“A terra está ficando toda de sangue”: poesia e guerra em moçambique
Glória de Sant'Anna, autora de origem portuguesa que viveu entre 1951 e 1974 em
Moçambique, escreveu vários poemas sobre a Guerra Colonial, acompanhando o
desenvolvimento de um conflito cada vez mais dramático. O corpus poético que
será objecto da nossa análise abrange uma época que vai de 1961 a 1972, dois
anos antes da partida da escritora para Portugal, e – como veremos – reflecte
uma perspectiva multifacetada desse período.
A sua escrita, que se enquadra na vertente lírica intimista, não revela apenas
uma visão do mundo moçambicano anterior à independência, mas representa também
um testemunho importante da escrita feminina no contexto colonial. Na verdade,
muitos dos seus textos reevocam uma memória que levanta várias problemáticas
relacionadas com o período tardo-colonial (Castelo, Thomaz, Nascimento &
Cruz e Silva, 2012), mas, infelizmente, a sua obra foi pouco estudada até ao
momento.[1]
Neste sentido, devemos ter em conta que os poemas sobre a Guerra Colonial são,
de certa forma, ‘incómodos'. De facto, um dos aspectos problemáticos da fase
posterior ao 25 de Abril foi a ‘perda' da memória. Como explica Cláudia Castelo
(2006), em Portugal a tendência institucional foi a do esquecimento porque:
No caso português, os agentes da ruptura revolucionária do 25 de Abril de 1974
– os militares – foram, simultaneamente, os principais agentes da repressão
colonial. Este facto conduziu a um silenciamento ou, pelos menos, a uma
ocultação das circunstâncias em que ocorreram alguns dos episódios mais cruéis
da guerra colonial. Os massacres de Moçambique (Wiryamu e Mocumbura, distrito
de Tete, Dezembro de 1972) são um exemplo paradigmático dessa amnésia
deliberada. (2006, p. 18).
Também Margarida Calafate Ribeiro (2004a, p. 26) demonstra que o pós-25 de
Abril não soube lidar com a herança da Guerra Colonial. A principal
consequência desta tendência é a dificuldade em adaptar as memórias coloniais
ao contexto pós-colonial. E, nesse sentido, a poesia de Glória de Sant'Anna
sobre a guerra pode ser considerada duplamente ‘incómoda': por um lado,
Portugal não tem interesse em recuperar as memórias dos retornados, preferindo
a sua integração anónima na nova sociedade; por outro, do ponto de vista
moçambicano, os textos da autora que relatam os horrores da guerra não assumem
um discurso explicitamente anticolonial. Mas, como escreveu Eugénio Lisboa
(2010) no prefácio a Gritoacanto 1970-74[2], “falar pouco para dizer muito foi
sempre o lema desta excelsa poetisa” (p. 7) que deixou um visível legado
poético em terras (e águas) moçambicanas. Como é o caso, por exemplo, do poeta
Eduardo White que, para além de retomar a semântica aérea e aquática da poesia
de Glória de Sant'Anna integrando-a no universo onírico, sensorial e erótico
definido pelo Índico e pelo Oriente, reelabora o imaginário e os versos da
escritora relacionados com o horror da guerra, que serão objecto da nossa
análise.
Tendo em conta essas questões, interessa-nos evidenciar os diferentes matizes e
perspectivas sobre a Guerra Colonial que os textos de Glória de Sant'Anna
oferecem. Nesse sentido, é importante considerar dois factores: em primeiro
lugar, a origem e vivência da autora nascida em Portugal, mas radicada em
Moçambique durante 23 anos e, em segundo lugar, a importância do olhar feminino
sobre um fenómeno protagonizado maioritariamente por homens. Este último
elemento é tido em conta, como veremos, na organização da Antologia da memória
poética da Guerra Colonial(Ribeiro & Vecchi, 2011a), que inclui alguns
poemas de Glória de Sant'Anna.
Margarida Calafate Ribeiro (2004a), ao analisar as experiências das mulheres
que acompanhavam os maridos em missão militar (que não é, todavia, o caso da
escritora[3]), reconhece que o seu testemunho pode oferecer um “olhar-outro”
sobre o conflito bélico (p. 24). Também Roberto Vecchi (2004) questiona a
existência não só de uma literatura da Guerra Colonial, mas também de uma
“literatura feminina da Guerra Colonial” (p. 85). O crítico acrescenta que a
escrita da mulher sobre a guerra é uma escrita duplamente silenciada, porque
exprime uma “dupla impossibilidade”: “como é que uma figura silenciosa e
silenciada, a mulher perante a guerra, pode contribuir para representar um
tema, silencioso e silenciado, como a representação da Guerra Colonial?”
(Vecchi, 2004, pp. 88, 86).
Por essas razões pensamos que a perspectiva que oferecem os poemas de Glória de
Sant'Anna pode ser particularmente interessante. Então, o nosso objectivo será
analisar a representação da guerra num percurso de escrita que procura
equilibrar o drama pessoal com o colectivo, evidenciando a perspectiva do
sujeito poético em relação a esse conflito.
A autora viveu durante muitos anos no norte de Moçambique, bastante perto de um
conflito que só chegou à capital, a então Lourenço Marques, algum tempo mais
tarde. Na verdade, já nos primeiros anos da década de 60 alguns dos textos de
Glória de Sant'Anna referem o drama da guerra ou uma atmosfera de tensão,
enquanto na capital moçambicana as mulheres portuguesas nem se apercebiam do
conflito em curso. Como atesta Ângela Conceição (2004): “a Guerra Colonial
passava quase despercebida para estas senhoras brancas que viviam na cidade de
Lourenço Marques; apenas era notada quando se via chegar ‘gente ferida,
estropiada'” (p. 104).
Para além de viver geograficamente na zona onde se desenvolveu a resistência da
Frelimo, devemos ter em conta que o ensino punha em contacto directo Glória de
Sant'Anna com a população local. Podemos ler, por exemplo, alguns versos do
poema “Aula”, no qual se preanuncia a inevitável partida: “Turvos meninos/ se
me apresentam/ dentro do tempo/ que vou deixar” (Sant'Anna, 1972, p. 43). Como
afirma Margarida Calafate Ribeiro (2004b) ao analisar o percurso de muitas
mulheres que iam para África[4], a experiência do ensino podia fornecer “uma
visão-outra sobre as várias populações locais que na escola se juntavam” (p.
24). A esse propósito, pensamos que o ensino pode ter aproximado Glória de
Sant'Anna de um conflito que oficialmente ‘não existia'.
Devemos referir que os textos sobre a guerra foram escritos (e, em algum caso,
publicados[5]) antes do 25 de Abril, ou seja, num período em que o estado
português negava a existência da Guerra Colonial. Leia-se a este propósito o
depoimento de Marcello Caetano, em 1972, citado por Margarida Calafate Ribeiro
(2004a): “Guerra colonial? As Províncias Ultramarinas estão em paz e ninguém
nelas contesta a sua integração na Nação Portuguesa” (p. 26). Desse modo,
podemos dizer que a poesia exerce uma acção contrária aos múltiplos
silenciamentos associados à Guerra Colonial porque, como explica Margarida
Calafate Ribeiro (2004a, p. 26):
à ocultação da guerra feita pelo antigo regime, (...), seguia-se a
ocultação da guerra como se fosse possível fazê-la desacontecer, como
se tudo tivesse sido um engano, ou, como aliás veio a dizer o próprio
‘inimigo', Samora Machel, um equívoco, uma história de mal-
entendidos.
Nesse sentido, pensamos que a obra poética de Glória de Sant'Anna, ao
representar a vivência da Guerra Colonial em Moçambique através dos seus
poemas, reconverte a tendência geral para o esquecimento. O corpus poético que
iremos analisar compreende textos de Poemas do tempo agreste (Sant'Anna, 1964),
do Cancioneiro incompleto (temas da guerra em Moçambique) 1961-1971(Sant'Anna,
1988) e de Desde que o mundo e 32 Poemas de intervalo(Sant'Anna, 1972). As
temáticas recorrentes desses textos são o prenúncio de tempos difíceis, a
morte, a dor e a lamentação. A atmosfera de desassossego que envolve essa
escrita angustiada torna-se cada vez mais dramática e intensa; assim, afirma-se
gradualmente o horror de uma tragédia anunciada. Tendo em conta essa questão,
podemos subdividir os poemas analisados em duas grandes linhas temáticas: a
primeira inclui os poemas que preanunciam o drama e a segunda compreende os
poemas que reflectem de forma mais imediata o conflito em curso.
O corpus seleccionado compreende, como vimos, textos escritos em Moçambique num
período histórico que vai de 1961 a 1972, dois anos antes da viagem de volta de
Glória de Sant'Anna para Portugal. A este propósito, notamos que nos textos
escritos depois dessa data a temática de guerra e o sofrimento relacionado ao
conflito colonial aparecem apenas de forma esporádica. Como é o caso, por
exemplo, do primeiro poema de Trinando para a noite que avança, publicado em
2009, no qual a autora relembra a angústia do tempo que viveu: “Eu naveguei
pelo interior de um longo rio humano/ de tempos diversos onde também há sangue
vegetal,/ buscando o que acabei por encontrar – a imensa/ angustia que se
reparte” (Sant'Anna, 2009, p. 8).
Voltando aos textos escritos durante a época colonial, verificamos que em
Poemas do tempo agreste (Sant'Anna, 1964) a escrita poética adquire uma função
catártica: “Um poema é sempre/ como uma lágrima que se solta” (p. 7). Perante a
dor e a tristeza de acontecimentos que parecem esmagar as vidas humanas, as
palavras só podem ser concisas: “Não sei por que buscas palavras longas/ para
as coisas breves que nos assombram” (Sant'Anna, 1964, p. 67). Nestes versos a
autora questiona a possibilidade de comunicar e exprimir o que não se pode
dizer. Na verdade, a poesia mais intimista de Glória de Sant'Anna é uma poesia
que evita as palavras gritantes e procura alcançar no horizonte do Índico, no
céu, nas estrelas, na solidão e no silêncio a pureza poética.
Poemas do tempo agreste, publicado em 1964, preanuncia a tragédia que se
concretizará numa longa e dolorosa guerra. No poema “Lamento”, por exemplo,
vislumbra-se um porvir difícil, no qual a esperança e o amor dão lugar à dor.
Cada minuto parece perdido
no duro tempo que se escoa,
e as preces são amargas
em nossa boca.
Talvez a esperança tenha morrido
na vida à toa
que agora prende nossas amarras
em cada hora.
E o amor onde tão sem sentido
pelo mundo fora,
que ninguém saiba onde ir buscá-lo
pra suas mágoas. (Sant'Anna, 1964, p. 51)
A autora refere-se nesse livro à percepção de uma guerra que está prestes a
começar; numa contagem decrescente que anula a esperança e o amor, os textos
alimentam-se de retalhos daquela que será uma terrível tragédia e, ao mesmo
tempo, tentam recompor os fragmentos de sentimentos ou visões sombrias
associados às turvas circunstâncias vividas. Num outro poema do mesmo livro,
por exemplo, os mortos de uma guerra que ‘não existe' são transportados como
figuras fantasmagóricas: “Não vale a pensa buscar passados/ que se perderam nas
madrugadas: trazem-se mortas e destroçadas/ apenas sombras desnorteadas”
(Sant'Anna, 1964, p. 61). A evocação da morte, presente nos versos citados, é
um dos temas mais recorrentes nessa linha temática relacionada com a Guerra
Colonial. Em Poemas do tempo agreste (Sant'Anna, 1964) há dois textos,
construídos com simetrias e repetições, dedicados à morte de meninos — o
“Primeiro poema do negrinho morto” e o “Segundo poema do negrinho morto” — que
podem ser considerados elegias. A estrutura do segundo poema, constituída por
dois quartetos e um terceto, reproduz semanticamente um discurso circular, que
começa com a percepção da morte, passa à descrição da dramática cena e termina
com uma lamentação:
Ai, o que dói a chuva
por sobre o rosto do negrinho morto.
Ai, o que me dói a chuva
e o seu abandono.
Ali está só, inerte, conciso,
exacto em todas as verdades,
solto na chuva grave
e tão antigo.
Ai, o que me dói o negrinho morto
estar morto
e sozinho. (Sant'Anna, 1964, p. 19; itálico meu)
A nível retórico, o drama da situação apresentada é intensificado pelas
repetições da primeira parte de versos – “Ai, o que me dói” — e palavras —
“morto” e “chuva” — que remetem para a tristeza e a dor, enquanto a nível
imagético, o elo metafórico que se cria entre a chuva e o choro confere mais
tragicidade à cena; dessa forma, o luto não é representado com distanciamento,
mas é empaticamente vivido pelo sujeito poético que não se limita a ver e
descrever, mas partilha a dor causada pela morte do menino negro.
Em Poemas do tempo agreste verificamos o impasse da autora perante uma
realidade que, ao preanunciar o sangrento conflito, exige uma tomada de
posição. É o que se intui nestes versos, através dos quais se exprime a mágoa
de quem partilha a dor e as mortes tanto dos portugueses como da população
local: “Venho de longe, do tempo agreste/ (...) Venho de longe, dos lugares
neutros/ em que perdi não sei que irmão./ O que me veste são negros feltros./
Ou não?/ Venho tomada do desamparo/ das frases densas dos sem razão./ Não
interroguem meu rosto claro./ Não” (Sant'Anna, 1964, p. 35). Para além disso,
notamos que neste livro é evocada uma atmosfera de guerra sem referir, de forma
mais ou menos directa, como é o caso de alguns dos textos do Cancioneiro
incompleto(Sant'Anna, 1988), o conflito em curso.
O Cancioneiro incompleto (temas da guerra em Moçambique) 1961-1971, conjunto de
textos inéditos da antologia Amaranto(Sant'Anna, 1988), estende-se
temporalmente ao longo de uma época que ficou marcada pelo drama da Guerra
Colonial. Na verdade, este é o único texto inteiramente dedicado à guerra; é
por isso que o título, que evoca os antigos cancioneiros da tradição lírica,
nos remete para a ideia de um conjunto de composições poéticas reunidas à volta
da temática bélica. Para além disso, “o estatuto de obra inacabada” (Pitta,
1989, p. 100) deve-se ao facto de a sequência numérica que identifica os
títulos dos poemas ser incompleta, porque enquanto a guerra não parar, a poesia
continuará a evocar novos dramas e mortes.
Os textos do Cancioneiro incompleto representam várias perspectivas sobre o
conflito, como é o caso do “Poema Décimo”, dedicado à morte de um soldado, e do
“Poema Décimo Primeiro”, sobre a morte de uma mulher negra. Os primeiros versos
do “Poema Décimo”, “Sobre o esquife do soldado morto/ o dia tomba claro”
(Sant'Anna, 1988, p. 174), estabelecem uma ligação intertextual com os
primeiros versos do segundo poema: “A negra tombou entre os agrestes ramos/ e
um súbito espanto” (1988, p. 175). A solenidade da imagem, bem como a
referência à morte enquanto acontecimento súbito e irrevogável, testemunha que,
como afirma Eugénio Lisboa (2010), “de um lado e do outro – a morte não é
partidária” (p. 7).
Na realidade, se por um lado a autora apresenta o drama dos soldados
portugueses, por outro mostra também as consequências da guerra para a
população local, como é o caso do “Poema Sexto” e“Décimo Primeiro”(Sant'Anna,
1988). O “Poema Sexto” relata o êxodo dos macondes, facto verificado no norte
do país, quando muitos deles, por causa do agravamento do conflito interno com
o sistema colonial, abandonaram as próprias terras para se deslocarem para
outras regiões ou países confinantes. Enquanto o “PoemaDécimo Terceiro”retrata,
com muita dignidade, a morte do régulo[6] Megama — Abdul Kamal-Me-gama,
penúltimo chefe da dinastia Ekoni Megama e régulo de Chiúre-Velho (1940-65), na
província de Cabo Delgado. Megama foi um régulo inicialmente fiel à
administração colonial (João, 1989 / 2000, p. 85), mas em 1965, poucos anos
depois da peregrinação a Meca, a PIDE acusou-o de estar envolvido na luta
anticolonial[7] e transferiu-o de Pemba para a prisão política da ilha de Ibo
(na Fortaleza de São João Baptista), onde pouco tempo depois foi assassinado. O
episódio da prisão e morte do régulo insere-se, assim, no contexto da Guerra
Colonial. Neste poema a autora descreve a grandiosidade de Megama, sublinhando
as qualidades do régulo e a sua triste morte. Nas primeiras estrofes é
destacada a influência de Megama na região:
Megama régulo grande
anda por cima do tempo
tem longas palavras duras
que lança por muita gente
seus gados pastam por longe
ao lugar onde o sol desce
conta por muitas machambas
seus filhos suas mulheres (...)
Megama é régulo grande
de todo o mato ao redor (Sant'Anna, 1988, p. 177)
Sucessivamente, é evocado o pacto de fidelidade entre o régulo e a
administração colonial, a quebra do pacto, a prisão na fortaleza da Ilha do Ibo
e a morte:
ai, Megama régulo grande
repetido entre os ecos do Chiure
quebrou sua medalha
quando o primeiro grito do n'pure[8] se soltava
para um prenúncio de chuva nas altas árvores (...)
Megama régulo grande
quebrou sua medalha
Depois na fortaleza de cinco pontas
copiada de uma estrela no céu de luto
Megama ficou igual a tudo tudo
que fermenta, se decompõe e deteriora
na cúmplice penumbra morna
e mudo
lentamente perdendo sua figura
curvando-se para ser sugado antes da hora
para a terra sem lápide rasa e nua
ele tombou para sempre num tempo sem memória. (Sant'Anna, 1988, p.
179)
Este poema elegíaco enaltece a figura do régulo e a sua trágica morte. O régulo
é descrito com grande dignidade, o que contrasta com a ridicularização,
inferiorização e fraqueza de espírito da representação dos locais de alguns dos
textos da Literatura Colonial. O poema refere um ponto de viragem crucial na
vida de Megama, marcado pela ruptura do pacto de fidelidade, para responder à
chamada do n'pure, pássaro que aqui simboliza, talvez, a luta anticolonial.
Assim, enquanto o começo do poema ressalta a glória do régulo, as últimas
estrofes evidenciam o triste destino na Fortaleza de São João Baptista no Ibo
que, apesar da sua estrutura em estrela, esconde mágoas e lutos. Embora o
último verso remeta para o esquecimento ao qual Megama é condenado após a sua
morte, o poema contribui a manter viva a sua memória, ao relembrar o grande
régulo.
Para além de poemas que representam diferentes temáticas relacionadas com a
guerra, no Cancioneiro incompleto há textos que retratam várias perspectivas
sobre o conflito. Como é o caso, por exemplo, da partida do militar português
para a guerra; no primeiro poema, “O cântico da mãe”, a voz materna, perante a
inevitabilidade da guerra, apela para que lhe tragam de volta os filhos:
“Homens,/ esses meninos/ foram colhidos fundo no meu ventre/ (...) (e se é
tempo de ser gume e de ser espada,/ estilhaço, ferro, lança bronze e ouro)/
amaldiçoo aquele que não mos traga” (Sant'Anna, 1988, pp. 158-159).
Paralelamente, em “O Poema Segundo”, apresenta-se o triste percurso cíclico do
soldado, marcado pela partida, pelo combate, pela morte e pelo regresso do
corpo ao país natal: “O soldadinho partiu/ dentro dum fato de pano./ (...) o
seu rosto era desfeito/ por rudes golpes e tantos, (...) que jorrava do seu
rosto/ um rio de puro sangue (o soldadinho voltou/ dentro de um fato de pano,/
apagada a sua sede/ por outra sede de sangue)” (1988, p. 161).
Os dois poemas relatam dois momentos distintos de um percurso comum a muitos
militares portugueses, o primeiro, que apresenta uma perspectiva do ponto de
vista feminino e materno, muito dramática e sentimental, põe em evidência um
tema frequente na literatura sobre a guerra, ou seja, a angústia de uma mãe que
vê os próprios filhos partirem. Evoca, então, uma situação individual que
interessa a todas as mulheres no seu papel de mãe, esposa ou irmã de quem vai
combater. Enquanto o segundo poema, mais descritivo, porque segue o percurso de
um dos muitos soldados que parte para a guerra e volta num esquife, apresenta o
destino que encontrarão aqueles que partem para a guerra. Assim, os dois poemas
apresentam, do ponto de vista português, duas perspectivas complementares sobre
o conflito: o drama dos que ficam, as mulheres, e o drama dos que vão para a
guerra, os homens.
Para além de ter em conta a perspectiva feminina sobre o conflito, a escrita
poética de Glória de Sant'Anna sobre a Guerra Colonial é sensível quer ao drama
dos portugueses envolvidos nessa guerra, quer ao drama da população local. Essa
dupla perspectiva é particularmente evidente no Cancioneiro incompleto, através
dajustaposição de poemas que dialogam entre si. No “Poema Nono”, por exemplo,
dedicado a um fuzileiro, a autora descreve a acção do soldado com palavras
incisivas: “Ao ritmo do pulso/ palpita o gatilho/ nas mãos apertadas/ as botas
esmagam/ formas e palavras/ caminham com eles a dor e a raiva” (1988, pp. 172-
173). E no “Poema Sétimo” é apresentada a morte de três raparigas cruelmente
fuziladas: “São três raparigas iguais/ vestidas de duro silêncio/ (em frente
está o pelotão/ de fuzilamento) / (...) São todos soldados iguais/ atados a um
só juramento” (1988, pp. 169-170). O texto acentua a contraposição dicotómica
entre as raparigas e o pelotão de fuzilamento, entidade uniformizada com um
objectivo comum. Na verdade, neste poema as raparigas são inicialmente “iguais”
e, depois da morte, adquirem a própria individualidade: “as raparigas tombadas/
já cada uma é diferente” (1988, p. 170).
Enquanto as vítimas são diferentes uma das outras, a autora salienta, num outro
poema, a uniformização dos esquives dos soldados que a morte uniu num efémero
hino de glória: “São oito esquifes iguais/ lado a lado./ Sem diferenças
traçadas/ assim rasos,/ pela mesma terra tragados,/ pelo mesmo grito elevados/
ao topo da mesma glória/ de soldados” (1988, p. 176).
Esses poemas criam um jogo de espelhos entre vítimas e verdugos e manifestam a
dificuldade poética de revelar verbalmente o indizível, o horror da guerra. Os
textos testemunham a partilha, por parte do sujeito poético, da dor e da mágoa
quer dos portugueses, quer da população local, que sofre as consequências da
guerra. Relativamente a esse aspecto, Isabel Allegro Magalhães (1995), tendo em
conta três romances escritos por mulheres sobre a Guerra Colonial (Corpo
Colonial, Percursos e A costa dos murmúrios), afirma que estes demonstram uma
preocupação com o sofrimento tanto dos portugueses como dos nativos (p. 29).
Apesar de existirem, como é evidente, vários textos de autoria masculina que
criticam a guerra, Magalhães (1995) chega à conclusão de que a escrita feminina
sobre a Guerra Colonial se distancia, de uma forma geral, da escrita masculina,
por ser mais “ousadamente” crítica em relação à guerra (p. 29). A escrita
feminina reflectiria, assim, uma percepção distinta do conflito e um ponto de
vista inevitavelmente diferente, ligado a uma experiência da guerra que difere
da dos homens, já que as mulheres não participaram nas batalhas, mas sim na
atmosfera de guerra (Magalhães, 1995, p. 30).
Nesse sentido, devemos ter em conta também que uma grande parte dos poetas que
escrevem sobre a Guerra Colonial participaram nela como militares, de acordo
com o que verificamos na recolha poética apresentada na Antologia da memória
poética da Guerra Colonial(Ribeiro & Vecchi, 2011a).Essa antologia, que
constitui uma das mais recentes e completas recolhas poéticas sobre a Guerra
Colonial, abrangendo um período que vai de 1961 até 1974, tem o intuito de
recolher e sistematizar a herança poética portuguesa da Guerra Colonial, como
afirmam os organizadores: “até hoje, esse imenso material do imaginário poético
português não tinha ainda sido recolhido e sistematizado” (Ribeiro &
Vecchi, 2011c, p. 554). Relativamente ao corpus apresentado notamos que a
maioria dos autores são homens que participaram como militares na Guerra
Colonial (num total de 177 poetas; há 20 mulheres e mais de metade dos poetas
incluídos cumpriu o serviço militar ou comissões militares nas então colónias).
A aprofundada pesquisa que foi feita para incluir poetas menos canónicos e um
número considerável de mulheres demonstra que a selecção dos autores é
heterogénea e que nem todos os textos são fruto de uma participação activa na
experiência bélica. Então, a importância desta antologia deriva do facto de
recolher e seleccionar textos pertencentes não só aos autores do cânone da
poesia da Guerra Colonial, mas também aos autores “que à guerra dedicaram
alguns poemas” (Ribeiro & Vecchi, 2011c, p. 555).
Para além disso, a antologia, ao encarar a produção poética da Guerra Colonial
como uma reelaboração individual da memória colectiva sobre aquele conflito,
contraria a tendência generalizada ao esquecimento, propondo um tema ainda
actual na sociedade portuguesa. Assim, os organizadores recuperam, através dos
textos poéticos, uma parte da memória da Guerra Colonial, porque “foi, sem
dúvida, na literatura que este registo de reelaboração colectiva e individual
do evento se tornou mais marcante” (Ribeiro & Vecchi, 2011b, p. 21).
A antologia organiza-se por eixos temáticos que compõem uma “espécie de macro-
tema” (2011b, p. 29) identificado com a dor indizível da guerra; os textos de
Glória de Sant'Anna são incluídos na secção “Partidas e Regressos” (“Poema
Segundo” do Cancioneiro incompleto) e “Morte” (“Poema Décimo”e“Poema Décimo
Segundo” retirados do mesmo livro). O “Poema Segundo” aborda, como vimos
anteriormente, a partida do soldado, enquanto os outros dois têm como tema
central a morte dos soldados portugueses. Como referem os organizadores no
Posfácio da antologia, há textos que representam um reflexo imediato da guerra,
enquanto outros são “textos-consequências” (Ribeiro & Vecchi, 2011c, p.
556), elaborados posteriormente a partir da experiência testemunhal.
Tendo em conta essas questões, verificamos que a maioria dos poemas de Glória
de Sant'Anna (e não só os incluídos nesta antologia) são textos-reflexo,
impressões quase imediatas do conflito em curso. Os poemas seleccionados são
coerentes com a linha temática da antologia, mas, como tivemos a oportunidade
de constatar, há outros textos de Glória de Sant'Anna que, ao apresentarem as
consequências da Guerra Colonial para a população local, complementam o ponto
de vista exclusivamente ‘português' do conflito. Se por um lado os textos desta
autora sobre a guerra não são, de facto, textos anticoloniais, por outro
evidenciam o sofrimento dos nativos, bem como dos portugueses que iam combater
nas antigas colónias. Assim, é importante ter presente que a recolha de textos
de Glória de Sant'Anna incluída na Antologia da memória poética da Guerra
Colonial apresenta uma visão parcial da sua produção poética sobre a guerra. Na
verdade, como tentámos demonstrar, a poesia de Glória de Sant'Anna possui um
carácter multifacetado, o que a coloca numa zona de ‘sombra' entre as linhas de
combate, de onde observa e retrata o drama da guerra. A sua posição é
inevitavelmente problemática, quer pela origem portuguesa, quer por representar
uma perspectiva feminina sobre o conflito. Porém, pensamos que o interesse na
poesia dessa autora se fique a dever, em parte, a essa sua complexidade.
Podemos dizer, então, que a escrita de Glória de Sant'Anna, ao problematizar a
relação unívoca entre os portugueses na então colónia moçambicana e a população
local, sugere uma leitura que ultrapassa as dicotomias e questiona a
homogeneidade dos dois grupos, como escreve Cláudia Castelo (2007), “a situação
colonial comportava diversos matizes. Uma interpretação linear – do estilo: de
um lado os colonos, a autoridade, o poder e a prosperidade; do outro, os
africanos, a obediência, o trabalho e as dificuldades – será sempre redutora”
(p. 208). A nosso ver, é com base nessa constatação que devem ser lidos os
textos de Glória de Sant'Anna.
Antes de concluir, falta mencionar o último texto escrito em Moçambique, Desde
que o mundo e 32 poemas de intervalo (Sant'Anna, 1972). O livro divide-se em
duas partes: na primeira é apresentado o poema “Desde que o mundo” e na
segunda, que reúne os 32 poemas de intervalo, a temática da guerra e da morte é
abordada desde uma perspectiva pessoal e íntima; o poema “Epitáfio”, por
exemplo, incluído nessa segunda parte, relembra, como o memento homodos versos
bíblicos, a efemeridade e vanitas da vida: “Eu um dia serei uma poalha de
vento/ pousando inadvertidamente em tua face/ e me sacudirás” (1972, p. 93).
Ao contrário dos poemas analisados até agora, que referem situações dramáticas
específicas relacionadas com a guerra, o poema “Desde que o mundo” ergue-se
como porta-voz da guerra enquanto drama universal:
A terra está ficando toda de sangue
toda de sangue
e mil olhos nos olham de lá do fundo
Cada corola que rompe vem cheia de sangue
cheia de sangue
e traz no centro um olho duro
As faces, as faces, as faces quietas
que eram de carne e são de terra
e os dentes, os dentes, os dentes dispersos
por entre de dentro no meio das pedras
E orelhas, orelhas deitadas escutando
escutando esperando escutando esperando
os passos e o pulso e as vozes e o fumo
e o vento e a chuva e o rodar do mundo
E comendo a fome de sangue da terra
entre ossos e pele
entre ossos e pele
gusanos, gusanos, gusanos, gusanos
repartindo tudo. (Sant'Anna, 1972, p. 19)
No primeiro verso desse poema, a autora evoca o sangrento período vivido em
solo moçambicano e, ao fazer convergir a imagem de sangue com a terra, enraíza
a sua dor e a dor de todos os que sofrem com esta guerra, nesse espaço. As
palavras que se referem às partes do rosto (dentes, orelhas, faces, olhos) e do
corpo humano, repetidas ao longo do texto, sobretudo na terceira e quarta
estrofes, funcionam como imagens de horror que se afirmam insistentemente na
memória; destroços de corpos compõem esta paisagem sombria, em que, à maneira
do Guernica de Picasso, os corpos perdem a sua unidade. Muitos poetas e
artistas moçambicanos representaram o drama da Guerra Colonial e da guerra do
pós-independência, como os pintores Malangatana Valente e Sansão Cossa, cujas
telas, com dentes, caveiras, corpos entrelaçados e olhos que mostram o
desespero da guerra, lembram a imagem de morte e horror do poema de Glória de
Sant'Anna.
O poema citado constitui, como vimos, a primeira parte do livro Desde que o
mundo e 32 poemas de intervalo, publicado em 1972, apenas dois anos antes da
partida da autora para Portugal e numa altura em que o eclodir do conflito se
torna extremamente opressivo, como podemos verificar ao ler os versos que
remetem para o seu desassossego perante a difícil realidade: “não volto as
costas/ à hora exígua/ só me pergunto que faço aqui” (1972, p. 67). Esses
versos preanunciam a imanente ida da escritora para Portugal, seguindo assim os
passos dos filhos, como podemos ler no poema “Partindo-se”:
E eis que vos ausentais teimosamente
de todas estas lágrimas vestidos
E eis que vos vejo ir e não vos digo
ficai ainda porque sois precisos
E eis que partis mesmo estando presentes
ao lado destes mortos consentidos
Eis que vos vejo e os vejo e não vos digo
ficai ainda um pouco, olhai e crede
Eis que sereis (seremos) esquecidos
mesmo por estas fímbrias de arvoredos
que foram sombra dos nossos caminhos
Eis que sereis (seremos) repartidos
por (talvez) uma próxima memória
com sentinelas de perfis delidos. (Sant'Anna, 1972, p. 95)
Nesse poema é referida a partida de alguns dos filhos que, por diferentes
motivos[9], deixaram o país natal para viver em Portugal ou no exílio. Glória
de Sant'Anna (2010) dedica também à partida dos filhos algumas estrofes do
poema-livro Gritoacanto 1970-74: “de sangue salgado se vestem/ estas minhas
palavras/ e é sangue e sal o que escrevo/ e mágoa/ da verdadeira
impossibilidade de lágrimas/ (...) ausentes ainda vos vejo moldados/ ao que já
é uma lembrança errada/ porque ides/ (...) ai ide ninguém saberá/ que estais
ausentes/ porque tem que ser que ninguém saiba (ou suspeite)” (p. 16). Esses
versos representam também o clima de intimidação e perigo vivido então em
Moçambique. Pouco tempo depois da partida dos filhos, em 1974, também Glória de
Sant'Anna deixará para sempre Moçambique.
Em suma, a poesia de Glória de Sant'Anna problematiza várias questões, que
remetem para a relação entre os portugueses que viviam nas então colónias e os
nativos e para o ponto de vista feminino sobre a Guerra Colonial em Moçambique,
entre outras. Para além disso, a sua importância no âmbito literário
moçambicano deriva também de uma linha poética comum, a do lirismo intimista,
que reúne vários poetas do período colonial com outros do pós-independência.
Eduardo White, por exemplo, reelabora poeticamente alguns imaginários poéticos
de Glória de Sant'Anna. A obra poética de White acompanha momentos históricos
fundamentais para Moçambique: a euforia do pós-independência, a guerra civil, o
acordo de paz de 1992 e a nova e longa fase de construção democrática, dominada
pela Frelimo. Ao mesmo tempo, a sua obra, ao retomar temáticas e recursos
poéticos de alguns dos autores do passado, como Glória de Sant'Anna, estabelece
uma intertextualidade que redefine, em parte, os valores culturais e estéticos
do sistema literário no pós-independência. A sua poesia intimista, mais
veiculada à expressão e reflexão do eu lírico do que à poesia de combate que
exalta o nóscolectivo, reivindica o direito à liberdade criativa, ao sonho e ao
amor.
Na obra poética de White o drama da guerra, da miséria e da fome não é, à
excepção de Homoíne (1987), o tema central. Isto porque a sua poesia tenta
exorcizar os fantasmas do passado e do presente alimentando outros horizontes
poéticos. Como evidencia Jessica Falconi (2011), o poeta reconfigura o
“heroísmo nacionalista” como “heroísmo do amor, derradeiro espaço de vitalidade
onde se recuperar uma dimensão humana para o dia-a-dia” (p. 119). Como afirma
Eduardo White referindo-se às trágicas dinâmicas do próprio país, apesar do
passado sangrento é preciso sonhar com um futuro melhor: “eles passam-nos um
testemunho pesado porque nos passam um passado de sangue e um presente de
sangue. Resta saber se somos uma geração capaz de fazer um futuro sem sangue,
isso é que é importante. Eu espero que sim. Com amor fazemos” (Laban, 1998b, p.
1193).
Podemos dizer, então, que no contexto da poesia de White, Homoíne constitui uma
excepção, por ser o texto poético que mais reflecte o drama da guerra. Homoíne
é um poema-livro publicado em 1987, centrado no massacre que teve lugar a 18 de
Julho de 1987 na vila homónima, situada na província de Inhambane. O assassínio
de cerca de 400 civis, maioritariamente mulheres e crianças, por parte da
Renamo, com o apoio da África do Sul (Springer, Keast & Therrien, 1987, p.
4), foi perpetuado com o objectivo de semear o terror entre a população civil.
O Diário de Moçambique, a 7 de Novembro de 1987, dedicou à tragédia de Homoíne
uma secção cultural do jornal, no qual foram publicados poemas de vários
autores, incluindo o texto de White.
Gerado a partir das dramáticas consequências de um massacre que realmente
aconteceu, Homoíne eleva-se, como o poema “Desde que o mundo” de Glória de
Sant'Anna, a canto universal. Neste sentido, o longo poema de White (1987)
torna-se numa condenação à insensatez da guerra, que tira ao homem qualquer
sentido de humanidade: “Ai, quem matou estes mortos?/ Ai, quem celebrou com
fogo suas vidas?/ Ai, quem os calou no silêncio definitivo?/ Deuses, homens ou
bichos?/ Bichos certamente” (IV).
No longo poema, que é dividido em oito partes, são descritas as consequências
imediatas da terrível chacina e constrói-se com repetições e quiasmos num ritmo
em crescendo de imagens aterradoras que reproduzem a ânsia e o desespero da
cena do massacre. Leiam-se a esse propósito as seguintes estrofes:
Os nossos mortos são muitos,
são muitos os nossos mortos
dentro das valas comuns
e a terra está sangrando de repente,
tem sede e sangra lentamente (...)
os nossos mortos são muitos,
são muitos os nossos mortos
dentro das valas comuns (...) (White, 1987, I; itálico meu)
Oh, os nossos mortos são muitos,
nem se os pode ver,
são muitos os nossos mortos
dentro das valas comuns,
e são cidades de sangue; são cidades sem luz
e são moscas verdes e cheias de pus,
que estão inchando e zunindo,
que estão zunindo e inchando,
inchando e zunindonos seus corpos nus (White, 1987, V; itálico meu)
Os quiasmos presentes nessas estrofes, bem como a repetição com ligeiras
variações do verso ‘os nossos mortos são muitos'[10]intensificam a imagem de
morte, que se torna obsessiva e aterradora, contribuindo para a partilha da dor
e do sentimento de indignação perante tal chacina. O poema desenvolve a
descrição do massacre com detalhes bastante pormenorizados, como podemos ler
nos seguintes versos:
e há também uma criança nua, sobrevivente,
é a única criança que vive e que não tem parentes
e que está bebendo,
e que está sorvendo
dos seios tenros dos cadáveres,
dos duros sexos dos falecidos,
os leites espessos e amarelecidos,
os gordurosos leites apodrecidos
que a estão matando de sede (White, 1987, II)
Esta terrível imagem da criança que amamenta dos cadáveres coincide com o
testemunho de um sobrevivente referido num dos muitos artigos dedicados ao
massacre: ‘Disseram-me (...) que, depois do massacre, fora do hospital, estava
uma mulher morta e uma criança, de leite, tentando mamar nos seios da mãe'
(Santos, 1987, p. 24). Na verdade, omassacre de Homoíne foi uma carnificina de
civis, muitos dos quais mulheres, idosos, crianças e doentes internados no
hospital local. No texto de White (1987), nem os animais escaparam ao massacre:
“homens, mulheres, crianças,/ gado, cães, serpentes,/ que dentro do fogo estão
nascendo,/ que dentro do fogo estão crescendo,/ que dentro do fogo se vão
erguendo,/ com a morte correndo como um grito/ com a morte explodindo como um
tiro” (III).
O ritmo em crescendo do poema alcança o seu ponto máximo no final da última
parte, a VIII, na qual os mortos reivindicam o direito à própria vida: “e
gritam os mortos, ai, e gritam desolados/ à vida e aos vivos que lhes acenam
distantes/ e batem no corpo e arranham o rosto/ e insuflam os olhos numa
aflição incontida/ e não tardam se aperceber em derradeiro desgosto/ que a
terra já desce com a morte vestida” (White, 1987, VIII).
Homoínedemonstra que perante o horror da guerra o poeta tem o dever de
reivindicar os sonhos e os amores dos que foram impiedosamente mortos, porque é
ainda possível acreditar no futuro e manter viva a esperança: “e há dentro
deles imagens e pensamentos,/ há sonhos por acabar, mulheres por amar/ (...) e
há borboletas pousando por sobre o sangue/ e há pássaros alegres que o estão
limpando/ e há uma cigarra vermelha/ uma cigarra de sangue/ que do coração dos
mortos os está contando” (White, 1987, VI).
Esse longo poema dialoga com o texto “Desde que o mundo” de Glória de Sant'Anna
(1972). Embora tenham sido escritos em contextos históricos diferentes (o
primeiro insere-se no conflito que deflagrou após a independência do país e que
durou até 1992, enquanto o segundo foi escrito durante a Guerra Colonial), os
dois textos têm muitos elementos comuns. Partindo do pressuposto de que “todo
texto se constrói como mosaico de citações, todo texto é absorção e
transformação de um outro texto”, segundo a noção de “intertextualidade”
elaborada por Julia Kristeva (1969/1974, p. 64) com base nos estudos de
Bakhtine, podemos evidenciar os elementos reelaborados por Eduardo White a
partir do poema “Desde que o mundo” de Glória de Sant'Anna (1972, p. 19).
No processo de releitura intertextual notamos que o que une os dois poemas é o
ritmo e o imaginário terrífico que se vai construindo aos poucos. Podemos fazer
uma leitura do poema de White em dois níveis: por um lado, a nível imagético,
há uma série de elementos-chave que são reelaborados pelo poeta e por outro
lado, a nível retórico, White utiliza frequentemente, como Glória de Sant'Anna,
as figuras de repetição.
As primeiras imagens de sangue caracterizam o começo dos dois textos, a esse
propósito leiam-se os versos das duas primeiras estrofes de “Desde que o
mundo”: “A terra está ficando toda de sangue/ toda de sangue/ (...) Cada corola
que rompe vem cheia de sangue/ cheia de sangue” (Sant'Anna, 1972, p. 19). White
(1987) recupera esse elemento temático ao escrever os seguintes versos: “e a
terra está sangrando de repente,/ tem sede e sangra lentamente” (I). Também a
imagem dos vermes que corroem os corpos dos mortos na última estrofe do poema
de Glória de Sant'Anna (1972) – “E comendo a fome de sangue da terra/ entre
ossos e pele/ entre ossos e pele/ gusanos, gusanos, gusanos, gusanos/
repartindo tudo” (p. 19) – está presente em Homoíne: “e há um enorme pássaro
que se encanta,/ é o pássaro lento do esquecimento,/ pássaro de sangue, pássaro
que se levanta/ dos vermes que estão comendo os nossos mortos por dentro”
(White, 1987, I).
Apesar de o poema de Glória de Sant'Anna ser mais breve do longo texto de
White, verificamos que, do ponto de vista retórico, a autora utiliza
frequentemente a figura da repetição para acentuar de forma quase obsessiva o
drama representado. Por exemplo, nas duas primeiras estrofes de “Desde que o
mundo” citadas precedentemente, são referidas as últimas palavras do verso
(anadiplose) – “toda de sangue” e “cheia de sangue” (1972, p. 19) – para
realçar a imagem sangrenta da cena representada. De notar, para além disso, que
a repetição dos substantivos que remetem para as partes do corpo têm o efeito
de reforçar o sofrimento das vítimas: “As faces, as faces, as faces quietas/
(...) e os dentes, os dentes, os dentes dispersos/ (...) E orelhas, orelhas
deitadas escutando/ (...) entre ossos e pele/ entre ossos e pele” (1972, p.
19). A evocação das diferentes partes do corpo remete ainda para a imagem de
seccionamento cruel do corpo martirizado. Assinalamos, por último, a presença
da assonância, que vem contribuir, juntamente com outras figuras de repetição,
para a intensificação do drama. Leiam-se, por exemplo, os seguintes versos: “e
os dentes, os dentes, os dentes dispersos/ por entre de dentro no meio das
pedras” (1972, p. 19).
Em conclusão, reparamos que no texto de Glória de Sant'Anna as repetições de
palavras ou sons criam um efeito rítmico que reproduz uma intensidade dramática
em crescendo associada à angústia e ao desespero. Também Eduardo White, em
Homoíne (1987), utiliza com o mesmo objectivo a repetição de palavras ou
versos, como é o caso do seguinte quiasmo: “Os nossos mortos são muitos, / são
muitos os nossos mortos” (I).
Tendo em conta os elementos retóricos evidenciados, bem como as imagens
representadas, comparem-se alguns versos dos dois poetas para compreender de
que forma o ritmo da morte em crescendo avança impiedosamente ao longo dos
textos:
E orelhas, orelhas deitadas escutando
escutando esperando escutando esperando
os passos e o pulso e as vozes e o fumo
e o vento e a chuva e o rodar do mundo
E comendo a fome de sangue da terra
entre ossos e pele
entre ossos e pele
gusanos, gusanos, gusanos, gusanos
repartindo tudo. (Sant'Anna, 1972, p. 19)
são muitos os nossos mortos
dentro das valas comuns (...)
e são cidades de sangue, são cidades sem luz
e são moscas verdes e cheias de pus,
que estão inchando e zunindo,
que estão zunindo e inchando,
inchando e zunindo nos seus corpos nus. (White 1987, IV, V)
Os dois textos, que representam duas guerras, duas épocas e contextos políticos
distintos, testemunham o mesmo drama. Perante o horror da guerra a atitude dos
poetas é a mesma: a de denunciar através da linguagem poética a ‘desumanização'
do homem. Se Eduardo White procura exorcizar os medos, o horror da guerra e da
pobreza através do amor e abrindo novos horizontes territoriais e poéticos,
também a poesia intimista de Glória de Sant'Anna, embora de forma diferente,
procura no mundo do silêncio e da solidão uma forma de (r)existir, como lembram
os seus versos: “Serei tão secreta como o tecido da água” (1972, p. 47).
Enquanto os dois autores reivindicam a própria liberdade poética, os seus
textos demonstram que o drama da guerra é um drama comum e que a linguagem para
exprimir a dor associada às carnificinas que esta provoca é universal. Perante
a morte causada pelas guerras, independentemente do tempo e do lugar, a
indignação do homem (e do poeta) é a mesma.