Competência empreendedora e sua configuração linguístico-textual: o papel das
figuras interpretativas do agir
0. Introdução
No mundo globalizado em que nos situamos, o termo empreendedorismo[1] está a
assumir um elevado protagonismo nos diversos segmentos sociais, tanto no âmbito
político quanto académico. Entendido de forma genérica como o processo de
identificação e de exploração de determinada oportunidade de negócio, o
desenvolvimento de uma atitude empreendedora no contexto social vem sendo
considerado, por muitos, como um dos importantes motores do desenvolvimento
mundial. No contexto europeu, nas últimas décadas, com a grave crise de
desemprego, quer inicialmente pela introdução em muitos sectores de
procedimentos informatizados, quer mais actualmente pela grave crise europeia
com políticas económicas e sociais conduzidas por planos de ajustamento
impostos pela Troika[2] e, com o “Estado social em risco[3]”, o
empreendedorismo passou a ser ainda mais valorizado. Indivíduos empreendedores
são aqueles que identificam e exploram novas oportunidades, tanto em que
iniciativas individuais (abertura de novos negócios) quanto nas organizações em
que se inserem.
Dados mais recentes pontuam que, ao se medir a taxa de actividade empreendedora
na Europa, Portugal situa-se no 13º lugar entre os 16 países da União Europeia
que participaram do estudo. Embora algumas medidas estejam sendo realizadas
pelo governo para fomentar o empreendedorismo no país, como o incentivo à
criação de empresas, desenvolvimento de incubadoras e diminuição da burocracia
no processo de criação de empresas, muito ainda deve ser realizado para fazer
de Portugal um país mais empreendedor. Na verdade, a resolução deste problema
passa por estas atitudes governamentais[4], mas, no nosso ponto de vista, deve
estar ancorada fundamentalmente, no desenvolvimento de uma atitude
empreendedora nos diversos segmentos sociais. Assim, os indivíduos devem ser
levados a desenvolver competências que os tornem mais autoconfiantes, mais
proativos, estando empenhados na busca de informações e de novas oportunidades
para gerar ideias e atrair recursos.
Nesta pesquisa, como não trabalhámos com pequenas e médias empresas, assumimos
que o empreendedorismo diz respeito à criação/a expansão de ideias inovadoras a
partir de oportunidades identificadas em determinada actividade.Ainda,
limitámos o nosso estudo a duas formas de empreendedorismo[5]: o
empreendedorismo organizacional e o empreendedorismo social.O primeiro diz
respeito à forma como ideias inovadoras/reatulizadas são difundidas no interior
/no exterior das organizações, fomentando junto a colaboradores/parceiros uma
atitude empreendedora. O segundo pode ser desenvolvido por indivíduos que
apresentam soluções para problemas sociais.
Face a esse contexto, este trabalho, recorte de uma investigação mais ampla[6]
sobre o agir empreendedor e sua configuração textual, baseia-se
fundamentalmente no quadro teórico-metodológico do Interacionismo
Sociodiscursivo (doravante ISD). Visa identificar, a partir de debates de
ideias realizados com alunos de licenciatura em universidades públicas e
privadas portuguesas, com e sem fins lucrativos, as representações coletivas/
individuais que esses indivíduos têm sobre o empreendedorismo. A partir da
transcrição dos debates, procurou-se, através do levantamento de algumas marcas
linguísticas inseridas em tipos de discurso (Bronckart, 1999), identificar de
que forma o empreendedorismo pode vir a ser interpretado, ou melhor, como se
materializam as suas ´figuras interpretativas´. Através de uma análise
qualitativa dos dados obtidos, poder-se-ão vir a obter pistas relevantes para
intervenções efetivas no desenvolvimento de cursos de empreendedorismo, em
diversos segmentos sociais. Vale contudo ressaltar que, embora esta
contribuição possa fornecer algumas pistas para o desenvolvimento de uma
atitude empreendedora dos estudantes, em turmas do 3º ciclo, o seu foco de
estudo tem prioritariamente um caráter analítico-teórico.
De forma a atingir os objetivos propostos, este artigo será dividido em três
partes. Primeiramente, serão apresentados alguns conceitos teóricos relevantes
do ISD - importantes para as análises. Em seguida, dada a flutuação conceitual
do termo competência, definir-se-á o conceito aqui adotado, fazendo um percurso
histórico sobre a noção. Posteriormente, apresentar-se-ão a metodologia
empregada e as análises propriamente ditas. No final, serão apontadas algumas
pistas de reflexão.
1. Apresentação de alguns conceitos teóricos
O plano de trabalho do ISD, no qual o grupo de investigação PRETEXTO[7] se
insere, considera que o funcionamento humano geral deve integrar dimensões
cognitivas, sociais, afetivas e semióticas. Na verdade, trata-se de um
posicionamento epistemológico-político[8], distanciando-se da herança
positivista que presumia uma segmentação bem marcada das disciplinas e
subdisciplinas.
Para o ISD, toda a produção textual envolve três dimensões: a psicológica, a
praxiológica e a linguística. Nesta contribuição, ao trabalhar com o processo
de reflexão de alunos sobre o agir empreendedor, a partir de marcas
linguísticas obtidas pelas transcrições das intervenções realizadas em sala de
aula, as três dimensões serão de nosso interesse. Nestas, a definição de alguns
termos merecem ser clarificados.
O termo agir,indo ao encontro dos pressupostos teóricos do ISD,
designaaquiqualquer forma de intervenção de um ou mais indivíduos no mundo. Na
verdade, além dos conhecimentos relativos aos mundos representados, os
indivíduos têm uma espécie de saber prévio construído ao longo de sua vida:
conhecimentos de natureza holística, sem organização lógica, implícitos ou
inconscientes, representando uma espécie de reservatório próprio de convicções
e hipóteses implícitas sobre o resultado de determinado agir. Visto dessa
forma, podemos afirmar que o agiré coibido por questões sociais e envolve
vários aspetos: conhecimentos explícitos e implícitos, conflitos entre
representações dos vários agentes relativos aos três mundos[9] e confrontação
entre elementos do mundo vivido com os conhecimentos formais do próprio agente.
Mas quais seriam os estatutos tanto dos indivíduos implicados no agirquanto da
linguagem neste contexto?
Dentro do contexto do ISD, todos os seres humanos que intervêm no agir são
considerados actantes. No plano interpretativo, é utilizado o termo ator,
quando as próprias configurações textuais constroem o actante como fonte de
determinado processo, dotado de capacidades, motivose intenções. Ainda o termo
agenteé utilizado quando as configurações textuais não atribuem estas
propriedades ao actante.
O termo ação, dentro do quadro do ISD, é definido como forma interpretativa do
agir construída tanto a partir dos actantes diretamente implicados na atividade
quanto a partir de outros agentes externos que intervêm nesta construção.
Apresenta assim tanto um estatuto psicológico quanto praxiológico. Neste
trabalho, como o foco é sobretudo estudar a praxis empreendedora a partir de
algumas representações (nível psicológico) veiculadas textualmente, o “foco”
será desviado. Considerar-se-á que a ação corresponde essencialmente a um ato
de intervenção social de responsabilidade de um indivíduo ou de um grupo.
Contudo, vale ressaltar que esse ato é realizado tanto a partir de
representações que um indivíduo/grupo tem de como agir naquela determinada
situação (a partir de pré-construídos), quanto também de sua pilotagem em
função das contingências sócio-político-económicas. Dessa forma, podemos
afirmar que não existe uma única forma de ação. E, no nosso caso, uma ação
empreendedora será determinada pelo ato assumido por indivíduos com capacidade
de adotar riscos calculados (empreendedor/grupo de empreendedores) e que, face
a determinantes externos (plano motivacional), necessitam “traçar um rumo” ou
“redirecionar um caminho” no âmbito da gestão estratégica, seguindo intenções
específicas (plano da intencionalidade)[10]. Para tal feito, são utilizados
recursos disponíveis no ambiente social (plano dos recursos do agir) – códigos
de ética, textos procedurais – a partir dos quais as capacidades, as atitudes,
os valores[11], as reações dos clientes são valorizados de forma a que
compactuem com esta atitude empreendedora. As diversas formas de perceçãodo
agir/ da ação foram desenvolvidas em trabalhos empíricos[12] por Bulea
(2007,2010).
É importante também relembrar que, através dessa abordagem teórica, as
entidades linguísticas semiotizadas nos textosque circulam, sendo arbitrárias e
convencionais, têm a propriedade não apenas de absorver representações
construídas pelos indivíduos em sua relação com o mundo vivido, mas também
transformá-las em representações comuns. E é neste aspecto que a linguagem
assume um papel fundamental no desenvolvimento dos indivíduos.
Vale salientar que, no quadro do ISD, são os tipos de discurso, enquanto
unidades infra-ordenadas com certa estabilidade em sua configuração
linguística, que materializam esses textos. Esses tipos de discurso (discurso
teórico, discurso interativo, narração e relato interativo) podem vir a ser
reconhecidos através de determinadas formas linguísticas que os semiotizam, em
função de dois tipos de ruptura: uma de ordem temporal (conjunção e disjunção)
e outra de ordem actorial (implicação e autonomia)[13].O quadro abaixo sumariza
a questão:
2. Competência em perspetiva
A noção de competência surge no âmbito laboral já na década de 50[14], antes
mesmo de Chomsky (1965) ter trabalhado a noção na linguística gerativa,
definindo a competência como uma “capacidade inata” do indivíduo. Contudo, como
este trabalho está centrado nas figuras interpretativas relacionadas com o agir
empreendedor, numa abordagem sócio-discursivo-interacionista, o interesse aqui
é, prioritariamente, observar de que forma o conceito é trabalhado por teóricos
dessa perspectiva para, finalmente, defini-lo no escopo deste trabalho.
Bronckart & Dolz (1999) salientam o papel das competências no campo da
análise do trabalho e da formação profissional. Através da formação
profissional, cujo nível é certificado pelo Estado, os formandos/aprendizes são
dotados de certas qualificações (competências) para a obtenção de empregos
específicos. Contudo, estas competências certificadas devem sofrer constante
atualização em função da diversidade das tarefas que estes profissionais devem
cumprir e as várias decisões que necessitam tomar face às adversidades
enfrentadas no dia-a-dia da execução das tarefas. Assim, enfatizam que a aceção
do termo competência é bastante ampla. Corresponde tanto à qualificação exigida
para a execução de uma determinada tarefa e reformulada em função dos contextos
do trabalho, quanto à reatualização desta mesma competência por parte dos
agentes envolvidos de acordo com as várias avaliações sociais. Assim, ao se
referir à « flutuação definitória » para o termo, os autores afirmam “la
tonalité majeure consiste à considérer qu´elles relèvent des savoir-faire
plutôt que des savoirs, et des capacités méta-cognitives plutôt que de la
maîtrise de savoirs stabilisés » (Bronckart & Dolz, 1999 : 5).
Nesta contribuição, ratificamos o ponto de vista defendido pelos autores
citados, enfatizando que, ao analisarmos as competências, devemos levar em
conta o ser caráter praxiológico e dinâmico. Na verdade, os agentes podem
apresentar algumas qualificações que lhes foram atribuídas institucionalmente,
contudo vão reatualizá-las e adaptá-las em práticas sociais diversas. Assim, em
determinado agir profissional, um indivíduo deve mobilizar e atualizar suas
competências em função dos diversos contextos profissionais em que se situa.
Dessa forma, o seu saber (competência a um nível psico-social) é reformulado em
função de um ´fazer´, de um ´agir´ (competência a um nível praxiólogico).
Salienta-se que, ao se considerar a relevância da linguagem no desenvolvimento
do humano, como preconiza a teoria sociodiscursivo-interacionista, estas
competências podem ser atestadas a partir dos diversos textos que circulam nas
diversas práticas sociais. Mais especificamente, é através dos tipos de
discurso e das diversas semiotizações linguísticas a eles associadas ou que os
complementam que podemos traçar um diagnóstico das competências.
No caso específico deste trabalho, faz-se menção a um tipo determinado de
competências: as empreendedoras. Defende-se a tese de que as formas de
interpretação dessas mesmas competências, linguisticamente demarcadas, podem
vir a apresentar ´tonalidades competenciais´ distintas em função do objecto
analisado pelos licenciandos: de um lado, um anúncio de uma entidade sem fins
lucrativos, do outro, a de fins empresariais.
3. Percurso metodológico
Os textos aqui analisados correspondem a excertos de um debate de ideias[15]
sobre a temática ação empreendedora realizados em sala de aula, junto a
licenciados do 1º ano, em faculdades e universidades distintas. Em duas
universidades (uma pública e outra privada), a pesquisadora, com autorização da
docente da disciplina, dispunha de cerca de 40 minutos para interagir com os
alunos. Neste contexto, a pesquisadora (elemento estranho à turma) assumia a
regência da cadeira. Em outra universidade (privada), a pesquisadora era a
própria docente da disciplina de Metodologia de Investigação e Tecnologia de
Informação o que conferiu à própria interação um caráter mais dinâmico.
Foram três as instituições que participaram da pesquisa: a Universidade Nova de
Lisboa (Faculdades de Ciências da Linguagem e Língua e literaturas – culturas e
tradução) – vídeos 1 e 2; Instituto Superior de Linguística Aplicada ISLA
(Faculdades de Gestão e de Marketing) – vídeos 3 e 4; Universidade Lusíada de
Lisboa (Faculdade de Direito) – vídeo 5.
A realização do debate de ideias seguiu a seguinte dinâmica:
Num primeiro momento, a pesquisadora distribuiu aos alunos dois textos: um
anúncio publicitário de uma empresa de aviação portuguesa e o de uma associação
de benemerência portuguesa. As duas instituições, associadas a práticas sociais
distintas, apresentavam graus de empreendedorismo reconhecidos socialmente. A
primeira, no intuito de concorrer com empresas denominadas low-cost, por
venderem passagens aéreas mais baratas, lançou em 2009 uma campanha
publicitária visando vender os seus produtos a um nicho de mercado com o qual,
até então, não trabalhava. A segunda, de forma a convocar mais voluntários para
as suas atuações sociais de recolha de alimentos, passa a adoptar campanhas
publicitárias que chamem a atenção para a importância do voluntariado.
Num segundo momento, os alunos responderam a algumas questões feitas pela
pesquisadora, sobre os textos visualizados, interagindo com a mesma e com os
demais colegas. Todas estas interações foram gravadas e filmadas por uma equipe
profissional. Além disso, foram transcritas seguindo as normas de transcrição
adoptadas pelo grupo Langage, Action et Formation (grupo LAF) da Universidade
de Genebra.
3.1. Análise de dados
O procedimento de análise dos dados adotado pela pesquisadora comportou, nesta
etapa, cinco fases:
- Seleção de trechos (apenas as intervenções dos alunos) que versavam
diretamente sobre o tema empreendedorismo[16], nos cinco vídeos transcritos;
- Explicitação e definição dos subtemas relacionados com o tema, nomeadamente
qualidades(1),resultados(2),etapas/processos(3),obstáculos(4) eavaliação
pessoal(5), a partir dos dados empíricos disponíveis. Contudo, a partir da
análise dos corpora, os três últimos tópicos foram excluídos devido à
existência de uma exemplificação muito reduzida.
- A partir de eixos temáticos específicos relacionados com o tema em questão,
identificação da dinâmica de cada um destes subtemas nos vídeos analisados,
respeitando a ordem cronológica de aparecimento dos mesmos. Como são turnos de
fala em que participam a pesquisadora e os alunos, é importante salientar que
somente as intervenções dos últimos foram consideradas;
- Agrupamento dos trechos transcritos que versavam sobre o mesmo subtema (ou
agrupamentos temáticos) – de forma a observar as diferenças e semelhanças na
forma de dizerdos diversos eixos temáticos nos diferentes vídeos;
- Comparação das diferenças e semelhanças das formas de dizer os diversos eixos
temáticos nos diferentes vídeos.
- Seleção de três tópicos (a partir da análise dos documentos) sobre os quais
os agrupamentos temáticos se reportam: ação empreendedora relativa à empresa de
aviação (A); ação empreendedora relativa à instituição sem fins lucrativos (B);
comparação entre as duas ações empreendedoras (C).
Os exemplos citados nas análises apresentam uma numeração seguindo os seguintes
critérios:
a. Referente relativo ao agrupamento temático demarcado pelas letras maiúsculas
A, B, C entre parênteses.
b. 1º número cardinal refere-se ao vídeo (segundo quadro_1);
c. 2º número cardinal refere-se ao agrupamento temático – (1) qualidades; (2)
resultados; (3) processos/etapas; (4) obstáculos; (5) avaliação pessoal;
- A partir das formas de interpretação do pensar sobre este agir (segundo os
diversos referentes), foram agrupados os aspectos linguísticos relativos ao que
denominamos figuras interpretativas competenciaisdo empreendedorismo relativas
à atividade empresarial e à social.
Com esse procedimento analítico, enfatiza-se que, ao fazer uso da linguagem
para se referir ao pensar sobre determinado agir empreendedor, os alunos
selecionam os diversos recursos linguísticos disponíveis em função das suas
representações individuais sobre o que é este agir e reatualizam-nas, também,
de acordo com as representações coletivas que surgem durante as diversas
interações que ocorrem em sala de aula. E também reconfiguram estas
atualizações em função das práticas sociais que estão a analisar na altura (a
empresarial e a de benevolência, no caso específico desta pesquisa. Dessa
forma, a nosso ver, a análise da semiotização linguística do pensar sobre este
agir detetada por estas interações em sala de aula pode fornecer pistas
interessantes para o desenvolvimento deste mesmo agir[17] em práticas sociais
diversas.
Contudo, convém salientar que há dois níveis de percursos interpretativos a
serem evidenciados. Num primeiro nível, há uma interpretação dos alunos sobre o
que pensam sobre o agir empreendedor em relação aos anúncios publicitários
visualizados (o da prática empresarial e o da de benevolência) e discutidos em
sala de aula. Num segundo nível, existe uma interpretação posterior do
pesquisador sobre aquilo que foi dito sobre este agir empreendedor. Na verdade,
existe um re(pensar) sobre o que é pensado pelos intervenientes sobre este
agir. Vale salientar que é exatamente neste nível que se situa esta
contribuição.
Pensamos que uma possível intervenção na formação de futuros profissionais pode
se dar, inicialmente, pelo diagnóstico das representações deste agir, através
dos recursos linguísticos que as semiotizam (objetivo deste artigo). Contudo,
outro instrumento de pesquisa (entrevistas semi-estruturadas com empreendedores
em exercício profissional – etapa 5ª do projeto de pós-doutoramento) pode,
realmente, fornecer outros dados empíricos relevantes que, quando comparados
aos obtidos pelo diagnóstico prévio, poderão ajudar na elaboração de conteúdos
académicos adequados ao desenvolvimento profissional de futuros licenciados.
4. Delimitação e definição dos agrupamentos temáticos
A questão temática, embora não tenha sido considerada em Bronckart (1999)[18],
como o autor salienta em publicação de 2008, passa a ter grande relevância
nesta última publicação. Inspirado em Rastier (1989: 54), Bronckart ressalta
que, ao analisar a organização temática de determinado texto, deve-se
identificar os universos semânticos ou temas convocados, extraindo os semas que
lhe são constitutivos (“moléculas sémicas”, no caso de temas específicos e
“classes sémicas”, tratando-se de temas genéricos). Contudo, Bronckart (2008),
ao contrário de Rastier (1989), salienta a relevância de uma leitura
interpretativa dos signos para a identificação das recorrências sémicas (não
apresentando estas um estatuto exclusivamente semântico, como acentuado pelo
último teórico). No caso doscorpora em análise, temos como classe sémica o tema
empreendedorismo, a partir do qual várias moléculas sémicas são constituídas,
baseadas nos semas qualidades(1),resultados(2),etapas/processos(3),obstáculos
(4),avaliação pessoal(5).
Vale salientar que, no quadro teórico do ISD, do ponto de vista empírico, o
estudo da componente temática foi evidenciado por Bulea (2007, 2010) e por
Bulea, Leurquin e Carneiro (2013) na identificação de figuras de ação e os
tipos de discurso a elas associados, em contextos profissionais distintos. Nos
primeiros (trabalhos pioneiros de Bulea), a partir do levantamento de
agrupamentos de orientação temática em entrevistas realizadas com enfermeiras
sobre o agircuidados de enfermagem, foram identificadas as cinco figuras de
ação a ele associadas (ocorrência, acontecimento passado, canónica, experiência
e definição), os tipos de discurso a ele relacionados e questões linguísticas
relevantes). No segundo, utilizando entrevista/reunião entre professor tutorado
de Português Língua Estrangeira e tutor, foram evidenciados trechos cujo
conteúdo temático referia-se ao agir docente. E, nos excertos selecionados,
forma feitas as identificações das figuras de ação e de aspectos linguísticos
que as semiotizam. Vale salientar, inclusive, que neste trabalho evidenciou-se
experimentalmente a presença de figuras de ação interna e externa[19].
Feita esta breve introdução, em que é justificada a importância da componente
temática para o estudo da semiotização de textos inseridos em práticas
profissionais, passa-se à análise dos corpora propriamente dita.
4.1. Agir empreendedor e agrupamentos temáticos associados
Neste trabalho, em que se procura analisar linguístico-textualmente o que
licenciados “pensam ser” o agir empreendedor, deve ser salientado o papel dos
agrupamentos temáticos (subtemas) associados a este agir e a sua semiotização
discursiva (tipos de discurso a eles associado, eixos de referência e
localização temporal, marcas de agentividade, relações predicativas
envolvidas). É a partir da configuração linguística das formas de interpretar o
que venha a ser o empreendedorismo em função de referentesdiversos que poder-
se-á definir, posteriormente, o que consideraremos figuras competenciais no
âmbito desta contribuição. Defendemos neste trabalho: (1) a ideia de que
existem formas de pensar e interpretar (ou figuras interpretativas) o agir
empreendedor em função de referentes diversos, podendo vir a ser observadas
textualmente a partir das configurações linguísticas; (2) em função do
referente essas ´figuras interpretativas´ podem ter ´tonalidades´ distintas,
atestadas ao nível micro-textual.
Na verdade, existem saberes já formalizados (conceitos pré-estabelecidos sobre
determinado agir) aos quais temos de ter acesso, através da análise e
interpretação de textos, enquanto pesquisadores, para que possamos intervir
enquanto formadores. Desta forma, o debate em sala de aula sobre o
empreendedorismo e a transcrição das aulas serviram como ferramentas
metodológicas para a depreensão destes saberes ou ainda das competências
socialmente “conhecidas” relativas ao ser empreendedor.
Posteriormente, passa-se à análise dos aspectos linguístico-textuais dos
agrupamentos temáticos propriamente dita.
4.1.1. Agrupamentos temáticos
São apresentadas, abaixo, considerações sobre os subtemas relacionados com o
agir em questão, definindo-os. Considera-se que a definição destes subtemas é
realizada através do percurso interpretativo perpetrado pela pesquisadora,
durante a análise empírica dos dados recolhidos (transcrição dos vídeos).
- Qualidade - Este diz respeito a todos os trechos dos vídeos transcritos
relativos à reflexãodos alunos sobre as qualidades ou atributos necessários ao
agir empreendedor.
- Resultado – Este refere-se aos trechos dos vídeos transcritos relativos à
reflexão dos alunos sobre o fim específico relativo ao agir empreendedor em
análise.
- Processo/etapas – Este relaciona-se a segmentos, nos trechos dos vídeos
transcritos, que reflitam sobre etapas ou procedimentos que possam a vir a
contribuir para o agir empreendedor.
Dois aspetos merecem ser mencionados. O agrupamento temático obstáculo que se
esperava observar nos trechos transcritos, não foi considerado devido ao facto
de não estar presente nos vídeos transcritos. Em relação à avaliação pessoal,
esta também não foi analisada. Na verdade, trabalha-se com o género debate em
sala de aula sobre um tema específico (a partir da visualização de textos
empíricos), com isso a influência da oralidadeestaria muito presente, sendo
frequente a intervenção dos alunos com expressões verbais como “eu acho que”;
“eu penso que”. O levantamento das mesmas seria interessante para a
caracterização do género textual, mas não o seria para a caracterização
linguístico-textual dos subtemas analisados.
Definidos os agrupamentos e selecionados os trechos que pertencem a cada
agrupamento, procede-se ao levantamento dos seguintes aspectos linguísticos:
tipos de discurso, organização temporal, formas de expressão da agentividade,
análise das relações predicativas, relações sintáticasemorfossintácticas
envolvidas.
Com isso, ressalta-se que o género debate em sala de aula sobre o
empreendedorismopode trazer, a partir dos agrupamentos temáticos previamente
descritos, ao nível da organização linguístico-textual, algumas informações
relevantes sobre o que os licenciandos pensam ser o empreendedorismo.
Tipos de discurso
Nos trechos relacionados com os vários agrupamentos temáticos é frequente o uso
do mundo do EXPOR em que se evidenciam trechos tanto do discurso teórico quanto
do discurso interativo. Observem-se os exemplos[20] abaixo:
(1) (C.1.2)Eu diriaque amboscriam.. valor. Mas de formas diferentes embora um
seja o valor... embora seja econômica em valor por serviço que pode.. ajudar..
e tem uma ação empreendedora <por>.. >por servir< e pelo que isso possa gerar,
enquanto o outro tem uma ação.. (que)cria um valorque que..pode criar um
valorque é::: quepode ser vital pras pessoas, pode ser (em nível primeiro) pras
pessoasque:: que necessitem..necessitem de alimentos, e que tenham situações..
°mais precárias°..
(2) (C.1.3) Acho queé desta maneira é que o empreendedorismoexiste aqui,porque
estão a tentar transmitir o mesmo produto mas com serviços diferentes, não sei,
pra ver se apela mais às pessoas e acho que no outro não sei se há tanto
empreendedorismo.
(3) (C.2.3) <Porque>são formas de de atingir determinados objetivos.. e e bem
por isso eles também passam um bocadinho pela ação- não sei se será o termo
correto MARKETING.É precisochegar às pessoas e esta é uma forma just-amente pra
mim, vai conseguir antes chegar às pessoas. Ttalvez fins de empreendedorismos
diferentes. Um mais humanitá:rio↑ e de solidarieda:de e outro com fins
nitidamente comerciais.
(4) (C.2.1) Eu acho queo anúncio da TAP é mais empreendedor. Se formos pensar
que o Banco Alimentar, embora esta mensagem seja uma: uma mensagem diferente
daquela daquela XXX mas é uma coisa que já se sa:be. O Banco Alimentar já
existe há um tempo e a mensagem já tá um pouco: ê.. mais divulgada.
Enquanto da Ta: a da TAP. são produtos novos. E são outras formas três formas
de descon:to e é uma coisa nova... até parece que para: â: se calhar responder
de outra forma a necessidade â: dos consumidores.E daí eu acho que o anúncio da
TAP seja mais empreendedor, por ter...de de::ixa de ser uma relação, se calhar
vai ao encontro dâ: dos clientes,uma coisa que não existia antes, e que
satisfazem as necessidades deles numa f- numa ajuda com diferente
clientes.Penso que daíseja mais empreendedor, que o Banco Alimentar embora
também seja, mas é uma coisa que <já está> â falada e as pessoas já têm
conhecimento desse sobre ela. Assim já não é uma coisa nova. Embora no anúncio
possa se vestir de uma forma ou de outra. Mais simples ou mais elaborada, XX
mas em si ado Banco Alimentar é uma coisa que as pessoas já >conhecem< já tem
noção.
(5) (C.5.1/3) Eu pra mimtambém diria que a do Banco Alimentar é sem dúvida
empreendedora↑ conseguir alguém com liderança que <consegue juntar> pessoas das
mais diversas origens sem sem interesses diretos nisto, que antes não te- não
não teriam atitudes dessas conseguir juntá-las com grande espírito de liderança
e fazer isso crescer com o objetivo aqui social mas que doutra forma não seria
possível. Em relação a esta da TAP. Também estou de acordo que isto não será
empreendedorismo, são ações de gestão corrente dia-a-dia, neste caso de
marketing, é... obviamente para captar mais clientes, mas não há aqui,
empreendedorismo. É pur pura gestão... do: do dia-a-dia, °não é d::°
Nos exemplos referidos anteriormente, observam-se características linguísticas
do discurso interativo:
– Marcas pronominais e verbais de 1ª pessoa do singular, demarcando a inserção
do interveniente na interação em curso: “eu diria …”; “acho que …”; “eu acho
que…”; “penso que daí” “eu pra mim”.
– Existência de grupos nominais que remetem diretamente a objetos acessíveis
aos interactantes no espaço-tempo da interação: “o anúncio da TAP”; “a do Banco
Alimentar”.
E também características do discurso teórico, citemos alguns exemplos:
Utilização de verbos no presente do indicativo e do conjuntivo com valor
gnómico de caráter durativo: “criam.. valor”;quenecessitem..necessitem de
alimentos, “Banco Alimentaréuma coisa que as pessoas já >conhecem< já tem
noção”.
– Presença de organizadores textuais com valor lógico-argumentativo: “Masde
formas diferentesemboraum seja o valor... embora seja econômica em valor por
serviço que pode.. ajudar.. e tem uma ação empreendedora <por>.. >por servir< e
pelo que isso possa gerar,enquantoo outro tem uma ação.. (que) ;em relação a
esta da TAP. Também estou de acordo que isto não será empreendedorismo;assimjá
não é uma coisa nova.Emborano anúncio possa se vestir de uma forma ou de outra.
– Presença de modalizações lógicas e várias ocorrências do auxiliar modal
“poder”: pode criar um valorque é::: quepode ser vital pras pessoas, pode ser
(em nível primeiro) pras pessoas”.
Análise das operações de localização abstratas[21]temporais
Como afirmam Bulea & Bronckart (2013: 7), existem três parâmetros que
intervêm nas operações acima referidas, ao nível do significado: o momento do
ato de produção, o momento presumido da ação ou do estado verbalizado no texto
e os eixos de referência temporal que são criados quando da produção textual.
As operações de localização abstratas temporais consistem em estabelecer
relações entre o momento da ação verbalizada textualmente tanto com o momento
do ato de produção, quanto do eixo de referência temporal.
Para cada tipo de discurso, existem operações de localização abstratas
temporais características[22]. Abaixo, são apresentados alguns trechos
relativos aos agrupamentos temáticos e os eixos de referência temporal e de
localização temporal relacionados com eles.
(1) (B.1.3) Ah..sim! Resumidamente eu acho o empreendedorismo tambémpassa muito
por preencher lacunasnão é, pois nós sabemos que: o empreendedorismo está
ligado a nichos de mercado. Tudo já foi inventado é o que se costuma dizer não
é, mas não é verdade! Todos os dias vemos idéias tão simples quanto
brilhantes.. É:: e:: o empreendedorismo passa por isso.Agarrarem ideias â: tão
simples e tão básicas como fome, e como as necessidades básicas, e transformá-
lasnum:: exem num exemplo de sucesso, que eu penso que ainda continuará a ser o
Banco Alimentar, apesar que cada vez haverem mais pessoas é:: a necessitar
deles, dele, ahh: quer dizer, deste serviço e cada vez haver mais pessoas a não
poderem corresponder como gostariam de ser os tais heróis. e:: eu acho que
isso, esta ideia passa.. passa-me por aí. Continuarmos a sentir-nos heróis,
apesar de- das dificuldades que todos sentimos.
(2) (B.2.2.) por que ? <Porque>::vão ajudar a melhoraralgo. °Portanto°? É...vão
teruma reação. Certo? >Pois toda ação há uma reação e as (realizações)vão terde
facto de ser uma reação...<
(3) (B.3.3.) Eu tenho uma opinião diferente da colega. Eu acho queQUEM
contribui também está a tomar uma atitude:: uma >ação< â: empreendedora. Por
que? Porque: não é uma obrigação que nós temos.Nós temos que pagar os impostos,
não temos que dar ud-dinheiro pro Banco Alimentar ou pra alguém que for. [PROF
– XX].Acho que estamos tomando uma atitude empreendedora ao estarmos a dar os
alimentos. Assim como elea criar eu a fazer...
(4) (A.5.3) A criar situações novas↑ nós todos conhecemos s TAP, °não é° até
pode ser que o que está aqui não corresponda muito à verdade.. mas:: o fato é
qu'algo foi te- é: tão a tentar a fazer algo de novo↓sempre a pensarneste caso
no público... °nos clientes XX clientes°
(5) (B.2.1)<Porque> mesmo quand:: da maneira como jogam com com... da maneira
como tentam chegar ao ao:: a quem lê aqui mensagem ou seja, “o Banco Alimentar
precisa precisa do herói que há em si.” eaqui uma ação de empreendedorismo que
é não ficar de braços cruzados à espera que as coisas acontecemhá uma
necessidade, anúncio neste caso eram alimentos, as pessoas precisam de
alimentação e como não tem↑ outra forma↑ e.. aqui o empreendedorismo ou
seja,jogam o caso com o próprio empenhodas pessoas.. não fique de braços
cruzados, chegue-se à frente, dê uma ajuda.
Em (B.1.3), os predicados verbais “preencher”, “agarrar” e “transformar” estão
no modo infinitivo pessoal e marcam a criação de um eixo de referência temporal
não delimitado. A ação verbalizada pode ser simultânea ou posterior ao eixo
temporal demarcado, com uma total independência em relação ao ato de produção.
Contudo, em relação à questão temporal, merece relevância a comparação que pode
vir a ser estabelecida entre os tipos de situação expressos pelos enunciados.
No primeiro trecho, o predicado “preencher” representa uma situação designada
por evento prolongado. No caso, o que é importante salientar é que o predicado
“agarrar” refere-se uma situação que representa um evento instantâneo[23] e o
“transformar” um evento prolongado. Na verdade, para que este último se realize
existe respetivamente a passagem de uma fronteira de abertura para o evento e a
passagem de uma fronteira de fechamento. É esta passagem de fronteiras que
caracteriza o processo de construção do agir empreendedor. Ainda, o predicado
“preencher” representa também uma situação designada por evento prolongado.
Contudo, vale a pena ser ressaltado o uso da forma perifrástica com o verbo
“passar” que transmite ao enunciado em análise um caráter durativo, ressaltando
o processo de construção do agir empreendedor e não enfatizando o resultado
final deste processo.
Em (B.2.2), o valor temporal – marcado por uma forma perifrástica do futuro
(vai ajudar a melhorar, vão ter) é de posterioridade em relação ao momento de
produção, com a criação de um eixo de referência temporal delimitado. O valor
aspetualé assim perfetivo em relação ao momento de produção sendo assim o
acontecimento linguístico expresso no enunciado é perspetivado como um todo, a
partir de um localizador aspetual To.
Dessa forma, vale a pena ser ressaltado que o uso dessas formas verbais
perspectiva o que se espera como resultado do agir empreendedor: o facto de
ajudar a melhorar; o facto de ter “algo”.
Em (B.3.3) e (A.5.3), existem várias incidências de verbos, com valor de
simultaneidade em relação ao momento de produção. O valor temporal destes
verbos é expresso em português pela forma perifrástica – a forma progressiva –
do presente gramatical do verbo estar, acompanhado com gerúndio (mais
característico do português do Brasil) ou pela preposição a + modo infinito:
estamos tomando uma atitude empreendedora ao estarmos a dar os alimentos. Assim
como ele [está]a criar eu a fazer. Ou ainda, tão a tentar a fazer algo de
novo↓sempre a pensarneste caso no público.
Na verdade, existe, a partir da seleção linguística dos predicados verbais
acima indicados, a criação de eixos de referência temporal não delimitados,
salientando o processo de realização do acontecimento linguístico e o processo
de construção do agir empreendedor.
Em (B.2.1.), observamos a criação de um eixo de referência temporal não
delimitado, sendo que a ação verbalizada pelo infinitivo negativo “não ficar”
está incluída no eixo de referência temporal. O momento de produção não é
pertinente para a realização do acontecimento linguístico. Na verdade,
poderíamos interpretar a expressão linguística “não ficar de braços abertos”,
como uma das qualidades necessárias ao agir empreendedor. O que importa é “ter
atitude”, “ser “pró-ativo” para a construção do agir empreendedor.
Análise dos modos de expressão da agentividade[24]
Em relação à agentividade, esta análise tem por objetivo verificar as
diferentes formas linguísticas de expressão dos indivíduos envolvidos na
reflexão dos licenciados sobre o agir empreendedor. Os agentes participantes
desse agir são muitos: o do próprio licenciado que emite as suas opiniões neste
género textual específico, o das próprias empresas cujas ações empreendedoras
são analisadas, a dos agentes que ´encenam´ os anúncios publicitários (de um
lado, o cliente; do outro, o voluntário), agentes não identificados
linguisticamente (demarcados por sintagmas nominais ou marcas de sujeito
indeterminado). Há, ainda, a do próprio criador das campanhas publicitárias.
Abaixo, são apresentados os diversos agentes são e a forma como são
´semiotizados linguisticamente´.
– Intervenientes do debate[25]: São várias as marcas linguísticas de 1ª pessoa
do singular ou plural, através de verbos; pronomes pessoais oblíquos;
expressões nominais, salientando o processo de reflexão dos alunos sobre o que
é o agir empreendedor:
(6 a)eu consideroque; eu referiaí; eu achoque; evejoação empreendedora; eu
associo; nós estamosa contribuir para algo; continuarmosanossentir heróis;
somoso impulsionador do empreendedorismo.
(6 a) paramim; prámim
a. Instituição empresarial e de benemerência (presença de sintagmas nominais,
explicitando a instituição; pronomes indefinidos; marcas linguísticas de 3ª
pessoa do plural (referentes a pessoas não identificadas das instituições)
(8 a)O Banco Alimentar;
(8 a) tão a tentar a fazeralgo de novo sempre a pensar neste caso no público.
– Anúncio publicitário (numerais cardinais, pronomes indefinidos e
organizadores textuais)
(11) (C.2.3) os doisconseguem da mesma forma.
(12)(C.1.2) ambos criam valor
(13)(C.1.3) ummais com fins â comerciais [...]eoutroâ é mais com o objetivo
humanitá::rio;
(14) (C.2.3) um dumaforma mais humanitária e ooutro dotraforma conseguem chegar
lá
(15) (C.2.3) Portantopara que a pessoa participa duma ação olha mais pro
próximo eo outroé uma coisa que a pessoa vai optar ou não.
E, muitas vezes, embora estes não estejam diretamente mencionados, são
implicitamente colocados através do emprego de verbos que selecionam
semanticamente um argumento externo (Agente) que é caracterizado pelos
seguintes traços semânticos [+Animado, + Vontade], sendo o controlador e o
provocador da ação empreendedora.
Observe-se a seguir:
(16) (C.1.2) Eu diria que amboscriam.. valor. Mas de formas diferentes embora
um seja o valor... embora seja económica em valor por serviço que pode..
ajudar.. e tem uma ação empreendedora <por>.. >por servir< e pelo que isso
possa gerar, enquanto o outrotem uma ação.. (que)cria um valorque que..
podecriar um valorque é::: que pode ser vital pras pessoas, pode ser (em nível
primeiro) pras pessoas que:: que necessitem..necessitem de alimentos, e que
tenham situações.. °mais precárias°...
Ou ainda, um argumento interno que enfatize o resultado deste agir
empreendedor:
(17) (C.2.2) Eu acho que os dois é ..são são empreendedores, sendo queos dois
chegam a um ponto que é chegar a mensagem a alguém. E os dois conseguem isso da
da mesma forma, um duma forma humanitária e o outro dotra forma conseguem
chegar lá. Eles têm que dar um sentido XX sair do stress e chama um bocado a
atenção por isso... quando é que a imagem das nuvens possibilita dar cabo do
stress então a pessoa pensa sempre ch- tá sempre a pensar nas férias pra
chegar.. Ah:: XX do stress, descansar um pouco.
Nos sintagmas verbais assinalados, há predicados complexos compostos pelo verbo
chegar e por sintagmas nominais com diferentes funções sintáticas. No caso, o
argumento externo “os dois” demarca o agente do processo, demarcando a
intencionalidade na realização de um agir empreendedor por parte das empresas.
(18) (B.1.3) tem que haver alguém com idéias↑com: capacidade pra elaborar↑ pra
desenhar↑ pra: porque um herói ((faz gesto de abrir a camisa como super homem))
ah:: @@ tipo super homem↑ não é.. e neste a mesma coisa! porque assim a
publicidade nos dá é mesmo empreend-dorismo não é, se não houver
empreendedorismo de quem tá a fazê-la, não há transmissão de idéias..
–Pessoas com papel social de cliente (este agente é recorrente quando o
referente é a instituição empresarial, demarcado pelo sintagma nominal
pluralizado “os clientes”)
(19) (A.5.2) se calhar vai ao encontro dosclientes
(20) (A.5.2) sempre a pensar neste caso no público... nos clientes
– Pessoas com papel social de heróis que participam como voluntários (este
agente é recorrente quando o referente é a instituição sem fins lucrativos). O
sintagma nominal herói é frequentemente acompanhado por marcas pronominais de
primeira pessoa do plural.
(21) (B.2.1) Todostemosum super dentro denós
(22) (B.3.1)Porque o Banco Alimentar neste caso está a ajudar a alimentar
alguém... e neste caso está anosdeterminar comoheróis.
–Pessoas com papel social de voluntário são frequentemente semiotizadas por
marcas de 1ª pessoa, 2ª pessoa do singular e de 1ª pessoa do plural (verbais,
pronominais), pelo sintagma nominal genérico “pessoas” ou “a gente” (sendo
substituído por pronomes oblíquos).
(23)(B.2.3) Portanto para quea pessoaparticipa duma ação olha mais pro próximo
e o outro é uma coisa que a pessoa vai optar ou não.
(24) (B.2.1) Todostemosum super dentro denós
(25) (B.3.3) Um diapodesajudar várias pessoas (...)possoajudar imensas
pessoas...
(26) (B.3.3)Acho queestamostomando uma atitude empreendedora aoestarmosa dar os
alimentos.
(27) (B.3.3) Acho quenós somoso papel principal no caso do Banco Alimentar. Sem
osnossosalimentos não havia a ação do Banco Alimentar.Somoso :: IMPULSIONADOR
do empreendedorismo.
(28) (B.2.3) Venhaparticipar!
(29)(B.3.3) Todas as pessoaspodem colaborar.
(30) (B.1.1/3) Jogam o caso com o próprio empenho das pessoas.
(31) (B.2.3) Toda a gentese pode transformar e o que eles estão a tentar dizer.
(32) (B.5.3)Conseguir juntá-lascom grande espírito de liderança e fazer isso
crescer com o objetivo social.
–Agente produtor do anúncio (TAP/BA) não explicitado claramente
(33)(A.1.3) Acho que é desta maneira é que o empreendedorismo existe aqui,
porqueestãoa tentar transmitir
(34) (A.1.3) Tem que haveralguémpor trás que tenha a ideia. Tem que haver um
empreendedor, tem que haver alguém com ideias (...)
–Agente idealizador do produto com caráter empreendedor (demarcado
linguisticamente pelo uso do infinitivo não flexionado)
(35) (A.5.3) Criaruma coisa nova que alguém nunca criou e avançar com ela
(36) (B.1.3)Agarrarem ideias â: tão simples e tão básicas como a fome, e como
as necessidades básicas, etransformá-las num :: exem num exemplo de sucesso.
– Pessoas com papel social de beneficiário de uma campanha social
(37) (B.1.2) Pessoasque necessitem de alimentos
(38) (B. 3.1) Posso ajudarimensas pessoasa comer o ano inteiro se for preciso.
Análise das relações predicativas indiretas
É consensual que toda a proposição que está na origem do enunciado é uma
relação predicativa. Esta tem um sentido que corresponde à relação entre os
diversos termos que a constituem, a saber: entre o predicado e os argumentos.
Contudo, frequentemente, podem existir marcas linguísticas (modalidades) também
presentes. No caso, consideramos assim como Bulea & Bronckart (2013: 8), a
existência de relações predicativas indiretas. Estas podem ser tanto apresentar
marcas de modalização específicas (talvez, certamente ...); quanto marcas
linguísticas que atestem valores diversos: epistémicos, deônticas,
apreciativas, pragmáticas, aspetuais ou de operação psicológica[26].
Nos exemplos abaixo são inúmeras as marcas linguísticas com valor epistémico,
pragmático, aspetual. Lembremos que este género é um debate de ideias em sala
de aula. Os licenciandos têm uma representação interiorizada das relações
interpessoais estabelecidas entre professores e alunos na sociedade portuguesa.
Por isso, talvez, o grande número de relações interpessoais com valor
epistémico. Os licenciandos não querem se posicionar com muita certeza sobre
aquilo que afirmam. As modalizações pragmáticas atestadas vão ao encontro do
próprio tema discutido na sala de aula o empreendedorismo retratado nos
anúncios publicitários visualizados.
(39) (C.1.3) ENQUANTO O OUTRO TEM UMA AÇÃO... CRIA UM VALOR QUE QUE
...PODECRIAR UM VALOR QUE É::: QUEPODESER VITAL PRAS PESSOAS
(40) (B.1.3)Agarrarem ideias â: tão simples e tão básicas como a fome, e como
as necessidades básicas, etransformá-lasnum:: exem num exemplo de sucesso.
(41) (A.5.3)Tão a tentar a fazeralgo de novo sempre a pensar neste caso no
público
(42) (C.3.1/3)Acho que: os dois são empreendores tanto XXestá a ajudar, mas nós
tambémestamos a contribuirpara algo...estamos a ajudaralguém. Logo...
(43) (A.3.3) Estão a tentar transmitiro mesmo produto com serviços diferentes.
(44) (C.1.2)Eu diria queambos criam... valor
(45) (A.1.?)Eu acho queisso, esta ideia passa... passa-me por aí
(46) (A.5.2)Podepassar por CRIAR UMA COISA NOVA que alguém nunca criou.
(47) (A.1.2)se calharvai ao encontro dâ: dos clientes.
(48) (B.5.1)Eu pra mim também diriaque a do Banco Alimentar ésem
dúvidaempreendedora.
5. Considerações finais
Através dos recursos linguístico-textuais observados nos dados empíricos,
observa-se que existem formas com ´tonalidades distintas´ de interpretar,
relativas a um agir empreendedor empresarial, a um social ou ainda aos dois
(estabelecendo uma comparação entre ambos). Através do levantamento dos tipos
de discurso, das operações de localização temporais, das marcas de agentividade
e das relações predicativas analisadas, pode-se definir o que, aqui, se
denomina figura competencial. Esta refere-se às formas de interpretação das
qualificações, das competências exigidas para que um agir empreendedor se
configure. Evidentemente, serão as configurações linguístico-textuais que nos
permitirão salientar estas competências. Como foi observado pelo levantamento
dos sub-grupos temáticos relativos àquilo que os licenciandos pensam sobre o
agir empreendedor (qualidade(s), resultado(s), processo(s)), existe um alto
índice de elementos que pode evidenciar a relevância dada a todos os processos
e às qualidades que caracterizam o agir empreendedor. Esses processos são
evidenciados de forma muito pouco diferenciada nas duas atividades (a
empresarial e a de benemerência). Como foi observado, as tonalidades distintas
na forma de interpretar o ´processo´ do agir empreendedor deu-se,
fundamentalmente, na ´flutuação agentiva´ observada quando o referente era o
Banco Alimentar; aspeto não tão evidenciado quando o referente era a empresa de
aviação. Além disso, observa-se a pouca incidência dos agrupamentos temáticos
relativos a resultados. Salienta-se que as figuras competenciais foram
identificadas a partir do que os licenciandos pensam sobre o agir empreendedor,
como o definem[27]. Esse facto pode ser uma hipótese para a pouca relevância
dada pelos licenciandos aos resultados dos tipos de agir observados.
Como salientou-se anteriormente, foram apresentados aqui os resultados da 3ª
etapa do desenvolvimento do trabalho de pós-doutoramento. Através desses
resultados e dos demais obtidos nas outras etapas da pesquisa, poder-se-ão
obter pistas importantes para o desenvolvimento de uma atitude empreendedora
junto a estudantes do 3º ciclo.