Ordem de palavras e polaridade: inversão nominal negativa com algum / alguno e
nenhum
0. Introdução
Este artigo ocupa-se do contraste interpretativo que o par de frases em (1)
ilustra e procura explicar, numa perspetiva formal, diacrónica e comparativa, a
relação entre a posição pré-nominal ou pós-nominal do quantificador indefinido
e a oposição polar positivo/negativo.[1] A análise proposta leva à
identificação de um conjunto de mudanças sintáticas correlacionadas que ocorrem
no português a partir do século XVIII, consolidando-se nos séculos seguintes.
Entre elas está a expansão das estruturas de inversão nominal negativa que, a
par do quantificador indefinido algum, passam a incluir também o quantificador
indefinido nenhum. Daí o paralelismo entre algum e nenhum no que diz respeito,
por exemplo, ao contraste de gramaticalidade entre (2a) e (2b). Em (2a), a
inversão nominal negativa, ou seja, a ordem [N+algum/nenhum], torna possível a
modificação de grau pelo sufixo –íssima, opção excluída em (2b) onde não há
inversão da ordem regular algum/nenhum-N(ome).
(1) a. Algum lugar se parece com este.
b. Lugar algum se parece com este.
(2) a. Ainda não o vi fazer coisíssima {nenhuma/alguma}.
b. *Ainda não o vi fazer {nenhuma/alguma} coisíssima.
A análise formal proposta para integrar os factos descritos apoia-se na ideia
de paralelismo estrutural entre a frase e o sintagma determinante (DP), em
particular no que diz respeito à projeção da categoria funcional NegP.[2]
Assume-se (3a), abaixo, como estrutura básica do DP (cf. Bernstein (1991,
2001), Zamparelli (1995), Heycock e Zamparelli (2000, 2005), Borer (2005),
entre outros), e (3b) como estrutura de um DP com inversão nominal negativa. Em
(3b) a projeção de NegP dentro do DP bloqueia a ocorrência de Pl(ural)P. Que
NegP pode ser parte da estrutura funcional do DP tem sido proposto por vários
autores, com base em diferentes tipos de evidência empírica (cf. Haegeman
(2002), Haegeman e Lohndal (2010), Troseth (2009), Aelbrecht (2012)).
(3) a. [DP [NumP [PlP [NP…
b. [DP [NegP [NumP [NP…
A unidade [N+algum] será caracterizada como um item de polaridade negativa
(IPN) que se forma na sintaxe por incorporação do Nome e do quantificador
indefinido num núcleo negativo nulo, como se exemplifica em (4) abaixo. O
movimento cíclico do nome através da estrutura funcional do DP determina que
este se associe ao quantificador indefinido no caminho para o lugar final de
incorporação.
(4) [DP… [NegP [Neg' [ coisai alguma ]k [NumP [Num' [ coisaialguma ]k [NP
coisai ] ] ] ] ] ]
Mostrar-se-á que o português europeu oferece evidência empírica clara a favor
da análise de [N+algum] como uma unidade, ou seja, um IPN composto na sintaxe.
Numa perspetiva comparativa, a unidade formada pelo nome, o quantificador
indefinido e o núcleo negativo abstrato apresenta no português um nível mais
avançado de gramaticalização do que no espanhol. Por outro lado, a unidade
[N+alguno] do espanhol contemporâneo assemelha-se à unidade [N+algum] do
português dos séculos XVII-XVIII, pelo que a comparação entre as duas línguas
se revela muito interessante numa perspetiva diacrónica.
O artigo está organizado em cinco secções. Na secção 1, descreve-se o
comportamento de [N+algum] relativamente à negação frásica, tomando como termo
de comparação o IPN ninguém, e identificam-se outras propriedades relevantes,
tais como a impossibilidade de pluralização. Além disso, demonstra-se, com base
em argumentos empíricos, que na estrutura invertida o IPN é [N+algum] e não o
quantificador indefinido algum por si (o que significa que algum não é
lexicalmente ambíguo, mas um item de polaridade positiva normal). Mostra-se
também que a unidade [N+algum] partilha um importante conjunto de propriedades
com a unidade [N+nenhum]. O termo inversão nominal negativa é usado para
identificar o processo que leva à formação deste tipo de itens de polaridade
negativa. Todos os dados do português apresentados na secção 1 pertencem à
variedade europeia.[3] Na secção 2 comparam-se o português e o espanhol
contemporâneos relativamente à inversão nominal negativa com algum/alguno e
descrevem-se as semelhanças e diferenças entre as duas línguas. Propõe-se que o
IPN formado por inversão nominal negativa sobe no português para uma posição
mais alta na estrutura funcional do DP do que no espanhol, como se mostra em
(5) e (6) abaixo.[4] Só no português há movimento de Neg para D, o que parece
decorrer de propriedades específicas do núcleo Determinante em português
(propriedades que, historicamente, se terão definido a partir do século XVIII).
Espanhol:
(5) [DP[D' [e] [NegP [Neg' [ animali ]k [NumP alguno [Num' [ animali ]k
[NP animali ] ] ] ] ] ]
Português
(6) [DP[D' [ animali algum ]k [NegP [Neg' [ animali algum ]k [NumP [Num'
[ animalialgum ]k [NP animali ] ] ] ] ] ]
Na secção 3 introduz-se informação de natureza histórica que apoia a análise
proposta. Ao mesmo tempo, mostra-se como a formulação de uma hipótese teórica
(no âmbito de uma análise formal) pode trazer à superfície dados históricos e
correlações diacrónicas que tinham escapado à observação dos historiadores da
língua. A secção 4 conclui o artigo com uma breve referência à evolução
histórica do italiano alcun(o) e do francês aucun de itens de polaridade
positiva para itens de polaridade negativa. Fora do âmbito do presente trabalho
fica o período histórico anterior ao século XVII, que foi estudado em Martins
(2015).
1. Inversão nominal negativa com algum/nenhum em português europeu
No português europeu contemporâneo, o quantificador indefinido algum é um item
de polaridade positiva fraco que parece transformar-se num item de polaridade
negativa forte quando ocorre em posição pós-nominal (uso aqui a tipologia dos
itens de polaridade proposta em Martins (1996, 2000)). Assim, o par algum
animal/animal algum, em (7), exibe o mesmo tipo de contraste interpretativo e
gramatical que o par alguém/ninguém, como exemplificado em (8), ainda que no
segundo caso o par seja constituído por duas palavras antónimas e no primeiro
por duas ordenações diferentes das mesmas palavras.
(7) a. Algum animal vive aqui. [frase declarativa afirmativa]
b. Animal algum vive aqui. [frase declarativa negativa]
(8) a. Alguém vive aqui. [frase declarativa afirmativa]
b. Ninguém vive aqui. [frase declarativa negativa]
No que diz respeito, em particular, à interação com a negação proposicional, a
sequência invertida [N+algum] e as palavras negativas como ninguém apresentam o
mesmo tipo de assimetria entre posição pré-verbal e posição pós-verbal. Quando
em posição pós-verbal, tanto o indefinido negativo ninguém como a sequência
invertida [N+algum] co-ocorrem necessariamente com o marcador de negação
predicativa (exs. (a)-(b) abaixo). Quando em posição pré-verbal, tanto o
indefinido negativo ninguém como a sequência invertida [N+algum] asseguram só
por si a interpretação negativa da frase e não podem co-ocorrer com não (exs.
(c)-(d) abaixo). O paralelismo entre a unidade [N+algum] e a palavra ninguém
relativamente à negação frásica exemplifica-se em (9) e (10). Tal como os
restantes indefinidos negativos (ninguém, nada, nenhum), a unidade [N+algum]
comporta-se como um IPN forte, especificado com o traço [+neg] (cf. Martins
(1996, 2000)).
(9) a. Não vive aqui ninguém.
b. *Vive aqui ninguém.
c. Ninguém vive aqui.
d. *Ninguém não vive aqui.
(10) a. Não vive aqui animal algum.
b. *Vive aqui animal algum.
c. Animal algum vive aqui
d. *Animal algum não vive aqui.
Duas propriedades caracterizadoras da sequência invertida [N+algum] são o
bloqueamento da flexão de número e a obrigatoriedade de adjacência entre o
quantificador indefinido e o nome. Tal como o IPN pronominal ninguém, e em
contraste com o IPN adjetival nenhum, a sequência invertida [N+algum] não
admite pluralização. As frases em (11) mostram que a ordem [N+algum] exclui as
formas do plural, embora algum pré-nominal as admita.
(11) a. *Animais alguns vivem aqui.
b. Alguns animais vivem aqui.
Por fim, os exemplos em (12) revelam a impossibilidade de um complemento
nominal ou um adjetivo ocorrerem entre o nome e algum pós-nominal.
(12) a. *Animal selvagem algum vive aqui.
b. *Animal do deserto algum vive aqui.
Confirma-se assim que a sequência [N+algum] se comporta como uma unidade com
características que a aproximam das palavras negativas de natureza pronominal.
Os factos acima descritos, e ilustrados pelos exemplos (7) a (12), podem ser
derivados a partir da análise estrutural introduzida na secção1 (cf. (3) e (4)
acima). Assim:
(i) A sequência [N+algum] comporta-se como um IPN forte, tal como ninguém,
porque é um IPN formado na sintaxe com o contributo do núcleo negativo abstrato
interno ao DP. O facto de o IPN integrar um nome cria afinidades com os IPNs
pronominais.
(ii) A flexão de plural fica bloqueada quando há formação do IPN por inversão
nominal negativa porque, por hipótese, quando NegP é parte do DP, Pl(ural)P não
é projetado.
(iii) A adjacência estrita entre o nome e algum pós-nominal é o resultado
regular do movimento cíclico através da estrutura funcional do DP.
Seguidamente será apresentada evidência empírica adicional a favor da ideia de
que a unidade [N+algum] é um IPN composto na sintaxe através da incorporação do
nome e do quantificador indefinido num núcleo negativo abstrato interno ao DP.
Como este mecanismo de composição sintática de IPNs pode aplicar-se também ao
quantificador indefinido nenhum, daqui em diante observaremos em paralelo a
inversão nominal negativa com algum e com nenhum. O objetivo será mostrar que a
unidade [N+algum/nenhum], sendo globalmente um IPN, apresenta propriedades
gramaticais e interpretativas que não têm paralelo nas estruturas sem inversão.
A) Pronomes vs. DPs plenos
[N+algum] e [N+nenhum] são admitidos em contextos que requerem quantificadores
pronominais e excluem expressões quantificacionais correspondentes a DPs
plenos, como se exemplifica em (13) através de um par de pergunta e resposta. O
exemplo mostra que “coisa nenhuma/alguma” pode ocorrer no mesmo contexto em que
ocorre o IPN pronominal nada, enquanto “nenhuma/alguma coisa” não é uma opção
adequada no mesmo contexto.
(13) [A] O que é que o teu filho gosta de ler?
[B] a. Ele não lê nada.
b. Ele não lê coisa nenhuma.
c. *Ele não lê nenhuma coisa.
d. Ele não lê coisa alguma.
e. *Ele não lê alguma coisa.
Podemos encontrar o mesmo tipo de contraste fora do contexto de pergunta-
resposta, como ilustrado em (14) e (15). Ou seja, estando disponível um IPN
pronominal, este bloqueia outras alternativas, o que indica que a inversão
nominal negativa com algum/nenhum pode criar um IPN de tipo pronominal.
(14) A: Foi tão antipático!
B: a. Ele não é simpático com {ninguém / pessoa nenhuma /
pessoa alguma}.
b. *Ele não é simpático com {nenhuma pessoa / alguma pessoa}.
(15) a. Não posso testemunhar porque não vi {nada / coisa alguma / coisa
nenhuma}.
b. *Não posso testemunhar porque não vi {nenhuma coisa / alguma coisa}.
As frases em (16) a (18) foram retiradas de textos jornalísticos (opinião/
crónica literária). Em todos os casos a substituição da sequência com inversão
nominal negativa por uma sequência sem inversão produziria ou uma frase com
interpretação diferente (caso de (16)) ou um resultado estranho (caso de (17)),
senão mesmo agramatical (caso de (18)). Na frase (18) é clara a equivalência
entre “nada” e “coisa nenhuma”. Quanto a (17), o inglês nowhere seria uma boa
tradução para o “em parte nenhuma”, que parece assim estar a desempenhar o
mesmo papel que caberia a um advérbio locativo negativo caso o léxico português
dispusesse desse tipo de IPN.[5]
(16) Quando ainda não se sabe ou não se quer discutir coisa alguma.
(Expresso, Miguel Sousa Tavares, 01-11-2014)
(17) Elas falam, digo que sim com a cabeça e não estou. Estou onde? Na varanda
da Beira a olhar a serra, por exemplo. Ou em parte nenhuma, num esconso
interior, sentado no chão, de joelhos na boca, escutando o que não há.
(Visão, António Lobo Antunes, 03-09-2009)
(18) Pelo tom (como se falasse para crianças de cinco anos) e pelo conteúdo
(algures entre o nada e coisa nenhuma). A não repetir, seguramente.
(Expresso, 18-09-2010)
B) Respostas negativas a interrogativas polares
As unidades [N+algum] e [N+nenhum] podem constituir uma resposta negativa
apropriada a uma interrogativa polar em contextos que excluem as sequências não
invertidas. O contraste pode ser explicado sob a perspetiva de que a inversão
nominal negativa junta o quantificador indefinido e o nome numa palavra
negativa singular, através da incorporação de ambos no núcleo negativo
abstrato. Dependendo do grau de vagueza referencial do nome, a palavra negativa
assim formada poderá integrar o paradigma de possíveis respostas polares
negativas num dado contexto. Os exemplos em (19) e (20) mostram o contraste
entre as sequências com e sem inversão.
(19) [A] Vais vender a tua casa?
[B] a. Não.
b. Em circunstância {nenhuma/alguma}.
c. Em caso {nenhum/algum}.
d. Em nenhuma circunstância.
e. Em nenhum caso.
(20) [A] Vais lá amanhã?
[B] a. Não.
b. De maneira nenhuma.
c. De forma alguma
d. De nenhuma maneira.
O exemplo em (21), abaixo, pertence a um texto jornalístico (entrevista) e
evidencia a oposição entre a resposta negativa expressa por “de forma alguma”
(equivalente neste contexto a “não”) e o que seria uma resposta afirmativa
mitigada se substituíssemos a sequência com inversão por de alguma forma. Nesta
última interpretação, forma seria um nome contável, o que se liga aos contrates
entres leituras massivas e contáveis que comentaremos mais adiante. Por esta
razão, mesmo que a resposta incluísse o indefinido negativo nenhum em posição
pré-nominal, não se obteria uma resposta negativa (discordante) clara, mas sim
uma resposta ambígua entre a concordância e a discordância com a proposição
expressa pela pergunta (i.e. “não se devem usar computadores no ensino de
nenhuma forma (de entre as formas possíveis)” ou “não quer dizer, de nenhuma
forma (sob nenhuma interpretação), que não se devem usar computadores no
ensino”).
(21) Quer isto dizer que não se devem usar computadores no ensino? De forma
alguma. Mas quer dizer que as novas tecnologias não são, por si só, solução
para os problemas de aprendizagem. (Expresso, Nuno Crato, 14-07-2010)
C) Negação enfática
As sequências formadas por inversão nominal negativa com nenhum podem funcionar
como itens de reforço da negação enfática expressa por não … nada, o que não é
permitido aos DPs com nenhum pré-nominal, como se vê em (22). Neste caso
[N+algum] também não parece possível, o que talvez se explique por as frases em
(22) serem marcadamente coloquiais e a frequência de uso da inversão nominal
negativa com algum estar em declínio, ao contrário do que acontece com a
inversão nominal negativa com nenhum (cf. secção 3).
(22) A: Já sei que vais vender a casa da tua avó.
B: a. Não vou nada vender a casa da minha avó.
b. Não vou nada vender a casa da minha avó {coisa nenhuma
/ *nenhuma coisa}
c. Não vou nada vender {casa nenhuma/ *nenhuma casa}.
D) Nomes contáveis vs. nomes massivos
A inversão nominal negativa com algum e nenhum interage com a distinção
massivo/contável, parecendo bloquear a interpretação contável, como se
exemplifica em (23) a (25). Este facto pode ser explicado como consequência da
ausência do núcleo Pl(ural) na estrutura do DP quando NegP é projetado. Na
verdade, Borer (2005) considera que os nomes são à partida não especificados
quanto às propriedades massivo/contável e, na ausência de estrutura funcional
acima do NP, são interpretados por defeito como massas. É a presença da
categoria funcional PlP na estrutura do DP que permite dividir a denotação dos
nomes e tornar a interpretação contável acessível.[6] Nas frases em (a), a
posição pré-nominal do quantificador favorece a interpretação contável (que é
interpretativamente inadequada em (25a)), enquanto nas frases em (b) a inversão
da ordem bloqueia a interpretação contável. Recorde-se que, normalmente, o DP
inclui a categoria funcional Pl(ural)P, que deixa de ser projetada apenas
quando NegP ocorre internamente ao DP (cf. (3) acima). Assim, nas frases em
(a), em que não há inversão nominal negativa, PlP é parte da estrutura do DP,
ao contrário do que acontece nas frases em (b).[7]
(23) a. Não vais conseguir chegar de nenhuma maneira. Todos os transportes
estão parados.
b. Não vais conseguir chegar a horas de maneira{nenhuma/ alguma}. Não se fazem
40km em 5 minutos.
(24) [Situação: o meu gato só come peixe e nenhum outro tipo de comida]
a. Há três dias que o gato não come nenhum peixe. Estão todos no
aquário. Finalmente!
b. Há três dias que o gato não come peixe {nenhum/algum}. Temos de levá-lo ao
veterinário.
(25) a. A: Vou sair.
B: Não vais a nenhum lugar, ficas a estudar.
b. A: Vou sair.
B: Não vais a lugar nenhum, ficas a estudar.
Para alguns falantes do português, entre os quais me incluo, a inversão nominal
negativa é obrigatória em frases negativas com nomes não contáveis como
medo,sorte, calor, frio, calma. Daí os contrastes de gramaticalidade entre as
frases (a) e (b) nos exemplos (26) a (28). A frase em (29) pertence a um texto
jornalístico. A frase correspondente sem inversão nominal negativa seria, de
acordo com o meu juízo, agramatical. Uma possível alternativa a (29) seria “…e
eu não queria ter calma!” (sem o quantificador indefinido), mas não “*…e eu não
queria ter nenhuma calma”.
(26) a. Não temos {medo nenhum / sorte nenhuma}.
b. *Não temos {nenhum medo / nenhuma sorte}.
(27) a. Não temos {medo algum / sorte alguma}.
b. *Não temos {algum medo / alguma sorte}.
(28) a. Não está {calor/frio} algum.
b. Não está {calor/frio} nenhum.
c. *Não está nenhum {calor/frio}.
(29) Toda a gente me dizia para ter calma e eu não queria ter calma nenhuma!
(Público, 05-4-2015)
E) Quantificadores graduáveis
Os quantificadores como muitos e poucos admitem modificação de grau (cf. Solt
(2014), por exemplo). Em português, também a palavra negativa nada pode ter
modificação de grau, como se vê em (30), onde se atesta a forma nadíssima.
Paralelamente a nada, nas sequências invertidas [coisa+alguma] e
[coisa+nenhuma], o nome coisa pode ser modificado pelo sufixo superlativo
–íssima, originando coisíssima alguma/coisíssima nenhuma(cf. (31) abaixo),
embora *coisíssima só por si seja agramatical. Crucialmente, a sequência
*nenhuma coisíssima, com nenhum pré-nominal, é fortemente agramatical, como
mostra (32). Estes dados suportam a proposta de que a inversão nominal negativa
dá origem a uma palavra negativa com características próprias, num processo que
altera algumas das propriedades das suas partes constitutivas.
(30) a. E ainda não fez nadíssima! (Google)
b. Acreditem, não quero vender nadíssima a ninguém. (Google)
(31) a. Não me tem doído coisíssima {alguma/nenhuma}.
(CORDIAL-SIN)
b. Não senti dores, não senti nada. Não senti coisíssima nenhuma.
(CORDIAL-SIN)
(32) *Não me tem doído nenhuma coisíssima.
2. Inversão nominal negativa com algum/alguno em português e em espanhol
(estrutura funcional do DP e gramaticalização)
Para além do português, também o espanhol permite a inversão nominal negativa
com alguno, como se exemplifica em (33).[8] Além disso, o contraste de
gramaticalidade entre as frases (a) e (b) de (34) mostra que, tal como no
português, a flexão de plural é bloqueada nas estruturas com inversão, i.e.
[N+alguno].
(33) a. No he visto película alguna esta semana.
b. La asemblea no planteó problema alguno a la propuesta.
(34) a. No hay solución alguna para esse dilema.
b. *No hay soluciones algunas para ese dilema.
Apesar desta proximidade, a inversão nominal negativa com algum/alguno não tem
as mesmas propriedades nas duas línguas As frases em (35) e (36) mostram que,
no espanhol, a sequência invertida [N+alguno] precisa de ocorrer sob o escopo
da negação para ser legitimada. O IPN [N+alguno] não pode ocorrer antes do
verbo e exige sempre a presença do marcador de negação predicativa ou de um
outro operador que crie o contexto negativo apropriado.[9] Neste aspeto, o
espanhol contrasta com o português. Assim, as frases (35b) e (36b) são
agramaticais no espanhol, mas as frases que lhes correspondem em português são
uma opção gramatical.
(35) a. No fue necesaria ayuda alguna.
b. *Ayuda alguna fue necesaria.
(36) a. No vive aquí persona alguna.
b. *Persona alguna vive aqui.
As restrições de posicionamento na frase de [N+alguno], em espanhol, evocam a
distribuição sintática dos nomes nus (i.e. sem determinante visível), que tal
como [N+alguno] ocorrem tipicamente em posição pós-verbal nas línguas
românicas. A análise de Longobardi (1994) para os nomes nus sugere uma hipótese
para dar conta das diferenças entre o espanhol e o português relativamente à
inversão nominal negativa. A distribuição sintática mais limitada do espanhol
[N+alguno], em contraste com o português [N+algum], pode ser consequência da
necessidade de legitimar o núcleo D nulo na estrutura em (37). Uma vez que o
português escapa às restrições de posicionamento na frase que se observam no
espanhol, isso indicará que no português há movimento sintático de Neg para D,
ou seja, há incorporação da unidade [N+alguno] no núcleo D(eterminante). Logo,
deixa de ocorrer na estrutura um núcleo D nulo, como se mostra em (38).
Espanhol:
(37) [DP[D' [e] [NegP [Neg' [ animali ]k [NumP alguno [Num' [ animali ]k
[NP animali ] ] ] ] ] ]
Português
(38) [DP[D' [ animali algum ]k [NegP [Neg' [ animali algum ]k [NumP [Num'
[ animalialgum ]k [NP animali ] ] ] ] ] ]
Esta hipótese parece capaz de explicar um outro facto. O espanhol também difere
do português na medida em que [N+alguno] pode ser legitimado nos chamados
“contextos negativos fracos” (Zwart (1996, 1997)) ou “contextos modais” (Bosque
(1996)), como se ilustra a seguir. Na frase (39a) a sequência invertida é
legitimada pelo operador temporal antes de, em (39b) pelo verbo de proibição e
em (39c) pela subordinada comparativa. Estes exemplos mostram que [N+alguno] é
um IPN fraco no espanhol, podendo por isso ocorrer em contextos modais. No
português, por outro lado, [N+algum] é um IPN forte e ocorre estritamente em
frases negativas (podendo ser o único elemento visível que exprime a negação).
Por isso as frases correspondentes a (39a-c) são agramaticais no português. Nos
mesmos contextos, o português permite apenas sequências sem inversão (com algum
ou qualquer), como se mostra em (40). Nas frases de (40), algum tem o
comportamento regular dos itens de polaridade positiva fracos, que podem ser
legitimados tanto em contextos afirmativos (assertivos) como em contextos
modais.[10] Retomando a ideia de que a inversão nominal negativa envolve um D
(eterminante) nulo no espanhol mas não no português, podemos admitir que um IPN
formado na sintaxe com movimento de Neg para D (o que acontece apenas no
português) é necessariamente um IPN forte. Esta proposta está de acordo com a
análise da estrutura do DP elaborada por Zamparelli (1995), que associa a
categoria funcional mais alta no domínio do DP com os quantificadores fortes.
(39) a. Durante la peregrinación, constantemente nos sacábamos nuestros
zapatos (…) antes de entrar a lugar alguno [sagrado]. (Google)
b. Jamás mi país le ha prohibido a nadie que viaje a lugar alguno
que desee. (Google)
c. Una comedia cuyos personajes se vistan a este modo tendrá,
por mala que sea, más entradas que otra alguna. (Google)
(40) a. Durante a peregrinação constantemente tirávamos os sapatos
antes de entrar em {*lugar algum / algum lugar} sagrado.
b. Nunca o meu país proibiu a alguém que viaje para {*lugar
algum / algum lugar / qualquer lugar} que lhe agrade.
c. Uma comédia cujos personagens se vistam dessa maneira terá,
por má que seja, mais público do que {*outra alguma /
qualquer outra}.
O espanhol também difere do português porque a inversão nominal negativa com
alguno não implica sempre adjacência estrita com o nome. Os modificadores
preposicionais não podem intervir entre o nome e o quantificador indefinido,
como se vê em (41). Mas os adjetivos avaliativos podem intervir e os adjetivos
relacionais ocorrem obrigatoriamente entre o nome e alguno, como se mostra
respetivamente em (42) e (43). No português, qualquer modificador do nome só
poderá posicionar-se depois da unidade [N+algum], como se exemplifica em (44).
É possível derivar o contraste entre o espanhol e o português se considerarmos
que o espanhol alguno é inserido na posição de especificador de NumP, e não na
posição de núcleo (ou seja, é um XP, não um X0), não sendo por isso afetado
pelo movimento cíclico do nome através da estrutura funcional do DP. Comparem-
se (37) e (38) acima.
(41) a. No conozco libro alguno de matemáticasque discuta este teorema.
b. *No conosco libro de matemáticas alguno que discuta este teorema.
(42) a. No asistí a conferencia alguna interesante.
b. No asistí a conferencia interesante alguna.
(43) a. *No hay avería alguna eléctrica en este barrio.
b. No hay avería eléctrica alguna en este barrio
(44) E não há “paciência” para quem não pensa assim e não consegue ver o que
ele enxerga ao longe, se bem que sustentado em facto algum relevante.
(Expresso, Miguel Sousa Tavares, 1-11-2014)
Os factos acima descritos, a par da total exclusão do correlato de coisíssima
nenhuma no espanhol, sugerem que a inversão nominal negativa não envolve, nesta
língua, incorporação conjunta do nome e do quantificador indefinido em Neg, nem
o subsequente movimento para o núcleo D. Ou seja, em espanhol a sequência
[N+alguno] apresenta um grau mais baixo de gramaticalização do que em
português. Deste modo, a estrutura (37), acima, parece ser a análise mais
adequada para o espanhol, enquanto que no português a inversão nominal negativa
corresponderá à estrutura em (38). Numa perspetiva diacrónica, e quando vistas
lado a lado, as duas estruturas aparecem como um caso típico de reanálise
ascendente (upward reanalysis) ao longo da hierarquia funcional, no sentido de
Roberts e Roussou (2003), como se indica em (45).
(45) a. Português dos séculos XVII-XVIII (igual ao espanhol)
[DP[D' [e] [NegP [Neg' [ animali ]k [NumP algum [Num' [ animali ]k
[NP animali ] ] ] ] ] ]
b. Português a partir do século XVIII (a inovação separa o
português do espanhol)
[DP[D' [ animali algum ]k [NegP [Neg' [ animali algum ]k [NumP [Num'
[ animalialgum ]k [NP animali ] ] ] ] ] ]
Na próxima secção comprovaremos que antes de ocorrer o processo de reanálise
que originou a estrutura em (45b), a inversão nominal negativa com algum/alguno
tinha propriedades semelhantes no português e no espanhol. Ou seja, as duas
línguas divergiram apenas quando o português evoluiu para além do estádio que o
espanhol ainda mantém. Por outro lado, veremos que a coincidência cronológica
entre a evolução de [N+algum] e outras mudanças sintáticas ocorridas no domínio
do DP, em português, constitui boa evidência em apoio da proposta de análise
desenvolvida neste trabalho.
3. Mudança sintática no português moderno: evidência histórico-comparativa e
correlações cronológicas
Nesta secção, começarei por mostrar que nos séculos XVII-XVIII o português se
comportava como o espanhol nos seguintes aspetos: (i) [N+algum] era legitimado
no escopo da negação, ocorrendo normalmente em posição pós-verbal; (ii) era
possível a legitimação da inversão nominal negativa em contextos modais (também
chamados “contextos negativos fracos”); (iii) a adjacência entre o nome e algum
não era obrigatória; (iv) coisíssima alguma não ocorria. De seguida, veremos
que é possível identificar uma correlação de mudanças no domínio do DP quando o
movimento de Neg para D emerge no português nas estruturas de inversão nominal
negativa, ou seja, quando tem lugar a última etapa do processo de
gramaticalização de [N+algum].
No Corpus do Português não foi possível encontrar nenhum exemplo de [N+algum]
na posição canónica de sujeito ou em qualquer outra posição fora do escopo da
negação ao longo do século XVII. Raros exemplos aparecem no século XVIII. É
necessário esperar pelo século XIX para se encontrarem facilmente atestações da
inovação. Os dados registados no diário do Conde da Ericeira,[11] que cobre o
período de 1729 a 1737, apontam no mesmo sentido, mostrando que na primeira
metade do século XVIII a evolução divergente do português relativamente ao
espanhol ainda não era visível. Há 57 ocorrências de algum pós-nominal no
diário (num total de 1.064 ocorrências de algum) mas não há um único exemplo de
[N+algum] senão na posição de complemento verbal sob o escopo da negação.
Em (47) e (48), abaixo, apresento exemplos da inovação que transformou
[N+algum] num IPN forte, o que determinou que passasse a poder ocorrer fora do
escopo da negação, a anteceder o verbo, quer na função de sujeito, como em
(48a-b), quer como complemento anteposto, como em (47) e (48c). O exemplo (47)
é uma das raras atestações da inovação no século XVIII. Quanto à possibilidade
de modificação de grau, as primeiras atestações de coisíssima alguma são do
século XIX, e estão exemplificadas em (49).
Século XVIII (Corpus do Português):
(47) Coisa algumahá mais deliciosa que a sua alegria, nem mais penetrante que a
sua ternura.
Século XIX (Corpus do Português):
(48) a. Namorado algum, dos mais ardentes, palpitou com tanta febre
no antegozo de uma aventura.
b. Coisa alguma escapou!
c. Em época alguma tinham os criados conhecido Maurício tão caseiro.
Século XIX (Corpus do Português):
(49) a. Nunca recebi favor do Sr. D. Pedro II, nem ele me deve
coisíssima alguma.
b. Não preciso dela para coisíssima alguma.
Antes de ocorrer a mudança que deu à inversão nominal negativa com algum as
características que tem no português contemporâneo, o IPN [N+algum] podia ser
legitimado em contextos modais, como se mostra em (50) com um verbo de
proibição e uma oração temporal introduzida por antes de. Além disso, a
adjacência entre o nome e algum não era obrigatória, como revelam as frases em
(51). O exemplo (51c) pertence ao século XIX, o que não nos deve surpreender
pois o surgimento de uma inovação não significa a sua imediata difusão a toda a
comunidade de falantes.[12]
(50) a. ali se defende que pessoa alguma compre trigo (…) para (…)
vender
b. Os admitidos antes de auerem cousa alguma darão fianças
(Corpus do Português, século XVIII)
(51) a. não acharão … qualidade pessoal alguma mais que estas
(Corpus do Português, século XVII)
b. não havendo comércio interno algum em Portugal
(Corpus do Português, século XVIII)
c. sem … elegância moderna alguma
(Corpus do Português, século XIX)
Para concluir esta secção serão identificadas as mudanças gramaticais que
parecem estar relacionadas com a alteração da configuração estrutural da
inversão nominal negativa com algum. Essas mudanças são: (i) o aumento
acentuado da frequência da inversão com nenhum; (ii) a substituição de algum e
nenhum como pronomes com o traço [+hum] por alguéme ninguém; (iii) a
generalização do uso do artigo definido antes de possessivo. Também a evolução
que transformou os indefinidos negativos nenhum, nada, ninguém em IPNs fortes,
sem possibilidade de legitimação em contextos modais, provavelmente coincide
cronologicamente com as outras mudanças aqui consideradas. Mas deixarei essa
matéria fora do presente artigo.
A) Nenhum pós-nominal
A partir do século XIX, há um aumento surpreendente da frequência de nenhum
pós-nominal no português europeu. Tomando como referência o Corpus do
Português, de um total de 16% de ocorrências no século XVIII, a proporção da
colocação pós-nominal de nenhum sobe para 43% no século XIX e aproxima-se dos
50% no século XX. A frequência de [N+nenhum] atinge os 68% no corpus FLY, um
corpus de cartas pessoais escritas no contexto de guerra, migração, prisão e
exílio, e é superior a 90% no corpus dialetal CORDIAL-SIN. Os dados extraídos
do Corpus do Português e do corpus FLY são apresentados nos quadros 1 e 2
abaixo. Estes dados parecem indicar que na etapa final do processo de
gramaticalização, a inversão nominal negativa se alargou de algum a nenhum.
Nessa altura, a sequência invertida [N+nenhum] torna-se uma opção não marcada e
passa a exibir, em paralelo com [N+algum], os efeitos morfológicos e semânticos
descritos na secção 1. Numa possível interpretação dos dados empíricos, o
processo de inversão nominal negativa será uniforme, sendo a diferença entre
[N+algum] e [N+nenhum] superficial. Concretamente, a diferença resultaria de no
primeiro caso o núcleo Neg não ter expressão fonológica (sendo um núcleo
abstrato/nulo), enquanto no segundo caso os traços do núcleo Neg se realizariam
sob a forma de um morfema negativo ligado ao quantificador indefinido (o que,
note-se, só é possível na estrutura inovadora (45b), na qual o quantificador
indefinido está incorporado em Neg). Se esta hipótese, que deixo para futuro
desenvolvimento, puder ser confirmada, indicará que na origem do aumento de
frequência de [N+nenhum], em português, está a mudança morfofonológica que
permitiu ao núcleo Neg, interno ao DP, ter realização visível. Esta mudança
tornou-se possível apenas quando o quantificador indefinido passou a
incorporar-se em Neg juntamente com o nome (compare-se (45a) com (45b),
acima)).
QUADRO 1: nenhum e algum pós-nominais no Corpus do Português
_______________________________________________________________
|_______________|NENHUM_________________|ALGUM__________________|
|_______________|Pré-nomina|Pós-nomina|Pré-nomina|Pós-nomina|
|Século_XVIII__|325________|63_–_16%_|2220_______|391_–_15%|
|Século_XIX____|676________|504_–_43%|8726_______|1152_–_12|
|Século XX |1250 |1066 – 46|9821 |812 – 8% |
|(Port._europeu)|___________|___________|___________|___________|
QUADRO 2: nenhum pós-nominal no corpus FLY –
Forgotten Letters Years 1900-1974
_______________________________________________________
|Português_europe|Nenhum_pré-nomina|Nenhum_pós-nomina|
|Século_XX_______|40________________|85_–_68%________|
O espanhol não se comporta como o português relativamente à possibilidade de
inversão da ordem com nenhum/ninguno. O quadro 3 mostra valores quantitativos
baixos para ninguno pós-nominal em espanhol, e com tendência a decrescer ao
longo do tempo, em contraste com os dados quantitativos do português revelados
pelos quadros 1 e 2. A emergência da inversão nominal negativa com nenhum
tornou esta nova opção extremamente comum e natural no português,
diferenciando-o do espanhol. Comum às duas línguas é o decréscimo da frequência
de [N+algum/alguno].
QUADRO 3: ninguno e alguno pós-nominais no Corpus del Español
____________________________________________________________
|____________|NINGUNO/NINGÚN________|ALGUNO/ALGÚN__________|
|____________|Pré-nomina|Pós-nomina|Pré-nomina|Pós-nomina|
|Século_XVII|1206_______|235_–_16%|3239_______|879_–_21%|
|Século_XVII|1553_______|135_–_8%_|4605_______|2107_–_31|
|Século_XIX_|3587_______|539_–_13%|6066_______|2608_–_30|
|Século_XX__|3636_______|100_–_3%_|5232_______|677_–_12%|
Em espanhol, ninguno pós-nominal é uma opção marcada, correspondendo a um caso
de extraposição com valor enfático (já que a extraposição cria uma configuração
de focalização do quantificador indefinido). A demonstrá-lo está não só a
evidência quantitativa mas também o facto de a inversão da ordem de palavras
com ningunonão ter no espanhol o tipo de efeitos morfológicos e semânticos que
observámos para o português e estão descritos na secção 1. As diferenças entre
o espanhol e o português quanto à posição de nenhum/ninguno relativamente ao
nome estão exemplificadas em (52) a (54). O contraste de gramaticalidade entre
(54b) e (54c), em espanhol, é particularmente revelador de que a inversão de
ninguno é estruturalmente diferente da inversão de alguno. A primeira
corresponde a um tipo de extraposição e não a inversão nominal negativa, pelo
que a sequência en tiempo ninguno não se comporta como um IPN equivalente a
nunca, jamás.[13]
(52) Espanhol | Português
A: Vas allá mañana? | A: Vais lá amanhã?
B: a. *De manera ninguna. | B: a. De maneira nenhuma.
b. De ninguna manera. | b. De nenhuma maneira.
(53) Espanhol Português
a. No tenemos ningún miedo. | a. *Não temos nenhum medo.
b. No tenemos miedo ninguno. (enfático) | b. Não temos medo nenhum.
(54) Espanhol Português
a. Nunca, jamás, en ningún tiempo. | a. *Nunca, jamais, em nenhum tempo.
b. *Nunca, jamás en tiempo ninguno. | b. Nunca, jamais, em tempo nenhum.
c. Nunca, jamás, en tiempo alguno. | c. Nunca, jamais, em tempo algum.
B) A substituição dos pronomes algum, nenhum por alguém, ninguém
Os pronomes alguém e ninguém estão atestados no português desde o século XIII.
No entanto, ocorrem pouco nos textos medievais, sendo aí preferidas as palavras
algum e nenhum, com valor pronominal e o traço [+humano], como ilustrado em
(55) e (56).[14]
(55) a. eu digo aqui perante vós que sse hi há algũu que me diga que
eu errei ou fiz algũua cousa contra serviço d'el-rrei meu senhor,
que eu lhe farei conhecer que nom disse nem diz verdade
b. e foi alli preso Garcia Rrodriguez, meirinho-moor d'el-rrei
dom Fernando, sem mais prisom d'outra pessoa nem morte
d'algũu d'hũua parte nem da outra
c. e posto que algũus digam que el nom tomou em esta guerra se
nom titulo de vingador da morte d'el-rrei dom Pedro seu primo,
esto nom foi d'esta guisa
(Fernão Lopes, Crónica de Dom Fernando. Macchi (1975))
(56) a. como assi seja que na morte do filho nẽhũu pode sentir moor
dor que o padre
b. Eu, todo o que fize, tiinha rrazom de o fazer; e que mais fezera,
nẽhũu m'o deve teer a mall
c. e depois soube el-rrei quanto elles fezerom por se defender
e que nom eram em culpa, e perdohou-lhe o erro em que nom
cahirom, e ouve-os por bõos e por leaaes, e mandou que lh'o
nom lançasse nẽhũu em rrostro.
(Fernão Lopes, Crónica de Dom Fernando. Macchi (1975))
A substituição do pronome algum por alguém e do pronome nenhum por ninguém
acontece no português moderno (as gramáticas históricas colocam-na depois do
século XVI, sem oferecerem uma cronologia precisa). Os dados quantitativos
apresentados no quadro 4 indicam um aumento significativo das ocorrências de
alguém e ninguéma partir do século XVIII, o que coincide com a cronologia das
outras mudanças discutidas nesta secção.[15] A substituição ao longo do tempo
dos pronomes algum/nenhum, com o traço [+hum], por alguém/ninguém pode
assinalar que algum e nenhum se tornaram formas fracas, no sentido de
Cardinaletti e Starke (1999).[16] Isto estaria de acordo com a hipótese de que
a mudança estrutural que conduziu ao reforço do grau de gramaticalização da
sequência invertida [N+algum] passa pela transformação de algum de projeção
máxima (XP) em núcleo (Xº),[17] com as consequências apontadas na secção 2 (cf.
(45a-b) acima).
QUADRO 4: algum/alguém e nenhum/ninguém no Corpus do Português
________________________________________________
|____________|ALGUM_vs._ALGUÉ|NENHUM_vs._NINGUÉ|
|____________|Algum|Alguém___|Nenhum|Ninguém___|
|Século_XVII|1596_|172_–_10|949___|494_–_34%|
|Século_XVII|1466_|417_–_22|494___|370_–_43%|
|Século_XIX_|5038_|1564_–_2|2150__|4729_–_69|
|Século_XX__|4361_|3275_–_4|3628__|6775_–_65|
C) O artigo definido antes de possessivo
A presença do artigo definido antes de possessivo pré-nominal é quase
obrigatória no português europeu, mas esta situação definiu-se tarde na
história do português. A figura 1, extraída de Rinke (2010), representa a
progressão ao longo do tempo do uso do artigo definido antes de possessivo. O
diagrama mostra que no século XIII o uso do artigo definido antes de possessivo
é infrequente e assim se mantém até ao século XVII. Só a partir do século XVIII
é possível observar um aumento significativo do emprego do artigo definido em
sintagmas nominais possessivos. No século XIX, o uso do artigo definido
generaliza-se. De novo a cronologia da mudança identifica os séculos XVIII e
XIX como período crítico. A coincidência cronológica estabelece portanto uma
primeira ligação com os outros casos previamente considerados. Acresce que se
trata de uma mudança no domínio do DP e possivelmente centrada na categoria D
(eterminante). Tanto Rinke (2010) como Brito (2014) sugerem que a natureza dos
possessivos não mudou ao longo do tempo, mudou sim a natureza do núcleo D
(eterminante) que, em muitos casos, passou a exigir ter realização fonológica.
A presença do artigo definido antes de possessivo satisfaz esse requisito, já
que o artigo definido preenche o núcleo D. O movimento de Neg para D na
inversão nominal negativa é uma outra forma de satisfazer a mesma condição. Uma
e a outra mudança manifestam-se a partir do século XVIII e difundem-se no
século XIX.
4. Conclusão
Neste trabalho propõe-se que nas estruturas com inversão nominal negativa
[N+algum] é um IPN formado na sintaxe através da incorporação do nome e do
quantificador indefinido num núcleo negativo nulo, conforme se mostra em (57):
(57) [DP[D' [ animali algum ]k [NegP [Neg' [ animali algum ]k [NumP [Num'
[ animalialgum ]k [NP animali ] ] ] ] ] ]
A análise é suportada por evidência comparativa e diacrónica, permitindo
compreender o modo como o espanhol e o português divergiram ao longo do tempo
quanto à inversão nominal negativa com algum/alguno. Permite ainda estabelecer
correlações entre um conjunto de mudanças, no domínio do DP, que se manifestam
no português a partir do século XVIII.
A hipótese de que um IPN pode ser formado na sintaxe com o contributo de um
núcleo negativo, abstrato, interno ao DP, pode ajudar-nos a explicar o percurso
evolutivo que transformou o francês aucun e o italiano alcun(o) de itens de
polaridade positiva (IPP) em itens de polaridade negativa (IPN). Relativamente
ao italiano, é muito significativo que a forma do plural alcuni (‘alguns')
tenha mantido o valor original de IPP, enquanto a forma alcuno (‘nenhum')
evoluiu diacronicamente para um IPN. Uma vez que a inversão nominal negativa
bloqueia a flexão de plural, este é um resultado esperado se admitirmos a
hipótese de que o IPN lexical alcuno passou por um estádio evolutivo em que
integrava um IPN composto na sintaxe. O IPN aucun do francês contemporâneo não
tem flexão de número. Na perspetiva de que a transformação de um IPP em IPN, no
plano lexical, pode fazer-se através de uma etapa de construção sintática do
IPN, há outros factos interessantes no desenvolvimento diacrónico de aucun.
Déprez e Martineau (2003) mostram-nos que no francês do século XVI aucun
adquire uma interpretação negativa sobretudo quando está em posição pós-
nominal, e mostram-nos ainda que o singular favorece e o plural desfavorece
essa mesma interpretação. Na hipótese de o francês do século XVI admitir a
inversão nominal negativa com aucun, estes factos são esperados.
A observação das propriedades gramaticais e evolução diacrónica de [N+algum] no
português permite-nos, assim, reapreciar outros casos de evolução de itens de
polaridade nas línguas românicas, estabelecendo uma nova hipótese para o
percurso evolutivo de IPPs que se tornaram IPNs.