Modelo lógico de um programa de intervenção comunitária - GerAcções
A intervenção comunitária destina-se a trabalhar em colaboração e parceria com
as comunidades para abordar as preocupações locais ou esperanças de melhoria
(Trickett, 2009). Este tipo de intervenção pode ser definida como sendo as
influências planificadas na vida de um pequeno grupo, organização ou
comunidade, com o objectivo de prevenir/reduzir a desorganização social ou
pessoal e promover o bem-estar da comunidade (Kelly, Snowden, & Munoz,
1977). A intervenção comunitária tem como objectivo específico provocar uma
mudança na comunidade. No campo da intervenção comunitária, realça-se a criação
dos recursos comunitários com as acções concretizadas pela própria comunidade
com maior ou menor índice de apoio externo, partindo-se do princípio que as
comunidades possuem os potenciais recursos para gerarem o seu próprio
desenvolvimento.
Fairweather, Sanders, Cresslar, e Maynard (1974) apresentam um conjunto de
etapas que serão importantes para a descrição do processo de intervenção
comunitária: (1) caracterizar a comunidade onde se vai intervir, assim como
identificar e caracterizar o grupo ou grupo social que possam participar nesta
intervenção; (2) determinar o grau de concordância entre os interesses
expressos pelo programa e os interesses da própria comunidade; (3) identificar
as fontes actuais e potenciais de conflito entre grupos com influência, tendo
em conta que as mudanças provocadas pelas dinâmicas se alteram; (4) organizar
as estruturas ou espaços de encontro, onde os elementos da comunidade se
encontram para debater as actividades propostas pelo programa de intervenção,
de modo a que possa produzir efeitos nas decisões a nível local, governamental;
(5) envolver os membros da comunidade na planificação e execução do programa de
acção e na clarificação dos limites do programa comunitário; e (6) definir os
objectivos, estabelecendo as prioridades, e seleccionando os métodos e tipos de
intervenção.
Ainda, Trickett (2009) destaca a importância da compreensão do contexto da
comunidade como prelúdio para a intervenção comunitária. Essa ênfase vai
incentivar um reconhecimento de que as comunidades não são, muitas vezes,
culturalmente homogéneas, que alguns costumes locais podem ser considerados
prejudiciais ou em oposição aos valores da intervenção, e que forças em
diferentes níveis ecológicas e segmentos do contexto da comunidade podem estar
em conflito e mesmo em oposição sobre a forma de lidar com questões locais.
Ao nível da intervenção comunitária e no que diz respeito à elaboração de
programas, existem predominantemente duas abordagens diferentes, a “top-down” e
a “bottom-up”. Cada uma delas tem características muito diferentes e distintas
uma da outra. De acordo com Laverack e Labonte (2000), os programas top-
downseguem um ciclo pré-determinado, que se apoia na responsabilidade
individual, seguindo uma orientação com enfoque no deficit e na solução de
problemas versus os programas bottom-up, que se apoiam no empowerment, seguindo
uma orientação com enfoque capacidade e na melhoria de competências. Esta
última abordagem, é aquela que mais se adequa aos programas de intervenção
comunitária, uma vez que se procura apoiar a comunidade na identificação de
questões que são importantes e relevantes para suas vidas, e permitir-lhes
desenvolver estratégias para a resolução dessas questões.
MODELO LÓGICO
Os modelos lógicos são uma maneira concisa de mostrar como um programa é
concebido e planeado, pois numa folha de papel, resumem-se os principais
elementos de um programa. Os modelos lógicos fazem a articulação entre os
resultados do programa (a curto, médio e longo prazo), com actividades, outputs
e inputs (ou recursos) e também podem incluir a teoria e os pressupostos
subjacentes ao programa (NOAA, 2004).
Os modelos lógicos têm inúmeros usos e benefícios. Assim, de acordo com Watson
(2000), um modelo lógico pode ser utilizado para: (1) Planeamento Estratégico e
Desenvolvimento de um Programa – este processo fará com que se identifique a
visão do programa, os princípios subjacentes ao programa, assim como o
funcionamento do programa; (2) Comunicações eficazes – o modelo lógico permite
que se forneça uma imagem rápida do programa e os resultados desejados aos
investidores, à equipa de trabalho, aos políticos, aos meios de comunicação
social, ou a outros colegas; (3) Planeamento da Avaliação – um modelo lógico
fornece uma estrutura de base para uma avaliação, ao identificar os resultados
esperados baseados no design do programa e coloca esses resultados de um modo
mensurável; (4) Aprendizagem e Melhoria Contínua – o modelo lógico fornece um
ponto de referência, através do qual os progressos alcançados na obtenção dos
resultados desejados podem ser medidos, de uma forma contínua.
Não existe uma maneira certa de construir um modelo lógico. Na literatura
existem muitas abordagens e o modelo lógico pode assumir muitas formas. De
acordo com Frechtling (2002), um modelo típico utiliza apenas quatro categorias
– inputs, actividades, resultados a curto-prazo e resultados a longo prazo. Uma
vez que neste modelo, nos parece que não se abordam alguns elementos críticos
de um programa de intervenção comunitária, não existe detalhe suficiente, nem
fornecem evidência sobre a eficácia do programa, apresentamos de seguida uma
outra abordagem.
Um modelo lógico pode ter, na nossa perspectiva, dez componentes do programa
que estão ligados por setas direccionais. Estes componentes são: (1) Missão,
(2) Recursos, (3) Objectivos Gerais e Específicos, (4) Actividades, (5)
Cronograma, (6) Resultados, (7) Indicadores, (8) Medidas, (9) Sustentabilidade,
e (10) Avaliação.
A Missão é uma “grande figura” ou o impacto final desejado para o programa.
Esta pode ser difícil ou até mesmo impossível de medir ou quantificar (NOAA,
2004) e a razão porque é difícil ou impossível de medi-la é porque ela não é
específica. Pergunte a si mesmo “Qual é a minha perspectiva de longo prazo ou
meta para crianças, adultos ou famílias da minha comunidade, ou para a minha
comunidade como um todo?” (Watson, 2000). Elabore a resposta em uma ou duas
frases e utilize essa declaração como Missão do programa.
Os Recursos do programa incluem os recursos humanos, financeiros,
organizacionais e os recursos da comunidade que um programa tem à disposição
(W. K. Kellogg Foundation, 2001).
Os Objectivos Gerais pretendem descrever os impactos ou resultados do programa
nos participantes e/ou na questão “Como é que irão mudar? Como será que a
situação actual, no que diz respeito a esta questão, irá mudar?” (NOAA, 2004).
Os Objectivos Específicos, também segundo o mesmo autor, descrevem o impacto
específico do programa, não podendo ser vagos e necessitando de produzir acções
observáveis.
As Actividades dependem do foco do programa e estas são os serviços ou as
intervenções que o programa usa para implementar as estratégias. Pergunte a si
mesmo “No dia-a-dia, o que é que a equipa da minha organização faz? Quais os
serviços que nós fornecemos?” (Watson, 2000). Possíveis actividades incluem o
desenvolvimento de currículos ou materiais, desenvolvimento das infra-
estruturas, realização de investigações, supervisão ou divulgação pública.
O Cronograma tem em consideração o período total de tempo em que se espera que
o programa decorra. De acordo com esse período temporal, as actividades podem
ser calendarizadas, programadas e executadas, de um modo coerente e articulado.
Os Resultados podem ser definidos como o elemento mensurável do programa. Os
resultados são mudanças específicas nos participantes do programa, como
comportamento, conhecimentos, competências, estatuto e nível de funcionamento
(W. K. Kellogg Foundation, 2001). Este componente do modelo lógico irá forçá-lo
não só a identificar quais os resultados do programa, mas também como os vai
medir. Pergunte a si mesmo “No trabalho que o meu programa faz, o que é que nós
esperamos afectar directamente? Que resultados é que estamos dispostos a
alcançar, através da nossa responsabilidade directa? O que se pode atingir
realisticamente?” (Watson, 2000).
Os Indicadores são elementos mensuráveis dos resultados desejados que reflectem
mudanças substanciais nas pessoas, políticas ou sistemas em toda a comunidade.
Considere estas perguntas sugeridas por Watson (2000) quando escolher os seus
indicadores “O indicador é relevante, ele permite-lhe conhecer o resultado
esperado? O indicador é definido e os dados são recolhidos da mesma forma ao
longo do tempo? Os dados estão disponíveis? Será que o indicador vai fornecer
informações suficientes sobre a condição ou resultado para convencer tanto os
patrocinadores como os cépticos? O indicador é quantitativo?”.
As Medidas são as fontes dos dados necessários para monitorizar os indicadores
e daí os resultados. Pergunte a si mesmo “Agora que eu identifiquei as medidas,
como vou obter os dados necessários, da forma mais eficiente em termos de
recursos?” (Watson, 2000).
A Sustentabilidade do programa pode-se definir como o processo de garantir um
sistema adaptativo de prevenção e uma inovação sustentável que pode ser
integrado em operações em curso, para beneficiar as diversas partes
interessadas (Johnson, Hays, Center, & Daley, 2004). A sustentabilidade
pode incluir, assim, o reforçar e/ou manter das estruturas formais e vínculos,
dos papéis e acções de liderança, dos recursos, das políticas e dos
procedimentos, ou ainda a especialização, todos eles para sustentar a inovação.
Por fim, a Avaliação que de acordo com Frechtling (2002) é um processo dinâmico
que pode ser útil para desenvolver, modificar ou redesenhar projectos;
acompanhar ou monitorizar a implementação dos componentes de um programa aos
participantes; e analisar os resultados alcançados.
Os modelos lógicos não são rígidos nos seus elementos. Estes, de um modo geral,
são fluxogramas que apresentam uma sequência de passos lógicos na implementação
do programa e na obtenção dos resultados desejados (Cooksy, Gill, & Kelly,
2001). Além desta flexibilidade, onde não existe apenas um modelo correcto e
onde as componentes podem variar, o modelo lógico também não é algo estático,
onde a reformulação contínua faz parte do próprio processo de desenvolvimento e
de avaliação do programa de intervenção.
PROGRAMA GerAcções
A Junta de Freguesia de Santa Maria de Belém, no âmbito do pelouro da Acção
Social em colaboração com o Instituto Superior de Psicologia Aplicada (ISPA),
pelo Departamento de Formação Permanente, deu início em Março de 2006 a um
programa denominado “GerAcções” que pretende gerar acções para, com e entre as
diferentes gerações (do infantil ao sénior) da freguesia, na perspectiva de
promover um maior desenvolvimento individual e comunitário visando uma
comunidade potencialmente saudável. Este programa surgiu da necessidade de
envolver todos os fregueses, independentemente da idade, do género, do estrato
social, da raça ou etnia, da orientação religiosa, sexual ou político-
partidária, ou desvantagem física ou psíquica. Esta intervenção tem uma
abordagem bottom-upe tem como princípio actuar de acordo com as
potencialidades, necessidades e os interesses da população, afim de promover
qualidade de vida e bem-estar através da adopção de estilos de vida saudáveis.
A metodologia implementada no projecto, atende à perspectiva ecológica
(Bronfenbrenner, 1979) na intervenção comunitária, ou seja, que a comunidade é
constituída por um conjunto de sistemas ecológicos, tais como: os próprios, as
relações directas que estes estabelecem com a família, os amigos, a escola, o
bairro (microssistemas), a relação entre os diferentes microssistemas
(mesossistemas), as relações não directas que se estabelecem (mesossistemas) e
as crenças, valores e cultura que influenciam o indivíduo e não influenciados
por este (macrossistema). Ainda a relação temporal (cronossistema) tende ser
considerada numa intervenção comunitária. Neste sentido, as estratégias
delineadas baseiam-se nos seguintes princípios: o bem-estar individual, que
depende de múltiplos componentes, ligados à condição física, mental e
espiritual, e à forma como o indivíduo se relaciona com o ambiente (Moser,
2003); o sentimento de comunidade, que está associado ao sentimento de pertença
e de identificação com a comunidade em que se integram (McMillan & Chavis,
1986); a justiça social, que se prende com a distribuição justa e com equidade
dos recursos, oportunidades, obrigações e poder de negociação, numa sociedade
como um todo (Prilleltensky, 1999, citado por Dalton, Elias, & Wandersman,
2001); a participação dos cidadãos, a qual leva a que os indivíduos mantenham
os seus papéis sociais no decurso da vida (Pedlar, Dupuis, & Gilbert,
1996); a colaboração e força da comunidade, cuja atitude de cooperação
constitui uma das formas mais importantes de interacção positiva (Johnson &
Johnson, 1992); o respeito pela diversidade humana que por sua vez envolve a
aceitação genuína de diversas pessoas e grupos, como iguais (Dalton, Elias,
& Wandersman, 2001); e a fundamentação empírica, com suma importância por
permitir prover um conhecimento prévio, embora generalizado e hipoteticamente
não aplicável ao contexto em causa mas, cujas elações permitem identificar e
compreender as problemáticas e construir respostas adequadas.
O GerAcções optou pelo desenvolvimento e desenho de um modelo lógico do
programa como uma forma de planeamento estratégico, afim de identificar os
principais pressupostos teóricos do programa no âmbito do desenvolvimento
comunitário. Estes foram (i) o empowerment– que corresponde ao processo e
consequências de esforços para exercer controlo e influência sobre decisões que
afectam a nossa vida, o funcionamento organizacional e a qualidade de vida
comunitária (Zimmerman, 1998), tomarem decisões, agirem assertivamente e desta
forma, promoverem o seu próprio desenvolvimento e o desenvolvimento da sua
comunidade; (ii) o sentimento de comunidade – que consiste no sentimento de
identificação e de pertença a uma comunidade (Obst, Smith & Zinkiewicz,
2002), em que domina o compromisso do grupo em satisfazer as necessidades dos
seus membros, sendo que, o espírito comunitário criado é resultante e
proporcional ao grau de interacção e aos laços gerados (McMillan & Chavis,
1986); e (iii) as coligações comunitárias – que assumem especial importância
pela sua influência positiva ao nível do desenvolvimento comunitário, estas
remetem para a criação de uma relação colaborativa que implique uma atitude de
cooperação, enquanto forma de interacção pautada por uma interdependência
positiva dos membros da comunidade entre si, individualmente ou de forma
organizada, com os técnicos de intervenção comunitária (Johnson & Johnson,
1992), e em que ambas as partes contribuam para o estabelecimento de objectivos
e para o processo de tomada de decisão (Kelly, 1986), identificação e
desenvolvimento de recursos perspectivando a sustentabilidade das intervenções.
MODELO LÓGICO DO GerAcções
Os componentes do modelo lógico do GerAcções são: (1) Missão do programa –
envolver as pessoas que moram ou trabalham na Freguesia de Santa Maria de Belém
(Lisboa), como os membros-chave na promoção dos seus interesses e na resolução
dos seus problemas, afim de construir uma comunidade saudável; (2) Recursos –
parcerias, coligações comunitárias e patrocinadores; (3) Objectivos do programa
– que se dividem em Objectivos Gerais: envolvimento de crianças e jovens,
famílias e seniores no seu próprio processo de desenvolvimento, bem como o
envolvimento da comunidade e parceiros da rede social para uma intervenção
integrada no processo de construção de uma comunidade saudável; e Objectivos
Específicos – o empowermentcomunitário, a promoção da saúde e prevenção da
violência, o bem-estar e qualidade de vida; (4) Actividades – Conselho
Consultivo, a intervenção nas escolas, Roteiro de espaços lúdicos, Centro Jovem
e Centro Sénior, Formação Parental, Comissão Social de Freguesia, Dia Europeu
dos Vizinhos, Publicações; (5) Cronograma – desde Março de 2006 até Fevereiro
de 2010; (6) Resultados – maior conhecimento em relação aos comportamentos
positivos para a saúde, o aumento das competências pessoais e sociais para as
crianças e os jovens, os pais aumentarem seus conhecimentos e competências de
comunicação positiva, aumentar a participação comunitária, estabelecimento de
redes de suporte formais e informais; (7) Indicadores – número de
participantes, conhecimentos e competências alcançados, mudança de atitudes e
de condições; (8) Medidas – quantitativa como inquéritos e aplicação de
escalas, e qualitativas como grupos de discussão e entrevistas; (9)
Sustentabilidade; e (10) Avaliação.
FIGURA_1
Modelo lógico do programa GerAcções
Missão
O Missão do GerAcções foi delineado após a realização de um Diagnóstico à
Freguesia de Santa Maria de Belém. Este obteve como fontes de informação, os
próprios Fregueses, os autarcas, profissionais e intervenções e estudos prévios
na Freguesia. Assim, como resposta às necessidades e potencialidades da
comunidade, o GerAcções surge com a Missão de envolver todos os fregueses de
Santa Maria de Belém (Lisboa), como os actores na promoção dos seus interesses
e na resolução dos seus problemas, afim de construir uma comunidade cada vez
mais saudável (Carvalhosa, Domingos, & Sequeira, 2007). Foi a partir desta
ideia que se construiu e desenvolveu todo o programa.
Recursos
Nesta Freguesia, os recursos disponíveis são muito diversificados, desde
instituições públicas a privadas, que funcionam na Freguesia ou que atendem a
população da Freguesia, de áreas da saúde à educação, da justiça à acção social
e ao lazer. Deste modo, e de acordo com a missão do GerAcções, algumas
parceiras e coligações comunitárias foram sendo desenvolvidas. Das coligações
comunitárias, salientamos a Comissão Social de Freguesia. Destacamos as
principais entidades com que se estabeleceram parcerias, a Escola EB1 do Bairro
do Restelo (ex-63), a Escola EB2, 3 de Paula Vicente, a Escola Secundária
Marquês de Pombal, as Associações de Pais das escolas referidas, o Hospital S.
Francisco Xavier, a Comissão de Protecção de Crianças e Jovens de Lisboa
Ocidental, a Cruz Vermelha Portuguesa (Delegação Regional de Lisboa), a Polícia
de Segurança Pública – Esquadra de Belém, a Escola de Actores, o Corpo Nacional
de Escutas, através do Agrupamento 80 de Belém, o Centro Paroquial de Santa
Maria de Belém, o Centro Cultural de Belém, as corporações de Bombeiros (Campo
de Ourique e Linda-a-Pastora), o Museu da Electricidade, o Museu do Regimento
de Sapadores, o Espaço Aprender a Brincar, as Piscinas Municipais do Restelo, o
Colégio “As Descobertas”, a Casa Pia de Lisboa, o Centro de Ténis de Monsanto,
as colectividades da Freguesia (Sport Bom Sucesso, Clube Sportivo de Pedrouços,
Belém Clube, Academia Dramática Familiar, Sociedade Musical de Instrução
Libertada, Associação Regional de Vela do Centro), a Associação Nacional contra
a Osteoporose, a Associação de Apoio aos Doentes Depressivos e Bipolares, a
Escola Superior de Tecnologia da Saúde e o serviço de Alcoologia do Instituto
da Droga e da Toxicodependência.
Ao nível dos patrocinadores, seja em acções ou projectos pontuais ou aqueles
que possibilitaram a execução do GerAcções, acentuamos a importância da Câmara
Municipal de Lisboa, através do Intervir, do Envelhecimento Saudável e do
Praia-Campo, o Instituto Português da Juventude, através dos Programas de
Ocupação dos Tempos Livres e a própria Junta de Freguesia de Santa Maria de
Belém.
Objectivos gerais e específicos
Os Objectivos Gerais estabelecidos pelo GerAcções com a comunidade, são quatro,
divididos pela população-alvo da Freguesia: (1) o envolvimento das crianças e
jovens no seu próprio processo de desenvolvimento, (2) o envolvimento famílias
no seu próprio processo de desenvolvimento, (3) o envolvimento dos seniores no
seu próprio processo de desenvolvimento, e (4) o envolvimento da comunidade e
parceiros da rede social para uma intervenção integrada no processo de
construção de uma comunidade saudável.
Estes Objectivos, que constituem a linha orientadora do programa GerAcções,
passam pela construção de comunidades saudáveis, onde se exige uma mudança
tanto a nível dos comportamentos de um vasto conjunto de indivíduos, mas também
a mudança das condições ou factores sociais que afectam a saúde e o
desenvolvimento comunitário.
De modo a especificar os objectivos já descritos, o GerAcções propõe-se a, para
cada objectivo geral, promover o impacto do programa ao nível (i) do
empowermentcomunitário, (ii) da promoção da saúde e da prevenção da violência,
e (iii) do bem-estar e da qualidade de vida. O empowermentcomunitário é o
processo que assegura que os membros da comunidade têm a oportunidade e a
capacidade para partilhar, dar a conhecer e usar as suas perspectivas,
individual e/ou colectivamente, no processo de tomada de decisão, em situações
que afectam as suas vidas e por conseguinte a comunidade (Vince, Page, &
Duffy, 2008). A qualidade de vida é um dos requisitos importantes para a
construção de comunidades saudáveis. Na ideia de qualidade de vida está
implícito a criação de hábitos de vida saudáveis, como: o bem-estar físico,
psicológico, emocional e mental, mas também a relação com a família, os amigos,
o emprego ou com outras circunstâncias da vida, estando estreitamente associada
à percepção dos indivíduos sobre a sua posição na vida, ao seu enquadramento
cultural e às próprias expectativas e preocupações (Vido & Fernandes,
2007). Deste modo, a qualidade de vida associa saúde e bem-estar. O
empowermentcomunitário, ao ser reconhecido como um processo que possibilita aos
indivíduos tomar o controlo do seu próprio ambiente, físico, psicológico,
económico, social e/ou cultural (Fetterman & Wandersman, 2004), revela-se
fundamental no que respeita à qualidade de vida, especificamente, ao nível da
promoção da saúde, mediante a informação e capacitação dos indivíduos para
tomar decisões conscientes ao nível dos comportamentos de risco e/ou
protectores, e também da equidade na saúde, estando relacionado com as
oportunidades reais dos indivíduos no acesso à saúde, ao nível do conhecimento
e do poder de influência/controlo dos factores determinantes da sua saúde
(Becker, Edmundo, Nunes, Bonatto, & Souza, 2004). De igual modo, o
empowermentcomunitário assume um papel relevante no campo da prevenção da
violência. A violência, definida pela Organização Mundial de Saúde (2002) como
o uso intencional da força ou poder numa forma de ameaça ou efectivamente,
contra si mesmo, outra pessoa ou grupo ou comunidade, que ocasiona ou tem
grandes probabilidades de ocasionar lesão, morte, dano psíquico, alterações do
desenvolvimento e privações, tem ameaçado o desenvolvimento dos povos e
afectado a qualidade de vida erosionando o tecido social. Tendo em conta que a
violência se enraíza nos fundamentos das relações sociais, o
empowermentenquanto processo interaccional que contribui para a promoção de
relações sociais positivas (Maria, 2008) constitui um dos princípios de
intervenção comunitária com impacto positivo na prevenção da violência.
Actividades
As Actividades do GerAcções são muito diversas e incluem vários projectos. O
Conselho Consultivo pretende ser o ponto de ligação com a comunidade, de modo a
que se estabeleçam os objectivos, as actividades e os resultados com a
comunidade e não simplesmente para a comunidade. Procura-se que este grupo seja
uma peça-chave no GerAcções ao informar, alertar, sugerir e discutir sobre os
interesses e as necessidades da própria comunidade, englobando os fregueses de
várias faixas etárias, ou seja, dos jovens aos seniores, ao longo de todo o
decorrer do programa GerAcções.
A intervenção nas escolas surgiu da necessidade expressa pelos directores de
turma, pelos encarregados de educação e/ou pelos psicólogos das várias escolas
da Freguesia. Este projecto prende-se com a promoção de competências pessoais e
sociais e com a promoção de comportamentos de saúde, procurando envolver os
alunos, os professores, a família e toda a comunidade. Este projecto acompanha
os anos lectivos e o calendário escolar, variando assim as suas estratégias de
intervenção, de ano para ano.
O roteiro de espaços lúdicos é uma ferramenta criada afim de proporcionar a
todas as crianças e jovens e às respectivas famílias, melhores condições e mais
informações para brincar, jogar ou estar, ao ar livre, nos espaços de lazer da
Freguesia.
No Centro Jovem incluem-se todas as actividades para as crianças e os jovens da
Freguesia, que são realizadas por períodos temporais diferentes e algumas
apenas sazonalmente. As actividades do Centro Jovem são o Praia-Belém-Jovem que
procura dar resposta à ocupação de tempo de férias; as Salas de Estudo que
procura não só ser um espaço onde se possa ter recursos para estudar (como por
exemplo, computador com acesso à internet), mas também a dinamização desse
espaço ser feita por outros jovens; o Skate On Belém que pretende aumentar a
adesão e a participação dos jovens e aumentar os comportamentos de saúde,
através da reestruturação do Skate Parque de Pedrouços, da criação de uma
escola de skate que fomente a educação entre pares e da dinamização de eventos
ligados à prática da modalidade; e a Campanha de Prevenção do Alcoolismo
Juvenil que tem o propósito de sensibilizar os jovens para as problemáticas
associadas ao consumo excessivo de álcool, através da dinamização de sessões de
sensibilização e da promoção de um percurso interactivo alusivo à problemática.
Por seu lado, no Centro Sénior desenvolvem-se diversas actividades sugeridas e
desenvolvidas pelos pelos seniores da Freguesia. As actividades do Centro
Sénior incluem as Campanhas da Saúde onde se pretende mensalmente informar,
formar, alertar, prevenir e consciencializar a população de Belém sobre
comportamentos e estilos de vida saudáveis; o Grupo de Folclore e Etnográfico
que procura reconstruir a história da Freguesia e divulgar as tradições locais;
e, o Grupo de Teatro que elabora as peças de teatro, os cenários e o guarda-
roupa, tendo ensaios semanalmente. Além destas actividades ainda é promovido
pelo Centro Sénior um conjunto de actividades pontuais como visitas a
exposições ou outros eventos, a participação em workshops e a comemoração do
Dia Internacional do Idoso.
No projecto da Formação Parental desenvolve-se a realização de sessões de
sensibilização sobre temáticas pertinentes para os pais e encarregados de
educação, assim como a dinamização de alguns espaços ou eventos das escolas, em
conjunto com as Associações de Pais.
O GerAcções está integrado na Comissão Social de Freguesia, onde se procura a
união de forças e o rentabilizar de recursos, trabalhando em conjunto com todas
as instituições, entidades públicas e privadas sem fins lucrativos, que
trabalham na Freguesia ou que dão resposta às situações da Freguesia, para
delinear respostas adequadas, afim de responder às necessidades das pessoas da
Freguesia.
A comemoração do Dia Europeu dos Vizinhos procura promover relações de
vizinhança e o contacto entre os moradores de um determinado lugar (prédio,
rua, bairro). O GerAcções incentiva a comunidade na realização desta
celebração.
As actividades incluem ainda as Publicações, assim o GerAcções contribui para o
Boletim da Junta de Freguesia com a publicação mensal de notícias referentes à
divulgação de actividades a dinamizar ou já dinamizadas. Também foi elaborada
uma publicação, que se disponibilizou a toda a comunidade intitulada
“GerAcções: Intervenção Comunitária em Santa Maria de Belém”. Ainda se procura
divulgar o GerAcções em Seminários ou Congressos, tendo já apresentado várias
comunicações orais e posters em eventos científicos nacionais e internacionais.
Cronograma
O programa teve início em Março de 2006, após um conjunto de diligências
efectuadas entre a Junta de Freguesia de Santa Maria de Belém e o ISPA. No
primeiro ano do programa, procurou-se aprofundar o diagnóstico da Freguesia,
estabelecer ligação com alguns elementos-chave da comunidade e desenvolver as
acções que davam resposta às questões prioritárias. No segundo ano do programa,
deu-se continuidade às acções avaliadas como positivas e necessárias e
desenvolveram-se esforços no sentido de alargar a rede do GerAcções. No
terceiro ano do programa, algumas das acções e das estratégias de intervenção
foram reformuladas, após uma avaliação da implementação do programa e neste
quarto ano, além da continuidade, procura-se até Fevereiro de 2010, avaliar o
impacto do GerAcções.
Resultados
Os Resultados desejados pelo GerAcções baseiam-se nos objectivos delineados e
nas actividades desenvolvidas. Assim espera-se que, em toda a comunidade
envolvida, haja um maior conhecimento em relação aos comportamentos positivos
para a saúde, se verifique o aumento das competências pessoais e sociais das
crianças e dos jovens, que os pais aumentem os seus conhecimentos e
competências de comunicação positiva, que aumente a participação comunitária ao
longo de todo o programa e, ainda, que se estabeleçam redes de suporte formais
e informais em toda a Freguesia.
Indicadores
Os Indicadores para os resultados apresentados foram construídos de modo a
possibilitar a avaliação do programa GerAcções. Estes incluem o número de
participantes em cada uma das actividades realizadas, os conhecimentos e as
competências alcançadas pelos participantes e a mudança de atitudes e de
condições de e em toda a comunidade.
Medidas
De modo a recolher toda a informação necessária, foram elaboradas diferentes
tipos de medidas, de acordo com os indicadores. As medidas são tanto
quantitativas como qualitativas. As medidas quantitativas incluem inquéritos e
aplicação de escalas. As medidas qualitativas incluem os grupos de discussão
(focus group) e entrevistas.
Sustentabilidade
A Sustentabilidade do programa inclui a manutenção das estruturas formais como
é o caso de alguns projectos. Dos projectos sustentáveis destacamos as
Campanhas da Saúde, a Campanha de Prevenção do Alcoolismo Juvenil, o Serviço de
Mobilidade dos Fregueses, o Grupo de Teatro, a intervenção ao nível da promoção
de competências sociais na Escola, a dinamização da Biblioteca Escolar, as
Actividades de Verão, o Roteiro dos Espaços Lúdicos, a comemoração do Dia
Europeu dos Vizinhos, a Comissão Social de Freguesia, o Centro Jovem e o Centro
Sénior. Mas a sustentabilidade do programa GerAcções não passa só pela
manutenção das estruturas formais, mas também pela capacitação de alguns
fregueses para assumir, assegurar e mobilizar outros pares em diversas acções,
enquanto líderes e, ainda, uma mudança no que diz respeito aos recursos
disponíveis para a comunidade e à forma como as políticas e as acções são
implementadas.
Avaliação
A avaliação do GerAcções tem um objectivo e tem sido realizada desde o início
do programa e acompanha o seu desenvolvimento de um modo contínuo, de modo que
as informações fornecidas são usadas para facilitar a decisão do rumo das
acções. O tipo de avaliação tem, assim, quanto ao uso, uma componente
formativa, uma vez que de acordo com Frechtling (2002) a componente formativa
avalia continuadamente as actividades para melhorar o programa. O tipo de
avaliação tem, também quanto ao foco, uma componente no processo, que avalia a
forma como se implementam as actividades e uma componente nos resultados, que
avalia a quantidade de serviços que se oferecem (Frechtling, 2002).
Nesta fase do programa GerAcções, torna-se muito pertinente providenciar
informação relevante sobre o valor e a importância do programa através de
investigação sistemática.
DISCUSSÃO
Este modelo lógico fornece uma representação visual do programa GerAcções e um
modo de compreender as ligações entre os vários componentes do programa. O
modelo lógico foi útil para a equipa técnica, para a equipa de supervisão, para
os patrocinadores, para os autarcas e para os elementos do Conselho Consultivo,
pois possibilitou trabalhar em conjunto, para desenvolver o modelo à medida que
o programa ia sendo implementado, uma vez que faz as ligações entre os
recursos, os objectivos, as actividades e os resultados, de um modo explícito.
Além da utilização do modelo lógico do “GerAcções” para o planeamento
estratégico, pois permitiu identificar os principais pressupostos teóricos do
programa, este vem sendo utilizado, também, para uma melhoria contínua do
programa e para uma forma de divulgar o programa. O desenho do modelo lógico é
uma ferramenta útil e prática, pois possibilita analisar ao longo do
desenvolvimento do programa, se os resultados que estão a ser alcançados estão
a progredir no sentido dos resultados desejados, e no caso negativo, permite o
reformular dos mesmos. Em relação à divulgação, possibilitou uma forma de mais
facilmente e eficazmente descrever e explicar o programa aos autarcas, aos
elementos responsáveis pela supervisão científica e financeira, a outras
equipas de intervenção e ainda a académicos, a nível nacional e internacional.
Ainda, o modelo lógico está a ser utilizado agora, no final do programa, para o
planeamento da avaliação. Com base nos componentes do modelo lógico, a
avaliação está a ser delineada com vista a recolher os indicadores necessários,
de modo a que se possa medir se os resultados esperados foram alcançados e qual
o impacto do GerAcções na comunidade de Santa Maria de Belém.
Dos benefícios do modelo lógico do programa GerAcções destacamos algumas,
também referidas por outros autores (Kaplan & Garrett, 2005; W. K. Kellogg
Foundation, 2001). Assim a utilização do modelo lógico permitiu encontrar
“lacunas” na teoria ou na lógica do programa e trabalhar para os resolver,
facilitou a comunicação entre as diversas partes envolvidas no programa
(comunidade, técnicos, autarcas, patrocinadores), construiu uma compreensão
partilhada daquilo que o programa é e da forma como as partes trabalham em
conjunto, permitiu um trabalho de relacionamento mais fácil, através de uma
estrutura lógica e linguagem comuns, possibilitou construir consensos e
promover a colaboração, foca a atenção nas mais importantes ligações entre as
actividades e os resultados, fornece uma maneira de envolver as partes
interessadas na concepção, em todo o processo e na avaliação, e, ainda, o
fortalecimento do programa, avaliando os pressupostos subjacentes.
Embora o modelo lógico aqui apresentado se centre num programa de intervenção
comunitária numa Freguesia da cidade de Lisboa, este pode ser aplicável a
qualquer área envolvendo o desenvolvimento de programas ou projectos, a
implementação e/ou a avaliação.