O lugar dos brinquedos: Semelhanças e singularidades das escolhas de crianças
brasileiras e portuguesas
O lugar dos brinquedos: Semelhanças e singularidades das escolhas de crianças
brasileiras e portuguesas
Sheila Tatiana Duarte Cordazzo*; Mauro Luís Vieira*; Ana Maria Tomás de
Almeida**
*Universidade Federal de Santa Catarina;
**Universidade do Minho
Correspondência
ABSTRACT
This study aims to identify the kinds of toys more used by children and to
verify differences about gender and age of Brazilian and Portuguese children.
The participants in the research included 259 Brazilian children and 172
Portuguese children. All of these children attended the first four years of
elementary school and they are between 6 and 10 years old. Data were collected
by a scale of toys designed specifically for this study. By analyzing the data
some similarities could be found between these two samples about the
characterization of toys. Boys of both samples demonstrated a predilection for
the use of toys that require a more intense physical activity. The youngest
children of the Brazilian sample showed to be more predisposed to use toys that
promote and stimulate the motor and social development. In the Portuguese
sample, in turn, significant differences in the use of toys among children from
different school levels were not found.
Key-words:Culture, School, Toys.
Os brinquedos ocupam um lugar privilegiado na vida das crianças. Tal posição
deve-se à imensa motivação que as crianças apresentam para as brincadeiras.
Motivação que não é estranha ao mercado dos brinquedos que anualmente cresce de
modo gradual, procurando acompanhar os costumes locais, a moda regional e
seguir as tradições culturais de suas localidades.
Porém, independente da sua forma ou cor, a função do brinquedo é a brincadeira.
Com os brinquedos as crianças fantasiam, imaginam e criam diversas
possibilidades de brincadeiras. Na brincadeira, as crianças estimulam aspectos
essenciais do desenvolvimento infantil. Além de favorecer as interacções
sociais, a brincadeira dá azo a que experimentem diferentes modalidades de
resolução de conflitos, pratiquem diversas habilidades sociais, exprimam
sentimentos e emoções e desenvolvam de estratégias para a sua regulação
(Bomtempo, 1999; Henriot, 1989; Pellegrini & Smith, 1998; Silva, Pontes,
Silva, Magalhães, & Bichara, 2006; Vygotsky, 1998). A aprendizagem também é
beneficiada através do brincar, já que as crianças que brincam demonstram
estarem mais receptivas a aprender e a lidar com conteúdos escolares (Dohme,
2002).
Brinquedos cada vez mais criativos e com tecnologias mais avançadas ganham com
intensidade lugar no mercado e favorecem a economia mundial. Contudo, os
brinquedos tradicionais e simples, como bolas, carrinhos e bonecas, não perdem
o seu espaço, independente do contexto onde se encontram.
A confecção de brinquedos e o seu uso datam desde a era pré-histórica. Delgado
(2005) ao fazer uma busca sobre brinquedos antigos afirma que nossos ancestrais
da Ásia e África fizeram os primeiros esboços conhecidos de bonecas,
confeccionadas de terracota. No Japão foram encontradas as primeiras bolas,
feitas de fibra de bambu e datadas de aproximadamente 4000 a.C. Na região da
Mesopotâmia foram encontrados objectos que se acredita serem os primeiros piões
e jogos de tabuleiro que datam de aproximadamente 3000 a.C. Somente no século
XIX é que os brinquedos começaram a ser comercializados. Seus maiores
comerciantes eram alemães e os seus brinquedos, considerados como objectos de
luxo, eram vendidos exclusivamente para os filhos dos nobres. A partir desta
altura, a indústria e a comercialização dos brinquedos cresceram de forma
gradativa e exponencial (Delgado, 2005).
Actualmente, os brinquedos e jogos electrónicos, como vídeo games, cd- roms,
computadores para crianças, robôs, bonecas que interagem com as crianças,
carros e outros objetos movidos à distância, com controles remotos, ganharam o
cenário lúdico infantil. Contudo, mesmo a tecnologia oferecendo diversos
recursos e possibilidades, o domínio do brincar ainda pertence à criança. E,
parafraseando Delgado (2005), nenhum brinquedo, por mais complexo ou avançado
que seja, substitui o encanto da simplicidade da bola, da boneca ou
simplesmente da imaginação da criança, que pode transformar um simples cabo de
vassoura em um imponente cavalo.
CLASSIFICAÇÃO DOS BRINQUEDOS
Actualmente existem diversas maneiras de classificar ou categorizar os
brinquedos. Existem classificações de acordo com os materiais utilizados, graus
de dificuldades e idade cronológica das crianças. Esta última particularmente é
muito empregada pelas indústrias de brinquedos. Além destas, existem
classificações etnológicas, filogenéticas, pedagógicas e psicológicas
(Michelet, 1998).
Para a criança a brincadeira tem um fim em si mesma, mas para Garon (1998), o
adulto que vai disponibilizar o objecto para a criança tem uma outra forma de
vê-lo. A autora ressalta que o brinquedo, visto pela percepção do adulto, deve
ser um objecto que possa auxiliar a criança em suas etapas de desenvolvimento.
Com base nesta forma de pensar, Garon (1998) criou o sistema ESAR, que é um
sistema de organizar e de classificar os brinquedos de acordo com as teorias
Piagetianas. O acrônimo ESAR resume a classificação proposta pela autora, e se
remete a jogos de: Exercício, Simbólicos, Acoplamento, Regras simples ou
complexas.
Outro tipo de classificação foi estabelecido pela ICCP1 e é baseado na
observação direta da brincadeira. Esta classificação é apresentada em dois
esquemas (Michelet, 1998), sendo que um parte da função do brinquedo e outro do
desenvolvimento infantil. Desta forma, a classificação ficou estruturada em
dois quadros, sendo o primeiro a classificação psicológica e o segundo a
classificação por famílias de brinquedos. A classificação por famílias de
brinquedos é baseada nas similaridades dos brinquedos em relação às influências
que estes causam no desenvolvimento infantil. Nesta classificação, Michelet
(1998) faz uma distribuição dos brinquedos de acordo com as suas respectivas
influências no desenvolvimento infantil. Os brinquedos estão divididos em sete
categorias, que são: (1) actividades sensório- motoras; (2) actividades
físicas; (3) actividades intelectuais; (4) mundo técnico; (5) desenvolvimento
afetivo; (6) actividades criativas e (7) relações sociais. Considera-se neste
trabalho que as aproximações epistemológicas e metodológicas da classificação
por famílias de brinquedos, fornecidas pelo ICCP, são adequadas e contribuirão
para atingir os objetivos propostos neste estudo.
A função do brinquedo é a brincadeira. O brinquedo tem como princípio estimular
a brincadeira e convidar a criança para esta atividade. A brincadeira é
definida como uma actividade livre, que não pode ser delimitada e que, ao gerar
prazer, possui um fim em si mesma. Um elenco de autores como Bichara (1994),
Bomtempo, Hussein e Zamberlan (1986), Dohme (2002), Friedmann (1996), Negrine
(1994) e Kishimoto (1999) confirmam e reforçam a afirmativa anterior. Bichara
(1994) e Bomtempo e cols. (1986) colocam que a brincadeira é uma atividade
espontânea e proporciona à criança condições saudáveis ao seu desenvolvimento
biopsicossocial. Dohme (2002) e Friedmann (1996) incluem que a brincadeira tem
características de uma situação não estruturada. Para Kishimoto (1999), o
brincar tem a prioridade das crianças que possuem flexibilidade para ensaiar
novas combinações de ideias e de comportamentos.
Nos relatos sobre a brincadeira infantil, Vygotsky (1998) afirma que esta é uma
situação imaginária criada pela criança e onde ela pode, no mundo da fantasia,
satisfazer desejos até então impossíveis para a sua realidade. Portanto, o
brincar "é imaginação em acção" (Bomtempo, 1997; Friedmann, 1996).
Para Vygotsky (1998), o brincar nasce da necessidade de um desejo frustrado
pela realidade. Elkonin (1998) amplia essa sentença quando afirma que os
objetos, ao terem seus significados substituídos, transformam-se em signos para
a criança. Desta forma, "a criança não faz distinção entre o brinquedo e
o que ele significa, mas a utilidade que terá nas representações que serão
feitas com ele" (Biscoli, 2005, p. 29).
DIFERENÇAS NO BRINCAR
Conforme as crianças crescem suas motivações se alteram. Leontiev (1994) já
afirmava que o comportamento de brincar evolui juntamente com a criança. Ao
nascerem, os bebês praticam brincadeiras exploratórias e de exercício. Pelas
brincadeiras exploratórias, sem a intencionalidade deliberada ou planeada, os
bebés tomam conhecimento do mundo que os rodeia e os exercícios repetitivos
lhes auxiliam a dominar as habilidades motoras e sensoriais que rapidamente
evoluem para níveis mais complexos. Os tipos de brinquedos mais utilizados
nesta faixa etária são os peluches, chocalhos e diversos tipos de brinquedos
que fazem as crianças explorarem os diferentes sons, diferentes texturas e
cores (Friedmann, 1996).
Por volta dos três anos de idade a capacidade de simbolização das crianças já
está estabelecida (Vygotsky, 1998). Com isso, começam a aparecer as
brincadeiras de faz-de-conta. Pelo faz-de
conta as crianças criam, imaginam e reinventam os objetos e acontecimentos que
as rodeiam. O faz-de-conta promove na criança a oportunidade de interagir com
outras crianças, experimentar diferentes papeis sociais, expressar sentimentos
e emoções, além de contribuir para a transmissão cultural (Brougère &
Wajskop, 1997; Kishimoto, 1998). Brinquedos que imitam objetos reais, como
instrumentos médicos, carros, aviões, louças e ferramentas ou réplicas de
animais, pessoas e bebés induzem as crianças ao faz-de-conta.
Quando a criança ingressa na idade escolar, por volta dos seis anos de idade, o
faz-de-conta apresenta um declínio e dá lugar aos jogos de regras. Os jogos de
regras, sem a intencionalidade, auxiliam as crianças a apropriarem-se das
regras que regem a sociedade, bem como a experimentarem diferentes estratégias
para vencer um determinado jogo (Isidro & Almeida, 2003). De um ponto de
vista sócio-cognitivo, ao testarem diferentes estratégias, as crianças
descobrem destrezas e desenvolvem habilidades cognitivas diversificadas, num
cenário social que as mobilizam a coordenarem-se continuamente com os outros, a
cumprir e a fazer cumprir as regras convencionadas. Existe um incontável número
de jogos de regras que vão desde os mais simples, como jogos de percurso e de
dados, aos mais complexos, como o xadrez e as damas.
É também durante a idade escolar que as crianças, de acordo com Papalia, Olds e
Feldman (2006), mais exercitam actividades físicas intensas. Através das
brincadeiras com actividades físicas as crianças testam suas habilidades e
tentam superar limites físicos (Pellegrini & Smith, 1998). Os jogos que
incluem a presença de uma bola, como o futebol, o basquetebol e o voleibol
induzem actividades físicas intensas e o desenvolvimento do domínio das
habilidades motoras. Outros tipos de brinquedos, como bicicletas, patins,
skatese cordas, também incentivam a actividade física intensa e auxiliam as
crianças a dominarem seus movimentos e a exercitarem os aspectos necessários
para uma boa motricidade, tais como o equilíbrio e as noções de esquema
corporal, temporal e percepção viso-motora (Rosa Neto, 2002).
Além das distinções encontradas nas brincadeiras de crianças de diferentes
idades, também existem diferenças entre os sexos. Uma série de pesquisadores,
tais como Benenson, Apostoleris e Paernass (1997), Martin e Fabes (2001), Souza
e Rodrigues (2002), Ponte e Magalhães (2003) e Silva et al. (2006), afirmam que
as distinções de género nas brincadeiras começam a aparecer por volta do
terceiro ano de vida da criança e se intensificam com o passar do tempo. A
partir dos cinco anos de idade, aproximadamente, os meninos já apresentam uma
tendência maior que as meninas para brincarem de forma diferenciada e em grupos
segregados (Souza & Rodrigues, 2002).
Queiroz, Maciel e Branco (2006) afirmam que os adultos, pais e educadores,
muitas vezes oferecem às crianças brinquedos que são marcados por uma
estereotipia sexual, ou seja, brinquedos que são, de acordo com uma convenção
social, exclusivos para meninos ou para meninas. Essa imposição de estereotipia
sexual leva as crianças às brincadeiras definidas pelo género. Silva et al.
(2006) afirmam que, embora no mundo dos adultos as estereotipias estejam
diminuindo, com homens e mulheres exercendo os mesmo papéis, entre as crianças
as pesquisas ainda revelam comportamentos e posturas sexualmente
estereotipadas. Silva et al. (2006) afirmam que os meninos utilizam mais
brincadeiras que envolvem actividades físicas intensas, desafio, competição e
confronto. As meninas preferem brincadeiras mais calmas e voltadas para o faz-
de-conta. Quanto aos brinquedos, Wanderlind, Martins, Hansen, Macarini e Vieira
(2006) afirmam que as meninas preferem brincar com objetos que lembram a vida
real, como objetos domésticos e bonecas. Já os meninos gostam de brincar com
blocos, veículos, ferramentas e objetos que indicam temas mais irreais, como
super-heróis e monstros.
Independente das questões de género, as brincadeiras e motivações lúdicas das
crianças em idade escolar são pouco investigadas quando comparadas com as
pesquisas realizadas em crianças menores. Isto é o que afirmam Biscoli (2005) e
Cordazzo, Martins, Macarini e Vieira (2007). Estes autores constataram que
existem profundas lacunas na investigação do comportamento de brincar em
crianças escolares. Tais lacunas podem comprometer o entendimento das
características do desenvolvimento destas crianças. E, como afirmam Carvalho,
Alves e Gomes (2005), para as crianças em idade escolar, a brincadeira
caracteriza-se como um dos principais processos em que são desenvolvidas suas
capacidades e potencialidades.
Com base nestas constatações este estudo tem por objetivo identificar quais os
tipos de brinquedos mais utilizados pelas crianças e verificar as diferenças
existentes quanto ao género e à idade em dois contextos sócio-culturais
distintos, um brasileiro e outro português. A identificação das preferências
das crianças auxilia pais e profissionais, que pretendem estimular o
desenvolvimento das crianças, e oferecerem brinquedos e objetos que estão de
acordo com a motivação infantil. Reconhecer as motivações das crianças também
pode auxiliar na compreensão das características específicas do desenvolvimento
infantil.
Perante tal objetivo é lançada a hipótese de que existam diferenças
significativas entre as preferências pelos tipos de brinquedos das crianças dos
dois contextos observados. Também se espera encontrar diferenças significativas
entre as preferências de meninos e de meninas. E hipotetiza-se que as crianças
mais jovens prefiram os brinquedos motores enquanto as mais velhas optem por
diversificados tipos de brinquedos (Kishimoto, 1998; Martin & Fabes, 2001;
Pellegrini & Smith, 1998; Silva et al., 2006).
MÉTODO
Participantes
Participaram deste estudo 431 crianças que frequentavam os quatro primeiros
anos do ensino básico. A média de idade das crianças variou entre 5,7 anos e
11,9 anos (M=8,2 anos de idade). O Quadro_1 descreve a distribuição de alunos
por sexo e ano escolar em cada país.
O critério para a escolha das escolas partiu das facilidades de inserção dos
investigadores neste ambiente. Foi escolhida uma escola do contexto sul
brasileiro, situada em Florianópolis, SC e outra escola no contexto norte
português, localizada em Braga. 60,09% (259) das crianças pertenciam à amostra
brasileira e 40% (172) à amostra portuguesa. Dentro da amostra brasileira,
57,1% das crianças eram meninos e 42,9% eram meninas. Na amostra portuguesa a
distribuição entre os sexos é de 48,25% de meninos e 51,74% de meninas.
Instrumento e procedimentos
Para responder ao objetivo deste estudo e identificar quais os tipos de
brinquedos mais utilizados e preferidos pelas crianças foi elaborada uma escala
de brinquedos, denominada EBRINQ. A elaboração da escala constou de duas fases.
Na primeira fase foi realizada uma recolha para verificar quais os brinquedos
que são mais conhecidos pelas crianças do 1º ao 4º ano do ensino básico. Para
isso foram utilizados os procedimentos descritos em Cordazzo (2003) em que uma
pesquisadora foi às salas de aula das crianças e, em forma de jogo, perguntava
que brinquedos elas utilizavam. Em sistema de rodízio, cada criança falava de
um brinquedo e a seguinte não poderia repetir o mesmo brinquedo. Desta forma,
foi feito o inventário dos brinquedos e jogos mais conhecidos das crianças
desta faixa etária.
Na segunda fase os brinquedos citados pelas crianças foram categorizados de
acordo com a classificação prática por famílias de brinquedos proposta pela
ICCP (Michelet, 1998). Por fim, foi elaborada a escala, com 25 itens, que se
enquadravam em três dimensões: motora, cognitiva e social. Estas dimensões
basearam-se na classificação por família de brinquedos proposta por Michelet
(1998). Para tanto foram escolhidas as famílias de brinquedos condizentes aos
brinquedos para actividades físicas, intelectuais e sociais. Cada item
correspondia a um brinquedo ou jogo. A escala ainda continha itens que poderiam
indicar estimulação em mais de um aspecto do desenvolvimento infantil. Por
exemplo, a bola pode ser utilizada tanto em um tipo de brincadeira motora
quanto social, o dominó além de ser um brinquedo que estimula a cognição também
é social. Para resolver esta questão, alguns tipos de brinquedos constaram em
mais de uma classificação.
Para a aplicação da escala EBRINQ na amostra portuguesa foi realizada uma
adaptação ao contexto. A adaptação da escala também constou de duas fases. A
primeira foi semelhante à realizada no Brasil, em que uma pesquisadora foi às
salas das crianças e estas relataram, em forma de jogo, os brinquedos
utilizados por elas. Com estes dados em mãos, os investigadores reuniram os
nomes dos brinquedos conhecidos pelas crianças da amostra portuguesa. A segunda
fase constou de uma comparação com a escala EBRINQ aplicada no Brasil. Os
brinquedos citados pelas crianças portuguesas, que já constavam na escala,
permaneceram. Outros brinquedos possuíam apenas a nomenclatura diferente, como
é o caso do quebra-cabeça que em Portugal é conhecido como puzzle. Para estes
itens foi realizada somente a troca dos nomes. Porém, existiam alguns itens na
escala que não foram citados pelas crianças portuguesas, o que comprovava o
desconhecimento delas sobre tipos de brinquedos. Para resolver esta questão
estes itens foram substituídos por outros tipos de brinquedos, citados pelas
crianças, diferentes da amostra brasileira, mas que pertenciam à mesma dimensão
de análise proposta pela ICCP. O Quadro_2 apresenta a disposição dos itens na
escala de acordo com as suas dimensões de análise. Os itens que foram
modificados para a amostra Portuguesa encontram-se entre parênteses na escala.
Os itens que permaneceram iguais nas duas escalas foram: bicicleta, bola,
bonecos, corda, damas, dominó, fantoches, iô-iô, jogo de memória, jogos
informáticos, instrumentos musicais, patins, piões e skate. Os brinquedos que
apenas modificaram a nomenclatura para a adaptação ao referencial semântico das
crianças foram: baralho por cartas, blocos de construção por legos, jogos de
percurso por jogos de tabuleiro, jogos didáticos por jogos para aprender,
playgroundpor parque de brincadeiras, quebra-cabeça por puzzlee palavras
cruzadas por caça-palavras. Os outros itens, por não terem sido citados pelas
crianças da amostra portuguesa, foram substituídos por brinquedos com funções
semelhantes ou que se enquadravam na mesma dimensão de análise. Sendo assim,
foram substituídos os seguintes itens: mico-preto por bingo, pipa por balões,
peteca por plasticina e trilha por quatro em linha.
A escala possuía três níveis de mensuração ("não brinco",
"brinco poucas vezes" e "brinco muitas vezes") que
pontuava a frequência de uso para cada brinquedo. As crianças do 2º ao 4º anos
escolares responderam à escala de forma coletiva, em suas respectivas classes.
As crianças do 1º ano, por ainda não dominarem a leitura, responderam de forma
individual e com o auxílio dos investigadores, que liam cada item para cada
criança. Após preencher a escala as crianças eram instruídas a assinalar o item
referente ao seu brinquedo predileto entre os listados.
Análise dos dados
Com os dados fornecidos pela escala foi possível, além de identificar os tipos
de brinquedos mais utilizados e preferidos pelas crianças, também verificar as
suas respectivas diferenças quanto ao sexo e ano escolar das crianças. Para as
análises descritivas foram utilizados os critérios de média, desvio padrão e
percentagem. As diferenças entre sexo e ano escolar, por não se tratar de uma
distribuição normal, foram calculadas com o auxílio dos testes não paramétricos
Ude Mannwhitneye a prova H de Kruskal Wallis.Para serem definidas em que grupos
se encontravam as diferenças estatísticas apontadas pelo teste Kruskal Wallis,
foram comparados os maiores valores do rankmédio com os menores valores de cada
variável entre os grupos.
RESULTADOS
Com o intuito de identificar os tipos de brinquedos mais utilizados pelas
crianças da amostra brasileira e portuguesa, foi aplicada a escala EBRINQ. A
análise dos dados está dividida em dois blocos distintos, um trata dos
resultados obtidos pela análise individual de cada item e outro pela análise
das dimensões que compõem a escala EBRINQ.
Análise por item
Na medida em que a escala EBRINQ apresenta três níveis de mensuração ela é
identificada como uma escala de nível ordinal e, assim sendo, é analisada a
partir da frequência das respostas. Desta forma, para verificar quais os
brinquedos mais utilizados pelas crianças foi escolhido o critério da
percentagem. Convencionalmente, ao se tratar de valores em percentagem, é consi
derado um índice significativo aquele que apresenta um valor superior a 70% das
respostas (Fagundes, 1999). Contudo, em ambas as amostras, nenhum item da
escala alcançou tal pontuação. Sendo assim, foi considerada como uma tendência
das amostras os itens que superaram 50% nas respostas das crianças. Este
parâmetro de 50% foi considerado relevante para indicar tendências porque
representa uma concentração da maioria das respostas das crianças.
Utilizando o critério dos 50% na análise por itens, constatou-se que, na
amostra brasileira, há uma tendência para as crianças rejeitarem, ou não
utilizarem, os seguintes tipos de brinquedos: blocos de construção, damas,
fantoches, iô-iô, jogos de percurso, jogos didáticos, mico-preto, patins,
peteca e pião. Na amostra portuguesa os brinquedos tidos pelas crianças como
não utilizados foram semelhantes aos da amostra brasileira, porém em menor
número. Os brinquedos rejeitados pelos portugueses foram: fantoches, jogos de
tabuleiro, bingo, patins e quatro em linha.
Entre os brinquedos mais utilizados, indicados nas respostas das crianças
brasileiras estão: a bicicleta, a bola e os jogos informáticos. Entre as
crianças portuguesas foram citados a bicicleta, a bola, os jogos para aprender
(jogos didáticos), os jogos informáticos, a plasticina e o parque de
brincadeiras (playground). Observa-se aqui uma maior concentração de tipos de
brinquedos na amostra portuguesa em comparação com a brasileira. Os outros
tipos de brinquedos apresentaram uma distribuição homogénea entre os níveis de
mensuração da escala EBRINQ.
Em relação às diferenças entre as respostas dos meninos e das meninas,
considerando o nível de significância de p≤0,05, os valores de Umostraram que,
entre as crianças da amostra brasileira, os meninos demonstraram ter uma
tendência significativamente maior que as meninas para utilizar os seguintes
brinquedos: bola (U=-6,39; p≤0,00), jogos informáticos (U=-4,29; p≤0,00), pião
(U=-2,57; p≤0,01), pipa (U=-4,09; p≤0,00), e skate(U=-5,14; p≤0,00). Na amostra
portuguesa, entre os brinquedos mais utilizados pelos meninos incluem-se a bola
(U=-6,79; p≤0,00), o pião (U=-2,60; p≤0,00) e o skate(U=-4,10; p≤0,00).
As meninas brasileiras, quando comparadas com os meninos, utilizaram mais os
brinquedos: bonecos (U=-3,68; p≤0,00), cordas (U=-7,94; p≤0,00), fantoches (U=-
2,38; p≤0,01), memórias (U=-2,45; p≤0,01), musicais (U=-2,19; p≤0,02), patins
(U=-4,19; p≤0,00), playgrounds (U=-2,78; p≤0,00) e quebra-cabeças (U=-3,82;
p≤0,00). As meninas portuguesas indicaram utilizar mais bonecos (U=-7,44;
p≤0,00), cordas (U=-7,23; p≤0,00), fantoches (U=-2,74; p≤0,00) e balões (U=-
2,05; p≤0,04) que os meninos portugueses.
Em ambas as amostras, com excepção dos jogos informáticos, os meninos indicaram
utilizar mais os brinquedos que exigem actividade física, tais como bola, pião,
pipa e skate. Os outros tipos de brinquedos obtiveram índices de utilização
semelhantes entre meninos e meninas. Já as meninas apresentaram uma diversidade
maior de utilização de brinquedos quando comparadas com os meninos. Ou seja,
não demonstraram estar limitadas aos brinquedos que exigem actividades físicas.
Elas apontaram utilizar tanto brinquedos de actividades físicas (cordas,
patins, playground, balões), quanto brinquedos que exigem habilidades sociais
(boneco e fantoche) e cognitivas (de memória, musicais e quebra-cabeça).
Também tomando como ponto de referência p<0,05 foi possível detectar quais os
brinquedos mais utilizados em cada ano escolar. Tanto no Brasil quanto em
Portugal as crianças do 1º ano escolar apresentaram diferença significativa em
relação às outras crianças em um número maior de brinquedos. No Brasil, os
brinquedos mais utilizados pelas crianças do 1º ano, em relação aos outros
níveis escolares foram: blocos de construção [χ2(3)=11,52; p≤0,00], bonecos [χ2
(3)=11,31; p≤0,01], cordas [χ2(3)=12,42; p≤0,00], dominós [χ2(3)=8,67; p≤0,04],
fantoches [χ2(3)=18,95; p≤0,00], mico [χ2(3)=14,05; p≤0,00], musicais [χ2
(3)=8,32; p≤0,04], peteca [χ2(3)=11,65; p≤0,00], pião [χ2(3)=9,09; p≤0,02],
pipa [χ2(3)=7,72; p≤0,05], playground[χ2(3)=35,94; p≤0,00], quebra-cabeças [χ2
(3)=14,30; p≤0,00] e skate[χ2(3)=15,39; p≤0,00]. Em Portugal, os brinquedos de
maior frequência no 1º ano foram: cartas [χ2(3)=9,02; p≤0,02], legos [χ2
(3)=10,46; p≤0,01], balões [χ2(3)=8,47; p≤0,03] e puzzles[χ2(3)=9,60; p≤0,02].
Para os outros níveis escolares foram relativamente poucos os brinquedos que
apresentaram diferenças significativas de utilização em relação a outros. Na
amostra brasileira foi encontrada uma diferença significativa no jogo de damas
[χ2(3)=8,67; p≤0,03] para as crianças do 3º ano escolar. Na amostra portuguesa,
foi também no 3º ano escolar que se destacou a preferência por um brinquedo em
particular, obtendo o caça-palavras maior preferência por comparação com os
outros [χ2(3)=14,32; p≤0,00]. No 4º ano escolar não se evidenciaram diferenças
significativas para nenhum tipo de brinquedo em ambas as amostras.
Também foi solicitado que as crianças apontassem qual era o tipo de brinquedo
predileto dentre os que estavam descritos na escala. Cada criança apontava
apenas um brinquedo. O critério da percentagem foi utilizado nesta análise. Dos
brinquedos apontados pelas crianças como prediletos destacam-se na amostra
brasileira: bola, jogos informáticos, bicicleta e boneco. Entre as crianças
portuguesas foram apontados como prediletos: bola, boneco, bicicleta, skate e
patins. Estes dados conferem com os apresentados anteriormente, a respeito dos
brinquedos mais utilizados. Percebe-se, portanto, uma coerência entre as
respostas das crianças, uma vez que os brinquedos prediletos são também os
apontados como mais utilizados por elas.
Análise por dimensões
A escala EBRINQ tem os seus itens distribuídos em três dimensões. As dimensões
dizem respeito ao desenvolvimento infantil motor, cognitivo e social. O
objectivo das análises dentro das dimensões era de descobrir se as crianças
utilizavam com maior ou menor frequência uma determinada categoria de
brinquedo. A princípio não foram encontradas diferenças de utilização dos tipos
de brinquedos nas duas amostras estudadas. Contudo, também foram realizadas
análises por sexo e ano escolar das crianças com o intuito de se obterem dados
mais precisos em relação às amostras.
A análise das diferenças por sexo dentro de cada dimensão da escala EBRINQ
revelou que, em ambas as amostras, não ocorreram diferenças significativas
entre meninos e meninas nas escolhas dos brinquedos. A Figura_1 expõe esses
dados.
A Figura_1 demonstra que, nas duas amostras estudadas, não existem diferenças
significativas entre meninos e meninas quando são analisadas as diferentes
dimensões da escala EBRINQ. Os valores da amostra brasileira são maiores porque
o número de escalas respondidas no Brasil (n=259) foi maior que em Portugal
(n=172).
Por outro lado, na comparação dos dados entre os anos escolares das crianças
constata-se que existem algumas diferenças significativas. As diferenças foram
encontradas apenas no primeiro ano escolar da amostra brasileira, que mostrou
utilizar muito mais os brinquedos motores [χ2(3)=21,81; p<0,00] e sociais [χ2
(3)=11,04; p<0,05] do que os outros anos. Esses dados indicam que, dentro da
amostra analisada, as crianças menores estão mais predispostas a utilizar
brinquedos que promovem e estimulam o desenvolvimento motor e social.
Contudo, na amostra portuguesa, os resultados foram diferentes. Como pode ser
visualizado na Figura_2, não foram encontradas diferenças significativas em
nenhuma dimensão quando analisadas entre os diferentes anos escolares das
crianças.
DISCUSSÃO
Em suma, os dados obtidos pela aplicação da escala EBRINQ revelaram que, na
análise por item, em ambas as amostras os meninos utilizam com maior frequência
brinquedos que exigem actividades físicas intensas. Já as meninas utilizam
tipos de brinquedos diversificados. Na análise por dimensões da escala EBRINQ
foi constatado que as crianças, em ambas as amostras, utilizam todo o tipo de
brinquedos de forma indiscriminada e homogénea. Não foram encontradas
diferenças significativas quanto ao sexo das crianças na escolha dos
brinquedos. No que se refere ao ano escolar das crianças foram encontradas
diferenças somente na amostra brasileira. As crianças mais jovens da amostra
brasileira indicaram estarem mais predispostas a utilizarem os brinquedos que
promovem e estimulam o desenvolvimento motor e social.
Uma possível justificativa para a baixa utilização de alguns brinquedos, tais
como fantoches, jogos de percurso, patins, bingo, quatro em linha, etc. pode
ser o fato de talvez as crianças não terem estes tipos de brinquedos à
disposição, em suas casas e ambientes que frequentam. Contudo, até a ausência
destes tipos de brinquedos pode indicar a falta de motivação das crianças para
os solicitarem.
Também se constata que muitos dos brinquedos tidos como rejeitados pelas
crianças, tanto do Brasil quanto de Portugal, são de contingência social; é o
caso das damas, fantoches, jogos de percurso, mico-preto, peteca, bingo e o
quatro em linha. Infere-se que o facto de as crianças não utilizarem estes
jogos pode indicar a ausência de parceiros de brincadeira. A ausência de
parceiros nas brincadeiras restringe as trocas sociais e culturais que são
necessárias para a formação de conceitos das crianças. Assim como a segregação
sexual, a falta de parceiros para brincar limita os tipos de actividades das
crianças. As brincadeiras em díades e grupos auxiliam as crianças a aprenderem
diferentes comportamentos e estilos de interacção social que irão promover o
desenvolvimento de competências sociais de forma imediata e futura (Martin
& Fabes, 2001).
As diferenças de género foram encontradas somente na análise por itens da
escala. Em conformidade com o que Papalia et al. (2006) e Silva et al. (2006)
apresentam, os meninos de ambas as amostras possuem maior predisposição para
actividades físicas intensas, tais como correr, saltar, lutar. Por este motivo
utilizam brinquedos que promovem e incentivam este tipo de actividade. Entre as
meninas, como foi apresentada na análise por itens, foi observada uma maior
abrangência de preferências. Este dado indica que as meninas, independente da
amostra estudada, estão mais abertas a diferentes possibilidades de
brincadeiras. E, assim como afirmam Silva et al. (2006), as meninas são mais
bem-sucedidas, quando comparadas com os rapazes, na tarefa de ampliar espaços e
de experimentar situações diferentes. Isto significa que as meninas estão
usufruindo de possibilidades diversificadas de interacção social e de
aprendizagem.
Assim como foram encontradas diferenças de género, a análise por itens também
revelou diferenças por ano escolar das crianças. O facto de as crianças do
primeiro ano escolar, de ambas as amostras, utilizarem mais brinquedos que as
outras crianças está de acordo com os dados encontrados em Cordazzo e Vieira
(2008). Estes autores, que também pesquisaram o brincar de crianças em idade
escolar, afirmam que as crianças mais jovens possuem um leque maior de
possibilidades de brincadeiras, enquanto as crianças mais velhas, com a
aproximação da puberdade, reduzem o número de brincadeiras para darem espaço a
outras atividades e comportamentos.
As diferenças encontradas nos brinquedos utilizados entre as crianças das duas
amostras indicam as peculiaridades de cada contexto. Assim como afirma Delgado
(2005) os brinquedos expressam as características regionais e sociais, com os
aspectos de moda e cultura de cada contexto. Em conformidade com esta
afirmação, Brougère e Wajskop (1997) também apontam que os brinquedos das
crianças são objectos culturais que possuem significados e representações que
podem mudar de acordo com a cultura, o contexto e a época.
Na análise por dimensões da escala foi observado que as crianças, de ambas as
amostras, brincam com todos os tipos de brinquedos. Não foram encontradas
diferenças significativas quanto ao sexo neste tipo de análise. Isto indica
que, de acordo com a distribuição das dimensões da escala, as crianças brincam
com todos os tipos de brinquedos, motores, sociais e cognitivos, independente
de seu sexo. Estes dados entram em contradição com os encontrados na análise
por itens, que revelou preferência dos meninos por brinquedos motores, e com
pesquisas e estudos anteriores, tais como os dados encontrados em Souza e
Rodrigues (2002); Wanderlind et al. (2006); Silva et al. (2006); e Queiroz et
al. (2006). Tais diferenças podem apontar para possíveis falhas na distribuição
dos itens nas dimensões da escala e para a necessidade de uma nova
reestruturação das dimensões. Uma possibilidade e sugestão para novos estudos
seria ampliar a escala, tanto nos itens quanto nos níveis de mensuração.
Na análise das dimensões não foram encontradas diferenças quanto ao sexo das
crianças, mas quanto ao ano escolar algumas diferenças puderam ser observadas.
As diferenças foram encontradas somente na amostra brasileira, a qual indicou
que as crianças do primeiro ano escolar utilizam com mais frequência os
brinquedos considerados motores e sociais do que as outras crianças. O facto de
as crianças menores estarem mais predispostas para utilizarem brinquedos
motores do que as outras crianças confirma os dados relatados por Pellegrini e
Smith (1998) e Rosa Neto (2002). Tais autores confirmam as necessidades das
crianças mais novas de testarem e dominarem suas habilidades motoras, pois elas
se encontram em plena fase de desenvolvimento da psicomotricidade e descoberta
de novas habilidades. Os brinquedos sociais, principalmente os que envolvem o
faz-de-conta, também são os preferidos das crianças mais jovens conforme
afirmações de Brougère e Wajskop (1997); e Kishimoto (1998).
No entanto, essas diferenças foram encontradas somente na amostra brasileira.
Uma possível explicação para este facto está nas diferenças culturais
encontradas entre os dois contextos. Inferese que o contexto brasileiro dê mais
valor às habilidades motoras e sociais do que o contexto português. Tal
valorização influencia nas escolhas das brincadeiras das crianças. E, assim
como afirmam Vygotsky (1998) e Brougère e Wajskop (1997), as brincadeiras das
crianças são reflexos da sua cultura e situação social, espacial e temporal.
CONCLUSÃO
De acordo com os dados apresentados neste trabalho observou-se que foram
encontradas poucas diferenças entre as escolhas dos brinquedos, por parte das
crianças das duas amostras pesquisadas. Tal afirmação comprova que algumas
características do brincar tem forte probabilidade de aparecer de forma
semelhante em contextos sociais e culturais diferentes.
Por outro lado, as diferenças encontradas apontam para as peculiaridades
culturais encontradas em cada contexto. Outra inferência para as poucas
diferenças encontradas entre as escolhas dos brinquedos nas duas amostras pode
estar associada ao nível de mensuração da escala EBRINQ, que só possuía três
níveis "não brinco", "Brinco poucas vezes" e
"Brinco muitas vezes". Isto pode ser apontado como uma limitação do
estudo e uma sugestão para futuras pesquisas com crianças. Os níveis de
mensuração poderiam ser elevados para quatro, ou seja, poderia ser incluído o
nível "brinco algumas vezes". Com essa mudança na escala espera-se
encontrar mudanças significativas nos resultados.
A hipótese lançada de que as crianças mais jovens optem mais por brinquedos
motores do que as mais velhas foi confirmada. Contudo, tais resultados foram
encontrados somente na amostra brasileira. Mais uma vez evidenciam-se as
características de cada contexto, influenciando nas atitudes e escolhas das
crianças.
As diferenças de sexo foram encontradas somente na análise por itens. Tal
indicação aponta para possíveis falhas na estrutura das dimensões da escala.
Isto indica a necessidade de outras fontes de investigação, com diferentes
recursos e instrumentos. Sugere-se, portanto, a observação do brincar das
crianças e entrevistas com os pais e professores. A investigação do brincar das
crianças em outras amostras, tais como crianças de outros países, também pode
revelar diferentes resultados e acrescentar para a compreensão das
características do desenvolvimento e do brincar infantil.
Por fim, é importante destacar que estudos dessa natureza, envolvendo
comparações transculturais, são importantes na medida em que nos permitem
apreciar diferenças e/ou semelhanças entre culturas. Partindo do pressuposto de
que o brincar faz parte da infância do ser humano e de que ele é modulado por
condições ambientais e culturais distintas, nos permite valorizar e incentivar
aspectos que são fundamentais para o desenvolvimento infantil. Embora estejamos
inseridos em um contexto que nos exige cada vez mais habilidades para aprender
tarefas que dêem conta da complexidade social e tecnológica que vivemos, é
necessário prestar atenção a aspectos básicos do ser humano. Isso não só em
termos físicos, mas também psicológicos. O brincar insere-se nesse contexto e
engloba diferentes dimensões do desenvolvimento (motor, cognitivo, emocional e
social).