipótese.
Com base no exposto, foi objectivo do presente estudo proceder à análise das
relações entre o burnout, a satisfação com a vida, a depressão e a carga
horária em docentes de vários níveis de ensino.
Assim, como primeira hipótese era esperado que os docentes com uma maior carga
horária apresentassem maior intensidade de burnout, menor satisfação com a vida
e mais depressão. Como segunda hipótese, esperávamos, ainda, não encontrar
diferenças entre os sexos para a intensidade de burnout e que os homens
apresentassem valores mais elevados do que as mulheres na dimensão de
Despersonalização.
MÉTODO
Participantes
Foi recolhida uma amostra de conveniência de 308 professores, 123 do sexo
masculino e 185 do sexo feminino, da zona de Lisboa, com uma média de idades de
41,63 anos (DP=10,12). Participaram neste estudo professores do primeiro ao
terceiro ciclo e do ensino secundário e universitário. A maior parte dos
participantes eram casados, professores do 3º ciclo ou secundário, com um
período de leccionação misto, professores efectivos (Quadro de Nomeação
Definitiva e de Zona Pedagógica), não tinham outros cargos e não trabalhavam a
uma grande distância do local de residência.
Medidas
Frequência e Intensidade de Burnout.Avaliada através do Maslach Burnout
Inventory(MBI; Maslach, Jackson, & Leiter, 1996). É uma medida de auto-
avaliação que mede a frequência e a intensidade da exaustão profissional. É
composta por 22 itens, com formato de resposta numa escala tipo Likertde 7
pontos ("1 - Nunca" a "7 - Todos os Dias").
É composta por 3 factores que formam 3 sub-escalas que caracterizam o burnout:
exaustão emocional (E.E), composta por 9 itens, avalia situações que exprimem
sentimentos de esgotamento emocional no trabalho; despersonalização (D.P),
composta por 5 itens, que avalia situações que exprimem sentimentos de
desvalorização da própria existência, sentido ou interesse e realização pessoal
(R.P.), composta por 8 itens, que avalia sentimentos de competência e
realização pessoal no trabalho. Valores mais elevados nos factores de exaustão
emocional e despersonalização e valores mais baixos no factor de realização
pessoal traduzem maiores níveis de burnout.
O estudo das suas qualidades psicométricas evidenciou valores de consistência
interna (alfa de Cronbach) adequados todas as sub-escalas e para a escala total
(Maslach, Jackson, & Leiter, 1996). Visto não se conhecerem as
características psicométricas desta escala para a população portuguesa, foi
efectuado o estudo da consistência interna nas três dimensões, tendo-se
encontrado valores
α de Cronbach de 0,89 para a exaustão emocional, 0,57 para a despersonalização
e 0,79 para a realização pessoal.
Satisfação com a Vida. Avaliada pela Satisfaction with Life Scale(SWLS; Diener,
1984). Esta escala, que pretende avaliar o juízo subjectivo que cada indivíduo
faz sobre a qualidade da própria vida, é constituída por 5 itens de resposta
tipo Likert de 7 pontos, de 1 (discordo totalmente) a 7 (concordo totalmente).
A medida permite um resultado total que varia de 5 a 35, no sentido de maior
satisfação com a vida.
A SWLS foi validada, pela primeira vez em Portugal, por Neto, Barros e Barros
(1990), num estudo realizado com base numa amostra de 308 professores do ensino
básico e secundário. Os autores encontraram uma consistência interna (através
do α de Cronbach) de 0,78, tendo a análise factorial em componentes principais
revelado a existência de um só factor, contribuindo para 53,1% da variância. A
presente amostra apresentou um α de Cronbach superior (0,86).
Depressão. Avaliada pela Beck Depression Inventory(BDI; Beck, Steer &
Garbin, 1988), versão portuguesa (Serra, Firmino, Mira, Silva, & Fernandes,
1989). A escala é constituída por 21 grupos de quatro afirmações. Em cada grupo
as afirmações são cotadas de zero a três pontos e estão apresentadas da cotação
mais baixa para a mais alta, dependendo da severidade do sintoma, existindo uma
ou mais perguntas com a mesma cotação. Os resultados obtidos neste questionário
correspondem ao somatório dos valores atribuídos a cada afirmação, podendo
assumir resultados entre 0 e 63, no sentido de maior depressão.
Quanto às características psicométricas, uma meta-análise da consistência
interna do BDI forneceu uma média de 0,81 (α de Cronbach) para população não
clínica (Beck et al., 1988). A consistência interna obtida na presente amostra
mostrou-se adequada com um α de Cronbach de 0,88.
Procedimento
A recolha da amostra decorreu em diversos estabelecimentos de ensino de Lisboa
e periferia. Após autorização do órgão de gestão das escolas, a aplicação do
protocolo foi realizada na sala dos professores durante o intervalo das aulas.
Foi pedido o preenchimento aos participantes, tendo sido dada, previamente,
informação acerca do objectivo do estudo e do tipo de participação pretendida,
da confidencialidade e anonimato, da possibilidade de desistência no decorrer
da avaliação, assim como da inexistência de respostas correctas ou incorrectas.
As medidas foram aplicadas pela seguinte ordem: Questionário de Dados
Demográficos, Inventário de Burnout de Maslach (MBI), Escala de Satisfação com
a vida (SWLS) e Escala de Depressão de Beck (BDI).
Os dados recolhidos foram introduzidos numa base de dados, tendo os
procedimentos estatísticos sido efectuados pelo Statistical Package for the
Social Sciences (SPSS) versão 17.0 para Windows. Para estudar as diferenças
entre grupos foi utilizado o teste t de Student para duas amostras
independentes, por se tratar de variáveis numéricas, que cumprem os
pressupostos para a utilização de testes paramétricos. Para a análise das
correlações foi utilizado o coeficiente de correlação de Pearson para
associações entre duas variáveis numéricas e o coeficiente de Spearman para
associações entre uma variável numérica e outra não numérica.
RESULTADOS
Diferenças entre sexos para a Satisfação com a Vida, Depressão e Dimensões de
Burnout
A Tabela_1 mostra os dados descritivos e os resultados da comparação entre
homens e mulheres, através do teste tde Student para amostras independentes,
relativamente às variáveis em estudo.
Foram encontradas diferenças estatisticamente significativas entre os sexos
para a depressão [t(303)=-3,67; p<0,000], para a exaustão emocional [t(305)=-
5,05; p<0,000] e para a despersona lização [t(293)=-3,44; p=0,001] .As mulheres
apresentaram valores superiores aos homens em todas as dimensões referidas, ver
Tabela_1.
Correlações entre a Carga horária total e a Satisfação com a vida, depressão e
dimensões de Burnout
A carga horária correlacionou-se de forma fraca mas positiva e estatisticamente
significativa com a depressão, com um valor de correlação de r=0,16 (p=0,004),
sendo que os participantes com uma maior carga horária total apresentavam
valores superiores de depressão.
Correlações entre as Variáveis ligadas à Profissão e a Satisfação com a vida,
Depressão e dimens ões de Burnout
A Tabela_2 mostra os coeficientes de correlação de Spearman obtidos pelo estudo
das associações entre as dimensões ligadas à profissão e a satisfação com a
vida, depressão e dimensões de Burnout.
A satisfação com a vida correlacionou-se de forma fraca mas positiva e
estatisticamente significativa com o nível de ensino, com um valor de
correlação de rho=0,20 (p=0,001) e correlacionou-se de forma fraca e negativa
mas estatisticamente significativa com a carga lectiva semanal, com um valor de
correlação de rho=-0,18 (p=0,002). Os resultados demonstram que os professores
que leccionavam em níveis de ensino superiores e com cargas lectivas semanais
inferiores, apresentavam maior satisfação com a vida.
A depressão correlacionou-se de forma fraca mas positiva e estatisticamente
significativa com o tempo de serviço, a carga lectiva semanal e o vínculo
profissional, com valores de correlação entre rho=0,17 (p=0,003; vínculo
profissional) e rho=0,22 (p<0,000; carga lectiva semanal) e correlacionou-se de
forma fraca e negativa mas estatisticamente significativa com o nível de
ensino, com um valor de correlação de rho=-0,28 (p<0,000). Os resultados
revelam que os professores que têm mais tempo de serviço, leccionavam em níveis
de ensino inferiores, com carga lectiva semanal superior e vínculo profissional
mais definitivo, revelavam mais depressão.
A exaustão emocional correlacionou-se de forma fraca e negativa mas
estatisticamente significativa com o nível de ensino, com um valor de
correlação de rho=-0,15 (p=0,011). Os resultados demonstram que os professores
que leccionavam em níveis de ensino inferiores, apresentavam maior exaustão
emocional.
A realização pessoal correlacionou-se de forma fraca e negativa mas
estatisticamente significativa com o vínculo profissional com um valor de
correlação de rho=-0,13 (p=0,023). Os resultados demonstram que os professores
que tinham um vínculo profissional menos definitivo apresentavam maior
realização pessoal. Visto o vínculo profissional estar associado muito
significativamente com a idade, foi efectuada uma correlação parcial entre o
vínculo profissional e a realização pessoal, controlando a idade, e os
resultados mostram não haver relação entre as duas dimensões (p>0,05).
É ainda de salientar que nenhuma das dimensões do burnout se correlacionou de
forma estatisticamente com a carga horária, seja lectiva, não lectiva ou com
outros cargos (p>0,05), ver Tabela_2.
Correlações entre as dimensões de Burnout e Satisfação com a Vida e Depressão
A satisfação com a vida correlacionou-se de forma fraca mas positiva e
estatisticamente significativa com a realização pessoal, com um valor de
correlação de r=0,16 (p=0,005) e correlacionou-se de forma fraca e negativa mas
estatisticamente significativa com a exaustão emocional e despersonalização ,
com valores de correlação de r=-.28 (p<.000) e r=-0,19 (p=0,001),
respectivamente. Os resultados demonstram que os professores com menor exaustão
emocional, menor despersonalização e maior realização pessoal apresentavam
maior satisfação com a vida.
A depressão correlacionou-se de forma moderada, positiva e estatisticamente
significativa com a exaustão emocional e a despersonalização, com valores de
correlação de r=0,50 (p<0,000) e r=0,33 (p<0,000) e, respectivamente e
correlacionou-se de forma fraca e negativa mas estatisticamente significativa
com a realização pessoal, com um valor de correlação de r=-0,23 (p<0,000) Os
resultados demonstram que os professores com maior exaustão emocional, maior
despersonalização e menor realização pessoal apresentavam mais depressão.
DISCUSSÃO
Foi objectivo deste estudo proceder à análise das relações entre o burnout, a
satisfação com a vida, a depressão e a carga horária em docentes de vários
níveis de ensino.
Tal como esperado, os docentes com uma maior carga horária apresentaram mais
sintomas de depressão, confirmando a hipótese colocada e o defendido na
literatura (Muhwezi, Agreen, Neema, Maganda, & Musisi, 2008). Contudo não
foi encontrada a relação defendida em estudos anteriores entre a carga horária
e a intensidade de burnout, mesmo quando o efeito da depressão foi controlado
(van Horn, Schaufeli, Greenglass, & Burke, 1997) ou com a satisfação com a
vida (Budderberg-Fischer, Klaghofer, Stamm, Siegrist, & Buddeberg, 2008).
Estas diferenças podem ser justificadas pelo facto do burnout e a satisfação
com a vida estarem a ser influenciadas por outras variáveis que não a carga
horária. Como a carga horária dos professores é estabelecida por lei, não
alcança níveis extremos como em outros tipos de profissões. Talvez só nestes
casos extremos a carga horária influencie negativamente o bem-estar da pessoa.
Ao contrário do colocado em hipótese, as mulheres apresentaram valores
superiores de burnout quando comparadas com os homens, o que contraria alguns
estudos anteriores que referiam não existirem diferenças entre os géneros para
a intensidade de burnout (Burke, 1989; Trigo, Teng, & Hallak, 2007), mas
confirma o defendido noutros estudos (Greenglass, 1991; Pines, 1997; Toker,
Shirom, Shapina, Berliner, & Melamed, 2007).
Contrariamente ao encontrado na literatura (Burke, 1989; Greenglass, 1991;
Rupert, & Kent, 2007; Russell, Altmaier, & van Velzen, 1987) que
defende que os homens apresentam valores mais elevados do que as mulheres na
dimensão de Despersonalização, os resultados demonstraram valores superiores
para as mulheres, infirmando assim a hipótese colocada. A discrepância de
resultados pode dever-se a que grande parte dos estudos encontrados na
literatura são realizados com amostras que incluem diversas profissões e não só
professores, sendo desta forma possível que outras variáveis possam ter
influenciado os seus resultados, como por exemplo o facto de tradicionalmente
os homens terem posições hierárquicas superiores às mulheres e também pelo tipo
de profissões mais escolhidas pelas mulheres envolverem uma função cuidadora.
No presente estudo, todos os participantes têm a mesma profissão, não havendo
esta influência.
Os resultados demonstraram níveis superiores de exaustão emocional nas
mulheres, tal como referido em estudos anteriores (Burke, 1989; Greenglass,
1991; Reis, Araújo, Carvalho, Barbalho, & Silva, 2006).
Foram encontradas igualmente diferenças entre sexos para a depressão, sendo tal
como defendido em estudos anteriores (Hyde, Mezulis, & Abramson, 2008;
Toker, et al., 2007) as mulheres a apresentar mais sintomatologia depressiva.
Os resultados demonstraram ainda que os professores que apresentavam maior
satisfação com a vida eram, tal como encontrado na literatura, os que
leccionavam em níveis de ensino mais elevados (Pereira, 1999) e os que tinham
menor carga lectiva semanal (Barnett & Gareis, 2000; Galambos &
Walters, 1992). Os professores com mais sintomas de depressão eram os que
leccionavam em níveis de ensino inferiores e que tinham maior carga horária,
tal como defendido por Galambos e Walters (1992) e os que apresentaram mais
tempo de serviço e um vínculo mais definitivo, ao contrário de defendido por
D'Souza, Strazdins, Lim, Brom e Rodgers (2003) que indica que em
situações de mais insegurança existe mais depressão. As diferenças entre a
literatura e o presente estudo pode ser justificada pelas especificidades da
profissão de professor, pois se por um lado a insegurança pode causar
depressão, existem outros factores stressantes e considerados de risco
envolvidos nesta profissão, como o lidar com indisciplina, o cansaço acumulado
dos anos e a idade. Ainda contrariamente ao defendido na literatura (Antoniou,
Polychroni, & Vlachakis, 2006; Lau, Yuen, & Chan, 2005) que defende que
os professores mais novos apresentam maior burnout, no presente estudo foram os
professores com mais tempo de serviço que apresentaram maiores valores de
burnout. Esta diferença de resultados pode dever-se a que, talvez os
professores mais novos tenham ainda uma maior tolerância aos aspectos mais
negativos da profissão.
Os professores que relataram mais exaustão emocional foram os que leccionavam
em níveis de ensino inferior. Não foi encontrada literatura que confirme ou
infirme este resultado, apenas um estudo de van Horn e colaboradores (1997) que
refere que os professores que ensinam em anos lectivos inferiores têm mais
burnout, mas apenas nas duas componentes (despersonalização e realização
pessoal), não encontrando relação com a exaustão emocional.
Os resultados revelaram que a realização pessoal era superior nos professores
com um vínculo menos definitivo e que se sentiam mais prejudicados com a
distância entre a sua morada e a escola, podendo estes dados indicar que
provavelmente serão outras as variáveis que têm influência na realização
pessoal. Embora Esteve (1999) considere que as mudanças excessivas num curto
espaço de tempo possam provocar problemas à saúde dos profissionais, Chaves e
Fonseca (2006) verificaram o oposto, defendendo que essas mudanças do contexto
da vida docente podem estar a influenciar positivamente o bem-estar, na medida
em que estão a fazer um investimento na carreira profissional, reforçando o
sentimento de satisfação e valorização do seu trabalho.
Foi ainda constatado que os professores com menor exaustão emocional, menor
despersonalização, maior realização pessoal e menos burnout, apresentavam maior
satisfação com a vida, tal como defendido por outros autores (Carlotto &
Câmara, 2007; Demerouti et al., 2000; Duran, Extremera, Montalban, & Rey,
2005; Grossi, Perski, Evengard, Blomkvist, & Orth-Gomer, 2003; Hayes &
Weathington, 2007; Lloyd, Steiner, & Shannon, 1994).
Os resultados demonstram, também, que os professores com maior exaustão
emocional, maior despersonalização e menor realização pessoal, apresentavam
mais depressão, tal como encontrado em estudos anteriores (Iacovides et al.,
2003; Mausner-Dorsch & Eaton, 2000; Nyklicek & Pop, 2005; Reime &
Steiner, 2001; Toker et al., 2007; Trigo et al., 2007).
Como limitação ao estudo podemos referir o facto de que só foi recolhida
amostra no distrito de Lisboa, não sendo a amostra representativa da população
de professores portugueses.
Sugerimos para estudos futuros que seria interessante incluir uma escala de
valores de vida, de modo a poder comparar as mesmas dimensões deste estudo, mas
entre professores, que apresentem como um dos principais valores de vida a
realização profissional e o lado económico, e os professores com outros tipos
principais de valores de vida.
Estudos no âmbito do burnout e depressão, em professores, são muito importantes
devido ao contexto em que os professores trabalham. Neste sentido, importa
saber, a nível estrutural, que condições são importantes fornecer aos
professores que lhes permitam um bom desempenho da sua profissão, como por
exemplo a distância de casa à escola; por outro lado, a nível clínico, saber
que sintomatologia está associada às condições de trabalho dos professores.