Morfossintaxe em Fernão de Oliveira (1536)
0. Introdução
Num trabalho anterior (Barroso, 2013), dedicado exclusivamente ao tratamento do
léxico e da interação da subcomponente morfológica de formação de palavras com
esta componente da gramática do português do séc. XVI, levado a cabo por Fernão
de Oliveira na sua Grammatica, deixei expresso o compromisso,[1] por forma a
que ficasse completa a descrição da componente morfológica, de tratar, tão cedo
quanto possível, da interação da subcomponente que se ocupa da combinação de
radicais/temas e propriedades morfossintáticas com a sintaxe. Aquela descreve
os processos morfológicos implicados na criação neológica, ou seja, a afixação
e a composição; esta, por seu turno, o processo morfológico responsável pelas
variações próprias de uma classe de palavras considerada no seu todo, isto é, a
flexão.[2]
Assim, ao efetivar este compromisso, concluo também esta espécie de revisitação
– munido, todavia, de uma ferramenta moderna e atualizada – às componentes da
gramática do português de Quinhentos, descritas efetivamentepelo nosso autor na
sua Grammatica da Lingoagem Portuguesa, a saber: a fonológica, a lexical e a
morfológica ou, se se preferir (à parte a fonológica,[3] e considerando esta
propriedade de a morfologia interagir com as demais), a morfolexical, a
morfossintática e, ainda, a morfofonológica.
Vejamos, então, o tratamento que Fernão de Oliveira dá à gramática em sentido
restrito, ou seja, à morfossintaxe. Antes de mais, porém, deve sublinhar-se que
também nesta área foi pioneiro e original, propriedades destacadas já por
Coseriu (2000: 50), nestes termos:
[…]. Mas, mesmo nesse tratamento tão sucinto, pode notar-se o seu
esforço no sentido de se libertar dos esquemas da gramática latina e
de delimitar como tais as categorias gramaticais que funcionam em
português. E devemos dizer que consegue traçar em poucas páginas uma
gramática portuguesa, em grande parte independente dos modelos
latinos.
É, portanto, de morfologia flexional, essencialmente, que se vai tratar nas
páginas que se seguem. E, como é óbvio, relativamente ao português dos inícios
do séc. XVI, época em que Oliveira viveu, escreveu e publicou o texto cujos
capítulos XLIII a XLVIII estão sob escopo neste ensaio, por ser aí precisamente
que trata desta matéria.
O conceito de gramática descritiva revelado nesta secção da Grammatica é uma
nota inequívoca da sua independência em relação ao(s) modelo(s) latino(s),
senão observemos:
Não dizemos aind'agora neste lugar nem livro que cousa é artigo, nem
tão-pouco mostramos qual oficio tem, porque aqui não falamos senão
das formas ou figuras das vozes ou dições; e para isto só abasta
saber que os artigos, na nossa lingua, diversificam ou variam a forma
de sua voz em generos, numeros e casos. (Oliveira, 2000 [1536]: 140-
141)[4]
Do exposto fica, pois, claro que Oliveira prescinde das definições das
categorias (bem como das suas funções), limitando-se apenas a identificar e a
descrever as formas que as expressam. Diz isto, acabámos de o verificar, a
propósito do artigo. Mas volta a fazê-lo, e de modo ainda mais explícito, no
capítulo seguinte, ao tratar “dos nomes e seu genero” (Oliveira, 2000 [1536]:
145):
Não dixemos aqui quantos nem quaes eram os generos dos nomes, nem
tão-pouco que cousa é nome, como também fezemos aos artigos e faremos
nos verbos, porque do intento desta parte da grammatica que agora
tratamos não é mais que só dar noticia das vozes, e não difinções ou
determinadas declarações das cousas.
Não só por a terminologia oliveiriana estar em parte (de qualquer modo, menos
do que noutras secções) desatualizada (o que não causa estranheza), mas também
por isso, e ainda para se entender de modo cabal o que quis dizer quando
escrevi, acima, “munido de uma ferramenta moderna e atualizada” – deve ficar já
explicitado –, esta reflexão tem como marco de referência teórico os trabalhos
de Aronoff & Fudeman (2011), Acquaviva, (2008) e especialmente Booij (2012)
e, no que à descrição do português diz respeito, entre vários outros que aqui
também poderiam constar, Câmara (1980), Carone (1986), Zanotto (1986), Azuaga
(1996), Villalva (2003, 2008), Casanova (2009) e Rosa (2013).
1. Classes de palavras
Inversamente à prática corrente – até porque na tradição greco-latina se
assumia como uma das funções típicas desta componente da gramática –, Oliveira
não teoriza sobre as ‘classes de palavras'[5] ou, usando uma terminologia que
atravessou séculos, ‘partes da oração' ou, ainda, ‘partes do discurso', que
foram sendo delimitadas, estabelecidas e classificadas ao longo de um largo
período de tempo, antes do seu e que continuou até à atualidade.
Das oito classes de palavras da tradição gramatical latina (nome, pronome,
verbo, advérbio, particípio, conjunção, preposição e interjeição), Oliveira
menciona (porque não trata, insisto) aquelas que são passíveis de maior
variação flexional, a saber e nas suas próprias palavras (último parágrafo do
capítulo XLII): “Despois que dissemos em comum o que se nos ofereceo nesta
declinação natural, vejamos particularmente dos artigos,[6] nomes e verbos,
cuja é esta mais propria.” (Oliveira, 2000 [1536]: 140). Para além destas três,
refere uma outra: a dos pronomes – fazendo-o de novo num ápice e na sequência
de uma brevíssima reflexão sobre “o estado das cousas e dos casos” ou, numa
terminologia de hoje, sobre papéis temáticos (ou semânticos) e funções
sintáticas (ou relações gramaticais).
Por não ser objetivo desta sua obra teorizar sobre as classes (e subclasses) de
palavras, mas tão-só descrever as formas resultantes da flexão (ou, na sua
terminologia, declinação natural), não é pois de estranhar que apenas se lhes
refira quando procede à inventariação das respetivas formas e, por
consequência, negligencie ou remeta para um segundo plano as que não são
afetadas por tal fenómeno linguístico. De qualquer modo, mesmo que
indiretamente, seja nesta secção seja noutras, Oliveira não esquece – se estive
atento – nenhuma classe.
Nome, adjetivo, verbo, advérbio, interjeição (classes abertas), pronome,
determinante, quantificador, preposição e conjunção (classes fechadas) são as
classes de palavras que o Dicionário Terminológico regista. Vejamos agora, a
esta luz, o que se passa em Oliveira.
1.1. Classes abertas
No que às classes abertas diz respeito, não falta nenhuma. Desde logo, o nome e
o verbo, pois dedica-lhes (melhor: às suas formas, como se vai poder ver na
secção em que me ocupo das categorias morfossintáticas), respetivamente, os
capítulos XLIV-XLV e XLVII-XLVIII.
No nome, distingue as subclasses substantivo e adjetivo (hoje, duas classes
autónomas), comum e próprio, para além de outras relacionadas com a formação de
palavras (diminutivo e aumentativo, verbal e denotativo); e, no verbo, apenas
as subclasses pessoal e impessoal. Isto pode confirmar-se, praticamente por
inteiro, neste excerto (Oliveira, 2000 [1536]: 134):
E portanto os nomes se conhecem dos verbos e os verbos com os nomes
das outras partes, porque são diferentes huns dos outros, e os nomes
se conhecem por outros nomes, e os verbos por outros verbos, porque
são em alghũa cousa e voz semelhantes cada parte destas com as outras
do seu género; e contudo não tanto que não tenham alghũas miudezas
diferentes ou diferencias mais meudas e particulares, como o nome ser
comum ou próprio, ajetivo e substantivo, e o verbo pessoal ou
impessoal.
O advérbio, porque não é uma classe sensível à variação flexional, não é
referido nesta secção, mas noutra dedicada à formação dos advérbios em -mente,
e nestes termos (Oliveira, 2000 [1536]: 140):
Na declinação natural, onde falamos das dições tiradas podemos também
meter os averbios, os quaes, quando são tirados, polla maior parte ou
sempre acabam em mente, como compridamente, abastadamente, chammente;
e porém ha hi muitos que não são tirados, como antes, despois,
asinha, logo, cedo, tarde.
Por fim, a interjeição, que rigorosamente não constitui uma autêntica classe de
palavras por não estabelecer relações sintáticas com outras (palavras), está
documentada, por exemplo, nesta passagem (Oliveira, 2000 [1536]: 98): “[…]. Mas
antre nós eu não vejo alghũa vogal aspirada, se não é nestas interjeições uha e
aha e nestoutras de riso ha-ha, he, ainda que não me parece ese bo riso
português, posto que o assi escreva Gil Vicente nos seus Autos.”
1.2. Classes fechadas
No que concerne às classes fechadas, a afirmação de que não falta nenhuma, como
se fez para as abertas, já não pode ser tão perentória. Pelo menos assim, tout
court. Ora, vejamos.
Tratadas de facto (e só as suas formas, é claro), nesta secção, foram-no apenas
o artigo e o pronome, respetivamente, nos capítulos XLIII e XLVI. Em rigor:
daquele, as formas do artigo definido e, deste, algumas formas do pronome
pessoal.
O artigo não existia em latim, mas em grego, pelo que é uma novidade
oliveiriana a sua consideração como classe autónoma em português (hoje, é uma
subclasse do determinante). Quanto às suas formas, eis o que escreve Oliveira
(2000 [1536]: 140-141): “[…] os artigos, na nossa lingua, diversificam ou
variam a forma de sua voz em generos, numeros e casos. Em generos, como o e a;
e em numeros, como os e as; e em casos, como o, do, ò [ao], o; a, da, à, a; os,
dos, òs [aos], os; as, das, às, as.”[7]
Relativamente ao pronome, para além do que já se disse, praticamente nada mais
há a acrescentar, a não ser as formas, reportadas deste modo por Oliveira (2000
[1536]: 150): “E contudo nós também temos casos em três pronomes, os quaes são
eu, me, mi, tu, te, ti, se, si.”
A preposição e a conjunção, um pouco à semelhança do advérbio, e de modo
particular por carecerem absolutamente de estrutura morfológica, não são aqui
tidas em consideração. Porém, menciona-as, quando escreve (Oliveira, 2000
[1536]: 124), por exemplo, “[…], e muitas conjunções e preposições e averbios e
outras partes, assi das que eles dizem que se não declinam como também das
declinadas, ora sejam artigos ou quaesquer outras.”, e também (Oliveira, 2000
[1536]: 142) “[…]. Mas as primeiras partes daqueles ajuntamentos a em ao, e
para em parao são preposições; e o artigo que trazem despois de si não é
dativo, mas pospositivo, o qual se segue sempre despois de preposição e não
algum outro caso.”
No que diz respeito às restantes subclasses do pronome e do determinante e à
classe do quantificador, não nos diz nada de concreto (nem de definitivo) em
nenhuma secção da obra. No entanto, ao fazer a descrição do género e do número
nominais, por exemplo, vemos que integra nos nomes o que hoje se denomina
‘quantificadores' (dous, três, treze) e ‘pronomes' (isto, isso, aquilo; quem,
alguém, ninguém) e, ainda, ao falar da contração de preposições com o artigo
(compostos ou juntos, como ele os denomina) no, do, polo e co, escreve o
seguinte (2000 [1536]: 142): “E não somente estas e outras composições se fazem
com os artigos; mas também antreposições muitas vezes, como di-lo-emos por
diremos o, amo-lo-iamos por amariamos o. E contudo nestas antreposições aquelle
artigo o que se alli antrepõe é relativo, alghum tanto diferente
daqueloutros.”, que nos deixa naturalmente a pensar.
E aqui termina este percurso pelas categorias sintáticas cujas classes abertas,
de modo particular, manifestam significação gramatical de primeiro grau.
Voltemo-nos, agora, para o das significações gramaticais de segundo grau[8] que
em geral se manifestam flexionalmente no nome (flexão nominal) e no verbo
(flexão verbal), isto é, o das categorias morfossintáticas.
2. Categorias morfossintáticas
Uma categoria morfossintática é obrigatória para uma classe de palavras tomada
como um todo numa determinada língua (Rosa, 2013: 120). Consideremos dois
exemplos. O primeiro, da língua latina: o caso, combinado com o número, é
obrigatório para o nome em latim, ou seja, todos os nomes latinos têm
teoricamente doze formas: seis para o singular e seis para o plural
determinadas pelos casos nominativo, vocativo, acusativo, genitivo, dativo e
ablativo. Agora o segundo, da língua portuguesa: o número é obrigatório para o
nome em português, isto é, todos os nomes portugueses apresentam teoricamente
duas formas: uma para a unidade (singular) e outra para dois ou mais (plural).
Não só porque Oliveira (2000 [1536]: 141) observou a diferença entre número
nominal e número verbal de forma explícita (“Todavia não temos plural sem s nos
nomes e artigos, digo, porque os verbos vão por outro caminho.”), mas também
por essa razão, vamos seguir este procedimento: tratar, à parte, as categorias
morfossintáticas, começando pelas nominais e passando, depois, às verbais.
2.1. Categorias morfossintáticas nominais
2.1.1. Caso
Obviamente, o caso não é, como já não o era quando Oliveira escreveu sobre a
matéria, uma categoria morfossintática de manifestação flexional em português.
Trata(va)-se de um processo antigo ainda em funcionamento, e apenas numa
subclasse de palavras, como se deixou registado acima: a do pronome pessoal.
Portanto, os casos, na classe de palavras nome, como observou já Coseriu (2000:
51), são mantidos como tipos de funções oracionais, e reduzidos a quatro:
nominativo, genitivo, dativo e acusativo, e, com exceção do penúltimo, com
novas designações, respetivamente: prepositivo, possessivo, (dativo) e
pospositivo. Porém, nunca categorias morfológicas: para Oliveira, em português
só há declinação de casos em alguns pronomes. Os artigos é que são as marcas
das funções oracionais: o, a, os, as (com o e a pequenos, como diz Oliveira),
para o ‘prepositivo'; do, da, dos, das (também com o e a pequenos), para o
‘possessivo'; ao, à, aos, às (com o e a grandes), para o ‘dativo', e o, a, os,
as (igualmente com o e a pequenos), para o ‘pospositivo'.
2.1.2. Género
O género, não muito diferentemente do que se passa com o caso, também não era
(não é) uma categoria morfossintática de manifestação flexional em português.
Tentemos entender a extensão desta afirmação.
Inteiremo-nos, antes de mais nada, do pensamento de Oliveira (2000 [1536]:
143):
As declinações dos generos são muitas e menos para comprender,
porque, posto que os nomes acabados em hũa letra qualquer sejam mais
d'hum genero que doutro, não por isso se pode dar regra universal,
como nestas duas letras a e o, das quaes hũa é mais masculina e outra
feminina. E contudo têm suas faltas, porque isto, isso e aquilo são
acabados em o e não são masculinos, mas são de genero indeterminado,
não neutro como o dos latinos; e eixó, mouçó, queiró e outros são
femeninos.
Pelo que escreve, deduz-se que Oliveira tem consciência de que os nomes
pertencem obrigatoriamente a uma classe genérica,[9] mas não apresentam um
marcador geral/universal, capaz de os compreender a todos. Por consequência, o
que nos apresenta são – dir-se-ia hoje assim – classes temáticas do nome,
lexicalmente determinadas. Ora, vejamos:
(i) Formas de tema em -a: moça (feminino).
(ii) Formas de tema em -o: moço (masculino); isto, isso e aquilo
(indeterminado).
(iii) Formas de tema em -e: almadraque (masculino); alface (feminino).
(iv) Formas de tema -ø: cabeçal, papel, barril, rol, lagar, alcacer, suor,
ardor, Artur, entrás, invés, retrós, rapaz, enxadrez, pez, almofariz, arroz,
catramoz, alcatruz (masculino); flor, raiz, Cataroz, nome de mulher (feminino);
maior, menor, milhor e pior, ingrês (comum).
(v) Formas atemáticas: queiró, chaminé, rezão, cidadã, linhagem (feminino);
alquiçé, guadameci, Calecu, pao, breu, melão, almazém, patim, tom, jejum
(masculino); alguém, ninguém e quem (indeterminado).
(vi) Formas com constituintes temáticos marginais: Marcos (masculino).[10]
Perante esta realidade, reparemos agora como Oliveira (2000 [1536]: 145)
termina esta sua descrição do género: “Porque era longo comprender tanta
variedade de terminações, ajudou-nos a natureza e uso da nossa lingua com os
artigos, os quaes sempre ou as mais vezes acompanham os nomes cuja companhia
declara os generos desses nomes.” Isto significa que a indicação do género dos
nomes, no séc. XVI, já se fazia, tal como hoje, sintaticamente, ou seja, usando
as formas do artigo (ou, de acordo com o conhecimento atual, de um qualquer
outro determinante) para o declarar, isto é, para explicitar a sua classe
genérica.
2.1.3. Número
O número, como foi referido já, era (e é), contrariamente às duas anteriores,
uma categoria morfossintática de manifestação flexional na língua portuguesa,
pelo menos o valor ‘plural' marcado geralmente pelo acréscimo de -s à forma do
singular. E podemos dizer que é sempre assim, só que por vezes com alomorfia –
termo não usado por Oliveira mas bem consciente desse fenómeno linguístico,
senão vejamos (Oliveira, 2000 [1536]: 145): “[…] Mas isto de diversas maneiras
porque às vezes acrecenta também outras co'ella, e às vezes tira alghũas e
outras também muda, ficando sempre o s no plural.”
Depois desta breve apresentação teórico-descritiva, passa de imediato a
explicitá-las (as diversas maneiras e/ou casos/contextos de ocorrência, ou
seja, a sua distribuição), e mais ou menos nestes moldes:
(i) Nomes terminados em vogal ou ditongo oral, apenas -s: livro/livros, porta/
portas; pao/paos, ceo/ceos.
(ii) Nomes terminados em til, isto é, vogal nasal, também só -s: vilã/vilãs,
som/sons, jardim/jardins.
(iii) Nomes terminados em consoante formam o plural de dois modos: primeiro, os
terminados em l (precedido de qualquer vogal, exceto i)[11] mudam este l em i e
acrescentam -s, que é a marca própria do plural como: real/reais; pichel/
picheis, caracol/caracois, taful/tafuis; segundo, os terminados em r, s ou z
acrescentam -es à forma do singular: lagar/lagares, revés/reveses, cabaz/
cabazes.
Ainda no que a este assunto diz respeito, impõe-se fazer um apontamento sobre
os nomes terminados em ditongo nasal, e por duas razões: uma sincrónica e outra
diacrónica.
Sincronicamente, Oliveira diz serem duas as maneiras de formar o plural destes
nomes: primeira, tal como se terminassem em vogal nasal, acrescenta-se -s (mãi/
mãis, mão/mãos); segunda, com alomorfia ou, como escreve (Oliveira, 2000
[1536]: 146), “[…] com ditongo e til mudam alghũa das vogaes desse ditongo ou
ambas, […]”: tabalião/tabaliães (aqui, muda uma só letra, nas suas palavras) e
cordão/cordões (aqui, mudam ambas as letras, escreve – reportando-se
evidentemente, nos dois casos, a um processo morfofonológico).
Agora, a razão diacrónica: segundo Oliveira (2000 [1536]: 147), há nomes que
alteram o ditongo por completo e que, por isso, parecem exibir uma maior
mudança do que os demais. Lição/lições, podão/podões, melão/melões são apenas
alguns exemplos. Porém, esta mudança é só aparente, uma vez que se está na
perspetiva sincrónica (uniformização do singular em -ão) porque,
diacronicamente, a forma do singular era diferente, o que explica as distintas
formas do plural, assim: Singular antigo: liçom, podom, melom + e e s > Plural
(no séc. XVI e ainda hoje, séc. XXI): lições, podões, melões. O mesmo é válido
para outras formas antigas do singular: pã + e e s > pães, cã + e e s > cães
(já do latim, acusativo do plural, panes > pães canes > cães, lectiones >
lições, etc., com a evolução fonética normal).
No termo da sua descrição, Oliveira (2000 [1536]: 148) afirma que,
relativamente à variação do nome no plural, o português conhece quatro
declinações: (i) a que acrescenta a letra s (moço/moços), (ii) a que acrescenta
sílaba (pavês/paveses), (iii) a que muda letra (animal/animais) e, por fim,
(iv) a que muda sílaba (almeirão/almeirões).[12] Ora, como se assinalou já, é
de alomorfia e da relação entre morfologia e fonologia que se trata ou, numa
formulação concisa, de processos morfofonológicos.
2.2. Categorias morfossintáticas verbais
No início do capítulo XLVII (o primeiro dos dois dedicados aos verbos),
Oliveira (2000 [1536]: 150) afirma serem “[…] diversas as vozes desses verbos
em generos, conjugações, modos, tempos, numeros e pessoas, […]”. Isto quer
dizer que, nesta secção, trata exclusivamente, como se diria hoje, da flexão
verbal, ou seja, das distintas formas do verbo determinadas por outras tantas
categorias gramaticais de segundo grau próprias desta classe de palavras e/ou
que também a afetam.
Não sendo explícito no que aos generos diz respeito (simplesmente, que o
português tem “hũa só voz acabada em o pequeno, como ensino, amo e ando, a qual
serve, como digo, em todos os verbos, […]” (Oliveira (2000 [1536]: 150)),
identifica a seguir três conjugações (em ar, em er e em ir), chamando a atenção
para a natureza idiossincrática deste infinitivo: pôr (de poer, forma antiga).
Por fim, e depois de um breve apontamento sobre o conceito de ‘conjugação',
procede, sem mais, ao levantamento das formas do paradigma verbal (não as
esgotando, contudo),[13] que passo a reportar em termos de descrição atual, ou
seja, integrando-as nos dois conjuntos de categorias morfossintáticas (verbais)
seguintes: no primeiro conjunto, temos a codificação morfológica da informação
sobre tempo, aspeto e modo e, no segundo, a da concordância com o sujeito
frásico.
2.2.1. Tempo-aspeto-modo
Assim, segundo Oliveira (2000 [1536]: 151-152), as conjugações, que são três,
têm modos, como falamos, falemos, falae e falar, que são, sem o ter contudo
explicitado, respetivamente, ‘indicativo', ‘conjuntivo', ‘imperativo' e
‘infinitivo', e cada modo tem tempos, como falo, falava, falei e falarei, ou
seja, ‘presente do indicativo', ‘pretérito imperfeito do indicativo',
‘pretérito perfeito do indicativo' e ‘futuro (simples) do indicativo' ou, de
acordo com Câmara (1980: 100), ‘futuro do presente do indicativo'.
De modo ainda mais lacónico do que o verificado na apresentação/descrição das
formas verbais resultantes das categorias modo e tempo, Oliveira diz que os
verbos do português têm também ‘gerúndio' (sendo, amando, fazendo) e
‘particípio passado' (lido, amado, regido)[14], não se pronunciando contudo
sobre a sua categorização: modos? Tempos? Outras categorias?
2.2.2. Pessoa-número
Para concluir o paradigma verbal, diz que os tempos têm números, como falo e
falamos, falas e falaes, fala e falam, isto é, ‘singular' (as três primeiras
formas de cada par) e ‘plural' (as três segundas), e cada número tem pessoas,
como falo, falas, fala, falamos, falaes, falam, ou seja, ‘1.ª', ‘2.ª' e ‘3.ª
pessoas do singular' e ‘1.ª', ‘2.ª' e ‘3.ª pessoas do plural'.
Ainda uma nota final: atento como estava, não lhe passou evidentemente
despercebida a defetividade (que apenas assinala, mas não explicita nem
explica), propriedade das línguas naturais humanas corroborada por aquelas que
talvez conheça melhor: o grego e o latim. Eis como reporta ele (Oliveira (2000
[1536]: 152) este fenómeno linguístico:
“E porém alghuns verbos não têm todos os modos e outros faltam em
tempos; e assi em cada hũa das outras cousas também às vezes alghuns
verbos têm alghũa falta, ao menos em não seguir as regras geraes da
formação das suas conjugações, porque assi na analogia dos verbos
como das outras partes não temos regras que possam comprender todos,
senão os mais. Do que nos não havemos d'espantar, porque os gregos,
cuja lingua é bem concertada, têm hum bo caderno de verbos
irregulares e alghuns nomes; e os latinos têm outro tão grande de
nomes com seus verbos de companhia.”
Oliveira não explicita a defetividade na flexão verbal, por um lado, porque é
seu intento fazê-lo noutro local (não nos chegou, porém, absolutamente nada…)
e, por outro, porque o objetivo desta sua obra é “[…] apontar os principios da
grammatica que temos na nossa lingua.” (Oliveira (2000 [1536]: 152) As leis
gerais, portanto.
3. Conclusão
Pela exposição que acabo de fazer, fica-se a saber que Oliveira se esforçou por
traçar as linhas mestras da gramática stricto sensu (ou morfossintaxe) do
português do séc. XVI sem se prender demasiado aos modelos latinos, e
conseguiu-o plenamente.
Com efeito, a começar pela conceção de ‘gramática descritiva' (relega as
definições das categorias e toma apenas em consideração as formas que as
palavras exibem), passando pela não teorização das ‘classes de palavras', bem
ao contrário do que ditava a tradição (serve-se delas e introduz a do artigo
como classe autónoma, inexistente em latim), continuando com a referência aos
‘casos' (que são mantidos como tipos de funções oracionais) e com o
reconhecimento da inexistência da classe genérica neutro, e terminando com a
distinção das classes temáticas (nominais e verbais) bem como das categorias
morfossintáticas (que afetam as classes de palavras nome e verbo), opondo as de
expressão flexional às de expressão lexical e/ou sintática, não restam
quaisquer dúvidas de que Oliveira foi bem para além dos modelos latinos – o que
denota um espírito arguto e, em certo sentido, revolucionário.
Também se pode observar, nesta descrição oliveiriana da gramática do português
do séc. XVI, que não há notas soltas, atomisticamente dispostas, mas gerais,
que afetam a língua como um todo: para ele, como assinalou já Coseriu (2000:
54), as línguas são uma estrutura, um sistema de regularidades – daí o
confronto constante entre as regras e as realizações.