Exílio e diáspora em Cabo Verde
1. Introdução
Dificilmente se pode compreender a identidade do povo cabo-verdiano omitindo o
papel que nela desempenharam a emigração e o exílio. O percurso histórico de
Cabo Verde revela que a abolição da escravatura, na segunda metade do século
XIX, se traduziu num progressivo abandono administrativo da colónia, que até aí
fora essencialmente um entreposto de escravos. O ciclo de recessão económica
então iniciado converte a emigração num fenómeno marcante do arquipélago: os
Estados Unidos, o Brasil, vários países europeus (Portugal, Holanda, Itália,
Bélgica e Suécia) e diversos territórios africanos (com destaque para S. Tomé,
onde emigrantes cabo-verdianos são contratados para as roças) tornam-se os
principais destinos da diáspora cabo-verdiana. Até à atualidade, estudos
demográficos e migratórios demonstram que existem mais cabo-verdianos vivendo
fora do que dentro do arquipélago.[1]
Entendida com frequência como exílio em busca de melhores condições de vida,
mas tendo como ambição maior o regresso ao arquipélago, a diáspora cabo-
verdiana manifesta-se sobretudo no continente europeu – mais concretamente em
Portugal – e no continente americano – mais especificamente nos Estados Unidos.
Cumpre, do meu ponto de vista, um dos significados do termo identificado por
Nicholas Hewitt e Dick Geary (2007: 7): aquele que representa uma saída forçada
da pátria: “Travel and migration were not always by any means voluntary and
were often dictated by political persecution, economic necessity and, at its
most extreme, enforced emigration in the form of slavery (…). This raises
important questions of identity”.
Tais questões que remetem para a emigração deste povo implicam aceitar o
princípio de que a identidade transcultural de Cabo Verde “necessarily coincide
with gravitational centres found in other societies and cultures” (Rodrigues,
2011: 80). Ou seja, os movimentos migratórios são cruciais para a construção da
identidade cabo-verdiana e como alimento de obras literárias, que, tal como
outras manifestações artísticas (a pintura e a música),[2] retratam a emigração
forçada de homens e mulheres que, ao longo dos séculos XIX e XX, reconstruíram
as suas vidas noutros territórios.[3]
Por razões que se prendem ora com a insularidade[4], ora com condições
climatéricas adversas, ora ainda com a incapacidade de aceitação de um regime
colonial, a experiência do exílio foi vivida por diversos escritores cabo-
verdianos, pelo que as suas obras acabam por denunciar uma índole
autobiográfica intensa, a par de um marcado realismo literário. Eugénio
Tavares, Abílio Duarte, Ovídio Martins, Onésimo Silveira ou Mário Fonseca são
apenas alguns desses escritores que conheceram o exílio. Considere-se apenas o
exemplo de Onésimo Silveira, o poeta e contista nascido em 1936, na ilha de S.
Vicente, e do seu romance Toda a gente fala: sim senhor (1960) enquanto relato
que traduz a própria experiência do escritor que para S. Tomé e Príncipe
emigrou, como tantos outros cabo-verdianos forçados a trabalhar nas roças.
Neste ensaio, procurarei deixar manifesto de que modo a literatura cabo-
verdiana representa esses traços fundamentais da identidade cultural do
arquipélago (a diáspora, e emigração e o exílio) desde aquele que é considerado
o seu movimento fundador – Claridade[5] – até à atualidade. Para a
concretização deste propósito, começo por traçar um percurso cronológico de
algumas abordagens literárias do exílio e da diáspora dos cabo-verdianos,
destacando composições poéticas publicadas em Claridade, analisando um romance
de aprendizagem – Chiquinho (1947), de Baltasar Lopes – e narrativas curtas que
abordam a emigração cabo-verdiana em período colonial – os contos de Cais do
Sodré té Salamansa(1974), de Orlanda Amarílis – e concluindo com uma reflexão
sobre a abordagem da emigração depois da independência de Cabo Verde em 1975,
apresentada no romance Eva (2006), de Germano Almeida.
Este percurso permitirá evidenciar: em primeiro lugar, a relevância (que a
literatura, melhor do que qualquer outra manifestações artística soube
traduzir) dos fluxos migratórios de cabo-verdianos; em segundo lugar, a
perceção dos emigrantes do arquipélago como protagonistas de narrativas de
exílio; em terceiro lugar, o valor simbólico das dicotomias geográficas criadas
pelas ficções narrativas; em quarto lugar, os sentimentos mais marcantes
veiculados pelos sujeitos líricos e pelos protagonistas dos contos e romances
que, com frequência, traduzem uma vertente autobiográfica da escrita: a
nostalgia da pátria e a sujeição a discursos xenófobos (particularmente em
contexto histórico colonial).
2: O passado e o presente: uma linha de continuidade da diáspora cabo-verdiana
Omnipresentes na literatura cabo-verdiana, os motivos da emigração e do exílio
observam-se já em poetas que precedem o movimento de Claridade. Com frequência,
a saída de muitos cabo-verdianos do arquipélago tem como causas principais as
precárias condições de sobrevivência em Cabo Verde, impostas por condições
climatológicas muito severas, ou a fuga ao autoritarismo do colonizador. As
duas causas podem encontrar-se na mesma composição. Assim, no poema
significativamente intitulado “Estiagem”, Aguinaldo Fonseca (nascido em 1922 na
ilha de S. Vicente) manifesta o desejo desesperado de abandonar um lugar
marcado por uma seca que destrói sementeiras e vidas. Todavia, considerando o
contexto colonial em que a composição foi publicada, pode ainda inferir-se dela
um grito de revolta contra a alienação do colonizado imposta pelo colonizador,
que lhe proporciona unicamente um “horizonte estreito” e uma “voz amordaçada”:
Esta secura pregada na garganta
não sei bem se veio do vento
ou das entranhas do inferno.
Este horizonte estreito
a estrangular distâncias e esperanças
não sei se é feito de sangue
ou de poeira vermelha.
(Oh! Que desejo duma carícia
de sombra fresca
de verdes ramos
e rochas húmidas!)
Será que perdi a voz
neste mar de sol
onde a paisagem é figura desfocada?
Se grito
o grito em mim persiste a esbracejar
porque não sai
do poço desta angústia amordaçada.
Oh! Quero lagos, lagos,
muitos lagos de água clara
para mergulhar os olhos
Oh! Quero campos, campos,
verdes campos,
para libertar a voz amordaçada. (Andrade, 1975: 27)
Será, todavia, nos números da revista Claridadeque o sentimento de angústia do
cabo-verdiano que sabe que tem de partir, mas deseja ficar no seu país, se
manifestará de modo mais penetrante e iterativo.
Antes de o analisar, será útil, penso, uma abordagem sumária da revista e do
movimento que ela funda. Em 1936, Baltasar Lopes, Jorge Barbosa e Manuel Lopes
projetam uma publicação literária norteada por dois princípios fundamentais: o
afastamento dos cânones portugueses, como manifestação explícita de resistência
ao colonialismo; a expressão da voz do povo cabo-verdiano, das suas angústias,
dos seus anseios, da sua autenticidade.[6]
Encarada como marco fundador da cabo-verdianidade, a revista assume no lema que
adota – “fixar raízes na terra cabo-verdiana” – o desafio declarado ao sistema
colonial e a defesa das origens do povo cabo-verdiano, com a publicação de um
poema em crioulo no número inaugural.
A emigração e o exílio marcam tanto as poesias líricas, quanto as ficções
narrativas publicadas pelos claridosos. No primeiro caso, referir-me-ei a Jorge
Barbosa, no segundo, a Baltasar Lopes.
A viagem é o motivo literário mais destacado do conjunto da obra poética de
Jorge Barbosa. Apresentada em duas vertentes principais – real, quando imposta
por condicionamentos socioeconómicos e geográficos; mental, quando desencadeada
por reflexões sobre a procura da identidade e do mito das origens, ou ainda
sobre a morte como derradeiro percurso humano –, a viagem parece evocar, nas
suas composições, o mítico percurso marítimo de Ulisses. O mar é representado
em metáforas antinómicas – aprisionamento e fuga, cerceamento de liberdade e
evasão – como pode ler-se em “Panorama” – Ilhas perdidas no meio do mar,
esquecidas / num canto do Mundo – que as ondas embalam, / maltratam, /
abraçam…” (Andrade, 1975: 17) – e “O mar” – “Ai o mar / que nos dilata sonhos e
nos sufoca desejos! // – Ai a cinta do mar / que detém ímpetos / ao nosso
arrebatamento / e insinua / horizontes para lá / do nosso isolamento! /
/ Convite da viagem apetecida / que se não faz.)” (idem: 19).
Como poeta profundamente comprometido com as tragédias que se abatem sobre a
sua pátria, Jorge Barbosa interpreta os motivos da seca, da fome, do
isolamento, da falta de recursos e da exiguidade das ilhas, caracterizando o
povo cabo-verdiano como fatalmente destinado a “Viver sempre vergado sobre a
terra, / A nossa terra / Pobre / Ingrata / Querida!” (ibidem).
Inteiramente harmonizado com os ideais de Claridadee com o movimento
regionalista brasileiro,Chiquinho,[7] publicado por Baltasar Lopes em 1947, é
um Bildungsroman que narra a infância, a adolescência e a juventude de um rapaz
cabo-verdiano. Nascido na ilha rural de S. Nicolau e conhecendo precocemente os
efeitos devastadores do clima sobre as vidas dos seus conterrâneos (sobretudo
as consequências dramáticas de longos períodos de seca), o protagonista viverá
em S. Vicente a experiência de estudante que aspira a que a formação escolar
lhe permita escapar às difíceis condições da infância. O abandono temporário da
ilha de S. Nicolau alimenta em toda a família (avó, mãe e dois irmãos) a
esperança de um futuro economicamente tranquilo. Concluídos os estudos
secundários, Chiquinho regressa para a breve trecho tomar consciência que nada
mudara na vida dos familiares e amigos: reencontra a extraordinária resistência
de muitos cabo-verdianos contra períodos de seca prolongados, perdas de
colheitas, pobreza, miséria e morte:
Era seca, nua, devastadora como nas crises mais terríveis de que
rezava a crónica da minha ilha. Desaparecidas todas as esperanças,
enganadas as promessas de chuva. De todas as ribeiras a notícia que
vinha era a mesma. Não se colheria um grão de milho, e dos feijoeiros
nem falar, que a lestada de Novembro crestara tudo (Lopes, 2006: 188-
189).[8]
Conclui que a função de professor para a qual se preparara é inútil num espaço
onde a maioria das crianças não frequenta a escola, ora porque tem de auxiliar
os pais na agricultura, ora porque morre de fome. Chiquinho acabará por tomar
consciência, como anos antes fizera o seu pai, que a emigração é a única
alternativa a uma existência miserável, na qual muitos cabo-verdianos se
resignam à condição de “escravos da terra” (idem, 45).
Os Estados Unidos ocupam um lugar determinante nas três partes que estruturam o
romance: na primeira, “Infância”, o protagonista recorda numa extensa analepse
os primeiros anos de vida na casinha do Caleijão e a omnipresença do pai,
emigrado para os Estados Unidos: móveis, quadros, fotografias e dólares evocam
essa figura que abandona Cabo Verde quando Chiquinho tem apenas cinco anos:
Mesmo depois de ausente, ele era uma presença constante na nossa
casa. Bastava olharmos para a mobília americana, o gramofone, os
quadros na parede para sentirmos Papai assistindo connosco, embora
tão longe. (…) Foi quando da seca de novecentos e quinze. Os
sequeiros não deram nada e no regadio a água quase secou. (…) tudo na
nossa vida, a casa, as mobílias, as recordações, os nossos
interesses, faziam uma reportagem sentimental que dava a Papai uma
presença quase física no meio de nós (idem, 35 e 37).
Aos olhos de uma criança, a América não é apenas o país para onde o pai
emigrou, aquele em que qualquer mulher cabo-verdiana poderá “parir em casas
caiadas e telhadas”, aquele que, em última instância, permite a sobrevivência
dos familiares que permanecem em Cabo Verde. A América é sobretudo um espaço
imaginário que alimenta ilusões, um lugar paradisíaco onde o sonho se
transforma em realidade, onde a fome e a pobreza dão lugar à abundância e à
prosperidade:
A América ficava bem perto de mim. Meu coração de menino não a
colocava mais longe do meu círculo de afeições do que a Água do Canal
ou o António Gegê, onde eu ia brincar com a meninência e correr
navios de purgueira e de cana de milho.
Quando eu era mais tamanhinho, figurava a América uma ribeira muito
bonita, cheia de hortas muito verdes (idem,38).
Se a América é uma promessa de felicidade para os cabo-verdianos que emigram, o
mesmo não pode dizer-se de um outro tipo de emigração tratado no romance: a que
leva muitas cabo-verdianas para Dakar. Trata-se de uma emigração que
objetualiza as mulheres como prostitutas e que em Chiquinhosão representadas
pela personagem de Maninha: “Ela contratada, com outras cabo-verdianas, para
dançar num clube nocturno. Gabinetes reservados. Os franceses escolhem” (idem,
103).
Os Estados Unidos são para Chiquinho o que a bíblica Israel tinha sido para o
povo eleito: uma “Terra da Promissão em que eu poderia realizar todas as minhas
virtualidades” (idem:204).
A última parte do romance aprofunda o dilema do protagonista: a perspetiva de,
emigrando, obter bens que lhe assegurem uma existência confortável confronta-se
com a permanência junto de familiares e amigos, mesmo que esta ponha a causa a
sobrevivência de muitos deles; a emigração oferece-lhe a oportunidade de
adquirir “gramofone, pianola, cómodas, louça fina, um ror de coisas”, ao passo
que as ilhas lhe destinam quase fatalmente a “escravatura. Escravo não merece
mais do que cama de cancarã, uma caixa de goiabeira, louça da Boa Vista e um
pote ao canto da casa” (idem: 207). Chiquinho sonha, portanto, com the American
way of life.
O sonho de Chiquinho é idêntico ao de muitos rapazes do Caleijão, que esperam a
contratação como baleeiros para abandonarem definitivamente a ilha. O mar
aparece então como porta de fuga a uma realidade árdua, ainda que acabe por ser
substituída por outra igualmente penosa. Sair surge como desígnio inevitável,
acabando muitos daqueles que emigram por não retornarem ao arquipélago:
Chegaram navios baleeiros na terra. Correu logo a notícia. Navio-de-
baleia era fartura para a ilha. Os rapazes alvoroçaram-se, porque
todos tinham vontade de ser recrutados. Começaram a chover pedidos
aos encarregados do engajamento, pois o número de tripulantes de que
os navios careciam era menor do que o dos pretendentes. Desembarcaram
para ver a família muitos rapazes que faziam parte das tripulações.
Mas não eram rodeados da admiração que cercava os americanosde
verdade, que voltavam das fábricas e plantações da América com a
algibeira pesada de dólares. Rapaz-de-baleia não traz dinheiro.
Trabalha para os outros. Meses e meses nas pescarias do mar do sul e
quando regressam à América recebem um pataco furado (idem: 64).
“América”, termo que encerra o romance de Baltasar Lopes, revela que a
emigração, determinada pela precariedade de recursos em Cabo Verde, é o lugar
onde Chiquinho projeta a concretização de uma vida feliz, como tantos outros
cabo-verdianos.
Para além de admitir associações autobiográficas, o romance de Baltasar Lopes
apresenta os motivos nucleares da literatura cabo-verdiana, elaborando uma
espécie de lista identitária dessa literatura: a seca, a crise económica, a
morte, a emigração, o amor, o apego telúrico, a tenacidade dos que se recusam a
abandonar a pátria, a nostalgia do desconhecido e a saudade.[9]
3. Histórias de emigrantes cabo-verdianas
A biografia de Orlanda Amarílis (Santa Catarina, ilha de Santiago, 1924) é em
si mesma uma realização da diáspora. Os seus estudos secundários foram
iniciados na cidade do Mindelo (ilha de S. Vicente) e concluídos em Goa e em
Lisboa. Com o marido, o investigador de literaturas africanas de expressão
portuguesa Manuel Ferreira, viajou por todo o mundo. Orlanda Amarílis é, nas
palavras de Claudia Pazos Alonso (2005: 46) “a displaced Cape-Verdian” que
conhece com profundidade “the contradictions of being simultaneously an insider
and an outsider”.
O sentimento de pertença e de ligação a Cabo Verde está omnipresente nas
personagens das suas três coletâneas de contos: Cais do Sodré té Salamansa
(1974),Ilhéu dos Pássaros(1983) e Casa dos Mastros (1989).
Cais do Sodré té Salamansaadmite uma leitura simbólica: a estação lisboeta de
comboios é o lugar de partida para vários destinos, o último e mais ambicionado
dos quais a praia de Salamansa, em Cabo Verde. Metaforicamente, Salamansa
representa o regresso à pátria, a materialização do sonho de muitos cabo-
verdianos emigrados para Portugal. Ao mesmo tempo, o título sugere um movimento
de circularidade: se o cais do Sodré pode ser o ponto de chegada de emigrantes
cabo-verdianos, ele é passível também de uma interpretação simbólica como lugar
de partida para Cabo Verde, território de chegada, real ou sonhada, de muitos
cabo-verdianos emigrados.
O primeiro conto da coletânea descreve a existência lisboeta de uma emigrante
cabo-verdiana que, enquanto espera o comboio, tenta identificar noutra mulher
traços típicos de uma compatriota. Este impulso da protagonista, Andresa,
corresponde a uma necessidade vital de encontrar “pessoas como ela, vindas
daquelas terras de espreguiçamento e lazeira” (Amarílis, 1991: 11) para
“estabelecer uma ponte para lhe recordar a sua gente” (idem: 15). Os momentos
de decifração da identidade de anónimos que encontra na estação abrem a
esperança a um reencontro, ainda que breve e despoletador de uma intensa
nostalgia, com as suas origens.
A situação vivida por Andresa corresponde à definição de exílio proposta por
Helder Macedo, numa leitura da obra de Claudio Guillén O Sol dos Desterrados.
Literatura e Exílio. Sustenta o professor e escritor português (2007: 235) a
dimensão comparativa da experiência do exílio: “todo o exílio é, em si próprio,
uma situação existencial comparativa”. Também Edward Said destaca, pelo
empréstimo do termo musical “contraponto” – sobreposição de uma melodia a outra
–, a natureza comparativa de toda a experiência do exílio: “For an exile,
habits of life, expression, or activity in the new environment inevitably occur
against the memory of these things in another environment. Thus both the new
and the old environments are vivid, actual, occurring together contrapuntally”
(Said, 2000: 186).
Cabo Verde representa para a protagonista do conto o lugar da memória, da
saudade, das raízes porventura perdidas para sempre: evocar a pátria constitui
um reencontro com um universo rural, povoado de narrativas ancestrais,
superstições, feitiçarias, histórias que unem a comunidade. Todavia, a memória
significa também uma consciência mais apurada da solidão e do isolamento em
Lisboa. A comparação entre a pátria e o país de acolhimento signfica também uma
oposição temperamental: para Andresa, Cabo Verde é a terra do carácter amorável
– a morabezza –, pacífico, tranquilo e solidário, ao passo que Lisboa é o lugar
de um novo tipo de escravatura: aquela que é imposta por preconceitos raciais e
pelo ritmo frenético do quotidiano.
Estes sentimentos tornam-se ainda mais marcantes na protagonista do conto
“Desencanto”, que narra também a existência em Lisboa de uma cabo-verdiana
inconformada com a condição de muitas mulheres no seu país, remetidas
exclusivamente para tarefas domésticas. Para esta emigrante, a profissão de
”escriturária de segunda classe” e os múltiplos empregos temporários no país de
acolhimento confrontam-na com a repulsa perante o constante assédio masculino –
“Nunca conseguiu enfrentar os clientes sabidos e desnudaram-na com os olhos
lascivos” (idem: 42) – e, sobretudo, os comentários racistas que a
inferiorizam. Ela tem consciência que o esforço que fez para iludir a cor da
sua pele é inútil perante um diálogo entre dois homens brancos: “Malandro,
estás a fazer-te prà mulata” (idem: 45). A mestiçagem constitui um estigma que
a reduz a uma condição errática e solitária: “Sempre a fugir de andar com os
patrícios de cor para não a confundirem e afinal é um branco que lhe vem
lembrar a sua condição de mestiça. Oh céus! É uma cigana errante, sem amigos,
sem afeições, desgarrada entre tanta cara conhecida” (idem: 45).
Ainda que utópico, o regresso a Cabo Verde abre um caminho onírico de
felicidade para as personagens femininas que protagonizam os dois contos. Por
isso, elas realizam um percurso que recorda a experiência do exílio vivida por
Ulisses e por Jasão, apresentada num soneto do poeta francês Du Bellay:
Heureux qui comme Ulysse a fait un beau voyage,
Ou comme celui-là qui conquit la toison,
Et puis est retourné, plein d'usage et raison,
Vivre entre ses parents le reste de son âge ! (ApudGuillén, 1995 :
79)
O desenraizamento imposto pela emigração é um motivo que Orlanda Amarílis
retoma na segunda coletânea de contos, Ilhéu dos Pássaros. Tomarei em atenção
apenas o conto de abertura. O drama da seca é novamente apontado como causa
primeira do abandono do arquipélago na narrativa “Thonon-les-Bains”: nh'Ana
confessa as expectativas que alimenta com a emigração e o projeto de casamento
em França da sua filha Piedade:
Sabe, comadre, a vida aqui já não podia continuar como era. Sete anos
sem chuva é muito. Eu não tenho nem uma migalha de reforma de Deus-
Haja. Nós vivemos da renda dos bocadinhos de terra e de mais alguma
coisinha, encomendas dos nossos rendeiros, um cacho de banana de vez
em quando, uns ovinhos, um balaio de mangas uma vez por outra, umas
duas quartas de milho e é tudo. (…) se nha fidja me mandar algum
dinheirinho, posso começar um negócio de comidas, assim uma caldeira
de catchupa com mandioca e toucinho para vender à boca-da-noite, um
groguinho ou um pontche para emborcar em cima, e pronto (Amarílis,
1983: 14).
O desfecho trágico do conto expõe a discriminação a que muitos emigrantes são
sujeitos, como pode inferir-se do relato feito por Gabriel, no regresso a Cabo
Verde: Piedade é assassinada pelo namorado francês, mas nem o seu meio-irmão
Gabriel nem os amigos se sentem capazes de denunciarem o homicídio, pois sabem
que a imagem do emigrante é profundamente desmerecida:
Nh'Ana não consegue compreender por que motivos Gabriel não contou a
verdade à polícia. E Gabriel responde: “Isso não adiantava nada. Eles
sabiam mãe Ana, sabiam, isto é, desconfiavam, mas eu sou emigrante.
Emigrante é lixo, mãe Ana, emigrante não é mais nada” (…).
Não sabia mais que dizer sobre aqueles dias de pesadelo, nem ia
contar como ele e os companheiros tinham sido enxovalhados na polícia
(idem: 25).
“Thonon-les-Bains” é, no conjunto de narrativas de Orlanda Amarílis, o conto
que representa de modo mais trágico a experiência da emigração de cabo-
verdianos, focalizando o drama numa personagem feminina, como é recorrente nos
textos da autora.
O homicídio de Piedade e a ausência de denúncia fazem supor que os próprios
emigrantes cabo-verdianos aceitam de algum modo – ou se resignam – a condição
inferior de estrangeiros e a supremacia do europeu. É esta, creio, a conclusão
a que chega Gregory McNab (1987: 66) a propósito da explicação do crime,
afirmando que “Thonon-les-Bains” é:
A story about the experience of a Cape Verdean as well as that of a
woman. The first of them may be labelled the primacy of the native
(Jean) over the foreigner (Piedade). The implied existence of belief
in such a primacy in the native society explains why the Cape
Verdeans, who committed no crime in Thonon-les-Bains, were
nevertheless evicted from their rooms and rejected as tenants for
other quarters. It clarifies why Gabriel, the half-brother, did not
denounce Jean to the police. (…) The second of those other embedded
primacy statements related to the murder of Piedade is a racial one.
We may designate it as white supremacy over non-white; we may also
label it European over non-European or even First-World over Third-
World.
4. Visões pós-coloniais da emigração e do exílio
Germano Almeida é atualmente um dos mais reconhecidos escritores cabo-
verdianos. A sua extensa produção não abandona aqueles motivos que definem a
identidade e os problemas que fazem parte da vida do arquipélago. Acrescenta-
lhes outros que permitem caraterizar a sua obra literária como pós-colonial.
O romance Eva (2006), cuja diegese se localiza temporalmente no início do
século XXI, contempla uma marcada componente política e civilizacional, da qual
fazem parte, entre outras, reflexões sobre a guerra colonial; a importância do
25 de abril de 1974, quer enquanto manifestação de revolta contra
totalitarismos, quer como momento que abre o caminho para a independência das
colónias africanas sob domínio português; o isolamento, a agitação e a
impessoalidade da vida moderna numa capital europeia; as dificuldades de acesso
a bens culturais que persistem no arquipélago de Cabo Verde – “quem nos dera
haver livros à venda em Cabo Verde, mesmo que nas ensebadas tascas das fraldas,
perdidos entre garrafas de grogue, linguiça assada ou peixe frito de
escabeche!” (Almeida, 2006: 14); o devir histórico do país depois da
independência. A este propósito, a visão do narrador, temporal e criticamente
distante dos acontecimentos, procede a uma revisão da perspetiva que, em Cabo
Verde, imputava todos os problemas do país ao Estado que o colonizou: “A
população (…) de repente começou a ver a independência como a mágica solução de
todos os seus seculares problemas de secas e fomes, e ausência de saúde, e
falta de escolas, e falta de trabalho, e o mais que durante toda a sua
existência de 500 anos não tinha tido” (idem: 16).
O regime de partido único, que vigorou em Cabo Verde até 1990, merece também
uma crítica do narrador, na medida em que ele “fez grande promessas de saúde
para todos, educação para todos, trabalho para todos, enfim, a sociedade de
abundância com que se tinha sonhado, não dava mostras de poder ver-se cumprida
nos tempos mais próximos” (idem: 17).
O narrador mostra que, uma vez mais, é a emigração, sobretudo para Portugal,
que se apresenta como a única forma de sobrevivência de muitos cabo-verdianos:
estes novos emigrantes são aqueles que conservaram ou conseguiram obter a
nacionalidade portuguesa, puderam adquirir um passaporte – pejorativamente
chamado “folhinha de couve” por aqueles que o não conseguiram – e saíram do
país.
As duas principais personagens masculinas do romance são emigrantes: Luís
Henriques foi forçado a abandonar clandestinamente Cabo Verde para não ser
integrado nas tropas de resistência; Reinaldo obtém uma bolsa para fazer a sua
formação no Brasil. Prolonga a sua estadia por muito tempo, porque conclui que
conheceria melhor o seu país e o seu povo “a partir da comparação com outras
realidades e outras gentes” (idem: 16). Regressa a Cabo Verde onde se torna
professor de liceu apenas porque não aceita a função de jornalista ao serviço
do governo: “Uma das grandes preocupações do Poder era impedir a emigração de
quadros que num futuro que se esperava breve viriam a ser de todo necessários
ao desenvolvimento de Cabo Verde. Porém, não me interessava como emprego ser
mais um porta-voz do Governo” (idem: 19).
A missão jornalística de Reinaldo é entrevistar doze compatriotas que
voluntariamente se exilaram em Lisboa, porque sentiram que a independência os
desamparou: “Queria ouvir os que durante toda a vida souberam e sentiram Cabo
Verde como parte integrante de Portugal, e de repente se tinham visto
desmamados e perdidos, porque abandonados pela Mãe Pátria e entregues a
terceiros pelo próprio governo do país que era o deles” (Almeida, 2006: 21).
O conflito entre os dois apaixonados de Eva passa com frequência pelo
desmerecimento da experiência da emigração: Reinaldo pensa que grande parte do
êxito de sedução de Luís Henriques se deve relato de narrativas compungentes
junto de Eva:
Você resolveu (…) falar-lhe abertamente da precariedade da sua vida
em Lisboa, afinal muito pouco diferente da de qualquer dos nossos
emigrantes analfabetos que partiram e nunca mais regressaram a casa,
menos por vontade que pela falta de coragem de assumir perante os
seus, isto é, a família e os amigos, a derrota das suas vidas nas
famosas e cobiçadas terras de promissão (idem: 125).
O interesse de Reinaldo pela emigração de compatriotas é explicitamente
manifestado: nas entrevistas que faz em Lisboa e numa viagem a Roterdão, onde
procura emigrantes do seu país, o seu grande projeto jornalístico é a pesquisa
sobre as influências da emigração na cultura cabo-verdiana (cf. idem: 176).
Não obstante a distância cronológica que o separa dos textos de Baltasar Lopes
e de Orlanda Amarílis, o romance Evapossibilita uma aproximação a essas
narrativas de tempos coloniais. Ainda que tome em consideração protagonistas
doutro contexto histórico, continua a reconhecer a experiência penosa dos
“novos” emigrantes. Eva e Reinaldo dialogam sobre “a precária situação em que
viviam os nossos emigrantes de segunda e terceira geração a quem Portugal não
reconhecia a condição de emigrantes, afora um ou outro que tinha a sorte de se
revelar excelente em alguma arte, fosse música, desporto ou atletismo” (idem:
128).
Depreende-se deste diálogo um exame sobre o modo como Portugal acolheu
emigrantes cabo-verdianos depois da independência. Eva torna-se por vezes um
alter ego do narrador, questionando também “a vida miserável por que passavam
os trabalhadores trazidos de Cabo Verde para não morrerem de fome nas ilhas,
mas que ali sofriam com a rudeza de um clima impiedoso, para além da nostalgia
que os compelia a juntarem-se em guetos que lhes impossibilitava toda e
qualquer hipótese de integração nas terras de acolhimento” (idem: 147).
Significativamente, esta meditação acontece durante uma receção realizada na
embaixada de Portugal em Cabo Verde comemorativa do 10 de junho, consagrado
como Dia de Camões e das comunidades portuguesas.
5. Conclusão
Em função das observações produzidas, julgo que podem retirar-se algumas
conclusões:
Em primeiro lugar, a identidade cabo-verdiana é em grande medida construída
pela memória da pátria, pela saudade e pelo desejo de voltar.
Em segundo lugar, a literatura do arquipélago jamais se alheou do papel que a
emigração e o exílio têm na história e na configuração mental do país. Embora
sejam tratados por outras literaturas africanas de expressão portuguesa – por
exemplo, pela poesia lírica moçambicana, através de diversos poemas que José
Craveirinha dedica à vivência sub-humana do magaíça, o jovem moçambicano
obrigado a emigrar para as minas de ouro na África do Sul –, estes motivos
assumem uma relevância determinante em Cabo Verde, configurando
identitariamente o povo do arquipélago e a literatura nele produzida.
Em terceiro lugar, as abordagens literárias da emigração e do exílio
representam um antes e um depois: se o antes é formado por expectativas e
sonhos – sobretudo pelo American dreamfigurado em Chiquinho–, o depois reporta-
se a experiências pouco compensadoras que passam a alimentar um outro sonho – o
regresso a Cabo Verde, exemplarmente manifestado por Orlanda Amarílis na
epígrafe da coletânea Ilhéu dos Pássaros: “Se eu pudesse estar agora no ilhéu
dos Pássaros!”
Em quarto lugar, a ficção pós-colonial continua a interessar-se pelos motivos
da emigração e do exílio, mas aporta uma visão inovadora que pode ver-se
representada no romance Eva: interessam também ao narrador as histórias
daqueles cabo-verdianos que, depois da independência do arquipélago, decidiram
emigrar para Portugal. Trata-se de uma perspetiva original que se volta para
aqueles cabo-verdianos que preferiram Portugal a Cabo Verde enquanto este viveu
sob o domínio de um regime de partido único.
Em quinto e último lugar, ainda que distanciadas nos seus contextos históricos,
as obras literárias cabo-verdianas fazem da emigração e do exílio experiências
de desenraizamento, de comparação constante entre a pátria e o exílio, de
choque cultural e de nostalgia do país natal Mas são também, como defendeu
Orlanda Amarílis[10], a materialização da diáspora e porventura a marca mais
profunda da identidade cabo-verdiana.