Formação e classes de palavras no português do Brasil
RECENSÕES
BASÍLIO, Margarida (2013), Formação e classes de palavras no português do
Brasil. São Paulo: Contexto. ISBN: 978-85-7244-271-8
Henrique Barroso*
*Universidade do Minho, Portugal.
hbarroso@ilch.uminho.pt
Antes de mais, impõe-se este esclarecimento: estamos na presença da 1.ª
reimpressão da 3.ª edição (a 1.ª é de 2004) do livro em epígrafe, e a razão de
só agora o estar a recensear (sabia contudo da sua existência há já alguns
anos) tem simplesmente a ver com o facto de não há muito me ter chegado às mãos
e, sobretudo, de só muito recentemente ter tido a oportunidade de o ler como
deve ser, isto é, reflexivamente.
Trata-se de um pequeno grande texto de uma especialista na matéria (Margarida
Basílio, professora titular da Pontifícia Universidade Católica do Rio de
Janeiro), que conheço há longos anos de outros, de que destacaria Teoria
lexical (São Paulo: Ática, 1987) e Estruturas lexicais do português: uma
abordagem gerativa (Petrópolis: Vozes, 1980). Pequeno, é claro, só no número de
páginas: nem sequer chega às cem (noventa e cinco, contabilizadas já as duas
com as referências bibliográficas). Grande, deveras, no que diz respeito à
temática e de modo particular ao seu tratamento: uma descrição de pendor
didático dos padrões gerais e dos principais processos de formação de palavras
na variedade brasileira do português.
Para além da Introdução (pág. 7), onde afirma ser sua intenção “oferecer ao
público leitor, estudiosos da língua e, sobretudo, aos professores de português
uma visão articulada dos principais processos de formação de palavras, tendo
como ponto central a questão da mudança de classe e suas funções na
constituição do léxico”, desenvolve a matéria em questão ao longo de dez
pequenos capítulos, que infelizmente não numerou (uma falha geradora de um
certo ruído porque, no decurso da obra, remete para o capítulo n.º …, e o
leitor leva o seu tempo até o encontrar), terminando todos com um conjunto de
exercícios (entre 10 e 18), para que os aprendentes possam praticar e/ou testar
os conteúdos expostos/ adquiridos. Aqui, parece-me, não quadraria mal o que
costuma aparecer em obras do mesmo tipo: sugestões de resolução para as
atividades propostas. Não é obrigatório, evidentemente. É uma mera sugestão.
Vejamos agora do que trata cada um dos dez capítulos. Em “Para que serve o
léxico?” (págs. 9-12), reflete-se sobre léxico e língua, constituição e
expansão do léxico, léxico externo e léxico mental, processos de formação de
palavras, o léxico é “ecologicamente correto”, léxico virtual e léxico real. Em
“Dissecando a palavra” (págs. 13-19), sobre a palavra gráfica, palavra e
dicionário, palavra estrutural, a palavra e suas flexões; palavra, vocábulo e
lexema; palavra, homonímia e polissemia; palavra fonológica, clíticos,
locuções, a palavra como forma livre mínima, formas dependentes, problemas
remanescentes. Em “Classes de palavras e categorias lexicais” (págs. 21-25):
noções gerais, critérios de classificação, um critério ou um conjunto de
critérios?, principais categorias lexicais: breve definição, formação e classes
de palavras. Em “Derivação e mudança de classe: padrões gerais e motivações”
(págs. 27-32): padrões lexicais regulares, derivação e mudança de classe, por
que mudança de classe?, motivações não são exclusivas, quadros mais complexos,
motivação expressiva na mudança de classe, motivação textual e motivação
sintática, motivações múltiplas. Em “Principais processos de mudança de classe:
formação de verbos” (págs. 33-38): formação de verbos a partir de substantivos,
processos de formação de verbos a partir de adjetivos, mudança de estado em
verbos formados a partir de substantivos, principais processos de formação,
formações parassintéticas. Em “Principais processos de mudança de classe:
formação de substantivos” (págs. 39-51): formação de substantivos a partir de
verbos, função denotativa, motivação gramatical, motivação textual,
desverbalização, principais processos de formação; derivação regressiva,
formação de nomes de agente e instrumento, aspetos gramaticais, principais
processos de formação; formação de substantivos a partir de adjetivos, função
denotativa, outras motivações, principais processos de formação. Em “Principais
processos de mudança de classe: formação de adjetivos” (págs. 53-60): formação
de adjetivos a partir de substantivos, principais processos de formação;
formação de adjetivos a partir de verbos, motivação gramatical, principais
processos de formação; vestígios categoriais em adjetivos formados de verbos.
Em “Principais processos de mudança de classe: formação de advérbios” (págs.
61-65): formação de advérbios por derivação, problemas de análise morfológica
na derivação de advérbios, as diferentes funções das formações em -mente, a
formação de advérbios por conversão.
Por fim, nos dois últimos capítulos, reflete sobre processos de formação de
palavras que não estão ligados à mudança de classe. Em “Sufixação sem mudança
de classe” (págs. 67-77), trata da expressão do grau (aumentativo e principais
processos de formação; o diminutivo e seus valores e principais processos de
formação; aspetos morfológicos; prefixos diminutivos; superlativo) e nomes de
agente denominais (formações em -ista, formações em -eiro, outras formações).
Em “Adjetivo ou substantivo?” (págs. 79-93), sobre conversão e derivação
imprópria, adjetivo e substantivo: as dificuldades de classificação; nomes
pátrios e nomes de cores; os três critérios de classificação e sua relação com
a flutuação substantivo/adjetivo; adjetivos substantivados; substantivos com
função adjetiva: nomes de agente, casos típicos e casos marginais, substantivos
podem qualificar substantivos?, substantivos como qualificadores, substantivos
como complementos de substantivos, substantivos como especificadores.
Com este trabalho, a autora quer mostrar que a morfologia derivacional não
existe por acaso. Pelo contrário: “as estruturas morfológicas constituem um
instrumento fundamental na aquisição e expansão do léxico individual ou
coletivo, assim como de seu uso na produção e compreensão de diferentes tipos
de texto em nossa língua”, escreve na Introdução (pág. 7).
Correções e/ou sugestões de correção: (i) pág. 28, linha 7, onde está “… a uma
base ou radical…”, deveria estar “… a uma base, que pode ser um radical, um
tema ou uma palavra flexionada…”; (ii) pág. 35, depois do exemplo (8), vem “Nas
frases acima, …”, mas deveria fazer parte do texto, não do exemplo; (iii) pág.
42, linha 3, depois de “Principais processos de formação”, onde está “formação
de verbos”, deveria estar “formação de substantivos (ou nomes)”; (iv) pág. 43,
linhas 2-3 do parágrafo a seguir ao exemplo (12), onde está “… expressão dar
uma [V-da] …”, deveria estar “… expressão ‘dar uma [V-da]' …”; (v) pág. 49,
exemplo (32): por que razão passa de a. a f.?; (vi) pág. 75, nos itens lexicais
de a. aparece duas vezes facada; (vii) pág. 79, linha 6, 2.º parágrafo, onde
está “a rigor”, deveria estar “em rigor”; o mesmo se passa na pág. 86, no
início da linha 1 do 3.º parágrafo; (viii) pág. 83, penúltimo parágrafo,
deveria ser em versalete (trata-se de um título de uma secção).
Para terminar, e considerando o texto no seu todo, há dois aspetos que merecem
ainda a nossa atenção. Um negativo, a saber: a ausência transversal de itálicos
ou de qualquer outro tipo de destaques. Na minha opinião, todos os itens
lexicais tratados deveriam estar destacados do corpo do texto: bastaria o
itálico (ocorre uma única vez, pág. 61: lentamente). Outro positivo, que é: uma
síntese descritiva (dos conteúdos em causa) espetacular. Bem organizado e bem
escrito. De grande utilidade, quer para interessados em geral e também
investigadores quer, sobretudo, para estudantes (graduação e pós-graduação).