Psicologia Comunitária Positiva: Um exemplo de integração paradigmática com
populações de pobreza
NOVOS DISCURSOS PSICOLÓGICOS
The word which we most often use to talk about the quality without a name is
the word “alive”. There is a sense in which the distinction between something
alive and something lifeless is much more general, and far more profound, that
the distinction between living things and nonliving things, or between life and
death. Things which are living may be lifeless; nonliving things may be
alive...
Christopher Alexander, “The Timeless Way of Building”
O objectivo deste artigo é examinar como o recente modelo da psicologia
positiva (Seligman & Csikszentmhihalyi, 2000) pode entrecruzar-se elegante
e eficazmente com o paradigma da psicologia comunitária, no sentido de
potenciar ambos: levar a uma psicologia positiva aplicada, que veja mais longe
do que o intra-individual, e se dedique abertamente ao estudo e intervenção
junto das comunidades e instituições, mobilizando-se assim para ser parte
activa e útil nas mudanças sociais e no restabelecimento da justiça social;
caminhar para uma psicologia de comunitária que vá cada vez mais para além do
modelo científico de resolução de problemas e da identificação de necessidades
das pessoas, grupos e comunidades (Levine, Perkins, & Perkins, 2005), e
concretize verdadeiramente o seu desígnio dos últimos anos: avançar de uma
perspectiva de défice para uma centrada nas forças, agenciamento e
empowermentdas populações, em busca da libertação e do bem-estar colectivo
(Nelson & Prilleltensky, 2005). Pretende-se, por conseguinte, que sejam
modelos ou teorias verdadeiramente “vivos” (Cronen, 1995) propulsionadores de
desenvolvimento comunitário, e suportados em narrativas, não sobre sofrimento
ou necessidades, mas sobre “territórios de dádiva e de vida” (Hoffman &
Kinman, 2008).
Citando Martín-Baró, num posicionamento tido já em 1986, uma psicologia da
libertação deverá, entre outros aspectos, estar menos preocupada com o seu
estatuto social e científico, e mais preocupada com os problemas das pessoas em
necessidade; ser uma psicologia mais consciente das virtudes e forças das
pessoas na busca da mudança; e ser uma nova forma de conceber a libertação como
um processo histórico e colectivo (Martín-Baró, 1989). Associada à
significativa e intensa palavra “libertação”, que nos transporta de volta a
Paulo Freire (2008), Montero (2005), ao reflectir sobre o futuro da psicologia
comunitária, sublinha o desígnio de caminhar para o bem-estar das populações –
tema especialmente caro à psicologia positiva, ainda que até ao momento
sobretudo perspectivado num entendimento subjectivo e intra-individual (Diener
& Biswas-Diener, 2008; Huppert, Baylis, & Keverne, 2006).
Ambos estes subdomínios da psicologia têm vindo recentemente a pretender mudar
a atenção conferida às variáveis psicológicas, para dar apreço a dinâmicas
económicas, sociais, políticas e contextuais, assim introduzindo novos
discursos científicos na relação com a vida social (Layard, 2005). Se
considerarmos que a ideologia dominante se manifesta na linguagem (Meyer,
2001), podemos reconhecer que as mudanças valorativas são visíveis e a
ideologia pode estar a transformar-se: a entrada duma linguagem positiva e
emancipatória das populações, reforçadora de uma adjectivação esperançada e de
auto-eficácia e auto-determinação é, cada vez mais, um sinal do caminho feito
pelas ciências sociais e humanas no sentido de uma investigação justa e
transformadora.
Se a sociedade se preocupa hoje com os valores que levaram a um caos económico,
que dizer do impacto dos valores que subjazem à ciência? Em muitas instâncias,
os valores colectivos como a justiça social, a solidariedade, a gratidão, a
generosidade... recebem uma atenção mínima. Se a ciência psicológica os
descarta, preferindo antes estudar a depressão, a ansiedade, o crime, a
violência ou o medo, acabamos com uma maior visibilidade destes últimos em
detrimento dos anteriores e, em consonância, com uma visão denegrida da
humanidade em geral. Nas populações consideradas marginais, como as que vivem
em pobreza, este fenómeno ganha ainda mais e doloroso impacto (Lott, 2002;
Moreira, 2003; Neto, 1996).
Por detrás da ciência estão sempre posições morais. Por detrás destas, estão
sempre diferentes práticas. De acordo com Kekes (1993, cit. in Nelson &
Prilleltensky, 2005), valores são “benefícios causados pela humanidade que os
seres humanos dedicam uns aos outros... Como forma de ilustração, poderemos
dizer que o amor e a justiça são bens morais” (p. 44). Ao investigar e intervir
na comunidade com uma perspectiva transformadora, e ao escolher o centro de
gravidade da intervenção e dos estudos empíricos, podemos fazer aumentar ou
diminuir os bens morais.
Neste particular, o paradigma da psicologia positiva veio expandir algo que era
terreno próprio da psicologia comunitária: uma acepção clara de valores e o
reconhecimento da impossibilidade de uma ciência neutra. Quando hoje, contra
ventos e marés, dentro do mainstreamconservador da psicologia (Seligman,
comunicação pessoal, 2009), se critica a abordagem da psicologia positiva,
reconhece-se ainda assim a sua relevância só ao falar dela, e reforça-se a
ideia de que é inevitável tomar posições em ciência. Quando a psicologia
positiva se dedica ao estudo da felicidade, ou do que faz a vida merecer ser
vivida (Csikszentmhihalyi & Csikszentmhihalyi, 2006) está a ser sensível
aos valores e a posicionar-se numa dança dialéctica entre o bem e o mal, o belo
e o feio, o saudável e o doente, o justo e o injusto... criando condições para
uma prática reflectida (Freire, 2008; Freire & Horton, 2002).
Enquanto investigadores, tomamos posições claras quando respondemos às
questões: “O que decido estudar– a patologia de uma população ou indivíduo, ou
as condições da excelência das pessoas e das comunidades?”; “Quem decido
conhecer com o meu estudo– os estudantes universitários, tão acessíveis aos
investigadores académicos, e tão bem posicionados em termos de poder social, ou
as populações marginalizadas, sem voz e sem qualquer tipo de soberania?”; “Que
perguntas faço: sobre o que dá vida, mesmo nas piores circunstâncias, a alguma
pessoa ou grupo, ou sobre as causas da fragilidade ou da patologia desses
mesmos alvos?”; “Como decido questionar– dando voz directa aos intervenientes,
ou quantificando e transformando os ‘sujeitos’ de investigação em números, de
forma distanciada e desumanizada?”; “Como intervenho: para além da falsa
distinção entre descritivo e prescritivo, escolho melhorar (aumentando o bem-
estar, numa posição centrada no “perito”) ou escolho transformar (promovendo o
bem-estar ao mesmo tempo que mudo as relações de poder, eliminando a opressão,
em verdadeira colaboração e solidariedade) (to “ameliorate” or “transform”, tal
como diferenciam Prilleltensky & Nelson, 1997)?” (Marujo & Neto, 2008).
As psicologias positiva e comunitária, em paralelo com outros modelos não
deficitários de intervenção dentro dos sistemas humanos (Cooperrider, 2004; De
Shazer, 1991; 1994), podem ser considerados movimentos críticos e corajosos em
relação ao status quoda psicologia, intentando um horizonte de representação da
mudança e dos seres humanos baseado nas forças e no positivo, e na reflexão
sobre mudanças de segunda-ordem – que mais do que criar alterações dentro do
sistema, procuram transformar o sistema e os seus pressupostos (Rappaport,
1977). Como resultado, estes dois braços da psicologia têm vindo a convidar,
implícita ou explicitamente, a uma transformação nos valores dos
investigadores, na sua ética e na sua responsabilidade social. Têm aberto as
possibilidades e as escolhas sobre novos tópicos de conversa, inquirição e
acção.
Recentemente, Mihaly Csikszentmhihalyi (2006, p. 5), um dos fundadores da
psicologia positiva, afirmava:
“A perspectiva da psicologia positiva está direccionada para ser correctiva
quer, por um lado, do posicionamento de neutralidade valorativa das abordagens
experimentais quer, por outro, das visões orientadas exclusivamente para a
patologia que permearam muita da psicologia clínica”. Estas influências
históricas, culturais e morais estão a impactar com intensidade a psicologia,
permitindo-nos entrar em novos tipos de diálogo com os proponentes das teorias,
dos métodos e das práticas interventivas (Marujo, Neto, Caetano, & Rivero,
2007; Oishi, 2007; Snyder & Lopez, 2007).
A atenção aos oprimidos e a luta pela inclusão, integração, libertação e
reequilíbrio na distribuição de poder (Machado, 1984) tem sido uma das mais
fascinantes bandeiras da psicologia comunitária (Levine, Perkins, &
Perkins, 2005). Ser psicólogo, enquanto identidade pessoal e profissional
(Nelson & Prilleltensky, 2005), pode significar – significa frequentemente
– fazer parte dos detentores de poder, pelo que estes novos discursos propõem a
possibilidade de libertar os profissionais de paternalismos tradicionalmente
utilizados através da observação, classificação, diagnóstico, definição e
imposição de propostas de mudança, levandoos assim a pôr fim a uma actuação com
base em práticas de hegemonia e opressão (Cobb, 1993; Gergen, Hoffman, &
Anderson, 1996). Ao trabalhar com populações desfavorecidas e marginais ao
poder, ainda é mais urgente tomar consciência do tipo de práticas implementadas
e de teorias subjacentes, pelo ainda maior risco de criação de dependências e
menorização das populações, as quais assumem, por regra, por expectativas
antecipadas de apoio, e por óbvia resposta ao sistema que estimula dependências
e fragilidades, a posição de vítimas.
Nesta mudança de valores, linguagem e posicionamento moral dos cientistas,
académicos e práticos, o actual reenquadramento das vítimas – de qualquer tipo
de situação – como sobreviventes, foi um dos muitos sinais da mudança recente
no discurso e da transformação em termos dos valores. Veja-se a propósito a
aplicação desta mudança linguística nas situações de violência doméstica
(Teles, 2008). Como desenvolveremos em seguida, temos vindo a propor avançar
ainda mais, e intervir numa perspectiva narrativa de “Supervivência” –
entendida como o reconhecimento das extraordinárias forças e virtudes inerentes
a viver numa posição social, económica, cultural, entendida como deficitária e
marginal. O segmento da população que vive em situações socialmente injustas, e
que é ainda muitas vezes rotulado como desonesto ou aproveitador do sistema
(que o oprime) – tal como acontece com as populações beneficiárias do
Rendimento Social de Inserção – merece um entendimento e um olhar de admiração
e apreço, por conseguir, tantas vezes, mais do que sobreviver, ser inspirador
de uma extraordinária e heróica capacidade de Supervivência. É preciso celebrar
cada acto de heroísmo, por mais banal (Cronen & Lang, 1995; Zimbardo,
2007).
O PROJECTO V.I.P. – VALORES, INFLUÊNCIAS E PROJECTOS
Blake saw that if your myth-created ideology was hierarchical, you couldn’t
function outside that hierarchy.
Northrup Frye
A antítese do valor da igualdade está bem patente no conceito VIP – sinónimo
das pessoas realmente importantes, que têm privilégios especiais, no fundo os
que já têm tanto e, por isso, merecem ainda mais. Foi esta a ideia inspiradora
do título do programa desenvolvido, com o apoio do Instituto de Acção Social –
Rendimento Social de Inserção – da Região Autónoma dos Açores, em conjunção com
Câmaras Municipais (Ribeira Grande) e Santas Casas da Misericórdia da mesma
região. A concepção de que todos somos e – merecemos ser – VIP (Very Important
Person), juntou-se aos três pilares que pretendíamos desenvolver com este
projecto de Psicologia Positiva Comunitária: os Valores (dos profissionais,
investigadores e académicos envolvidos, e das populações a viver em pobreza),
as Influências (positivas, recebidas e transformadas por cada um, quer fosse
profissional, quer beneficiário do RSI), e os Projectos (numa concepção clara
de uma psicologia e de uma intervenção avessa ao olhar determinista sobre o
passado, e que tem, isso sim, os olhos postos no futuro, portanto idealizando,
e colectivamente sonhando, outras possibilidades) (Marujo & Neto, 2008).
Estas linhas estruturais suportaram acções conjuntas práticas, sempre feitas em
formato de comunidade e em conversa dinâmica – fossem elas uma intervenção num
bairro de realojamento para optimizar a qualidade das relações e o surgimento
de soluções conjuntas num momento de crise e conflito entre os moradores, ou
acções junto de grupos de mulheres domésticas sem outro projecto de vida que
não a maternidade, ou intervenções junto de grupos de jovens para quem era
relevante potenciar a estabilidade no projecto escolar através de acções pela
arte ou da consciência e protecção ambiental da maravilhosa ilha de S. Miguel.
O projecto iniciou-se com o repensar do papel dos profissionais no terreno,
para que actuassem de forma verdadeiramente colaborativa e apreciativa, através
da expansão de narrativas, possibilidades emocionais e escolhas comunicacionais
e comportamentais dos próprios. A conscientização proposta por Paulo Freire
(2008) fazia igualmente sentido na perspectiva do reconhecimento dos valores e
influências vividos pelos profissionais, e na forma como se sentiam libertos ou
presos a modelos psicológicos e valorativos deterministas, classificadores e
patologizadores das populações. A reflexão inicial sobre o tipo de linguagem
utilizada para falar com e sobre as populações com as quais trabalhavam, levou
a um reconhecimento de um papel de opressores e de definidores autoritários da
mudança. Mesmo nos momentos em que deveria haver “negociação”, inerentes ao
recebimento do RSI, o que os profissionais verificaram sob as suas práticas foi
a sua (até aí pouco consciente) imposição de metas de mudança às famílias,
metas tantas vezes não percebidas ou não reconhecidas como relevantes por
aqueles que as deviam concretizar. Conceitos como “resistência”, “família
desestruturada”, “agressivo” ou “alcoólico” foram escrutinados pelos próprios
que os utilizavam, avaliando o impacto em si mesmos, naqueles a quem se
referiam, bem como na relação mútua estabelecida. As próprias populações
puderam partilhar as suas narrativas sobre as palavras que costumavam ouvir
sobre si, vindas dos profissionais, e trabalhou-se o conceito de discurso, não
como mero descritor da experiência, mas como ponto de partida para a construção
da realidade (Gergen, 2001, 2004; Gergen & Gergen, 2005). Desenvolveram-se
conversas em grupo sobre o poder da linguagem e o nosso próprio poder na sua
escolha – quer envolvendo profissionais, quer a população beneficiária de RSI.
Abriram-se perspectivas sobre a liberdade de escolha na linguagem usada e
experimentaram-se formas diferentes de descrever ou nomear pessoas e fenómenos.
Trabalharam-se as palavras que queríamos usar, as que queríamos ouvir, as que
nos orgulhavam e as que nos desvalorizavam; as que nos marcavam positivamente e
as que nos feriam; as que nos davam desânimo ou esperança; as de passado e as
relativas ao futuro. Introduziu-se nessa altura o modelo do Inquérito
Apreciativo (Coopperider, 2004; Cooperrider & Whitney, 2005; Whitney &
Cooperrider, 2000), e a importância e poder das perguntas colocadas.
Deixam-se exemplos de interacções apreciativas transformadoras ao nível do acto
de fala (Pearce, 1994) utilizadas no projecto, quer das destinadas aos
profissionais, quer à população alvo de intervenção: “Qual o momento em que se
sentiu mais vivo, realizado, feliz, no trabalho com estas populações?”; “Qual o
momento em que se sentiu mais orgulhoso e entusiasmado por fazer parte desta
comunidade?”; “O que tem posto de melhor de si neste trabalho?”; “O que mais
admira em si como mãe/pai/ser humano?”; “Quem vê de fora a sua família, que
pontos altos e forças identifica? O que mais os une e os faz felizes?”; “Se
encontrasse a lâmpada do Aladino, quais os 3 desejos que pedia para o futuro do
trabalho com esta comunidade?”; “Se encontrasse essa lâmpada, quais os desejos
que pedia para a sua família/comunidade onde vive?”). Estas questões, todas
elas baseadas no modelo de David Cooperrider (2004), foram ponto de partida
para novas conversas, sempre que possível em contexto de grupo, comunidade,
vizinhança. Começando com entrevistas dois a dois, como o modelo do Inquérito
Apreciativo prevê, passou-se depois nalgumas das comunidades e grupos a
momentos usando o World Cafe(Brown & Isaacs, 2005), e mantendo o
questionamento apreciativo como forma de identificar o melhor do passado e
caminhar conjuntamente para os sonhos de futuro. Nesta metodologia, os
intervenientes – no caso, as populações de pobreza, os responsáveis pelas áreas
da saúde, educação, formação profissional, os coordenadores de serviços do
Instituto de Acção Social, os profissionais no terreno, professores,
jornalistas... – reuniram-se em redor de múltiplas mesas, como em esplanada,
sendo que cada mesa tinha um tema ou questão positiva e materiais que
permitissem expressões múltiplas, e o uso do hemisfério direito e do esquerdo
(toalhas de papel, canetas e lápis de muitas cores para desenhar ou escrever, e
sempre comida e bebida). A dinâmica activa da metodologia, que implica viagens
entre mesas e o máximo de “polinização” de pessoas e ideias, permite um modelo
de conversas transformadoras, entre pessoas de diferentes posições sociais que
assim trabalham ao mesmo nível de poder, num formato de “rizoma” e não de
verticalidade na intervenção (Hoffman & Kinman, 2008). Daqui partiram
ideias de futuro a trabalhar em conjunto, com responsabilidades partilhadas na
concretização das mudanças desejadas por todos.
A relevância da forma de colocar questões – também já abordada por Paulo
Freire, que no seu livro de 1985 com Faundez nos fala em “Aprender a
Questionar”, serve a concepção de que as conversas são transformadoras e,
quando positivas e centradas no futuro, permitem uma “consciência iluminada” –
porque “iluminista” – das forças e virtudes individuais e sociais, e um maior
poder sobre a forma de moldar o destino e transformar a realidade.
A fase seguinte do projecto foi manter vivas as conversas em comunidade,
aumentar – no sentido de densificar – as relações e as redes sociais, e fazê-lo
numa perspectiva apreciativa e mobilizadora de emoções positivas (falar do
melhor, dos sonhos, das excepções aos problemas, comer junto com outras
pessoas, ter conversas significativas e com resultados práticos, rir em
conjunto, re-experimentar emoções positivas já vividas em momentos altos e bons
da vida – alegria, entusiasmo, orgulho numa meta atingida...) aumenta a
esperança e o optimismo sobre o futuro (Fredrikson, 2006, 2009). Um clima de
optimismo ecológico (Ornelas, 2007) mantém acordada a confiança na capacidade
de cada um em transformar a sua vida.
A mudança de expectativa – por exemplo, de passar de estar à espera do pior, na
pessoa dos profissionais, antecipando a reprodução intergeracional da pobreza,
para passar a ver e falar das forças e histórias de sucesso já vividas e,
portanto, dos avanços já conseguidos por todos – é um factor essencial para
conseguir mobilizar a esperança. Assim se aumenta a probabilidade, junto de
psicólogos, assistentes sociais, animadores comunitários..., de renegar
construções hegemónicas de destino e inevitabilidade sobre as populações
desfavorecidas (Montero, 2005). O mesmo acontece nas próprias populações
oprimidas, que através desta intervenção se descobrem com uma força muitas
vezes nunca anteriormente reconhecida (Marujo & Neto, 2007).
A par de muitas outras acções criativas e comunitárias, que acompanharam este
processo de modificação da linguagem, acções essas, sempre que possível,
construídas conjuntamente com as populações, e de acordo com as suas metas
sonhadas e com base nas suas maiores competências, potencialidades, virtudes e
recursos, o projecto VIP, que vai no seu 6º ano e está ainda em implementação,
invoca a liberdade para converter aceitação silenciosa e descontentamento
triste com a vida numa vocalização, não apenas dolorosa, como defendia Freire
(2008), mas sobretudo fortalecida, apreciativa e mobilizadora. Daí que, através
do projecto, profissionais e comunidade tenham vindo a trabalhar
intencionalmente juntos em formas de aumentar as emoções positivas nas suas
vidas, em rir mais, em treinar um discurso colectivo apreciativo e esperançado,
rico em palavras “gordas de boas emoções”, numa perspectiva e linguagem de
“dádiva” e descoberta das forças que os mobilizam contra a adversidade e os
fortalecem. Continuar a questionar “quais são as dádivas e potencialidades que
esta pessoa pode trazer para a comunidade”? “Quais as dádivas e potencialidades
que a comunidade pode dar a esta pessoa?” ou “Como superar os impedimentos que
nos limitam nestas dádivas?” (Hoffman, 2009; Kinman, 2001) ajuda a comunidade a
ultrapassar melhor os exigentes desafios das suas existências. Nunca negando ou
esquecendo o negativo, cuida-se que a proporção do que se partilha de bom sobre
a vida seja sempre triplamente mais elevada que o que se narra sobre o
sofrimento, para que esta comunidade possa florescer (Fredrickson & Losada,
2005).
O impacto destas escolhas metodológicas em termos de saúde física e mental está
comprovado (Fredrickson, 2006, 2009) e esse fortalecimento beneficiará uma
população já de si enfraquecida em termos de saúde e com menos longevidade que
os menos oprimidos socialmente ou que partilham posições de poder social
superior (Marujo & Neto, 2008).
A avaliação da eficácia do programa está entretanto a realizar-se mantendo o
mesmo tipo de ideologia e metodologia positiva, nomeadamente através do uso do
Inquérito Apreciativo (Coghlan, Preskill, Tzavaras, & Catsambas, 2003). Os
resultados vão no sentido esperado de empowermentdas populações e capacitação
para auto-eficácia na construção do destino pessoal e colectivo (Marujo &
Neto, 2008).
Um estudo qualitativo, dando voz a 1200 famílias beneficiárias do RSI e
representativo da população de todas as ilhas do arquipélago, permitiu preparar
um documento – “Álbuns de família: de viva voz” (Marujo & Neto, 2007) – que
pretendeu manter vivas as conversas transformadoras em comunidade, partindo das
respostas das famílias e daí construindo uma poolde questões positivas e
centradas nas soluções eficazes para a vida. A partir desta lista de possíveis
questões tem-se tentado manter as comunidades participativas e os diálogos
generativos, por forma a dar continuidade a uma verdadeira libertação
esperançada face à vida da comunidade e ao seu desenvolvimento.
CONCLUSÕES E DESCOBERTAS
Why no colour? Even in those darkest corners, there is never a purity of the
degenerate. Beauty is always right before the eyes, glaring at us. What effort,
what discipline we all must make to ensure that this beauty is not
acknowledged. Open those blinded eyes... for there is no true effort in looking
for it, those gifts of life are everywhere around us.
Chris Kinman
Este projecto faz sentido dentro da concepção de que as formas de vida são
criadas, recriadas e mantidas pela comunicação, e que é nela que as identidades
são socialmente construídas (Cronen, 1995). Assim, a descoberta mais profunda
que temos vindo a fazer é a do poder extraordinário da linguagem para
transformar e para propulsionar o desenvolvimento comunitário. Em consonância,
o maior desafio é o de como colocar as questões que realmente libertam, fazem
sentido e promovem bem-estar em cada comunidade, caminhando em simultâneo para
uma ciência social que se defina em termos de “capacidade geradora”, isto é,
capacidade para orientar os pressupostos da cultura, colocar as questões
fundamentais relativas à vida social actual, e fornecer novas e inovadoras
alternativas para uma intervenção social que gere vida, suporte as
potencialidades da existência e estimule uma revolução positiva em torno de
conversas e mudanças significativas (Gergen, 1982, 1991; Ludema, Cooperrider,
& Barrett, 2001).
Naturalmente que toda a intervenção comunitária é feita de paradoxos,
inevitáveis e até desejáveis para um avanço crítico da ciência e da prática. No
programa aqui brevemente descrito, e mais detalhado noutra publicação (Marujo
& Neto, 2008), sentimos naturalmente esses desafios, que levam a todos os
intervenientes a continuar ainda mais as conversas e levantar ainda mais e
novas questões. Um dos desafios colocados implica o reconhecimento de que
desenvolver o bem-estar pode ser considerado recomendável (Huppert, Baylis,
& Keverne, 2006) mas, como refere Etzioni (2001), pode também ser
facilmente distorcido numa orientação de apoio social e serviço com as
características tradicionais, orientação essa mais baseada numa perspectiva de
caridade do que de justiça social (Montero, 2005). Manter-nos alerta para este
risco, sobretudo potenciando os factores que mostram ser facilitadores de
intervenções realmente justas, participadas e colaborativas, é um dos
horizontes da continuação do projecto. Ainda, evitar impor modelos definidos à
priorie exteriores sobre bem-estar ou felicidade, mas sim ajudar cada
comunidade a descobrir qual é o seu, ou os seus, é uma das orientações do
trabalho dos profissionais.
É regra deste projecto que todas as práticas e actividades desenvolvidas sejam
feitas de igual forma por todos os participantes, seja qual for a posição de
poder ou função no grupo. A humanização e aproximação que advém desta igualdade
coloca-nos a todos numa posição mais equilibrada para fazer convites mútuos a
mudanças – as mudanças que todos construímos e desejamos – e para conseguir
balancear a manutenção de uma perspectiva crítica com uma perspectiva
apreciativa (Ludema, Cooperrider, & Barrett, 2001), mantendo a capacidade
de resolver problemas ao mesmo tempo que todos nos tornamos em especialistas em
soluções, excepções e sucessos. Assim, acreditamos ter uma “ciência mais
humana” (Polkinghome, 1983) e conseguir, como dizia Harry Aponte (1994, p. 11,
cit. in Smith, 2005), “servir, nunca colonizar”.