Introdução
DOSSIER PRÉMIOS LITERÁRIOS. O PODER DAS NARRATIVAS E /OU AS NARRATIVAS DO PODER
Introdução
Ana Gabriela Macedo
*Coordenadora do Projecto Prémios Literários, O Poder das Narrativas e /ou as
Narrativas do Poder.
gabrielam@ilch.uminho.pt
“… o escritor faz-se como todas as pessoas se fazem: olhando o mundo como se
fosse pela primeira vez e descobrindo no Tempo algo que pode ainda ser
estreado”
(Mia Couto, “Quando me fiz escritor?”, Granta 4, 2014, p.81).
O presente Dossier que integra o n. 29.3 da Revista Diacrítica editada pelo
Centro de Estudos Humanísticos da Universidade do Minho, inclui três dos textos
apresentados pelos respectivos autores num painel que teve lugar na XVI edição
do Festival Correntes d'Escritas da Póvoa de Varzim. Este painel, precisamente
intituladoPrémios Literários. O Poder das Narrativas e /ou as Narrativas do
Poder, foi organizado no âmbito de um projecto de investigação científica
sediado no Centro de Estudos Humanísticos, com o apoio e a chancela da Fundação
Calouste Gulbenkian. Apraz-nos desde logo salientar esta pouco usual e a nosso
ver crucial relação de cumplicidade entre a academia, no caso a Universidade do
Minho e a sociedade civil através de um evento cultural que tem assumido um
papel tão significativo local e nacionalmente, como o Festival Correntes
d'Escritas da Póvoa de Varzim.
A nosso ver a Universidade só tem futuro se souber estabelecer sinergias vivas
com a sociedade civil e se for capaz de criar redes de conhecimento, de debate
e de reflexão para além dos seus próprios muros. Como tal, e desde logo, o
nosso profundo reconhecimento à Comissão organizadora do Correntes d'Escritas
(um evento que vem milagrosamente crescendo todos os anos!), o Dr. Luís
Diamantino, Vereador do pelouro da Cultura da Câmara Municipal da Povoa de
Varzim e a Dr.a Manuela Ribeiro, que desde o primeiro momento, num caloroso dia
de Julho, nos recebeu, não menos calorosamente, nas ainda recentíssimas
instalações do Teatro Garrett, na Póvoa.
Agradecemos vivamente a disponibilidade de todos os intervenientes no nosso
painel (Ana Paula Tavares, Ana Luísa Amaral, Inês Pedrosa, Isabel Pires de
Lima, Germano Almeida, Manuel Jorge Marmelo), e a generosidade com que
acolheram a nossa proposta de reflexão conjunta sobre o significado dos Prémios
Literários e o seu impacto múltiplo, desde logo no próprio autor/a, na leitura
da sua obra, na sua obra por haver ou porvir, no mercado da edição e da
tradução, na formação e transformação do cânone literário, na criação do
bestseller e nas feiras internacionais do livro, enfim, reflectindo sobre o
prestígio que o prémio literário tem, quer queiramos, quer não, e as várias
malhas que o tecem.
Dito de outro modo, e tal como simbolicamente dito no título do nosso projecto
e deste painel: Os Prémios Literários entre o Poder das Narrativase as
Narrativas do Poder.
Por motivos diversos são apenas três os textos destas intervenções editados
neste Dossier. Decidimos assim juntar a estes um outro texto, de índole e
formato algo diferente, da autoria de Nazir Ahmed Can, porém cujo conteúdo
analítico se constrói em total sintonia com o tema proposto à reflexão e lhe
acrescenta um estudo de caso que muito enriquece a reflexão global.
A anteceder ainda a apresentação dos textos contidos neste Dossier, apenas uma
breve, algo crua e obviamente polémica, nota historiográfica.
Na cerimónia de atribuiçãodosPrémios Literários pelo Secretariado da Propaganda
Nacional (SPN) a 21 de Fevereiro de 1935, a qual foi presidida pelo então
Presidente do Conselho, António de Oliveira Salazar, refere o mesmo no seu
discurso de entrega dos Prémios, e que figura no volume I dos seus Discursos[1]
como “pedaços de prosa que foram ditos”, e que de seguida transcrevo (ênfase
nosso):
“Os princípios morais que estão na base deste movimento reformador [referindo-
se ao Estado Novo]impõem à actividade mental e às produções da inteligência e
sensibilidade dos portugueses certas limitações, e suponho deverem mesmo
traçar-lhes algumas directrizes”. (p.XX)
(…) “o amoralismo e a arte pela arte, frutos lindos de ver-se mas
inaproveitáveis ou nocivos”. (p. XXII)
E continua no seu discurso o então Presidente do Conselho:
(...) “para elevar, robustecer, engrandecer as nações é preciso alimentar na
alma colectiva as grandes certezas e contrapor às tendências de dissolução
propósitos fortes, nobres exemplos, costumes morigerados.” (p. XXIII)
“É impossível nesta concepção de vida e da sociedade, a indiferença pela
formação mental e moral do escritor ou do artista e pelo carácter da sua obra;
é impossível valer socialmente tanto o que edifica como o que destrói, o que
educa como o que desmoraliza, os criadores de energias cívicas ou morais e os
sonhadores nostálgicos do abatimento e da decadência.” (p. XXIII)
(...) neste momento histórico em que determinados objectivos foram propostos à
vontade nacional, não há remédio senão levar às últimas consequências as bases
ideológicas sobre as quais se constrói o novo Portugal.(...) E se por vontade
de tal estado de consciência se vier a escrever menos ...” (p.XXIV).
Bom, posto isto à laia de Introdução, parece-nos que a questão dos Prémios
Literários, o seu impacto nacional e internacional, os parâmetros que os regem,
o seu reflexo no mercado e nas práticas editoriais e de tradução, são sim um
fenómeno literário, mas também cultural, social e político indubitavelmente
controverso e contíguo ao Poder das Narrativas e às Narrativas do Poder.
No seu texto, intitulado “A Verdade dos Prémios Literários: o Poder das
Narrativas e /ou As Narrativas do Poder”, Ana Luísa Amaral começa por referir
que irá tratar de “prémios e poesia”. Argumenta a autora que os prémios
literários não são, em si mesmos, “narrativas do poder”, mas sim as
circunstâncias que os enquadram, as quais têm a ver, nomeadamente, com a
“legitimação do gosto”. Analisa depois a autora exemplos vários de prémios que
se inscrevem em “narrativas de contra-poder”, caso, entre outros, da poeta
americana Adrienne Rich, ao recusar a “National Medal for the Arts”, o mais
alto galardão americano, como um símbolo da sua crítica severa à administração
Clinton.
Germano Almeida, no texto “Acerca dos Prémios Literários”, analisa no seu jeito
irónico e satírico aquilo que considera um tabu digno de nota na questão dos
Prémios: a questão pecuniária. Reflexão esta que, sendo necessariamente “contra
a corrente”, coloca uma importante questão raramente colocada e, muitas vezes,
hipocritamente escamoteada. A questão do “valor económico” em que se traduz o
“valor literário e cultural” dos Prémios, mais ainda quando se trata do Prémio
Nobel, não é de facto menor. Daí a importância igualmente assinalável dos
escritores que recusam os Prémios. Germano Almeida refere entre outros a recusa
de J. P. Sarte do Nobel, a de Luandino Vieira, do Prémio Camões, a de Herberto
Hélder do Prémio Pessoa, com fundamentos político-ideológicos.
A reflexão de Isabel Pires de Lima, “Não há prémios puros. E por que haveria de
haver?”, enuncia pragmaticamente uma série de questões em torno da presente
“proliferação de prémios literários”, as quais a autora equaciona, propondo-nos
que “o prémio literário distingue e aponta seres distintos, discriminando
positivamente”.
Por fim, e como se disse anteriormente, num registo formal distinto, Nazir Can
no ensaio “Doxas, paradoxos e horizontes: o circuito secundário da poesia
moçambicana em discussão”, texto que foi apresentado na conferência realizada
no âmbito deste projecto na Universidade do Minho em 2-3 de Julho de 2015,
entretece um diálogo teórico que consideramos fértil com as reflexões
anteriores, acrescentando ao tema em debate novas indagações e perspectivas
críticas. O autor propõe-nos um estudo de caso sobre “a proliferação de
concurss literários dirigidos a iniciantes” presentemente, em Moçambique. Este
instigante estudo reflecte sobre os dois grandes circuitos vigentes: o “campo –
espaço constituído por escritores legitimados”, e o “símile-campo – espaço
periférico mais ou menos desprestigiado pela institução literária. O estudo das
relações entre “língua, sociedade e institucionalização” que este texto nos
propõe, concretiza, a nosso ver, muitas dos postulados, indagações e
inquietações múltiplas sugeridas pelos autores presentes no painel havido no
Festival Correntes d'Escritas em Fevereiro de 2015, no âmbito deste projecto de
investigação.
Uma palavra final de profundo agradecimento a todos os que contribuiram para a
concretização deste vivo debate e desta reflexão conjunta: os escritores, os
membros do projecto, particularmente a Joana Passos e a Elena Brugioni,
fundamentais em todo este processo, os membros do grupo de pesquisa GAPS
[Género, Arte e Estudos Pós-Coloniais] pertencente ao Centro de Estudos
Humanísticos, o Director da linha temática de Literatura, Orlando Grossegesse,
a organização do Correntes d'Escritas e, last but not least, a Fundação
Calouste Gulbenkian que acreditou neste projecto e o financiou, oferecendo-nos
uma salutar “luz ao fundo do túnel” nestes tempos sombrios para a investigação
científica nas Humanidades.
Braga, 15 de Setembro 2015
Notas
[1] António Oliveira Salazar, Discursos I (1928-1934), Coimbra Editora Ltd.,
1946 (p. XV).