Doxas, paradoxos e horizontes: o circuito secundário da poesia moçambicana em
discussão
Considerações iniciais
Nas estantes das livrarias de Maputo coabitam livros de autores reconhecidos,
mesmo a nível internacional, e de autores desconhecidos, inclusive a nível
nacional. A promiscuidade entre textos consagrados e ignorados, consolidada
pela proliferação de concursos literários dirigidos a iniciantes, convida-nos a
refletir sobre as relações e os abismos entre dois grandes circuitos
literários: o campo(Bourdieu, 1992), espaço constituído por autores
legitimados, lidos e analisados no país e/ou no exterior, e o símile-campo
(Poliak, 2006), espaço periférico, mais ou menos desprestigiado pela
instituição e ocupado por dois tipos de escritores: 1) aspirantes de todas as
idades desprovidos de possibilidades reais de entrada no campo;[1] 2)
pretendentes que, por razões literárias e/ou institucionais, se encontram mais
próximos da porta que dá acesso ao universo autorizado.[2]
O objetivo do presente texto é discutir as relações entre língua, sociedade e
institucionalização literária no símile-campo. Após algumas considerações sobre
as principais doxas do primeiro subgrupo identificado, centraremos nossa
atenção em Poemas em sacos vazios que ficam de pé(2010), de Hélder Faife.
Rompendo com as tendências gerais da estética do símile-campo e dialogando
indiretamente com a escrita do campo, o jovem autor, vencedor do “Concurso
Literário TDM”, da edição de 2010, exercita um jogo que entrecruza língua e
sociedade: a partir de pequenas variações prosódicas (que oferecem uma
musicalidade orgânica aos versos) e de deslocamentos morfossintáticos (que
indiciam o tráfego generalizado entre os protagonistas), Faife assinala algumas
das grandes contradições do atual meio urbano moçambicano.
I. Doxas e paradoxos
Apesar da divisão prévia e necessariamente provisória que acima estabelecemos –
elaborada a partir de alguns indicadores quantitativos e qualitativos (número e
tipo de textos publicados; traduções e estudos que dos mesmos derivaram; tipo
de prêmios que receberam; projetos, comitês de revistas e jurados de que
formaram parte; entrevistas concedidas a órgãos nacionais e internacionais;
eventos em que participaram; estratégias textuais, intertextuais e paratextuais
a que recorrem, etc.) –, os aspectos referentes à densidade, intensidade e
hierarquização das relações entre os membros (Sapiro, 2006, 53), bem como as
concorrências e as variadas formas de dominação existentes num mercado
literário fragmentado, porque multilocalizado, dependente também de agentes
externos e, internamente, pouco dotado de recursos materiais, inviabilizam o
desenho de uma estrutura hierárquica rígida. Até porque, mesmo quando situados
num mesmo espaço horizontal (como o topo, o centro ou a base), espaço que nunca
é fixo, mas relacional e apto a revisões (Aron, Denis, 2006, 9), os escritores
não se encontram em situação similar, raramente participam nas mesmas redes e
projetos e nem sempre produzem textos que vão na mesma direção.[3] De todos os
modos, parece-nos claro que o campo literário moçambicano organiza-se a partir
de uma primeira e grande oposição entre os escritores “nacionais” e os
escritores “internacionais”, isto é, entre os autores lidos e analisados no
exterior e aqueles que, além de circularem exclusivamente em Moçambique, não
captaram ainda o interesse da crítica especializada. Importa, contudo, não
perdermos de vista que os autores “internacionalizados” que clamam por uma
autonomia da literatura (como João Paulo Borges Coelho e Luís Carlos Patraquim)
acabam por experimentar no mercado exterior uma sensação semelhante à dos
escritores menos visíveis do símile-campo, visto serem situados, segundo a
mesma lógica de oposição entre um lado mais “literário” e outro “nacional”,
neste último bloco. Para constatar este fato, basta observarmos, por exemplo, o
lugar que ocupam (quando ocupam) seus livros nas estantes das livrarias
portuguesas e brasileiras ou como os mesmos são integrados (quando o são) nos
currículos universitários internacionais. Daí concordarmos com Casanova quando
afirma que “existe homologia de estrutura entre cada campo nacional e o campo
literário internacional” (2002, 140).
No que concerne ao grupo mais marginalizado, e talvez por serem muito
conscientes de sua posição secundária também no plano social, os autores
parecem coincidir no desejo de expressão e de reconhecimento. E ainda, quase
sempre, na relação que estabelecem com a língua portuguesa e com o fazer
literário. Vários fatores concorrem para a fragilidade de vários de seus
textos. A começar por questões ligadas à história recente de um país jovem.
Recorde-se que uma das “heranças civilizacionais” do colonialismo português
foram os tais 93% de analfabetos deixados em Moçambique. E isso há menos de 40
anos atrás, período que não dista muito da média de idade dos atuais
“escritores de intenção” (Poliak, 2006). Como ocorre em outros contextos
literários, incluídos os mais tradicionais (idem), a maior parte dos poemas
deste macroespaço indicia que a interiorização de técnicas oriundas da formação
(escolar e autodidata) e de produção literária é feita em simultâneo. Talvez
por isso, duas são as temáticas privilegiadas: o “amor” e a “revolta contra as
injustiças”, ambas inscritas num sentido atemporal. Essa opção, ainda que bem
intencionada, potencia frequentemente o efeito contrário ao desejado: muitas
vezes os versos leem a condição subalternizada com um olhar conservador.[4]
Vejamos brevemente alguns exemplos.
Em A Ilha de Todos (Texto Editores, 2010), o poeta tardio de origem portuguesa
Luís Correia Mendes (Nampula, 1949) recorda com insistência as figuras de
Camões, Craveirinha, Noémia de Sousa, Heliodoro Baptista, entre outros. Poder-
se-ia intuir que por trás desta inscrição há um afã de diálogo com a tradição
literária que, em maior ou menor medida, conferiu protagonismo, em seus versos,
à Ilha de Moçambique. Porém, a sobrevalorização do termo “língua”, grafado
invariavelmente em letras maiúsculas, sem contar o próprio estilo, que, entre
outros elementos problemáticos, combina citação inócua, repetição lexical e
articulação de clichês, distanciam-no radicalmente do universo literário
legitimado: “Ser da Ilha / É ao som de um Tufo / Citar Camões / Sena,
Craveirinha / Noémia, Heliodoro / Numa só LÍNGUA”(2010, 24);“No teu solo /
Grandes poetas / Como Camões, Knopfli, Craveirinha / Couto, Noémia / Cantaram
sons / Sem Ruídos / Através da fonte inspiradora / Do teu odor e da tua
maresia” (2010, 7). O investimento em nomes ligados à instituição literária,
cujo número é proporcional ao das restantes palavras mobilizadas nos poemas
acima transcritos, revela o lado escolar da escrita de Correia Mendes. A
referência reverente é, de fato, um traço comum da “escrita profana” (Bourdieu,
2011), seja em Moçambique ou em outros contextos.[5] O fetichismo pela classe
artística dominante, oriundo de referências aprendidas na escola ou em círculos
informais de sociabilidade artística, faz com que predomine no imaginário dos
escritores de intenção a ideia difusa de “universal” – enquanto paradigma do
belo e do intransferível. Ao citar os “clássicos da língua portuguesa” que
pisaram literariamente a Ilha, Correia Mendes procura elucidar os leitores
sobre o que é bom e, sobretudo, dar conta, certificando, suas próprias
qualidades literárias. Não existe qualquer intertextualidade em seus poemas,
mas apenas novas formas de “construção de si” (Poliak, 2006), que, portanto,
valem apenas “pelo valor genérico da referência, e não por aquilo a que se
referem, ou pela maneira como o fazem: o esvaziamento do sentido [...] se dá
não por privação, mas por acumulação” (Mammì, 2012, 112).
A idealização do amor (nos poemas “Se eu pudesse!”, “Pérola”, “Amor Eterno”),
do erotismo (“Imaginação”, “Um caminho”) e da Ilha, ligada aqui ao ethos da
sensibilidade poética (“Ser Poeta”, “Aroma do Ilhéu”, “Sentado na Rocha”,
“Terra Vermelha”, “O odor da imortalidade”, “Melodia”, “Murmúrio”, “Sons Sem
Ruídos”), concorrem também para os referidos efeitos de acumulação/
esvaziamento. De resto, Correia Mendes faz valer o capital simbólico de ser um
ex-habitante da Ilha de Moçambique (coisa rara mesmo entre os próprios
escritores legitimados) para aclamar sua aptidão para o sentimento, aptidão que
legitimaria sua empresa estética. No entanto, derrapa em diversos chavões do
símile-campo. Vejamos ainda dois exemplos. O primeiro é retirado do poema
“Murmúrio”: “Todos os Dias / Ouço a tua Voz / Sinto o Odor / Da tua Maresia /
Passeio o Meu Corpo / Pelas tuas Ruas / Que Inspiram / A Minha Poesia” (2010,
27). O segundo vem de “Sons Sem Ruídos”: “Oh Musa / Cujos Sons / Sem Ruído / Me
fazem agitar a Química / De meu corpo” (2010, 31). A escrita de Correia Mendes
confirma que o maior ou menor domínio da língua não conduz automaticamente a um
maior ou menor domínio da técnica literária, falácia frequente no símile-campo.
Seu livro não contém erros ortográficos significativos, mas possui claros
sinais de distanciamento da escrita legitimada em Moçambique: a repetição
lexical e formal, a reincidência nos mesmos lugares comuns em poemas diferentes
e, paradoxalmente, a idealização do “eu poético” são práticas também
exercitadas por aqueles aspirantes que, desprovidos de capital escolar, mantêm
com a língua portuguesa uma relação de escassa intimidade.
Outro caso que parece situar-se na retaguarda do símile-campo é o de Amarildo
Valeriano (Maputo, 1976), autor de falas impossíveis. conversazioni impossibili
(União Nacional dos Escritores, 2008). Na altura da publicação do livro,
Valeriano tinha 32 anos e estudava na Universidade Eduardo Mondlane. Para além
de declamar poesia em eventos culturais, apresentava programas radiofônicos
literários, como “Xigovia” e “Livro ao Vivo”. O autor, de resto, é um dos
principais “agitadores culturais” (expressão em voga, e pela positiva, no
símile-campo) de Maputo e sua participação em redes ou projetos possui, para o
próprio e para quem sobre ele se refere, um peso tão significativo quanto sua
produção literária. Em edição bilíngue – fato que motivou o envolvimento de
sete tradutores italianos (Alessandra Ghilardini, Carla Inguaggiato, Elena
Viberti, Gaetano Saturno, Laura Marchisio, Mariangela Tarantino, Matteo Rei) –,
o livro foi lançado em dezembro de 2008, e relançado alguns meses depois, no
Teatro Gil Vicente, de Maputo. A repetição do evento foi explicada por
Valeriano na entrevista fornecida a João Vaz de Almada: “a proximidade do
Natal, o auge do período de férias em Moçambique, fez com que muitos
admiradores e amigos não pudessem estar presentes, pelo que resolvi relançar o
livro” (Almada, 2009a). No que se refere à segunda língua do livro, o autor
sublinha: “O surgimento do italiano deve-se ao facto de eu ter participado num
intercâmbio que envolvia estudantes moçambicanos e italianos, aqui em
Moçambique” (Almada, 2009a). Nessa mesma entrevista, Valeriano identifica os
objetivos perseguidos por sua poesia. Fá-lo citando um nome consagrado do
panorama internacional: “como disse o poeta americano Ezra Pound, os poetas são
as antenas da sociedade, porque captam transformações, tendências, denunciam
perigos, alertam [...] É esse o papel que eu quero desempenhar como poeta,
quero dar esse contributo à sociedade” (Almada, 2009a).[6] Apesar de jovem e
estreante, Valeriano não se mostra inseguro. Pelo contrário, parece ter a
certeza de uma vocação e da existência de admiradores.
A linguista moçambicana Sara Jona assina o prefácio “(Des) arumação [sic] do
status quo?”, dando especial relevo à participação de Valeriano na vida
cultural de Maputo:
Amarildo é um jovem engajado na luta para a valorização da literatura
e do livro, não seria ele membro fundador do Núcleo de Amigos do
Livro – NELO – e exímio organizador das noites de poesia no Instituto
Cultural Moçambique/Alemanha – ICMA – que presentemente se vão
espalhando um pouco pela Cidade de Maputo. Amarildo é também
frequentador assíduo de tudo quanto seja palestra ou tertúlia
literária, procurando o ‘saber fazer' e ‘saber ser' e ‘conviver com
os outros', para alimentar a sua alma (2008, 6).
Volvidos 40 anos da independência de Moçambique, época em que se discutiam
publicamente – em páginas literárias e culturais – as formas legítimas e
ilegítimas de engajamento político e artístico dos autores, bem como os rumos
que a literatura nacional deveria seguir, o que parece prevalecer agora,
sobretudo entre os protagonistas daqueles tempos, é o silêncio e o isolamento
em torno a projetos pessoais e/ou a redes que ultrapassam as fronteiras
nacionais. Contrariando essa tendência, os autores do símile-campo reivindicam
coletivamente o “compromisso com a cultura”. No entanto, esse compromisso
reduz-se à organização ou à participação em eventos (“tudo quanto seja palestra
ou tertúlia literária”) e às restantes atividades onde os jovens aprendem a
“saber fazer”, a “saber ser”, a “conviver com os outros” e a “alimentar a
alma”. Isto é, no símile-campo a sociabilidade torna-se, por si só, num valor,
para lá do que nela se discuta. Nesses encontros, cada vez mais frequentes na
capital do país, os autores possuem um público (mesmo que reduzido, muitas
vezes, ao próprio grupo de aspirantes), o que, segundo Poliak (2006), torna
mais real o jogo de ser escritor. Com alguma capacidade de mobilização
(manejando as redes sociais, articulando refinados mecanismos de publicidade,
etc.), pretendentes como Valeriano envolvem-se em soirées literárias,
lançamentos de livros e conferências sobre o “fazer literário”, quase sempre em
importantes espaços culturais da cidade. A estrutura desses eventos, diga-se,
não difere da estrutura das atividades acadêmicas (congressos universitários)
nas quais costumam participar alguns dos autores do campo literário. No caso
específico do símile-campo, esses eventos contêm uma componente efetiva de
autopromoção (homenagens recíprocas, lançamentos e relançamentos, declamações,
conferências, etc.), o que não deixa de surpreender, tendo em conta a juventude
e a escassa trajetória da maioria dos participantes. Esses encontros servem,
portanto, de antídoto à invisibilidade a que estão votados.Contudo, contribuem
indiretamente para a perpetuação de práticas irregulares de escrita, na medida
em que, neles, não existe uma reivindicação concreta por instrumentos de
apropriação do “fazer literário”, como o acesso a livros ou à formação.[7]
Voltando ao seu livro de estreia, a maioria dos poemas de Valeriano é dedicada
a figuras consagradas do mundo político, intelectual e artístico de Moçambique
ou do estrangeiro: Carlos Cardoso, Samora Machel, Martin Luther King, Nelson
Mandela, Che Guevara, Emiliano Zapata, Marcelino dos Santos, Ungulani Ba Ka
Khosa, Mia Couto, José Craveirinha, Noémia de Sousa, Descartes, J. M. Coetzee,
Luís Vaz de Camões (“maior poeta da língua portuguesa”), Susan Sontag, Jean
Paul Sartre, Sócrates, Ray Charles, Roland Barthes, Simonal, Maria Teresa de
Calcutá, Chagas Levene. O jovem também dedica poemas à nação e à União
Africana, à associação cultural GRAAL, a Jesus Cristo, “aos amores tidos ou
pretendidos”, “às mulheres de todo o mundo”, a “todas as raparigas africanas”,
a ele mesmo e a alguns amigos do símile-campo literário e artístico. Como se
pode constatar, não há nenhuma hierarquização de gêneros, de tempos ou espaços,
ou mesmo de orientação ideológica a informar a seleção dos homenageados. A
sociabilidade cultivada (participação em redes, projetos e atividades) e a
vinculação simbólica a pensadores e artistas são duas formas de distinção, que
visam, uma vez mais, compensar a escassez de capital literário e social do
autor.
Cada um dos poemas é, segundo o próprio Valeriano, uma homenagem, um
ensinamento ou uma dádiva que oferece “aos seus”. O desejo de abraçar
diversificados mundos não disfarça, contudo, a fragilidade da proposta, que se
assemelha, ainda que em versos, a esforçadas redações escolares. O poema “Miar
na varanda do frangipani”, dedicado “ao Mia Couto” é apenas um dos múltiplos
exemplos que poderiam ser extraídos do livro: “É noite / escuto ao alto o miar
do gato / mião mião mião / e o gato está no escuro / correndo na berma de
nenhuma estrada / Espanto-me! / - Será que se trata da história abensonhada!? /
Não estou sonâmbulo / nem diambulando sobre a terra sonâmbula. / Dentro de mim
se enfrentam / o poeta exaltando a palavra / e o biólogo que a terra lavra / E
na aurora vejo o flamingo no céu / e as missangas sem fio / cada vez mais
cheias / quantas vezes forem em livros as folhas cheias. / Sim! / Agora como
sempre ninguém vai calar / enquanto o gato outro miar / mesmo na terra do
queixa-andar. / Só então, vejo o flamingo no seu último voo / e as missangas
sem fio / enquanto o gato mia, mia / mesmo na terra do queixa-andar” (2008,
29). A partir do jogo de palavras entre Mia (Couto) e “miar”, Valeriano
discorre sobre os títulos dos livros do consagrado escritor moçambicano. No
entanto, nesse exercício de sobreposição bibliográfica pouca ou nenhuma
indicação é fornecida sobre o conteúdo dos textos. Valeriano pratica, no
máximo, uma espécie de coleção, já que, apesar de conduzirem a um núcleo de
referência comum (Mia Couto), tais títulos não o atinge. Trata-se de um novo
exercício de acumulação que, como ocorre com frequência entre os pretendentes
desprovidos de capital literário, acarreta um esvaziamento de sentido. Como
sustém uma vez mais Mammì, em seu estudo sobre o atual momento da arte
contemporânea, “aqui não há sublimação possível (...) não abre caminho para um
nível superior, apenas aponta para uma falha, talvez uma culpa. Ameaça nos
confessar algo inconfessável, e não nos diz nada. Convida-nos ao voyeurismo, e
se furta no último instante” (2012, 15).
No poema dedicado “ao José Craveirinha” (a contração do artigo volta aqui a ser
relevante, pois visa indicar familiaridade com o sujeito da homenagem),
Valeriano sugere ter recebido do célebre poeta uma certificação antecipada:
“Trocamos sorrisos / e o desejo que tinha: eu também quero ser poeta / e mesmo
sem nenhum poema na altura, / disseste: ‘já és poeta'” (2008, 20). Nos escassos
versos do poema, há uma dupla crença: na instituição, encarnada pelo poeta
moçambicano, que se confunde aqui com a própria poesia; e em si mesmo, em sua
pertença ao universo dos consagrados. De resto, como já sublinhamos, a
sobreposição de citações relaciona-se não tanto com a necessidade de cultivar
uma interioridade, mas com a afirmação de uma “familiaridade estatuária com a
cultura legítima” (Bourdieu, 1979, 68), com um desejo de distinção social. O
poema que homenageia Descartes (“ao Descartes”) é apenas mais uma derivação
desse afã: “Ai! Quanta emoção / envolve o coração / nos instantes em que a
razão / olha para si mesma” (2008, 24).
Na segunda parte do livro, intitulada “Interlúdio [Aos amores tidos ou
pretendidos]”, Valeriano reafirma de maneira contundente sua condição de autor
profano: “Direi tudo amor / e só então amor / reconhecerei que te amo / Não à
toa, mas só depois / de te ter conhecido melhor / amor” (2008, 41); “Preciso
agora refrescar meus pensamentos / sempre presentes nos meus versos / preciso
sim / dizer-te com todas as letras / este poema é teu meu amor” (2008, 42).
Atualizando consecutivos clichês, habituais nos primeiros escritos íntimos, o
autor constrói, de acordo com os dispositivos que possui, um imaginário que
combina “razão” e “emoção”, viés característico das práticas mais amadoras do
símile-campo. Os escritos destinados a familiares (“E das muitas coisas que sei
/ sei com certeza / que sou fruto de mulher / associada a um ser a quem chamo
pai”, 2008, 55) e a “ausência de palavras”, temática tão exercitada entre
debutantes na prática da escrita (“É uma pena / que não saiba escrever sobre o
amor / é uma dupla tristeza, / às vezes para mim / e para quem de mim espera o
tal”, 2008, 44), apenas confirmam que, entre os poemas e o (eventual) leitor,
dificilmente haverá uma relação efetiva de transformação.
Ainda que por motivos diferentes, o mesmo resultado terão as tentativas de
Abiba Jacob Elias Ibraimo (Abylin Ibraimo). Nascida na Província de Tete,
também em 1976, Ibraimo conclui o ensino secundário na Escola Secundária e Pré-
Universitária 25 de Setembro. Segundo as informações recolhidas na contracapa
de O suspiro da Alma no Mundo da Palavra (edição de autor, 2001), escreveu “o
1º poema em 1992, numa aula de Física, intitulado ‘Esperança e Paz'”. Esse dado
possivelmente visa compor o ethosda subversão (o poema é escrito em um contexto
– a aula de Física – “proibido”) e da precocidade (pois tinha apenas 15 anos na
altura). Além disso, a indicação do título do poema (“Esperança e Paz”) tem
como objetivo alertar para uma sensibilidade às causas justas.
Tal sensibilidade seria confirmada pela trajetória profissional da jovem,
também descrita na contracapa: “Em 1987 fez um curso de primeiros socorros da
Cruz Vermelha e trabalhou nessa área como socorrista. Mais tarde, em 1992
participou num seminário para activista de DTS/SIDA e trabalhou também em
colectividade nas campanhas de prevenção às doenças” (2001). As ideias
“subversão”, “dom” e “bondade” são alguns dos principais argumentos utilizados
nos elementos paratextuais do circuito literário mais periférico de Moçambique.
No prefácio, escrito pela própria autora em 1997 (ou seja, quatro anos antes da
publicação), esses elementos voltam a ser articulados:
Tenho que reconhecer que quando ele fica triste usa o seu traje
cinzento e chora lágrimas de tristeza única e incontrolável. E eu,
sem querer ficar para trás, levanto e visto-me de bom humor e aqueles
acessórios tão habituais chamados ‘pensamentos positivos', carregando
minha alma de uma energia forte e personalizada. E lá vou eu, feliz,
por esse ‘Mundo da Palavra', tão complexo mas ao mesmo tempo tão
fascinante, fico embevecida e minha ‘Alma Suspira'. É essa vida, essa
alegria e bom humor que quero transmitir a todos vós para que tenham
sempre o espírito virado para a literatura, para o amor e bem-estar
dos irmãos da terra. Esta minha 2ª obra dedico-a aos meus Pais e
Irmãos com muito amor (2001, 5)
Ibraimo concebe a escrita como um antídoto contra a tristeza “dele”, situando
sua intenção estética na esfera das emoções (“alma de uma energia forte e
personalizada”), dos “pensamentos positivos”, da “alegria” e do “bom-humor”.
Esses sentimentos contribuem para o orgulho e para a segurança que tem em si
mesma (“fico embevecida”).
Já o prólogo, escrito por Mándio Couto (entre parênteses é fornecido sua
alcunha: Dawany),[8] confirma a natureza amadora dessa edição de autor. Após
exaltar a “viagem ao Norte do País” que oferece Ibraimo neste livro, Mándio
Couto (ou Dawany) reflete sobre o que é poesia e sobre como se escreve um
prólogo:
Confesso que, quando me convidaram para escrever este prólogo,
estremeci. Talvez a palavra mais geograficamente correcta seja ni
djuquile.Não por medo, mas por surpresa. Como será escrever um
prólogo? E acima de tudo que dirão os poemas vindos do Norte? Vindos
da Zambézia? Vindos de Abylin Ibraimo? [...] Primeiro: no prólogo, ou
melhor, no ‘que se diz antes'. Mas o que é que se pode dizer antes da
poesia? De certeza que isso depende de como definirmos poesia. Será
poesia simplesmente um conjunto de obras em verso? Ou estará a poesia
espetada mais fundo, lá no cotovelo da existência? Quem sabe, talvez
uma consequência do Big Bang? [...] Segundo: na Abylin. Não conheço a
Abylin. Porestanto(como diria o guarda do meu vizinho): como posso
escrever algo sobre alguém que nunca conheci? Não posso falar de como
Abylin se reflecte na sua escrita. Não posso evidenciar sobre a
precisão de como expressa seus sentimentos. Demitimo-nos então de
comentar sobre o abismo que existe entre a Abylin e seus poemas.
Entre a escritora e sua escrita. É que desta vez o caso é diferente.
Acontece que, para mim, Abylin brotou dos poemas. Foi uma espécie de
parto ao avesso (2001, 6).
A poesia, para o prefaciador, é a correspondência entre o que se escreve e quem
a escreve, a cristalização em versos de uma personalidade dotada de
sensibilidade que decide expor publicamente seu “eu interior” (“como posso
escrever algo sobre alguém que nunca conheci? Não posso falar de como Abylin se
reflecte na sua escrita. Não posso evidenciar sobre a precisão de como expressa
seus sentimentos”). Existe, portanto, uma convergência com a ideia que possui
Ibraimo do gênero poético. Excetuando a forma em verso em que são dispostos, os
textos da autora não acrescentam muito mais a tudo o que é anunciado nos dados
paratextuais.
A jovem pretendente situa-se nesse espaço profano que elogia abertamente a
“alta cultura” letrada. A subversão praticada por grande parte dos escritores
do campo literário, que passa precisamente pela desconfiança e pela recusa de
doxas, assim como pela reapropriação da língua, é, em seus textos, invertida.
Sua aposta insere-se numa lógica de aceitação da “lei”: “Dicionário, livro tão
rico / Até na linguagem dos olhares / Marcas presença permanente / Na
descodificação da mensagem / Por isso digo, és o maior!” (2001, 22). A autora
procura também manifestar sua raiva perante a violência doméstica (“Basta! /
não me obrigarás a olhar a tua cara / nojenta de bêbado / Não me obrigarás a
receber no meu corpo / as pancadas do teu cinto”, 2001, 16) e as “Fofocas
idiotas” (2001, 25), título de um dos poemas. No entanto, essas imagens
revelam-se desprovidas de uma axiomática política, isto é, de uma efetiva
reflexão sobre as causas ou consequências sociais para os atores envolvidos. Da
mesma maneira que se naturaliza a lei e a dor individual, essencializa-se a
vida (em “Pela Vida”), o amor (no poema “Meu Príncipe”) e o lugar de
nascimento: “Zambézia de Moçambique / tuas nove irmãs províncias / completam
contigo / um País, Moçambique maravilhoso” (2001, 10). Já o “campo”, sem nome
nem atributos, podendo pertencer a qualquer lugar, é elogiado em “Um dia no
campo”. As férias de verão e o retrato do animal de estimação, temáticas
profanas por excelência, são convocados em “Um Amor Antigo” (p. 30) e “Tesco”
(p. 21), respectivamente.
Importa, finalmente, chamar a atenção para outro dado característico do símile-
campo: a indicação do momento exato da autoria de cada um dos poemas. Ao
indicarem-no, os autores profanos procuram reforçar a ideia de autenticidade da
empresa e celebrar o instante de inspiração que a precedeu. Uma eventual
revisão ou reescrita só viria a desmistificar esse momento (Poliak, 2006). No
livro de Ibraimo, para além do dia, mês e ano, é fornecida a hora exata da
escrita. Embora, obviamente, não estejamos em condições de confirmar a
veracidade dessa informação (e a autora tampouco estaria, podemos arriscar),
esse dado nos permite intuir a ideia que possui Ibraimo da criação literária.
Entre os poemas “Volta Para Mim” (“Quelimane, 16 de Agosto de 1996 / 22 horas e
50 minutos”), “Tesco” (“Quelimane, 16 de Agosto de 1996 / 22 horas e 55
minutos”) e “Dicionário” (“Quelimane, 16 de Agosto de 1996 / 23 horas e 10
minutos”), que seguem esta ordem de apresentação no livro, há apenas quinze
minutos de diferença. Por outro lado, os poemas de Ibraimo são escritos durante
a noite (momento solitário de reflexão e de inspiração), e nascem de forma
consecutiva, supostamente descontrolada, indícios que confirmam a inclinação
romântica, de natureza escolar, de suas tentativas estéticas.
II. Horizontes
Da mesma forma que a literatura autorizada, em qualquer contexto, se
caracteriza pela diversidade de práticas e praticantes, podendo, também ela,
derrapar em “irregularidades”, a escrita do circuito secundário possui diversas
facetas, e inclusive um horizonte real de possibilidades. Na poesia, nomes que
despontam, como os de Hélder Faife, Florindo Mudender ou Sangare Okapi, apenas
para citar alguns casos, nos ajudam a constatar a existência de uma fronteira
entre os dois grandes circuitos literários moçambicanos. É sobre o primeiro
destes autores que nos deteremos a partir de agora.
Hélder Faife nasceu em Maputo, em 1974. Filho de Abel Faife (antigo jornalista
moçambicano, falecido em 1987), formou-se em Arquitetura e Planejamento Físico,
tendo trabalhado ainda como artista plástico, cartunista e criativo de
publicidade. Obteve uma dupla conquista na quinta edição do “Concurso Literário
TDM 2010”. Contos de Fuga e Poemas em sacos vazios que ficam de pé venceram as
categorias de conto e poesia, respectivamente. Segundo a página eletrônica da
empresa que organizou o concurso, além do prêmio monetário (150 mil meticais no
total, ou seja, 75 mil para cada uma das modalidades), a Telecomunicações de
Moçambique (TDM) editou 1000 exemplares de cada obra. Depois de citar o nome de
algumas das personalidades presentes na cerimônia de entrega, a nota
informativa acrescenta que foram convidados os “familiares dos vencedores,
escritores e fazedores de literatura no nosso país” (TDM, Jornal do Cliente,
2010. Os grifos são nossos). Como se pode observar, a divisão entre legítimos
(“escritores”) e os outros (“fazedores de literatura”) é internalizada pela
própria entidade organizadora.
Poemas em sacos vazios que ficam de pé(TDM, 2010) é, sem embargo, um livro
muito diferente da maioria dos que compõem o símile-campo. A começar pelos
elementos paratextuais, pautados pela discrição. Uma pequena nota biográfica de
três linhas, na contracapa, é suficiente para apresentar o autor. Quanto à
capa, ilustrada pelo próprio escritor, um vendedor (ou uma vendedora)
transporta em seu carrinho de mão o título do livro. No que se refere à página
de agradecimentos, apenas os nomes de familiares são evocados. Isto é, ao
contrário da maioria dos pretendentes do símile-campo, Faife não homenageia nem
se vincula a nenhum agente do universo literário legitimado. O livro também não
apresenta prefácio ou posfácio. Há apenas uma pequena nota escrita pelo autor,
na qual se anunciam, em prosa, as temáticas maiores do livro:
Tímido curso de águas domésticas suburba o lustro urbano. Gente anti-
municipal, sentenciada pelo simples delito de existir, esgueira-se
pelos textos corcundando trouxas informais do comércio ilegal. As
moscas em balbúrdia são borboletas colorindo frases. Não há dinheiro,
diferencial que nos torna bandidos ou mendigos [...] Também há
escarro, muito escarro contido, sem o ímpeto da revolta, pensamentos
apenas, e um sopro oco expelido silenciosamente dos intestinos (2010,
5).
“Sem o ímpeto da revolta”, característica dominante do símile-campo, Faife
mergulha nas “águas domésticas” dos subúrbios, dessa “gente anti-municipal” que
subvive e sobrevive como pode. Se excetuarmos os versos de Craveirinha (com
quem Faife parece estabelecer uma indireta interlocução) e os contos de
Suleiman Cassamo (muitos deles ambientados no espaço suburbano), podemos
afirmar, com certa margem de segurança, que poucos autores consagrados
trabalharam com a mesma intensidade a geografia humana que Faife focaliza neste
livro.
Poemas em sacos vazios que ficam de pé divide-se em três partes: “poemas em
sacos vazios”, que privilegia o mundo dos vendedores informais; “dez abafos de
uma p...”, que se centra nos universos privado e público da prostituta; “poema
vazio e outras dores”, que, não se desvinculando das duas primeiras realidades,
repensa de maneira mais geral a desigualdade entre o cimento e o caniço. Em
todas elas, Faife estabelece um jogo de variações entre a língua e os abismos
sociais que a mesma se propõe a representar. Isto é, a partir de pequenas
alternâncias silábicas ou gramaticais, que põem em diálogo o significante e o
significado, oferecendo ao poema uma musicalidade orgânica, Faife assinala as
grandes contradições do meio urbano moçambicano.
É nessa linha que se situa, por exemplo, o poema “uns e outros”: “Uns sentam-se
à mesa farta e tomam o pequeno almoço / Outros não se sentam, porque é pequeno,
o almoço. / Uns, os que se sentam, sorvem. / Outros, os que não se sentam,
servem. / Uns que se sentem. / Os outros sentem. / Claro está, uns e outros não
se podem sentar à mesma mesa, pois são o contraponto uns dos outros [...] E
dois pontos não podem simultaneamente ocupar o mesmo espaço. [...] o destino da
refeição dos que se servem é manipulado pelos que servem, e o destino dos que
servem é manipulado pelos que se servem. Como manipular o destino uns dos
outros se estamos todos reféns do destino? / Uns não têm resposta. / Os outros
não ripostam. / Uns têm mesa, outros têm chão. A mesa é farta, o chão é fértil.
/ À mesa farta sentam tramam e tomam. / Sob o chão fértil tremem e temem que
lhes tomem.” (2010, 87). Partindo de uma pesquisa sobre as potencialidades
imagéticas e sonoras da língua, a poesia de Faife oferece ao leitor alguns
dados sobre a atual desigualdade social em Moçambique e confere, ao mesmo
tempo, protagonismo às classes marginalizadas.
Para além dos empregados domésticos, os vendedores, enquanto ícones do
cotidiano, ocupam um lugar de destaque em seu imaginário literário. Com escassa
presença na poesia moçambicana, tais figuras são, nos versos do autor, a face
eloquente de uma realidade onde as finanças determinam a agenda política. É
nesse contexto que o vendedor pode apenas viver de restos, arquitetar formas de
contrapoder e/ou incorrer no crime. Para além da diversidade de itinerários
individuais, Faife parece querer chamar a atenção para uma perda específica na
sociedade moçambicana atual: a reciprocidade.
Em qualquer relação interpessoal, a reciprocidade depende de uma base comum: a
apreensão da dimensão “tempo”. O tempo dos vendedores de rua é diferente, não
por qualquer razão de natureza transcendental, mas pelo destino político e
social que lhes coube em sorte. Esse destino os coloca numa posição intermédia,
que se situa entre a natureza rastejante e as altas finanças: “o relógio da
vendedeira / não tem ponteiros / é o fluxo estonteante / de compradores que vêm
e vão / e o ângulo das penumbras / a moverem-se pelo chão / a ampulheta do sol
inverte-se / no nascente e no poente / e marcas impulsos / que de tão
eficientes / não lhe cabem no pulso” (2010, 16). Não pertencendo a nenhum dos
horizontes da vida moderna (“nascente” e “poente”), desprovidos, portanto, da
comunhão de uma das coordenadas de existência (o tempo), resta aos vendedores a
tentativa de apropriação da outra coordenada (o espaço).
Os espaços que o autor desenha para os vendedores não exigem (nem demandam) um
complemento retórico. É o caso dessa calçada, ocupada em toda sua extensão pelo
solitário menino-vendedor: “lágrimas tempestuosas molham o chão / o comércio de
rua está ensopado / o vento espirra / um puto funga torrencialmente / e
constipa a calçada / está só e veste calças muito curtas / ou meias castanhas
compridas / ... muito compridas” (2010, 29). É este lugar empestado pelo fungo
da criança (que, como pode, negocia sua dignidade com as roupas simultaneamente
curtas e compridas que possui), espaço descompensado pela ausência da tal
reciprocidade, que força o menino a se tornar adulto antes do tempo: “menino
sentado / a comerciar doces / sem autorização para prová-los / a cicatriz funda
/ da meninice no olhar / ainda é crosta / e dói / e sangra / ferida de morte /
a infância amarga morre / o pequeno adulto amalgamado prova doce / e comete o
primeiro roubo” (2010, 35). Sem revolta nem gritos de ordem, mas efetivo, Faife
oferece-nos essa “modéstia porção de subúrbio encardindo o lustro urbano”
(2010, 39), cenário de pessoas excluídas que, quando pisam o cimento, podem ser
espezinhadas pelo movimento.
Ao refletir sobre o tempo descompassado e o espaço marginalizado, ambos em
relação fraturada com um “centro” flutuante (neste caso, o do dinheiro), o
autor demarca-se da “emoção” atemporal que recobre quase por completo o símile-
campo. Seus versos chegam mesmo a confrontar esse universo: “quem dá afeto não
se infeta?” (2010, 58). Por pressentir a violência simbólica que se esconde no
ethos da doçura, Faife apoia-se no amargo: “ao sol / sem lirismo / florescem as
palavras / empilhadas para o comércio / é poesia que vendo / música necessária
/ à algibeira / maestro sem pressa / desenho o ar / e espanto as moscas / com o
aceno / tilinta a música / de moedas no bolso” (2010, 46). À ruptura com o
imaginário da sensibilidade “amorosa” e “revoltada” se junta o rechaço à
ideologia do “dom” artístico, também ela celebrada no símile-campo. Ambas as
repulsas se fazem, como podemos notar na passagem citada, a um nível semântico
e formal. Em cada série de elementos valorizados pela poesia do símile-campo
(“sol”, “lirismo” “palavras” / “poesia”, “música” / “maestro”, “desenho” /
“aceno” / “música”), surge um contraponto desmistificador (“comércio” /
“algibeira” / “moscas” / “moedas no bolso”). A ilustração da capa de seu livro
sintetiza, pois, o projeto artístico e ideológico do jovem estreante. Nela,
como já assinalamos, um (ou uma) jovem transporta, num carrinho de mão, o
título do livro, anunciando implicitamente uma mensagem de natureza poética e
política.
Como se não bastasse, em Faife, alguns elementos simbólicos ou culturais muito
em voga no campo legitimado são também reavaliados. Por exemplo, a velhice
deixa de ser apenas fonte de sabedoria: “velhos não são trapos / mas trajam
farrapos / ... / o corpo pendurado nos ombros / verga ao peso do fardo dos anos
/ é a gravidade cínica que o convoca / a engravidar a terra com seu túmulo /
... / arrasta-se sem graça / cartão postal da desgraça / ... / esquecido o
seguro de juventude / a vida não se reembolsa [...] a dignidade reformou-se com
a idade / já não vende cigarros / pede esmola / ... / o abdômen é o recôncavo
vazio dum prato / a mão pedinte é uma colher / a esmola é sua pensão de reforma
/ ... / a velhice não é um posto / é um imposto” (2010, 15). A capulana, por
sua vez, já não realça com suas cores e texturas os contornos físicos e
existenciais da mulher moçambicana. Ela é, aqui, unicamente depósito, o último
dos esconderijos possíveis: “no norte da capulana / um nó providencial / é
cofre seguro / o pano mãe / com que se enroupa / agasalha a receita do dia”
(2010, 14). Já a acácia, habitualmente enquadrada como centro de beleza, ou
então como referente de um celebrado saber coletivo – a raiz –, converte-se em
cenário do íntimo, do marginal e do escatológico, em passarela de personagens
secundárias da História: “os amantes / na discrição do escuro / encostam-se ao
tronco / chilreiam seus pássaros famintos / e moram um no outro / depois vem o
bêbado / mija e balbucia delírios / abraçado ao caule / escorrega tronco abaixo
/ e adormece de braguilha aberta / sobre o orvalho azedo da urina” (2010, 47).
Por outro lado, se o “voo” costumava antes conotar a libertação das amarras
poéticas e políticas, agora, com Faife, é associado também ao mendigo (esse
“man digno”, 2010, 74) ou às larvas: “desfiar as ruas / engravatar o silêncio
frio do deserto urbano / espiolhar fórmulas artesanais de existir / reciclar a
vida com delicadeza de ave / colher bocados de relento / e edificar um ninho /
com o bico / assim / como quem alimenta suas crias”(2010, 75);“milagre no
bazar, insólito de tão banal: fruta gera vida, larvas! / da podridão os bichos
bebés espreitam tímidos / ensaiam a vida, coreografia dócil de movimentos
molares[...] enquanto a vida resplandece da podridão cadavérica do fruto /
cogito a nossa condição: / para onde voar sem asas o corpo inquieto que nos
pesa a alma? / ou somos ainda larvas na polpa deste mundo apodrecido?”(2010,
42). Finalmente, a “poesia líquida”, imagem que atualiza a natureza compósita
da nação, devido ao permanente cruzamento cultural que sua paisagem favoreceu
desde os primórdios da história, é, de certa forma, contraposta nos versos de
Faife. E isto se dá porque o autor sugere a violência que também se deixa
dimanar: “deixem o poema ser líquido / e escorrer pela borda da estrada /
encontrar-me-ão caseiro / e de portas abertas / na sarjeta” (2010, 72).
Desmistificando a escrita profana e, conscientemente ou não, desafiando algumas
formas celebradas no campo literário, Hélder Faife não se esquece de posicionar
socialmente seu sujeito poético. Este, a certa altura, se pergunta pelo lugar
que ocupa no palco do atropelamento social: “enquanto o mundo se ri dele / o
homem crespo de cabelos / e liso nos bolsos / estende a mão pedinte / outro /
liso de cabelos / e crespo na bolsa / cospe-lhe uma moeda / eu / descabelado /
e mulato no bolso / serei liso ou crespo? / roto no cabelo / ou calvo nos
bolsos?” (2010, 84).
Também o universo da prostituta, temática cara a escritores do símile-campo e
do campo literário,[9] é repensado por Faife. Em alguns poemas, sobretudo
aqueles que entrecruzam a exterioridade e a interioridade da prostituta, um
diálogo com a poesia de Craveirinha ou com a fotografia de Ricardo Rangel
parece estabelecer-se: “a rachadura no espelho / parte-me em duas / dispo
lentamente a alma / deixo-a ilesa / do outro lado do reflexo” (2010, 52). Ao
corpo da prostituta, isto é, a essa “repartição pública nocturna / expediente /
para homens e moscas” (2010, 60), o jovem autor acrescenta novas simbologias:
“corpo enrolado em outro / yin and yang / in and out / out put, in put /
imputa-me / onde mais fundo me tocas: / na bolsa” (2010, 56). Nestes sete
versos, a prostituta possui uma tripla função: materializa a dualidade, por ser
o espaço onde coabitam duas forças opostas e complementares. Segundo a tradição
do taoismo, “yin” é o princípio feminino, da terra, da absorção, da escuridão e
da passividade, “yan” sinaliza o outro lado, o masculino, do céu, da luz, da
penetração, da atividade. Para além de convocar um conceito chinês para
descrever o encontro entre a prostituta e o cliente (conceito que pode indiciar
também uma presença crescente no país), interliga-o à conjunção em língua
inglesa (“and”), a língua internacional dos negócios financeiros, do encontro
desigual dos tempos neoliberais moçambicanos. A primeira função liga-se
diretamente à segunda: a prostituta materializa a violência do hibridismo. O
“out put, in put”, ou esse entrar e sair do corpo da prostituta, enquadra-se na
mesma lógica do entrar y salirda modernidade, teorizada por Cornejo Polar
(1997). Segundo o teórico peruano, o tom de celebração com que se aplica
normalmente o conceito “hibridismo” pode facilmente transportar a análise ao
equívoco. O engano consubstancia-se na insistente ideia de abertura e fusão de
culturas e no esquecimento das contradições e das violências intrínsecas desse
encontro (1997, 21). Finalmente, a terceira função: a prostituta pode encarnar
a resistência. O poema finaliza com o desprezo da trabalhadora ante a suposta
força desses ilustres “estrangeiros”, que em seu corpo se esvaziam, a nível
simbólico e material.
A temática da resistência não se limita, assim, àquele sentimento apaziguador e
apriorístico de que o pobre é melhor do que o rico simplesmente porque é
excluído. A “infrapolítica dos desvalidos” (Scott, 2003) é, em Faife, uma forma
possível e legítima de luta: “tua voz vem comprar / pergunta receosa / quanto
custa / solícito / dou-te os preços / inflacionados com astúcia / regateias mas
não cedo / viras as costas mas regressas / após inspeccionar o mercado /
resmungas mas compras / e eu espero paciente / pela imbecil distracção / de
outras presas” (2010, 37). Os marginalizados inscritos pelo autor não são,
portanto, um mero instrumento de antiexotismo literário. Como bem detecta
Jéssica Falconi, no único texto crítico, até à data, escrito sobre o autor, “a
instância de denúncia da desumanização faz com que a poesia resista à retórica
da idealização da pobreza” (2011, 63). Ainda segundo Jéssica Falconi:
As personagens e as dinâmicas relativas ao mundo do comércio informal
são, de fato, representadas, em vários poemas, através de estratégias
de imitação e apropriação dos códigos da economia e do trabalho
“formais”, da lei e da administração, produzindo um efeito de
subversão, que procura reatribuir, a estes sujeitos subalternos, o
poder de resistência e de negociação da sua identidade social dentro
do espaço da cidade e da nação (2011, 62).
Deslocados no cimento moçambicano, os marginalizados de Hélder Faife exercitam
um conjunto de estratagemas cujas finalidades são complementares: luta pela
minimização da naturalização do poder e combate pela sobrevivência.
Paralelamente a todos esses dados, o autor revela uma característica rara no
símile-campo: o domínio da língua e da linguagem literária. O fato de ter
crescido à volta de livros pode estar na origem desse diferencial. Em
entrevista ao jornal moçambicano Verdade, Faife explica a influência familiar
em sua trajetória:
Para começar tinha uma estante enorme de livros. Na altura não
tínhamos um televisor, o meu pai morreu em ‘87. A decoração da sala
sem um aparelho de televisão era mais para o rádio, gira-discos,
cristaleira e, principalmente, uma estante de livros. A estante do
meu pai era enorme, tinha muitos livros e eu conhecia os livros todos
pela cor e pelos títulos. Por fim, acabei por ler grandes livros.
Aprendi a ler com Jorge Amado, naquela altura, não entendia nada, mas
sabia que era um bom livro, apesar de ter letras pequenas. Também lia
os artigos do meu pai que ele recortava (Verdade, 2010).
Nessa mesma entrevista, o escritor garante que seus textos e seus versos apenas
pretendem “pegar em coisas corriqueiras e espremer poesia delas para ver se sai
algo palpável” (2010). Faife esclarece ainda que este livro é o resultado de
uma seleção de poemas escritos há alguns anos, mas que adormeciam na gaveta. Ao
revê-los, encontrou um fio condutor: “Uma vez recolhi os meus poemas e procurei
o que tinham de comum e vi que era o prazer de escrever” (Verdade, 2010). O
fato de ter crescido num meio familiar que cultivava a leitura, aliado a uma
prática de escrita que não dispensa a releitura e a seleção, são, naturalmente,
condimentos decisivos para sua tentativa de inserção no universo literário.
Considerações finais
O boomda edição em Moçambique, solidificado pela proliferação de concursos e
eventos literários, não é capaz de mascarar um fosso de desigualdades: os
desenvolvimentos da política cultural, quase sempre entregue a instituições
privadas de Maputo, em pouco ou nada contribuem para o aumento das
possibilidades reais de acesso e de apropriação dos fundamentos da literatura
escrita. O problema não é específico de Moçambique. Pelo contrário, é
característico das sociedades de consumo, que, acumulando coisas (imagens,
palavras, ideias, livros, prêmios, saraus, homenagens), banalizam seu
significado (Mammì 2012, 112). Dessa forma, em vez de se dirigir a uma
igualdade efetiva, a propagada “democratização cultural” acaba por perenizar
uma demarcação entre a elite letrada e os aspirantes (de outras classes
sociais).
Esse quadro menos animador, contudo, não invalida totalmente o surgimento de um
horizonte de possíveis. Demonstrando um conhecimento profundo do símile-campo
(cujo imaginário desconstrói) e do campo (onde sua escrita, em prosa ou em
verso, necessariamente caberá), suplantando a capa estereotipada da língua e
demarcando-se de exuberâncias retóricas ou de conteúdos inconsequentes (sem
deixar, porém, de abalar pela língua e pelo enunciado), Faife é contundente em
sua estreia, comprovando que, apesar das dificuldades materiais que recobrem a
prática literária no país, algumas das novas vozes merecem a atenção da crítica
especializada e o interesse de leitores e editores.