A experiência de sem-abrigo como promotora de empoderamento psicológico
INTRODUÇÃO
O número de pessoas a viver em situação de sem-abrigo é cada vez maior, o que
parece fundamentar a preocupação, por parte das instituições e do próprio
estado, em compreender as causas e os factores que potenciam esta situação, bem
como promover estratégias adequadas para lidar com os sem-abrigo. Apesar da
preocupação crescente das instituições em solucionar o problema, este número
tende a aumentar mesmo nas sociedades com níveis de desenvolvimento
socioeconómico mais elevados. Ao longo das últimas décadas, o número de estudos
científicos sobre as pessoas sem-abrigo aumentou, e várias têm sido as
definições propostas para a caracterização das pessoas sem-abrigo (Roll, Toro,
& Ortola, 1999; Toro 2007). Neste sentido, de modo a caracterizar o
conceito de sem-abrigo um estudo realizado por Roll, Toro, e Ortola (1999) nos
EUA, classificou as pessoas sem-abrigo em três grupos diferentes: homens
solteiros, mulheres solteiras e mulheres solteiras com filhos. Os resultados
sugerem que os homens solteiros são os que menos mantêm contactos com os seus
familiares, bem como os que apresentam taxas de abuso de álcool e droga mais
elevadas. Por outro lado, as mulheres solteiras com crianças referem receber
mais assistência social do que os restantes, indicado que as políticas de
assistência norte-americana dão menos apoios as pessoas sem-abrigo solteiras,
sem filhos, e sem historial de consumo de álcool e drogas (Roll, Toro, &
Ortola, 1999). Além disso, a pesquisa parece revelar que os dois grupos de
mulheres sem-abrigo apresentam níveis mais elevados de depressão, ansiedade e
sintomas psicológicos de angústia e tristeza do que os homens solteiros sem-
abrigo (Roll, Toro, & Ortola, 1999). Similarmente, Toro, em 2007,
caracteriza as pessoas sem-abrigo em três subgrupos: pessoas sem-abrigo adultas
e solteiras, famílias sem-abrigo e jovens sem-abrigo. As famílias sem-abrigo
tendem a incluir uma mãe solteira com crianças menores que vivem na rua
normalmente pelos seguintes motivos: extrema pobreza, perda de determinados
benefícios sociais ou materiais, expulsão/despejo e violência doméstica. Os
jovens sem-abrigo distinguem-se dos adultos na mesma situação pela sua idade
(normalmente inferior a 21 anos) e das crianças sem-abrigo (que se encontram
com a família nesta situação) porque estão sem os familiares. Normalmente
caracterizam-se por serem fugitivos, porque abandonaram a casa sem autorização
dos pais, foram postos fora de casa pelos pais, ou então sempre viveram na rua
desde a infância (Toro, 2007).
Estes estudos (Roll, Toro, & Ortola, 1999; Toro, 2007) parecem sugerir a
existência de diferenças em termos de etiologia dos sem-abrigo, o que leva os
autores a considerar uma teoria baseada na vivência subjectiva da condição de
sem-abrigo. Esta teoria postula que as causas que levam à condição de sem-
abrigo são variáveis e multifactoriais e que a própria forma de vivenciar esta
experiência pode variar de sem-abrigo para sem-abrigo, o que vai de encontro
com algumas pesquisas recentes que consideram, na definição das causas para a
condição de sem-abrigo, a subjectividade inerente a esta experiência. Um
conjunto de estudos desenvolvidos essencialmente nos Estados Unidos e no Cánada
(Goering, Tolomiczenko, Sheldon, Boydell, & Wasylenki, 2002; Roll, Toro,
& Ortola, 1999; Toro, 2005, 2007) reforça esta teoria, ao sugerir que as
causas, para as pessoas viverem como sem-abrigo, tendem a ser variáveis e
potenciadas por diferentes e diversos factores, sugerindo uma complexidade das
interacções entre o sistema pessoal do sujeito e o contexto social, económico e
político no qual está inserido (Toro, Trickett, Wall, & Salem, 1991).
Contudo, apesar de algumas pesquisas recentes, a maioria dos autores continuam
a sugerir que as desordens psiquiátricas e o abuso de álcool e drogas são os
principais responsáveis pela situação de sem-abrigo (Gelberg & Linn, 1989;
Phelan & Bruce, 1999).
Em contexto europeu a a FEANTSA – Federação Europeia de Associações que
Trabalham com os Sem-Abrigotem vindo a desenvolver vários estudos nos últimos
anos, propondo que este termo se reporta não só às pessoas que se encontram a
viver em espaços púbicos e que como tal são obrigados a passar muitas horas do
seu dia num espaço público (sem-tecto), mas também a todos aqueles que vivem em
condições habitacionais precárias, que estão em risco de serem despejados, que
se encontram a viver em pensões, abrigos e albergues (FEANTSA, 2005). Esta
definição parece ir de encontro à terminologia utilizada pelos Estados Unidos
para caracterizar as pessoas sem-abrigo, pois inclui no grupo das pessoas sem-
abrigo não só àquelas que vivem na rua, mas também as que correm o risco de o
vir a fazer.
A FEANTSA ao definir sem-abrigo, refere também que este termo reporta-se àquela
pessoa que é incapaz de aceder e manter uma forma de viver adequada através dos
seus próprios meios, ou é incapaz de manter um modo de lidar com as
dificuldades mesmo com a ajuda dos serviços sociais (Philippot, Lecocq,
Sempoux, Nachtergael, & Galand, 2007). Ora, esta definição enfatiza a
vertente mais improdutiva das pessoas sem-abrigo, acentua os seus défices e
incapacidades e desvaloriza a influência e interacção de outros factores. A par
desta visão reducionista, por parte dos estudos realizados até então, as
próprias políticas interventivas das instituições que lidam com as pessoas sem-
abrigo são orientadas, na maior parte das vezes, por uma lógica de política de
urgência (Branco, 2004), que tende a definir como prioritário na sua
intervenção a satisfação das necessidades básicas (e.g., fome, sede)
desvalorizando que existem outras necessidades (e.g., qualificação e formação
profissional, promoção de sentido de autonomia e auto-eficácia) que quando
satisfeitas poderão por si mesmas facilitar a satisfação de necessidades
primárias. Esta visão limita a compreensão deste problema social e
consequentemente as próprias estratégias de intervenção que são definidas pelas
instituições/ associações que lidam com as pessoas sem-abrigo. Sugere-se então,
que as políticas de intervenção nas situações de sem-abrigo deveriam assentar
numa lógica de promoção do empoderamento e não numa lógica de assistencialismo.
O empoderamento
O empoderamento é o processo pelo qual os indivíduos ganham mestria ou controlo
sobre as suas vidas, autonomamente acedem aos recursos da comunidade e
participam democrática e activamente na vida da sua comunidade (Zimmerman,
1990a,b).
O empoderamento pode ser analisado consoante 3 níveis distintos de análise
(comunitário, organizacional e psicológico), que são influenciados e se
influenciam mutuamente. O empoderamento comunitário envolve todo o
comportamento colectivo desenvolvido no sentido de favorecer uma maior
qualidade de vida dos membros da comunidade. O empoderamento organizacional
refere-se à forma como as instituições e organizações das comunidades tendem a
proporcionar aos seus membros recursos e bens de qualidade e a promover uma
participação activa de todos os elementos nas tomadas de decisão e na definição
das políticas da organização. Por último importa descrever o empoderamento
psicológico que é o nível de análise individual considerado neste estudo,
apesar de se assumir que ambos os níveis são influenciados e influenciam-se
mutuamente. Este nível de análise remete para a percepção de controlo da vida,
para uma atitude pró-activa na vida e uma compreensão crítica do ambiente
sociopolítico (Zimmerman, 1995).
O nível de análise psicológico implica 3 componentes: uma componente
intrapessoal que inclui variáveis de personalidade (locus de controlo),
cognitivas (autoeficácia) e motivacionais; uma componente interaccional, que
integra a forma como as pessoas utilizam as suas competências para influenciar
os seus ambientes e aceder aos recursos; e uma componente comportamental, ou
seja, à acção de exercer controlo na participação activa das actividades das
suas comunidades (Zimmerman, 1995).
Ao considerar, o carácter dinâmico e variável do empoderamento (Zimmerman,
1995), e ao assumir que o indivíduo é capaz de desenvolver um sentido de
controlo e mestria na sua vida, aprender a utilizar competências para
influenciar os acontecimentos da vida, isto é, que o indivíduo é capaz de se
tornar empoderado mesmo nos ambientes que parecem menos favoráveis (Rappaport,
1981), sugere-se que viver numa condição de sem-abrigo pode contribuir para o
desenvolvimento do empoderamento psicológico. O presente estudo teve como
objectivo compreender o modo como a experiência de viver sem-abrigo pode
potenciar o empoderamento psicológico.
MÉTODO
De modo a aceder às percepções e vivências subjectivas das pessoas sem-abrigo,
desenvolveu-se um estudo de metodologia qualitativa.
Dentro da metodologia qualitativa, optou-se, por uma entrevista de episódio,
que assenta no pressuposto que as experiências dos sujeitos em determinado
momento são armazenadas e recordadas na forma de conhecimento semântico e de
narração de episódios (Flick, 2005). O objectivo foi aceder às experiências das
pessoas que passaram pela situação de sem-abrigo através da realização de
entrevistas. Depois de realizadas as entrevistas e da sua respectiva
transcrição estas foram alvo de um processo de análise de conteúdo. Optou-se
por uma análise de conteúdo segundo um processo de categorização, de modo a
aceder ao conteúdo semântico dos documentos analisados e representar de forma
simplificada os dados obtidos com as entrevistas (Bardin, 2004). Depois de
estarem definidas as unidades de registo, procedeu-se, a uma definição de
categorias e subcategorias, baseadas nos temas (palavras, frases, várias
frases, etc.). Esta definição de categorias baseou-se nos objectivos da
investigação e nas narrativas dos sujeitos.
Caracterização das pessoas sem-abrigo entrevistadas
Para a realização do estudo, foram entrevistadas 2 pessoas que se encontram a
viver nas ruas da cidade do Porto, outra pessoa que viveu como sem-abrigo
durante 4 meses e meio, mas que entretanto passou a viver numa pensão. Teve-se
o cuidado de seleccionar três pessoas que não apresentassem historial de abuso
de álcool e outras drogas uma vez que esta é uma variável relevante na
experiência de viver sem-abrigo, que não se pretendia contemplar no estudo.
Assim, o grupo foi constituído por três indivíduos do sexo masculino aos quais
se deu os seguintes nomes fictícios: João, António e Alberto.
João com 45 anos, encontra-se a viver na rua desde 2004. É natural do Alentejo
e veio para o Porto há poucos anos, por motivos de trabalho. Em termos
profissionais, desde os 20 anos que entrou no mundo da comunicação social e
sempre trabalhou nessa área, até o ano de 2004, data em que fica desempregado e
passa a viver na rua. Já a viver numa condição de sem-abrigo, começou a
organizar o Movimento de Apoio ao Sem-Abrigo (MASA), que consiste num movimento
constituído por pessoas que estiveram ou estão a viver na rua. Um dos primeiros
projectos deste movimento, organizado por um grupo de 6 pessoas sem-abrigo, é
apoiar um jovem casal sem-abrigo prestes a ter um filho. Neste sentido,
o MASA tem desenvolvido campanhas de recolha de bens e de dinheiro para
garantir a sobrevivência do casal e do filho até o casal encontrar emprego. Até
a data da realização deste estudo, o MASA tinha feito manifestações silenciosas
com vista a mostrar a indignação das pessoas sem-abrigo pela sua realidade e
conseguir apoios para implementar os projectos idealizados.
António tem 25 anos e encontra-se na rua há 6 meses, contudo já anteriormente
viveu na rua, durante dois anos: entre 12 aos 14 anos, altura em que a sua mãe
faleceu. Aos 14 anos foi viver para um internato, onde completou a escolaridade
obrigatória e posteriormente fez um curso profissional. António conta que
durante alguns anos trabalhou na área de hotelaria e restauração, contudo foi
despedido e como não podia pagar a renda da casa foi viver para a rua. Tal como
o João, também António faz parte do grupo de trabalho do MASA e acredita que
este movimento vai tirar muitas pessoas da rua.
Por último, foi entrevistado o Alberto que tem 52 anos e viveu nas ruas da
cidade do Porto durante 4 meses e meio, até Maio de 2007, altura em que passa a
frequentar um curso de Educação e Formação de Adultos (EFA) de Jardinagem e a
viver numa pensão paga pela Segurança Social. Refere que nunca teve dificuldade
em arranjar emprego até ao momento em que ficou desempregado em 2006. Nesta
altura, não teve outra alternativa senão viver na rua, pois apesar de ter
familiares a quem pedir ajuda, considera que estes não tinham qualquer
responsabilidade de o ajudar.
RESULTADOS
Os resultados derivam de uma análise de conteúdo aos documentos consequentes da
transcrição integral das entrevistas realizadas. Seguidamente, descreve-se
algumas das categorias e subcategorias e incluem-se fragmentos de transcrições
que possam exemplificar e clarificar os resultados obtidos em termos das
variáveis de empoderamento.
Categoria: Experiência de viver sem-abrigo
Esta categoria divide-se em dois subcategorias, sendo que a primeira é relativa
aos aspectos positivos e negativos resultantes da vivência da experiência de
sem-abrigo e segunda que diz respeito à percepção das pessoas sem-abrigo sobre
as instituições.
Subcategoria: Aspectos positivos e negativos da experiência de viver sem-abrigo
Todas as pessoas sem-abrigo entrevistadas apontam espontaneamente alguns
aspectos positivos e negativos desta experiência, o que parece sugerir que a
própria experiência de viver sem-abrigo pode ser encarada como positiva ou
negativa dependendo dos significados atribuídos pela pessoa sem-abrigo.
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Aspectos_positivos:
João “A nossa liberdade é tal que não temos regras, ninguém nos
chateia, os patrões não nos enchem a cabeça. Nós voamos para onde queremos.”
António “Aprendi que temos que nos ajudar uns aos outros, encarar as
pessoas que estão na rua de outra forma, e sempre que vir alguém a tratar mal
os sem-abrigo intervirei...”
Alberto “Aprendi a lutar pelos meus objectivos, independentemente de
arranjar emprego agora, vou acabar o curso. A minha meta é acabar o curso,
depois logo vejo o que consigo”.
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Aspectos_negativos:
João “O mais negativo é as pessoas, nós somos roubados: não temos nada
mas roubam-nos o nada que nós temos”.
António “O que gosto menos é que é muito difícil encarar o resto da
população...”
Alberto “Esta experiência tem um aspecto negativo: pela situação em que
cheguei.”
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Subcategoria: Percepção das instituições
A seguinte subcategoria seguinte pretende aceder à visão acerca das
instituições que lidam com os sem-abrigo, por parte das pessoas entrevistas.
Apenas o discurso de João revela a presença de uma percepção crítica elevada
acerca do modo de funcionamento das instituições que lidam com os sem-abrigo.
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Percepção_das_instituições:
João “Eu não tenho medo de dizer que as instituições não funcionam:
uma X...; uma Y..., etc., essas associações fantasmas, que exploram os sem-
abrigo, roubam-nos. Sabe, que por exemplo a X recebe um subsídio para cada sem-
abrigo. Mas diga-me qual será o futuro de uma pessoa que entra para a
associação e que trabalha gratuitamente para a associação. Acha que algum dia
sairá da associação? Nunca sai, só se fugir de lá. Conheço muitas pessoas que
saem da instituição muito piores do que entraram. São muito exploradas, estas
situações têm que ser desmacaradas, temos a nossa formação, nós somos pessoas,
podemos estar frágeis, mas pensamos, estamos vivos, temos que exigir o nosso
respeito!”
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Categoria: Resultados empoderados
A categoria resultados empoderadospretende retratar o modo como a experiência
de viver sem-abrigo pode promover o empoderamento psicológico. Foi subdividida
em 4 subcategorias que pretendem representar índices de empoderamento.
Subcategoria: Percepção de competência e de controlo da própria vida
A subcategoria percepção de competência e de controlo da própria vidarefere-se
ao modo como os indivíduos se sentem auto-eficazes e revelam uma percepção de
controlo da sua própria vida. As três pessoas sem-abrigo entrevistadas
demonstram uma percepção de controlo nas diversas situações, essencialmente no
que diz respeito a deixar ou continuar a viver como sem abrigo.
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Percepção_de_competência_e_controlo_da_própria_vida:
João “Mas não eu agora não quero sair de cá. Enquanto eu não cumprir
esta missão eu não saio. (...) mas por maior qualidade de vida que eu venha a
ter, nunca vou deixar os sem-abrigo, com acções, com movimentos... eu sinto que
faço cá falta!”
António “Eu tenho força de vontade... sei que um dia vou deixar de ser sem-
abrigo.”
Alberto “Eu consegui sair da rua porque também quis sair.”
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Subcategoria: Competências de resolução de problemas
Esta subcategoria pretende descrever o modo como os sujeitos resolvem problemas
com os quais se deparam (ou depararam) durante a fase em que viveram como sem-
abrigo. João refere que teve que aprender a lidar com tudo de novo e nascer
para outro mundo. António apresenta uma situação em que refere que foi capaz de
resolver determinado conflito interpessoal. Por último, Alberto explica uma
situação em que foi trabalhar para Espanha, numa situação muito precária,
acrescentado ter conseguido arranjar um modo de se vir embora (o que se
considera revelador da sua capacidade de resolução de problemas). O MASA
(Movimento de Apoio ao Sem-Abrigo) surge como uma tentativa de delinear,
estruturar e implementar estratégias no sentido de resolver os problemas dos
sem-abrigo.
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Competências_de_Resolução_de_Problemas:
João “(...) Não é fácil, leva um tempo para se integrar neste mundo.
Aprendi a passar fome, a vestir roupa que não era minha, a viver sem dinheiro.”
“O MASA vai arranjar um programa que achamos viável, para retirar as pessoas da
rua.”
António “Há dias houve um conflito entre o João e outro rapaz e eu
aconselhei esse rapaz a sair daquele local, para não haver chatices. Nós
estamos num sítio em que todos nós temos que contribuir para manter a limpeza
daquilo, e ele era daqueles que não queria nada, que só trazia lixo para o
local.”
Alberto Entretanto vim-me embora. Disse que precisava de vir cá, durante
alguns dias (era Páscoa), para fazer contas... deram-me 120 euros, e disseram
que depois davam-me o resto... até hoje! Porque eu depois também não voltei,
claro, já era esse o objectivo. E consegui... quando cheguei ao Porto, fiquei
na rua, quer dizer nos primeiros 5 dias, como tinha dinheiro fui para uma
pensão. Depois fui para a rua... eu já sabia que ia fica na rua, só que pronto
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Subcategoria: Capacidade de aceder aos recursos existentes
A subcategoria aceder aos recursospretende mostrar como é que as pessoas sem-
abrigo entrevistadas acedem aos recursos da sociedade. António e Alberto fazem
referência à segurança social e aos serviços prestados por esta entidade às
pessoas em situação de sem-abrigo. Os três homens entrevistados, descrevem
situações em que revelam capacidade de aceder aos recursos e oportunidades
facultadas pela sociedade.
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Capacidade_de_aceder_aos_recursos:
João “É uma dificuldade enorme pedir ajuda; chegar a uma carrinha e
pedir uma sandes: cabeça baixa, vergonha. Tive que ultrapassar estas
dificuldades. Não sabia por exemplo que havia instituições como a Cruz Vermelha
Portuguesa que davam roupa, não sabia”
António “Todas as segundas-feiras vou ao centro de emprego”.
Alberto “(...) Portanto, fui à segurança social, e consegui um quarto.”
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Subcategoria: Crítica ao meio social
Esta subcategoria remete para o modo como as pessoas entrevistadas se
posicionam criticamente face ao meio social e político em que estão inseridos.
Pode-se verificar presente esta categoria essencialmente no discurso de João,
que apresenta argumentos concretos, para justificar a sua posição face ao modo
de actuação das instituições.
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Crítica_à_sociedade_e_ao_meio_envolvente:
João “Conheço alguns canis no país, e os cães são melhor tratados do
que nós. É preciso pagar: 30 cêntimos para tomar banho sem toalha; 1.16 euros
para tomar banho; e 0.16 cêntimos para utilizar a sanita (...) A exclusão
social começa nas autarquias, eles é que deviam olhar para este problema.”
António “(...) É isso que eu acho, às vezes, essas pessoas para manter
esses vícios roubam todos os outros, não olham a meios. Não acho isso bem!”
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DISCUSSÃO
Tendo em conta os resultados obtidos, considera-se que este estudo vem
acrescentar algumas dimensões, pouco consideradas até então nos estudos
realizados com pessoas sem-abrigo, nomeadamente uma maior compreensão do
significado da experiência de viver enquanto sem-abrigo e o modo como esta
experiência pode transformar o sujeito implicado nela. Parece que as
experiências enquanto sem-abrigo são vivenciadas pelas pessoas entrevistadas
como uma oportunidade para se desenvolverem e aumentarem a percepção de
controlo sobre a própria vida. Como se pode verificar através dos resultados,
todos os sujeitos entrevistados parecem considerar que o facto de viverem na
rua, ou de terem estado, contribuiu para o desenvolvimento de determinadas
competências, que não seriam desenvolvidas caso não estivessem numa condição de
sem-abrigo. Assim, apesar da experiência de viver sem-abrigo ser vista como uma
situação em que os indivíduos se sentem injustiçados e discriminados pela
sociedade, é também encarada como positiva e potenciadora do desenvolvimento de
determinados competências. No sentido destas conclusões refira-se um estudo
realizado com mulheres sem-abrigo que concluiu que as pessoas que passaram pela
experiência de viver como sem-abrigo percepcionam aqueles momentos como muito
difíceis, mas como um factor que contribuiu para o desenvolvimento de uma
percepção de si mais positiva (Boydell, Goering, & Morrell-Bellai, 2000).
Assim, estes resultados parecem sugerir que o indivíduo pode fortalecer-se e
tornar-se mais resiliente perante acontecimentos destabilizadores e aumentar os
seus níveis de empoderamento psicológico. No que diz respeito ao modo como os
sujeitos percepcionam o sentido de competência pessoal, parece encontrar-se
outros sinais de empoderamento psicológico. Refira-se o caso de António e
Alberto que consideram que o acto de sair da rua depende sobretudo da motivação
para o fazer, o que parece sugerir um sentido de controlo dos acontecimentos
exteriores.
Por outro lado, verifica-se que as pessoas a viver como sem-abrigo que foram
entrevistadas aludem a uma necessidade de aprender a lidar com situações novas
para as quais não estavam anteriormente preparadas, o que parece ir de encontro
ao pressuposto de que as pessoas sem-abrigo para sobreviverem nesta situação e
contexto têm de desenvolver uma série de competências de resolução de
problemas. Segundo Silva (2007), nas sociedades desenvolvidas as pessoas não
aprendem a viver na rua quando nascem e da mesma forma os espaços públicos e
exteriores não foram concebidos para alojar pessoas, o que sugere que quem
passa por uma situação do género tem, inevitavelmente, de passar por um
processo de aprendizagem e de desenvolvimento de novas competências o que pode
implicar incremento do sentido de empoderamento. Directamente relacionado com a
capacidade de resolução de problemas encontra-se a capacidade de aceder aos
recursos existentes na sociedade na qual estão inseridos. Neste estudo, as
pessoas entrevistadas aludem aos serviços e referem-se à capacidade de
adaptação que sentiram perante a necessidade de pedir roupa e comida nas
carrinhas de apoio às pessoas sem-abrigo. Esta capacidade de adaptação sugere
empoderamento psicológico, no sentido em que revela capacidade de mobilização e
acesso aos recursos existentes no meio e contexto no qual o sujeito está
inserido (Zimmerman, 1995). Além disso, em João parece ser evidente (mais do
que em António e Alberto) uma grande capacidade de crítica, quer positiva quer
negativa, relativamente às instituições e ao meio sociopolítico, o que remete
para a dimensão interaccional do empoderamento psicológico.
Considerando a construção e implementação de um Movimento de Apoio ao Sem-
Abrigo (MASA), por parte das próprias pessoas sem-abrigo, uma capacidade no
desenvolvimento de soluções e estratégias para a resolução de problemas o MASA
sugere um nível elevado de empoderamento psicológico (Zimmerman, 1995) por
parte de João e António. Pois, pode-se considerar que as pessoas sem-abrigo
entrevistadas estão a lutar para compreender e para agir nos contextos,
participando activamente nas decisões da comunidade na qual estão inseridos.
Por outro lado, parece então que o conhecimento sobre determinada realidade
pode resultar de pessoas que não os profissionais, e uma compreensão mais
profunda de uma realidade deve advir da percepção daqueles que nela vivem. Este
facto, parece ser uma limitação das instituições que trabalham com as pessoas
sem-abrigo e do próprio governo que parece, em alguns países, não ter nenhum
plano para lidar com os sem-abrigo (Toro & Warren, 1991). As instituições
que lidam com as pessoas sem-abrigo, deveriam envolvê-las na elaboração de
projectos no sentido de resolução dos seus próprios problemas (Toro &
Warren, 1991). O MASA parece ter este ideal subjacente, pois quem elaborou este
projecto de intervenção foram as próprias pessoas sem-abrigo, sem o apoio de
profissionais ou das instituições. Vários projectos nos Estados Unidos, revelam
que a colaboração das pessoas sem-abrigo na elaboração de alternativas para os
seus problemas tende a favorecer o seu empoderamento psicológico e uma
resolução mais eficaz da condição de sem-abrigo (Toro & Warren, 1991).
Tendo em conta os resultados, pode-se então concluir que viver como sem-abrigo
não implica que estas pessoas revelem apenas défices e incapacidades, podendo
as pessoas sem-abrigo revelarem sinais de empoderamento psicológico (Hopson
& Scally, 1981).
Apesar das conclusões evidentes, este estudo apresenta algumas limitações do
ponto de vista do tamanho e representatividade do grupo de pessoas
entrevistadas, pois sendo um grupo muito específico, não consumidor de álcool e
outras drogas, e pequeno que manifesta características e percursos de vida não
representativos de todos os grupos de pessoas sem-abrigo. Não obstante,
pretende-se com este estudo que se passe a considerar as próprias pessoas sem-
abrigo na definição de estratégias de resolução dos seus problemas, assim como
em qualquer intervenção comunitária, pois se o alvo de intervenção se
considerar parte envolvente do projecto, a eficácia deste certamente será
maior, tornando as pessoas mais empoderadas. O MASA tem este ideal subjacente e
poderia ser o princípio de uma solução para os problemas das pessoas sem-
abrigo. Para tal é necessário que profissionais, instituições e Estado procurem
compreender a leitura desta experiência, do ponto de vista de quem a viveu e
alicerçar as suas políticas intervencionistas nos pressupostos da intervenção
comunitária, fazendo dos próprios alvos de intervenção, agentes activos na
elaboração do projecto de intervenção (Montero, 2004).