Dicionário de insultos
RECENSÕES
Sérgio Luís de Carvalho (2014).Dicionário de insultos. Lisboa: Planet. (215
pp.)
Jacek Pleciński
*Escola Superior de Línguas, Wrocław, Polónia.
j.plecinski@wsf.edu.pl
Lusitanus ridet lexica conscribens, eis a frase que me veio à mente durante a
leitura do Dicionário de insultos(DI). O Autor, segundo diz a Editora na capa
do livro, formou-se em História, é mestre em História Medieval, e tem até hoje
mais de trinta livros publicados, entre os quais há não só estudos históricos,
mas também livros infanto-juvenis e romances.
DI leva um subtítulo: A estranha origem e a bizarra história dos insultos
portugueses, e mais um subtítulo suplementar: Apodos, epítetos, apóstrofes,
desconsiderações, achincalhamentos, verrinas, ofensas e outros modos de apoucar
quem nos azucrina. Sendo polaco, não conhecia até agora esses termos todos, nem
imagino se eles são evidentes para cada português letrado, mas procurei-os em
vários dicionários de português e encontrei quase todos. Aprendi então que
achincalharquer dizer o mesmo que ‘ridiculizar, chacotear', aprendi igualmente,
graças ao Dicionário de expressões populares portuguesasde Guilherme Augusto
Simões, que azucrimé um “indivíduo inoportuno que nos molesta, apoquenta”.
Achincalhamentoeazucrinarseriam derivados inventados pelo Autor?
Na minha qualidade de autor de textos sobre o lúdico nas línguas, especialmente
românicas, fui capaz de constatar que Sérgio Luís de Carvalho divertiu-se muito
na pesquisa e soube divertir o leitor da sua obra. Já houve em Portugal
lexicógrafos que se divertiam: Orlando Neves, Eduardo Nobre, o acima mencionado
Simões, talvez António Nogueira Santos, e mais alguns com certeza; mas talvez o
Sérgio Luís de Carvalho seja primeiro a pôr o lado lúdico em primeiro lugar.
Esse valor reside, obviamente e antes de mais, no tratamento das origens dos
verbetes. O Autor deixa-se simplesmente encantar pela extravagância e pela
esquisitice da história dos insultos. O aspeto lúdico manifeta-se igualmente na
análise da polisemia de muitas palavras e, em terceiro lugar, nas observações
acerca de falsos amigos ibéricos (em português e em castelhano, por exemplo
trampae presunto), verdadeiras armadilhas que ameaçam tradutores e intérpretes.
O DI lê-se como um romance. Quase todas as curiosidades etimológicas são
intensamente divertidas e ao mesmo tempo instrutivas. Vejamos então, para
confirmar, algumas delas na ordem alfabética.
As chamadas mesclas lexicais são sempre dotadas de aspeto cómico, e tal é o
caso de analfabetaeanalfabruto.
Uma expressão idiomática (EI) usada por todos pode ser enigmática e
incompreensível até ao momento em que se nos explica a origem dela. Tal é o
caso de andar com o rei na barriga‘ser soberbo, orgulhoso'. Por ser
incompreensível, uma EI não tem nenhum valor cómico; esse torna-se óbvio com a
explicação histórica. Tal como a que o Autor nos oferece.
A bambochatavinda da Itália (bambocciata‘brincadeira infantil') ganha tanto
mais efeito quanto se nos traz à memória a recente palavra italiana
bamboccione‘homem não assim tão novo que ainda está na casa dos pais'.
A mudança total de sentido chamada enantiosemia que ocorre na evolução
semântica é um fenómeno linguístico bastante frequente. Tal coisa aconteceu com
a beata: Sérgio Luís de Carvalho cita José Jorge Letria que tem explicado o
significado antigo do termo: “mulher do povo pouco versada em religião”, sendo
uma beata, hoje em dia, “muito ligada às coisas da igreja e da religião”. A
palavra beatafica ainda mais curiosa se a compararmos com o adjetivo latim
beatus(fem. beata) e com a sua forma em francês: hoje béatquer dizer ‘ingénuo,
parvo'.
Cábula, diz Dr. Carvalho, vem do hebraico Qabbalah (Cabala);
cretinoecristãoencontram-se aparentados na história das línguas românicas
(acrescentemos: cretine creştin, em romeno); a EI fazer as coisas em cima do
joelhotira sua origem da Roma antiga; outra EI, emprenhar pelos ouvidos,
refere-se a uma história esquisita ligada à Nossa Senhora – que etimologias tão
curiosas! No DI há mais dezenas de casos assim.
Depois da origem em si, outra fonte de enlevo e êxtase do leitor é a polisemia
de palavras e de EI, relacionada – na esmagadora maioria dos casos – com a
evolução semântica delas durante séculos a fio. Borracho‘bêbado' e ‘menina
bonita' (lembremo-nos de: “No bêbado e no borracho / Põe Deus a mão em baixo”),
chulo, já citada beatasão alguns exemplos entre muitos mais.
Quanto aos falsos amigos do tradutor na área do português e castelhano, não há
muitos do DI, mas são saborosos. Já mencionei trampaepresunto, agora apetece-me
acrescentar perdulário, mais uma vez porque sou um linguista polaco. Houve
tempos em que se atribuía ao verbo polaco obsceno pierdolić‘lat. futuere →
port. foder' umaorigem ibérica que teria surgido na época napoleónica, quando
soldados polacos participavam na guerra peninsular do lado francês. Mas essa
crença foi sol de pouca dura, já é sábido desde antes de 1939 que se trata duma
etimologia falsa.
Já que estamos com a mão na língua polaca, eis outra referência no DI à família
eslava. O Autor soube relatar corretamente a origem checa de robot, termo
inventado pelo escritor checo Karel Čapek em 1921, apesar da convicção geral
nos países românicos, enfim, na Europa ocidental, que robotvem do russo
(robotaem russo: ‘trabalho', em checo: ‘servidão, trabalho extenuante'; em
polaco: ‘trabalho manual').
Como mesmo numa obra genial se encontram elementos mais fracos, vamos agora
buscar cinco pés ao gato, chercher la petite bête, ou em polaco, na tradução
literal para a língua de Camões, “buscar um pouco de alcatrão num barril de
mel”. “Bonum ex integra causa, malum ex quocumque defectu”, diziam sábios
romanos, observadores do ser humano. Os verbetes que se prestam a alguma dúvida
ou censura são: boche, caralho, charada, chulo, ladrão, totó.
O insulto anti-alemão bochetem pouca chance de vir do francês caboche.Ele vem
antes da abreviação de alboche‘alemão', Allemandcom substituição de uma parte
da palavra pelo chamado sufixo parasita. É sim verdade que a história do termo
remonta ao século XIX (a 1887, segundo o dicionário Lexis). Mais tarde,
surgiram em França outros insultos para ofender alemães: fridolin, fritz,
chleuh, em 1914 e em 1940, e não foi por mero acaso...
Frase feita: Vai para o caralho!– Aqui não tenciono propôr nem emenda nem
censura, mas apenas uma explicação que até parece confirmar uma intuição tímida
do Autor que diz: “Penso que o insulto que consiste em mandar alguém para o
caralhoé um exclusivo ibérico. Não me lembro de nenhum outro idioma para lá dos
Pirenéus que mande alguém... Mas admito que possa estar enganado.” Admite bem,
porque está! A etnia polaca costuma mandar quem nos molesta àquela parte do
corpo; e os russos fazem o mesmo, ainda que mandem com mais frequência para a
cona.È vero, non è mica trovato...
No verbete pessoaesfíngicafala-se em Esfinge, ser mitológico “com corpo felino
e rosto humano, que interpelava os viandantes com uma charada”. Logo o Autor
cita uma pressuposta charada: “Qual o animal que caminha com quatro patas de
manhã, com duas patas ao meio-dia e com três patas de noite?” Ora não é
charada, é uma simples adivinha! A charada é uma adivinha muito especial, um
enigma onde é preciso descobrir uma palavra dividida em sílabas, por exemplo:
“A primeira [sílaba] está na música, a segunda aqui, e o todo na mesa”;
solução: fá + cá + faca(este exemplo vem do dicionário Lello).
Se falarmos de chulo, surge uma dúvida séria quanto à origem do termo, como já
aconteceu no caso de boche. Há vários sinais no céu estrelado que chulo não vem
de fanciullo(‘rapazola' em italiano), mas sim de jules (Jules),‘Júlio' em
francês, onde o sentido de ‘proxeneta' se alargou e, atualmente, jules quer
dizer também ‘amante' e até ‘marido', na generalidade ‘homem na relação com uma
mulher'.
Ladrão. “Em latim o latroera o guarda. (...) Com o passar do tempo, o termo
foi-se deteriorando, passando a designar soldados mercenários.” (pág. 123).
Dicionários de latim, explicativos e bilingues, evidenciam três sentidos de
latro: 1) ‘mercenário', 2) ‘bandido, cangaceiro', 3) ‘caçador clandestino', sem
mencionar ‘guarda'. (Em polaco, latro → łotr‘gatuno, canalha'.)
Totó‘ingénuo e papalvo'. Sérgio Luís Carvalho relata duas hipóteses, uma
italiana e outra francesa, que tocam a origem da palavra. Não tenciono optar
por nenhuma delas. O que parece pouco credível é o verdadeiro nome citado do
famoso ator italiano Totò (1898-1967), que representou em filmes de qualidade
como I soliti ignotie Uccellacci e uccellini.Onde o Autor foi buscar a
informação (p. 194) que Totòchamava-se Antonio Stefano Clemente? Na minha
mocidade era eu “militante” num cineclube académico e já sabia vagamente que
Totò fora aparentado à família imperial bizantina. Eis duas confirmações
ulteriores desta versão. O Dictionnaire du cinéma Larousse: “Totò – Antonio
Furst de Curtis Gagliardi Ducas Comneno di Bisanzio ». O Filmweb, informação
atual em 2014 : « Antonio Griffo Focas Flavio Angelo Ducas Comneno de Curtis di
Biszanzio ( !)”. Isso faz-me pensar em alguns boletins de identidade que vi em
Portugal...
Mesmo se essas dúvidas e propostas de emenda fossem legítimas (e o são na minha
opinião), são detalhes sem maior influência no valor geral do Dicionário de
insultos. O DInão deixa de ser uma obra extremamente interessante e engraçada,
um livro que, apesar de ser um dicionário – coisa para consultar se for preciso
– pode ser lido de uma assentada. Com proveito científico e erudita, e para nos
divertirmos. É um entretenimento espirituoso fora de comum.