Almeida Garrett e a proposta política do romantismo
1. Introdução
Nascido em 1799 e desaparecido em 1854, Almeida Garrett deixou uma obra que
ocupou um lugar proeminente na cultura portuguesa. O nome do autor, se
atravessa com destaque o século XIX, particularmente a primeira metade, em que
esteve no epicentro das mudanças literárias – e culturais, portanto –, também
não pode ser esquecido quando se faz referência ao cânone da literatura
portuguesa, onde se tornou numa das figuras menos controversas.
A conjuntura histórica, de ascensão do liberalismo, em que o autor viveu e fez
a sua obra, tendo sido marcada por mudanças políticas, culturais e sociais,
seria também marcada por mudanças na língua e na literatura. Assim, o
liberalismo erguia-se e, a impulsioná-lo, justificá-lo e legitimá-lo, estavam
questões nacionais identitárias que surgiam em força, entre outras, na obra de
Garrett. Ao surgimento destas, com as convulsões políticas e sociais que lhes
estavam inerentes, a literatura não poderia permanecer indiferente. E, de
facto, não o fez, sendo visível que a transformação da história provocou uma
alteração também na história da literatura, o que resultou numa fusão entre
Romantismo e liberalismo. Assim, a arte da primeira metade do século XIX
reflectiu a vida de quem fazia e vivia os acontecimentos, através de um
movimento literário que teve no seu cerne uma proposta que era tão estética
quanto política. Assim, tentaremos aqui explicar de que forma a introdução do
Romantismo em Portugal foi não só uma proposta poética / literária, mas ainda,
talvez mais ainda, política, e isto numa altura em que os escritores começaram
a reflectir sobre o papel da literatura no que concerne à sua relação com a
contemporaneidade histórica.
Neste sentido, veremos de que forma Garrett, usando a estética literária também
como veículo de uma ideologia, pôs em prática aquilo que Victor Hugo,
identificando o Romantismo com a ideia de liberdade, escreveu no prefácio a
Hernani (1831): “Le romantisme (…) n'est (…) que le libéralisme en
littérature”; “à peuple nouveau, art nouveau”.
2. O Romantismo como proposta política
A Revolução Francesa teve um papel preponderante na construção do corpus
temático do Romantismo. Ao seu surgimento na Europa, a noção de liberdade
criada no seu âmbito erigiu princípios políticos e sociais sobre os quais o
Romantismo se veio a edificar: os estados passariam a ser soberanos, enquanto
instituições seculares que se opusessem às reivindicações da religião, e
venceria a concepção de uma sociedade que se baseasse no contrato e não na
posição social atribuída à nascença. Na sua formação, veio a ofensiva contra o
intelectualismo das luzes e as regras do Classicismo e do Neoclassicismo. A
visão da literatura também se alterou: o indivíduo passaria a ser o potenciador
da criação estética e o sentimento nacional passaria a exprimir a ideia de que
a nação era a versão colectiva do individual. Erigia-se, assim, o princípio do
nacionalismo literário: o artista seria fiel a si mesmo e ao país em que se
formara. Por toda a Europa, viu-se que os construtores da nação não pararam de
repetir que pertencer a uma nação era ser um dos herdeiros de um património
comum e indivisível (Thiesse, 2011, p. 70). Desta forma, o processo de formação
identitária nacional passou pela identificação de um património que pudesse ser
comum a todos os herdeiros de uma tradição que os transformasse num grupo de
características únicas.
Quando, em 1834, acabou uma guerra civil em Portugal, entre liberais
constitucionalistas e absolutistas, as estruturas sociais do país tinham sido
abaladas. O Romantismo, exaltante da nação, acabou por associar-se ao e fundir-
se com o nacionalismo, sendo ambos fundados sob o mesmo pensamento e o mesmo
sentimento. As lutas liberais e nacionalistas fariam, assim, parte do
imaginário histórico cultural do século XIX, tendo reflexos nas construções
culturais (Cunha, 2002, p. 57). Desta forma, o novo conceito de nação, que
passava pela ideia de uma entidade comum (legitimada pelo passado e,
consequentemente, pela tradição) acabou por atribuir um papel social muito
forte à literatura, uma vez que os escritores passaram a problematizar a
relação que tinham com esta e, em concomitância, com a sociedade:
(…) o projecto novo de problematizar a relação do escritor, ou, mais
genericamente, de cada consciência individual, com a realidade
específica e autónoma que é a Pátria. E como o laço próprio que une o
escritor, enquanto tal, à sua Pátria, é a escrita, a problematização
dessas relações é antes de tudo problematização da escrita, nova ou
inovadora maneira de falar a Pátria escrevendo-a em termos específico
[...]. A partir de Garrett e Herculano, Portugal, enquanto realidade
histórico-moral, constituirá o núcleo da pulsão literária
determinante. (Lourenço, 2000, pp. 86-87)
Com a criação deste novo sujeito na história, a rejeição da ideia de uma ordem
preexistente implicaria que não pudesse conceber-se um sistema político que
pudesse reivindicar legitimidade absoluta, em virtude da ausência de uma ordem
sócio-económica de origem divina (Talmon, 1967, p. 25). Desta forma, não só
passa a existir a figura do cidadão-eleitor como se determina que nada –
religião ou classe – possa definir o lugar social de cada pessoa. Ao mesmo
tempo, o poder de criação de uma obra por parte de um escritor, ao não estar
dependente de valores absolutos, passará a justificar-se no processo criativo,
abrindo alas àquilo a que Jacinto do Prado Coelho chamou “idade crítica”: a
poesia passa a ser “teoria da faculdade poética” e a crítica “é sempre teoria
poética, isto é, primordialmente, poesia” (Coelho, 1982, p. 177). Assim, a
versatilidade formal que adveio desta nova forma de perspectivar e enquadrar a
literatura passou, em primeiro plano, pela recusa de modelos. Ao mesmo tempo,
Garrett passou a admitir “um princípio de variabilidade histórica, nacional e
subjectivado imaginário e do gosto” (Monteiro, 2006, p. 46). Neste sentido, a
literatura nacional passou a ser vista como necessária para a auto-
identificação colectiva, tendo sido usada para forjar uma unidade entre
elementos de uma mesma nação, que deviam identificar-se com a herança comum,
uma vez que pertenciam a uma identidade colectiva que era capaz de sobrepor-se
a qualquer outra.
Segundo Eric Hobsbawm, o desenvolvimento do nacionalismo dá-se na Europa do
século XIX em três fases. Naquela que denomina como fase A, verifica-se apenas
um movimento literário e cultural, que, como veremos, em Portugal, foi
impulsionado por Garrett; na fase B, surge a campanha política dominada por
grupos de militantes, pioneiros da “ideia nacional”; a fase C dá-se com o apoio
geral da população às ideias difundidas (Hobsbawm, 1990, p. 21). Benedict
Anderson, por sua vez, explica o processo de criação de identidades nacionais
através do fim da hegemonia católica e do reino dinástico, iniciado pela
Revolução Francesa e pela ascensão das burguesias nacionais, originada pela
Revolução Industrial. Com as transformações provocadas pelo Iluminismo, e
consequente declínio na fé católica, urgiria a necessidade de substituir a
crença religiosa por outro valor imaterial capaz de providenciar as respostas
que a religião oferecia, iniciando-se assim “a busca de uma nova forma de ligar
a fraternidade, o poder e o tempo num todo significativo” (Anderson, 2005, p.
57).
A nação será, de acordo com Anderson (2005), uma comunidade imaginada, uma vez
que os membros das nações nunca se conhecerão todos, havendo todavia a imagem
mental de uma comunhão; limitada, uma vez que cada nação é definida pelas
fronteiras; soberana, uma vez que o conceito nasceu numa época em que o
Iluminismo e a Revolução destruíam a legitimidade da ordem divina e do reino
dinástico; será, ainda, uma comunidade, ainda que imaginada, porque, apesar da
desigualdade de classes, é concebida sob a ideia de pertença a um grupo (2005,
p. 27). Thiesse nota que as nações nascem “de um postulado e de uma invenção”;
para que se mantenham vivas, devem contar com a “adesão colectiva a essa
ficção” (2011, p. 72). Uma fez feita esta adesão, e partindo de uma tradição
que é apresentada como a súmula de características nacionais, ainda que
forjada, a nação aparece como sujeito imutável: permanece contínua ao longo dos
séculos e os elementos que a compõem, por partilharem os traços comuns da
tradição, permanecerão, ainda que sem se conhecerem todos, unidos enquanto
versão colectiva do individual.
Almeida Garrett, considerado o introdutor do Romantismo em Portugal[1], surge
como poeta já aos vinte anos, estudante de Leis em Coimbra. Em 1819, um ano
antes da revolução, já ele incorporava as ideias de exaltação da pátria que
viriam a ser das mais identificadoras do sentimento romântico: “Oh quando te
heide eu ver, patria querida, / Limpa de Inglezes, safa de conventos” (Garrett,
1829, p. 40).
A análise do fenómeno das identidades é necessária no caminho para a
compreensão do nacionalismo, uma vez que a questão identitária se reproduz por
oposição a outras identidades e que as identidades são formadas pela pertença a
um grupo circunscrito e pela diferenciação em relação ao outro. O Romantismo
veio exaltar o sentimento nacional, assumindo Portugal, delimitado por
fronteiras, como uma identidade comum e opondo-o a quem não fizesse parte da
comunidade imaginada(Anderson, 2005, p. 27) a que já fizemos referência.
Hobsbawm (1998, p. 8) sustenta que as nações não são tão antigas como a
História. Refere, no entanto, a importância da História para a consolidação das
identidades nacionais, justificando que é o passado que faz uma nação,
justificando-a em oposição a outras nações, e afirmando os historiadores como
agentes da produção do passado (1998, p. 271). Deste modo, a História pode ser
utilizada para desmontar ou legitimar. Impulsionado pela necessidade de uma
legitimação identitária nacional, Garrett tentou usá-la desta segunda forma,
forjando uma tradição literária portuguesa.
Para compreendermos o papel do autor na invenção da herança da nação
portuguesa, devemos ter em conta os elementos simbólicos que as nações procuram
ter para poderem afirmar-se enquanto tal:
(…) uma história que estabelece uma continuidade com os ilustres antepassados,
uma série de heróis modelos das virtudes nacionais, uma língua, monumentos
culturais, um folclore, locais eleitos e uma paisagem típica, uma determinada
mentalidade, representações oficiais — hino e bandeira — e identificações
pitorescas — trajes, especialidades culinárias ou um animal emblemático.
(Thiesse, 2011, p. 71)
O autor, ao fazer com que a historiografia literária se tornasse fundamental
para o nascimento do Romantismo em Portugal, assim como para a criação de uma
identidade comum portuguesa, feita através da tradição literária, estabelecia
os textos que seriam a base da tradição comum e das características comuns, ao
mesmo tempo que fazia com que Portugal tivesse uma literatura que pudesse
competir com as outras. Os passos que deu neste sentido foram motivados por
objectivos tão literários quanto políticos.
Em 1824, com 25 anos, já formado em Leis, escreve Camõese Dona Branca, poemas
através dos quais a corrente literária chega a Portugal. Com Camões, Garrett
ergueria um símbolo nacional, exaltando o sentimento patriótico. Nesta obra, o
autor disserta sobre a necessidade da nação recuperar o seu símbolo para se
afirmar: “(...) e o nome lusitano / Ao nome de Camões eterno se une.” (Garrett,
1984, p. 143).
Camões, recuperado enquanto símbolo da nação, apareceria para afrontar o rigor
das regras neoclássicas e para obrigar a uma reflexão sobre as especificidades
da linguagem literária (Monteiro, 1985, p. 119), temas sobre os quais o
Romantismo viria também a afirmar-se. A sua recuperação histórica, assim como a
sua afirmação enquanto símbolo nacional, deu-se ainda por meio de pessoas como
D. Frei Alexandre, Francisco Dias Gomes ou António das Neves Pereira, também
empenhadas em legitimá-lo enquanto impulsionador da linguagem literária
portuguesa.
Ao mesmo tempo, a situação política nacional e o interesse que Camões suscitava
em países estrangeiros também deram espaço a que os românticos o recuperassem
enquanto símbolo na nação:
Levas de portugueses se viram atiradas para a Inglaterra e para a França por
uma Pátria anquilosada que não entendia os seus programas regeneradores;
angústia pelo destino da Nação, revolta pela incompreensão encontrada,
desajuste do ideal à realidade, dores do isolamento e da pobreza, saudade
pungente da terra e do povo lusíadas - que melhor contexto para que à
imaginação e à sensibilidade falasse, com redobrado ardor, o vulto do Camões
perseguido, errante e torturado?
Às homologias sentidas com esse Poeta que a tradição portuguesa lhes legava,
(…) já identificado com a Pátria, somou-se, porém, como agente da emocionada
admiração que lhe foi votada, o interesse que mostrava por Camões a Europa
culta e já romântica, à luz de critérios de análise que permitiam abordar a sua
obra por novos ângulos que lhe eram favoráveis. (Monteiro, 1985, p. 124)
Com efeito, várias personalidades, como Madame de Staël[2], que terá sido a
primeira estudiosa a encarar a literatura enquanto produto social, Bouterweck,
Sismondi ou os Irmãos Schlegel, apreciavam em Camões o que nele escapava à moda
culta de Quinhentos e revelava um espírito romântico, no sentido peculiar que o
adjectivo então tomava: originalidade de concepção, espiritualidade
cavaleiresca, melancolia sonhadora unida à fruição encantada da aventura e da
beleza; por ter deixado ecoar nele esse autêntico filão português que no
Romanceiro, nas velhas crónicas ou em Gil Vicente também encontravam, e por
tanto se ter comprometido com o destino da Pátria, alimentando nela a sua
imaginação, é que Camões era considerado um verdadeiro poeta nacional.
(Monteiro, 1985, p. 125)
Desta forma, aquilo que a retórica clássica menorizava passava a ser visto como
um exemplo em termos de linguagem literária e, mais importante, como
identificador da nacionalidade portuguesa. Para que a nação pudesse ser
identificada através da linguagem literária, em virtude da necessidade de
criação de uma cultura nacional e pela referida questão identitária,
reproduzida por oposição a outras identidades, Garrett criticava, condenava o
que não tivesse origem portuguesa:
Pronto se oferece quem germanas artes
Em dar-lhe vida e propagá-lo empregue (Garrett, 1984, p. 143)
A literatura, que Even-Zohar (2011, pp. 81-82) acredita ter sido o factor mais
comum a ser usado para a coesão sócio-cultural das nações, ainda que reconheça
que a sua contribuição só possa ser calculada em termos gerais, era, assim,
vista como um elemento propulsor deste novo sujeito e só sem influências
externas poderia ser identificadora do sentimento nacionalista que acompanhou e
formou o Romantismo. Portanto, a literatura servia de “factor de poder e
distinção”, uma vez que “possuir uma literatura pertencia aos indispensabilia
do poder (Even-Zohar, 2011, p. 82): podia competir com as das outras nações e,
por recusar-se a ter outras origens que não a portuguesa, retrataria o que era
comum na identidade portuguesa.
A recuperação de Camões através da literatura começara antes de Garrett:
Bocage, que morrera durante a infância de Garrett e recriara o mito camoniano
do poeta marginal, exilado, que encarna a decadência da pátria (Machado, 1996,
p. 21), já se havia comparado ao autor d'Os Lusíadas:
Camões, grande Camões, quão semelhante
Acho teu fado ao meu, quando os cotejo! (Bocage, n. d., p. 101)
Camões era, aliás, um tema recorrente na poesia elmanista. Garrett vem
recuperar esse mito, permitindo-nos comparar o último dos pré-românticos ao
primeiro dos românticos, também ele comparando-se a Camões, partilhando com ele
a condição de poeta afastado da pátria. No poema Camões é evidente o forjamento
de uma construção patriótica: as ideias de liberdade e independência, a
exaltação de um herói nacional, poeta, com um destino trágico fora da pátria, a
angústia da saudade da pátria, presa em forças reaccionárias, a revolta contra
uma ordem política que asfixiaria a aspiração revolucionária da burguesia. O
Romantismo ambicionava destruir os valores vigentes, procurar um novo modelo de
vida, exaltar a pátria, transformá-la. Estaria também nestas pretensões o
Romantismo de Garrett.
A escrita de Camõesnão seria a única tentativa de Garrett exaltar o sentimento
nacional na sua literatura. Pouco depois de tê-lo publicado, e ainda em 1826,
publicou Parnaso Lusitano, uma recolha antológica que foi ainda uma tentativa
de compilar a história da literatura portuguesa[3]. Anos mais tarde, publicou o
Romanceiro, quesignificava uma nova valorização do nacional, sendo o que
faltava para que Portugal tivesse uma literatura nacional. No prefácio desta
obra, cujo primeiro volume foi publicado em 1843, o autor afirma que, para se
ser nacional, é necessário ser-se romântico e popular, afirmando ainda que
pretende suprir uma grande falta na literatura portuguesa com o trabalho que
apresenta na colecção (Garrett, 1983, p. 31). Tenciona criar um “livro popular”
e “popularizar o estudo da nossa literatura primitiva” (Ibidem). Por esse
motivo, Garrett cumpre, neste livro, um papel pioneiro, tendo anotado,
corrigido e coleccionado os romances populares, cumprindo o seu intento de
reunir os documentos necessários para criar a história da poesia popular
portuguesa. A ideia do Romanceiroera a valorização da literatura portuguesa
oral e tradicional, através da colecção dos romances populares que a ama
Brígida contara a Garrett durante a sua infância. Através do intento que
motivara o Romanceiro, o imaginário da nação podia construir-se mediante a
“invenção da tradição” característica de cada nacionalidade e mediante a
construção de uma “memória nacional” (Cunha, 2002, p. 58), estabelecendo ou
simbolizando a coesão nacional. A “invenção da tradição” de uma comunidade
política e imaginada(Anderson, 2005: 27) seria imperativa no momento em que
Estado, nação e sociedade convergiam em torno da figura do cidadão-eleitor, que
legitimaria o sistema politicamente (Cunha, 2002, p. 58). Garrett conseguia
ainda completar aquilo a que Even-Zohar chamou “embalagem de três-em-um” (2011,
p. 92): ao permitir que Portugal tivesse então um passado comum, uma língua
desenvolvida pelos seus membros e uma literatura, estava estabelecida a base de
criação da nação, sobre a qual a identidade nacional podia começar a erigir-se.
Seria também por esta altura que se operaria uma transição importante no
sistema escolar, em que o ensino da história da literatura nacional teria um
papel de destaque, substituindo o ensino da Poética, da Retórica e das língua e
literatura greco-latinas, fundamentando uma tradição literária nacional. Estas
mudanças estavam de acordo com a defesa de Garrett de uma constituição
estabelecida sobre bases populares. Desta forma, o autor reconhecia-se uma
função social e pragmática que era indissociável da sua relação com a escrita
(Buescu, 2003, p. 86), uma vez que, das atitudes literárias, passa sempre às
atitudes políticas, já que quase sempre faz política fazendo literatura e vice-
versa (Martins, 1956, p. 29). De facto, ao analisarmos o percurso do autor,
vemos que cidadão e escritor mantêm laços estreitos, uma vez que a criação
literária se dá pela passagem à prática de um plano político de regenerar a
pátria, fazendo desta a versão colectiva do individual e criando uma tradição
literária portuguesa.
Consciente da dupla tradição da literatura portuguesa, o autor optou claramente
pela tradição popular, havendo já nesta escolha estética uma escolha política e
tornando-se já Garrett, precisamente por isso, num autor moderno (Santos, 2003,
p. 95). Aqui, teve ainda Alexandre Herculano um papel de relevo, uma vez que
ambicionava democratizar o ensino em Portugal e que, através da instrução,
queria que a liberdade fosse o garante da civilização, cabendo-lhe ainda a
fundamentação teórica do Romantismo. Os dois autores consideravam ainda
fundamental educar o povo, de forma a poderem formá-lo para a cidadania,
levando a cabo o projecto iluminista.
O debate cultural sobre o papel da literatura no mundo não se limitava aos
escritores, sendo desenvolvido principalmente por meio da imprensa, onde “a
literatura se assume como instrumento de transformação política, cultural e
social” (Rocha, 1998, p. 31). Neste contexto, Garrett e Herculano procuravam
reconstruir a ideia da pátria: o primeiro construindo literariamente a alma
nacional e o segundo fundamentando o nacionalismo liberal histórica e
literariamente. Ao mesmo tempo, ambos os autores, apesar da concepção que
tinham da literatura nacional e popular, condenavam veementemente a rejeição
dos clássicos e manifestavam-se contra a imitação da literatura francesa.
Apesar disso, é comum, na obra de ambos, o recurso a termos em língua francesa.
O Romanceiro, contudo, e mesmo tendo sido criado com o intuito de estabelecer
uma tradição literária nacional, de regenerar a moderna literatura nacional
(Ferré, 2003, p. 315), não foi uma simples colecção: o autor retocou e
modificou as versões que considerava imperfeitas, tentando ainda uma recriação
literária de alguns desses romances, como Adozindaou Bernal Francês. O primeiro
é ainda um texto fundamental para que possamos compreender de que forma Garrett
se inspirava na memória colectiva, nas fontes tradicionais, o que foi uma das
principais bandeiras dos intelectuais da época (Pires, 2003, p. 330). Garrett
não seria, assim, um mero colector da literatura portuguesa, sendo antes um
impulsionador da identidade portuguesa. Com Camões, contudo, foi dado um
primeiro passo para a exaltação do sentimento nacional: a pátria passaria a
encarnar a figura da história nacional - e, sendo sujeito literário,
ressignificava-a poeticamente – e o seu símbolo, Luís de Camões, legitimá-la-ia
interna e externamente.
É, assim, necessário considerar o elemento nacionalista para entender a forma
como Bocage foi o intermediário de enciclopedistas e pré-românticos durante o
período de formação do Romantismo português (Machado, 1996, p. 21). A nação
passaria a ser o sujeito da narrativa literária, ainda que fosse elaborado pela
própria história literária, construída com base na ideia da permanência
histórica do espírito nacional. A moderna história literária ia, assim,
legitimar-se através da reconstrução selectiva do passado (Cunha, 2002, p. 140)
e o Romantismo ia basear-se na necessidade de revoluções sociais e na angústia
da perda do passado.
Anthony Smith considera que é possível que o nacionalismo seja o mito
identitário mais persuasivo do mundo moderno (1991, p. 8), apoiando-se
sobretudo no passado como legitimador do direito territorial e nacional. De
facto, foi o que Garrett fez através da literatura: usou o passado para
legitimar a nação, criando um registo da sua literatura e, portanto, da sua
cultura. Ao mesmo tempo, deu um primeiro passo para que o mito da pátria
deixasse de ser um herói dos romanos ou uma figura divina dos gregos, sendo-o,
pelo contrário, o poeta d'Os Lusíadas, permitindo ao Romantismo dar a sua lição
de nacionalismo em Portugal.
Em Camões, Garrett denuncia as faltas de Portugal, revoltando-se com o
desaparecimento da sepultura de Camões:
Nem o humilde lugar onde repoisam
as cinzas de Camões, conhece o Luso. (Garrett, 1984, p. 157)
Raça de ingratos! (Garrett, 1984, p. 157)
Anderson considera que não há emblemas da cultura moderna do nacionalismo que
sejam mais marcantes do que os cenotáfios e os túmulos de soldados
desconhecidos (Anderson, 2005, p. 31). Garrett, por sua vez, recriminava a
nação pelo paradeiro desconhecido do túmulo daquele que devia ser o seu
símbolo.
A censura pelo desconhecimento do paradeiro do sepulcro de Camões inclui ainda
uma promessa de silêncio. Assim, o autor jura não escrever nem mais um verso
sobre “o lusitano – envilecido! – nome” (Garrett, 1984, p. 157). Sobre o túmulo
de quem apresenta como herói da nação, Garrett suicida-se enquanto poeta
(França, 1993, p. 59), sugerindo que aquela seria não só a última vez que
escrevia sobre Portugal, mas também que aquele seria mesmo o seu último poema:
(...) este só brado
Alevanta final e derradeiro. (Garrett, 1984, p. 157)
Este seria, assim, o único exemplar do Romantismo em que Garrett mal penetrara,
mas que inaugurara no país que condenara nos versos. Camõesserá, por isso, um
“poema-suicídio” (França, 1993: 50) em que Garrett, que parece morrer com a
pátria, a renega. Esta é uma pretensão muito típica do Romantismo: o seu
carácter revolucionário impõe o corte com o passado, ainda que o use para
legitimar e exaltar outra coisa, outra pátria, como foi intenção do autor.
Ao escrever “«Pátria, ao menos / juntos morremos...» – E expirou coa Pátria”,
Garrett (1984, p. 157) sintetiza a união de poeta e pátria na morte simultânea,
fazendo com que confluam os planos da história individual e da história
colectiva (Grossegesse, 2003, p. 303). Assim sendo, toda a relação intertextual
confluirá na projecção da emulação por parte de Garrett, ou seja, na sua auto-
representação literária como um “novo Camões” (Grossegesse, 2003, p. 305).
Morrendo poeta e pátria no mesmo instante, deduz-se que a pátria sobrevive
devido à obra artística (Ibidem). Dessa forma, Garrett procura rever-se em
circunstâncias histórias semelhantes às de Camões, afirmando-se, num contexto
de crise, como uma voz excepcional que seria capaz de denunciar a decadência
(Reis, 1982, p. 73). O início do Romantismo em Portugal será, assim, marcado
pelo recurso à intertextualidade como processo estruturante da mensagem nova
(Reis, 1982), pela angústia da influência, pela afirmação romântica da
originalidade e pelo contributo para a canonização de Camões (Leal, 2003, p.
324). Camõesvai, assim, reinterpretar Camões como modelo da relação entre
indivíduo, escrita e nação (Grossegesse, 2003, p. 312): a sua recuperação, para
além da afirmação de uma linguagem literária que contraste com a do
Neoclassicismo, permite impulsionar a ilusão da identidade portuguesa e usar a
nação enquanto sujeito literário.
Este olhar para o passado para legitimar o presente não é de somente. Afinal,
para transformar a sociedade, Garrett teria, e teve, de ocupar-se das suas
raízes. Precisou, para isso, de estudar a História de Portugal. Propôs-se fazê-
lo e tornou-se, assim, em 1838, cronista-mor do reino, sendo responsável pela
organização e realização de conferências públicas sobre a história de Portugal.
O interesse pela história verifica-se em Garrett ainda de outra forma: o seu
teatro era pautado por temas inspirados no passado nacional.
O autor era fascinado pelo princípio democrático de Rousseau. Consagrava, por
isso, à criação literária, o princípio da liberdade, como o fazia em relação à
regeneração do país. A liberdade garantiria a civilização, por intermédio da
instrução. O autor fazia parte do partido da ordem e confessava ser um poeta da
ordem: havia, por isso, no Romantismo, principalmente no seuRomantismo, uma
responsabilidade de organizar e regenerar, criar uma ligação entre o movimento
literário e as novas estruturas políticas do país. Garrett era, por isso, o
agente ideal para esta revolução: enquanto poeta e legislador formado no quadro
mental do Iluminismo, teria todas as condições para levar a cabo esta
regeneração cultural. O Romantismo, debruçado sobre o passado, combate pelo
futuro em nome do passado, teve, contudo, duração curta, encontrando lugar nos
períodos de transições dramáticas: a alma não resistiu a ser maior do que a
realidade, diria um dia Lukács. Este combate pelo futuro em nome do passado
viria também a ficar claro na obra Viagens na Minha Terra(1846): também aí há
uma inclinação sobre o passado com o objectivo de orientação em direcção ao
futuro (Duarte, 2003, p. 153).
Hobsbawm mostra que a história que se torna na base da ideologia das nações não
é aquela que é preservada na memória popular, mas a que foi fixada por aqueles
a quem competia esta tarefa (2011, p. 67). Neste sentido, fixando textos e
retocando-os, forjando uma tradição literária, era escolhido o passado mais
conveniente e Garrett, pelo seu papel na historiografia literária, estava no
epicentro desta escolha.
Helena Carvalhão Buescu afirma que Garrett seguiu um percurso que o levou ao
Romantismo e a ter um papel fundamental na sua implantação em Portugal (1997,
p. 114), o que faz sentido face à forma como o autor tentou criar um passado
literário nacional. Mesmo assim, há uma certa dificuldade em analisar o caminho
traçado por Garrett, em entender de que forma conseguiu modificar, regenerar,
refazer a literatura: a dúvida reside algures entre a possibilidade do autor
ter executado um plano prévio ou de se ter feito romântico à medida que ia
percorrendo o caminho do Romantismo, e já foi partilhada por Maria de Lourdes
A. Ferraz (2003, p. 343). Para mais, é sabido que Garrett cultivava a sua
imagem pública, falsificando-se e ficcionalizando-se para o público: o autor,
para além de fornecer informações que pudessem ser bem aproveitadas por Gomes
de Amorim, seu biógrafo, conferindo-lhe uma imagem de requinte, mentia em
relação à sua idade, chegando a rasurar a data de nascimento várias vezes no
mesmo texto (Amorim, 1881, p. 21) ou a redigir notas biográficas cuja autoria
atribuía a outras pessoas. Será por isto que Helena Carvalhão Buescu considera
que Garrett é excelente na “verdade proposta” (2001, p. 56) que os escritores
dizem de si mesmos: tendo o autor sido um homem de teatro, sempre tentou
envolver-se, e à sua obra, num aparato cénico que provocasse surpresa. Esta
característica de Garrett, aliada à ficcionalidade que a literatura permite,
não deverá ser esquecida quando se tenta encontrar o homem na obra. “Vida como
teatro”, viria a dizer Eduardo Lourenço (2003, p. 68).
Por tudo isto, é sempre difícil afirmar-se o propósito de um autor aquando da
criação literária, uma vez que a literatura tem direito ao improvável (Lopes,
1994, p. 479). Mesmo assim, o propósito ideológico de Garrett dificilmente
passa despercebido: não só o Romanceiro (1851) terá surgido apenas com a
finalidade de regenerar a moderna literatura nacional (Ferré, 2003, p. 315),
como a ideia de que a literatura de Garrett foi a passagem à prática de um
plano de regeneração não nos chocaria. Para mais, torna-se claro que a
publicação de Camões é já o início do forjamento de uma construção patriótica,
em que o nacional é um elemento fulcral da criação literária.
3. Considerações finais
Garrett construía o presente olhando para o passado: queria reformar para
garantir o funcionamento de novas instituições. Por esse motivo, foi o criador
do Teatro Nacional e exerceu actividade política no Parlamento, onde alguns dos
seus discursos ficaram célebres. O autor tinha, por isso, uma vida agitada,
entre política, literatura e Parlamento. Os anos 40 desse Romantismo
cristalizaram à volta de Garrett. Morreu, em 1854, no fim de uma época criada
por si.
Coleccionando e retocando a literatura popular portuguesa, o autor forjava uma
tradição literária ao mesmo tempo que erigia princípios nacionalistas. Esses
princípios seriam, aliás, das ideias mais identificadoras do sentimento
romântico: o autor, no prefácio do Romanceiro, afirma que, para se ser
nacional, é necessário ser-se romântico e popular.
Com Camões, Garrett começou a forjar uma construção patriótica, afirmando um
símbolo nacional, exaltando e valorizando o sentimento nacional na sua
literatura. Anos mais tarde, Garrett continuaria a forjar a tradição portuguesa
através da colecção e dos retoques do Romanceiro, que considerava ser o que
faltava para que Portugal tivesse uma tradição nacional. Desta forma, supriria
uma grande falta na literatura portuguesa e o Romanceiro não seria uma mera
colecção da literatura portuguesa, antes uma obra impulsionadora da identidade
nacional.
Com isto, Garrett, ainda que tentasse cortar com o passado, tinha-o como
elemento obrigatório da nova literatura, uma vez que ele era necessário à
legitimação do presente.