Entrevista com o Professor Irving Kirsch - Uma conversa acerca da hipnose
clínica e experimental
De origem norte-americana, Irving Kirsch, doutorado em Psicologia e
investigador, é um autor de referência na área da hipnose clínica e
experimental. Foi presidente da Divisão 30 (Society for Psychological Hypnosis
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) da American Psychological Associationno período de 1993-94, e faz parte da
sua comissão executiva desde 1983, onde para além da posição de Presidente, já
assumiu os cargos de Membership Chair, Nominations Chair, and Awards Chair. É
autor de 9 livros, de onde se destacam Handbook of Clinical Hypnosis(1993) e
Essentials of Clinical Hypnosis: An Evidence-based Approach (Dissociation,
Trauma, Memory, and Hypnosis Book Series), ambos em co-autoria com S.J.Lynn
(2006), How Expectancies Shape Experience(1999), Hypnosis: Theory, Research And
Application(2006) e The Emperor’s New Drugs: Exploding the Antidepressant Myth
(2009): É ainda autor de 40 capítulos de livros e mais de 180 artigos
científicos que versam, entre outros temas, sobre hipnose, sugestão e efeito
placebo. O seu trabalho tem sido publicado em revistas como PLoS Medicine,
American Psychologist, Psychological Bulletin, Psychological Science, Journal
of Consulting and Clinical Psychology, Journal of Neuroscience, Journal of
Personality and Social Psychology, Journal of Abnormal Psychology, Pain,
Journal of Experimental Psychology: Applied, British Medical Journal, Annals of
Behavioral Medicine, Psychopharmacology, Biological Psychiatry, Behavioral
Neuroscience, Archives of General Psychiatry, e Journal of Neuroscience,bem
como em revistas especializadas no tema da hipnose, como o International
Hournal of Clinical and Experimental Hypnosis(do qual é consultor editorial) e
do Contemporary Hypnosis(do qual é editor associado). Detentor de vários
prémios de mérito, entre os quais se salienta o Ernest R. Hilgard Award for
Scientific Excellence da International Society of Hypnosis(2003), o Scientific
Contributions in Hypnosis Award da American Psychological Association Division
30(2003), e o Presidential Award da Society for Clinical & Experimental
Hypnosis(1999).
Desde 2005 esteve já quatro vezes em Portugal a convite do ISPA para ministrar
conferências e pequenos cursos, bem como arguir a dissertação de doutoramento
da autora destas linhas. O texto que aqui se transcreve resulta de uma conversa
gravada aquando de uma dessas visitas, onde Irving Kirsch explica de forma
acessível a todos os públicos o que é a hipnose, quais as suas aplicações
clínicas, particularmente em contextos de saúde, e quais os cuidados a ter na
decisão de usar a hipnose em saúde e na selecção de entidades legítimas de
formação em hipnose. Actualmente Irving Kirsch é professor na Universidade de
Hull no Reino Unido.
Cláudia Carvalho
(CC) De que falamos quando falamos de hipnose?
Irving Kirsch
(IK) Em primeiro lugar deixe-me deixar claro que o que vamos falar é de hipnose
clínica e não de hipnose de palco, que é uma coisa muito diferente. A hipnose
clínica consiste numa situação em que uma pessoa, um hipnotizador ou um
terapeuta, faz sugestões de mudanças específicas na experiência de um sujeito
ou paciente. Estas sugestões poderão ser por exemplo, a sugestão de que vai
sentir menos dor, ou menos ansiedade numa situação particular. Trata-se de uma
ferramenta terapêutica que pode ser usada em conjunto com qualquer terapia em
que o terapeuta tenha competência. Assim poderemos usar a hipnose num quadro de
referência cognitivo-comportamental, psicanalítico, ou qualquer outro. Qualquer
abordagem terapêutica pode ser incrementada com a adição da hipnose.
CC É do conhecimento geral que a hipnose foi utilizada e posteriormente
abandonada por Freud, o que levou à noção generalizada de que esta não é uma
boa ferramenta terapêutica...
IK Sabemos actualmente que a hipnose é uma ferramenta terapêutica útil, e
possuímos este conhecimento a partir dos estudos empíricos acerca da eficácia
da psicoterapia. Têm sido publicadas várias meta-análises
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e estudos empíricos que demonstram que a hipnose aumenta a eficácia da terapia
psicanalítica e da terapia cognitivo-comportamental, e o efeito do ponto de
vista estatístico é bastante grande.
CC Mas Freud abandonou a hipnose...
IK Freud estava consciente do facto de que as pessoas não são todas
sugestionáveis da mesma forma, i.e., há pessoas mais sugestionáveis do que
outras. Freud abandonou a hipnose em favor da associação livre, que é uma
situação onde não é necessário possuir nenhum grau particular de
sugestionabilidade. Freud estava também preocupado com a possibilidade de
sugestionar demasiado os seus pacientes. No seu esforço para descobrir
experiências, ideias e desejos provenientes do passado, ele começou a ficar
preocupado com a possibilidade de algumas das memórias que ele estava a ajudar
a revelar nos seus pacientes poderiam ter sido sugeridas no processo
terapêutico, o que o levou a preocupar-se com a utilização de procedimentos
sugestivos. Não sabemos com exactidão, mas é bastante possível. E certamente se
ele tinha esta preocupação, ela era legítima porque se há uma situação onde a
hipnose não é uma boa ferramenta é na recuperação de memórias, uma vez que há o
enorme perigo de que aquilo que se recupere seja uma falsa memória. A questão é
que a hipnose envolve largamente a imaginação e a fantasia, pelo que quando se
pede a alguém para fazer alguma coisa sob hipnose, inclusive quando se pede
para recordar alguma coisa, é muito provável que a pessoa fantasie e imagine
coisas que podem ter ou não acontecido. As pessoas acreditam incorrectamente
que a hipnose é uma forma de aceder às memórias inconscientes e
consequentemente acreditam erradamente que algo que imaginaram realmente
aconteceu. Esse não é de todo a utilização apropriada da hipnose
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.
CC Quais as aplicações clínicas da hipnose?
IK Tudo o que se pode fazer num contexto clínico pode fazer-se utilizando a
hipnose. Por exemplo, se se vai utilizar técnicas de relaxamento num contexto
de intervenção clínica, por exemplo para tratar um distúrbio do sono (de origem
psicológica) ou de ansiedade, o procedimento de relaxamento pode utilizar a
hipnose e pode-se ensinar aos pacientes auto-hipnose, i.e, a administrar
hipnose a si mesmos e usá-la como uma forma de relaxamento. Sabemos a partir
dos estudos empíricos que a hipnose aumenta a eficácia das intervenções, ou
seja as pessoas experimentam ainda menos ansiedade do que se lhes apresentarmos
o procedimento apenas como relaxamento. Do mesmo modo pode-se explorar temas
pessoais no contexto da hipnose, situação em que a hipnose fornece uma
atmosfera relaxada e facilitadora da introspecção pessoal onde o paciente se
poderá sentir mais confortável ou compreender melhor qual o seu papel no
contexto da psicoterapia.
CC E no âmbito da Psicologia da Saúde?
IK Um dos mais estudados, melhor avaliados e mais úteis aspectos da hipnose no
campo da Psicologia da Saúde é a sua capacidade para reduzir a dor. Isto é algo
que é conhecido e estudado há mais de 150 anos. Sabemos que quanto mais
sugestionável a pessoa for, mais benefício poderá retirar de uma redução de dor
através da hipnose. Sabemos também que cerca de 75% da população pode alcançar
uma redução da dor significativa através da utilização da hipnose e da sugestão
auto hipnótica. A hipnose tem sido estudada em muitos contextos de doenças que
envolvem dor, como a doença oncológica, queimaduras e dor pós-operatória e em
todos estes contextos tem-se conseguido obter uma redução substancial da dor,
que iguala ou ultrapassa qualquer outro procedimento psicológico conhecido para
controlo da dor. As pessoas, depois de aprender hipnose e auto-hipnose, não só
referem sentir menos dor, como também consomem menos medicação para redução da
dor. Uma outra aplicação bastante bem documentada é a do tratamento da
obesidade. Coadjuvar hipnose com tratamentos para perder peso, aumenta a
eficácia destes, quer a curto quer a longo prazo. Sabemos que um dos principais
problemas no controlo do peso reside no facto de que as pessoas que perdem peso
tornam a recuperá-lo rapidamente. De acordo com a investigação realizada até à
data em programas de controlo do peso coadjuvados com hipnose, esta parece
prevenir a recuperação do peso, tendo-se verificado a manutenção do peso
desejado ao fim de dois anos4.
CC É necessário que uma pessoa seja muito sugestionável para beneficiar dos
efeitos da hipnose?
IK Não necessariamente. De uma forma geral as pessoas mais sugestionáveis têm
maior probabilidade de obter mais benefícios da adição da hipnose a um
tratamento, mas esta correlação apesar de estatisticamente significativa é
relativamente baixa. Por outro lado, existem muitas pessoas que são pouco
sugestionáveis mas que retiram benefícios da utilização da hipnose. Claro que
há algumas sugestões hipnóticas que requerem mais competências hipnóticas por
parte do sujeito. Por exemplo, uma alucinação visual negativa (não ver algo que
está presente à vista do sujeito) não é passível de ser experimentado por
pessoas não sugestionáveis. Já outras sugestões, como por exemplo a sugestão
para relaxar, pode ser experimentada por praticamente toda a gente. Por exemplo
a sugestão utilizada para demonstração da hipnose e avaliação da
sugestionabilidade em que se sugere ao indivíduo que as suas mãos estão a ser
atraídas uma para a outra por uma força irresistível, pode ser experimentada
por 80% da população. Assim há muitas coisas que não requerem
sugestionabilidade por parte do sujeito, outras que sim. Por exemplo num
trabalho realizado por Cláudia Carvalho, Giuliana Mazzoni e eu próprio acerca
da adesão a prescrições de saúde
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, a sugestionabilidade hipnótica parece influenciar negativamente a adesão: a
utilização de hipnose com indivíduos pouco sugestionáveis levou a uma redução
na eficácia de uma intervenção que visava aumentar a adesão a uma prescrição de
exercício físico. Contudo em muitas outras situações não existe esta
associação.
CC A investigação empírica em hipnose tem já uma longa história de cerca de 75
anos. Quais as questões de investigação que já estão respondidas, e quais as
que permanecem por responder?
IK Os efeitos da hipnose na memória foram já bem estabelecidos. Nós sabemos que
a hipnose aumenta os relatos mnésicos, mas metade dessas novas memórias não são
precisas, ou seja a hipnose não aumenta a precisão com que nos recordamos das
coisas. Sabemos também que há fortes diferenças individuais na responsividade à
hipnose: a maior parte das pessoas é capaz de responder a algumas sugestões
hipnóticas mas não a outras, há algumas pessoas que são capazes de responder a
praticamente qualquer sugestão, e algumas pessoas não respondem a nenhuma (não
são passíveis de ser hipnotizadas), e esta característica tem uma distribuição
normal, como a maioria das características pessoais. Sabemos que a
responsividade à hipnose é bastante estável, tem uma correlação teste-reteste
de cerca de .75 num período de 25 anos
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, o que é bastante impressionante. Por outro lado, ainda não fomos capazes de
encontrar correlatos fiáveis da sugestionabilidade ou hipnotizabilidade (i.e.,
traços que estejam correlacionados com esta característica), apesar de 15 anos
de investigação sobre este tema. O melhor correlato da hipnotizabilidade é a
expectativa7. A crença da pessoa de que vai ser capaz de experimentar a hipnose
é um bom predictor da extensão com que ela a experimenta. Não é uma correlação
muito alta, mas é a mais alta correlação encontrada para um predictor da
resposta hipnótica. O segundo melhor predictor é a motivação, que adiciona um
pouco de poder predictivo. Em terceiro lugar temos um conjunto de variáveis que
estão altamente correlacionadas entre si e que medem coisas como a tendência à
fantasia, isto é a capacidade para se deixar envolver em actividades
imaginativas, como por exemplo, deixar-se envolver a ver o pôr do sol. Esta
capacidade está correlacionada com a hipnotizabilidade, mas esta correlação,
apesar de significativa, é muito baixa. Quando se controla vários artefactos
consegue-se uma correlação de cerca de .15. Então estamos a falar de 1%, 2% da
variância, o que é uma associação muito baixa. Mesmo assim, tendo em conta que
a hipnotizabilidade em si mesma parece ser um traço estável, deve estar
associada a alguma coisa, pelo que os investigadores continuam a procurar
encontrar correlações. Sabemos também alguma coisa acerca dos determinantes
sociais da resposta hipnótica. Estes factores sociais são as expectativas, as
crenças e a motivação. As crenças das pessoas determinam como é que elas vão
responder à hipnose, se vão ou não ficar relaxadas, e o que é que vai acontecer
quando elas estão hipnotizadas. As crenças parecem ser o maior determinante do
que acontece quando se está hipnotizado. Este tema está bastante estudado e é
bem conhecido. O que é menos bem conhecido, e eu penso que esta é talvez a área
mais importante na investigação de base em hipnose é, quais são os processos
cognitivos pelos quais as pessoas são capazes de ter as experiências alteradas
que têm quando respondem a uma sugestão hipnótica. Por exemplo, sabemos que se
dermos uma sugestão a uma pessoa para olhar para algo e não ver esse algo
(talvez ter três bolas em cima de uma mesa e dizemos-lhe que só estão duas), as
pessoas muito sugestionáveis verão apenas duas bolas, não verão a terceira
bola, e nós podemos verificar que elas não estão a mentir por meio de estudos
em que se utiliza imagiologia cerebral, que é uma área em franco crescimento e
de grande utilidade quer em si mesma quer na hipnose. Nós sabemos que as
pessoas são capazes disto, mas não sabemos como o fazem. Provavelmente está
relacionado com um fenómeno similar que tem lugar fora da hipnose e que é a
cegueira não intencional, i.e., um fenómeno no qual a pessoa não vê algo que é
claramente visível porque a sua atenção está dirigida para outro lado. A
cegueira não intencional é muito similar ao que os hipnotizadores chamam de
alucinação negativa, i.e., uma sugestão para não ver algo que está lá. É
provável que os dois processos estejam ligados, mas não sabemos como é que este
fenómeno, ou outros como a redução da dor, ou a alucinação positiva, são
produzidos. Esta é a tarefa actual para a investigação de base em hipnose e é
muito importante.
CC Há alguma situação em que não devemos considerar a utilização da hipnose?
IK Sim. Certamente não deveremos utilizar a hipnose para recuperar memórias,
particularmente memórias reprimidas, devido ao grande perigo de confabulação e
desenvolvimento de falsas memórias que hipnose pode exacerbar. Do mesmo modo
que a hipnose aumenta o benefício terapêutico de praticas clínicas adequadas,
pode também aumentar o dano de práticas terapêuticas perigosas, e a recuperação
de memórias, parece ser uma dessas práticas. Em alguns casos, essas práticas
têm sido levadas a extremos, como a prática terapêutica de recuperação de
memórias de vidas passadas, o que sabemos ser uma impossibilidade fisiológica.
Evidentemente que as fantasias não são perigosas em si mesmas, mas a crença
nessas fantasia significa que se perde contacto com a realidade e isso pode ser
perigoso.
CC A hipnose deve ser evitada em determinadas patologias ou personalidades?
IK Não. Contudo eu evitaria usar a hipnose em qualquer pessoa que tenha medo ou
atitudes negativas face à hipnose. Teria também precauções relativamente ao seu
uso em pessoas que têm a expectativa de uma cura mágica, ou que acham que a
hipnose vai fazer o trabalho todo por elas, porque como sabemos, a terapia
significa trabalho não apenas para o terapeuta, mas também para o paciente.
Nesta situação podemos obter o efeito contrário, ou seja, a pessoa como espera
que a hipnose resolva tudo sozinha não faz o trabalho terapêutico necessário.
Nestas situações é necessário uma educação e preparação do paciente durante o
processo de tomada de decisão relativamente à utilização da hipnose. É
importante salientar que a hipnose não é algo que é feito pelo terapeuta. O
terapeuta assume um papel de professor onde ensina ao paciente como se
hipnotizar a si próprio. Nesse sentido, toda a hipnose é efectivamente auto-
hipnose, e o terapeuta é apenas um guia, um facilitador, que ensina auto-
hipnose ao paciente.
CC Quais deverão ser os cuidados a ter por parte de uma pessoa que esteja
interessada em utilizar a hipnose para tratar uma determinada condição clínica?
IK Em primeiro lugar deverá procurar um terapeuta que deverá estar qualificado
para fazer o tratamento que a pessoa procura, e não possuir apenas formação em
hipnose. Ter uma pessoa que apenas sabe hipnose mas que não está qualificada
para uma intervenção clínica, é como ter alguém que apenas sabe dar uma
injecção de novocaína e a seguir faz um tratamento dentário, o que é
evidentemente insuficiente, pois é preciso ter estudado medicina dentária para
se poder praticar intervenções dentárias. Já agora é útil referir que muitos
dentistas utilizam a hipnose para controlar a ansiedade e a dor que algumas
pessoas sentem durante os tratamentos dentários. É importante compreender que a
hipnose não é uma terapia, é uma ferramenta que se usa no contexto de uma
terapia. Por essa razão não existe hipnoterapia isoladamente. Um psicólogo
clínico ou da saúde pode usar a hipnose, tal como um médico ou um enfermeiro ou
outro profissional de saúde qualificado pode considerar a utilização da hipnose
útil para incrementar um tratamento. A chave para saber se alguém está a usar a
hipnose de forma legítima é perguntar “está esta pessoa a fazer um tratamento
para o qual estaria qualificada se não estivesse a usar hipnose?” Se a resposta
for sim, trata-se de um uso legítimo e a hipnose é potencialmente muito útil.
Se a resposta for não, então está perante uma pessoa que está a praticar a
psicologia ou a medicina (ou outra profissão no âmbito saúde) sem possuir as
credenciais para tal.
CC É pois imprescindível que se trate de um profissional de saúde devidamente
credenciado e habilitado para exercer numa determinada área da medicina ou da
psicologia. E onde pode um profissional de saúde aprender hipnose clínica?
IK Um profissional de saúde interessado em aprender hipnose deverá procurar
entidades que sejam pertença de universidades ou entidades afiliadas em
sociedades internacionais de hipnose devidamente acreditadas, como a
International Society of Hypnosis(ISH), que tem disponível (no seu web site
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) uma lista das associações afiliadas nos vários países, que promovem cursos de
formação e outras actividades devidamente acreditadas pela ISH. No website da
Divisão 30 da American Psychological Association também é possível encontrar
ligações para as associações profissionais de hipnose que promovem acções de
formação em hipnose clínica em território Norte-Americano. É necessário ser
cauteloso porque há várias organizações de hipnotizadores leigos que oferecem
formação em hipnose e credenciam pessoas como hipnoterapeutas, sem que estas
possuam qualquer formação clínica. Sabemos que existem as mais variadas
situações, desde a possibilidade de mandar algum dinheiro pelo correio e
receber um “diploma” de hipnotizador, até formações leigas bastante longas, mas
que carecem de fundamentação científica e de conhecimentos específicos para a
área da saúde.
CC E o profissional de saúde interessado em ler acerca da hipnose clínica onde
poderá encontrar informação legítima?
IK Em primeiro lugar deverá procurar ler autores que tenham publicado em
revistas científicas de boa reputação, o que inclui as principais revistas
científicas da área da psicologia e da medicina, mesmo que estes não sejam
particularmente orientados para a hipnose. Revistas científicas como o Journal
of Abnormal Psychologye o Journal of Personality and Social Psychology, ambos
publicados pela American Psychological Association. Revistas científicas
publicadas pela American Medical Association, pela American Psychiatric
Association, todas essas revistas científicas publicaram artigos acerca da
hipnose cujos autores são cientistas da psicologia e da psiquiatria que se
envolveram na investigação acerca da hipnose. Cientistas de relevo que
estudaram a hipnose sob o ponto de vista científico podemos citar Clark Hull,
Ernest Hilgard, Theodore Sarbin, T. X. Barber, John Kihlstrom, são tantos que
tenho receio de deixar alguém de fora... Andre Weitzenhoffer, Charles Tart,
Joseph F. Hilgard, que também escreveu acerca da hipnose, Martin Orne, que fez
um excelente trabalho teórico e de investigação na área da hipnose, William
Coe, Nicholas Spanos, que fazia investigação de uma forma espantosa, publicando
14, 15 estudos por ano sobre hipnose (eu sempre pensei que ele escrevia mais
depressa do que eu conseguia ler!) Steven Jay Lynn...
CC E cientistas contemporâneos?
IK Cientistas contemporâneos para além do Steven Jay Lynn, Michael Nash,
Antonio Capafons, James Council, David Patterson, que fez um excelente trabalho
acerca da utilização da hipnose para a redução da dor, Guy Montgomery, Amanda
Barnier, Kevin McConkey, Leonard Milling, David Oakley, Richard Brown, Erik
Woody...
CC Que passos têm ainda de ser dados em Portugal para promover a utilização
adequada da hipnose por parte dos profissionais de saúde contribuindo assim
para um reconhecimento inter pares e por parte do público desta técnica
terapêutica?
IK Deverá ser facilitado o reconhecimento da hipnose nos departamentos das
universidades, através nomeadamente do ensino da hipnose nos departamentos
universitários, particularmente de psicologia clínica, psicologia da saúde e
medicina. Dever-se-á promover também o desenvolvimento a nível nacional de
organizações científicas de hipnose, o que implica que as pessoas que queiram
fazer parte dela deverão possuir uma afiliação a uma unidade de investigação ou
uma acreditação como terapeutas. Finalmente conseguir que as sociedades
profissionais existentes (ordem dos médicos e dos psicólogos) reconheçam a
hipnose e criem uma subdivisão que agrupe as pessoas que utilizam a hipnose no
contexto da sua profissão no âmbito da saúde.