A dinâmica da consistência moral
INTRODUÇÃO
Por que razão fazemos nós o que julgamos que devemos fazer? Ou, inversamente,
por que razão não fazemos nós o que achamos que devemos fazer? Estas são
questões que têm preocupado e ocupado diversos investigadores na área do
comportamento e do pensamento (por exemplo, Aquino & Reed, 2002; Blasi,
1980, 1994, 1999; Hardy & Carlo, 2005; Lourenço, 2002). Quando as questões
anteriores se constituem em fazer, ou não, bem ou mal a outrem, entramos na
área da moralidade.
O estudo aqui apresentado pretende contribuir para o esclarecimento, no campo
moral, da relação entre o que pensamos e o que fazemos, já que esta continua a
ser uma questão em aberto (Aquino & Reed, 2002; Hardy & Carlo, 2005;
Lourenço, 2002). A interrogação de raiz que se colocou na pesquisa foi então: o
que faz com que certas pessoas apresentem consistência entre o raciocínio moral
e a acção moral e outras apresentem menos consistência nesta relação?
Um pressuposto central do estudo é o de que a cognição e a acção morais se
relacionam entre si. Trata-se, ao fim ao cabo, de partir de um pressuposto não
pacífico, mas presente na abordagem estrutural desenvolvimentista da moralidade
(Candee & Kohlberg, 1987; Kohlberg, 1992; Kohlberg & Candee, 1992),
ainda que sobre ele se afigure necessária mais averiguação empírica.
A afirmação largamente conhecida de Kohlberg (1992) de que quem conhece o bem,
escolhe e pratica o bem, subentende que existe uma tendencial consistência
entre juízo e acção moral, particularmente evidente nos estádios morais mais
elevados.
Kohlberg atribuiu aos juízos de responsabilidade - juízos sobre o
compromisso pessoal em agir conforme o que se julga ser a acção moral mais
correcta - uma função mediadora entre os juízos morais e a acção moral
efectiva (Candee & Kohlberg, 1987). À medida que os indivíduos progridem na
sua competência moral, verifica-se que também aumenta o número de juízos de
responsabilidade consistentes com o juízo moral.
Esta consistência progressiva, porém, não é prefeita, mesmo nos estádios finais
do desenvolvimento moral (Kohlberg & Candee, 1992). Assim sendo, é de
considerar a pertinência de outras hipóteses que permitam compreender melhor a
relação entre a cognição moral e a acção moral. É o caso do eventual efeito
mediador de variáveis emocionais naquela relação, tal como, por exemplo, o
efeito da satisfação que se perspectiva com a prática do bem no reforço da
consistência entre a cognição e a acção moral.
Como é sabido, a investigação de Kohlberg sobre a moralidade não incide, em
primeira linha, sobre esta problemática. Kohlberg inicia as suas pesquisas na
área da moralidade sobre a questão do desenvolvimento do juízo moral e fá-lo a
partir dos estudos de Piaget sobre a moralidade (1932/1994) e, também, sofrendo
a influência do seu modelo estrutural e desenvolvimentista da cognição lógica.
Porém, a sua contribuição excedeu as preocupações com a explicação do
desenvolvimento da cognição ou juízo moral. Com efeito, os seus interesses
estenderam-se, nomeadamente, à procura de compreensão do agir moral na sua
relação com a cognição moral (Candee & Kohlberg, 1987; Kohlberg, 1992;
Kohlberg & Candee, 1992) e à questão da educação moral (Kohlberg, 1992),
valorizando, deste modo, uma dimensão funcional e socialmente interventora dos
estudos sobre a psicologia da moralidade.
Alguns autores têm apontado as limitações das contribuições teóricas de
Kohlberg, quer para a predição do agir moral (por exemplo, Mischel &
Mischel, 1994), quer para a promoção de comportamentos morais (por exemplo,
Bandura, 1991). Trata-se de pretender acantonar aquelas contribuições no campo
da cognição moral e de menorizar o seu impacto na compreensão e na educação do
agir moral, campos que, segundo os referidos críticos, seriam centrais na
investigação sobre a moralidade.
Não obstante estas críticas, é sabido que a teoria Kohlberguiana do
desenvolvimento moral e da acção e educação morais constituem uma referência
incontornável para os estudos contemporâneos sobre a moralidade e um ponto de
partida para muitos deles, como é o caso do estudo que aqui se apresenta.
A DINÂMICA DA CONSISTÊNCIA MORAL
Sendo a dinâmica da consistência moral o tema central desta pesquisa, interessa
clarificar o significado desta variável, bem como das variáveis que supomos a
ela associadas.
A cognição moral
Genericamente falando, entende-se por cognição moral qualquer informação ou
declaração verbal de conteúdo moral. Numa investigação sobre o tema, porém,
requer-se a sua definição mais detalhada. Blasi (1980), por exemplo, identifica
três enfoques da cognição moral quando investigada na sua relação com a acção
moral: (a) atitudes morais, expressas por crenças ou inclinações afectivas; (b)
informação moral ou reconhecimento das normas morais; (c) julgamento ou
raciocínio moral, baseado nas justificações e conclusões em que são suportadas
as decisões morais. É no quadro desta última acepção que a perspectiva
cognitivo-desenvolvimentista faz a sua abordagem da moralidade.
A qualidade moral de uma acção deriva do raciocínio moral que lhe é subjacente:
"para ser moral, uma acção tem de ser, em primeiro lugar, subjectivamente
moral" (Lourenço, 2002, p. 55). É a cognição moral, e não tanto a acção,
que permite distinguir condutas e aferir a sua qualidade moral. É sobretudo
pelo pensamento que a qualidade moral da acção pode ser aferida.
Ainda segundo a perspectiva cognitivodesenvolvimentista, é também o pensamento,
ou melhor, o modo de pensar moral, que indica o nível de desenvolvimento moral
dos indivíduos. Deste modo, falar de desenvolvimento moral equivale a falar de
desenvolvimento do juízo moral e, mais especificamente, do desenvolvimento dos
juízos deônticos de justiça.
Advoga-se que este desenvolvimento ocorre de acordo com uma sequência de
estádios que é independente da cultura, do meio social, do continente ou do
país a que o indivíduo pertence (Colby & Kohlberg, 1987; Kohlberg &
Hersh, 1977), isto é, assume-se a transculturalidade e o universalismo como
seus pressupostos centrais.
Cada estádio, por sua vez, representa uma organização do pensamento moral
qualitativamente distinta e superior à organização do estádio anterior; porém,
cada estádio não só representa um modo mais elevado e complexo de pensar, como
também inclui, simultaneamente, o pensamento dos estádios anteriores (Kohlberg
& Hersh, 1977). Kohlberg descreve o desenvolvimento moral como um processo
em seis estádios, distribuídos, dois a dois, por três níveis: pré-convencional,
convencional e pós-convencional. O Estádio 1 é caracterizado por uma orientação
moral para o castigo e obediência; o Estádio 2, por uma orientação calculista,
instrumental, assente na pura troca, no hedonismo e pragmatismo; o Estádio 3,
por uma orientação para o bom meninoe para uma moralidade de aprovação social e
interpessoal; o Estádio 4, por uma orientação para a manutenção da lei, da
ordem e do progresso social; o Estádio 5, por uma orientação para o contrato
social, o relativismo da lei e o maior bem para o maior número; e o Estádio 6,
por uma orientação para os princípios éticos universais, reversíveis e auto
prescritos (Colby & Kohlberg, 1987; Kohlberg & Hersh, 1977).
Os estádios, por sua vez, apresentam-se organizados em três níveis morais. A
moralidade pré-convencional é o nível da maioria das crianças antes dos 9 anos,
e de alguns adolescentes e adultos (Colby & Kohlberg, 1987). Neste nível de
raciocínio moral a justiça e a moralidade são representadas como normas
externas ao indivíduo, sendo a obediência a estas normas devedora da sua função
utilitária; trata-se, sobretudo, de procurar satisfazer os desejos e interesses
ou evitar castigos.
A moralidade convencional é normalmente alcançada pelos adolescentes e adultos
de diversas sociedades. Este nível caracteriza-se pelo conformismo face às
normas sociais vigentes, agora já interiorizadas pelo indivíduo. É o nível
moral que corresponde a uma moralidade orientada pela necessidade de aprovação
pessoal e de manutenção geral da ordem social, entendidas como condições
necessárias à inserção dos indivíduos nos grupos e na sociedade e mesmo à
salvaguarda destes (Colby & Kohlberg, 1987).
A moralidade pós-convencional é alcançada apenas por uma minoria de adultos,
normalmente após os 20-25 anos. Neste nível, o valor moral não reside na
conformidade com as normas e convenções sociais, mas sim na conformidade com os
princípios éticos universais, tais como o direito à vida, à liberdade ou à
justiça. Prevalece, neste nível moral, o reconhecimento da natureza relativa, e
por vezes, arbitrária, de algumas normas sociais e a consideração dos
princípios éticos universais como critérios últimos do julgamento moral (Colby
& Kohlberg, 1987).
Uma das críticas aos estudos de Kohlberg, a protagonizada por Gilligan (1982),
enfatiza que a sua investigação omite a questão do género. Tal omissão seria
responsável por uma descrição do desenvolvimento moral que tende a transformar
as mulheres em candidatas naturais ao Estádio 3, enquanto os homens seriam
candidatos naturais ao Estádio 4. Tal risco sexista dever-se-ia ao facto de o
enfoque de Kohlberg se apoiar na sobrevalorização de uma abstracta ética da
justiça, centrada em direitos e deveres e na consequente ignorância de uma
ética contextualista do cuidado, centrada na preocupação com o bem-estar. Ora,
de acordo com Gilligan (id), enquanto a moral dos direitos e deveres é uma boa
expressão dos aspectos dominantes da moralidade masculina, mais direccionada
para as questões da justiça e da lei, a moralidade do cuidado, aproximar-se-ia
mais da moralidade feminina, mais emocional e concreta. Desta forma, a autora
conclui que mulheres e homens, em termos morais, se expressam preferencialmente
de modo diferente. Em articulação com estas posições, situa-se a crítica ao
recurso exclusivo a dilemas morais hipotéticos como forma de acesso ao nível de
raciocínio moral, instrumento a que não se atribui capacidade para captar a voz
feminina, mais sensível a histórias reais e a narrativas pessoais
A revisão efectuada por Walker (1984, 1994), sobre os muitos estudos gerados
pela controvérsia atrás referida, não confirmou a alegada natureza sexista da
teoria e dos instrumentos de avaliação do desenvolvimento moral propostos por
Kohlberg, já que as mulheres não apresentaram nesses estudos níveis de
desenvolvimento inferiores aos dos homens, excepto quando comparadas com homens
de estatuto educacional e profissional mais elevado que o seu, resultado que
salienta, antes de mais, o grande impacto da escolaridade no desenvolvimento
moral. Em todo o caso, este não parece ser um dossier fechado.
A acção moral
O interesse primordial de Kohlberg e seus colaboradores na investigação sobre a
moralidade centra-se na questão da cognição moral; porém, não é legítimo deixar
de sublinhar a atenção que igualmente dispensaram ao tema do agir moral e da
educação moral. O enfoque Kohlberguiano não deixa de se preocupar, ainda, com a
exploração do factor ou factores que motivam para a acção e com a consistência
entre esta e o juízo moral (Colby & Kohlberg, 1987). Valoriza-se, do lado
da abordagem desenvolvimental, que o facto de se aceder ao raciocínio moral
através de situações hipotéticas, permite fazer predições sobre a conduta moral
efectiva; seria, justamente, o recurso a situações hipotéticas na avaliação do
juízo moral que permitiria reduzir a lacuna entre os juízos morais e as acções
específicas (Damon, 1977).
Entretanto, sucede que a tarefa de definir uma acção como moral ou imoral é de
grande complexidade e dificuldade para os investigadores na área da moralidade,
registando-se sobre a questão diferentes contribuições.
Rest, Bebeau, e Volker (1986), por exemplo, advogam que um indivíduo age
moralmente quando desencadeia, pelo menos, quatro processos psicológicos
fundamentais: (1) avalia as possíveis opções e suas consequências, em
particular, quem, incluindo o próprio, seria afectado pela acção e como iriam
as partes considerar os efeitos da acção; (2) julga qual a acção que seria
moralmente correcta; (3) prioriza, acima de outros valores, os valores morais;
(4) tem força de vontade e perseverança para actuar de forma moral e para fazer
frente e ultrapassar os obstáculos que essa decisão acarrete.
Blasi (1999) identifica duas características que considera academicamente
consensuais, a saber: (1) a acção moral não é acidentalmente produzida, nem
resultante de factores externos ao agente activo; para que uma acção adquira o
estatuto de acção moral tem de ser intencional; (2) no agir moral as razões têm
de ser morais, têm de estar relacionadas com o que é moralmente bom ou mau no
entendimento do agente. Basta que uma destas características não esteja
presente, para que não possamos falar em acção moral.
Mais recentemente, Hardy e Carlo (2005) defendem que a acção moral requer a
presença da decisão final de agir. Também para Gollwitzer (1993, cit. por Hardy
& Carlo, 2005), a intenção de agir é a causa próxima do comportamento;
assim, a acção é vista como sendo o resultado de uma decisão sobre a sua
execução. Diga-se que, em consonância com este olhar, no quadro da presente
pesquisa, o que esteve em jogo não foi a averiguação directa sobre a acção
moral, mas sobre o seu elemento necessariamente precedente, a decisão ou
intenção de agir (Hardy e Carlo, 2005). A intenção de acção, ou a determinação
para agir, foi uma das variáveis instrumentais utilizadas, com base na assunção
da sua proximidade e necessária precedência relativamente ao agir. Aliás,
outras contribuições do campo do desenvolvimento moral advogam a legitimidade
da inferência sobre a acção dos indivíduos, a partir do questionamento sobre a
sua determinação em actuar (Blasi, 1999).
Entretanto, do lado do modelo da aprendizagem social, apontam-se insuficiências
ao modelo cognitivista na investigação sobre o comportamento moral. Mischel e
Mischel (1994), por exemplo, defendem que o comportamento moral, como aliás
qualquer outro comportamento, é resultado de contingências de reforço e
imitação; argumentam que os comportamentos são determinados por modelagem,
observação e imitação e que a perspectivação das consequências dos
comportamentos adoptados inibe, no caso das consequências negativas, ou
facilita, no caso das consequências positivas, o comportamento futuro. Afirmam,
por isso, que "o mais nobre altruísmo, baseado no nível mais elevado de
raciocínio moral, depende, ainda, das consequências esperadas" (id, 1994,
pp. 97-98). Defendem, deste modo, que o raciocínio moral, e a fortiorias
palavras através das quais se exprime, tem pouco valor preditor da acção moral,
as duas variáveis teriam pouca relação entre si. Contribuindo para o reforço
dos argumentos que suportam esta posição, está a evidência de que as diferenças
linguísticas entre os indivíduos podem influir no nível de raciocínio moral por
ele exibido em situação de entrevista.
A crítica destes autores é especialmente contundente quando o que está em causa
é a predição do comportamento em indivíduos com baixo nível de desenvolvimento
moral. Para o efeito, mobilizam mesmo resultados obtidos por estudos empíricos
efectuados no quadro do modelo desenvolvimentista. É o caso do estudo de Haan,
Smith, e Block (1968), em que se verificou que são os indivíduos situados nos
estádios morais mais elevados e nos estádios morais mais baixos que apresentam
condutas morais efectivas (activismo político e desobediência civil,
respectivamente), não se tendo verificado tal situação nos indivíduos situados
nos estádios médios e intermédios. Apoiando-se nestes resultados, Mischel e
Mischel (1994) consideram difícil justificar uma forte ligação entre julgamento
moral e acção moral.
A consistência moral
Partindo nós do pressuposto da existência de uma relação positiva entre o
pensamento moral e a acção moral, recolocamos a questão: O que faz com que
certas pessoas não actuem em conformidade com aquilo que pensam ser correcto
fazer? Trata-se de uma interrogação que nos remete para a questão da
consistência e inconsistência moral e para a necessidade de definirmos estes
termos.
A inconsistência moral pode ser definida como uma descontinuidade ou
divergência entre o pensamento moral de uma pessoa e a sua conduta moral
efectiva. Esta descontinuidade não surpreende, mesmo alguns investigadores
filiados numa perspectiva desenvolvimentista. Erkut, Jaquette, e Staub (1981),
por exemplo, na sequência de estudos empíricos, concluem que um elevado nível
sócio-cognitivo nem sempre anda associado a um elevado ajustamento na conduta
social do indivíduo. O mesmo é dizer que um resultado moral elevado,
evidenciado numa entrevista reflexiva sobre situações hipotéticas, não basta
para predizer o funcionamento dos indivíduos em situações naturais de vida,
limitação que aliás também se verifica quando se atende exclusivamente a
variáveis de contexto: "nem o conhecimento da situação por si só, nem o
conhecimento do julgamento moral isolado são suficientes para predizer acções
morais" (id, pp. 10-11).
Entretanto, a inconsistência moral não surpreende de todo quem se situa no
quadro da aprendizagem social, já que aqui não se espera a existência de uma
forte relação entre o pensamento moral do indivíduo, ou melhor, entre a sua
expressão verbal, e a conduta moral efectiva (Mischel & Mischel, 1994).
Neste enfoque, advoga-se a especificidade da conduta moral. Aliás, estes
autores salientam que nos podemos não só confrontar com inconsistências entre a
cognição e a acção moral, como, também, com inconsistências na própria conduta
e, ainda, com inconsistências no próprio pensamento. Consoante as situações e
as circunstâncias, assim se pode apresentar quer o pensamento moral dos
indivíduos, quer o seu comportamento moral, já que estes variam com a variação
das motivações e incentivos, e mesmo com alterações sociais de natureza socio-
económica e com a educação recebida (Mischel & Mischel, 1994).
Em todo o caso, do lado da abordagem desenvolvimental da moralidade, Blasi
(1980), que reviu 75 estudos sobre a relação entre o julgamento moral, avaliado
maioritariamente pela entrevista de Kohlberg, e o comportamento, verificou que
em 57 deles se encontraram relações significativas entre as duas variáveis.
Também Rest, Thoma, e Barnett, com base na revisão de estudos que relacionavam
o juízo moral, avaliado pelo questionário de avaliação moral de Rest (DIT), com
medidas de comportamento, concluem que "parece razoável assumir que o
julgamento moral está ligado ao comportamento" (1986, p. 135).
Deve destacar-se que esta foi uma questão a que Kohlberg e colaboradores
prestaram particular atenção, tomando-a como objecto de investigação empírica.
Foi na sequência destes estudos que Candee e Kohlberg (1987) concluíram que é
de esperar uma relação positiva entre estádio moral e acção moral, mas apenas
se um ou ambos os juízos mediadores desta relação estiverem presentes. Atribuem
a qualidade de juízos mediadores desta relação, aos juízos deônticos e aos
juízos de responsabilidade. Os primeiros decidem sobre o que é correcto e o que
não o é; os segundos decidem sobre o prosseguimento do que foi julgado correcto
(follow-through), têm a função de decidir sobre o prosseguimento na acção com o
julgamento deôntico que foi feito.
A propósito da questão da consistência entre o pensamento moral e a acção, tem
sido habitual invocar os resultados do polémico estudo de Milgram (1963, 1965,
1974, cit. por Vala & Monteiro, 2004) sobre a obediência à autoridade. Os
resultados obtidos neste estudo mostraram que dos 40 sujeitos intervenientes na
experiência, 26 chegaram a aplicar a outro o máximo de voltspossível e que 86%
dos sujeitos obedeceram à autoridade, contrariando a sua posição face à mesma.
Kohlberg e Turiel (1971), porém, verificaram que os indivíduos com um
raciocínio moral de nível mais elevado tendem a recusar mais frequentemente a
aplicação a outro de choques eléctricos, desobedecendo, assim, à autoridade.
Aliás, já estudos anteriores tinham mostrado que os indivíduos de níveis
inferiores de raciocínio moral tendem a obedecer à autoridade, enquanto os
indivíduos de níveis de raciocínio moral mais elevados tendem a desobedecer à
autoridade, contrariando a influência e a pressão social. Berkeley (1964,
referido por Kohlberg & Turiel, 1971) confirmou esta ideia ao verificar que
os sujeitos que aceitam aplicar os choques eléctricos a outros se situam nos
níveis mais baixos de juízo moral e que apenas alguns destes se situam nos
Estádios 3 e 4 de moralidade. Face a estes resultados, o que se pode dizer
"é que um baixo nível de juízo moral é um factor que, entre outros,
contribui para o comportamento anti-social" (Carita, 2005, p.151). Em
suma, pode concluir-se que, face à evidência de as pessoas com um raciocínio
moral mais elevado apresentarem maiores índices de consistência entre a
cognição moral e a acção moral, é legítimo supor que se trata de pessoas que
mais facilmente põem em prática juízos de responsabilidade, ou seja, que
traduzem em acção efectiva o que julgam ser as suas obrigações morais (Blasi,
1980, 1994a; Candee & Kohlberg, 1987; Kohlberg & Candee, 1992).
Para terminarmos, observe-se que, na sequência da sua meta-análise, Blasi
(1980) salienta que, a propósito da relação entre o juízo e acção morais, têm
sido utilizadas duas significações diferentes e ambíguas do termo consistência.
A primeira definição, segundo ele, pode ser chamada de "traço de
consistência": esta remete, não só para a tendência para se agir de forma
semelhante em momentos e situações diferentes, como, também, para a tendência
de, no mesmo indivíduo, vários traços permanecerem juntos, formando, assim,
traços super ordenados. Esta é a significação que podemos ver espelhada nos
argumentos proferidos por Mischel e Mischel (1994). A segunda definição remete
para o acordo entre as declarações dos indivíduos sobre as suas acções e as
suas próprias acções. Esta noção de consistência, designada por Blasi de
"consistência pessoal", aponta para uma visão processual da mesma.
É, aliás, no quadro desta segunda concepção que temos vindo a abordar a questão
da relação entre o juízo e a acção moral e é também neste sentido que ela é
tomada no nosso estudo empírico.
Em todo o caso, a polémica em torno da relação entre juízo moral e acção moral
está longe de se encontrar suficientemente esclarecida, como aliás sucede sobre
a relação entre cognição e acção fora do âmbito da moralidade. Maclean, Walker,
e Matsuba (2004), por exemplo, observam que o grau de consistência não pode
mascarar o facto de um indivíduo poder ter um raciocínio de nível pós-
convencional e continuar a ser imoral no comportamento. Interessa, pois,
prosseguir a investigação empírica sobre a dinâmica da acção moral consistente.
PROBLEMÁTICA
O problema em análise diz respeito à dinâmica da consistência moral, ou seja, à
dinâmica do acordo entre o pensamento moral e a acção moral; trata-se de
averiguar que factores interferem naquela dinâmica de modo a favorecerem que o
sujeito faça efectivamente o que julga que deve ser feito, quando em situação
de conflito moral hipotético. É pois central na pesquisa a procura de
aprofundamento da compreensão da dinâmica da acção moral consistente, tendo-se
recorrido para o efeito à consideração de variáveis de natureza cognitiva
(Indicador de Estádio Moral) e afectiva (Satisfação Perspectivada com a prática
da acção julgada justa).
A abordagem da Cognição Moral e da Consistência Moral foi operacionalizada nos
termos que se passa a apresentar. Assim, relativamente à Cognição Moral, tomou-
se como seu indicador a variável que designámos de Indicador de Estádio Moral
(IEM), medida nos termos que adiante se esclarecem. Relativamente à
Consistência Moral (CM), concorreram para a sua averiguação a consideração de
duas outras variáveis, digamos, instrumentais, a saber, a Intenção de Acção
(IA) e a Determinação para a Acção (DA). Deste modo, apoiados nestas variáveis
instrumentais, e estando em jogo a escolha entre roubarou não roubar o
medicamento, tomou-se por Consistência Moral, num primeiro momento, a
verificação de concordância entre a acção escolhida pelo sujeito no contexto do
seu juízo deôntico (o que deve fazer o Henrique?) e o conteúdo da intenção de
acção, ou seja, a acção escolhida no contexto do seu juízo de responsabilidade
(o que faria eu se estivesse no lugar do Henrique?), concordância associada à
escolha de um dos primeiros níveis de Determinação para a Acção (1, 2, 3 ou 4).
Tratou-se de apurar a Consistência A (CA). Num segundo momento, foi apurar-se
um nível muito acentuado de consistência, a Consistência B (CB), assente na
verificação cumulativa de consistência entre as orientações das acções
afirmadas no contexto do juízo deôntico e do juízo de responsabilidade e um
Nível 5 de Determinação para a Acção. Finalmente, tomou-se por Inconsistentes
(I) os participantes que não caem em nenhuma das condições anteriormente
definidas.
Tratou-se de operacionalizar empiricamente a tese segundo a qual a relação
entre julgamento moral e acção moral só acontece se um ou ambos os julgamentos
mediadores dessa relação estiverem presentes, ou seja, se estiverem presentes o
julgamento deôntico, ou seja, o juízo sobre o dever ser universal, e o
julgamento de responsabilidade, ou seja, o juízo em que me envolvo e afirmo o
meu compromisso com a afirmação universal (Candee & Kohlberg, 1987).
Com vista à abordagem do problema, foram definidos quatro objectivos
principais, a saber:
(1) averiguar a relação entre a Cognição Moral, medida através do Indicador de
Estádio Moral e a Consistência Moral; (2) averiguar a relação entre a variável
afectiva Satisfação Perspectivada com a Acção (SPA) e a Consistência Moral; (3)
averiguar o efeito mediador desempenhado pela variável Satisfação Perspectivada
com a Acção na relação entre a Cognição Moral e a Consistência Moral. Embora
com um estatuto menos central comparativamente aos objectivos acima referidos,
também se pretendeu (4) averiguar como se distribui a amostra segundo as
variáveis Estádio Moral, Consistência Moral e Satisfação Perspectivada com a
Acção e, ainda, segundo as varáveis sócio demográficas, Idade e, ou
Escolaridade e Género, bem como a relação destas últimas com a Consistência
Moral. Finalmente, pretendeu-se (5) averiguar num modelo estatístico conjunto a
contribuição relativa de cada variável preditora considerada para a explicação
da variabilidade da variável critério, a Consistência Moral.
Adicionalmente, também nos interessa perceber se os estádios de desenvolvimento
moral, além de definirem a dimensão cognitiva da moralidade da justiça, também
predizem, como alguns autores defendem (Blasi, 1980; Hardy & Carlo, 2005;
Kohlberg & Candee, 1992), a orientação da acção moral, ou, ao menos, a
intenção e a determinação do agir moral.
Entretanto, dada a inserção da pesquisa nos estudos a que fizemos referência
nas secções anteriores e considerando os resultados neles obtidos (por exemplo,
Aquino & Reed, 2002; Blasi, 1980, 1994a, 1999; Blasi & Milton, 1991;
Hardy & Carlo, 2005), operou-se na investigação com um conjunto de
hipóteses, que de seguida se enunciam.
As hipóteses
Alguns estudos evidenciaram inconsistência entre a cognição e a acção moral. É
o caso, por exemplo, do estudo sobre a obediência à autoridade de Milgram.
Porém, estudos de matriz desenvolvimentista concluíram que, à medida que o
desenvolvimento moral aumenta, aumenta também a consistência entre a cognição
moral e a acção moral, já que se verificou que as pessoas com um raciocínio
moral mais elevado apresentam maiores índices de consistência entre a cognição
moral e a acção moral (Candee & Kohlberg, 1987; Kohlberg & Candee,
1992). Então, a partir desta evidência, podemos supor que estas pessoas põem
mais frequentemente em prática os seus juízos de responsabilidade, ou seja, são
pessoas mais determinadas em seguir em frente com o que julgam ser as
obrigações morais, em agir de acordo com o que pensam ser a forma mais correcta
de acção (Blasi, 1980, 1994a; Candee & Kohlberg, 1987; Kohlberg &
Candee, 1992).
Posto isto, esperamos, então, que a Cognição Moral, traduzida em termos do
Indicador de Estádio Moral, esteja positivamente relacionada com a Consistência
Moral. Dito de outro modo, espera-se que os sujeitos com IEM menos elevado se
apresentem menos consistentes do que os indivíduos com IEM mais elevado e que
estes, por sua vez, se apresentem moralmente mais consistentes que os restantes
(Hipótese 1). No quadro desta hipótese, o Indicador de Estádio Moral goza do
estatuto de variável preditora e a Consistência Moral o estatuto de variável
critério.
Entretanto, no quadro das contribuições do modelo da aprendizagem social para a
compreensão da dinâmica da acção moral, salientámos o advogado efeito das
consequências esperadas com a acção nesta última variável e mostrámos a
pertinência da invocação da expectativa de recompensa afectiva.
Assim, em consonância com aquele enfoque, tomou-se a expectativa de satisfaçãoa
obter com a adopção de um agir moral como uma recompensa e, assim, como uma boa
variável preditora da acção moral e da determinação para a acção moral. Trata-
se, aliás, de explorar uma componente emocional da acção moral, até porque,
segundo Blasi (1999), parece haver razões para supor que algumas emoções
determinam as acções morais.
Então, tendo em conta estes postulados, parece legítimo esperar que a
Satisfação Perspectivada com a Acção contribui para a Consistência Moral dos
sujeitos (Hipótese 2). Dito de outro modo, esperamos no quadro desta segunda
hipótese que os sujeitos que perspectivam obter uma maior satisfação decorrente
da acção moral, sejam também os que apresentam e põem em prática juízos de
responsabilidade coerentes com o que julgam ser a obrigação moral, isto é, com
os seus juízos deônticos (Blasi, 1980, 1994a; Candee & Kohlberg, 1987;
Kohlberg & Candee, 1992). No quadro desta hipótese, a Satisfação
Perspectivada com a Acção goza do estatuto de variável preditora e a
Consistência Moral o estatuto de variável critério.
Também nos interessou averiguar se a variável emocional em causa, a SPA,
interfere de algum modo na relação entre a cognição e a acção, se exerce nessa
relação um papel mediador, eventualmente perturbador daquela esperada
associação. Formulámos, por isso, a nossa Hipótese 3, de acordo com a qual
esperamos que a relação entre a Cognição Moral e a Consistência Moral seja
tanto mais elevada quanto maior for o nível de Satisfação Perspectivada com a
Acção. No contexto desta averiguação, assume-se como variável mediadora a
Satisfação Perspectivada com a Acção e como variáveis independente e
dependente, respectivamente, a Cognição Moral, medida através do Indicador de
Estádio Moral e a Consistência Moral.
A Idade e a Escolaridade são variáveis com elevado valor preditor no campo da
moralidade, tendo-se verificado que um aumento da Idade e da Escolaridade está
associado a mais desenvolvimento da cognição moral (Colby & Kohlberg,
1987). Acresce que, no quadro do mesmo enfoque da moralidade, a cognição e a
acção moral são variáveis vistas como associadas, não obstante os problemas que
persistem na explicação empírica de tal associação.
Parece então legítimo esperar que, se a Idade e a Escolaridade se relacionam
positivamente com o desenvolvimento da cognição moral, e se cognição e acção
moral são duas componentes articuladas da moralidade, então a Idade e a
Escolaridade também permitem predizer a consistência moral (Hipótese 4). Dito
de outro modo, esperamos, no quadro desta quarta hipótese, que mais
escolaridade esteja associada a mais consistência moral. Esclareça-se que no
presente estudo empírico tomaremos apenas a Escolaridade como variável
preditora, em virtude de a Idade e a Escolaridade se apresentarem, em regra,
associadas nos estudos sobre a cognição moral que vimos referindo. Assim sendo,
doravante apenas nos referiremos à variável Escolaridade.
O Género é a outra variável sócio demográfica considerada no estudo. Ela induz,
no entanto, uma postura predominantemente exploratória, razão pela qual não
haverá lugar à formulação de hipótese. Na verdade, nem a teoria, nem os
resultados empíricos invocados, legitimam a formulação de uma expectativa clara
sobre esta questão do estudo.
MÉTODO
É o objecto desta secção a caracterização dos participantes, bem como das
medidas e procedimentos utilizados.
Participantes
Participaram neste estudo 156 sujeitos, rapazes (80) e raparigas (76), com uma
média de idades de 15.51, frequentando o 8º (75) e o 11º (81) anos de
escolaridade (Quadro 1). Optou-se, pois, por desenvolver a pesquisa junto de
adolescentes, tomando-se os níveis escolares intermédios dos dois ciclos de
escolaridade que a maioria frequenta. A amostra foi seleccionada com base nos
sujeitos que constituíam a as turmas de 8º e 11º anos de uma escola pública do
Concelho de Cascais, Distrito de Lisboa, nos níveis escolares escolhidos e nas
idades que a eles estão associados. A escolaridade dos pais e mães dos
participantes situa-se, predominantemente, até ao 9º ano de escolaridade.
QUADRO 1
Distribuição dos participantes em função da escolaridade, idade e género
Medidas
O instrumento usado para a recolha de informação foi um questionário criado
para o efeito (Carita, 2005), a partir da entrevista original de Colby e
Kohlberg (1987a,b), mais concretamente a partir do dilema vida/lei, o dilema de
Heinz, que passamos a designar por dilema de Henrique. Este dilema coloca o
sujeito perante a escolha entre dois valores conflituantes, um remetendo para o
valor vida e outro para o valor lei, e entre duas orientações de acção, roubar
ou não roubar o medicamento.
Tendo em conta os objectivos visados no presente estudo foram seleccionadas
duas questões iniciais do Dilema de Henrique (Colby & Kohlberg, 1987), que
traduzimos para português, a que foram acrescentadas três questões.
Assim, o questionário divide-se em duas partes distintas. A primeira parte visa
a avaliação do juízo moral e é composta por duas questões. A primeira questão
apresenta um formato fechado, tendo o sujeito que optar por uma de duas acções
- Roubarou Não Roubar o Medicamento; a segunda, apresenta um formato
aberto, tendo o sujeito que justificar a sua opção inicial, invocando um juízo
deôntico. Desta forma, as questões são:
1) Quanto a si, qual a acção mais correcta queo Henrique devia tomar?2) Porquê?
Justifique a sua escolha.
Com vista à avaliação do juízo moral, o material de resposta à primeira parte
do questionário foi dividido em unidades discretas, os designados juízos de
questionário. Estes juízos consistem em afirmações onde a pessoa opta por um
certo valor e justifica esta escolha com a invocação de uma determinada norma,
norma que é justificada, por sua vez, pela invocação de um determinado elemento
moral. Em concreto, e tendo como referência as instruções do Measurement of
Moral Judgmentde Colby e Kohlberg (1987), a tarefa consistiu em procurar o
juízo critérioa que correspondesse cada um dos juízos de
questionáriopreviamente identificados, sendo que os juízos-critério são uma
espécie de juízos-modelo que tipificam os Estádios Morais, os puros e os de
transição. Atendendo a que utilizámos apenas um dilema moral no nosso
questionário, simplificação que noutros contextos de avaliação desenvolvimental
se pratica (Schultz, Yeats, & Selman, 1989), preferimos designar o
resultado da avaliação por Indicador de Estádio Moral em vez de Estádio Moral.
A segunda parte do questionário é constituída por três questões e tem por
referência o mesmo dilema e as respostas do participante à primeira questão da
primeira parte. É agora proposto ao participante que se coloque no lugar do
Henrique (juízo de responsabilidade), com o objectivo de se aferir (a) qual o
conteúdo da intenção de acção do sujeito, roubar ou não roubar o medicamento,
(b) qual o seu nível de determinação para a levar por diante e (c) qual o grau
de satisfação perspectivada pelo sujeito, em função da perspectiva de efectiva
execução da acção. A primeira questão desta parte tem um formato fechado, tendo
o sujeito que optar por uma de duas opções de acção (Roubarou Não Roubar); a
segunda tem um formato tipo Likert de cinco níveis; a terceira é de igual
formato, mas de quatro níveis. Saliente-se que as questões relativas à intenção
de acção e ao nível de determinação para a levar por diante são instrumentais
relativamente à aferição da Consistência Moral dos participantes, como deriva
da definição desta variável apresentada na secção Problemática. Assim, as
questões são as seguintes:
3) Se estivesse no lugar do Henrique, qual seria a acção que tomava? Roubava ou
não roubava o medicamento?
4) Até que ponto estaria você decidido a fazer a acção pela qual optou na
questão anterior: muito decidido a fazê-la; decidido a fazê-la; indeciso quanto
a fazê-la; decidido a não fazê-la; muito decidido a não fazê-la.
5) Como iria sentir-se consigo próprio se fizesse a acção pela qual optou: ia
sentir-me muito bem comigo próprio; ia sentir-me bem comigo próprio; ia sentir-
me mal comigo próprio; ia sentir-me muito mal comigo próprio.
Para a atribuição do nível de Determinação para a Acção - até que ponto
estaria você decidido a fazer a acção pela qual optou na questão anterior?
-foram atribuídos os pontos 5, 4, 3, 2, e 1, respectivamente, às opções
muito decidido a fazê-la, decidido a fazê-la, indeciso em fazê-la, decidido a
não fazê-la e muito decidido a não fazê-la. Para a atribuição do nível de
Satisfação Perspectivada com a Acção - como iria sentir-seconsigo próprio
se fizesse a acção pela qual optou? -, foram atribuídos os pontos 4, 3, 2
e 1, respectivamente, às opções ia sentir-me muito bem comigo próprio, ia
sentir-me bem comigo próprio, ia sentir-me mal comigo próprio, ia sentir-me
muito mal comigo próprio. Para a atribuição dos níveis de Consistência Moral
procedeu-se de acordo com o que foi apresentado na secção Problemática.
Procedimentos
A aplicação do questionário foi realizada em sala de aula, tendo sido
solicitado aos alunos silêncio e respeito pela privacidade de cada uma na
elaboração das suas respostas. Estas condições foram suficientemente
conseguidas, tendo durado a aplicação aproximadamente 15 minutos.
Os alunos foram previamente convidados a participar no estudo durante uma das
suas aulas, tendo-lhes sido explicado que se tratava de responder a um
questionário que tinha como objectivo recolher informação para a realização de
uma pesquisa sobre o modo como os adolescentes pensam sobre algumas questões
morais. Foi sublinhada a confidencialidade dos dados e o facto de não haver
respostas certas nem erradas.
Na sessão de aplicação do questionário, antes do início de realização da
tarefa, prestaram-se os esclarecimentos e instruções julgados úteis. Após estes
esclarecimentos, foi distribuído pelos participantes o dilema de Henrique. O
experimentador solicitou que todos os participantes acompanhassem em leitura
silenciosa a história que ele leu em voz alta. Terminada a leitura solicitou-se
que alguém do grupo recontasse a história que tinha acabado de ser lida e
perguntou-se se não havia dúvidas sobre o que acabara de ser lido e recontado.
Prestou-se, quando necessário, um ou outro esclarecimento, e passou-se de
seguida à aplicação do questionário, tendo sido esclarecidas algumas dúvidas
que surgiram no decorrer da realização da tarefa.
No que respeita ao tratamento dos dados, quando em presença de variáveis
ordinais, como geralmente sucedeu, e para a averiguação da correlação entre
elas, foi utilizado o teste Coeficiente de Correlação Ordinal de Spearman.
No caso da relação entre as variáveis Género e Consistência Moral, procedeu-se
à comparação de médias das ordens entre dois grupos independentes, com recurso
ao teste Mann-Whitney
Passemos, agora, à apresentação dos resultados obtidos.
RESULTADOS
Na presente secção começaremos por dar conta do modo como se distribui a
amostra segundo o Indicador de Estádio Moral, a Consistência Moral e a
Satisfação Perspectivada com a Acção, atendendo à totalidade da amostra e,
também, aos grupos definidos pelas variáveis Escolaridade e Género.
Apresentaremos de seguida, em primeiro lugar, os resultados relativos ao
apuramento da esperada relação entre o Indicador de Estádio Moral e a
Consistência Moral (Hipótese 1); em segundo lugar, os resultados relativos à
esperada associação entre a Satisfação Perspectivada com a Acção e a
Consistência Moral (Hipótese 2), bem como ao papel mediador daquela variável
afectiva na relação entre a Cognição Moral e a Consistência Moral (Hipótese 3).
Apresentaremos de seguida os resultados relativos à esperada relação entre a
Escolaridade e a Consistência Moral (Hipótese 4), bem como os decorrentes da
questão exploratória sobre a associação entre Género e Consistência.
Finalmente, daremos conta dos resultados relativos à análise da contribuição
conjunta das variáveis Indicador de Estádio Moral, Satisfação Perspectivada com
a Acção, Escolaridade e Género na Consistência Moral.
Distribuição das variáveis
Relativamente à distribuição dos Indicadores de Estádios Morais (IEM), um
primeiro aspecto a destacar diz respeito ao facto de 50% dos sujeitos (78) se
terem situado no IEM 3, distribuindo-se os restantes 50% (78) pelos IEM 1
(11.5%), 2 (17.9%) e 4 (2.6%) e pelos indicadores intermédios 1/2 (0.6%), 2/3
(8.3%) e 3/4 (8.9%). Ou seja, foi no IEM 3 que o maior número de sujeitos se
situou (Quadro 2).
Esta prevalência de sujeitos no IEM 3 verificou-se quer no grupo do 8º ano
(45.3%), quer, e de modo mais expressivo, no do 11º ano (54.3%). Destaque-se
ainda que, enquanto 4.0% dos sujeitos do 8º ano se situou acima do IEM 3, no
grupo do 11º ano essa percentagem foi de 18.8.
Se observarmos os resultados do ponto de vista do Género, também podemos
concluir que a localização prioritária no IEM 3 se verificou tanto para o grupo
das raparigas (42.1%) como, e de modo mais expressivo, para o dos rapazes
(53.8%). Destaque-se, ainda, que foram os rapazes que se situaram em maior
percentagem no IEM 3 ou acima deste, com 62.6% dos sujeitos e as raparigas com
56.5%.
QUADRO 2
Distribuição dos indicadores dos estádios morais pela escolaridade, género e na
totalidade da amostra
Diga-se que, na avaliação do IEM, o índice de concordância inter-juízes
alcançado foi de .875, resultado que, no contexto empírico da pesquisa, confere
um elevado grau fiabilidade à atribuição do nível de raciocínio moral.
Relativamente à distribuição da Consistência Moral, verificou-se que a maior
parte dos participantes, 122 dos 156, se apresentou consistentes (78.2%) e 34
inconsistentes (21.8%). Os consistentes distribuem-se do seguinte modo: 74
apresentou CA (47.4%) e 48 apresentou CB (30.8%) (Quadro 3).
Quanto à distribuição da Consistência em função da escolaridade, verificou-se
que apenas no grupo dos mais consistentes (CB) a diferença entre os dois grupos
escolares se apresenta expressiva: o grupo mais escolarizado, quando comparado
ao menos escolarizado, apresenta quase o dobro de sujeitos CB, com 30 no grupo
de 11º ano (37.0%) e 18 no grupo de 8º ano (24.0%).
Na distribuição da Consistência em função do Género, verificou-se que no grupo
intermédio de consistência (CA), os dois grupos apresentam uma distribuição
semelhante, com 35 participantes do grupo dos rapazes (43.8%) e 39 das
raparigas (51.3%). Já no grupo dos mais consistentes (CB), verifica-se uma
maior participação de rapazes (34) do que de raparigas (14), com as
percentagens, 42.5% e 18.4%, respectivamente. Relativamente aos inconsistentes
(I) a presença das raparigas (23) é bastante superior à dos rapazes (11), o se
que se traduz nas percentagens de 30.3% e 13.7%, respectivamente.
Relativamente à distribuição da Satisfação Perspectivada com a Acção (SPA), a
mediana obtida pelo total de sujeitos foi de 3.00, o que constitui um resultado
positivo, tendo em conta os quatro níveis crescentes de possibilidade de
resposta. As medianas de SPA apresentam-se iguais nos grupos do 8º e 11º anos
de escolaridade, sendo o valor de 3.00 para os dois grupos. O mesmo acontece
com as medianas de SPA obtidas no cruzamento com a variável Género.
Cognição moral e consistência moral
Nesta secção daremos conta dos resultados relacionados com uma questão central
da pesquisa, a da relação entre a Cognição Moral, medida através do Indicador
de Estádio Moral, e a Consistência Moral, expressa nos níveis de
Inconsistência, Consistência A e Consistência B.
Numa leitura em linha dos resultados obtidos deve destacar-se, por um lado, a
verificação esperada de alguns deles, mas, por outro lado, o carácter não
linear do seu padrão de distribuição (Quadro 4).
Assim, comecemos por salientar que, como seria de esperar, é no grupo dos
sujeitos de IEM 1 que se concentra a maior percentagem de inconsistentes
(77.8). Acresce que a percentagem de inconsistentes desce no grupo dos sujeitos
com IEM 1/2, 2, 3 e 3/4, mas, por um lado, tem uma subida expressiva no grupo
com IEM 2/3 (30.8%) e, por outro lado, no estádio mais elevado, o IEM 4
regista-se uma elevada percentagem de inconsistentes (75.0), ainda que se possa
dizer que neste estádio se localiza um número residual de sujeitos (apenas 4).
QUADRO 3
Distribuição da consistência pela escolaridade, género e na totalidade da
amostra
QUADRO 4
Distribuição dos indicadores dos estádios morais pelos diferentes níveis de
consistência
Relativamente ao nível intermédio de consistência, a CA, e comparativamente com
os 16.7% no IEM 1, a percentagem de participantes sobe expressivamente e mantém
uma relativa constância, próxima dos 57%, nos IEM 2, 3 e 3/4. Em consonância
com o que se observou no parágrafo anterior para os inconsistentes, também é de
salientar agora nos CA o relativo desvio deste padrão de regularidade no caso
do grupo de sujeitos com IEM 2/3 que desce cerca de 10 pontos (46.2%), mas,
sobretudo, no grupo com IEM 4, dos quais apenas 25% se apresenta CA, ainda,
que, como já se referiu, se trate de um número residual de sujeitos.
Relativamente ao nível superior de consistência, a CB, é de salientar que o
grupo definido pelo IEM 1 encontra aqui a mais baixa expressão (5.6%).
Portanto, relativamente ao grupo de sujeitos do IEM1 pode dizer-se que a
distribuição dos sujeitos pelos níveis de consistência é tanto menor quanto
mais elevado o nível da consistência. Por outro lado, se fizermos abstracção do
que se passa com o IEM 1/2, que apenas tem 1 sujeito, podemos dizer que a
percentagem de sujeitos CB vai subindo à medida que se sobe nos estádios de
desenvolvimento moral, com 28.6% de CB em IEM 2, 37.2% em IEM 3 e 42.9% em IEM
3/4. Mais uma vez, e em consonância com as observações feitas nos parágrafos
anteriores, o grupo do IEM 2/3 altera a regularidade deste padrão, aqui de um
modo mais ligeiro, descendo 5 pontos relativamente ao resultado do estádio
imediatamente anterior.
Portanto, relativamente aos grupos em que se concentra a maioria da amostra, os
quais correspondem aos níveis intermédios de desenvolvimento moral, IEM 2, 2/
3 e 3, e por oposição ao que passa no nível mais baixo, o IEM 1, a tendência é
de prevalência dos CA sobre os I, portanto do nível de consistência mais
elevado. No IEM 1 a percentagem dos consistentes tende a ser baixa, registando-
se maior percentagem de I do que de CA e, sobretudo, de CB.
Entretanto, o recurso ao Coeficiente de Correlação Ordinal de Spearman
confirma-nos que as variáveis Indicador de Estádio Moral e Consistência Moral
estão significativa e positivamente associadas [r(156)=.265; p= .001], ainda
que se trate de uma correlação pouco elevada.
Satisfação perspectivada com a acção e consistência moral
Nesta secção daremos conta dos resultados relacionados com uma outra questão
central da pesquisa, a da relação entre a variável afectiva Satisfação
Perspectivada com a Acção (SPA), expressa através dos respectivos Níveis 1, 2,
3 e 4, e a Consistência Moral, expressa nos níveis de Inconsistência,
Consistência A e Consistência B, resultados apresentados no Quadro 5.
QUADRO 5
Distribuição dos níveis de satisfação perspectivada com a acção pelos
diferentes níveis de consistência
A distribuição dos inconsistentes (I), após ser praticamente idêntica nos dois
primeiros níveis de SPA (30% e 31%, respectivamente, Nível 1 e 2 de SPA), tende
a diminuir nos dois níveis mais elevados desta, de tal modo que podemos dizer
que quanto mais elevado o nível de satisfação perspectivada menor a percentagem
de inconsistentes (17.6% e 14.8% nos Níveis 3 e 4 de SPA, respectivamente).
Relativamente à distribuição dos consistentes intermédios (CA) em função da
SPA, verificou-se um padrão de distribuição algo semelhante ao dos
inconsistentes, embora em todos os níveis de SPA tenhamos mais sujeitos CA do
que I. Na distribuição de CA, observa-se que os seus valores tendem para uma
progressiva diminuição à medida que se sobe nos valores da SPA. Assim, a CA
apresenta-se com os valores de 60%, 53.3%, 52.7% e 18.5%, respectivamente, nos
Níveis 1, 2, 3 e 4 de SPA. Ou seja, parece que se pode concluir que mais
satisfação perspectivada não anda associada a mais consistência, nos termos em
que se definiu o nível intermédio desta variável (CA).
Relativamente à distribuição dos mais consistentes (CB) em função da SPA,
observa-se que a sua percentagem tende para um aumento progressivo à medida que
se sobe nos valores da SPA. Assim, a CB apresenta-se com os valores de 10%,
15.6%, 29.7% e 66.7%, respectivamente, nos Níveis 1, 2, 3 e 4 de SPA. Ou seja,
parece que se pode concluir que mais satisfação perspectivada anda associada a
mais consistência, nos termos em que se definiu o nível superior desta variável
(CB).
Vale a pena sublinhar que nos dois primeiros níveis de SPA, os inconsistentes
são mais do que os CB (30% e 31.1% de inconsistentes para 10% e 15.6% dos
consistentes mais elevados, respectivamente nos Níveis 1 e 2 de SPA), ao passo
que, nos dois últimos níveis de SPA, os CB são mais do que os I (17.4% e 14.8%
de I, para 29.7% e 66.7% de CB, respectivamente nos Níveis 3 e 4 de SPA).
Entretanto, o teste de Coeficiente de Correlação Ordinal de Spearman permitiu
verificar que as variáveis Satisfação Perspectivada com a Acção e Consistência
Moral estão associadas significativa e positivamente [r(156)=.325; p<.001],
embora não se trate de uma correlação elevada. Parece, então, poder concluir-se
que quanto maior o nível de Satisfação Perspectivada com a Acção, mais
Consistência Moral, especialmente nos termos definidos como CB.
Papel mediador da satisfação perspectivada com a acção na dinâmica da
consistência moral
A verificação do papel mediador da Satisfação Perspectivada com a Acção (SPA)
na relação entre a cognição e a consistência moral, requer a verificação prévia
de associação positiva daquela variável com cada uma das duas outras. Ora,
relativamente à relação entre a SPA e o IEM, o recurso ao Coeficiente de
Correlação Ordinal de Spearman, mostra-nos que estas variáveis não se
correlacionam significativamente entre si [r(156)=.034; p=.675].
Deste modo, este resultado inviabilizou o prosseguimento da pesquisa sobre o
papel mediador da SPA na relação entre a Cognição e a Consistência Moral, já
que entre aquelas duas variáveis não se detectou uma associação significativa,
condição estatística necessária à análise da mediação.
Variáveis demográficas e consistência moral
Apresentam-se, agora, os resultados relativos à averiguação da relação das
variáveis Escolaridade e Género com a Consistência Moral.
Os resultados, com recurso ao Coeficiente de Correlação Ordinal de Spearman,
indicam que a Escolaridade e a Consistência Moral não se correlacionam entre si
[r(156)=.282; p=.082]. Já a comparação entre rapazes e raparigas em função da
consistência, permitiu verificar a existência de diferenças significativas
entre os dois grupos, com as raparigas a apresentarem valores centrais de
consistência mais baixos do que os obtidos pelos rapazes (U=2120.0; p=.000)
As variáveis cognitiva, afectiva e demográficas e a consistência moral
Finalmente, procedeu-se a uma análise de regressão linear, com vista a
averiguarmos num modelo integrador das quatro variáveis, Indicador de Estádio
Moral, Satisfação Perspectivada com a Acção, Escolaridade e Género, a sua
contribuição para a Consistência Moral.
Refira-se, em primeiro lugar, que se verificou que todas as variáveis, com
excepção da Escolaridade, contribuem para explicar a variabilidade na
Consistência Moral. Verificou-se, igualmente, que as restantes três variáveis,
a variável cognitiva, Indicador de Estádio Moral, a variável afectiva,
Satisfação Perspectivada com a Acção, e o Género, no seu conjunto, permitem
explicar 26% da variabilidade da consistência (R2=.259), um valor não atingido
por cada uma daquelas variáveis persi, quando associadas à consistência.
DISCUSSÃO DOS RESULTADOS
O desafio de raiz deste estudo residiu na intenção de contribuir para a
compreensão da dinâmica da acção moral consistente, definida como tal em função
do seu acordo com o conteúdo do juízo moral acerca do que deve ser feito, tal
como este juízo é produzido quando o sujeito se coloca na posição de sujeito
universal. No contexto desta intenção geral, a mobilização da variável
cognitiva, enquanto variável preditora, era incontornável. Porém, procurou-se
complexificar o modelo de análise integrando num quadro metodológico de
inspiração desenvolvimental, não só variáveis demográficas habituais nestes
estudos, como a escolaridade e o género, mas, também, uma variável de natureza
afectiva, tomando-a não só como variável preditora da acção moral, mas, também,
como variável mediadora da relação entre a cognição e a acção. Optou-se, deste
modo, por um estudo que, embora de inspiração cognitivo desenvolvimental,
considerou como variáveis preditoras não só a cognição, mas também o afecto, e
não apenas enquanto variáveis independentes, mas, também, em modelos mais
integrados de análise.
Podemos então dizer, de um modo mais preciso, que, por um lado, fomos averiguar
se o desenvolvimento moral (Indicador de Estádio Moral), as recompensas
antecipadas (Satisfação Perspectivada com a Acção), a Escolaridade e o Género
permitem predizer a acção moral consistente. Por outro lado, procurámos
perceber o papel mediador da variável afectiva na relação entre a cognição e a
acção e, num modelo de análise integrada, qual a contribuição relativa de cada
variável considerada na predição da acção moral.
Podemos ainda dizer que, de um modo indirecto, também esteve em jogo perceber
se os estádios do desenvolvimento moral, tal como Kohlberg os entendeu, além de
definirem uma dimensão cognitiva e deôntica da moralidade centrada na justiça,
também predizem, como alguns autores defendem (Blasi, 1980; Hardy & Carlo,
2005; Kohlberg & Candee, 1992), a orientação da acção moral, ou, ao menos,
a intenção e a determinação do agir moral.
Entretanto, diversamente do que foi feito noutras investigações, não se tratou
de averiguar a relação entre desenvolvimento moral e condutas efectivas
(condutas pró-sociais, condutas políticas, etc.). O que se fez foi manter o
quadro metodológico característico das investigações desenvolvimentais; partiu-
se de um dilema moral hipotético utilizado por Kholberg na sua entrevista de
avaliação do desenvolvimento moral (o dilema de Henrique) e confrontou-se os
participantes, não só com a produção de um juízo deôntico de valor universal (o
que deve fazer o Henrique?), mas, também, com a produção de um juízo de
responsabilidade pessoal (o que faria efectivamente se estivesse no seu
lugar?). Portanto, operacionalizámos, no quadro da entrevista moral clássica, o
juízo de responsabilidade que Kolberg tinha avançada como um dos factores
determinantes, a par do juízo deôntico, da articulação coerente entre o
pensamento e a acção. Acresce que se procurou enriquecer o modelo de análise
com a integração de uma variável afectiva, ausente dos modelos
desenvolvimentais puros.
Vejamos, então, o que se pode concluir, relativamente às hipóteses formuladas.
A cognição moral e a consistência moral
A relação entre a Cognição Moral e a Acção Moral, ou, dito de outro modo, a
relação entre estádio moral e acção moral consistente, constituiu uma questão
central do estudo. Esta questão articulou-se com a hipótese segundo a qual a
Cognição Moral, expressa em termos de quatro níveis de Indicador de Estádio
Moral (IEM), estaria positivamente relacionada com a Consistência Moral,
expressa nos níveis de Inconsistência, Consistência A e Consistência B. Dito de
outro modo, esperava-se que os sujeitos com IEM menos elevado se apresentassem
menos consistentes do que os indivíduos com IEM mais elevado, e que estes, por
sua vez, se apresentassem moralmente mais consistentes que os restantes
(Hipótese1: H1).
Ora, os resultados obtidos não permitem uma conclusão linear. Não é legítimo
dizer, simplesmente, que a H1 se verificou, se bem que também não se possa
dizer o inverso, já que a correlação existe, embora não seja elevada. A
correlação entre cognição e acção moral consistentes verifica-se e é positiva,
mas, sendo a correlação fraca, não permite que se confie muito na expectativa
de que quanto mais estádio mais consistência. Não parece que o nível de
desenvolvimento moral de um indivíduo, nos termos em que foi avaliado na
presente pesquisa, nos prediga com muita segurança o seu nível de consistência
moral.
Entretanto, parece que o que mais contribui para a correlação positiva entre as
variáveis foi a elevada percentagem de participantes inconsistentes no nível
mais baixo de desenvolvimento moral, bem como a distribuição mais tendente à
consistência nos participantes que se localizam no IEM 3. O que parece fazer
baixar mais a correlação é, por um lado, um certo padrão irregular da
consistência nos IEM 2 e 2/3 e a existência de três dos quatro casos do mais
elevado nível de desenvolvimento moral, o IEM 4, como inconsistentes. Pode
dizer-se que o padrão de distribuição da consistência se realiza de acordo com
o que era esperado nos participantes dos IEM 1 e IEM 3, mas que apresenta
contradições nos estádios intermédios de desenvolvimento moral.
Em suma, o que parece poder concluir-se é que o desenvolvimento moral permite
predizer alguma coisa sobre a consistência, mas que não basta para se perceber
tudo o que nela interfere; em termos gerais, não se apresenta como uma variável
suficientemente confiável para predizer a consistência. Os IEM 1 e 3, permitem
predizer alguma coisa, mas nos IEM 2, 2/3, e mesmo 4, levantam-se dúvidas.
Diga-se que, como oportunamente referimos, a literatura sobre a relação entre
cognição e acção moral é controversa. Vários estudos evidenciaram
inconsistência entre a cognição moral e a acção moral, como é o caso, por
exemplo, do estudo de Milgram sobre a obediência à autoridade. Outros estudos,
pelo contrário, verificaram que, à medida que o desenvolvimento moral aumenta,
aumenta também a consistência entre a cognição moral e a acção moral (Candee
& Kohlberg, 1987; Kohlberg & Candee, 1992).
Note-se que a maioria destes últimos estudos procurou correlacionar a cognição
moral, medida no quadro das metodologias desenvolvimentais, com condutas morais
efectivas. A nossa metodologia é diferente, já que não sai do modelo
desenvolvimental clássico (produção de juízo deôntico a propósito de uma
situação hipotética), ao operacionalizar, no quadro desse modelo, o conceito de
juízo de responsabilidade (o que faria eu se estivesses exactamente naquela
situação?). Deste modo, o que se pode concluir é que, no quadro dos
procedimentos utilizados, os resultados obtidos apenas confirmam parcialmente a
evidência encontrada naqueles estudos (Blasi, 1980, 1994a; Candee &
Kohlberg, 1987; Kohlberg & Candee, 1992), de acordo com a qual são os
sujeitos de estádios morais mais elevados que mais facilmente põem em prática
os seus juízos de responsabilidade, ou seja, que dão continuidade, na acção,
aos juízos deônticos, seguindo no agir o que julgam ser as suas obrigações
morais.
Invoque-se aqui, a propósito da aparente insuficiência da variável cognitiva
para a predição da acção moral, os resultados obtidos por Erkut, Jaquette, e
Staub (1981) em pesquisas com referência desenvolvimental, com base nos quais
avançam que nem sempre a transferência directa para a prática social de um
elevado nível sócio-cognitivo se traduziria num elevado ajustamento social do
indivíduo, motivo que poderia explicar as inconsistências observadas. No quadro
de um outro enfoque, também Mischel e Mischel (1994) advogam que o
funcionamento moral é específico, idiossincrático e variável de situação para
situação. Em resposta a estes estudos, com os nossos resultados, o que se pode
dizer é que o nível de cognição moral contribui em alguma medida para a
consistência moral, mas que o seu poder preditor apresenta insuficiente
alcance.
Acrescente-se que, numa análise fina da relação entre julgamento moral e acção
moral, Candee e Kohlberg (1987) afirmam que esta relação apenas acontece se um
ou ambos dos seus julgamentos mediadores estiverem presentes, ou seja, se
estiverem presentes o julgamento deôntico (o juízo sobre o dever ser universal)
e o julgamento de responsabilidade (o juízo em que me envolvo e afirmo o meu
compromisso com a afirmação universal). Sobre esta questão, e tendo em conta
que a correlação encontrada entre as variáveis, embora positiva, é fraca,
torna-se difícil afirmar com segurança que à medida que a cognição moral
evolui, também evoluem as outras componentes determinantes da consistência
moral, nomeadamente, os Juízos de Responsabilidade, os quais, aliás, segundo
Aquino e Reed (2002) e Blasi (1994a), poderão ser mais fortes e eficazes se
enraizados na identidade moral dos sujeitos.
Em suma, e por extensão, os resultados não admitem que se pense com suficiente
segurança que os estádios morais incluem, não só uma dimensão cognitiva e
deôntica, mas, também, uma dimensão de responsabilidade e de determinação para
a acção moral. Não parece legítimo afirmar de modo simples e geral que os
estádios morais definem, além de um certo nível de juízo deôntico, uma certa
direcção para o agir moral, que contribuem tanto para compreender melhor o
significado moral da conduta dos sujeitos, como para a predizer. Em alguma
medida é possível estabelecer tais relações, mas apenas de um modo cauteloso e
parcelar, já que a cognição não parece representar uma variável suficientemente
robusta para a compreensão da dinâmica do agir moral.
A dinâmica afectiva da consistência moral
A relação entre afecto e acção moral consistente, ou, dito de outro modo, a
relação entre Satisfação Perspectivada com a Acção (SPA), expressa em quatro
níveis de satisfação, e a Consistência Moral, expressa em três níveis de
consistência (I, CA, CB), constituiu a segunda questão do estudo. Sublinhe-se
que a satisfação perspectivada foi entendida como uma recompensa decorrente da
acção moral ou, melhor, da intenção e determinação em agir moralmente.
Esta questão articulou-se com a segunda hipótese do estudo (H2), segundo a qual
a recompensa afectiva antecipada, a SPA, contribui para a consistência moral
dos sujeitos. Dito de outro modo, esperava-se, no quadro desta segunda
hipótese, que os sujeitos que perspectivam obter uma maior satisfação
decorrente da acção moral, fossem também os mais consistentes, isto é, os que
apresentam e põem em prática juízos de responsabilidade coerentes com o que
julgam ser a obrigação moral, isto é, com os seus juízos deônticos.
Os resultados obtidos confirmam de certo modo a hipótese formulada, podendo
dizer-se que é na distribuição dos participantes inconsistentes (I) e dos mais
consistentes (CB) que melhor se manifesta a expectativa de a menor nível de
satisfação antecipada corresponder menor percentagem de consistentes e de a
maior nível de satisfação antecipada corresponder maior percentagem de
consistentes. A distribuição dos consistentes intermédios (CB) apresenta um
padrão menos óbvio, o que eventualmente não será alheio ao facto de a
correlação encontrada, embora positiva, não ser muito forte. Em suma, embora
com alguma precaução, parece que podemos concluir que o nível de satisfação
esperada com a prática de uma acção moral permite predizer a intenção em
concretizar essa acção, ou seja, a intenção e determinação em actuar de acordo
com o julgado mais correcto.
Estes resultados parecem-nos compreensíveis à luz do que o enfoque da
aprendizagem social nos afirma sobre a importância concedida à recompensa, por
parte do agente activo, para a efectividade da acção, o que sublinha a relação
da acção moral com a estrutura das motivações e incentivos (Bandura, 1991;
Mischel & Mischel, 1994). Na verdade, de acordo com os resultados, parece
poder concluir-se que a perspectiva de obtenção de satisfação com a adopção de
uma acção que se julgou moralmente correcta, funciona como incentivo ou
motivação para a adopção efectiva dessa acção.
Em todo o caso, a dimensão afectiva considerada no presente estudo apresenta
uma conotação muito pragmática: é de uma recompensa afectiva antecipada que se
trata. Ora, a declaração Kantiana, assumida por Kholberg, segundo a qual para
que uma acção seja moralmente boa não basta que seja conforme à lei, mas tem,
também, de ser cumprida com devoção e amor a essa mesma lei, aponta para um
afecto mais próximo da orientação moral ideal e do tipo autónomo e menos da
orientação consequencialista e do tipo moral heterónomo. Deste modo, seria
interessante que em trabalhos futuros se procurasse uma operacionalização
empírica da variável afectiva mais conforme com a natureza das orientações e
tipologias moralmente mais sofisticadas. Como nos diz Blasi (1999), é
impossível conceber a vida moral de uma pessoa em que as emoções não
desempenhem um papel importante, pelo que se torna imperioso insistir na
averiguação desta dinâmica.
Entretanto, também nos interessou averiguar o papel mediador da satisfação
perspectivada na relação entre a cognição e a acção, questão traduzida na nossa
terceira hipótese (H3), de acordo com a qual se esperava que a relação entre a
Cognição Moral (IEM) e a Consistência Moral (CM) fosse tanto mais elevada,
quanto mais elevado fosse o nível de Satisfação Perspectivada com a Acção
(SPA).
Esta hipótese não se confirmou. Deve sublinhar-se que tal resultado advém,
desde logo, da inexistência de associação entre a Satisfação Perspectivada com
a Acção e o Indicador de Estádio Moral, associação requerida para que o
tratamento estatístico da procura da mediação fosse executável.
Sobre esta questão, queremos sublinhar que porventura a aposta numa
operacionalização mais complexa da variável afectiva, a que já atrás se aludiu,
poderá esclarecer melhor a dinâmica entre a cognição, o afecto e a acção no
campo moral. Especificando, poderá revelar-se interessante considerar, não
apenas os afectos mais próximos da orientação moral consequencialista e
pragmática, mas, também, os mais próximos das orientações morais mais
sofisticadas.
Variáveis demográficas e consistência moral
A distribuição da Consistência Moral em função da Escolaridade apresentou
insuficiente variabilidade, não se tendo confirmado a nossa H4. Com efeito,
apenas no grupo dos mais consistentes a diferença entre os grupos de 8º e 11º
anos apresentou alguma expressão, diga-se que a favor do grupo mais
escolarizado. Parece que a acção moral, ao contrário do desenvolvimento moral
avaliado nos termos classicamente propostos por Kholberg, não parece sofrer o
efeito da escolarização. Porventura níveis mais contrastantes de escolaridade
permitam observar um outro padrão de resultados. Porém, também porventura
possamos imaginar a acção moral consistente tão associada a um pensamento
intuitivo, emocional, quanto a um pensamento formal e, poderíamos talvez dizer,
escolar. Trata-se, aliás, de uma consideração igualmente subjacente à discussão
que se segue, sobre a relação entre Género e Consistência moral.
O estudo da moralidade feminina no quadro do modelo desenvolvimental clássico,
bem como a sua comparação com a moralidade masculina, tem suscitado bastante
polémica, nomeadamente à luz das críticas e propostas avançadas por Gilligan
(1982). Sucede que os resultados que obtivemos quanto à relação entre Género e
Consistência Moral, não permitem pacificar a questão. Na verdade, o que
obtivemos foi a verificação de diferenças significativas na consistência moral
entre rapazes e raparigas, com as raparigas a apresentarem valores centrais de
consistência mais baixos do que os dos rapazes.
Recorde-se que sobre esta questão exploratória não se levantou nenhuma
hipótese, em virtude de os estudos sobre o assunto, além de controversos, terem
sido orientados mais para a questão do nível do desenvolvimento, do que para a
questão da consistência moral. Em todo o caso, os resultados obtidos suscitam
igualmente as leituras de Gilligan (1982) sobre o tema da moralidade e dos
géneros. Na verdade, faz sentido invocar a sua alegação sobre a existência de
duas moralidades: uma moralidade mais assente na vivência de responsabilidades
em conflito, por oposição a uma outra mais assente em direitos que se disputam,
uma moralidade cujos problemas é suposto serem encarados por meio de um
pensamento contextual e narrativo, em contraste com a mobilização de um
pensamento formal e abstracto. A moralidade do cuidado, predominantemente
feminina, vincula o desenvolvimento moral sobretudo à compreensão das
responsabilidades, dos relacionamentos e dos contextos reais de vida, enquanto
a moralidade da justiçacomo equidade, alegadamente mais masculina, faz assentar
aquele desenvolvimento sobretudo na compreensão dos direitos e das regras. A
ser assim, o facto de termos utilizado como base de análise e produção dos
dados uma situação formal e hipotética, pode ter contribuído para o resultado
menos satisfatório obtido pelas raparigas, quando comparadas aos rapazes, em
termos de consistência moral. É plausível que a utilização de dilemas
hipotéticos, como método de acesso e avaliação do pensamento moral e da acção
moral, possa não ser eficaz na análise destas componentes da moralidade nas
raparigas. Em todo o caso, deve concluir-se que, também no campo específico da
consistência moral, o efeito da variável género requer a continuidade das
pesquisas.
CONSIDERAÇÕES FINAIS
Para concluirmos, gostaríamos de lembrar que o que esteve em jogo nesta
pesquisa, não foi a acção efectiva, mas antes a intençãoe determinaçãopara a
acção, avaliadas a partir do discurso verbal dos participantes. Por esse
motivo, e não obstante a pertinência da abordagem efectuada, parece-nos
relevante a utilização complementar de outros dispositivos metodológicos que
incrementem a potência e a robustez da abordagem da acção moral consistente.
A acção moral consistente foi tomada como consistência entre o conteúdo do
juízo deôntico, dos juízos de responsabilidade e da acção ela mesma. Seria
interessante, neste mesmo quadro conceptual, o confronto dos participantes com
dilemas morais reais, em conjunturas concretas e variadas de conflito moral,
nas quais seria mais viável, por exemplo, a consideração de variáveis de
contexto. Tratar-se-ia de ir ao encontro daquilo que reclamam diversos autores,
ao afirmarem que nem o conhecimento da situação por si só, nem o conhecimento
do julgamento moral isolado, são suficientes para predizer acções morais e que,
neste entendimento, a questão crítica parece ser a interacção entre a situação
e o julgamento moral (Erkut, Jaquette, & Staub, 1981). Em todo o caso,
parece-nos igualmente de apostar na mobilização de outras variáveis do sistema
pessoal, além das variáveis cognitivas de natureza estrutural. Assim, tal como
nos propõe Blasi (1980, 1994, 1999), a consideração do papel jogado pela
identidade moral na dinâmica da consistência moral, é um desafio que se coloca.
Para o efeito, torna-se necessária conseguir a operacionalização empírica do
conceito, bem como a construção de instrumentos de medida adequados à sua
avaliação. Tendo em conta os resultados alcançados, também o estudo do efeito
mediador do género na relação entre a consistência moral e variáveis de
contexto e do sistema pessoal, se configura como uma interessante linha de
pesquisa.
O alargamento das variáveis preditoras a considerar parece-nos, pois, ser um
bom caminho, quer no que respeita às variáveis de contexto (hipotético versus
natural), quer relativamente ao sistema pessoal. Aliás, relativamente ao
sistema pessoal, saliente-se que, no presente estudo, o modelo integrado de
análise da contribuição das variáveis preditoras para a consistência,
evidenciou que tal integração explica mais variabilidade da consistência do que
cada uma das variáveis autonomamente consideradas.
Finalmente, face aos resultados obtidos, e não obstante a sua natureza
controversa, entendemos poder concluir que este trabalho alcançou o propósito
de contribuir para a construção de mais conhecimento e conhecimento mais
abrangente sobre a dinâmica da consistência moral, um dos problema mais
delicados que se colocam no estudo do desenvolvimento moral, porque, como nos
disse Piaget, as relações entre pensamento e acção estão muito longe de ser tão
simples como é comummente suposto(1994, p. 174).