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Representação em texto

EuPTHUHu0807-89672015000100014

variedadeEu
ano2015
fonteScielo

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Morfossintaxe em Fernão de Oliveira (1536)

0. Introdução Num trabalho anterior (Barroso, 2013), dedicado exclusivamente ao tratamento do léxico e da interação da subcomponente morfológica de formação de palavras com esta componente da gramática do português do séc. XVI, levado a cabo por Fernão de Oliveira na sua Grammatica, deixei expresso o compromisso,[1] por forma a que ficasse completa a descrição da componente morfológica, de tratar, tão cedo quanto possível, da interação da subcomponente que se ocupa da combinação de radicais/temas e propriedades morfossintáticas com a sintaxe. Aquela descreve os processos morfológicos implicados na criação neológica, ou seja, a afixação e a composição; esta, por seu turno, o processo morfológico responsável pelas variações próprias de uma classe de palavras considerada no seu todo, isto é, a flexão.[2] Assim, ao efetivar este compromisso, concluo também esta espécie de revisitação munido, todavia, de uma ferramenta moderna e atualizada às componentes da gramática do português de Quinhentos, descritas efetivamentepelo nosso autor na sua Grammatica da Lingoagem Portuguesa, a saber: a fonológica, a lexical e a morfológica ou, se se preferir (à parte a fonológica,[3] e considerando esta propriedade de a morfologia interagir com as demais), a morfolexical, a morfossintática e, ainda, a morfofonológica.

Vejamos, então, o tratamento que Fernão de Oliveira à gramática em sentido restrito, ou seja, à morfossintaxe. Antes de mais, porém, deve sublinhar-se que também nesta área foi pioneiro e original, propriedades destacadas por Coseriu (2000: 50), nestes termos:

[]. Mas, mesmo nesse tratamento tão sucinto, pode notar-se o seu esforço no sentido de se libertar dos esquemas da gramática latina e de delimitar como tais as categorias gramaticais que funcionam em português. E devemos dizer que consegue traçar em poucas páginas uma gramática portuguesa, em grande parte independente dos modelos latinos.

É, portanto, de morfologia flexional, essencialmente, que se vai tratar nas páginas que se seguem. E, como é óbvio, relativamente ao português dos inícios do séc. XVI, época em que Oliveira viveu, escreveu e publicou o texto cujos capítulos XLIII a XLVIII estão sob escopo neste ensaio, por ser precisamente que trata desta matéria.

O conceito de gramática descritiva revelado nesta secção da Grammatica é uma nota inequívoca da sua independência em relação ao(s) modelo(s) latino(s), senão observemos:

Não dizemos aind'agora neste lugar nem livro que cousa é artigo, nem tão-pouco mostramos qual oficio tem, porque aqui não falamos senão das formas ou figuras das vozes ou dições; e para isto abasta saber que os artigos, na nossa lingua, diversificam ou variam a forma de sua voz em generos, numeros e casos. (Oliveira, 2000 [1536]: 140- 141)[4]

Do exposto fica, pois, claro que Oliveira prescinde das definições das categorias (bem como das suas funções), limitando-se apenas a identificar e a descrever as formas que as expressam. Diz isto, acabámos de o verificar, a propósito do artigo. Mas volta a fazê-lo, e de modo ainda mais explícito, no capítulo seguinte, ao tratar dos nomes e seu genero (Oliveira, 2000 [1536]: 145):

Não dixemos aqui quantos nem quaes eram os generos dos nomes, nem tão-pouco que cousa é nome, como também fezemos aos artigos e faremos nos verbos, porque do intento desta parte da grammatica que agora tratamos não é mais que dar noticia das vozes, e não difinções ou determinadas declarações das cousas.

Não por a terminologia oliveiriana estar em parte (de qualquer modo, menos do que noutras secções) desatualizada (o que não causa estranheza), mas também por isso, e ainda para se entender de modo cabal o que quis dizer quando escrevi, acima, munido de uma ferramenta moderna e atualizada deve ficar explicitado , esta reflexão tem como marco de referência teórico os trabalhos de Aronoff & Fudeman (2011), Acquaviva, (2008) e especialmente Booij (2012) e, no que à descrição do português diz respeito, entre vários outros que aqui também poderiam constar, Câmara (1980), Carone (1986), Zanotto (1986), Azuaga (1996), Villalva (2003, 2008), Casanova (2009) e Rosa (2013).

1. Classes de palavras Inversamente à prática corrente até porque na tradição greco-latina se assumia como uma das funções típicas desta componente da gramática , Oliveira não teoriza sobre as classes de palavras'[5] ou, usando uma terminologia que atravessou séculos, partes da oração' ou, ainda, partes do discurso', que foram sendo delimitadas, estabelecidas e classificadas ao longo de um largo período de tempo, antes do seu e que continuou até à atualidade.

Das oito classes de palavras da tradição gramatical latina (nome, pronome, verbo, advérbio, particípio, conjunção, preposição e interjeição), Oliveira menciona (porque não trata, insisto) aquelas que são passíveis de maior variação flexional, a saber e nas suas próprias palavras (último parágrafo do capítulo XLII): Despois que dissemos em comum o que se nos ofereceo nesta declinação natural, vejamos particularmente dos artigos,[6] nomes e verbos, cuja é esta mais propria. (Oliveira, 2000 [1536]: 140). Para além destas três, refere uma outra: a dos pronomes fazendo-o de novo num ápice e na sequência de uma brevíssima reflexão sobre o estado das cousas e dos casos ou, numa terminologia de hoje, sobre papéis temáticos (ou semânticos) e funções sintáticas (ou relações gramaticais).

Por não ser objetivo desta sua obra teorizar sobre as classes (e subclasses) de palavras, mas tão-só descrever as formas resultantes da flexão (ou, na sua terminologia, declinação natural), não é pois de estranhar que apenas se lhes refira quando procede à inventariação das respetivas formas e, por consequência, negligencie ou remeta para um segundo plano as que não são afetadas por tal fenómeno linguístico. De qualquer modo, mesmo que indiretamente, seja nesta secção seja noutras, Oliveira não esquece se estive atento nenhuma classe.

Nome, adjetivo, verbo, advérbio, interjeição (classes abertas), pronome, determinante, quantificador, preposição e conjunção (classes fechadas) são as classes de palavras que o Dicionário Terminológico regista. Vejamos agora, a esta luz, o que se passa em Oliveira.

1.1. Classes abertas No que às classes abertas diz respeito, não falta nenhuma. Desde logo, o nome e o verbo, pois dedica-lhes (melhor: às suas formas, como se vai poder ver na secção em que me ocupo das categorias morfossintáticas), respetivamente, os capítulos XLIV-XLV e XLVII-XLVIII.

No nome, distingue as subclasses substantivo e adjetivo (hoje, duas classes autónomas), comum e próprio, para além de outras relacionadas com a formação de palavras (diminutivo e aumentativo, verbal e denotativo); e, no verbo, apenas as subclasses pessoal e impessoal. Isto pode confirmar-se, praticamente por inteiro, neste excerto (Oliveira, 2000 [1536]: 134):

E portanto os nomes se conhecem dos verbos e os verbos com os nomes das outras partes, porque são diferentes huns dos outros, e os nomes se conhecem por outros nomes, e os verbos por outros verbos, porque são em alghũa cousa e voz semelhantes cada parte destas com as outras do seu género; e contudo não tanto que não tenham alghũas miudezas diferentes ou diferencias mais meudas e particulares, como o nome ser comum ou próprio, ajetivo e substantivo, e o verbo pessoal ou impessoal.

O advérbio, porque não é uma classe sensível à variação flexional, não é referido nesta secção, mas noutra dedicada à formação dos advérbios em -mente, e nestes termos (Oliveira, 2000 [1536]: 140):

Na declinação natural, onde falamos das dições tiradas podemos também meter os averbios, os quaes, quando são tirados, polla maior parte ou sempre acabam em mente, como compridamente, abastadamente, chammente; e porém ha hi muitos que não são tirados, como antes, despois, asinha, logo, cedo, tarde.

Por fim, a interjeição, que rigorosamente não constitui uma autêntica classe de palavras por não estabelecer relações sintáticas com outras (palavras), está documentada, por exemplo, nesta passagem (Oliveira, 2000 [1536]: 98): []. Mas antre nós eu não vejo alghũa vogal aspirada, se não é nestas interjeições uha e aha e nestoutras de riso ha-ha, he, ainda que não me parece ese bo riso português, posto que o assi escreva Gil Vicente nos seus Autos. 1.2. Classes fechadas No que concerne às classes fechadas, a afirmação de que não falta nenhuma, como se fez para as abertas, não pode ser tão perentória. Pelo menos assim, tout court. Ora, vejamos.

Tratadas de facto (e as suas formas, é claro), nesta secção, foram-no apenas o artigo e o pronome, respetivamente, nos capítulos XLIII e XLVI. Em rigor: daquele, as formas do artigo definido e, deste, algumas formas do pronome pessoal.

O artigo não existia em latim, mas em grego, pelo que é uma novidade oliveiriana a sua consideração como classe autónoma em português (hoje, é uma subclasse do determinante). Quanto às suas formas, eis o que escreve Oliveira (2000 [1536]: 140-141): [] os artigos, na nossa lingua, diversificam ou variam a forma de sua voz em generos, numeros e casos. Em generos, como o e a; e em numeros, como os e as; e em casos, como o, do, ò [ao], o; a, da, à, a; os, dos, òs [aos], os; as, das, às, as.”[7] Relativamente ao pronome, para além do que se disse, praticamente nada mais a acrescentar, a não ser as formas, reportadas deste modo por Oliveira (2000 [1536]: 150): E contudo nós também temos casos em três pronomes, os quaes são eu, me, mi, tu, te, ti, se, si. A preposição e a conjunção, um pouco à semelhança do advérbio, e de modo particular por carecerem absolutamente de estrutura morfológica, não são aqui tidas em consideração. Porém, menciona-as, quando escreve (Oliveira, 2000 [1536]: 124), por exemplo, [], e muitas conjunções e preposições e averbios e outras partes, assi das que eles dizem que se não declinam como também das declinadas, ora sejam artigos ou quaesquer outras., e também (Oliveira, 2000 [1536]: 142) []. Mas as primeiras partes daqueles ajuntamentos a em ao, e para em parao são preposições; e o artigo que trazem despois de si não é dativo, mas pospositivo, o qual se segue sempre despois de preposição e não algum outro caso. No que diz respeito às restantes subclasses do pronome e do determinante e à classe do quantificador, não nos diz nada de concreto (nem de definitivo) em nenhuma secção da obra. No entanto, ao fazer a descrição do género e do número nominais, por exemplo, vemos que integra nos nomes o que hoje se denomina quantificadores' (dous, três, treze) e pronomes' (isto, isso, aquilo; quem, alguém, ninguém) e, ainda, ao falar da contração de preposições com o artigo (compostos ou juntos, como ele os denomina) no, do, polo e co, escreve o seguinte (2000 [1536]: 142): E não somente estas e outras composições se fazem com os artigos; mas também antreposições muitas vezes, como di-lo-emos por diremos o, amo-lo-iamos por amariamos o. E contudo nestas antreposições aquelle artigo o que se alli antrepõe é relativo, alghum tanto diferente daqueloutros., que nos deixa naturalmente a pensar.

E aqui termina este percurso pelas categorias sintáticas cujas classes abertas, de modo particular, manifestam significação gramatical de primeiro grau.

Voltemo-nos, agora, para o das significações gramaticais de segundo grau[8] que em geral se manifestam flexionalmente no nome (flexão nominal) e no verbo (flexão verbal), isto é, o das categorias morfossintáticas.

2. Categorias morfossintáticas Uma categoria morfossintática é obrigatória para uma classe de palavras tomada como um todo numa determinada língua (Rosa, 2013: 120). Consideremos dois exemplos. O primeiro, da língua latina: o caso, combinado com o número, é obrigatório para o nome em latim, ou seja, todos os nomes latinos têm teoricamente doze formas: seis para o singular e seis para o plural determinadas pelos casos nominativo, vocativo, acusativo, genitivo, dativo e ablativo. Agora o segundo, da língua portuguesa: o número é obrigatório para o nome em português, isto é, todos os nomes portugueses apresentam teoricamente duas formas: uma para a unidade (singular) e outra para dois ou mais (plural).

Não porque Oliveira (2000 [1536]: 141) observou a diferença entre número nominal e número verbal de forma explícita (Todavia não temos plural sem s nos nomes e artigos, digo, porque os verbos vão por outro caminho.), mas também por essa razão, vamos seguir este procedimento: tratar, à parte, as categorias morfossintáticas, começando pelas nominais e passando, depois, às verbais.

2.1. Categorias morfossintáticas nominais 2.1.1. Caso Obviamente, o caso não é, como não o era quando Oliveira escreveu sobre a matéria, uma categoria morfossintática de manifestação flexional em português.

Trata(va)-se de um processo antigo ainda em funcionamento, e apenas numa subclasse de palavras, como se deixou registado acima: a do pronome pessoal.

Portanto, os casos, na classe de palavras nome, como observou Coseriu (2000: 51), são mantidos como tipos de funções oracionais, e reduzidos a quatro: nominativo, genitivo, dativo e acusativo, e, com exceção do penúltimo, com novas designações, respetivamente: prepositivo, possessivo, (dativo) e pospositivo. Porém, nunca categorias morfológicas: para Oliveira, em português declinação de casos em alguns pronomes. Os artigos é que são as marcas das funções oracionais: o, a, os, as (com o e a pequenos, como diz Oliveira), para o prepositivo'; do, da, dos, das (também com o e a pequenos), para o possessivo'; ao, à, aos, às (com o e a grandes), para o dativo', e o, a, os, as (igualmente com o e a pequenos), para o pospositivo'.

2.1.2. Género O género, não muito diferentemente do que se passa com o caso, também não era (não é) uma categoria morfossintática de manifestação flexional em português.

Tentemos entender a extensão desta afirmação.

Inteiremo-nos, antes de mais nada, do pensamento de Oliveira (2000 [1536]: 143):

As declinações dos generos são muitas e menos para comprender, porque, posto que os nomes acabados em hũa letra qualquer sejam mais d'hum genero que doutro, não por isso se pode dar regra universal, como nestas duas letras a e o, das quaes hũa é mais masculina e outra feminina. E contudo têm suas faltas, porque isto, isso e aquilo são acabados em o e não são masculinos, mas são de genero indeterminado, não neutro como o dos latinos; e eixó, mouçó, queiró e outros são femeninos.

Pelo que escreve, deduz-se que Oliveira tem consciência de que os nomes pertencem obrigatoriamente a uma classe genérica,[9] mas não apresentam um marcador geral/universal, capaz de os compreender a todos. Por consequência, o que nos apresenta são dir-se-ia hoje assim classes temáticas do nome, lexicalmente determinadas. Ora, vejamos: (i) Formas de tema em -a: moça (feminino).

(ii) Formas de tema em -o: moço (masculino); isto, isso e aquilo (indeterminado).

(iii) Formas de tema em -e: almadraque (masculino); alface (feminino).

(iv) Formas de tema -ø: cabeçal, papel, barril, rol, lagar, alcacer, suor, ardor, Artur, entrás, invés, retrós, rapaz, enxadrez, pez, almofariz, arroz, catramoz, alcatruz (masculino); flor, raiz, Cataroz, nome de mulher (feminino); maior, menor, milhor e pior, ingrês (comum).

(v) Formas atemáticas: queiró, chaminé, rezão, cidadã, linhagem (feminino); alquiçé, guadameci, Calecu, pao, breu, melão, almazém, patim, tom, jejum (masculino); alguém, ninguém e quem (indeterminado).

(vi) Formas com constituintes temáticos marginais: Marcos (masculino).[10] Perante esta realidade, reparemos agora como Oliveira (2000 [1536]: 145) termina esta sua descrição do género: Porque era longo comprender tanta variedade de terminações, ajudou-nos a natureza e uso da nossa lingua com os artigos, os quaes sempre ou as mais vezes acompanham os nomes cuja companhia declara os generos desses nomes. Isto significa que a indicação do género dos nomes, no séc. XVI, se fazia, tal como hoje, sintaticamente, ou seja, usando as formas do artigo (ou, de acordo com o conhecimento atual, de um qualquer outro determinante) para o declarar, isto é, para explicitar a sua classe genérica.

2.1.3. Número O número, como foi referido , era (e é), contrariamente às duas anteriores, uma categoria morfossintática de manifestação flexional na língua portuguesa, pelo menos o valor plural' marcado geralmente pelo acréscimo de -s à forma do singular. E podemos dizer que é sempre assim, que por vezes com alomorfia termo não usado por Oliveira mas bem consciente desse fenómeno linguístico, senão vejamos (Oliveira, 2000 [1536]: 145): [] Mas isto de diversas maneiras porque às vezes acrecenta também outras co'ella, e às vezes tira alghũas e outras também muda, ficando sempre o s no plural. Depois desta breve apresentação teórico-descritiva, passa de imediato a explicitá-las (as diversas maneiras e/ou casos/contextos de ocorrência, ou seja, a sua distribuição), e mais ou menos nestes moldes: (i) Nomes terminados em vogal ou ditongo oral, apenas -s: livro/livros, porta/ portas; pao/paos, ceo/ceos.

(ii) Nomes terminados em til, isto é, vogal nasal, também -s: vilã/vilãs, som/sons, jardim/jardins.

(iii) Nomes terminados em consoante formam o plural de dois modos: primeiro, os terminados em l (precedido de qualquer vogal, exceto i)[11] mudam este l em i e acrescentam -s, que é a marca própria do plural como: real/reais; pichel/ picheis, caracol/caracois, taful/tafuis; segundo, os terminados em r, s ou z acrescentam -es à forma do singular: lagar/lagares, revés/reveses, cabaz/ cabazes.

Ainda no que a este assunto diz respeito, impõe-se fazer um apontamento sobre os nomes terminados em ditongo nasal, e por duas razões: uma sincrónica e outra diacrónica.

Sincronicamente, Oliveira diz serem duas as maneiras de formar o plural destes nomes: primeira, tal como se terminassem em vogal nasal, acrescenta-se -s (mãi/ mãis, mão/mãos); segunda, com alomorfia ou, como escreve (Oliveira, 2000 [1536]: 146), [] com ditongo e til mudam alghũa das vogaes desse ditongo ou ambas, []: tabalião/tabaliães (aqui, muda uma letra, nas suas palavras) e cordão/cordões (aqui, mudam ambas as letras, escreve reportando-se evidentemente, nos dois casos, a um processo morfofonológico).

Agora, a razão diacrónica: segundo Oliveira (2000 [1536]: 147), nomes que alteram o ditongo por completo e que, por isso, parecem exibir uma maior mudança do que os demais. Lição/lições, podão/podões, melão/melões são apenas alguns exemplos. Porém, esta mudança é aparente, uma vez que se está na perspetiva sincrónica (uniformização do singular em -ão) porque, diacronicamente, a forma do singular era diferente, o que explica as distintas formas do plural, assim: Singular antigo: liçom, podom, melom + e e s > Plural (no séc. XVI e ainda hoje, séc. XXI): lições, podões, melões. O mesmo é válido para outras formas antigas do singular: + e e s > pães, + e e s > cães ( do latim, acusativo do plural, panes > pães canes > cães, lectiones > lições, etc., com a evolução fonética normal).

No termo da sua descrição, Oliveira (2000 [1536]: 148) afirma que, relativamente à variação do nome no plural, o português conhece quatro declinações: (i) a que acrescenta a letra s (moço/moços), (ii) a que acrescenta sílaba (pavês/paveses), (iii) a que muda letra (animal/animais) e, por fim, (iv) a que muda sílaba (almeirão/almeirões).[12] Ora, como se assinalou , é de alomorfia e da relação entre morfologia e fonologia que se trata ou, numa formulação concisa, de processos morfofonológicos.

2.2. Categorias morfossintáticas verbais No início do capítulo XLVII (o primeiro dos dois dedicados aos verbos), Oliveira (2000 [1536]: 150) afirma serem [] diversas as vozes desses verbos em generos, conjugações, modos, tempos, numeros e pessoas, []. Isto quer dizer que, nesta secção, trata exclusivamente, como se diria hoje, da flexão verbal, ou seja, das distintas formas do verbo determinadas por outras tantas categorias gramaticais de segundo grau próprias desta classe de palavras e/ou que também a afetam.

Não sendo explícito no que aos generos diz respeito (simplesmente, que o português tem hũa voz acabada em o pequeno, como ensino, amo e ando, a qual serve, como digo, em todos os verbos, [] (Oliveira (2000 [1536]: 150)), identifica a seguir três conjugações (em ar, em er e em ir), chamando a atenção para a natureza idiossincrática deste infinitivo: pôr (de poer, forma antiga).

Por fim, e depois de um breve apontamento sobre o conceito de conjugação', procede, sem mais, ao levantamento das formas do paradigma verbal (não as esgotando, contudo),[13] que passo a reportar em termos de descrição atual, ou seja, integrando-as nos dois conjuntos de categorias morfossintáticas (verbais) seguintes: no primeiro conjunto, temos a codificação morfológica da informação sobre tempo, aspeto e modo e, no segundo, a da concordância com o sujeito frásico.

2.2.1. Tempo-aspeto-modo Assim, segundo Oliveira (2000 [1536]: 151-152), as conjugações, que são três, têm modos, como falamos, falemos, falae e falar, que são, sem o ter contudo explicitado, respetivamente, indicativo', conjuntivo', imperativo' e infinitivo', e cada modo tem tempos, como falo, falava, falei e falarei, ou seja, presente do indicativo', pretérito imperfeito do indicativo', pretérito perfeito do indicativo' e futuro (simples) do indicativo' ou, de acordo com Câmara (1980: 100), futuro do presente do indicativo'.

De modo ainda mais lacónico do que o verificado na apresentação/descrição das formas verbais resultantes das categorias modo e tempo, Oliveira diz que os verbos do português têm também gerúndio' (sendo, amando, fazendo) e particípio passado' (lido, amado, regido)[14], não se pronunciando contudo sobre a sua categorização: modos? Tempos? Outras categorias? 2.2.2. Pessoa-número Para concluir o paradigma verbal, diz que os tempos têm números, como falo e falamos, falas e falaes, fala e falam, isto é, singular' (as três primeiras formas de cada par) e plural' (as três segundas), e cada número tem pessoas, como falo, falas, fala, falamos, falaes, falam, ou seja, 1.ª', 2.ª' e 3.ª pessoas do singular' e 1.ª', 2.ª' e 3.ª pessoas do plural'.

Ainda uma nota final: atento como estava, não lhe passou evidentemente despercebida a defetividade (que apenas assinala, mas não explicita nem explica), propriedade das línguas naturais humanas corroborada por aquelas que talvez conheça melhor: o grego e o latim. Eis como reporta ele (Oliveira (2000 [1536]: 152) este fenómeno linguístico:

E porém alghuns verbos não têm todos os modos e outros faltam em tempos; e assi em cada hũa das outras cousas também às vezes alghuns verbos têm alghũa falta, ao menos em não seguir as regras geraes da formação das suas conjugações, porque assi na analogia dos verbos como das outras partes não temos regras que possam comprender todos, senão os mais. Do que nos não havemos d'espantar, porque os gregos, cuja lingua é bem concertada, têm hum bo caderno de verbos irregulares e alghuns nomes; e os latinos têm outro tão grande de nomes com seus verbos de companhia.

Oliveira não explicita a defetividade na flexão verbal, por um lado, porque é seu intento fazê-lo noutro local (não nos chegou, porém, absolutamente nada) e, por outro, porque o objetivo desta sua obra é [] apontar os principios da grammatica que temos na nossa lingua. (Oliveira (2000 [1536]: 152) As leis gerais, portanto.

3. Conclusão Pela exposição que acabo de fazer, fica-se a saber que Oliveira se esforçou por traçar as linhas mestras da gramática stricto sensu (ou morfossintaxe) do português do séc. XVI sem se prender demasiado aos modelos latinos, e conseguiu-o plenamente.

Com efeito, a começar pela conceção de gramática descritiva' (relega as definições das categorias e toma apenas em consideração as formas que as palavras exibem), passando pela não teorização das classes de palavras', bem ao contrário do que ditava a tradição (serve-se delas e introduz a do artigo como classe autónoma, inexistente em latim), continuando com a referência aos casos' (que são mantidos como tipos de funções oracionais) e com o reconhecimento da inexistência da classe genérica neutro, e terminando com a distinção das classes temáticas (nominais e verbais) bem como das categorias morfossintáticas (que afetam as classes de palavras nome e verbo), opondo as de expressão flexional às de expressão lexical e/ou sintática, não restam quaisquer dúvidas de que Oliveira foi bem para além dos modelos latinos o que denota um espírito arguto e, em certo sentido, revolucionário.

Também se pode observar, nesta descrição oliveiriana da gramática do português do séc. XVI, que não notas soltas, atomisticamente dispostas, mas gerais, que afetam a língua como um todo: para ele, como assinalou Coseriu (2000: 54), as línguas são uma estrutura, um sistema de regularidades daí o confronto constante entre as regras e as realizações.


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