Recuo ao mais côncavo vazio de juan josé millás: os 40 anos de cerbero son las
sombras
A novelística a que Juan José Millás[1] nos tem vindo a habituar mostra-nos um
estilo narrativo arejado onde proliferam as personagens que desenham no rosto
do leitor sorrisos de indelével cumplicidade: homens em miniatura de fato e
gravata saindo dos bolsos do escritor pouco inspirado, frases que atuam como
gente e têm problemas existenciais, seres fantasmais simulando tomar algo no
café do bairro, sapatos com vida própria a esconderem-se debaixo da cama,
moscas a despirem-se de forma sensual e a lembrar a sedutora Kate Moss. Este
insólito elenco de personagens mostra a preocupação do escritor por um género
de replaneamento urbano-existencial que muito tem contribuído para a execução
do seu projeto literário. Neste repovoamento das geografias millasianas,
ninguém deveria sentir-se só, porque há sempre um outro no qual possivelmente
nos revemos, ainda que aparentemente pouco possamos ter em comum com as
entidades em questão. Porém, nem sempre este Millás de escrita bem-humorada foi
assim. O homem que hoje acrescenta e preenche é aquele que, no início da sua
carreira, soube subtrair, esvaziar, como se só a partir do vazio mais côncavo
fosse possível o repovoamento.
Transcorridos 40 anos sobre a edição da primeira obra publicada de Juan José
Millás, Cerbero son las sombras (1975)[2], a ocasião revela-se-nos interessante
para fazer um recuo a essa geografia vácua e árida a fim de nela encontrarmos,
e contra qualquer evidência, o lugar da fecundação. A obra, toda ela redigida
num registo epistolar, consiste num longo monólogo de um filho a seu pai, onde
recorda um passado marcado pela fuga da família para Madrid e a sua estância
numa casa-esconderijo habitada pelo medo. Ao mesmo tempo que reconstrói os
momentos desse passado, a carta torna-se um pretexto para a reflexão, fazendo
parte do processo de identificação do filho com a fracassada figura paterna.
Mas a obra é também lugar do presente, onde o narrador, esse filho, se distrai,
numa cave húmida alugada, a construir jaulas para criaturas prenhes, com caixas
velhas de charutos, mantendo-as a salvo dos machos devoradores das suas crias.
Ao longo destas páginas procuraremos averiguar a forma como Millás desconstrói
e despoja, até chegar a um género de ‘absoluto do vazio', um extremo feito de
escuridão e de sombra, marcado pela mutilação, a amputação, a depressão e a
morte. No rasto do que parece não ter conteúdo, encontraremos o eco de algo que
orientará as nossas indagações no sentido de devolver ao oco o compacto, a
partir da ideia de que somente passando pela experiência catártica do
esvaziamento se poderá encontrar a legitimidade para seguir o caminho de
regresso. Um regresso diferente da ida, contudo.
Quando Juan José Millás publicou Cerbero son las sombras tinha 29 anos e estava
seguramente influenciado pelo Experimentalismo, um estilo literário que surgira
no final da década de 60, mantendo-se até à chegada da Transição, e que era, a
diversos níveis, uma rutura com um modo clássico de se fazer romance.[3] Não
será alheio a este estilo, e muito menos ao próprio escritor, o Millás dos 29
como dos 69 anos, a preocupação pela introdução da dissertação de pendor
existencialista, daí que ao conceber, na obra em apreço, a vida como uma fuga e
um encobrimento permanentes, tenha colocado a tónica no lado absurdo e
totalmente inútil da existência. O título da obra anuncia a angústia
existencial, ao confinar-nos à guarda desse cão de três cabeças que a mitologia
colocou à entrada do Hades.[4] Esta obra, com efeito, poderia bem ser uma
descida aos infernos, mas é bem mais do que isso. É a história de uma perda
total, até à indiferença.
1. Mutilação e amputação
A fuga da família protagonista da obra é um acontecimento que carece de
coordenadas que nos permitam situá-la, com todo o rigor, num determinado
momento histórico, e muito menos, numa determinada fase da vida do autor. Sabe-
se, no entanto, que também ele efetuou, em família, aos seis anos de idade,
esse trajeto, essa mudança, para a capital[5], e embora a obra não faça
qualquer alusão à sua Valencia natal, entende-se que a referência ao “mar que
abandonábamos” (Millás, 1975, p. 10) – e com esta correlação não pretendemos
incorrer no risco da biographical fallacy – poderia eventualmente remeter para
as recordações de um Millás, resgatadas dos seus seis anos, da época
franquista. Nessa Espanha do pós-guerra, estes cenários migratórios consistiam
autênticos e recorrentes cenários de escape à fome e ao desemprego. Como o nota
Carlos Ardavín, a história desta família retrata a tragédia das famílias
vencidas pela guerra civil espanhola. Com ele, mostramos também a nossa
estupefação: “Lo singular del texto de Millás es la capacidad que despliega
para transmitir este sentimento sin especificar las circunstancias históricas”
(Ardavín, 1997, p. 80). Não há, pois, descrição de época, nem alusão precisa ao
espaço: a casa tem um corredor como todas as casas terão na posterior obra de
Millás, até a casa orgânica do nosso corpo (vd. Vuillequez, 1997). A cave
alugada é feita da mesma humidade de todas as caves alugadas e o prelúdio de
outras, mais de acordo com os tempos hedonistas que haveriam de vir: os hotéis,
essas “moradas neutras” (Ayuso, 2001, p. 26) onde se refugiam muitas das
personagens millasianas.
Madrid não é um terminal de viagem, é um esconderijo, um interregno a meio do
percurso. Ora, é num espaço inóspito, atravessado por um corredor escuro e
medonho, que as personagens se movem ao longo da obra, num ambiente de
comunicabilidade frustrada. Se a comunicação entre os membros que estão do lado
de dentro é débil, aquela que anseiam que aconteça com alguém do exterior é
inexistente. O desespero começa aí. A desgraça vem de fora para dentro. Tudo
começa quando o pai do narrador comparece a um encontro clandestino com alguém
que deveria ajudar financeiramente a família, mas o encontro não chega a dar-se
em virtude da ausência do outro. Desesperado, rouba dinheiro numa circunstância
que não nos é explicada, escapa a uma perseguição e depois corta a orelha
esquerda. A sua condição na família passa a ser a de enfermo que está à mercê
do apoio da mulher e do filho. Daí a declaração deste último ao escrever na
carta: “Un hijo que tiene que ayudar a su padre a suportar el sufrimiento es ya
un hombre sin padre y sin hogar, y sin un punto de referencia en cuanto al
desamparo” (Millás, 1975, p. 48).
A automutilação assume uma tonalidade, a nosso ver, sacrificial, quando num
gesto de desespero ou de loucura, e por ver esgotadas as soluções, o pai como
que expia a maldade do mundo de que é vítima, usando para tal o seu próprio
corpo. Estaremos próximos desse Van Gogh suicidado pela sociedade, como o viu
Artaud, aquele que, também ‘suicidado' por ela, afirmou: “Quem não cheira a
bomba assada e a vertigem comprimida não é digno de estar vivo” (Artaud, 2004,
p. 45). O pai do nosso narrador é esse homem da vertigem comprimida, o homem a
que lhe falta o ponto de equilíbrio (e a orelha / ouvido atua eficazmente nessa
simbologia), aquele que com o corte, como que se atira de repente para fora de
si, e usamos o itálico agora em sintonia com Bataille[6], é em suma um homem
esgotado, um homem rebentado. Por uns momentos, ele tem a liberdade total para
não dissimular o que sente, porque a sua dor é mais gritante do que o silêncio
que exige a sua condição de fugitivo. Só quando regressa da sua alienação,
gemendo talvez por um milagre, é que volta a encobrir-se a custo, isto é, volta
à sua condição de fugitivo: “(…) y allí te golpeaste hasta que la rabia ante
tanta impotência se tornó en sangre y dolor físico. Cuando te volvió la razón,
tu estado era tan penoso que te fue difícil regresar a casa sin llamar la
atención de la gente” (Millás, 1975, pp. 66-67).
A orelha amputada do pai torna-se, na imaginação do filho, um pássaro sem asas.
Ousamos ver nesta imagem um mau augúrio: depois do dilúvio, nenhuma pomba há de
vir. Indicia-o também a ação que se sucede imediatamente depois. Com o dinheiro
roubado, na sequência de um primeiro plano falhado, o pai pede ao filho que vá
de táxi pedir ajuda a uma mulher que tinha sido sua amante, mas esta é uma
empresa sem êxito; o adolescente não chega a falar com a mulher do nome a
lembrar a Brest de Prévert[7], antes assiste à sua morte por atropelamento. O
filho torna-se, de repente, um mensageiro disfuncional, tão estéril quanto a
orelha morta de Van Gogh entregue num lenço a uma prostituta. A família está
condenada a ser o pássaro sem asas de que a amputação paterna é o símbolo. É
interessante verificar, no entanto, que este é o acidente necessário para que
ela aguente o oco dos seus dias: mãe e filho juntam-se na sutura da ferida,
cosendo como podem a orelha caída do doente, barbeiam-no, alimentam-no. E no
meio destes rituais quotidianos, a mãe faz as suas aproximações ao filho,
aproximações amorosas de mãe, embora por vezes calculistas.[8] O adolescente,
porém, aproxima-se sobretudo de si mesmo, como se a ausência de corpo do
mutilado viesse abrir espaço para a reflexão. A carta é o lado palpável das
suas tergiversações, em todo o seu lirismo, em toda a sua plasticidade. Diz-se
nela:
No hay soledad total si el agotamiento físico no es completo. Incluso
pienso que ambos son la misma cosa bajo ropajes diferentes, pues es
bien cierto que los dos conducen a la lenta y minuciosa destrucción
del cuerpo que nos ha tocado en suerte con una maestría tal que hace
sospechar al entendimiento que no hay forma posible de diálogo con
nuestro propio ser que no esté basada en su mutilación. (Millás,
1975, p. 53)
O discurso epistolar, nascido da privação, do distanciamento, da carência,
torna-se na voz de uma realidade niilista que encontra o seu eco na solidão
absoluta de um poço feito de carne humana, ainda em busca de algum consolo
através da memória e da construção gráfica dessa memória que, como veremos,
terá os contornos de um epitáfio. Como afirma Ayuso (2001), “es la memoria el
reducto de estos seres divididos, frustrados, desengañados. A ella acuden como
refugio, como explicación de su actual situación, o para conjugar la realidad
que los anega”. E acrescenta Contadini (2013, p. 39):
De hecho, la actividad de escritura, que muchos protagonistas
ejecutan, es un asunto imprescindible porque se revela ejercicio
vital, la única prueba de la propia existencia, un pasaje obligatorio
que ellos recorren para no morir, como acontece con el protagonista
de Cerbero son las sombras.
A escrita de carácter introspetivo, narrativa de um “eu” angustiado, acompanha
o Millás da juventude até ao Millás dos nossos dias. O jovem filho, de Cerbero
son las sombras, continuará a viver na pele dos protagonistas de Visión de
ahogado (1977), esses herdeiros do medo dos seus progenitores? Será ele um
outro Ramón, de El jardín vacío (1981), que vemos acocorado no túnel do seu
passado para chegar a um lugar que, se não seria o inferno, teria os seus
atributos? Ou será antes um Turis, esse aspirante a terrorista, de Letra Muerta
(1984), que no disfarce do convento acaba por se encontrar? O certo é que em
qualquer um destes primeiros romances – romances da Transição – se verifica um
esforço de inteligibilidade por parte das personagens, para perceber a sua
posição no mundo e em especial no contexto da Espanha da mudança, ainda ferida
pelos monstros do passado. Diz-nos ainda Contadini (2013, p. 35): “El extravío
de las identidades, la imposibilidad de reconocerse en lo que ha ocurrido, la
dificultad de comunicar y la presencia de espacios angostos y de vacíos
ahogantes son los rasgos más significativos de estos textos”.
A carta torna-se então poesia da dor, como a são também os diários e outros
relatos de pendor intimista, bem como relatórios, ou até mesmo os romances que
as personagens, elas próprias, vão escrevendo. Ultrapassados os tempos
gelatinosos da Transição, outro t(r)emor persiste: o da sempiterna dúvida
ontológica. Em El desorden de tu nombre (1987), Julio Orgaz, vê-se ora preso,
ora salvo pela ficção que engendra ou rouba de outros – num género de “pugilato
y armonización de los textos rivales” (Mainer, 2009, p. 32) – mas está longe já
do desespero do filho de Cerbero son las sombras: ele não morre; mata, se assim
tiver de ser. Também Elena Rincón, de La soledad era eso (1990a), se reinventa
pela escrita, renascendo de um casamento fracassado e de um caroço que lhe
cresce no corpo. Com a descoberta do diário da mãe já falecida, sintoniza-se
com ela, ao mesmo tempo que acolhe com uma nova maturidade e um outro fôlego a
chegada de um neto. Resolve-se assim o conflito geracional na esfera familiar,
poderosa metáfora do que poderia estar já a passar-se na esfera da pátria. Em
Volver a casa (1990b), Millás remata a sua Trilogía de la soledad com uma
solução que, a nosso ver, não convence, perturbada que está ainda pelo peso da
angústia perante a dúvida sobre quem realmente somos e qual o sentido da nossa
vida. A trama é aparentemente simples: dois irmãos gémeos, realmente iguais
(apenas os distingue um colar em ouro no pescoço de um deles), resolvem trocar
de identidade na juventude, o que implica, além da troca de documentos, a
tomada de posse de aspetos relacionados com a esfera laboral e com o âmbito
matrimonial. Por volta dos 40 anos, Juan quer resgatar a sua identidade e
voltar a ser José, marido de Laura e escritor de algum sucesso. O acordo entre
os irmãos faz-se paulatinamente e sempre numa dialética indireta permeada pela
carta. Quando Juan se transforma novamente em José, já não se sente como dono
dessa identidade, a não ser quando usa uma máscara para dormir e se apresenta
com ela na rua e nas entrevistas. Porém, não satisfeito com essa solução,
decide trocar a sua identidade com a de um manequim de cera, que representa o
seu próprio cadáver, o da mãe e o do irmão, provavelmente a mescla das três
pessoas que efetivamente constituem o seu ser. É na imobilidade do boneco, peça
de museu, isto é, na sua natureza morta – ou, pelo contrário, imperecível – que
atinge a paz, e o seu corpo físico se une com o corpo astral.
Instaura-se assim o delírio millasiano dos anos 90 até à atualidade. O ‘eu',
tal como o ‘outro', poderá de repente fundir-se num sapato, num robot, num
gato, num rei mago, num indivíduo de outro sexo, no cônjuge, em Ella imagina
(1994), ou numa boneca de um conto de fadas construída no Oriente, num filho
adotado, num tonto, num ser invisível, num ser morto, num ser plural, em Tonto,
muerto, bastardo e invisible (1995). O ‘eu' poderá ser uma mentira, cobrindo
uma outra mentira e depois outra ainda, num enredo ficcional que recupera uma
certa estética de boneca russa, em Dos mujeres en Praga (2002), ou ser uma
criatura reduzida ao tamanho do inseto, em Lo que sé de los hombrecillos
(2010). Mas poderá irmanar-se também com a volatilidade das palavras, ou com as
próprias palavras, essas gentes filológicas de vontade própria que interagem
com uma peixeira em La mujer loca (2014), e que já em 1998, com El orden
alfabético, tinham feito a sua aparição como personagens de pleno poder,
podendo interferir com a ordem da realidade e na essência de toda a existência.
Sobre este ‘repovoamento' (termo que utilizamos no início deste artigo) que tem
por base um universo onírico, fantástico, muito haveria a indagar. Não é,
todavia, o ‘preenchimento' o foco deste breve estudo, mas o ‘esvaziamento'. Com
ele voltamos à ideia de mutilação e de amputação que dá título a este capítulo
e que é condição necessária para criar o oco uterino indispensável na gestação
de uma multitude de entidades, todas elas potenciais agentes de resolução do
drama existencial.
Há na extensa obra de Millás uma presença não desprezável de personagens
amputadas, vítimas de uma qualquer mutilação, ou diminuídas em algum sentido,
que trazem consigo uma carga simbólica grande no que à questão do oco
existencial diz respeito. Nessa cavidade, ganha relevo uma outra questão, que a
comunicação epistolar por si só já enuncia: a questão da incomunicabilidade
(vs. comunicabilidade). Exemplo disso é o conto “El brazo derecho de mi padre”,
da coletânea Los objetos nos llaman, onde o narrador se sente incomodado por
ver a manga vazia do braço amputado do pai, e onde este, dando-se conta de que
mal tinha abraçado o filho ao longo da vida, tenta recuperar os abraços
perdidos:
Cuando estábamos solos, me pedía que me acercara a él, me rodeaba el
cuerpo con el brazo izquierdo y colocaba la manga derecha de la
chaqueta de tal modo que pareciera que tenía un brazo dentro.
– Me arrepiento tanto de no haberte abrazado… – me decía él al oído,
mientras yo intentaba librarme de él.
Pero no podía, no me era posible liberarme porque me sujetaba fuerte,
fuerte, y no con el brazo izquierdo, como cabría suponer, sino con el
que le faltaba, el derecho. Por ese brazo inexistente me sentía yo
atrapado. Todavía lo estoy. (Millás, 2008, p. 60)
É esta a densidade do vazio – compreenda-se o paradoxo. O não-dito assume
proporções marcantes no gesto escondido pela manga vazia, pela manga fantasma.
É um não-dito feito de pudor e afeto, como aquele a que assistimos cada vez que
o filho faz a barba ao pai, como aquele que um Michel Onfray, filósofo francês,
tão bem soube poetizar num texto intitulado “Le corps de mon père”: “Dans le
monde où mon enfance se deplia, la tendresse ne se disait pas. Ni par les mots,
ni par les gestes” (Onfray, 2002). A fusão da entidade paterna com a do filho é
não obstante evidente, quando este se atormenta com a dor do pai, como se a
sentisse na própria pele. Diz-nos Millás: “(…) mamá comenzó a sollozar, y yo la
consolé como un hijo, no porque sintiera deseos de hacerlo, sino porque de esta
forma le daba más importancia a su llanto, colocando así en segundo plano tu
propio dolor, que era el que de verdad me atormentaba” (Millás, 2011a, p. 67).
E diz-nos Onfray (2002), no mesmo texto: “Je sentais dans ma propre chair sa
fatigue, son épuisement, sa carcasse fombue”.
Millás junta no mesmo precipício pai e filho, e isso é-nos anunciado logo no
primeiro parágrafo[9], como se a propensão para a queda no abismo fosse uma
questão de genética. A incapacidade do pai de fazer com que a família possa
empreender a fuga, e libertar-se da situação difícil na qual se encontra,
transfere-se para o filho cujo destino se adivinha estéril:
Pues ahora ya es seguro que moriremos sin descendencia y que todos
los miles de muertos que nos han precedido quedarán definitivamente
enterrados, definitivamente muertos, sin un mal olvido con que
alimentar el recuerdo. Entonces supe que para nosotros el futuro no
sería jamás un cielo abierto, ni siquiera un mar de calamidades, sino
más bien el único lugar posible desde el que la memoria pudiera
trabajar, como en un pozo sin fondo, intentando sacar algún sentido
del azar anterior. (Millás, 1975, p. 14)
O corpo mutilado do pai é, em suma, um corpo que – novo paradoxo – fecunda a
esterilidade. É um corpo que provavelmente se cospe por dentro, como se no seu
interior houvesse uma cuspideira, que ousamos chamar de ‘cuspideira-útero', a
mesma cuspideira, que nunca se enche e nunca se esvazia, sugerida pelo
transeunte com quem o filho fala, mais tarde, em dia de chuva. E isto acontece
– explica-nos o filho que chora – porque as lágrimas, o suor e a urina assumem
todos eles esse papel. É nesta superioridade dos restos “de los que el cuerpo
se deshace después de un largo proceso selectivo” (Idem, 120), é nesta
superioridade, dizíamos, que reside parte dessa poética do ‘desfazer', do
‘deixar levar-se', do ‘deixar ser'. Mas Millás escava ainda mais fundo quando
nos confronta com o caso de Jacinto que analisaremos em seguida.
2. A morte escondida
Voltando à narração, façamos uma nova contextualização dos factos. A família em
fuga é constituída pelo pai, pela mãe, o filho narrador, a pequena Rosa e
Jacinto, portador de uma deficiência, aparentemente de foro psíquico, cujos
contornos não são dados a conhecer ao leitor. Certa noite, Jacinto propõe ao
irmão fugirem os dois, mas como não obtém qualquer resposta, desaparece sozinho
de casa. Trata-se, porém, de uma falsa fuga porque vêm a encontrá-lo, ao
terceiro dia do seu desaparecimento, tossindo debaixo da cama. Pai e mãe
resolvem nunca mais voltar a falar sobre ele, na crença de que a dor posta em
palavras agravaria a vergonha e o sofrimento. A mãe encerra-o num quarto
escuro, onde só ela entra para o alimentar e assear das suas dejeções. O quarto
de Jacinto passa a ser um mistério a meio daquele corredor numa casa que tem
como anfitrião o medo. Certo dia, o narrador, ao ver a mãe adormecida, retira-
lhe a chave, que guarda com ela, e abre a porta do quarto escuro e silencioso.
É então que encontra o corpo de Jacinto num armário, com panos embebidos em
colónia enchendo-lhe a boca, para embuçar o cheiro da decomposição.
Estamos perante dois cenários que acrescem informação ao tratamento do tema da
subtração (do corpo e da mente), como forma de operacionalização do oco
existencial. Primeiro, a diminuição mental da personagem; segundo, a diminuição
física levada ao aniquilamento. Até que ponto a loucura de Jacinto é importante
para o desenho da geografia desta particular família? Até que ponto é
importante a sua morte?
A loucura de Jacinto será um pretexto para a confirmação da lucidez dos outros,
como o pressupõe o narrador[10]? Não ser o que o outro é, ou ser o que o outro
não é, eis talvez a forma mais simples de fazer uma análise sémica dos
conceitos definitórios de uma identidade. Ser menos ou ser mais, em relação a
algo, num contínuo a perder de vista. É num jogo similar a este, de oposições e
gradações, que se define também esta família. O seu caráter fugitivo é
absolutamente fundamental para uma determinada organização do mundo exterior:
ela era tão necessária a essa ordem geral, como o delinquente para a lei que
transgride, concluiu o narrador. Porém, não ser Jacinto seria não ser louco ou
seria ser mais Jacinto, ser mais louco? Não sabemos em que circunstâncias
morre, nem em que medida aquela mãe estaria implicada na morte, mas sabemos,
sim, que a oculta. Ora, uma mãe nestes moldes estaria em que ponto do eixo a
perder de vista?
Em El jardín vacío, estas questões voltam a ser postas em evidência, quando o
industrial da fábrica de gelo oferece à tia Jorobita do narrador uma cadeira de
rodas em troca de um favor: o assassinato do filho deficiente, o próprio.
Olhada com um misto de compaixão e vergonha, a deficiência torna-se obstáculo
aos que coabitam com ela, daí a sua ocultação:
Sin embargo, el hijo del industrial tenía además una deformidad
física que había alterado la primitiva organización de su cuerpo, y
que no le permitía un desenvolvimiento normal. (…) Entonces, y
siempre con la idea de ocultarlo por vergüenza o por lástima, lo
metió en una cama instalada en el recoveco que hay al fondo de la
fábrica, y allí el cuerpo fue tomando una forma como apaisada, y en
seguida comenzaron a salirle llagas. (Millás, 1981, p. 125)
Também neste romance encontramos uma casa em ruínas e a lembrança de um irmão
morto, Gabrielín, vivendo nas paredes da casa, sob a forma de ruídos que só a
velha mãe ouve. No exterior, o cheiro a cadáver por todo o lado e a mesma
atmosfera de frio, miséria e clandestinidade. Percorrendo os labirintos da
memória, Millás faz deste terceiro romance como que uma variação sobre o
primeiro, desaguando num mesmo porto porque “la vida es un acto clandestino,
sempre el ayer hipotecó un presente que hace aguas por todos lados” (Ayuso,
2001, p. 22).
A diminuição mental de Jacinto é também um anúncio da sua diminuição corpórea,
isto é, da sua retração enquanto ser biológico. Entre uma e outra “diminuição”,
a da mente e a do corpo, uma terceira se interpõe: a diminuição verbal, aquela
que cala Jacinto mas, sobretudo, que silencia todos os membros da família. Pela
diminuição da linguagem há o intento de diminuir também a realidade. A
linguagem pode ser mágica, é sabido, mas não tanto como para operar um
desaparecimento definito.[11] A realidade é sempre mais forte: chega em
primeiro lugar, e vezes há em que é a última a ir embora. Não falar de Jacinto
era aniquilá-lo como ser corpóreo e aniquilá-lo como ser que é o outro, mas nem
o corpo morto é presença discreta, nem a memória dos que vivem é um mecanismo
em ponto morto. Significa isto, em primeiro lugar, que havia um problema
prático em relação a Jacinto que era urgente resolver: o de calar a sua
orgânica em decomposição. Se o ritual quotidiano da ida da mãe ao quarto de
Jacinto era eficaz na construção de uma determinada verosimilhança necessária à
mentira criada por ela, por outro lado, este ritual tornava-se ineficaz no seu
propósito primeiro, o de dar à boca do morto a colónia que lhe esconderia a
podridão. O cheiro do cadáver começava a ser muito forte, como o comprovam os
seguintes fragmentos:
Recorrimos todo el pasillo gastándonos bromas y diciendo tonterías,
lo que no impedía un cierto olor a descomposición en las cercanías
del cuarto de Jacinto. No pensé que mamá se hubiera olvidado de
renovar la colonia, sino más bien que contra aquel olor ya no podía
luchar ningún perfume. (Millás, 1975, p. 138)
El olor a cadáver se expande como el humo; penetra por el resquicio
más oculto y se convierte al salir en una nube invisible que lo
invade todo hasta encontrar otro resquicio. Lo que quería decir que
de no tomar alguna medida de inmediato aquel olor alcanzaría la
escalera y después comenzaría a penetrar por debajo de las puertas de
las casas vecinas en un tiempo que ni siquiera me sería posible
calcular en días. (Ibidem)
A compra do gesso através do qual se embutiria o cadáver num buraco qualquer da
habitação, como um gato de Edgar Allan Poe, resolve o problema da questão, na
sua versão corpórea, ao mesmo tempo que parece estabelecer uma ponte de
entendimento, ou cumplicidade tácita, entre mãe e filho. Contudo, e em segundo
lugar, havia ainda o problema de outro desaparecimento por efetuar; é que
embora Jacinto já fosse um morto (morto para sempre num buraco tapado pelo
gesso), ele ainda não estava morto na memória do irmão:
(…) a un vivo se le elimina con cierta facilidad, basta un buen
golpe; pero desprenderse de un muerto es problemático, sobre todo si
se albergan prejuicios sentimentales. (Idem, 111)
Poderíamos ver, não no Jacinto engessado, mas no irmão que o engessa, a estátua
de que fala Michel Serres, outro filósofo francês da atualidade. Segundo ele, a
estátua é a imobilidade do gesto, a estupefação. E dá-nos o exemplo do “Ravi de
la crèche de Noël”, a personagem que se maravilha com o mistério da natividade.
Serres afirma que quando observamos as estátuas de um presépio, nós mesmos nos
convertemos numa estátua que se transporta para o interior da cena, por pura
estupefação, por puro êxtase.[12] Ora, se bem que é Jacinto o imóvel, é o irmão
que se converte em estátua, tal a sua admiração, perante a ideia de morte:
(…) dejando a un lado estas cuestiones prácticas, te digo, no había
más remedio que ver en su muerte una liberación, y desde este punto
de vista yo debía alegrarme por él. Es cierto que este tipo de
liberación también estaba a mi alcance; la diferencia es que en el
momento de pensar tales cosas yo podía elegir y mi hermano no. (Idem,
111-112)
O desejo de ser estátua – estátua de sangue – é, de resto, explicado pelo
narrador, que sonhava poder dormir cada dia mais uma hora até dormir 24 horas.
O sono eterno como salvação. Enquanto não atingisse esse patamar da eternidade,
isto é, das 24 horas adormecidas, faria também exercícios durante a vigília.
Aos poucos iria languidescendo os movimentos, subtraindo os gestos supérfluos,
para poder ficar imobilizado num canto da sala um dia. Desprezo pela vida, ou
necessidade de se converter num género de homem-mármore? E dizemos homem-
mármore, como poderíamos dizer também homem-escrita. Explicamo-lo novamente com
o apoio em Michel Serres, hábil na explanação do modo como o homem foi
exteriorizando as suas funções para lá do território do seu corpo.[13] A
escrita é um exemplo da exteriorização da capacidade humana da linguagem e
também da sua memória. Ela começa por ganhar forma nos suportes manuscritos,
depois nos da imprensa e finalmente nos informáticos. A longa carta do filho ao
pai poderia inscrever-se no primeiro momento da exteriorização a que aludimos.
Vemo-la manuscrita, em folhas de papel, mas o suporte poderia ser ainda mais
primordial: o mármore. Uma carta-epitáfio. Mas epitáfio para o túmulo de quem?
Talvez encontremos resposta nos seguintes excertos:
Querido padre: hoy renunciaría a todo lo que he escrito si estos
papeles no fueron el único refugio de mi identidad. (…) De este modo
crezco y conquisto mi muerte día a día. (Idem, 120)
(…) no creo que pudieras alcanzar, ni en cinco vidas que dedicaras a
ese intento, la intensidad de mi tristeza, llena de temeroso
desprecio hacia la institución aquella de la vida. (Idem, 139)
Somos levados a acreditar que a morte escondida de Jacinto é a morte escondida
do irmão, o narrador, o autor da carta, o homem-estátua-de-sangue, aquele que
diz sentir nele uma tristeza cósmica. O desejo de imobilidade é esse anseio de
alcançar a paz, de não ter que fugir, de não ter de sentir mais nada. A
depressão profunda, a que provoca a inércia total do corpo, é oportunidade para
ele sentir em si a debilidade e a passividade física[14], esse cansaço que, em
1949, uma Simone de Beauvoir considerou poder atenuar o terror na perceção da
morte: “La mort semble moins terrible quand on est fatigué”.
A personagem millasiana anseia, pois, por uma vida anestésica. Ora, a vida
privada de sentidos é o cotejo mais possível que se pode ter com a morte. O
narrador de Cerbero son las sombras entrega-se à sua mortalha com a mesma
lassidão, decorrente do medo, com que Juan, de Volver a casa, se entrega.
Relembramos que o protagonista resgata a sua identidade ao irmão, José, e que
este facto o deixa num estado de confusão mental tal, que não sabe já quem é.
No Museo de la Desesperación havia visto uma estátua feita em cera, oferecida
pelo seu irmão. Reconhece-se nessa escultura suja e envelhecida. Também ele
passaria um tempo sem tomar banho, para que o suor lhe engrossasse a pele, como
um verniz protetor. Com o uso da máscara de dormir, poderia ainda transpirar
mais e morrer um pouco todos os dias. No dia em que embute o colar no pescoço
da escultura, inicia-se o seu processo de automutilação, mas é quando a corta
aos pedaços e a leva para casa, que a ação de esquartejamento alcança uma
amplitude trágica. A analogia com o estrangulador de Boston, de quem falam na
televisão, sugere imagens acordes com a realidade do protagonista: “el cuerpo
de Tony Curtis, vestido de blanco, se diluía en el blanco de la pared a medida
que la cámara se alejaba. (…) se trataba de un cuerpo vaciado de toda
iniciativa, de un molde en el que encajaban perfectamente todas las formas
posibles del horror” (Millás, 1990b, p. 185). À ação do esquartejamento, levada
a cabo pelo protagonista, segue-se uma outra: a de recompor o boneco para que
este o pudesse substituir no espaço doméstico. Quanto a ele, assumiria o seu
lugar no museu. A incrustação do colar na cera é o anúncio de que só
encrustando o corpo inteiro seria possível à personagem apaziguar-se para
sempre, esquecendo-se de si própria. Este desfecho para a personagem de Juan /
José (interessante a coincidência com o apelido de Millás) encontra eco nas
palavras de Irene Zoe Alameda (2009, p. 13):
La soledad del hombre, y su incapacidad para situarse de un modo
airoso en el mundo en que le ha tocado vivir, es un descubrimiento
mucho más crudo si se tiene en cuenta que las novelas de Millás
parten de la seguridad de que Dios no existe. Las únicas vías para
acceder a paréntesis temporales que liberen de tal peso son las de
suspensión de los sentidos, ya sea en forma de olvido, mediante el
sexo (…) o de sustancias narcóticas, como el tubo de optalidones (…)
o las borracheras de coñac.
Em Cerbero son las sombras não há ainda lugar para a extravagância sexual dos
romances posteriores, nem para o vício do álcool, ou dos ansiolíticos. O medo
ainda não se deixa ‘hedonizar'. Estamos também ainda longe do divã do
psicanalista, mas há lugar para a febre e uma cedência quase sem resistência
para a pulsão de morte, fruto de uma condição desarmónica familiar que tem
vindo a ser comummente associada à Carta ao Pai (1919), de Kafka. A personagem
vai-se rarefazendo na sua componente moral, mas é o corpo que começa por dar
sinal.
Arrancar uma orelha continuando tendo orelha, arrancar um corpo continuando
tendo um corpo – são estas as ações que reduzimos ao símbolo. O vazio, não
obstante carecer de matéria, continua a ter uma linha limítrofe por onde o
humano tem ainda a trágica hipótese de se desfiar. Através dela, chegaremos ao
esgoto do ser, à ratazana, ao abandono total.
3. A desumanização
Nova contextualização dos factos. O filho foge de casa e, à medida que se
afasta, vai parando em bares, onde não resiste a chorar. Fá-lo no lugar onde se
eliminam os restos de um corpo a desfazer-se, embora já não consiga verter
lágrimas. Fora da cidade, encontra um bairro de casas pequenas, de gente pobre.
É aí que aluga um quarto, num compartimento subterrâneo de uma vivenda. É um
espaço cheio de humidade, onde se distrai a construir jaulas para criaturas
prenhes – ratazanas, supomos – que ali aparecem em abundância, dando uns gritos
horríveis. E enquanto as vigia, escreve a carta. De vez em quando, pica-as com
um arame e observa-as lambendo as úlceras causadas pelas feridas daí
decorrentes. É também aí que, lendo um jornal, recebe a notícia da apreensão
dos seus pais e de Rosa. Procuram-no, agora, a ele e a Jacinto.
Estamos perante um homem esvaziado que vê na convivência com as ratazanas a
oportunidade realmente anestésica de se tornar louco[15], de ser essa “não-
pessoa” a que se referem Elza Ibrahim e Junia Vilhena (2014) ao abordarem a
questão do louco em Descartes:
Segundo a lógica de Descartes (1641, citado por Marcondes, 2000), em
sua obra Meditações Metafísicas, escrita e publicada pela primeira
vez em 1641, é aquele que não pode pensar, ou, se pensar, não pode
ser louco, sugerindo com isso que, enquanto o homem sadio questiona a
si mesmo, o louco não o faz. O que significa afirmar, parafraseando
Machado, que “a loucura é condição de impossibilidade do pensamento;
o pensamento exclui a possibilidade da loucura” (1981: 61). A equação
cartesiana parece anunciar que aquele que for considerado louco não é
um sujeito: tratar-se-ia, portanto, de uma não-pessoa. A loucura
passa a representar o negativo da razão ou o não-ser da razão; e o
louco passa a ser tido como desarrazoado, um animal sem razão que
deve, por esse motivo, ser asilado.
É a convivência com as ratazanas que desumaniza o narrador, que o deixa
indiferente à voz dos dois homens que perguntam por ele à porteira, e que em
breve o capturarão. As ratazanas, quais ratazanas de Günter Grass[16], parecem
anunciar a catástrofe; não a catástrofe de um homem só, mas a catástrofe
daquele que tem, como vimos, uma tristeza cósmica. É um holocausto. Estamos
perante um homem vazado que se deita diagonalmente na cama como um ponteiro de
um relógio anunciando o fim de qualquer coisa, um fim também ele cósmico,
talvez, o fim da era humana. Não há deus que lhe valha. A ratazana anunciadora
da catástrofe é também, por isso, aquele rato ruivo repugnante que se deixa
pisar em plena avenida Copacabana, fazendo uma Clarice descer do seu êxtase
para, indignada, dizer “Deus era bruto!”[17]
Se, por um lado, o nosso narrador parece simbolizar a humanidade sofredora,
como o vimos, pela dimensão cósmica do seu sofrimento, por outro, ele é como a
ratazana enjaulada pelas suas próprias mãos. A expressão “mamíferos como yo”
irmana-o com o animal, e a assunção de que a sua realidade é tão precária
quanto a da ratazana corrobora essa aproximação. Assistimos, na montagem de
toda esta situação “narrador / ratazanas”, ao que José-Carlos Mainer considera
ser “una mise en abîme de su proprio mundo interior que conduce inexorablemente
a la repetición, al cierre de un círculo” nascido da relação amor-ódio que
havia visto entre os seus pais (Mainer, 2009, p. 35).
Em El jardín vacío, a dimensão animal da personagem, aquela que leva uma ‘vida
de cão' é igualmente conseguida com o cotejo com o animal, sempre que a
miserável personagem canina aparece para emoldurar uma realidade atroz. O
excerto que transcrevemos mostra a impossibilidade de sobrevivência de tais
personagens, e é com uma nota de quem quer estar no lugar do outro que lemos o
comentário do narrador, ao dizer que pelo menos eles, os cães, morrem sem
arrependimento:
La muerte de los perros solía pasar inadvertida. Había pocos y
acostumbraban a morir como perros: sin señales de arrepentimiento y
lejos del barrio donde habían encontrado un asilo casual, una condena
atenuada. Venían del norte en grupos de nueve o diez, atraídos casi
siempre por una hembra en celo. Algunos se ahogaban al atravesar el
Canalillo; otros se daban la vuelta al divisar el barrio (…). Al
principio no tenían más enemigos que el hambre y las ratas. Con el
hambre podían llegar a mantener una relación soportable si, a falta
de una casa fija, conseguían tomar como propia una calle entera. Con
las ratas no alcanzaron jamás una paz duradera, ni siquiera una
guerra lo suficientemente abierta como para desembocar en un
conflicto estable. Tratándose de una polémica territorial,
prevalecieron las ratas, que, además de discutir la superficie a los
perros, poseían para ellas solas el subsuelo. (Millás, 1981, p. 139)
As ratazanas, como donas de uma espécie de‘inframundo' que é o subsolo,
continuam a nortear o nosso narrador na sua descida aos infernos. As frases
finais, de densidade goyesca, acentuam o paralelo entre as duas identidades:
(…) las hembras cogen a sus pequeños entre las patas delanteras y se
los van comiendo lentamente. Primero la cabeza, luego el resto de esa
pequeña realidad lampiña, ciega, tan precaria como esta realidad algo
más grande que soy yo, que en seguida voy a ser atrapado por las
redes de quienes me persiguen. (Millás, 1975, p. 150)
A cena da devoração das crias, ato animal mas também humano por analogia, é
ainda transversal ao patamar dos deuses, se recorrermos à figura de um Saturno
devorando os próprios filhos. Nenhuma cena, a nossa ver, se presta melhor à
ilustração do que pode ser a ideia do “esvaziamento total”. O narrador está
pronto para também ele ser devorado, não pelos seus progenitores[18], mas por
uma determinada entidade: dois homens, que são seguramente os representantes do
leão, rei da selva, como se diz.
A resignação foi sendo construída à medida que o esvaziamento se foi operando.
O trágico ganhou assento no vazio do filho, como se não pudesse escapar do
destino que coube em sorte a seu pai: “Pero así somos, padre, caminamos hacia
nuestros errores como la víctima hacia su asesino, hipnotizados por el amor a
lo terrible” (Idem,100-101). Nesta fusão pai / filho, por intermeio de um
terceiro corpo que é a carta, vemos possibilidade de ilustração das palavras de
Mijail Bajtín quando refere, em Estética de la creación verbal, o seguinte:
“Ser significa comunicarse. Ser significa ser para otro y a través del otro ser
para sí mismo” (apudArdavín, 1997). Vemos aqui a união de dois vazios, a união
de duas solidões condenadas, o que nos permite afirmar que quando um eu se
desumaniza, o outro eu, que é um tu igual, também.
A carta, esse terceiro corpo a que aludimos, alimenta-se dos outros dois corpos
que atingiram as margens do esgoto existencial, de que as ratazanas são as
fiéis representantes no exercício das suas disputas diárias, na gula perante o
sabor das feridas, no comprazimento na devoração das crias que ainda não
abriram os olhos para o mundo. Ser comido é a operação do desaparecimento.
Haverá algo depois disso?
Entre a ação de “comer” e a de “descomer” (o termo não é nosso)[19], isto é,
entre a ação da ingestão e do resultado final da digestão, encontramos uma vaga
ideia de eterno retorno que, a determinado momento, parece trazer alguma
esperança ao narrador. Tal acontece num momento anterior à descoberta do
cadáver do irmão, em que sente que este ainda se pode curar, que a fuga será
lograda, que o seu amor imaginado possa vir a ser algo real e que a cidade se
cumpra renascendo todos os dias do seu húmus, do que lhe sobra:
Bastaría, me dije, con dar un paseo, y sentir la madrugada en el
fondo del bolsillo para que todo volviera a la normalidad
(…).Entretanto las calles se abrían a otras calles que a la dura luz
del amanecer me mostraban su corazón de cáscara de plátano y sus
vísceras alimentadas de toda aquella suciedad que las necesidades
humanas fabrican día a día, y que los traperos comenzaban a cargar en
sus carros para venderlo al día siguiente, o para abonar tres palmos
de tierra, de manera que se cumplieron así las leyes del eterno
retorno, cuyo proceso era simplificado de un modo notable por algún
perro o niño famélico de la familia traperil al comer directamente de
los grasientos cubos de basura. (Idem, 58)
Mas a esperança dissipa-se, porque na verdade já nada sobra. Só um corpo
deitado na diagonal, qual um ponteiro de relógio visto de cima e cujo movimento
alguém detém, depois do último suspiro daquele que morre. É um corpo enjaulado,
é um corpo-ataúde, perfeitamente desumanizado, e até mesmo ‘desanimalizado'
(isto é, e em suma, ‘desvitalizado'), que passa a ser um objeto, como um Juan /
José, de Volver a casa, entregando-se ao Museo de la Desesperación, ou, ainda,
como um número Três[20], de Números pares, impares e idiotas (2001), que,
depois de perseguido no país dos números ímpares, na qualidade de Quatro, é
mutilado, e volta ao seu próprio país, o dos número pares, onde é morto e
dissecado, por ter a aparência de um Três, passando o seu cadáver a ser exposto
no Museo de los horrores. Neste conto, passível de ser lido por uma criança de
oito anos, como no-lo informa a contracapa do livro onde se encontra,
encontramos a ideia de desajuste do homem em relação ao mundo em que se move,
de não pertença a nenhuma das suas frações. O número Quatro não tem lugar no
país dos ímpares, nem no país dos pares, quando a ele regressa amputado, porque
os números idiotas assim o deliberaram. “La gente va a verlo y se espanta sin
saber que al contemplar al 3 se están mirando a sí mismos” (Millás, 2001, p.
14). Ora, a personagem desajustada é condenada à mesma materialidade das coisas
inertes e a ficar presa numa condição de clausura, pelo menos aos olhos
daqueles que só percecionam uma realidade, com uma única porta fechada, e não
descortinam aquela cheia de “huecos”, “agujeros” o “ranuras”. Um homem nestes
moldes, confrontado com este grau de condenação dos seus pares, poderia bem ser
um homem-caixa.[21]
Conclusões
Não obstante o seu hermetismo, Cerbero son las sombras cumpre, com uma
maturidade inusitada num autor tão jovem, a sua função inaugural de todo um
edifício literário construído ao longo de 40 anos, uma obra que, partindo de
uma mesma matriz, nos lança nos estranhos labirintos da aventura existencial.
Se no início temos acesso a uma novelística mais sombria, ainda muito ancorada
às memórias de um passado recente (o da Espanha franquista da infância do
escritor, ainda a recompor-se da guerra), à medida que descobrimos a obra de
Millás, deparamo-nos com a inclusão do onírico e do fantástico, chegando a um
colorido bem-humorado que não teve assento nas primeiras publicações. O tempo,
esse, já não é o daquela Espanha que acabamos de colocar entre parêntesis,
porque as questões apresentadas se movem na esfera da intemporalidade, numa
geografia que não é necessariamente espanhola ou peninsular, mas humana.
Nessa poesia do esvaziamento, movimento, no nosso ponto de vista, necessário
para que o preenchimento possa ocorrer, Millás desmonta, desconstrói, desfaz,
amputa, priva de corpo, para, num momento posterior, ocupar o lugar vazio, de
forma a melhor chegar a um género de corpo original. Todavia não se apurou se é
o corpo com que nascemos esse lugar original, ou o corpo com que crescemos e
amadurecemos, ou ainda o corpo que nos abandona depois de um misericordioso
fechar de pálpebras feito pelas mãos dos nossos filhos.[22] Talvez seja o corpo
que enferma, que se extasia na febre e na doença, ou na violência de ser
atirado, uma e outra vez, contra as paredes da realidade. Talvez seja o corpo
do outro, aquele que está próximo de nós num determinado eixo que aqui
qualificámos de ‘a perder de vista'. Pode ser também um outro longínquo, daí
que Millás não se iniba de fazer chegar às suas páginas as mais variadas
criaturas, do inseto ao “hombrecillo” (Millás, 2010), passando pelas
existências fantasmais e as matérias inertes repentinamente dotadas de vida.
No final da nossa análise, voltemos ao Millás de antes deste ‘repovoamento',
para resumirmos em traços largos o processo de subtração que vai levando a cabo
até chegar ao vazio. Vimos como, nesta simbólica do esquartejamento, a retração
do físico foi acontecendo à medida da degradação do espírito. Primeiro a orelha
mutilada, símbolo do desequilíbrio, da vertigem, da necessidade de lançar para
fora de si a frustração e a dor. Segundo, o encerramento da deficiência e da
morte no quarto escuro, isto é, da pequenez[23] e da decomposição corpórea,
respetivamente. Terceiro, a identificação com criaturas de esgoto encarceradas
e o vislumbrar do cenário da devoração saturniana. Só nesta fase, por analogia
com a cria comida pela mãe, o corpo desparece por completo e o espírito se
entrega à evidência de que não há solução possível para os problemas que se
colocam à existência da personagem tornada oca. Vimos também como o narrador
adolescente, na sequência dessas três etapas se torna homem: é o homem que faz
a barba ao pai, que engessa o irmão e que escreve uma carta cheia de notas
reflexivas sobre as suas memórias. É, em suma, o homem-estátua-de-sangue mas
também o homem-lápide, o homem estupefacto perante uma realidade que o torna
imóvel, o homem que se deixa atrair pela “pulsão de morte” (Freud, 1920). É, em
suma, o homem-ataúde, o homem-nada.
Aqui reside a fecundidade deste romance que inaugura o edifício erguido por
Millás sem projeto prévio: nessa intenção de arrumar os fantasmas do passado,
para dar lugar a um novo mundo, mas com as velhas questões de sempre. As
sombras contidas no título convidam-nos a sair da caverna platónica, onde a
negatividade do homem se deixa petrificar e morrer, para descobrir novas
perspetivas e revitalizar a nossa perceção das coisas e das situações. Cerbero
son las sombras é, neste sentido, um trampolim que expulsa o movimento, mas que
o devolve também ao seu epicentro. As personagens millasianas, com efeito,
parecem não conseguir libertar-se da força gravitacional contida nos seus
medos, na sua sensação de estranhamento do mundo, na sua condição de bastardia
ou de orfandade. Ora, este primeiro romance contém já os ingredientes que
viríamos a encontrar na produção narrativa posterior de Millás, e que a
seguinte síntese coloca em evidência:
En la primera novela de Juan José Millás, Cerbero son las sombras,
observamos ya algunos de los aspectos más notables de su narrativa.
Entre otras, el peso de la adolescencia, la soledad y las relaciones
familiares, aquí con el padre, hechas de exceso y de vacío. Asimismo,
un tratamiento que oscila entre la novela de horror y la policiaca,
como expresión de búsqueda, de huida, de miedo y de angustia,
sentimientos dominantes e expresados somáticamente. (Ródenas, 2009,
p. 52)
O filho de Cerbero son las sombrasé como um pícaro que tenta escapar a um
destino fatal condicionado pelo seu passado familiar. De resto, como o
verificou Zoe Alameda (2009), muitas das personagens millasianas contêm rasgos
dessa figura saída do Siglo de Oro espanhol. É fácil, da nossa parte, também o
verificarmos, se tomarmos em conta o recurso de Millás à inclusão de narrativas
em primeira pessoa, ao delineamento da ideia do fracasso como condição a priori
da existência, à exposição de um sentimento de orfandade das personagens, ou a
uma estrutura itinerante, que chega a ser labiríntica e repleta de
esconderijos. Não há, todavia, emCerbero, rasgos do humor da picaresca, mas o
humor negro da mais recente produção literária, eivada de certo naturalismo,
poderia encontrar nela um ponto de tangência.
A busca da identidade começa, em Millás, nesta longa carta, que vai sulcando o
caminho de 40 anos de trabalho do escritor. Esvaziando aqui e além,
experimentado a intermitência de estar vivo e de estar morto, esse trabalho
fala por si, como se houvesse nele intento de chegar a um género de grau zero
[24] que tivesse o mesmo conforto de um útero do qual nunca se nascesse.