O envolvimento de crianças com necessidades educativas especiais em contexto de
creche e de jardim-de-infância
O envolvimento de crianças com necessidades educativas especiais em contexto de
creche e de jardim-de-infância
Catarina Grande*; Ana Isabel Pinto**
*Bolseira de Doutoramento da Fundação para a Ciência e Tecnologia (SFRH/21605/
2005). Orientadores: Joaquim Bairrão e Ana Isabel Pinto;
**Faculdade de Psicologia e de Ciências da Educação da Universidade do Porto
Correspondência
ABSTRACT
The purpose of this study is to analyse observed engagement in children with
disabilities included in child care/preschool settings in the Metropolitan Area
of Porto, comparing levels and types of engagement in two different settings:
in the presence of a special education teacher; in the absence of this
professional. The ABILITIES Index (Simeonsson & Bailey, 1991) was used to
obtain children's disability profiles and the Engagement Quality
Observation System III (McWilliam & de Kruif, 1998) was used to measure
children's observed engagement behaviour. Based on children's
interactive competencies during play situations or daily routines, engagement
has been studied as a variable with learning and developmental value
illustrating children's daily experiences as well as the quality of the
opportunities provided in their educational contexts. Results indicate that the
sophistication and the focus of children's engagement are influenced by
children's characteristics (age and disability level), as well as by
factors of their educational environment (presence/absence of special education
teacher), underlining the relevance of this line of research, and providing
empirical evidence on the engagement construct as an indicator of interactive
processes with developmental value.
Key-words:Child involvement, Inclusion, Quality of early childhood education
contexts, Special educational needs.
INTRODUÇÃO
Para facilitar a inclusão de crianças com Necessidades Educativas Especiais
(NEE) e garantir a sua participação nos contextos de educação de infância é
fundamental assegurar que a criança estabeleça múltiplos papéis no seu ambiente
próximo, de uma forma adequada ao seu nível de desenvolvimento, interagindo com
outros significativos, com os objectos e com as características do meio.
Sabemos hoje que a criança não é um receptor passivo influenciado pelo
ambiente, mas um participante activo que actua no meio envolvente sendo
simultaneamente por ele influenciado. Tendo como referencial teórico a
perspectiva desenvolvimental-sistémica do desenvolvimento humano procuramos, no
presente estudo, analisar interacções específicas entre a pessoa
emdesenvolvimento e o meio circundante(Bronfenbrenner & Morris, 1998),
nomeadamente as interacções dinâmicas e contínuas entre as crianças com
incapacidades e a experiência que lhes é proporcionada num dos microssistemas
em que participam, os contextos de creche ou de jardim
-de-infância inclusivos (Sameroff & Fiese, 1990, 2000), traduzidas na
qualidade do seu envolvimento nestes contextos.
De acordo com esta perspectiva (Bronfenbrenner, 1979, 2005; Sameroff &
Fiese, 1990, 2000), o estudo da ecologia dos contextos pré-escolares inclusivos
inclui, não só as características da criança e as características do ambiente,
mas também as interacções dinâmicas que se estabelecem entre estas ao longo do
tempo. Assim, o estudo das interacções que as crianças com incapacidades
estabelecem com os seus pares, com os objectos e com os adultos nos seus
contextos de vida diária, assume uma relevância fundamental na explicação dos
resultados desenvolvimentais e dos factores que os influenciam.
A escassez de dados que ilustrem características processuais a nível
microssistémico relativas ao apoio educativo prestado às crianças com NEE no
nosso país, particularmente entre os 0 e os 6 anos de idade, sugere a
necessidade de estudar as práticas desenvolvidas e as interacções que estas
crianças estabelecem num dos seus contextos de vida diária - contexto de
educação de infância. Deste modo, o presente estudo pretende caracterizar o
perfil de envolvimento de crianças com NEE em contextos de creche e pré-escolar
inclusivos, em duas situações: na presença do educador da educação especial e
na ausência deste profissional. Tem ainda como objectivo estudar a relação
entre características da criança com NEE, nomeadamente a idade cronológica e o
perfil da incapacidade, e a qualidade e foco do seu envolvimento.
O conceito de envolvimentofoi definido por McWilliam e Bailley (1992, 1995)
como a quantidade de tempo que a criança passa a interagir activa ou
atentamente com o seu ambiente (com adultos, pares ou materiais) de uma forma
desenvolvimental e contextualmente adequada em diferentes níveis de
competência, isto é,implica que o comportamento seja adequado às capacidades e
à idade desenvolvimental da criança e, ainda, que seja adequado à actividade
que está a ser realizada, tendo em conta as expectativas relativamente à
situação (McWilliam & de Kruif, 1998). Com base nesta definição os autores
especificam 9 níveis de qualidade do envol vimento, organizados numa hierarquia
de níveis de sofisticação desenvolvimental decrescentes: persistente,
simbólico, codificado, construtivo, diferenciado, atenção focalizada,
indiferenciado, atenção ocasional e não envolvido. Os comportamentos de nível
superior da hierarquia desenvolvimental (i.e., persistência, comportamento
simbólico, comportamento codificado e comportamento construtivo) compõem o
nível de envolvimento sofisticado e são considerados indicadores de
sofisticação cognitiva. Os comportamentos de nível inferior (i.e.,
comportamento indiferenciado e atenção ocasional) são agrupados na categoria de
envolvimento não sofisticado (cf. Quadro_3). Os tipos de envolvimento estão
igualmente organizados numa hierarquia desenvolvimental em que o envolvimento
com pares constitui o nível mais elevado do foco de envolvimento da criança, e
o envolvimento social (i.e. com pares ou adultos) é considerado
desenvolvimentalmente mais elaborado do que o não social (i.e., com objectos ou
self). Os níveis e tipos de envolvimento são mutuamente exclusivos e
exaustivos. Deste modo, pode considerarse um conceito abrangente, por estudar
uma dimensão quantitativa das interacções (tempo que a criança passa em
interacção com variáveis ambientais) e por incluir descritores relativos à
qualidade desses comportamentos interactivos (Malmskog & McDonnel, 1999).
A investigação nesta área tem sublinhado a relação entre o envolvimento e os
resultados desenvolvimentais da criança, pelo que o envolvimento tem sido
considerado um bom indicador da competência da criança (de Kruif, McWilliam,
Ridley, & Wakely, 2000; Pinto, Barros, Aguiar, Pessanha, & Bairrão,
2006) e uma condição necessária, se não suficiente, para a aprendizagem e para
a mudança desenvolvimental (McWilliam & Bailey, 1992). Estes autores
referem, assim, que os níveis de envolvimento podem ser considerados
descritores qualitativos que possibilitam a identificação de diferenças nos
processos cognitivos subjacentes à aprendizagem (McWilliam, Trivette, &
Dunst, 1985). A persistência face a tarefas desafiantes, a orientação para
objectivos, a competência e a motivação para a mestria são constructos
relacionados com o envolvimento (Malmskog & McDonnel, 1999). O envolvimento
possibilita a operacionalização de tais processos, na medida em que é
determinado com base na observação de comportamentos interactivos das crianças
(fixação visual, a manipulação, as vocalizações, a aproximação ou afecto).
A literatura na área tem igualmente realçado que, serviços de elevada qualidade
têm um impacto significativo no envolvimento das crianças e efeitos positivos
no seu desenvolvimento cognitivo e social (de Kruif et al., 2000; NAEYC, 1997).
Deste modo, quando o envolvimento é sistematica mente promovido na sala as
crianças têm maior probabilidade de participar em actividades
desenvolvimentalmente adequadas com pares, adultos e materiais (de Kruif &
McWilliam, 1999). Assim, quanto maior a proporção de envolvimento adequado e de
elevado nível, mais eficaz terá sido o ambiente de aprendizagem (de Kruif &
McWilliam, 1999; McCormick, Noonan, & Heck, 1998).
Nas últimas décadas tem havido uma crescente preocupação por parte dos
investigadores da área da intervenção precoce em estudar a forma como a criança
com NEE despende o seu tempo nos contextos pré-escolares (Wolery, Strain, &
Bailey, 1992; como citado em Hamilton, 2005).
As linhas de orientação da National Association for the Education of Young
Children (Bredekamp, 1987) para as práticas desenvolvimentalmente adequadas,
salientam a importância da promoção do envolvimento nos programas de
intervenção precoce (McCormick et al., 1998). Algumas das variáveis referidas
pela literatura como estando relacionadas com o envolvimento são o estatuto de
incapacidade, o tipo e a natureza das actividades na sala e o comportamento do
professor (McCormick et al., 1998). Estudos que procuraram estabelecer a
relação entre a incapacidade e o envolvimento em contextos pré-escolares
inclusivos, verificaram especificidades no envolvimento de crianças com
incapacidades, mesmo quando controlada a idade desenvolvimental (McWilliam
& Bailey, 1995).
Segundo estes autores, as crianças com incapacidades tinham tendência para
estar envolvidas menos tempo e em níveis baixos. Os resultados indicaram que,
as crianças com incapacidades estavam envolvidas durante menos tempo com
adultos, menos tempo em envolvimento atencional com pares (e.g., ver e ouvir) e
menos tempo envolvidas em tarefas de nível mais elevado (e.g., resolver
problemas, fazer-de-conta ou a construir). McWilliam e Scarborough (1997)
aferiram que as crianças com incapacidades passavam proporções consideráveis de
tempo envolvidas em comportamentos diferenciados e de atenção, comportamentos
considerados de nível inferior.
Burstein (1986) encontrou uma relação entre a incapacidade, o tipo e a
estruturação das actividades e o envolvimento. As crianças com incapacidades
demonstravam maior envolvimento quando participavam em actividades de pequeno
grupo promovidas pelas crianças. Numa pesquisa relatada por McCormick e
colaboradores (1998) sobre a integração social de crianças em idade pré-escolar
com incapacidades, os autores verificaram que as crianças com incapacidades
tinham níveis mais elevados de envolvimento com os pares durante actividades de
brincadeira e de jogo dramático do que em actividades funcionais (e.g., com
água) ou construtivas (e.g., recorte, pintura). Adicional mente, verificaram
que as crianças se envolviam mais com os pares em actividades dirigidas pelas
crianças em pequeno grupo, do que em actividades dirigidas pelo adulto em
grande grupo.
A literatura documenta uma associação entre a atenção que o educador presta à
criança e o envolvimento em contextos inclusivos. Para as crianças com
desenvolvimento típico, a atenção do educador parece estar associada com níveis
mais baixos de envolvimento com os pares e níveis mais elevados de envolvimento
na tarefa (Cole, Meyer, Vandecook, & McQuater, 1986; Fagot, 1973; Hamilton
& Gordon, 1978; como citados em McCormick et al., 1998). Para as crianças
com incapacidades os estudos não são conclusivos. Diversos estudos citados por
McCormick e colaboradores (1998) verificaram que a atenção do educador diminui
o envolvimento com os pares. No entanto, outras pesquisas verificaram o oposto:
a atenção do educador promovia o envolvimento com os pares (Frederiks et al.,
1978; Kohl, Beckman & Swenson-Pierce, 1984; como citado em McCormick et
al., 1998). Em 1993, Hundert, Mahoney e Hopkins conduziram uma pesquisa para
estudar a associação entre a atenção do educador do ensino regular e de apoio
educativo e o envolvimento com os pares no contexto pré-escolar. Os autores
concluíram que as crianças com incapacidades se envolviam mais com os pares
quando faziam parte de um grupo que era o foco de atenção do educador de apoio.
McCormick e colaboradores (1998) realizaram um estudo para identificar o efeito
de algumas variáveis, nomeadamente o estatuto de incapacidade, o tipo e a
natureza das actividades e as características do educador de apoio, no
envolvimento que crianças com incapacidades apresentam com os pares, com os
adultos e com as actividades, em contextos inclusivos. Os resultados do estudo
indicaram que a variável características das actividades se relacionava
significativamente com o envolvimento, sendo que as actividades de pequeno
grupo se encontravam associadas com maior envolvimento com pares. A variável
estatuto de incapacidade não revelou um efeito significativo no envolvimento.
Os autores verificaram ainda uma relação positiva entre a utilização de
comportamentos facilitadores e apoiantes pelos educadores e o envolvimento das
crianças com os adultos: as crianças envolviam-se mais quando os adultos eram
facilitadores, positivos, não directivos e quando utilizavam estratégias de
gestão suaves.
A qualidade do envolvimento em crianças com incapacidades pode ser atribuída à
especificidade das respostas dadas por estas crianças a condições ambientais
comuns a todo o grupo de pares ou ao facto de estas crianças terem acesso a
diferentes interacções, condições ambientais e actividades em contextos de
educação de infância (Almqvist, 2006).
MÉTODO
Participantes
Participaram neste estudo 50 crianças com NEE que frequentavam creches e
jardins-de-infância da Área Metropolitana do Porto, tendo a amostra sido obtida
com base numa relação das crianças com NEE atendidas em contexto de creche e de
jardim-de-infância fornecida pela Direcção Regional de Educação do Norte.
Solicitou-se a colaboração dos Conselhos Executivos dos Agrupamentos de Escola
para procederem à divulgação deste estudo junto dos educadores de apoio das
crianças, convidando-os a participar. Os educadores que aceitaram participar
foram contactados com a finalidade de se explicar os objectivos do estudo. Por
fim, foi solicitada por escrito a colaboração da instituição e a autorização da
família.
A idade cronológica das crianças participantes variava entre 29 e 58 meses (cf.
Quadro_1). Estas crianças frequentavam 50 salas de actividades de creches e
jardins-de-infância da Área Metropolitana do Porto pertencentes a 50
instituições (21 jardins de infância públicos, 15 instituições particulares de
solidariedade social e 14 instituições particulares com fins lucrativos). O
Quadro_1 apresenta as características das 50 crianças participantes (32 do
género masculino e 18 do género feminino).
Medidas
Medida do envolvimento observado. Para a codificação dos comportamentos de
envolvimento das crianças foi utilizado o Sistema de Avaliação da Qualidade do
Envolvimento III (SAQE III), traduzido e adaptado por Pinto, Aguiar, Barros e
Cruz (2004), com base no E-QUAL III (McWilliam & de Kruif, 1998). O E-QUAL
III constitui um procedimento de amostragem por momentos no tempo para a
codificação do envolvimento observado de uma criança. Os comportamentos de
envolvimento são codificados no final de intervalos de 15 segundos durante
sessões de observação de 15 minutos (num total de 60 observações por sessão).
Em cada amostra de tempo são registados dois códigos: o primeiro relativo ao
nível de envolvimento (i.e. persistente, simbólico, codificado, construtivo,
diferenciado, atenção focalizada, indiferenciado, atenção ocasional e não
envolvido) e o segundo relativo ao tipo ou foco de envolvimento (i.e., pares,
adultos, objectos e self). Os níveis e tipos de envolvimento são mutuamente
exclusivos e exaustivos. No final de cada intervalo de observação o observador
(alertado por um sinal sonoro proveniente de um leitor com auricular) codifica
o comportamento numa folha de registo. Em cada sessão de observação, as
frequências de cada código são somadas e o resultado é dividido pelo tempo
total da sessão para se obter uma percentagem estimada de tempo de
envolvimento. As definições dos nove níveis e tipos de envolvimento são
apresentadas no Quadro_2.
Medida do perfil de incapacidade.O Índex de Capacidades (ABILITIES INDEX,
Simeonsson & Bailey, 1991) foi utilizado para descrever as capacidades e as
limitações do funcionamento das crianças participantes. O aspecto central deste
Índex é a avaliação das características com base num intervalo capacidade-
incapacidade. O Índex foi desenhado para enquadrar as seguintes
características: (1) nove áreas do funcionamento da criança que reflectem um
perfil de capacidade relativamente estável; (2) para cada dimensão, o
funcionamento é definido operacionalmente através da classificação em 6 níveis
ordinais (Normal, Suspeita de disfunção, Disfunção ligeira, Disfunção moderada,
Disfunção severa, Disfunção profunda) que reflectem sucessivos níveis de
incapacidade; (3) os níveis ordinais são caracterizados em termos funcionais e
não técnicos, de modo a facilitar a atribuição de classificações tanto pelos
pais como pelos profissionais; (4) a classificação pode ser baseada em
avaliação clínica, podendo incluir a observação, o conhecimento prévio da
criança e/ou outra informação específica; (5) as classificações reflectem
padrões mais relativos do que absolutos das capacidades/incapacidades; (6) as
classificações permitem traçar um perfil holístico das diferenças
intraindividuais; (7) o perfil enfatiza as capacidades e as incapacidades
relevantes para a intervenção individualizada; e (8) o perfil minimiza a
categorização e a rotulagem (Simeonsson, Bailey, Smith, & Buysse, 1995). O
ABILITIES é um acrónimo que representa as nove áreas e fornece um perfil que
possibilitará uma compreensão geral das capacidades e incapacidades da criança
nessas áreas, apresentadas no Quadro_3.
Este Índex é um meio de agrupar as crianças com base na similaridade funcional
em substituição à sua etiologia (Simeonsson & Scarborough, 2001). Para
calcular um resultado final a classificação atribuída em cada uma das nove
dimensões é multiplicada pela respectiva ponderação1, efectuando-se, em
seguida, o somatório dos valores obtidos (Daley, Simeonsson, & Carlson,
2006). Este somatório deve ser, segundo os autores, apenas utilizado para fins
de investigação.
Procedimento
Treino e acordo inter-observadores.Os três observadores da equipa de recolha de
dados foram treinados na codificação do Envolvimento, com base no SAQE III até
ser obtido um acordo interobservadores de 90% nos níveis e tipos de
envolvimento. Assim, de modo a obter acordo com a equipa do Quality and
Engagement Study (2001), foram codificadas inicialmente 15 sessões (de 15
minutos) de registo em vídeo para treino, tendo sido obtido um acordo médio de
91.63%. Posteriormente, foram codificadas 21 sessões com base em registos de
vídeo de crianças com NEE em contexto de creche e de jardim-de-infância com um
total de 98.44% de acordo. Este período de treino permitiu a ampla discussão
dos critérios de codificação. Por fim, procedeu-se à codificação de 15 sessões
de observação ao vivo de crianças com NEE integradas em creches e jardim-de-
infância e que não fazem parte da amostra do presente estudo. A percentagem de
acordo obtida foi de 99% para os nove níveis de envolvimento. O acordo inter-
observadores foi igualmente verificado ao longo do processo de recolha de
dados.
Recolha de dados
Após obtenção da autorização das famílias e das instituições onde as crianças
estavam integradas iniciamos o processo de recolha de dados. Na primeira
observação o observador responsável preenchia dois questionários com base numa
breve entrevista à educadora da educação especial: (a) um questionário sobre a
criança (características da família, elegibilidade, apoio, percurso educativo,
etc.), (b) um questionário sobre a educadora da educação especial (dados
demográficos, anos de serviço, formação, etc.). Era ainda entregue a esta
educadora o Índex de Capacidades (Simeonsson & Bailey, 1991) para que o
preenchesse em conjunto com a educadora do ensino regular, de modo a descrever
as capacidades e as limitações das crianças. O horário para observação do
envolvimento era combinado previamente, com os educadores, para coincidir com
momentos planeados para actividade de jogo livre. Por actividades de jogo livre
entendeu-se actividades em que a educadora permitia a livre escolha de
materiais, dava liberdade à criança para iniciar e finalizar a actividade e
encorajava uma variedade de comportamentos (de Kruif & McWilliam, 1999).
Cada criança foi observada, ao vivo, no decurso de oito sessões de 15 minutos
em actividades de jogo livre, realizadas em 4 dias diferentes: (a) quatro
sessões na presença do educador da educação especial; e (b) quatro sessões
quando este profissional não estava presente. O acordo interobservadores foi
verificado no decurso do procedimento de recolha de dados em 25% do total das
sessões de observação (100 sessões de acordo). No Quadro_4 são apresentados os
dados relativos ao acordo interobservadores e ao Coeficiente Kappa2 nos
diferentes níveis e tipos de envolvimento. A percentagem de acordo para os
noves níveis de envolvimento varia entre 97.28% e 99.01% (M=97.85%) e os
coeficientes Kappa variam entre .55 e .95 (M=.88), indicando um nível de acordo
entre substancial e quase perfeito (Landis & Koch, 1977).
Análise de dados
À semelhança de estudos prévios (Aguiar, 2009; Pinto, 2006; Raspa, McWilliam,
& Ridley, 2001) alguns níveis de envolvimento foram combinados para dar
origem às variáveis compósitas envolvimento sofisticado (soma de envolvimento
persistente, envolvimento simbólico, envolvimento codificado e envolvimento
construtivo) e envolvimento não sofisticado (soma de envolvimento
indiferenciado e atenção ocasional). Dois tipos de envolvimento foram
igualmente combinados para dar origem à variável compósita envolvimento social
(soma de envolvimento com pares e envolvimento com adultos).
Primeiramente foram realizadas análises descritivas de forma a caracterizar o
perfil de envolvimento das crianças nos dois contextos de actividade (na
presença e na ausência da educadora da educação especial). Seguidamente e com o
objectivo de determinar se os perfis interactivos diferiam em função da
presença ou ausência da educadora da educação especial recorremos ao Teste de
Wilcoxon, tendo em conta que a distribuição das varáveis não respeitava as
exigências de uma distribuição normal. Posteriormente, e segundo as
recomendações da American Psychological Association (Wilkinson & APA Task
Force on Statistical Inference, 1999) os resultados foram interpretados com
base no índice do tamanho do efeito que foi calculado mediante a conversão dos
valores Zem valores r, através da fórmula sugerida por Rosenthal (1991) e
recomendada por Field (2005). Os valores obtidos com base nesta fórmula foram
interpretados de acordo com critérios sugeridos por Cohen (1992): um rde.10 foi
considerado pequeno e revela uma associação fraca, um rde.30 foi considerado
médio e revela uma associação moderada e um rde .50 foi interpretado como
grande, revelando uma associação forte. Finalmente foi determinada a associação
entre as variáveis em estudo (idade cronológica, perfil de incapacidade e
níveis e tipos de envolvimento observado), através do cálculo do coeficiente de
correlação de Spearman. A opção por esta medida de associação relaciona-se com
a violação do pressuposto de normalidade. O significado dos resultados das
correlações foi interpretado, de acordo com os critérios definidos por Cohen
(1992).
RESULTADOS
Tal como se pode verificar no Quadro_5, a análise das percentagens médias de
envolvimento permitiu verificar que, para todas as crianças, independentemente
de a educadora da educação especial estar ou não presente na sala, estas
passavam mais de metade do seu tempo em comportamentos de tipo diferenciado,
isto é, a interagir activamente e de forma convencional com o meio sem
objectivo, sendo o nível de atenção focalizada o segundo comportamento de
envolvimento mais frequente. Globalmente, os níveis de envolvimento menos
frequentes foram o persistente e o simbólico.
É de realçar que, quando o educador da educação especial não está na sala de
actividades, a percentagem de tempo que as crianças com NEE passam no nível de
envolvimento sofisticado diminui, o que parece dever-se a uma redução para
cerca de metade nos comportamento codificados (que integram aquele nível3). Por
outro lado, nesta situação aumenta substancialmente, para todas as crianças, a
percentagem de tempo em níveis mais baixos de envolvimento, nomeadamente em
comportamentos indiferenciados e em atenção ocasional, bem como o tempo que
passam não-envolvidas.
Os resultados descritivos obtidos para o tipo de envolvimento são apresentados
no Quadro_6. Relativamente ao foco de envolvimento das crianças, na presença da
educadora da educação especial, a maior frequência em envolvimento social deve-
se a interacções mais frequentes com adultos, seguindo-se o envolvimento com
objectos. No entanto, quando este profissional não estava no contexto de sala
de actividades, as crianças passavam cerca de metade do tempo envolvidas com os
objectos, seguindo-se o envolvimento com os pares. Nas duas situações o
envolvimento com selffoi o menos observado, embora quase triplique quando o
educador da educação especial não está presente.
Em seguida determinamos em que medida a qualidade e o foco de envolvimento da
criança variavam em função da presença/ausência da educadora da educação
especial. Os resultados obtidos são apresentados no Quadro_7.
Verificaram-se diferenças estatisticamente significativas, correspondendo a
tamanhos do efeito moderados indicando que, na ausência da educadora da
educação especial, as crianças passavam mais tempo não envolvidas e em níveis
de envolvimento não sofisticado, nomeadamente em comportamentos indiferenciados
e em atenção ocasional, e menos tempo em comportamentos sofisticados,
nomeadamente a comunicar através de uma forma de linguagem compreensível
(comportamentos codificados). Relativamente ao foco de envolvimento
verificaram-se diferenças significativas, correspondendo a efeitos entre
moderados e grandes, em todos os tipos de envolvimento, indicando que, na
ausência da educadora da educação especial as crianças com incapacidades
passavam mais tempo envolvidas com objectos, com o selfe com pares e menos
tempo em interacção com os adultos.
Relativamente ao perfil de incapacidade, as crianças revelaram valores entre
30.80 e 143.70 (M=64.70; DP=23.80), indicando que, em média, as crianças têm um
perfil de incapacidade no intervalo correspondente à Suspeita de Disfunção.
Pela análise do Quadro_8 podemos verificar que mais de metade das crianças se
encontra no intervalo correspondente ao perfil Normal,seguindose uma menos
proporção de crianças no perfil de Suspeita de Disfunçãoe no perfil de
Disfunção ligeirae apenas 2 crianças se situam no intervalo relativo à
Disfunção moderada. Verificámos, ainda, que nenhuma das crianças da nossa
amostra se situava nos intervalos relativos ao perfil de Disfunção severae ao
perfil de Disfunção profunda.
O Quadro_9 apresenta as correlações obtidas entre as características da criança
(idade cronológica e perfil de incapacidades) e os níveis e tipos de
envolvimento, na presença e na ausência da educadora da educação especial.
Idade cronológica
A análise das correlações permitiu verificar associações positivas de efeito
moderado entre envolvimento sofisticado e a idade cronológica, na presença bem
como na ausência da educadora da educação especial, indicando que as crianças
mais velhas têm tendência a passar mais tempo em envolvimento sofisticado,
nomeadamente a utilizar linguagem como forma de comunicação (envolvimento
codificado) ou a realizar construções com materiais (envolvimento construtivo).
Relativamente ao tipo de envolvimento, verificamos que as associações entre os
tipos de envolvimento e a idade cronológica são, na generalidade fracas para as
duas situações. Salientamos, no entanto, que a associação positiva entre a
idade cronológica e o envolvimento com objectos é superior quando a educadora
da educação especial está presente na sala de actividades.
Perfil de incapacidades
No que diz respeito às associações entre envolvimento e o perfil de
incapacidades das crianças, quer na presença, quer na ausência da educadora da
educação especial, verificou-se uma associação negativa forte entre o nível de
envolvimento sofisticado e o perfil de incapacidades, indicando que as crianças
com menos incapacidades despendem mais tempo em comportamentos de nível
superior, nomeadamente em envolvimento construtivo e utilização de linguagem
compreensível (ver Quadro_2).
Foram, no entanto encontradas diferenças na natureza das associações entre o
perfil de incapacidade e o envolvimento dependendo da presença/ausência da
educadora da educação especial para os níveis diferenciado, indiferenciado e
não envolvido indicando que, quando a educadora está presente na sala as
crianças passam menos tempo em envolvimento activo não orientado para
objectivos ou exibindo comportamentos de nível baixo ou inadequados.
Relativamente ao tipo de envolvimento das crianças verificou-se um padrão
idêntico de associações entre o perfil de incapacidade e o foco de
envolvimento, na presença e na ausência da educadora da educação especial
indicando que, em geral, as crianças com mais incapacidade passam menos tempo
em interacção com objectos e mais tempo em interacção com adultos e com o
self.No entanto, é de realçar que, quando a educadora da educação especial não
está presente na sala, a associação entre o perfil de incapacidade e o
envolvimento consigo própria torna-se mais expressiva, passando de fraca a
moderada.
DISCUSSÃO
Os resultados obtidos neste estudo contribuem para uma melhor compreensão da
forma como as crianças com incapacidade passam o seu tempo em contextos
inclusivos, isto é, para compreender a qualidade das interacções destas
crianças com o meio (pares, adultos e objectos) num dos seus contextos de vida
diária. Estes dados poderão, assim, contribuir para elucidar a natureza dos
processos proximais em crianças com incapacidades e as características dos
factores que os influenciam.
Os nossos resultados vão de encontro aos dados apresentados por McWilliam e
Bailey (1995), na medida em que indicam que, de forma global, crianças com
incapacidades estão envolvidas menos tempo em tarefas de nível mais elevado
(e.g., resolver problemas, fazer-de-conta ou a construir) e passam proporções
mais elevadas de tempo em níveis baixos de envolvimento e não envolvidas. Os
resultados obtidos vão igualmente no mesmo sentido de resultados de estudos
prévios que analisaram o envolvimento de crianças com desenvolvimento típico em
contextos de educação de infância (de Kruif & McWilliam, 1999; de Kruif,
McWilliam, & Ridley, no prelo; Pinto, 2006; Raspa et al., 2001), que
indicaram que menores proporções de envolvimento sofisticado e mais tempo em
não envolvimento estavam associados a imaturidade desenvolvimental. Também de
acordo com os resultados destes estudos, as crianças do presente estudo passam
elevadas proporções no nível de envolvimento diferenciado indicando que, em
percentagens elevadas de tempo, estas não estão envolvidas, nem em
comportamentos sofisticados (e.g., resolução de problemas), nem em
comportamentos não sofisticados (e.g., acções repetitivas). De acordo com
estudos prévios o nível de envolvimento diferenciado encontra-se associado a
imaturidade desenvolvimental (McWilliam & Scarborough, 1997; Pinto, 2006).
Foi também possível constatar, tal como é referido pela literatura, que a
qualidade e foco de envolvimento das crianças com NEE são influenciados por
características da criança, bem como pelas propriedades do contexto (Burstein,
1986; de Kruif & McWilliam, 1999; McCormick, Noonan, & Heck, 1998;
McWilliam & Bailey, 1995).
Relativamente às características da criança, os dados obtidos indicam que o
nível de sofisticação do envolvimento das crianças aumenta à medida que a idade
da criança aumenta, isto é, verifica-se uma frequência mais elevada de
envolvimento em comportamentos sofisticados, tais como comportamentos
codificados ou de jogo construtivo em crianças mais velhas. Estes dados são
convergentes com a investigação sobre o envolvimento da criança com
desenvolvimento típico em contexto de creche na Área Metropolitana do Porto,
onde se verificou que a idade cronológica das crianças influenciava o nível de
envolvimento dos seus comportamentos em contextos educativos, isto é as
crianças em idade pré-escolar passavam mais tempo em comportamentos
sofisticados quando comparadas com crianças em idade de creche (Pinto, Nunes,
Cruz, & Aguiar, 2006). Estes dados confirmam que o envolvimento pode ser
considerado uma medida da competência interactiva da criança, podendo assim ser
utilizada em substituição a medidas formais de avaliação cognitiva da criança.
Quanto ao foco de envolvimento, os resultados indicam que as crianças passam
grande parte do tempo envolvidas com objectos e com adultos e menos tempo
envolvidas com os pares. A percentagem de tempo que as crianças se envolvem com
os objectos indica que estas passam cerca de metade do seu tempo em
envolvimento não-social.
Relativamente à elevada percentagem de tempo que as crianças passam a interagir
com os adultos, quando comparado com a proporção passada em interacção com os
pares, os valores podem ser, em parte, explicados pelo facto de estas crianças
terem apoio e quando o educador se aproxima e interage, a actividade deixa de
ser orientada pela criança e a interacção assume um carácter diádico educador-
criança. Este facto poderá igualmente explicar a percentagem relativamente
elevada de tempo que as crianças passam em comportamentos codificados, isto é,
utilizando uma linguagem compreensível para comunicar sobre objectos ou
acontecimentos do seu contexto imediato. Este resultado é consistente com os de
McCormick e colaboradores (1998) que verificaram uma diminuição da interacção
com os pares quando a interacção com os adultos aumentava.
Os dados indicam, ainda, que as crianças mais velhas têm tendência passar mais
tempo em interacção com os objectos e menos tempo com os adultos da sala.
Estudos prévios em contextos de creche verificaram que, à medida que a idade
cronológica e a idade desenvolvimental aumentam, a frequência da interacção com
os pares aumenta e a interacção com adultos diminui (Pinto, Barros, Aguiar,
Pessanha, & Bairrão, 2006; McWilliam & Bailey, 1995). Nas crianças
observadas não verificámos esta última associação relativamente à idade
cronológica, o que poderá dever-se ao impacte de outras características da
criança, tal como a incapacidade, e de factores contextuais, nomeadamente a
presença da educadora da educação especial.
A associação de magnitude moderada entre a idade cronológica e o envolvimento
com objectos poderá ser justificada pelo facto de, no presente estudo, crianças
mais velhas passarem mais tempo em envolvimento construtivo (e.g., manipular
objectos para criar, fazer, ou construir). De facto, de acordo com o sistema de
cotação do EQUAL-III (McWilliam, & de Kruif, 1998), quando a criança está
envolvida em comportamentos construtivos, considera-se exclusivamente como foco
de interacção, o tipo de envolvimento com os objectos.
Os resultados verificados relativamente às associações entre o tipo de
envolvimento e o perfil de incapacidade permitem concluir que as crianças com
mais incapacidades se envolvem menos com os objectos e mais consigo próprias,
mesmo na presença da educadora da educação especial. Este dado é preocupante,
pois indica que as crianças com maior severidade de incapacidades têm menor
probabilidade de se envolverem em interacções sociais com os pares durante as
actividades e maior probabilidade de permanecer em actividades solitárias.
Pierce-Jordan e Lifter (2005) apontam como possível explicação para estas
dificuldades o facto de existirem défices nos comportamentos de jogo e nos
comportamentos sociais de crianças com incapacidades que poderão ter influência
na sua capacidade para integrar competências de coordenação social nas
actividades de jogo em processos de aprendizagem.
Em suma, no presente estudo, as crianças com um nível mais elevado de
incapacidades despendem menos tempo em envolvimento de nível superior e mais
tempo não envolvidas (e.g., falta de ocupação, olhar fixamente no vazio,
vaguear sem objectivo, chorar, queixar-se, actos agressivos ou destrutivos e
comportamento de infracção de regras) ou envolvidas com adultos e com o self,
tanto na presença do educador da educação especial como na ausência deste
profissional. Deste modo, a intervenção junto das crianças com NEE deve
privilegiar a promoção de comportamentos sociais a desenvolver em actividades
de jogo onde a criança é bem sucedida.
Os dados obtidos permitiram verificar que, para todas as crianças, quando a
educadora da educação especial está presente na sala de actividades, estas
passam significativamente mais tempo envolvidas em comportamentos sofisticados,
nomeadamente a comunicar com linguagem compreensível e passam menos tempo
envolvidas em comportamentos passivos ou de nível inferior (i.e., atenção
ocasional e comportamentos repetitivos - indiferenciados) e menos tempo não-
envolvidas no contexto de actividade. Estes resultados indicam que a presença
da educadora da educação especial promove níveis mais elevados de envolvimento
nas crianças observadas.
Relativamente ao tipo de envolvimento, quando a educadora da educação especial
está presente, as crianças com incapacidades despendem mais tempo com adultos e
interagem menos com os seus pares e com objectos, isto é, a participação social
com pares e a autonomia das crianças na exploração do ambiente, parecem não
estar a ser promovidas. Estes dados são convergentes com os resultados da
investigação de Chandler (1991) e Meyer e colaboradores (1987) (como citados em
McCormick et al., 1998) que verificaram que a atenção do educador está
associada a uma redução do envolvimento com os pares. Investigações nesta área
sugerem que algumas formas de interacção adulto-criança podem interferir com a
interacção com os pares (McCormick et al., 1998). Em contextos pré-escolares
inclusivos foram verificadas correlações negativas entre a quantidade de tempo
que as crianças passam a interagir com pares e a quantidade de tempo que as
crianças passam a interagir com os educadores (Burstein, 1986; McWilliam &
Bailey, 1995).
Em conclusão, os resultados apresentados permitem confirmar que o envolvimento
é um conceito que possibilita documentar a importância de variáveis dos
contextos de educação de infância na sofisticação desenvolvimental das acções
da criança, bem como o grau em que estas exprimem competências socialmente
adequadas durante as suas interacções diárias. Num modelo de escola inclusiva a
informação sobre o conceito de envolvimento da criança e formas de o
operacionalizar, poderá ser pertinente, quer ao nível da formação dos
educadores de infância e dos educadores da educação especial, quer nas práticas
de intervenção junto de crianças com incapacidade. Os resultados obtidos
apontam para a necessidade de se contribuir para a melhoria das experiências
que se proporcionam a estas crianças em contextos inclusivos. A observação e
documentação acerca do envolvimento que estas crianças vão demonstrando nas
diferentes rotinas de vida diária, poderá fornecer indicadores fundamentais
para a planificação educativa, no sentido de fomentar a participação da criança
com NEE nas actividades do grupo de uma forma consistente e
desenvolvimentalmente adequada, facilitando, assim, a sua interacção com as
outras crianças. Se a criança tem dificuldade em interagir com os pares ou em
utilizar os objectos de forma adequada, o educador deve integrar-se na situação
de jogo livre e modelar novos comportamentos (Quality and Engagement Study,
2001). Só assim, se poderá promover o envolvimento em níveis mais sofisticados
e consequentemente promover o desenvolvimento global das crianças.
Uma primeira limitação do nosso estudo diz respeito ao tamanho da amostra. Como
consequência, os resultados obtidos ao nível da quantidade e da qualidade das
interacções das crianças com NEE, podem estar sobrestimados uma vez que a
constituição da amostra foi determinada por conveniência. Deste modo, não foi
possível seleccionar as crianças com base no seu perfil de funcionalidade,
abrangendo um leque mais vasto de graus de incapacidade dos participantes, pelo
que como recomendação em futuras investigações propomos um maior número de
participantes e a utilização de critérios relacionados com o tipo, a severidade
e a complexidade da incapacidade da criança, variáveis necessárias para obter
uma caracterização mais ampla das crianças que frequentam os contextos
inclusivos. No entanto, o nosso objectivo foi estudar as crianças com NEE de
forma a caracterizá-las num contínuo de capacidades em diferentes domínios de
funcionalidade, assumindo que são as características da criança nesses
domínios, em substituição ao diagnóstico ou a categorias, que têm maior
influência na sua participação em contextos inclusivos.
Uma outra limitação diz respeito à representatividade da amostra, quer pelo
facto de o processo não obedecer a selecção aleatória, o que permitiria uma
amostra diversificada em termos educativos e sócio-económicos, quer pelo facto
de as crianças e famílias residirem no distrito do Porto, não permitindo
generalizar os resultados a nível nacional. No presente estudo optamos por
estudar e caracterizar o envolvimento de crianças com NEE. Consideramos,
todavia, que em futuras pesquisas seria interessante incluir crianças com
desenvolvimento típico permitindo comparar o envolvimento de crianças com e sem
incapacidades incluídas no mesmo contexto educativo e possibilitando a
identificação dos níveis de envolvimento que são mais problemáticos em ambos os
grupos. Esta análise permitirá compreender diferenças no nível de participação
das crianças e sugerir estratégias para a planificação e para a intervenção de
modo a promover a qualidade da sua participação, independência e relações
sociais, considerados os três pilares no processo de envolvimento em contextos
de vida real (McWilliam, 2005).
Relativamente aos educadores, foi nossa opção incluir na amostra apenas os
educadores da educação especial, uma vez que se pretendia estudar o efeito da
presença/ausência destes profissionais no envolvimento das crianças com NEE. No
entanto, consideramos que em estudos futuros será importante estudar, também, o
efeito das interacções do educador titular do grupo no envolvimento de todas as
crianças da sala, com e sem incapacidades. De facto, as crianças permanecem a
maior parte do seu tempo com o educador titular do grupo, cujo papel é singular
nas experiências que lhes são proporcionadas, nomeadamente através de uma
organização do contexto da sala de actividades e da promoção de interacções
positivas com os pares, com os objectos e com o adulto que possibilite
proporções elevadas de níveis sofisticados de envolvimento.
Consideramos que em futuras pesquisas deverão ser contempladas outras
características da criança, do processo e do contexto referidas na literatura
como tendo influência na qualidade da participação da criança com e sem
incapacidades. Assim, ao nível da criança será interessante considerar outras
variáveis, nomeadamente o temperamento da criança, as competências sociais e a
idade desenvolvimental. Ao nível do processo seria relevante analisar e estudar
a interacção social entre pares com e sem desenvolvimento típico. A literatura
tem sublinhado que as crianças com incapacidades são socialmente menos
interactivas pelo que há necessidade de mais investigação nesta área, de forma
a clarificar o contributo de outros factores como o atraso ao nível da
linguagem expressiva e problemas no processamento de informação associados a
situações de carácter social (Guralnick & Groom, 1987).