Quid Vincit: O impacto da liderança feminina na implicação organizacional
INTRÓITO
Imagine-se um local onde são as mulheres a mandar. O dinheiro, as propriedades
e a riqueza pertencem às mulheres e às suas filhas herdeiras. Não existem
maridos, porque não existe matrimónio. As mulheres podem escolher quantos
parceiros desejarem e são elas a impor quando, onde e em que condições se dão
as relações sexuais. Os filhos são criados pelas mulheres. São estas que
trabalham arduamente, muito mais do que os homens, os quais assumem um papel
secundário, para tratar de algumas questões políticas da comunidade. O nome da
mulher é que se perpetua, não o do homem. Não existe violência ou guerra, pois
as mulheres não lhe conferem qualquer valor. O desapego material é, aliás, um
predicado deste povo, que prefere viver em harmonia com a Natureza.
Com tal descrição, poderia o leitor pensar estar a falar-se das Amazonas ou das
Valquírias, se bem que a nota pacifista do texto se opõe ao carácter guerreiro
destes povos das mitologias grega e nórdica, respectivamente. De facto, trata-
se dos Mosuo, uma comunidade de 25 mil pessoas da cidade de Loshui, na
província do Yunnan, na China. Os relatos provêm de uma obra não científica,
editada em 2008 por um jornalista e médico (Coler, 2008), que viveu alguns
meses entre este que é um dos últimos matriarcados do mundo.
Arriscando alguma acusação de machismo démodé ou mesmo de misoginia insolente,
parece relativamente factual afirmar que, no resto do planeta, as mulheres
estão muito aquém da força e estatuto detido pelas suas congéneres Mosuo.
Continua a ser raro encontrar mulheres em altos cargos associados, por exemplo,
ao poder político ou económico. Aceder a altos postos é muito mais fácil para
os homens, mesmo quando estes estão menos preparados a nível de habilitações.
Os dados confirmam que o número de mulheres decresce na razão inversa em que se
ascende aos mais altos níveis de hierarquia (Nogueira, 2006).
Enquanto que a nível de mercado laboral no século XX, a quantidade de mulheres
cresceu de forma acentuada, a nível de cargos de gestão e de política, essa
evolução tem sido modesta. Os exemplos são relativamente poucos e conhecidos:
Margaret Thatcher (primeira mulher britânica a ocupar o cargo de primeiro-
ministro), Ângela Merkel (primeira mulher a presidir um governo da Alemanha),
Michelle Bachelet e Cristina Férnandez de Kirchner (presidentes do Chile e da
Argentina, respectivamente), ou Hillary Clinton. Esta última, embora não tenha
ganho as eleições americanas em 2008, simboliza uma líder que, segundo Turner
(2008), precisou adoptar um estilo de liderança equilibrado, com
características masculinas e femininas, para poder vingar no mundo da política.
Para esta autora, o verdadeiro líder é aquele que tem a sabedoria para saber
quais são os atributos masculinos e femininos que funcionam em determinada
situação.
O objectivo deste estudo é explorar as diferenças entre géneros no que diz
respeito aos processos de liderança nas organizações. Em concreto, o trabalho
intenta analisar os impactos da liderança exercida por mulheres na implicação
organizacional dos trabalhadores.
Pesquisas conduzidas nos últimos anos apontam para que a liderança, quando
participativa, é um dos antecedentes da ligação psicológica à organização, à
implicação organizacional (e.g., Gunter, 1997). Outros trabalhos demonstram que
as mulheres são por natureza mais participativas e transformacionais (Carvalho,
2000). Tendo em conta a evolução e progressiva visão da mulher como potencial
líder eficaz, e sendo um tema que continua actual e em constante progressão, o
presente estudo contribui para explorar a relação entre género e eficácia na
liderança.
Este texto começa por analisar a questão da liderança, sobretudo em relação com
o género, para depois abordar a temática da implicação organizacional. Segue-se
a descrição do estudo empírico, os resultados, e por fim a discussão e as
pistas para investigações futuras.
DA LIDERANÇA À IMPLICAÇÃO ORGANIZACIONAL
Liderança
A liderança é um tema que tem apaixonado, e provavelmente continuará a
arrebatar em anos vindouros, os interesses de legiões de académicos, gestores e
políticos. O tema é ainda mais pertinente em contextos turbulentos (Ceitil,
2006), como os que têm vindo a observar-se em anos recentes.
Sendo a liderança um tema copiosamente estudado, é natural que se observem
variadas formas de abordar o conceito. Ao longo do tempo, realçou-se um ou
outro aspecto dentro da temática da liderança, com o intuito de procurar
definir os aspectos essenciais para uma liderança mais produtiva e eficaz. Como
Napoleão Bonaparte afirmou certa vez “nada é mais difícil, logo mais precioso,
do que ser capaz de decidir” (Roberto, 2008).
Apresentamos como exemplo pertinente para o presente artigo os estudos da
Universidade de Michigan dos finais dos anos 40 do século XX, que se centraram
nos comportamentos dos líderes formais e compararam os estilos democrático e
autocrático. O estilo democrático foi equiparado a líderes mais orientados para
os problemas dos subordinados e são considerados líderes mais produtivos e
eficazes. O estilo autocrático foi equiparado a líderes mais orientados para as
tarefas e para a organização (Jesuíno, 1999).
Existem inúmeras definições de liderança. Yukl (1998), por exemplo, refere que
a liderança é um processo de influência intencional de uma pessoa sobre outras
para “guiar, estruturar e facilitar actividades e relações dentro de um grupo
ou organização” (p. 3). O autor questiona também se a liderança não deve ser
encarada como um processo de influência social, em vez de ser vista como um
papel desempenhado por um indivíduo. Desta forma, liderar torna-se um processo
de interacção em que uns poucos influenciam muitos outros, seja para tomar
decisões, para motivar pessoas, ou para outro propósito.
Liderança transformacionalversus transaccional
A conceptualização teórica sobre liderança tem evoluído marcadamente nos
últimos cem anos, desde os primeiros estudos que associavam o líder a alguém
com traços e atributos especiais, até às mais recentes perspectivas sobre
liderança carismática ou liderança espiritual. Para duas excelentes sinopses
sobre a evolução destas concepções, o leitor interessado pode consultar Jesuíno
(1999) e Rego e Cunha (2003).
No vasto horizonte conceptual destaca-se, para o presente exercício, as noções
de liderança transformacional e transaccional. No seguimento dos trabalhos de
Burns e House, Bass e colegas delimitam o conceito de liderança
transformacional (e.g., Bass, 1999), a qual pode ser definida como a liderança
exercida por pessoas que introduzem mudanças na sociedade e nas organizações,
deixando marcas permanentes. Caracteriza-se pela criação de uma mais valia
resultante das sinergias do grupo, traduzindo-se em modelar e elevar os motivos
e valores do grupo e a sua transformação como um todo, em termos de novos
objectivos, ambição mais elevada e novas modalidades de actuação conjunta
(Neves, 2001). Por contraste, a liderança transaccional caracteriza-se por
apenas compatibilizar e harmonizar os objectivos dos liderados, através da
simples troca e na base da coordenação de interesses e negociação de conflitos
(Neves, 2001). Ambos os processos são necessários, dependendo do contexto: a
liderança transformacional é mais adaptada a tempos de mudança ou fundação,
enquanto a liderança transaccional é mais indicada para períodos de evolução
lenta e ambiente estáveis.
No estudo de Eagly, Johannesen-Schmidt e Van Engen (2003), os resultados
sugerem que o líder feminino adopta predominantemente um estilo
transformacional, e o masculino um estilo marcadamente transaccional.
A ascensão das mulheres ao poder
A partir da década de 50, até meados dos anos 70 do século XX, assistiu-se a um
surgir gradual da mulher em actividades empresariais e cargos de gestão. Os
tempos tornaram-se mais competitivos e dinâmicos, e impunha-se mudar, adaptar,
inovar e flexibilizar a forma de gerir as organizações (Dias, 2002). Esta
entrada das mulheres em cargos de gestão não foi pacífica: na década de 70
ainda havia autores a defender que os bons chefes são descritos em termos
masculinos (Powell & Butterfield, 1979, cit. por Ottaway & Bhatnagar,
1988).
Rego e Cunha (2004) propõem como debate para o século XXI o papel da mulher na
vida organizacional e na gestão, porque “... embora seja comum a queixa (...)
feminina de que os lugares de chefia ainda são maioritariamente preenchidos
pelos homens, é indubitável o crescendo feminino nessa matéria” (p. 27). Este
aspecto é reforçado pelos dados do Eurostat, que referem que o número de
portuguesas em lugares de topo nas empresas continua a ser menor do que a média
da União Europeia – 31,8% em 2007 – mas é um número que, lentamente, vai
aumentando.
A verdade é que as mulheres ganham mais experiência de trabalho e instrução
necessária para se qualificarem, investindo cada vez mais na formação
universitária (Andrew, Coderre, & Denis, 1991). Assim, as organizações têm
vindo a ser obrigadas a restabelecer e expandir noções daquilo que constitui a
liderança eficaz, relacionada com o género, os estereótipos e as expectativas
de papel. As organizações têm vindo a ser obrigadas, nas últimas décadas, a
acompanhar esta mudança cultural (DesRosiers & Lépine, 1991).
Mas quais as características da mulher enquanto líder? Teixeira (2001) chama a
atenção para o facto de as mulheres possuírem atributos essenciais para uma boa
liderança: generosidade, harmonia, capacidade de comunicação com o grupo,
capacidade de liderar de forma mais participativa e cooperativa e menos
centrada no líder, capacidade de negociação e resolução de problemas baseada na
empatia e racionalidade.
Já os homens têm um modo de chefia caracterizado pela competitividade,
autoridade, alto controlo para o líder, e resolução de problemas de forma
analítica e sem emoções. Para Carless (1998, cit. por Stelter, 2002), as
mulheres líderes são descritas como mais inclusivas, relacionais, e os homens
líderes como directivos, controladores e orientados para as tarefas.
Eagly e Carli (2003) sugerem que existe uma vantagem feminina na liderança,
assumindo o líder feminino um estilo que é mais eficaz do que o masculino,
considerando as condições contemporâneas da vida organizacional. Torna-se cada
vez mais evidente que as qualidades femininas de cooperação, mentoria e
colaboração são importantes em variados contextos. Os autores afirmam que o
homem, actualmente, aparece associado a um estilo de liderança antiquado, que
não se encaixa nas necessidades de muitas organizações hodiernas.
No entanto, não haverá também semelhanças entre os estilos do homem e da
mulher? A verdade é que os comportamentos dos líderes são baseados em
expectativas inerentes ao papel de gestores e não de homens ou mulheres. Supõe-
se que os sujeitos são seleccionados para cargos de chefia em função de
potencial e eficácia. No entanto, a verdade é que as mulheres podem necessitar
de adoptar o estilo masculino que os homens tradicionalmente imprimem aos
lugares de gestão (Cunha, Rego, Cunha, & Cardoso, 2003).
Ao mesmo tempo que existem semelhanças, podem existir factores para além do
género que explicam a diferença entre liderança feminina e masculina,
nomeadamente o tamanho da organização, o ambiente, o género maioritário, a
composição do grupo, a estratégia, a tecnologia, e a forma da organização
(Cunha et al., 2003; Teixeira, 2001).
A liderança feminina é um tema que tem vindo a evoluir, embora ainda vigorem
uma série de estereótipos e uma visão da liderança ligada a características
masculinas. A Tabela 1 sintetiza alguns estudos efectuados.
TABELA 1
Estudo e principais conclusões sobre liderança feminina
É importante referir as conclusões de Yoder (2001), que defende a existência de
dois pontos pertinentes relativos à eficácia da liderança: primeiro, o que é
eficaz para o homem não o é necessariamente para a mulher; depois, o que é
eficaz para a mulher depende do contexto em que a liderança é estabelecida.
Hoje é geralmente aceite que existe uma forma de comportamento e de liderança
“feminina”, distinta da “masculina”. O verdadeiro líder é aquele que sabe quais
as características associadas a um género ou a outro, que melhor funcionam numa
certa situação (Turner, 2008). Nos tempos turbulentos em que se vive, de
mudança acelerada, são permanentemente testadas as ligações entre os indivíduos
e as organizações, pelo que a liderança se impõe como factor chave no
desenvolvimento e sustentação de tais ligações. A secção seguinte aborda a
questão da implicação organizacional.
Implicação organizacional
O tema da implicação organizacional tem sido amplamente explorado, a fim de
compreender a dedicação do indivíduo à organização. Alguns autores defendem que
altos níveis de implicação organizacional são positivos (Randall, 1989), pelo
que este tema tem sido associado a importantes resultados organizacionais, tais
como o desempenho, o turnover, o absentismo, a pontualidade e os comportamentos
de cidadania organizacional.
Também é importante referir que, muitas vezes, a implicação organizacional
aparece associada ao conceito de satisfação, embora a implicação possua uma
maior estabilidade temporal. A implicação reflecte uma resposta afectiva para
com a organização como um todo, uma ligação que passa também pela adesão aos
seus valores e objectivos. Assim, define-se implicação como a medida da força
da identificação dos empregados com os objectivos e valores da organização
(McNeese-Smith, 1996), a força com que cada pessoa se envolve com o local de
trabalho (Kacmar, Carlson, & Brymer, 1999; Randall, 1989).
Outros sugerem que a implicação organizacional é uma medida de congruência
entre objectivos e valores, individuais e organizacionais (Buchanan, 1974, cit.
por Kacmar et al., 1999). Carochinho, Neves e Jesuíno (1998) referem que, em
todas as definições do construto, se encontra um aspecto consensual: a
vinculação do indivíduo à organização. Para Meyer e Allen (1998) “a implicação
organizacional é um estado psicológico que caracteriza a relação do trabalhador
com a organização” (p. 67).
A implicação organizacional é pois tida como uma atitude do sujeito para com a
organização, sendo que a sua estrutura vai ao encontro das três componentes das
atitudes (Mowday et al., 1979, cit. por Carochinho et al., 1998): (a) acreditar
e aceitar os valores e objectivos da organização (componente afectiva); (b)
desejo de manutenção continuada e pertença à organização (componente
comportamental); (c) aceitação dos esforços e sacrifícios em prol da
organização ou ainda motivação para a performance (componente cognitiva).
O que difere nestas definições é a natureza do estado psicológico que está a
ser descrito. Para estabelecer estas diferenças, Meyer e Allen (1998)
distinguem três componentes da implicação: (a) implicação organizacional
afectiva – ligação emocional dos empregados, identificação e envolvimento com a
organização; (b) implicação organizacional contínua – percepção dos custos de
deixar a organização; (c) implicação organizacional normativa – obrigação de
continuar empregado.
Liderança e implicação organizacional
Mathieu e Zajac (1990, cit. por Meyer, 1997) defendem que a liderança
participativa é um factor antecedente da implicação organizacional. De modo
análogo, Cunha e Rego (2005) referem que a liderança participativa contribui
para aumentar a satisfação dos colaboradores.
Gunter (1997) examina a relação entre a implicação organizacional e as práticas
de liderança como variável antecedente. Este autor descobriu uma relação
positiva entre as diferentes práticas de liderança estudadas (e.g., inspirar
uma visão partilhada, permitir a acção dos outros, modelar o caminho a seguir,
encorajar) e a implicação organizacional.
Ao nível da troca líder-membro, vários estudos examinaram o impacto que a
relação entre supervisor e subordinado tem na implicação organizacional (e.g.,
Kinicki & Vecchio, 1994). Todos os estudos efectuados sobre estes aspectos
registaram uma relação estatisticamente positiva entre a troca líder-membro e a
implicação organizacional (Kacmar et al., 1999).
Em suma, os estudos parecem indiciar uma relação positiva entre liderança e
implicação organizacional, nomeadamente quando os líderes permitem aos
subordinados alguma liberdade de acção e participação nas acções referentes ao
alcance dos objectivos comuns.
Os líderes não devem ser só profissionais tecnicamente competentes mas também
nós centrais em redes sociais cuidadas e “multifuncionais”. A qualidade de um
líder pode, em última instância, ser medida pela qualidade das redes que for
capaz de construir –, assim como pelas práticas de liderança que permitem aos
seus colaboradores e equipas criar e desenvolver redes sociais interna e
externamente vigorosas (Rego & Cunha, 2009).
No seguimento do apresentado, resta sintetizar a problemática que envolve o
presente estudo.
OBJECTIVOS E HIPÓTESES
O objectivo deste estudo é explorar o impacto da liderança feminina sobre a
implicação organizacional dos trabalhadores, tendo em conta terceiros factores
que podem influenciar esta relação: o estilo de liderança, o tempo de serviço,
a idade e o género do trabalhador.
De acordo com um estudo efectuado por Eagly e Johnson (1991), as mulheres têm
tendência a adoptar um estilo de liderança mais participativo. Já Mathieu e
Zajac (1990, cit. por Meyer, 1997) defendem que a liderança participativa é um
factor antecedente com forte relação com a implicação organizacional. Avança-se
então a hipótese:
H1: Os níveis de implicação organizacional são maiores quando o
trabalhador responde mais favoravelmente ao líder feminino do que ao
líder masculino.
Nos estudos de Michigan, os estilos democrático e autocrático de liderança
foram equiparados, respectivamente, a líderes mais orientados para os
problemas, inclusivamente pessoais, dos subordinados e que são líderes
considerados mais produtivos, e líderes mais orientados para as tarefas e para
a organização (Jesuíno, 1999). Yukl (1998) concluiu que os comportamentos de
consideração (mais orientado para as pessoas) tendem a relacionar-se
positivamente com a satisfação dos colaboradores. Deste modo, espera-se que:
H2: Os níveis de implicação organizacional são maiores quando o
trabalhador considera o líder masculino mais orientado para as
pessoas, comparativamente ao líder feminino, considerado pelo
trabalhador mais orientado para as tarefas.
Por outro lado, espera-se igualmente que:
H3: A implicação organizacional é maior quando se considera o
líder feminino mais orientado para as pessoas, comparativamente a
quando se considera o líder feminino mais orientado para as tarefas.
Esta terceira hipótese parte da referência de Stelter (2002), que conclui que
os homens líderes são descritos como directivos, orientados para as tarefas e
controladores, e as mulheres líderes são descritas como participativas e
inclusivas, que tendem a adoptar um estilo mais democrático e encorajam a
participação e o desenvolvimento dos subordinados.
Características essenciais para uma boa liderança como a capacidade de
comunicação com o grupo ou a capacidade de liderar de forma mais participativa
e menos centrada no líder, encontram-se, por vezes, mais facilmente nas
mulheres do que nos homens (Teixeira, 2001).
As hipóteses seguintes focam o género tanto do líder como do subordinado e a
idade e tempo de serviço do subordinado. Relativamente ao género, os sujeitos
do sexo feminino que ocupam posições mais altas não demonstram desejo em ajudar
as trabalhadoras mais novas a avançar. Kottis (1993, cit. por Mann, 1995)
sugere algumas razões para este fenómeno: em alguns casos, as mulheres que
ultrapassaram os patamares das outras mulheres nas organizações conseguiram-no
porque adoptaram atitudes, linguagem e comportamentos masculinos. Noutros
casos, as mulheres que atingiram escalões mais altos, depois de muitos anos de
duro trabalho e paciência, podem ressentir-se das mulheres mais novas que
querem rápido avanço para grandes lugares, sem trabalharem tanto. Estas
asserções conduzem à:
H4: Uma trabalhadora do sexo feminino apresenta níveis de
implicação organizacional mais baixos quando o líder é também do sexo
feminino, comparativamente aos níveis de implicação organizacional de
um trabalhador do sexo masculino.
Indivíduos mais velhos podem ter maiores níveis de implicação com a organização
devido a uma maior história com a organização e um maior investimento em
relação à mesma (Dunham et al., 1994, cit. por Kacmar et al., 1999). Por outras
palavras:
H5a): Os trabalhadores com uma idade acima da média de todos os
trabalhadores apresentam níveis de implicação organizacional mais
elevados, em comparação com os trabalhadores mais jovens.
H5b): Os trabalhadores com mais anos de serviço do que a média de
todos os trabalhadores apresentam níveis de implicação organizacional
mais elevados, comparativamente aos trabalhadores com menos anos de
serviço.
Por último, segundo Powell e Butterfield (1979, cit. por Ottaway &
Bhatnagar, 1988), os bons chefes são descritos em termos masculinos. Deste
modo, espera-se que:
H6: Os trabalhadores, quando questionados acerca de determinados
comportamentos do líder, respondem de forma mais favorável ao líder
masculino do que ao líder feminino.
MÉTODO
Participantes
Participaram no estudo 52 sujeitos de uma escola privada, na área de Lisboa,
distribuídos da seguinte forma: 47 mulheres (90,4%) e 5 homens (9,6%); 30
docentes (57,7%) e 22 não docentes (42,3%).
A taxa de retorno dos questionários distribuídos foi de 100%, sendo que dois
destes não foram considerados para análise, visto estarem insatisfatoriamente
preenchidos.
Trata-se de uma amostra de conveniência pois procurou-se um só local onde se
pudesse comparar a liderança feminina e masculina. Embora não se respeite
aleatoriedade e seja uma amostra mais reduzida do que o desejado, foi a amostra
que se traduziu mais adequada.
Instrumentos
Os instrumentos utilizados foram o Leader Behavior Description Questionnaire
(LBDQ – Form XII) (Stogdill, 1963, cit. por Jesuíno, 1999) e o Organizational
Commitment Questionnaire(OCQ, Mowday, Steers & Porter, 1979, cit. por
Carochinho et al., 1998).
A forma XII do LBDQ é uma escala tipo Likert constituída por 20 itens, em que
cada item descreve um comportamento específico. Cada item abarca cinco pontos,
em que o número um corresponde a “sempre” e o número cinco a “nunca”. Dez dos
itens correspondem ao factor “Estruturação” (“definição da estrutura tanto no
papel do líder como no dos subordinados para a realização de um objectivo”) e
outros dez ao factor “Consideração” (“manutenção das relações de trabalho
baseadas na confiança, respeito mútuo e consideração pelos subordinados”).
Holdnak, Harsh e Bushardt (1993), num estudo realizado para examinar o estilo
de liderança, debruçaram-se sobre os dois factores (“Estruturação” e
“Consideração”) e chegaram a uma confiança interna de Kuder-Richardson que se
situa entre 0,75 e 0,79 para a “Estruturação” e entre 0,76 e 0,87 para a
“Consideração”.
No presente estudo, os valores de fidelidade encontrados (alpha de Cronbach)
foram de 0,66 e 0,81, respectivamente para o grupo em que o LBDQ diz respeito
ao líder feminino ou ao masculino (ver em baixo sub-secção “procedimento”).
O OCQ é um questionário que, na sua versão original, é constituído por 15
itens. Cada item é respondido numa escala tipo Likert de 7 pontos (1
corresponde a “discordo totalmente” e 7 a “concordo totalmente”). As questões
3, 7, 9, 11, 12 e 15 são cotadas inversamente, visto serem afirmações
elaboradas na forma negativa. Neste estudo, foi considerado que o nível de
implicação organizacional se referia ao valor médio, sendo o mais alto 7 e o
mais baixo 1.
Na aplicação e validação do OCQ à cultura organizacional portuguesa, Carochinho
e colaboradores (1998) encontraram um valor de alpha de Cronbach de 0,85. Na
aplicação teste-reteste com uma amostra mais restrita, o valor “r” obtido
situou-se entre 0,92 e 0,89 para um intervalo de 2 e 3 meses respectivamente.
No presente estudo, o alpha de Cronbach encontrado foi de 0,63.
Dado que a amostra considerada no presente estudo é pequena para se efectuar
estudos de validação por análise factorial, optou-se por se seguir as dimensões
aconselhadas na literatura anteriormente anotada. Deste modo, assumiram-se as
sub-dimensões de estruturação e consideração, no caso do LBDQ, e as sub-
dimensões afectiva, cognitiva, e comportamental, no caso do OCQ.
Procedimento
Ambas as escalas, já traduzidas e validades para o contexto português pelos
autores atrás mencionados, foram compostas num único questionário, e
verificadas por responsáveis da escala e pelos investigadores autores deste
trabalho. Procurou-se, deste modo, assegurar a validade facial do instrumento à
amostra em causa.
O LBDQ foi ainda adaptado para estudo das hipóteses de investigação, permitindo
que, numa mesma folha, o trabalhador pudesse dar as suas respostas
relativamente ao líder masculino e ao líder feminino. Deste modo, cada
participante emitia um julgamento relativamente a líderes de géneros
diferentes. Quanto ao OCQ, solicitava-se aos participantes para emitirem um
julgamento relativamente ao seu grau de envolvimento com a organização.
RESULTADOS
Caracterização da amostra
A Tabela 2 caracteriza a amostra relativamente às variáveis sócio-demográficas.
TABELA 2
Caracterização sócio-demográfica dos participantes no estudo
Estudo das hipóteses
Propunha a H1 que os níveis de implicação organizacional são maiores quando o
trabalhador responde mais favoravelmente ao líder feminino do que ao líder
masculino.Para o estudo desta hipótese, recorreu-se primeiro à média das
respostas dos sujeitos em relação ao líderes e foi inserida em nova variável na
base de dados, por forma a verificar se as médias eram mais altas relativamente
ao líder feminino ou ao líder masculino. Treze dos 52 indivíduos responderam
mais favoravelmente ao líder feminino (25%), enquanto que 29 participantes
(55,8%) responderam mais favoravelmente ao líder masculino. Os restantes dez
sujeitos apresentam médias iguais relativamente aos dois líderes.
Foi então efectuado o teste tpara duas amostras independentes (Tabela 3), por
forma a comparar os sujeitos que responderam mais favoravelmente ao líder
feminino e os que responderam mais favoravelmente ao líder masculino. O
objectivo foi verificar se existiam diferenças significativas entre os dois
grupos e se os níveis de implicação organizacional eram mais elevados nas 13
pessoas que responderam mais favoravelmente ao líder feminino.
TABELA 3
Estudo da H1
Em relação aos dois grupos, para α=0,05 conclui-se que não existem diferenças
significativas entre os dois grupos no que diz respeito aos níveis de
implicação organizacional. Assim, a hipótese 1 não se confirmou.
No que respeita à H2, espera-se que os níveis de implicação organizacional são
maiores quando o trabalhador considera o líder masculino mais orientado para as
pessoas, comparativamente ao líder feminino, considerado pelo trabalhador mais
orientado para as tarefas. Para o estudo desta hipótese, foi inserida uma nova
variável na base de dados, para verificar quais os sujeitos que consideravam o
líder feminino e o líder masculino mais orientado para as pessoas
(consideração) ou mais orientado para as tarefas (estruturação).
Verificou-se que 34 dos participantes consideram o líder feminino mais
orientado para as pessoas, ao mesmo tempo que consideram igualmente o líder
masculino mais orientado para as pessoas. Apenas um participante considera o
líder masculino mais orientado para as pessoas ao mesmo tempo que considera o
líder feminino mais orientado para as tarefas, pelo que não seria correcto
concluir algo apenas a partir de um sujeito.
Foram efectuados então dois testes tpara duas amostras independentes: um
compara os sujeitos que consideram o líder masculino mais orientado para as
tarefas com os que consideram o líder masculino mais orientado para as pessoas;
o outro teste compara os sujeitos que consideram o líder feminino mais
orientado para as tarefas com os que consideram o líder feminino mais orientado
para as pessoas.
O objectivo foi verificar se existem diferenças significativas entre os dois
grupos relativamente aos níveis de implicação organizacional. A Tabela 4 mostra
os resultados.
TABELA 4
Estudo da H2
Em relação aos grupos dos dois testes, para α=0,05 conclui-se que não existem
diferenças significativas entre os grupos no que diz respeito à implicação
organizacional. A título de curiosidade, pode observar-se que, em ambos os
testes, as médias nos valores de implicação são maiores quando se considera o
líder mais orientado para as pessoas. No entanto, as diferenças não são
significativas e não se pode concluir que os níveis de implicação
organizacional são superiores quando se considera o líder mais orientado para
as pessoas.
Realizou-se também uma ANOVA tipo I (factores fixos) para verificar se haveria
diferenças significativas entre grupos. Tomando a implicação organizacional
como variável dependente, verificou-se que a média é superior quando se
considera o líder masculino mais orientado para as pessoas. Todavia, o valor do
teste demonstra que não há diferenças significativas na interacção entre todas
as variáveis: líder masculino mais orientado para pessoas ou tarefas e/ou líder
feminino mais orientado para pessoas ou tarefas (p=0,38). Em suma, a hipótese 2
não se confirmou.
No que concerne a H3, estabeleceu-se que a implicação organizacional é maior
quando se considera o líder feminino mais orientado para as pessoas
comparativamente a quando se considera o líder feminino mais orientado para as
tarefas. Para analisar esta hipótese foi primeiro verificada a correlação entre
grupos. O nível de significância associado ao teste sobre as correlações é
0,44, mostrando que a correlação 0,11 não é significativa.
Posteriormente, foi feito um teste tpara amostras emparelhadas, para verificar
a existência ou não de diferenças significativas entre o grupo que considera o
líder feminino mais orientado para as pessoas e o grupo que considera o líder
feminino mais orientado para as tarefas. A Tabela 5a expõe os resultados.
TABELA 5a
Estudo da H3
Relativamente às médias, podemos verificar que a média de 2,62 quando o líder
feminino é mais orientado para as pessoas, é bastante superior. No teste
tverificamos que existem diferenças significativas entre os grupos quando se
considera o líder feminino mais orientado para as pessoas ou para as tarefas.
Em suma, estes resultados confirmam a hipótese 3.
No que diz respeito ao líder masculino, a Tabela 5b ilustra os resultados
obtidos.
TABELA 5b
Estudo da H3
O nível de significância associado ao teste sobre as correlações é 0,06,
mostrando que a correlação 0,26 não é significativa. Em relação ao teste t, o
valor demonstra que não existem diferenças significativas entre grupos,
relativamente ao líder masculino. Conforme os resultados obtidos no teste
trelativamente ao líder feminino, comparando com os resultados obtidos para o
líder masculino, confirma-se a hipótese 3.
Na H4, afirmava-se que uma trabalhadora do sexo feminino apresenta níveis de
implicação organizacional mais baixos quando o líder é também do sexo feminino,
comparativamente aos níveis de implicação organizacional de um trabalhador do
sexo masculino.
Para estudar esta hipótese, começou-se por retirar os empates, ou seja,
retiraram-se os sujeitos que não respondiam mais favoravelmente nem ao líder
masculino nem ao líder feminino.
Em seguida, foi efectuada uma ANOVA tipo I (factores fixos) para verificar se
havia diferenças significativas entre grupos (sexo masculino e sexo feminino)
nos níveis de implicação organizacional que respondem mais favoravelmente ao
líder feminino. Com os níveis de implicação organizacional como variável
dependente, a análise de variância multivariada demonstrou que os níveis de
implicação organizacional não variavam consoante o sexo (p=0,06), embora só
existam três casos de participantes do sexo masculino (depois de retirados os
empates). A interacção entre os factores sexo e respostas mais favoráveis ao
líder feminino também não se revelou significativa (p=0,45). No entanto, por
haver apenas três participantes do sexo masculino, não houve confiança
suficiente na conclusão desta hipótese 4, pois teria de se ampliar muito a
amostra para se obter uma resposta generalizável.
Na H5a, os trabalhadores com uma idade acima da média de todos os trabalhadores
apresentam níveis de implicação organizacional mais elevados, em comparação com
os trabalhadores mais jovens. Para a análise desta hipótese foi criada uma
variável dicotómica com o Grupo 1, correspondente aos indivíduos situados num
intervalo maior ou igual ao intervalo médio (40-44 anos) e o Grupo 2, referente
aos sujeitos situados num intervalo abaixo do intervalo médio. A escolha deste
tipo de análise deve-se ao facto de, no questionário, os indivíduos terem
preenchido a questão referente à idade, assinalando o intervalo em que se
situavam. Por esta razão, foi verificado qual o intervalo médio e,
posteriormente, criou-se uma nova variável que diferenciasse os indivíduos que
se situavam num intervalo superior ao médio e os participantes que se situavam
num intervalo inferior ao intervalo dos 40-44 anos.
Foi também calculado o rde Pearson. Com um coeficiente de 0,176, verificou-se
que a associação entre as variáveis implicação organizacional e idade dos
participantes, é muito baixa. De seguida, foi realizado um teste tpara amostras
independentes, cujos resultados podem ser consultados na Tabela 6a.
TABELA 6a
Estudo da H5
O valor de tencontra-se dentro da região de aceitação, pelo que se considerou a
igualdade das médias, não se considerando diferenças significativas entre os
dois grupos. Assim, não foi confirmada a hipótese 5a.
A H5b referia que os trabalhadores com mais anos de serviço do que a média de
todos os trabalhadores apresentam níveis de implicação organizacional mais
elevados, comparativamente aos trabalhadores com menos anos de serviço. Para
examinar esta hipótese, foi concebida uma variável dicotómica com o Grupo 1,
que corresponde aos indivíduos com menos de 15,06 anos de serviço (a média dos
anos de serviço de todos os trabalhadores) e o Grupo 2, que se refere aos
participantes com 15,06 ou mais anos de serviço. Foi também calculado o rde
Pearson. Com um coeficiente de 0,138, verificou-se que a associação entre as
variáveis níveis de implicação organizacional e tempo de serviço dos
participantes, é muito baixa. De seguida, foi realizado o teste tpara duas
amostras independentes (Tabela 6b).
TABELA 6b
Estudo da H5
Sendo que o valor de tse situa dentro da região de aceitação, conclui-se que os
dois grupos não apresentam diferenças significativas. Assim, a hipótese 5b não
foi confirmada.
Por fim, avançou-se que H6 os trabalhadores, quando questionados acerca de
determinados comportamentos do líder, respondem de forma mais favorável ao
líder masculino do que ao líder feminino. Para a análise desta hipótese, foi
feito um teste tpara amostras emparelhadas (Tabela 7), de maneira a verificar
se os participantes respondiam mais favoravelmente ao líder masculino ou ao
líder feminino.
TABELA 7
Estudo da H6
Os resultados do teste tdemonstram que os participantes respondem mais
favoravelmente ao líder masculino, pelo que a hipótese se confirma.
DISCUSSÃO E CONCLUSÕES
Como exposto no início do artigo, os Mosuo são uma excepção num mundo dominado,
durante muito tempo, pelo sexo masculino e que, cada vez mais se torna um mundo
onde as competências de cada um se sobrepõem ao seu género. Cada vez mais se
caminha para uma sociedade em que os géneros coabitam e trabalham de forma
equiparada, nomeadamente em questões de liderança e chefia. Este estudo
pretendeu contribuir para a compreensão da influência da liderança feminina, ou
mesmo do género do líder, na implicação organizacional.
Na primeira hipótese propôs-se que, com um líder feminino, os trabalhadores
sentem-se mais ligados à organização para a qual trabalham. Tal não se
verificou. Os resultados obtidos revelam não haver diferenças significativas
nos níveis de implicação organizacional entre o grupo que respondeu de forma
mais favorável ao líder feminino e o grupo cujas respostas eram mais favoráveis
ao líder masculino. Aprofundando um pouco mais, notámos até que a amostra
responde mais favoravelmente ao líder masculino e que toda a amostra apresenta
níveis de implicação organizacional bastante elevados.
Existe uma série de variáveis que influenciam a implicação organizacional,
muito além do género do líder. Por exemplo, Kacmar e colaboradores (1999) viram
a idade como factor preditivo dos níveis de implicação organizacional.
Relativamente a outros resultados pertinentes relativamente às hipóteses, na H3
verificou-se que, se se comparar o grupo que considera o líder feminino mais
orientado para as pessoas com o grupo que considera este líder mais orientado
para as tarefas, os níveis de implicação organizacional são superiores quando o
líder feminino apresenta maiores níveis de Consideração do que de Estruturação
(pessoas e tarefas, respectivamente). O que faz diferir os níveis de implicação
organizacional é a tendência do líder para ser mais orientado para as pessoas e
não o seu género.
A H6 confirma-se pois os participantes, quando questionados acerca de
determinados comportamentos do líder, respondem mais favoravelmente ao líder
masculino do que ao líder feminino. Aqui, verifica-se que as visões
estereotipadas existentes acerca dos comportamentos que se esperam e se aceitam
de um homem que é gestor e de uma mulher que é gestora, continuam a conceber as
posições de gestão mais como características do papel dos homens (Cunha et al.,
2003). Também Stelter (2002) referiu um estudo que aponta que os homens, quando
lideres em ambientes maioritariamente femininos, não demonstram tanto stress e
pressão como as mulheres.
O estudo aqui apresentado tem várias limitações que devem ser anotadas. A
natureza da organização e a génese do posto de liderança dos dois líderes podem
ser considerados factores que levam a que existam, neste estudo, tão poucas
hipóteses confirmadas. House e Aditya (1997, cit. por Stelter, 2002) referiram
que, além dos traços e capacidades de um líder, o tamanho da organização, o
ambiente, a estratégia, a tecnologia e a forma da organização são factores que
podem impor diferentes exigências aos líderes.
A dimensão da amostra, bem como as suas características demográficas (ex.:
sexo) constitui-se como uma limitação metodológica. Deve-se por isso
compreender as conclusões obtidas dentro de limites e numa perspectiva crítica
e exploratória. A amostra é reduzida pelo que tanto os resultados respeitantes
às características psicométricas dos instrumentos utilizados, como os
concernentes às hipóteses analisadas, devem ser lidos com precaução.
Em segundo lugar, a amostra consistiu de um ambiente maioritariamente feminino,
ou seja, os trabalhadores desta escola são maioritariamente mulheres. Já
outrora Kottis (1993, cit. por Mann, 1995) referira que a relação das mulheres
dentro de uma organização pode não ser pacífica, ou seja, uma mulher numa
posição mais elevada pode não querer ajudar as mais novas a avançar. Ao mesmo
tempo, estas podem nutrir sentimentos como a inveja por uma mulher que alcançou
o papel de líder.
Deve também ter-se em atenção que se trata de uma escola, em que a média de
anos de serviço ronda os 15 anos e em que a maioria dos sujeitos tem entre 50 e
54 anos, sendo que 10 deles têm mais de 30 anos de serviço. Tudo isto deixa
adivinhar uma forte ligação à organização (mais de metade dos trabalhadores
estão situados no nível 5, sendo o máximo 7).
Para a organização em estudo, o estudo pode ter diversos contributos. Primeiro,
nota-se que a amostra é bastante mais idosa do que aquilo que talvez se
desejasse de uma organização deste tipo. Seguidamente, nota-se que seria
favorável a admissão de mais trabalhadores do sexo masculino. Em relação aos
líderes, considera-se pertinente referir que a estabilidade e orientação para
as tarefas de um líder conjuntamente com a orientação para as pessoas de outro
líder, pode resultar numa liderança mais eficaz e, consequentemente, numa maior
satisfação dos trabalhadores e uma maior qualidade de serviços.
No futuro, haveria uma série de estudos interessantes a elaborar com base nas
ideias aqui apresentadas. Poderiam comparar-se dois líderes noutras situações
como em ambiente empresarial ou num ambiente mais formal. Um estudo elaborado
num ambiente maioritariamente masculino também seria interessante embora se
saiba que, no ambiente educativo, as mulheres estão em maioria. Assim, outro
ambiente dominado por homens e com um líder masculino e outro feminino, seria
um estudo interessante a ser conduzido. Também o estudo do comportamento de
indivíduos do sexo masculino em ambientes dominados pelo sexo feminino poderia
ser explorado.
A percentagem de mulheres em cargos de chefia continua a aumentar. Girion
(2001, cit. por Stelter, 2002) refere: em 2030, as mulheres irão ultrapassar
largamente os homens em papéis de liderança. Esta realidade próxima reforça a
necessidade de continuar a explorar o tema da liderança e género.
Em jeito de conclusão, realça-se a necessidade de compreender as diferenças
entre a liderança feminina e masculina, em termos dos desafios actualmente
apresentados pela sociedade. Apenas desta forma se poderão ultrapassar os
estereótipos adstritos a cada género, deste modo realçando as mais valias que,
em termos de liderança, homens ou mulheres conseguem trazer para as
organizações hodiernas.