The future of trauma theory: Contemporary literary and cultural criticism gert
beulens, Sam Durrant & Robert Eaglestone
RECENSÕES
The future of trauma theory. Contemporary literary and cultural criticism gert
beulens, Sam Durrant & Robert Eaglestone (eds.), Routledge, 2014. 182 pp.
Pedro Moura*
*Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa, Centro de Estudos Comparatistas
(Lisboa, Portugal) e Faculdade de Letras da Universidade Católica de Leuven,
Bélgica.
pedrovmoura@gmail.com
Desde a sua fundação que a área conhecida por ‘Estudos do Trauma' (Trauma
Studies) tem sido não apenas alvo de expansões sucessivas como cada um desses
passos tem sido recebido com alguma controvérsia. O problema reside no próprio
termo, elástico o suficiente para ter transitado da esfera física para a
psicológica e, mais tarde, para a cultural. O seu desdobramento interno tem
sido contínuo, sucessivo, tornando a própria condição do que se constitui
enquanto traumatogénico mais inclusiva, não num sentido de inclusão passiva ou
automática, mas numa problematização política de agência, atenção crítica dos
mecanismos conducentes ao trauma e ainda ao próprio quadro de sintomas
analisáveis.
O presente volume reúne ensaios produzidos no seio de um projeto do Centre for
Literature and Trauma da Universidade de Ghent (LITRA), o qual tem tido um
nível de produção intenso e interpelante no questionamento e nesta expansão
teórica e metodológica dos Estudos do Trauma. Encontraremos aqui textos quer de
nomes já clássicos e recorrentes nesta linha de inquirição, sobretudo no seu
cruzamento com os estudos literários, como Dominick LaCapra e Robert
Eaglestone, e alguns dos autores contemporâneos que mais têm procurado fazer
infleti-la com os estudos pós-coloniais, caso de um dos editores, Gert Beulens,
e um dos contribuidores, Stef Craps (diretor do LITRA). Aliás, Beulens e Craps
foram co-editores de um número especial de Studies in the Novel (vol. 40, no. 1
& 2, Primavera-Verão de 2008), dedicado aos “Postcolonial Trauma Novels”.
Na introdução a essa revista académica, os editores alertavam precisamente para
o afunilamento metodológico dos Estudos do Trauma na “psicologia individual”
(2008, p. 4), e quão necessária era uma refocalização mais abrangente em termos
de agência, sujeito e disciplinas para que se corrigisse, escrevem eles, “as
tendências individualizantes, psicologizantes e, em última instância, des-
politicizantes, características dos modelos de terapia do trauma no Ocidente”
(2008, p. 4). Michael Rothberg, no prefácio a este volume, apresenta também a
necessidade de ir além dos meros papéis de “vítima e perpetrante”, não para os
eliminar, mas antes para “recalibrar a compreensão da história e da
subjetividade humanistas” (2014, p. xvi), levando assim a um “sujeito
implicado” (p. xv).
Se as metodologias, objetos de estudo e mesmo posicionamentos teóricos são
distintos entre estes autores, o que os une nestas novas pesquisas do trauma
poderia ser embandeirado pela questão da subjetivização. Que sujeito é passível
do trauma? Que sujeito é criado pelo trauma? Que tipo de subjetivização está
implicada pela emergência do trauma ou pela sua resolução?
Desde o primeiro momento da cunhagem deste território metodológico que é
possível identificar algumas vozes dissonantes em relação àquilo a que alguns
críticos já chamaram de ‘Cânone do Trauma'. Afinal, se aceitarmos que a
fundação oficial desta área de trabalho é a coleção editada por Cathy
Caruth,Trauma: Explorations in Memory(1995), é já nessas páginas que
encontraremos um decisivo ensaio que contribui para a expansão do conceito.
Laura S. Brown, polinizando o conceito de trauma com o seu trabalho de
terapeuta profissional, infletido pelo feminismo, encaminha a uma moldagem do
trauma para uma esfera do quotidiano, do ‘pervasivo' na vida das mulheres nas
sociedades ocidentais urbanas contemporâneas (mormente a americana, palco do
trabalho de Brown). Com Worlds of Hurt, Kali Tal (também de 1995), desviava,
por assim dizer, o óculo dos Trauma Studies para outros palcos que não o do
mundo usualmente tornado objeto de estudo. É no seguimento desses esforços, e
também nos das críticas endereçadas pelo trabalho de Susannah Radstone ou Ruth
Leys, por exemplo, que os Estudos do Trauma têm aberto a sua atenção não apenas
para com as questões morais, éticas e culturais, como também a necessidade de
assegurar a justiça económica, social e política das situações passíveis de
descrição sob a palavra ‘trauma', que pode ser empregue no ‘Primeiro' e no
‘Terceiro Mundo', a nível individual e coletivo, em relação a acontecimentos
históricos pontuais ou processos prolongados ainda em curso na
contemporaneidade.
A necessidade de ir para além de um Americano-Eurocentrismo é imperativa. A
ideia de que existem locais, sociedades ou culturas que não são permeáveis ao
trauma ‘porque estão habituadas' (à guerra, à miséria, à fome, aos conflitos,
etc.) não pode ser uma desculpa para com um desequilíbrio de análises e
estudos. Como reflete uma das personagens de The Memory of Lovede Aminatta
Forma (citada por Stef Craps no seu texto), ao responder a um forasteiro, “Tu
chamas-lhe distúrbio [disorder], meu caro. Nós chamamos-lhe vida.” E não foi
necessário que o conceito de biopolítica emergisse para nos inteirarmos que
‘vida' não é um sinónimo para quem a vive e para quem a controla e dispõe.
Assim como para quem a poderá analisar em termos culturais.
A banalização estrutural dessas ‘outras' vidas, num hábito ao trauma, é uma
dupla violência exercida sobre essas populações, cujas consequências são
gravosas em vários planos. Nouri Gana, num ensaio interpelante e que esperamos
seja influente no alerta e na correção dessa banalização, explicita essas
consequências como sendo “a marginalização das próprias noções de justiça,
reparação política e perdão, sem as quais nenhum sentido significativo de
subjetividade, comunidade e solidariedade transnacional, por mais precárias que
sejam, possam ser incutidas e alimentadas nos sobreviventes de violência
extrema e na geração que se segue” (2014, p. 8).
Uma das outras consequências é a perda da voz, da própria possibilidade de
expressão natural, caminho certeiro que levaria não só à justiça social, mas
igualmente política e económica. Lyndsey Stonebridge, estudando o papel dos
refugiados à luz dos escritos de Hannah Arendt, explicita: “Perder a própria
língua não é apenas ser-se negado de uma ancoragem linguística à nação e
tradição, mas também significa perder ‘a naturalidade das reações, a
simplicidade dos gestos, a expressão sem obstáculos dos sentimentos'” (2014, p.
115, citando Arendt).
Se o conceito de biopolítica não foi necessário para o entendimento do
problema, ele é instrumental para a recalibração mais cuidada da agência e
objeto de atenção do trauma. E está no centro deste projeto de re-
subjetivização do sujeito do trauma que se encontra no âmago deste textos.
Possivelmente os três ensaios mais teóricos da coleção são os de Jenny Edkins,
Lyndsey Stonebridge e de Pieter Vermeulen. A primeira endereça a sua discussão
em torno da distinção entre um tempo “cronológico” e um tempo “messiânico”,
entrando num diálogo direto com Agamben e Benjamin. O trauma, de acordo com
Edkins, permite a introdução de um espaço de resistência contra a hegemonia do
poder soberano, já que o “tempo do trauma e as práticas de memória são um local
fulcral do enfraquecimento do poder soberano” (2014, p. 128). A ordem social e
simbólica pretende elidir a própria possibilidade do trauma. Edkins inscreve-se
plenamente na teoria de Caruth de que o trauma é absolutamente inenarrável,
indizível e irrepresentável. Independentemente de o trauma poder ser visto de
outra perspetiva, que o subtraia ao evento-em-si (isto é, à confusão entre
trauma e evento, o pomo de discórdia das duas grandes escolas dos Estudos do
Trauma), a ensaísta pretende sublinhar que é na identificação ou na
visibilidade da falha, da ferida, que emerge uma subjetividade, a que chama de
“o próximo” [neighbour] que se escapa do poder soberano. E o esforço político
dessa subjetividade independente é uma realidade, cujo nome é “vida quotidiana”
(2014, p. 138). Contrária, mas não paradoxalmente, em “The Biopolitics of
Trauma”, Vermeulen discute a obra de Foucault e as respostas de Roberto
Esposito para sublinhar como essa vida quotidiana é já um palco de um “poder
capilar, o qual se dissimula como mera gestão ou burocracia, e regula
populações através de uma saturação impercetível” (2014, p. 144). É a
consciência e análise desse poder pervasivo e contínuo, que nos fará entender a
presença de um “trauma estrutural na vida metropolitana contemporânea” (2014,
p. 145) que permitirá, por sua vez, um esforço de ‘descolonização', projeto
maximal e último, afinal, do volume como um todo.
Stonebridge, como vimos, parte da obra de Arendt para estudar o papel dos
refugiados, os quais criam um paradoxo na medida em que os “direitos humanos”
implicam a transformação de uma pessoa (indivíduo) num “ser humano em geral”.
O conjunto dos ensaios, para além de alguns casos de estudo já vistos como
basilares (o Holocausto ou o 11 de Setembro) apresentam vários outros sobre
locais usualmente fora da consideração ‘automática'. Encontraremos como objeto
de análise a poesia talibã, a Partição da Índia, o Museu do Genocídio Tuol
Sleng em Phnom Penh, o kuduro de Angola, a literatura da Guerra Civil do
Líbano, a literatura pós-Apartheid da África do Sul, as atividades de expressão
dos refugiados num campo da Austrália, e ainda, no ensaio final de Roger
Luckhurst (autor do introdutório mas fundamental The Trauma Question), a ficção
científica. A consideração de géneros ou de formas de expressão usualmente
entendidas como ‘populares' é uma das linhas ainda sub-desenvolvida nos Estudos
do Trauma (se bem que existam variadíssimos artigos nesse sentido). Luckhurst,
partindo de Alvin Toffler, clássicos da ficção científica e obras
contemporâneas, encerra a questão no seu ponto mais premente, de novo em
relação aos contornos do sujeito e a sua relação com a noção de trauma.
Pergunta o autor, “se o choque do futuro acaba por reconfigurar a
individualidade [selfhood] e os limites do humano, não teriam igualmente os
modelos do trauma de mudar?” (2014, p. 161). Esta é a questão central: menos do
que importar modelos criados numa determinada circunstância e procurar como é
que sujeitos de outro enquadramento cultural ou político se encaixam nele – ao
ponto de não serem sequer elegíveis – importa antes reconsiderar as limitações
e configurações do próprio modelo (os seus elementos constitutivos, os
sintomas, as metodologias de deteção, resolução e integração) às circunstâncias
específicas e expressivas do sujeito.
A abertura do campo dos Estudos do Trauma tem sido feita em várias frentes.
Apenas a título de exemplo, em 2007 Karyn Ball editou uma outra coleção
cruzando a Teoria do Afeto com os Estudos do Trauma, levando a uma expansão
significativa de ambos os campos (Traumatizing Theory. The Cultural Politics of
Affect In and Beyond Psychoanalysis). A abordagem interdisciplinar de The
Future of Trauma Theoryé o único caminho possível para a criação de uma rede de
solidariedade metodológica e de objetos, a qual necessariamente refletirá ou
conduzirá a uma solidariedade entre sujeitos e à emergência de respostas que,
se jamais completas e definitivas, serão mais integrantes e abrangentes, assim
como mais informadas pela empatia.