Para uma revisão da abordagem multidimensional das impressões de personalidade:
O culto, o irresponsável, o compreensivo e o arrogante
Para uma revisão da abordagem multidimensional das impressões de personalidade:
O culto, o irresponsável, o compreensivo e o arrogante
Mário B. Ferreira*; Leonel Garcia-Marques*; Hugo Toscano**; João Carvalho*;
Sara Hagá***
*Faculdade de Psicologia, Universidade de Lisboa;
**Faculdade de Psicologia, Universidade de Lisboa / Centro de Investigação e
Intervenção Social afecto ao ISCTE - Instituto Universitário de Lisboa;
***Departamento de Psicologia Social e das Organizações, ISCTE -
Instituto Universitário de Lisboa
Correspondência
ABSTRACT
The two-dimensional structure of the implicit theories of personality
(Rosenberg, Nelson, & Vivekananthan, 1968) is revisited in two studies. The
first study sought to obtain the two original dimensions (social and
intellectual), replicating the work of Rosenberg and colleagues. For this
purpose, personality traits used in the original study were translated into
Portuguese. In the second study we used traces generated spontaneously by a
sample of Portuguese participants. Thus, the first study assesses the impact of
40 years of cultural changes in the dimensions originally identified and the
second seeks to expand the validity of the original theoretical proposal. Data
analysis using the multidimensional scaling and cluster analysis confirms the
timeliness and importance of two-dimensional implicit theory while suggesting
some changes in the content of evaluative dimensions.
Key-words:Implicit theories of personality, Multidimensional scaling, Social
and intellectual desirability, Two-dimensional structure of traits.
"Olhamos para uma pessoa e imediatamente se forma em nós uma impressão do
seu carácter. Um olhar, algumas palavras, são o suficiente para nos contar uma
história sobre algo extremamente complexo. Sabemos que tais impressões se
formam com uma espantosa rapidez e com uma grande facilidade" (Asch,
1946, p. 258).
Ao formar impressões de personalidade as pessoas revelam uma extraordinária
aptidão para ir além da informação dada de formas que são características,
sistemáticas e previsíveis (Asch, 1946). Por exemplo, se o Filipe nos parece
muito simpático, estamos normalmente dispostos a assumir que ele é
provavelmente sensível e divertido. A questão óbvia que esta extraordinária
capacidade inferencial levanta e para a qual Solomon Asch nunca achou uma
resposta satisfatória é: O que fundamenta este processo altamente inferencial?
Com efeito, foi necessário esperar mais de duas décadas de investigação em
psicologia para que a questão inicialmente colocada por Asch fosse cabalmente
respondida: as pessoas possuem representações mentais (largamente partilhadas)
sobre a forma como diferentes traços de personalidade tendem a co-variar num
mesmo indivíduo. Estas representações ou teorias implícitas que temos sobre a
personalidade obedecem por um lado a um princípio de consistência avaliativa e,
por outro, a uma diferenciação entre duas dimensões avaliativas: social e
intelectual. Rosenberg, Nelson e Vivekananthan (1968) foram pioneiros na
sugestão de uma teoria implícita de personalidade (TIP) bidimensional onde
vigoram as duas dimensões acima referidas que se subdividem em quatro
quadrantes representados por traços de personalidade da dimensão social e de
valência positiva; traços da dimensão social e valência negativa; traços da
dimensão intelectual e valência positiva; e traços da dimensão intelectual de
valência negativa.
O presente artigo revisita a teoria implícita de personalidade bidimensional
proposta por Rosenberg e colaboradores (1968), com o objectivo de avaliar o
impacto de 40 anos de mudanças culturais nas dimensões identificadas
originalmente e estender a validade da proposta teórica original. Mais
especificamente, o primeiro estudo procura replicar a investigação inicial
destes autores usando o mesmo material (i.e., tradução directa dos traços de
personalidade em língua inglesa usados originalmente), seguindo o mesmo
procedimento, e aplicando o mesmo método de redução da dimensionalidade. A
confirmar-se, no presente caso, uma estrutura bidimensional da personalidade
tal como foi proposta pelos autores há cerca de 40 anos atrás (tendo agora como
participantes jovens estudantes portugueses que nasceram e cresceram num
ambiente cultural substancialmente diferente do dos anos 60), tratar-se-á de um
forte indicador da robustez e do carácter basilar desta teoria implícita na
maneira como formamos impressões de personalidade.
Por outro lado, os traços de personalidade originalmente usados foram
seleccionados por terem sido previamente incluídos em estudos com relevância
teórica para o trabalho de Rosenberg e colaboradores (e.g., Asch, 1946;
Wishner, 1960) ou por razões que se prendiam com o balanceamento do material em
termos de valência (e.g., frequência relativa na lista de traços de
personalidade de valência positiva e negativa). Estas opções de escolha, embora
razoáveis, deixam em aberto a possibilidade de os traços de personalidade
utilizados não corresponderem aos traços tipicamente usados pelas pessoas no
seu quotidiano. Por outras palavras, fica por saber o grau em que os resultados
encontrados podem dever-se à natureza relativamente peculiar ou atípica dos
traços de personalidade com que se pediu aos participantes para formar
impressões. Esta crítica, não pondo directamente em causa a validade da teoria
implícita bidimensional da personalidade, introduz claras limitações ao seu
potencial grau de abrangência. O segundo estudo testou empiricamente esta
questão começando por uma tarefa de geração espontânea de traços de
personalidade que os participantes normalmente usam para descrever a
personalidade das pessoas e, numa segunda fase (com uma nova amostra de
participantes da mesma população de estudantes universitários), aplicando o
procedimento de categorização original (Rosenberg et al., 1968). O grau de
convergência, que se verificar entre os resultados de ambos os estudos,
permitirá avaliar a abrangência e validade da abordagem teórica original.
Antes de os estudos serem apresentados, far-se-á uma breve revisão crítica da
literatura sobre teorias implícitas da personalidade com o propósito de
fundamentar empiricamente e enquadrar teoricamente os objectivos do presente
trabalho. Procurar-se-á identificar alguns aspectos metodológicos fundamentais
subjacentes à investigação em teorias implícitas da personalidade; compreender
a história da sua origem e desenvolvimento até à proposta teórica de Rosenberg
e colaboradores (1968); demonstrar o carácter fundamental e a vasta
aplicabilidade teórica das duas dimensões avaliativas (social e intelectual) no
âmbito de diversos tipos de julgamentos sociais.
TEORIAS IMPLÍCITAS DE PERSONALIDADE
Na primeira revisão da literatura sobre percepção de pessoas, Bruner e Tagiuri
(1954) introduziram o termo "teoria implícita de personalidade"
para descrever a hipótese de que as pessoas percepcionam relações inferenciais
entre atributos ou traços. Esta hipótese inicial surge de uma concepção
gestálticada formação de impressões (Asch, 1946), em que o todo (a impressão) é
mais do que a soma das partes (cada um dos traços). Segundo esta noção da
percepção de pessoas, as pessoas procuram formar uma impressão coerente e
única, demonstrando uma tendência para irem além da informação dada (Bruner,
1957). Este processo inferencial permite
-lhes completar a impressão que se forma do alvo, por exemplo, através da
inferência da presença de traços a partir de outros traços presentes no alvo
(Asch, 1946). Com a crescente influência da psicologia cognitiva, estas
relações inferenciais entre traços consolidaram-se definitivamente como um
reflexo de uma estrutura de conhecimento ou representação mental partilhada
pelas pessoas.
No início foram desenvolvidas concepções sobre uma possível estrutura ou
representação das relações entre traços (Cronbach, 1955; Jones, 1954; Kelley,
1955; Steiner, 1954) em que, de uma forma global, o conceito de TIP referia-se:
(1) a categorias que a pessoa aplica para descrever a amplitude de habilidades,
atitudes, interesses, características físicas, traços, e valores que
percepciona em si e nos outros; (2) e a crenças que uma pessoa mantém acerca de
quais as características percepcionadas que se tendem a conjugar ou não. Estas
teorias são catalogadas de "senso-comum", "leigas" e
"naíves" para se distinguirem de teorias científicas de
personalidade, uma vez que se referem a teorias partilhadas por todas as
pessoas acerca das relações existentes entre características da personalidade.
São também caracterizadas como "implícitas" porque essas categorias
e crenças não são declaradas explicitamente pelas pessoas, mas inferidas das
descrições espontâneas e das expectativas formadas ao longo do tempo sobre
indivíduos e grupos particulares.
Do ponto de vista metodológico, Cronbach (1955, 1958) forneceu uma concepção de
teoria implícita de personalidade que permitiu enquadrar a investigação na
procura de validar uma estrutura das relações entre traços. Segundo o autor, a
teoria leiga deveria corresponder a mais do que relações entre traços.
Especificamente, sugeriu que o uso de uma série de escalas de classifi cação na
descrição pessoal de um alvo permitia uma distribuição de pontos num espaço
multi variado (Cronbach, 1955, 1958). A teoria implícita seria uma
representação em termos das médias, variâncias e covariâncias desse espaço
multivariado: a média seria considerada como um estereótipo ou protótipo; a
variância como a tendência para diferenciar numa dada dimensão; e a covariância
como a relação percebida entre traços.
A partir de então foram realizados diversos estudos que procuraram validar uma
possível estrutura ou dimensões que permitissem compreender as relações entre
os diferentes traços. Embora alguns destes estudos tenham surgido com o
objectivo de propor uma taxonomia de traços (e.g., Wiggins, 1979), no presente
trabalho iremos focar-nos nos estudos que avaliaram as relações entre traços
enquanto categorias descritivas da personalidade das pessoas.
Apesar de na maioria dos estudos no âmbito das TIP se obter pelo menos uma
matriz de relações de traços, existem diferenças tanto na forma como essas
relações foram estabelecidas, como nas análises realizadas nessa matriz de
traços. Do ponto de vista metodológico podemos enquadrar essas diferenças nas
seguintes fases: (1) atribuição de traços a objectos sociais; (2) criação da
matriz de traços; (3) interpretação das relações entre traços; (4) redução da
matriz de traços numa matriz mais básica; (5) interpretação da matriz básica.
Não sendo intuito deste trabalho fazer uma revisão dos aspectos metodológicos
(para uma revisão ver Schneider, 1973), importa referir dois aspectos
fundamentais.
O primeiro refere-se à forma como se obtém a medida da relação entre os traços.
A este respeito é importante mencionar o facto de os estudos explicitamente
enquadrados na validação das TIP perspectivarem a relação entre traços enquanto
conceitos presentes nas pessoas. Ou seja, a relação estabelecida não pretende
ser simplesmente ao nível semântico (e.g., semelhança no significado do traço),
mas antes que reflicta a tendência para diferentes traços caracterizarem uma
mesma pessoa.
O segundo aspecto refere-se às técnicas estatísticas utilizadas na
simplificação da relação complexa entre os traços (e.g., análise de clusters,
análise factorial, escalonamento multidimen sional). Este é um aspecto
importante e característico da literatura sobre as TIP, verificando-se uma
enorme preocupação com os prós e contras no uso de diferentes técnicas na
validação da estrutura das TIP. Contudo, o pressuposto subjacente a todas elas
é globalmente partilhado e referese à possibilidade de extracção de categorias
ou factores comuns a uma grande amostra de itens, neste caso de traços. Para
além disso, o uso de diferentes técnicas estatísticas, embora possa revelar
algumas diferenças pontuais, no geral não parece implicar representações ou
dimensões diferentes (Powell & Juhnke, 1983; Rosenberg & Sedlak, 1972).
A mesma consistência e coerência nos principais factores ou dimensões que
parecem constituir a representação das TIP são encontradas em diversos estudos,
apesar das diferentes abordagens usadas nas outras etapas metodológicas
apontadas acima. De seguida analisamos que factores subjazem a essa
representação.
OS BONS E OS MAUS: A MAIS SIMPLES TEORIA IMPLÍCITA DE PERSONALIDADE
Formulada em psicologia social como um axioma do pensamento humano por Fritz
Heider (1946), a procura de consistência avaliativa foi desde o início apontada
como um princípio básico de associação entre traços. Segundo este princípio,
traços da mesma valência tendem a ser inferidos, ou seja, traços positivos são
inferidos de traços igualmente positivos e, em contraponto, traços negativos
inferidos de traços também negativos. Num estudo clássico que demonstra esta
relação simples entre os traços, Bruner, Shapiro e Tagiuri (1958) pediram aos
participantes para realizarem inferências directas de um traço para outro. Uma
questão típica era: "Suponha que uma pessoa é inteligente, quão provável
é que essa pessoa também seja fiável (medida numa escala numérica)?" Os
resultados demonstraram consistentemente que um traço positivo (e.g., culto ou
simpático) era inferido de outro traço também positivo (inteligente), ocorrendo
o mesmo para traços negativos. Neste estudo, a consistência avaliativa revelou-
se como o único factor subjacente às inferências realizadas pelos
participantes. O mesmo princípio de associação foi encontrado consistentemente
por Osgood e Ware (citados por Osgood, 1962) apesar de terem um objectivo
clínico de desenvolver um instrumento (Diferencial de Personalidade) que
permitisse diferenciar indivíduos usando a linguagem natural de personalidade.
Novamente foram pedidos julgamentos traço-para-traço, em que os participantes
avaliavam a probabilidade de co-ocorrência numa escala de diferencial
semântico, na qual se encontravam traços com significado oposto nos extremos
(e.g., simpático e antipático). Recorrendo a uma análise factorial verificaram
um factor avaliativo geral que explicava 58% e 69% da variância total para duas
amostras1.
Este factor avaliativo foi permanentemente encontrado independentemente: da
metodologia de classificação de pessoas (e.g., Podell, 1961; Schneider, 1973);
da quantidade de traços avaliados e consequentemente da complexidade da sua
estrutura relacional (Digman & Takemoto-Chock, 1981); da técnica
estatística utilizada para derivar os factores ou dimensões subjacentes (Powell
& Juhnke, 1983). Por outro lado, a consistência avaliativa parece manter-se
independentemente da pessoa que classifica (leigos ou profissionais clínicos) e
o tipo de pessoa classificada (conhecido ou desconhecido; Passini & Norman,
1966).
Dada a replicabilidade deste factor avaliativo geral no tipo de relações entre
traços que as pessoas inferem, Brown (1965, 1986) considerou-o como a mais
simples das TIP. Contudo, acreditar que este factor se aplica isoladamente
parece muito improvável e simplista, quer do ponto de vista do julgamento real
de pessoas e da representação leiga de personalidade, quer do ponto de vista da
verdadeira co-ocorrência dos traços nas pessoas. Como exemplo anedótico,
pensemos na nossa própria personalidade. Não temos somente características
positivas ou negativas. Tal implicaria uma divisão entre pessoas boas e más. No
entanto, não podemos ignorar a sua relevância ao constituir uma teoria
implícita que os participantes têm relativamente à forma como os traços tendem
a estar associados nas pessoas, tal como evidenciado nos estudos acima
descritos. De seguida apresentamos uma concepção bidimensional da estrutura das
TIP que vai para além deste factor avaliativo.
OS (IN)SOCIÁVEIS E OS (IN)COMPETENTES: A ESTRUTURA BIDIMENSIONAL DAS TEORIAS
IMPLÍCITAS DE PERSONALIDADE
Rosenberg, Nelson e Vivekananthan (1968) propondo o uso de uma técnica
estatística recente na altura chamada Escalonamento Multidimensional
(Multidimensional Scaling) sugeriram duas dimensões implícitas nas teorias
leigas da personalidade. Os autores pediram explicitamente a mais de 100
participantes que agrupassem um conjunto de 64 traços2 em diferentes categorias
(máximo dez), tendo como critério de agrupamento os traços que pensavam co-
ocorrer num mesmo indivíduo. Ou seja, para uma mesma categoria deveriam ser
colocados os traços que tenderiam a existir na mesma pessoa. Os participantes
deveriam basear-se num número de pessoas que conhecessem (e.g., parentes,
amigos, figuras públicas), equivalendo uma pessoa a uma categoria. Assim, cada
traço apenas podia pertencer a uma categoria.
Posteriormente, de forma a criarem matrizes de relação entre traços, os autores
usaram uma medida de dissociação entre cada par de traços. Esta medida baseava-
se na subtracção da proporção de participantes que consideraram os traços como
pertencentes à mesma categoria ao número total de participantes. Por exemplo,
se 9 dos 69 participantes acharam que caloroso e inteligente tendiam a co-
ocorrer numa mesma pessoa, a medida de dissociação para este par de traços
seria 60. As matrizes de dissociação foram sujeitas à técnica de Escalonamento
Multidimensional que sintetizou numa representação euclidiana as relações
existentes entre os diferentes traços. Esta técnica permite que a natureza das
relações entre os traços de personalidade seja representada graficamente, tendo
em conta o número de dimensões impostas para a compreensão dos dados. A
selecção do número de dimensões deve respeitar dois critérios principais em
conjunto. Primeiro, deve-se ter em consideração a pouca distorção da real
representação das variáveis (traços) que a simplificação nas dimensões implica.
Para tal, é utilizada uma medida de distorção designada de stress, em que um
menor valor significa menor distorção. O segundo critério refere-se à
compreensibilidade dos dados, ou seja, se menos ou mais dimensões permitem
compreender melhor a relação entre traços. Rosenberg e colaboradores testaram
diferentes representações (uni, bi e tridimensionais) e procuraram validar
essas representações estatisticamente, chegando à conclusão que a representação
bidimensional (stress=9%) seria a mais adequada de acordo com os critérios
anteriormente referidos.
A solução bidimensional encontra-se representada graficamente (ver Figura_1) e
permite identificar quatro domínios do significado dos traços. Analisando o
gráfico verificamos a existência de duas dimensões quase independentes, uma
referente a características intelectuais da personalidade e outra a
características sociais. Por sua vez, uma análise em termos dos extremos de
cada dimensão permite-nos observar que cada dimensão apresenta um pólo com
traços avaliativamente positivos e outro com traços negativos. Os dois eixos
não são totalmente ortogonais sugerindo que os traços dos pólos positivos e
negativos de cada dimensão estão ligeiramente associados. Apesar de nesta
estrutura bidimensional existir uma divisão com base na valência dos traços,
esta revela-se contudo insuficiente para considerar o agrupamento das duas
dimensões. Pelo que não é considerado como o único princípio de associação que
guia a inferência de traços.
Esta estrutura bidimensional proposta por Rosenberg e colaboradores (1968)
tornou-se a mais coerente e consistente das teorias implícitas de
personalidade, tendo sido validada em diversos estudos esta concepção de duas
dimensão - social e intelectual - subjacentes ao julgamento social
(e.g., Abele & Wojciszke, 2007; Abele, Cuddy, Yzerbyt, & Judd, 2008;
Cuddy, Fiske, & Glick, 2008; Friendly & Glucksberg, 1970; Hamilton
& Fallot, 1974; Lydon, Jamieson, & Zanna, 1988; Reeder & Brewer,
1979; Wojciszke, 2005; Zanna & Hamilton, 1972). O próprio Rosenberg
replicou esta estrutura utilizando, por exemplo, diferentes tipos de
julgamentos para além da co-ocorrência numa mesma pessoa (e.g., ratingsde
similaridade) e outras técnicas estatísticas (e.g., análise classificatória),
obtendo de uma forma consistente estas duas dimensões (Gara & Rosenberg,
1981; Rosenberg & Jones, 1972; Rosenberg & Olshan, 1970; Rosenberg
& Sedlak, 1972).
SOCIABILIDADE E COMPETÊNCIA: DIMENSÕES UNIVERSAIS DA COGNIÇÃO SOCIAL
Mais recentemente, a investigação sobre diversos julgamentos sociais (e.g.,
percepção inter pessoal, percepção de grupos sociais e auto-percepção) tem
convergido para a evidência de que duas dimensões fundamentais subjazem esses
julgamentos (ver special issuedo European Journal ofSocial Psychology, Abele,
Cuddy, Yzerbyt, & Judd, 2008). Estas dimensões têm sido apelidadas de
diferentes formas consoante o objecto do julgamento. Por exemplo, na área da
percepção de grupos ou estereótipos os investigadores referem-se às dimensões
de warmthe competence(Cuddy et al., 2008; Fiske, Cuddy, Glick, & Xu, 2002),
no caso da investigação sobre o selfou o género são mencionadas de communione
agency(Abele, 2003; Abele & Wojciszke, 2007), ou no caso da percepção
interpessoal de moralitye competence(Wojciszke, 2005). Muitas outras
nomenclaturas são utilizadas (ver Abele, Cuddy, Judd, & Yzerbyt, 2008), mas
as dimensões no geral referem-se ao mesmo tipo de julgamentos. A primeira
dimensão (e.g., warmth, communion, morality) é represen tada por traços de
natureza social de ambas as valências. São exemplos desta dimensão traços
positivos como caloroso, amigável, honesto e traços negativos como frio, não
confiável e desonesto. A segunda dimensão (e.g., competence, agency) é
representada por traços referentes à capacidade ou eficiência do alvo, sendo
característicos desta dimensão traços positivos como competente, assertivo,
ambicioso e inteligente, e traços negativos como indeciso, passivo, preguiçoso
e ineficaz.
Segundo Wojciszke, Bazinska e Jaworski (1998) as duas dimensões representam 82%
das variações na percepção social que as pessoas realizam no seu dia-a-dia.
Quando as pessoas formam impressões dos outros, warmthe competencefuncionam
como dimensões básicas, que servem para descrever as pessoas na sua totalidade.
Recentemente, alguns autores argumentam que a organização dos traços nestas
duas dimensões não é acidental, mas antes funcional. Ou seja, segundo estas
perspectivas ambas as dimensões reflectem desafios que os humanos enfrentaram
ao longo da sua evolução. A primeira necessidade relacionada com a procura de
aceitação e comunhão social e a segunda relacionada com a procura de manifestar
habilidades, competências e o alcanço de estatuto.
A evidência reunida até ao momento parece convergir para a hipótese proposta
por Rosenberg e colaboradores (1968) de que existem duas dimensões importantes
na representação dos traços em cognição social e particularmente nas teorias
que as pessoas partilham em relação à forma como os traços tendem a co-ocorrer
nas pessoas (e grupos). No âmbito da percepção de pessoas, esta TIP
bidimensional assemelha-se a estruturas de conhecimento ou esquemas mentais que
se vão organizando com a experiência e que permitem guiar de forma gradual o
processamento da informação através da categorização do alvo nas dimensões
(Hamilton, Katz, & Leirer, 1980; Hong, Levy, & Chiu, 2001; Levy, Plaks,
Hong, Chiu, & Dweck, 2001). Embora estas duas dimensões fundamentais tenham
recebido forte apoio no âmbito da proposta das TIP a representação bidimen
sional avançada por Rosenberg e colaboradores não tem sido alvo de estudo desde
a década de 80.
OBJECTIVOS DOS PRESENTES ESTUDOS
Quatro décadas após o estudo seminal de Rosenberg e colaboradores (1968)
reavaliamos a estrutura bidimensional então proposta. O objectivo central é
saber até que ponto as duas dimensões encontradas no estudo original (e mais
recentemente, em relação a diversos julgamentos sociais), continuam a permitir
uma compreensão adequada das TIP.
Apesar do desfasamento temporal entre o estudo inicial (Rosenberg et al., 1968)
e o presente, esperamos encontrar a mesma estrutura bidimensional. Assim, no
Estudo 1, usando um procedimento muito próximo do original, isto é, a mesma
lista de traços de personalidade (traduzida para português) e a mesma tarefa de
categorização de traços (i.e., atribuir os traços de personalidade que tendem a
co-ocorrer na mesma pessoa), esperamos encontrar uma estrutura bidimensional
cujos quatro quadrantes correspondam a traços de personalidade da dimensão
social positiva; da dimensão social negativa; da dimensão intelectual positiva;
ou da dimensão intelectual negativa.
Por outro lado, a investigação sobre TIP tem largamente ignorado possíveis
mudanças de conteúdo relativamente aos traços que melhor representam as duas
dimensões avaliativas. Isto apesar de haver evidências em áreas de investigação
relacionadas, por exemplo no âmbito da percepção de grupos, de que os traços
que as pessoas consideram representativos de determinados grupos tendem a mudar
ao longo do tempo e de acordo com mudanças na sociedade (e.g., Devine &
Elliot, 1995; Madon, Guyll, Aboufadel, Montiel, Smith, Palumbo, & Jussim,
2001). Uma das consequências desta lacuna na literatura das TIP é que ficamos
sem saber se os traços de personalidade usados na investigação original de
Rosenberg e colaboradores (1968) e também no estudo 1 aqui apresentado,
correspondem, hoje em dia, aos traços normalmente usados na descrição e
avaliação da personalidade que realizamos no quotidiano ou se, embora mantendo-
se a mesma estrutura bidimensional, houve mudanças nos traços de personalidade
específicos que melhor representam as duas dimensões desta estrutura. Para
abordar esta questão, no Estudo 2 repete-se o procedimento to Estudo 1 mas
usando para o efeito novos traços espontaneamente gerados pelos nossos
participantes numa tarefa de descrições de personalidade. Desta forma, com o
Estudo 2 é possível (a) averiguar se houve mudanças nos traços tipicamente
usados na descrição da personalidade desde o estudo de Rosenberg e
colaboradores (1968); (b) testar e estender a validade da proposta teórica
original.
Em suma, no Estudo 1 traduziram-se os 64 traços-estímulo utilizados no estudo
original de Rosenberg e colaboradores (1968). No Estudo 2 utilizaram-se traços-
estímulo recolhidos de descrições livres produzidas por uma amostra diferente
de participantes. Em ambos os estudos amostras diferentes de participantes
realizaram julgamentos de co-ocorrência dos traços-estímulo, ou seja, avaliaram
a tendência para os traços coincidirem numa mesma pessoa. Tal como no estudo
original, os traços foram repartidos no máximo por 10 categorias,
correspondendo cada categoria a uma pessoa hipotética. Posteriormente os dados
dos dois estudos foram compilados em duas matrizes de co-ocorrência e
analisados recorrendo às técnicas estatísticas de Escalonamento
Multidimensional e de Análise de Clusters.
ESTUDO 1
Neste primeiro estudo procurou-se averiguar se a estrutura bidimensional
encontrada por Rosenberg e colaboradores (1968) se mantém uma representação
adequada das relações de proximidade dos 64 traços utilizados no seu estudo3.
Para tal, traduziram-se para português os traços que os autores usaram,
existindo assim neste estudo uma correspondência exacta com os traços
utilizados no estudo original.
MÉTODO
Participantes
Vinte e quatro estudantes universitários (16 do género feminino), do 3º ano do
curso de Psicologia da Faculdade de Psicologia e de Ciências da Educação da
Universidade de Lisboa, participaram neste estudo em troca de créditos para a
realização de uma cadeira.
Selecção de traços
Os traços usados no presente estudo correspondem, como mencionado, a uma
tradução dos 64 traços utilizados no estudo de Rosenberg e colaboradores
(1968). Entre estes traços, 39 fizeram parte do material utilizado em
investigações anteriores, nomeadamente nos estudos de Asch (1946) e de Wishner
(1960), e os restantes 25 foram escolhidos a partir das normas de Anderson
(1965) de forma a equilibrar a lista de traços numa dimensão avaliativa.
Procedimento
Cada participante recebeu 64 tiras de papel, cada uma com um dos traços-
estímulo impresso. Era-lhe então pedido, que distribuísse essas 64 tiras de
papel por 10 agrupamentos, representando cada um desses agrupamentos uma pessoa
que conhecesse (e.g., amigo, parente, figura pública). Os participantes eram
explicitamente instruídos a pensar em pessoas bastante diferentes entre si, uma
vez que cada traço apenas poderia ser colocado num só agrupamento, e a juntar
(ou separar) os traços-estímulo consoante estes co-ocorressem (ou não) nas
pessoas que tinham em mente. Caso o participante sentisse que um dado traço não
poderia ser incluído em nenhum dos agrupa mentos anteriormente formados, era-
lhe dada a possibilidade de utilizar uma categoria denominada de
"miscelânea".
Após esta tarefa de agrupamento, era pedido aos participantes que
transcrevessem o conteúdo das categorias recém-formadas para uma folha com 11
células. Os participantes deveriam inscrever em cada célula os traços que
tinham agrupado numa mesma categoria, ou seja, os traços que a seu ver co-
ocorriam numa determinada pessoa. Uma das células correspondia à categoria
"miscelânea" que servia para acomodar os traços não incluídos em
nenhum dos outros agrupamentos.
RESULTADOS
Tal como no trabalho original de Rosenberg e colaboradores (1968) os dados
obtidos foram analisados recorrendo ao escalonamento multidimensional. Este
método estatístico é empregue usualmente com fins exploratórios e a sua
finalidade é a de propiciar a descoberta de dimensões substantivas subjacentes
aos dados de forma a que as relações de semelhança/proximidade entre os dados
investigados se tornem mais inteligíveis. Traduzindo semelhança em termos de
distâncias (e.g., distâncias euclidianas), o escalonamento multidimensional
proporciona uma representação gráfica (para um número máximo de três dimensões)
do padrão de proximidade entre os dados. Esta técnica é particularmente útil
para extrair significado de extensos conjuntos de dados, que assim se tornam
visualmente exploráveis e interpretáveis. A medida de ajustamento dos dados à
configuração multidimensional é comummente designada por stress, e quanto menor
o seu valor, melhor a adequação dos dados à representação em causa.
Partindo da medida de associação de traços, foi computada uma matriz de
frequência de coocorrência dos traços num mesmo agrupamento (i.e., para cada
par de traços, contabilizaram-se os participantes que consideraram que
determinada pessoa sua conhecida os possuía em simultâneo). Os traços incluídos
na categoria "miscelânea" foram codificados como não coocorrendo
com nenhum outro traço para aquele participante. Esta matriz serviu de base à
análise de escalonamento multidimensional.
Replicando o padrão obtido por Rosenberg e colaboradores (1968), os dados
ajustam-se aceitavelmente a uma configuração bidimensional (stress=0.24)4, com
os traços variando simultaneamente no grau em que são desejáveis em contextos
sociais e intelectuais (ver Figura_2)5. Os traços representados na área
inferior esquerda (e.g., estúpido, superficial) podem ser caracterizados como
desfavoráveis para o desempenho de actividades intelectuais, sendo que à medida
que se percorre a diagonal, até ao canto superior direito, os traços ganham em
desejabilidade neste domínio (e.g., inteligente, determinado). Ao longo da
outra diagonal distribuem-se traços relativos a contextos sociais, desde os
mais desejáveis, no canto inferior direito (e.g., caloroso, tolerante), até aos
mais indesejáveis, na área superior esquerda (e.g., frio, insociável)6.
De forma a avaliar a adequação de uma repartição dos traços por quatro
clusters, representando os quatro quadrantes desta configuração bidimensional,
realizou-se ainda uma análise de clusters, utilizando o algoritmo k-means. A
utilização deste método, em contraste com outros métodos de análise de
clustering, é especialmente indicada quando se dispõe à partida de hipóteses
sobre o número mais adequado de clusterspara a agregação dos dados. A aplicação
do algoritmo k-meanspermite, então, formar o número de clustersfixo (neste caso
quatro), agregando os casos de forma a maximizar a variabilidade entre
clusterse a minimizar a variabilidade dentro de cada cluster. No final do
procedimento pode aceder-se também à localização dos pontos médios de cada
cluster, designados por centróides, e às relações de distância de cada ponto
(neste caso, traço) ao centróide do seu cluster.
A composição dos quatro clustersresultantes desta análise pode ser consultada
na Tabela_1, com os traços mais próximos do centróide de cada clustera surgirem
nas primeiras posições. A forma standard de validar as soluções obtidas em
análises de clusterem k-meansé da aferir, através de um coeficiente de Snedecor
(ANOVA), se efectivamente como se pretende, a distância média intra-clusteré
menor do que a inter-cluster, quer para cada clusterno seu conjunto, quer para
cada item inserido em cada um dos clusters(ver e.g., Scott & Knott, 1974).
Assim, foram realizadas análises de variância efectuadas sobre esta solução de
clustersque permitiram comprovar que as variâncias das distâncias entre
clusterssão significativamente superiores às variâncias das distâncias dentro
dos clusters(à excepção do caso do traço caprichoso), legitimando assim a
agregação dos traços em quatro clusters. No que se refere ao significado dos
traços, tanto a sua distribuição pelos clusterscomo as suas relações de
distância aos centróides validam a estrutura bidimensional do espaço semântico
destes 64 traços e a interpretação desta configuração recorrendo às
propriedades de desejabilidade social e intelectual: nos clusters1 e 2 surgem
agregados traços de maior e menor desejabilidade intelectual, respectivamente
(com os traços mais próximos do centróide, inteligentee estúpido, a
representarem bastante bem pólos desta dimensão), enquanto nos clusters3 e 4 se
reúnem traços de maior e menor desejabilidade social (sendo leale pessimistaos
traços mais próximos dos respectivos centróides).
Note-se ainda que os eixos representados na Figura_2 (com base nos traços que
melhor representam cada um dos pólos das duas dimensões intelectual e social)
não são ortogonais. Em vez disto, os pólos negativos e positivos de cada
dimensão aproximam-se mais do que seria de esperar se a relação entre a
dimensão intelectual e social fosse de perfeita independência. Este padrão de
resultados sugere uma correlação positiva embora baixa entre as duas dimensões
o que está em linha com o que é tipicamente encontrado na investigação sobre
TIP.
ESTUDO 2
O segundo estudo visa verificar se uma estrutura bidimensional, interpretada
apelando às dimensões de desejabilidade social e intelectual, permite também
uma representação e compreensão adequada das relações entre os traços que os
participantes factualmente evocam com mais frequência em tarefas de descrição
livre. Assim, para este estudo partiu-se de uma tarefa de geração de traços
(descrição livre) para uma tarefa em tudo semelhante à do primeiro estudo
(agrupamento de traços).
MÉTODO
Participantes
Vinte e cinco estudantes universitários (15 do género feminino), do 4º ano do
curso de Psicologia da Faculdade de Psicologia e de Ciências da Educação da
Universidade de Lisboa, realizaram as tarefas de descrição livre em troca de
créditos para a realização de uma cadeira.
Outros vinte e sete estudantes universitários (19 do género feminino), do 3º
ano do curso de Ciências da Educação da Faculdade de Psicologia e de Ciências
da Educação da Universidade de Lisboa, participaram na tarefa de agrupamento de
traços, tendo também recebido créditos para a realização de uma cadeira.
Selecção de traços
A selecção dos traços-estímulo a utilizar na tarefa de agrupamento de traços
(Estudo 2 propriamente dito) foi baseada nos resultados de quatro tarefas de
descrição livre. Foi pedido aos participantes que escrevessem descrições curtas
(contendo aproximadamente cinco traços) de quatro tipos de alvo. Os alvos
variavam em duas dimensões consideradas importantes na literatura (e.g.,
Hampson, 1998): agradabilidade (i.e., alguém que o participante gostasse ou
não) e familiaridade (i.e., alguém que o participante conhecesse pessoalmente
ou não), potenciando desta forma a obtenção de traços de ambas as valências
(positiva e negativa) e de diferentes amplitudes (mais genéricos e mais
particulares). A partir destas descrições foram seleccionados os 45 traços
positivos e os 45 traços negativos mais frequentes num total de 90 traços de
personalidade.
Procedimento
Na tarefa de agrupamento de traços, foi uma vez mais pedido aos participantes
que fizessem julgamentos de co-ocorrência de traços numa mesma pessoa,
recorrendo ao mesmo procedimento do Estudo 1. A única diferença residia no
material, uma vez que para este estudo foram utilizados os traços obtidos a
partir de tarefas de descrição livre, representando desta forma um conjunto de
traços mais próximo dos naturalmente utilizados pelos participantes (ao invés
de traços impostos pelo investigador).
RESULTADOS
Compôs-se uma nova matriz de frequência de co-ocorrência dos diversos pares de
traços e repetiram-se as mesmas análises do Estudo 1. O ajustamento a uma
configuração bidimensional, representada na Figura_3, é de novo aceitável
(stress=0.22) e interpretável recorrendo às dimensões de desejabilidade social
e intelectual7Traços que variam no grau em que remetem para características
mais ou menos desejáveis no domínio intelectual distribuem-se ao longo de uma
das diagonais, desde o canto superior direito (e.g., eficaz, competente) até ao
canto inferior esquerdo (e.g., incompetente, incapaz). Ao longo da outra
diagonal, podem encontrar-se traços associados a contextos sociais, desde os
menos favoráveis no canto superior esquerdo (e.g., intriguista, arrogante) até
aos mais favoráveis no canto inferior direito (e.g., divertido, generoso)8.
A análise de clusters, segundo a técnica k-means, forçando a solução a quatro
clusters, revelou-se novamente satisfatória, uma vez que para todos os casos (à
excepção do traço autoritário) as variâncias das distâncias entre
clusterssuplantaram significativamente as das distâncias dentro dos clusters.
Apresentam-se na Tabela_2 os traços que compõem cada um dos clustersordenados
ascendentemente pela sua distância ao centróide do clusterrespectivo.
Mais uma vez os clustersapresentam-se bastante homogéneos no que se refere à
desejabilidade social e intelectual dos traços que os compõem, reforçando a
validade destas duas propriedades também para a interpretação das dimensões
subjacentes ao grau de associação psicológica entre os 90 traços gerados por
participantes portugueses 40 anos depois dos trabalhos de Rosenberg e
colaboradores (1968). Nos clusters1 e 2 encontram-se traços de maior e menor
desejabilidade intelectual (traços como cultoe irresponsávelsurgem mais ao
centro dos respectivos clusters), enquanto nos clusters3 e 4 estão agrupados
traços de maior e menor desejabilidade social, respectivamente (com
compreensivoe arrogantecomo traços mais próximos dos centróides).
Uma das diferenças observáveis entre os resultados destes dois estudos é a que
remete para a relação de determinados traços com os outros elementos do seu
cluster. Considerando os clusters1 e 2 (dimensão de desejabilidade
intelectual), por exemplo, pode verificar-se que os traços (traduzidos) mais
próximos do centróide no Estudo 1, designadamente inteligentee estúpido, ocupam
agora uma posição muito mais periférica nos respectivos clusters(aliás, o traço
estúpidono contexto de traços gerados e utilizados no Estudo 2 situa-se no
cluster4 juntamente com traços de cariz socialmente indesejável). Em contraste,
os traços que no presente estudo ocupam uma posição mais central nos clusters1
e 2 (culto, hábil, motivadoe irresponsável, desmotivado,inculto) parecem
remeter por um lado para designações eventualmente mais "politicamente
correctas" e, por outro, para atributos menos "inatos" e mais
"responsabilizantes" do seu detentor.
Mais uma vez, os eixos representados na Figura_3 (com base nos traços que
melhor representam cada um dos pólos das duas dimensões intelectual e social)
não são ortogonais, sugerindo uma correlação positiva embora baixa entre as
duas dimensões o que está em linha com resultados anteriores (e.g., Rosenberg
et al., 1968).
DISCUSSÃO
Como os resultados dos dois estudos evidenciam, houve uma replicação do estudo
original de Rosenberg e colaboradores (1968) formando-se uma representação
bidimensional da personalidade em que estão presentes as dimensões intelectual
e social de valência positiva e negativa. Deste modo, a estrutura bidimensional
das impressões de personalidade encontrada no estudo original realizado na
Universidade de Emory é em grande medida a mesma da encontrada por nós cerca de
40 anos depois com base em respostas de estudantes universitários portugueses.
Esta investigação vai ao encontro das conclusões mais recentes dos estudos de
percepção interpessoal que convergem no facto de existirem duas dimensões
fundamentais subjacentes aos processos interpessoais (ver special issuedo
European Journal of Social Psychology, Abele, Cuddy, Yzerbit, & Judd,
2008). Assim, apesar de poderem ter nomes diferentes (e.g., Abele, Cuddy, Judd,
& Yzerbyt, 2008), as dimensões encontradas no nosso estudo são
representadas pelo mesmo tipo de traços e correspondem a duas dimensões
avaliativas, uma de natureza social e outra intelectual. Deste modo, o nosso
estudo é mais uma evidência para a universalidade da estrutura bidimensional
das teorias implícitas da personalidade, que apesar de revelar mudanças
pontuais no que respeita à importância relativa de traços de personalidade
específicos permanece equivalente no que respeita à sua estrutura formal e aos
seus conteúdos gerais.
No que respeita à relação entre estas duas dimensões fundamentais das TIP a
investigação passada assim como os resultados aqui reportados mostram a
existência de uma correlação moderada mas positiva entre a dimensão avaliativa
social e a dimensão intelectual. Esta correlação é normalmente interpretada
como sendo uma manifestação do efeito de halo (e.g., Thorndike, 1920), ou seja,
a tendência para pensar numa pessoa em abstracto como globalmente boa ou má e
para generalizar este julgamento a qualidades ou atributos de personalidade
discretos como traços de personalidade9.
Tal como em replicações anteriores, é possível no presente caso identificar
exemplos de mudanças que aparentemente ocorreram na disposição relativa dos
traços traduzidos (Estudo 1) e dos traços gerados (Estudo 2). Relativamente ao
nosso primeiro estudo pode ser verificado, por exemplo, que traços como
reservadoe audaciosoque são neutrais na estrutura bidimensional de Rosenberg et
al. (1968), estão presentes neste estudo nas dimensões social negativa e
intelectual positiva, respectivamente. Por outro lado alguns traços que no
estudo original surgiam como "bons representantes" das dimensões de
personalidade, como por exemplo, austeroque era um traço claramente social
negativo perde importância relativa sendo incluído no Estudo 1 no pólo
intelectual positivo mas bastante afastado do respectivo centróide.
Este tipo de variações pode ser o resultado de influências temporais, visto que
esta replicação foi realizada 40 anos depois do estudo original de Rosenberg et
al. (1968). Tal como as replicações na área dos estereótipos demonstraram,
poderá haver uma mudança no conteúdo dos estereótipos das pessoas, mantendo-se
a existência da estrutura de conhecimento. Um caso paradigmático é o da famosa
trilogia de Princeton (Gilbert, 1951; Karlins, Coffman, & Walters, 1969;
Katz & Braly, 1933) onde se pode verificar variações no conteúdo dos
estereótipos de estudo para estudo. Ou seja, aquilo que os sujeitos consideram
mais típico de determinados grupos depende do momento em que é realizado o
estudo. Da mesma forma, no caso das impressões de personalidade alguns dos
traços considerados mais tipicamente positivos ou negativos ao nível
intelectual e social no estudo de Rosenberg et al. (1968) parecem sofrer alguma
variação em função de mudanças socioculturais ao longo do tempo. De facto, para
além do Estudo 1 apresentar uma disposição diferente dos traços de
personalidade do estudo Rosenberg e colaboradores, o Estudo 2 mostrou que os
próprios traços, na sua maioria, não correspondem aos do estudo original. Com
efeito, dos 90 traços obtidos menos de 20% correspondem aos traços originais de
Rosenberg e colaboradores (1968).
No entanto, esta mudança de traços não implicou mudanças a nível das dimensões
de personalidade subjacentes. As dimensões avaliativas, social e intelectual,
mantêm-se mas, sobretudo no caso da dimensão intelectual, as pessoas consideram
como melhor representantes desta dimensão traços que dependem mais de
qualidades meritórias. Por exemplo, os traços persistente, cultoe motivadosão
considerados como mais intelectualmente positivos do que traços que são
geralmente considerados como tendo uma elevada carga genética, como
inteligente.O mesmo acontece no pólo negativo desta dimensão, em que, por
exemplo, os traços irresponsável, desmotivadoe incultotêm uma maior carga
negativa do que o traço burro.
Os resultados encontrados relativos à mudança de conteúdo da estrutura
bidimensional das teorias implícitas da personalidade podem ser vistos como
análogos aos de Devine e Elliot (1995; ver também Madon et al., 2001, Estudo 2)
que verificaram uma mudança nos conteúdos dos estereótipos dos diversos grupos
étnicos em função do tempo. Contudo, é importante não perder de vista as
conclusões fundamentais que se podem retirar dos estudos aqui reportados e da
investigação sobre as teorias implícitas da personalidade em geral: apesar de
mudanças de conteúdo que progressivamente redefinem um pouco o que é
considerado mais relevante para cada dimensão das impressões de personalidade,
a teoria implícita bidimensional da personalidade mantém uma estrutura
largamente inalterada que inclui duas dimensões avaliativas, uma social e a
outra intelectual.