Não há prémios puros: E por que haveria de haver?
DOSSIER PRÉMIOS LITERÁRIOS. O PODER DAS NARRATIVAS E /OU AS NARRATIVAS DO PODER
Não há prémios puros. E por que haveria de haver?
Isabel Pires de Lima
A proliferação de prémios literários hoje em dia é de fácil constatação.
Multiplicam-se prémios literários por iniciativa pública e privada: poder
central, autarquias, sujeitos individuais, empresas (grandes e médias)
promovem-nos cada vez mais.
Que razões motivam tal proliferação? Este é o ponto de partida para a minha
brevíssima reflexão sobre o assunto.
Os prémios literários, os prémios de criação nascem com a sociedade burguesa a
partir do momento em que o criador se liberta da tutela mecenática, passa a
proclamar a liberdade de criação e o estatuto de criador independente e enceta
a caminhada para o profissionalismo, com a possibilidade de auferir direitos de
autor e de viver da escrita.
Se é verdade que desde a Antiguidade a competição entre criadores foi
incentivada, a verdade é que a relevância dos prémios literários decorre da
relação direta entre obra literária e o seu valor de troca. Isto é, quando a
obra literária passa a ter valor comercial, na sequência do desenvolvimento da
sociedade capitalista e dos processos de industrialização do livro, passa a ter
necessidade de circular, de ser publicada, comprada e vendida, numa infinidade
de transações.
Estão também os prémios literários relacionados com o estatuto que o escritor
adquiriu na sociedade burguesa de arauto das nações modernas. Isto é, o
escritor, o vate romântico, é um visionário que dá voz a uma comunidade e ao
desejo de pertença dos seus membros. Alça-se a voz da pátria e é colocado num
elevado pedestal na sociedade oitocentista.
O prémio literário é pois mais um reforço, mais um instrumento da sociedade
burguesa ao serviço do fortalecimento da base daquele pedestal onde o escritor
é colocado, sustentado pelos valores românticos da originalidade,
singularidade, diferença, distinção.
O prémio literário distingue e aponta seres distintos, discriminando
positivamente, diríamos hoje.
E hoje por que proliferam então os prémios literários?
Respondem eles a várias necessidades:
Suster a queda da literatura, a sua perda de prestígio enquanto instituição
social, tentar recentrá-la a ela que perdeu o lugar central ande se colocar.
Procurar prestígio por parte de quem o atribui no facto de apoiar uma arte que
se vai tornando paulatinamente uma arte de elites, pese embora se ler cada vez
mais nas sociedades contemporâneas.
Brilhar mecenaticamente com pouco investimento financeiro. Estando o escritor
pouco cotado comercialmente no mercado, prémios contidos do ponto de vista
financeiro exercem sobre ele poder de atração.
Procurar num prémio a mola que mais faz vender - o ruído mediático em torno de
um livro e de um autor. Enfim procurar vender mais, coisa que interessa tanto
ao autor quanto ao editor. Atente-se, aliás, no número avultado de prémios
promovidos por grupos económicos de editores e livreiros.
Responder às necessidades da crítica que, tendo deixado de ser ouvida e de ter
canais veiculares, quer reafirmar-se no exercício judicativo.
Provocar a invenção de escritores.
Dito isto, considero, para além de toda a fabricação social, comercial,
política, muito positiva e até indutora de leitura e de energia cívica e moral
a existência de prémios literários. Geram legítimas narrativas de poder e de
contrapoder.
Os prémios literários valem o que valem. Não há prémios puros. E por que
haveria de haver?