A Descoberta do Inconsciente no Século XIX Português
Paris, Lisboa, Índia e Austrália
Aproximava-se o final do século XIX quando Cândido de Figueiredo (1846-1925)
publicou o romance Lisboa no Ano Três Mil. Este famoso autor de dicionários,
membro da Academia, conta o que se passou durante a visita de um hipnotizador a
Lisboa. O protagonista da sua obra epistolar foi a uma sessão sugestiva de um
tal Ângelo Das, doutor e conde. Os termos utilizados pelo dicionarista e
escritor (hipnotizador, vida sugestiva, sono hipnótico) podem surpreender, mas
são rapidamente interpretados como descrições de um fenómeno que havia sido
anteriormente denominado magnetismo, magnetismo animal, mesmerismo, fariismo e
braidismo, e que posteriormente passou a ser conhecido como hipnotismo. As
pessoas ainda hoje consultam terapeutas, psicólogos, psicanalistas, psiquiatras
e outros profissionais em busca da resolução de problemas de ordem afetiva,
cognitiva ou comportamental. O romance de Cândido de Figueiredo tem tudo para
não surpreender um leitor contemporâneo. Afinal, o narrador parece procurar
auxílio junto de um especialista do psiquismo humano. A surpresa surge,
contudo, quando se repara que isso de facto não acontece. Não está em causa
nenhum tipo de problema mental que precise de uma viagem às memórias esquecidas
do narrador e aos segredos do seu coração emocional. O assunto não é de todo
pessoal. O cliente do hipnotizador não está interessado nas suas próprias
memórias, nem apresenta problemas afetivos a resolver. Ele sabe que o Doutor
Das o pode levar a conhecer todo o passado e todo o futuro. Basta escolher a
época histórica que se deseja visualizar e manifestar essa preferência ao
hipnotizador. Deste ponto de vista, este romance de 1892 é exclusivamente uma
obra de ficção. O cliente do Conde pergunta-se com espanto, Que deveria eu
fazer durante o sono hipnótico? Ocorreu-me uma grande e legítima ambição: viver
no futuro; guindar-me ao vértice das civilizações vindouras, e estirar a vista
por todo o passado, abrangendo num lance de olhos todas as sociedades extintas
e todo o quadro ingente dos progressos humanos. Devia ser um momento
assombroso (2003: 8).
Este texto merece reflexão. A imaginação de Cândido de Figueiredo é um enigma
da história intelectual oitocentista. Por que razão o autor associa técnicas de
acesso ao inconsciente a épocas histórias distantes no tempo? A viagem ao
inconsciente de uma pessoa através de técnicas hipnóticas possibilita o acesso
ao passado humano em geral, e não ao passado do próprio sujeito hipnotizado, e
o acesso ao futuro da humanidade, para além do tempo de vida do cliente do
hipnotizador. O inconsciente não é visto como um repositório das experiências
privadas de alguém mas como uma instância do psiquismo humano com as
propriedades que o escritor argentino Jorge Luís Borges atribui ao álefe num
dos seus contos, um ponto de todos os pontos, um ponto a partir do qual se pode
ver qualquer outro ponto do mundo, esteja ele no passado distante ou no futuro
remoto. O hipnotizador Ângelo informa o seu cliente de que existem dificuldades
técnicas para se aceder a qualquer época histórica, mas que não são muito
grandes e derivam apenas da disponibilidade de agenda da pessoa para as muitas
sessões necessárias. Havendo tempo, será possível conhecer diretamente qualquer
data no passado ou no futuro. Diz ele, para ler toda a história do futuro,
seria mister um sono hipnótico de muitos meses ou de muitos anos, e à
dificuldade acresceria o perigo (ibid.). Compreendendo essas dificuldades, o
alter-ego de Cândido de Figueiredo opta por uma data precisa do futuro, o ano
três mil. No decurso da sessão hipnótica, o sugestionado consegue visualizar
que nessa altura o país mais poderoso do mundo será a Austrália e que todas as
pessoas da terra falarão uma só língua, o Volapük. São muitos os aspetos
interessantes desta fantasia literária de 1892. A representação angustiada que
um intelectual europeu finissecular faz sobre a decadência futura da Europa e o
desaparecimento do seu próprio país é digna de nota. O mesmo pode ser afirmado
a respeito do sonho utópico de todos os homens falarem uma só língua, um sonho
surpreendente num beletrista português, porque a história cultural lusitana
nunca foi atormentada pela diversidade linguística, sendo este um assunto que
se associa imediatamente à Europa Central. A utilização da técnica do
observador estrangeiro para a crítica social do final do século XIX é, talvez,
o aspeto do texto cujo passado é mais facilmente identificável devido ao
honroso paradigma das Cartas Persas, de Montesquieu. Estes aspetos enquadram
uma representação do inconsciente humano que é rica em surpresas.
O problema filosófico é este: um leitor contemporâneo não se reconhece neste
conceito de inconsciente. Parece faltar tudo o que é relevante para a definição
de inconsciente que se pode encontrar em qualquer obra de referência da nossa
época. Falta a ligação à vida pessoal; falta a determinação do comportamento e
a influência sobre os estados de saúde do sujeito; falta o silêncio do
inconsciente e o papel que a linguagem desempenha na recuperação desses dados
quase inacessíveis e na interpretação dos pequenos sinais que apontam para essa
instância do psiquismo humano. O romance de Cândido de Figueiredo representa um
inconsciente em tudo diferente: não parece ter ligação à vida pessoal; não
determina o comportamento do hipnotizado; não influencia o estado de saúde; com
a técnica correta, tem muito a dizer; não depende da interpretação de sinais e,
neste sentido, é mais silencioso do que a noção de inconsciente da nossa época;
não é decisivo na vida das pessoas porque estas podem viver sem aceder aos
dados possibilitados pelo seu próprio inconsciente. Esta pequena lista de
diferenças causa surpresa, como se disse. No entanto, este texto da última
década do século XIX português só é surpreendente para nós; dificilmente
causaria surpresa junto dos contemporâneos do famoso dicionarista, escritor e
tradutor. Aliás, a obra é recordada devido à crítica social bem-humorada, aqui
e ali mordaz, do Portugal da época, lido do ponto de vista de um observador
estrangeiro do futuro remoto, e não devido ao seu contributo para a noção de
inconsciente. A falta de surpresa de uns e a surpresa de outros são reveladoras
das vicissitudes desta noção importante para a representação da mente humana.
A falta de surpresa de uns tem uma boa justificação. Recuando de 1892 para
trás, até ao início do século XIX, encontram-se outras grandes manifestações
desta noção de inconsciente. José Custódio de Faria, universalmente conhecido
como Abade de Faria (1746-1819), propõe uma conceção semelhante na sua obra Da
Causa do Sono Lúcido, ou Estudo da Natureza do Homem, publicada em Paris, em
francês, em 1819. Para o Abade de Faria, um português natural de Goa, na Índia,
o sono lúcido, que considera uma forma aperfeiçoada do sonambulismo natural,
tem a propriedade de desenvolver nos hipnotizados conhecimentos sublimes, que
não tinham jamais adquirido pelo estudo e que, além disso, abarcam todo o
espaço de tempo e de lugar; ou seja, o passado, o futuro e todas as distâncias.
É certo que esses conhecimentos são muitas vezes misturados com erros graves,
mas não deixam de atingir também em certas ocasiões verdades constantes
(II.1). Os epoptas do Abade de Faria, um neologismo que ele usa para designar
aqueles que veem tudo de forma manifesta (II.2), têm uma intuição que é uma
fruição simultânea de funções semelhantes às dos cinco sentidos e para além
deles, sem entraves de qualquer distância de tempo e de lugar. Significa que
ela abarca todas as propriedades do corpo acessíveis ao homem e muitas outras
que lhe são inacessíveis, sem que o passado, o futuro e a distância coloquem
qualquer obstáculo (II.10). Como se vê, o livro parisiense, apartado por mais
de sete décadas do livro lisboeta, oferece uma noção semelhante de
inconsciente. Esta instância da vida mental possibilita dados que ultrapassam
em muito o tempo de vida de cada pessoa que é magnetizada', sugestionada' ou
hipnotizada. As dificuldades de aceder a esses dados são igualmente pequenas.
Faria alude a uma mistura de verdades e de erros, mas o seu pensamento é claro
ao afirmar que não há obstáculos nesse acesso.
Para se compreender a natureza excecional que este livro atribui à instância
anímica, que retrospectivamente se poderia considerar uma das primeiras
representações da noção de inconsciente, é necessário elencar as propriedades
que Faria vê nela. Cândido de Figueiredo, interessado profissionalmente nos
estudos linguísticos, não sublinha o trabalho da linguagem no acesso à memória
profunda. O seu hipnotizador realiza gestos com mestria: sem pronunciar uma
palavra mais, sentou-se defronte de mim Abriu as mãos e espalmou-mas nas
regiões temporais, obrigando-me a fixar os olhos no seu olhar, vivo, penetrante
e ao mesmo tempo imóvel (ibid.). O Conde limita-se a dar um comando verbal
para que o hipnotizado escreva tudo o que vê. O papel diminuto da linguagem no
acesso ao inconsciente é compensado pela utopia futura de uma língua comum a
todos os povos da terra. Para o Abade de Faria, o magnetismo hipnótico
manifesta o dom pentecostal das línguas. Para ele, os epoptas têm alegadamente
a capacidade de compreender línguas estrangeiras que não estudaram, e a
capacidade complementar de ler o pensamento dos outros, na condição de ser
estável (III.9). Faria e Figueiredo apoucam o papel instrumental da linguagem
como via de acesso ao inconsciente mas compensam esta limitação com referências
à utopia da superação das diferenças linguísticas entre os povos e as pessoas.
Entre um e o outro há uma diferença subtil. O dom das línguas que o primeiro
julga ver nos seus epoptas, com traços evangélicos óbvios, é transformado pelo
segundo num assunto meramente humano: os povos do futuro falarão a língua
artificial de Johann Martin Schleyer (1831-1912).
Pequenas diferenças surgem também a respeito dos correlatos da visualização
hipnótica. O Abade de Faria não limita os poderes do sono hipnótico ao que
existe, esteja no passado ou no futuro, mas entra no campo modal do que poderia
existir e não chega a existir de facto. Este traço é surpreendente. Diz ele: o
ouvido, por exemplo, não pode escutar aquilo que não se diz; mas nos epoptas
escuta o que foi dito outrora e o que se dirá um dia. No entanto, há também
ocasiões em que ouvem o que nunca foi dito e o que nunca se dirá jamais
(III.4). Figueiredo, como se viu, aceita que os hipnotizados acedam a todo o
passado e a todo o futuro, no sentido em que são coisas que já existiram ou que
existirão realmente. Não é equacionado o problema modal de o futuro poder ser
diferente; o hipnotizado vê um futuro que existe assim como o presente também
existe e o passado já existiu. Faria, pelo contrário, outorga aos seus clientes
em estado de sono lúcido a capacidade de poder visualizar os possíveis, mesmo
que nunca aconteçam realmente. Sublinhe-se novamente este ponto, nas suas
próprias palavras: il est aussi des occasions où ils écoutent ce qui n'a
jamais été dit, et ce qui ne se dira jamais. Figueiredo limita a ideia
vertiginosa de se poder aceder ao campo infinito do possível fazendo com que o
seu hipnotizado só veja o que existiu ou existirá realmente, e não o que
poderia ter existido, mas não existiu, e o que poderá existir, mas que nunca
existirá.
À linguagem e à possibilidade, há que acrescentar a compreensão que uma pessoa
tem das outras. A relação entre hipnotizador e hipnotizado parece descrever o
acesso completo de uma pessoa às memórias de outra pessoa. Estes dois autores
do século XIX português equacionam o problema de modo muito diferente. Ângelo
Das não acede às memórias pessoais do cliente que o procura, e este, por sua
vez, não intui o que as pessoas do futuro sentirão. Os epoptas de Faria, pelo
contrário, são descritos como possuindo o dom da intuição ilimitada dos estados
de espírito à sua volta. O concentrador ou hipnotizador não tem, por sua vez, o
dom da intuição sobre o concentrado ou sobre o cataléptico. (Faria recusou as
designações de magnetismo animal, fluido magnético e magnetizador, propondo as
de concentration, concentrateurs e concentrés.) O que o Abade afirma sobre a
capacidade de clarividência, ou intuição total sobre as emoções e os
pensamentos de outras pessoas, não é, pois, imitado por Figueiredo. O viajante
no tempo futuro não tem o dom de intuir o que se passa no coração das pessoas
que encontra, limitando-se a falar com elas e a ler a sua correspondência. O
hipnotizador não tem o dom da intuição, tal como o concentrador de Faria.
Apesar destas pequenas diferenças, vê-se que Cândido de Figueiredo baseou o seu
romance fantástico numa tradição muito velha sobre os alegados poderes do
inconsciente humano. Na última década do século XIX, este romancista contribuiu
para limitar o inconsciente aos seres humanos e ao conjunto das coisas que
existem ou existirão de facto. O processo que medeia entre estas sete décadas
pode ser interpretado como uma tendência para privatizar o inconsciente,
localizá-lo com precisão em pessoas concretas que vivem vidas autónomas. Esta
privatização do inconsciente acompanhou uma idêntica privatização da
consciência. Afinal, se o Abade acreditava que os epoptas têm o dom da intuição
do que se passa na mente de outras pessoas, a consciência humana não é
totalmente subjetiva do seu ponto de vista. Alguém poderá sentir o que outra
pessoa está a sentir. Esta possibilidade era totalmente inaceitável pela
ciência do final do século XIX. Faria rir autores como Bettencourt Raposo ou
Bombarda. Neste sentido, aconteceu uma privatização de todo o edifício mental,
seja consciente, seja inconsciente. Passou a ser inconcebível que estes aspetos
da mente humana possam unir diferentes pessoas. Faria, como é evidente, não é o
início desse processo. Será possível encontrar na tradição científica europeia,
para não mencionar a filosófica ou a religiosa, manifestações anteriores da
curiosidade a respeito da alegada capacidade de existir uma intuição ilimitada
sobre os estados anímicos das outras pessoas.[1] Será também possível
identificar muitos exemplos de teorias que irmanam o psiquismo humano a um
psiquismo mais alargado, como o pampsiquismo antigo, moderno e, até,
oitocentista (e.g. a teoria da vibração universal de Miguel Bombarda).
Figueiredo não é, por seu lado, o ponto final dessa tendência; é um ponto
intermédio, que auxilia a compreender como é que uma noção muito vasta foi
diminuindo o seu escopo progressivamente. É agora evidente por que razão a
surpresa dos seus contemporâneos se limitou à crítica social do romance, mas
não parece ter incluído os traços com que o autor caracterizou o sono hipnótico
ou as técnicas de acesso à paradoxal memória do futuro.
O inconsciente, a linguagem, a intuição e a visualização são faculdades ou
instâncias da mente humana. Viu-se como estes dois autores relacionam algumas
destas instâncias entre si. A relação entre o inconsciente e os estados
conscientes, determinando ou não a vontade consciente e o comportamento, é um
aspeto decisivo da noção hodierna. A tradição em que Faria e Figueiredo se
inserem incluía uma relação especial entre o inconsciente e o estado de saúde.
O Abade menciona muitas vezes a capacidade de o estado hipnótico curar por si
mesmo as doenças de que padece o hipnotizado. Havendo um auxílio exterior, essa
cura será muito mais rápida e eficaz; não havendo esse auxílio, as
características do inconsciente determinam o estado de saúde da pessoa. O sono
lúcido de Faria parece amplificar as capacidades curativas do sono normal:
está fora de dúvida que, se uma doença, por mais grave que seja, for
acompanhada pelo sono lúcido, terá sempre todas as facilidades que convêm a
esse estado benéfico para ser tratada sem nenhum auxílio externo (III.). Faria
acrescenta imediatamente o que justifica o poder curativo do sono lúcido. O
inconsciente parece uma manifestação da sabedoria da natureza no ser humano.
Diz ele, através deste meio, a natureza conserva ainda no doente todos os
direitos maternais para o curar, se for auxiliada por um guia hábil (III.8).
Estão aqui vários aspetos da noção de inconsciente que não irão desaparecer tão
cedo. O primeiro deles é o de que o inconsciente é benéfico por si mesmo. Numa
tradição médica completamente diferente da tradição religiosa do Abade de Faria
e da tradição literária de Cândido de Figueiredo, haveremos de reencontrar esta
ideia na observação de Miguel Bombarda quando afirmou que a consciência é um
acidente, é um obstáculo desagradável, e quando deu a entender que todos os
seres humanos seriam muito mais felizes se vivessem sem consciência, isto é, de
forma automática, de um modo literalmente inconsciente.
Um segundo aspeto tem a ver com o equilíbrio entre as diversas faculdades ou
partes da estrutura da mente humana. A alusão do Abade de Faria aos direitos
maternais da natureza (la nature conserve encore sur le malade tous ses droits
maternels pour le soigner, III.8) denunciam um mal-estar em relação à
atividade consciente e voluntária das pessoas, como se o peso das decisões
livres que se tomam ao longo da vida danificasse, de algum modo, o estado de
saúde das próprias pessoas. É curioso ver como tradições tão diferentes sobre o
inconsciente compartilham uma visão comum. A recomendação que estas tradições
fazem é a de que é melhor viver a dormir, apoucando sempre que possível a
esfera da decisão consciente. Esta recomendação acabou por influenciar a
perceção comum, entendimento que se manifesta, por exemplo, no conselho para
ter uma boa noite de sono antes de decidir assuntos importantes. Esta forma de
olhar para a atividade consciente denuncia um incómodo em relação à vida
acordada, uma angústia em relação às decisões que se têm de tomar. A segunda
metade do século XIX, pela mão dos médicos psiquiatras e dos publicistas que
apoiavam a interpretação materialista das relações entre o cérebro e a mente,
irá levar às últimas consequências este mal-estar em relação ao comportamento
livre, defendendo a tese de que a consciência é impotente para influenciar as
decisões dos indivíduos, agindo estes por determinação completa do
inconsciente.
Um terceiro aspeto terá um futuro rico e preocupante. Trata-se da capacidade de
direcionar o inconsciente, de aproveitar de algum modo as suas virtudes. O
Abade de Faria foi um dos primeiros autores a reparar no papel do guia hábil na
descida ao estado sonambúlico, magnético, concentrado ou hipnótico. Este guia
hábil poderá auxiliar a natureza a curar uma enfermidade, como afirma com
otimismo; Figueiredo sublinha, por sua vez, o acesso a informação que poderá
ser usada para satisfazer interesses benéficos ou de outra natureza. Numa obra
de crítica social, o mundo do ano três mil serve de comparação com os anos
noventa do século XIX. Como é evidente, se é possível conhecer o ano três mil,
por maioria de razão será possível saber o que se passará meia dúzia de anos no
futuro de alguém, podendo usar-se essa informação de modo eventualmente
prejudicial. A possibilidade de determinar inconscientemente o comportamento de
alguém e de realizar, em consequência, objetivos menos nobres, faz parte da
história rica e atribulada desta noção.
II
Uma Descoberta Popular e Académica
Estes dois autores, já pouco conhecidos, são exemplos do modo como a noção de
inconsciente se foi constituindo ao longo do século XIX português. Os seus
contributos para a precisão deste conceito são muito relevantes porque apontam
para uma parte da mente humana cuja existência se suspeitava há muito tempo.
Mais, são indícios de que a mente humana tem uma estrutura, e que, precisamente
por isso, não pode ser um efeito secundário desprezível da atividade do
cérebro. Tomando o exemplo destes autores, são muitas as perguntas que se podem
colocar a respeito da história intelectual deste conceito: como é que se
descobriu esta parte importante da atual representação da mente humana? Como é
que surgiu este conceito tão importante para a avaliação que o Direito faz do
comportamento humano? Em que época é que se reparou no assunto?
Estas questões são muito grandes e é difícil responder com detalhe a cada uma
delas. A noção de inconsciente é hoje tão importante que muitas áreas do saber
a reclamam: ela está presente na Medicina, na Psicologia, no Direito e na
Filosofia. Para além destas áreas, outras existem que reclamam o conceito e o
utilizam amplamente, de modos menos óbvios. Alguns biólogos pensam que é
importante que esteja na explicação dos padrões das formas biológicas e em
certos comportamentos animais. Na Ciência da Computação o mesmo acontece,
porque esta tenta simular estruturas cognitivas em sistemas técnicos que não
sentem o que quer que seja, e que são, por conseguinte, literalmente
inconscientes. Todas as ciências que chocam de frente com o problema da
criatividade humana também têm de identificar a certa altura a fonte de onde
promanam as ideias novas.
Como se vê, o assunto é muito vasto. A noção de inconsciente começou a ser
investigada muitas décadas antes de Freud. Existe hoje uma ideia clara de como
a noção se estruturou, graças aos trabalhos de Lancelot Law Whyte (1960), Henri
Ellenberger (1970), de Alison Winter (1998) e de Frank Tallis (2002), entre
outros. O caso português é menos conhecido e, não fora o protagonismo do Abade
de Faria em França, pareceria completamente marginal. Esta perspetiva só pode
derivar de um conhecimento insuficiente do detalhe do contributo português para
a noção de inconsciente. É verdade que muitas destas ideias atravessavam toda a
Europa ocidental; o caso português revela, contudo, duas características muito
acentuadas. A primeira é a quantidade elevada de autores que escreveram sobre
este assunto, em número que indicia uma grande curiosidade pelo tema. A segunda
é a rápida aplicação do conceito a situações concretas, nomeadamente nos
relatórios médico-legais (Bombarda, Júlio de Matos), na interpretação de
aspetos do fenómeno religioso (José Alfredo Mendes de Magalhães), e na
formulação de teorias completas do psiquismo humano (Bettencourt Raposo, José
de Lacerda, etc.).
Infelizmente, boa parte destes autores são desconhecidos do público culto. A
estrela de Freud teve uma luz tão intensa que eclipsou muitos autores
anteriores, incluindo os portugueses. Em Portugal existiu um grande número de
autores que, dentro e fora das universidades, publicaram obras sobre aspetos da
mente humana, contribuindo assim para a descoberta da noção de inconsciente. Ao
longo do século XIX, vários autores continuaram o legado do Abade de Faria.
Pense-se em autores como Augusto Soares Ramalho, que dedica ao assunto a sua
dissertação inaugural em Medicina, com o título Os Sonhos: Estudo de
Psicofisiologia (1881); Joaquim Martins Teixeira de Carvalho, que publicou em
1888 uns Estudos sobre Sugestão e suas Aplicações. I. Terapêutica Sugestiva;
nesse mesmo ano, o médico açoriano Gil Mont'Alverne de Sequeira publica o seu
Hipnotismo e Sugestão, um livro que teve duas edições, em 1888 e em 1889; o
médico Hipólito Francisco Álvares dedicou a sua dissertação inaugural do final
do curso médico à questão O Que é o Hipnotismo? Suas Aplicações, Vantagens e
Perigos (1889); o cónego Manuel Anaquim publicou A Moderna Questão do
Hipnotismo (1895) e, poucos anos depois, O Hipnotismo (1906); o médico José
Caetano de Sousa e Lacerda, que introduziu em Portugal a questão da
neurastenia, interessou-se pelo inconsciente na série de artigos com o título
comum de Hipnologia, que publicou em 1897 nos Arquivos de Medicina; o pedagogo
Manuel Ferreira-Deusdado e o médico J. Bettencourt Ferreira exploraram as
ligações possíveis entre a educação e o hipnotismo no seu livro conjunto A
Sugestão Hipnótica na Educação (1897).
O interesse que estes autores de Oitocentos criaram foi tão grande que haveria
de continuar durante as primeiras décadas do século XX. Os autores académicos
não se esqueceram do assunto. António Caetano Freire Egas Moniz, futuro Prémio
Nobel da Medicina, interessou-se pelo assunto, publicando As Novas Ideias sobre
o Hipnotismo (Aspetos Médico-Legais), na Revista da Universidade de Coimbra
(1914), e uma monografia célebre sobre O Abade de Faria na História do
Hipnotismo (1925). Egas Moniz é o exemplo perfeito de como as tradições
popular, filosófica e médica a respeito do inconsciente se estimularam
mutuamente. Alberto Pimentel, Filho, equaciona a noção de subconsciência nas
suas lições de Psico-Fisiologia (1916), e Faria de Vasconcelos dedica uma parte
importante das suas Lições de Psicologia Geral à questão do inconsciente
(1925). A receção de Freud em Portugal aumentou o interesse pelo assunto,
iniciando uma tradição intelectual muito diferente da oitocentista.
O espírito do movimento intelectual do século XIX foi, talvez, mais aproveitado
por autores populares. No grande número destes autores, destacam-se figuras
como António Baçam Correia, que publicou uma pequena biblioteca sobre estes
assuntos, nomeadamente O Segredo do Poder. Magnetismo Pessoal e Hipnotismo
(1910), Como Vencer Pela Nossa Vontade: Curso de Magnetismo Pessoal, Influência
à Distância e Terapêutica Magnética Sugestiva (1926), e já mais tarde, mas
ainda com mentalidade oitocentista, Hipnotismo e Sugestão (1935). António
Gonçalves Leitão publica vários títulos dedicados ao hipnotismo, em 1913, 1917
e 1918. No início da República, José Pestana publica A Sugestão e o Hipnotismo
na Medicina(1917). A estes autores, muitos outros haveria que acrescentar. Os
cultivadores do ocultismo espírita no país também tinham muitas coisas a dizer
sobre o inconsciente, autores hoje pouco conhecidos, como João Antunes (1885-
1956), O Hipnotismo e a Sugestão (1912), A Hipnologia Transcendental: O
Hipnotismo e a Sugestão (1913), O Espiritismo (1914), A Psicologia Experimental
(1917); Afonso Acácio Martins Velho, O Magnetismo: Curso Completo de
Magnetologia Experimental: A Terapêutica Magnética e as Possibilidades da
Hipno-Magnetologia (1913); Augusto de Castro, com o seu Tratado de Ciências
Ocultas: Sonambulismo, Espiritualismo, Espiritismo e Grafologia, Investigações
Científicas sobre Trabalhos de Charcot, Liebault e Bernheim (s/d); e António
Lobo Vilela, Palingénese (1930) e Hipóteses Metapsíquicas (1940). Muitos mais
haverá que acrescentar a este pequeno inventário.
III
A Perfeição Humana é Inconsciente
Estes autores populares não tinham nenhuma teoria derradeira sobre o
inconsciente nem sobre a arquitetura da mente humana. O seu assunto não era, de
um modo geral, a compreensão da mente humana. Muitos deles recusaram a
elaboração de uma teoria e contentaram-se em descrever as suas impressões e os
casos paradigmáticos da alegada influência do inconsciente. O padrão geral é
este: é possível através de técnicas de manipulação da atenção chegar a estados
profundos da estrutura da mente humana. Todos estes aspetos são importantes: a
recusa de uma teoria; o domínio de uma parte da mente humana através de
técnicas que se foram apurando ao longo do tempo; e a noção de que todas as
partes da mente humana estão interligadas, e que, por exemplo, manipulando a
atenção, uma das estruturas da consciência humana, é possível aceder a registos
da memória muito profundos, e determinar, dessa forma, alguns comportamentos
futuros e estados de saúde.
O ponto alto destas investigações pioneiras sobre o inconsciente encontra-se na
defesa surpreendente da tese de que toda a humanidade seria muito mais feliz,
muito mais produtiva e muito mais inteligente se vivesse de forma totalmente
inconsciente. Estas ideias são curiosas, e é necessário adotar a perspetiva
correta para as compreender. Muitos autores do século XIX português iniciaram
um combate intelectual terrível contra a ideia de que os seres humanos são
livres e responsáveis pelo seu comportamento. O centro do seu ataque foi a
noção de consciência. A pergunta que os ocupava era esta: qual é o papel que
tem a consciência humana na determinação do comportamento? A resposta que eles
encontraram tem diretamente a ver com a noção de inconsciente.
Pedro António Bettencourt Raposo (1853-1937), um médico com vocação filosófica
e literária, publicou na importante revista O Positivismo o artigo O Espírito:
Primeiros Traços (1878-1879). Trata-se de um programa completo para
compreender a mente humana, sobretudo a parte mais difícil, a mente acordada,
vigilante e consciente.
O programa de investigação sobre a mente humana de Bettencourt Raposo propõe o
seguinte: Não há espírito, há impressões. Estas, e só elas, são ideias, são
consciência, memória, imaginação, vontade, etc. como a impressão é movimento
no chamado espírito não há senão movimento (1878-79: 430). Como se vê, a
estratégia intelectual para compreender a totalidade da mente humana, aqui
representada pela palavra espírito', baseia-se no processo percetivo.
Bettencourt Raposo procura traçar o percurso que medeia entre as impressões
sobre os órgãos dos sentidos até à atividade mental mais complexa. Para o autor
de Sono: Traços Gerais da sua Fisiologia (1880), a vida mental humana resume-se
ao percurso que vai das impressões sobre os sentidos até ao cérebro, num
movimento vibratório de propagação de sinais. Se esse movimento vibratório não
para nunca e abrange as várias áreas do cérebro, então a consciência não serve
para nada. Esta é apenas um efeito secundário da atividade do cérebro, um
efeito sem influência causal no comportamento humano.
Repare-se que o assunto é a vida mental tal como ela se manifesta na
consciência. Poder-se-ia perguntar, precisamente, qual é o critério para se
afirmar que existe de todo uma mente em geral, ou até mesmo só a parte vígil
dessa mente? O assunto pode ser ilusório. No mundo do Doutor Bettencourt Raposo
há muitas ilusões e a denúncia das mesmas. Com mais uma ilusão, não se
alteraria nada de significativo. Bettencourt Raposo choca de frente com um
problema que terá um grande desenvolvimento durante o século XX, nomeadamente o
critério de Turing para definição do que pode ser considerado pensar',
mente', e consciência'. Bettencourt Raposo procurou um modo de abalar o facto
absoluto de as pessoas sentirem que sentem: afirmamos que temos espírito
porque sentimos que o temos, ou, o que vale o mesmo, porque o espírito se sente
a si próprio, tem consciência de que existe, como também tem consciência de que
tem consciência (1878-79: 431). Esta é a relação que cada um tem com a sua
própria consciência. Mas como é que se sabe que as outras pessoas são
igualmente conscientes? E não apenas as pessoas: como é que se sabe onde começa
a vida mental no conjunto dos animais? Bettencourt Raposo não sabia, tal como
se continua a não saber, responder a este tipo de questões. Para ele, é
insatisfatório concluir que a evidência da consciência deriva das impressões
sobre os sentidos; além disso, não se pode basear numa verificação de reações
exteriores dos corpos de outras pessoas e dos animais porque, da falta de
reações, não se pode concluir nada sobre o sentir consciente. A vontade, poder
de iniciativa ou espontaneidade, não pode ser critério da consciência porque
também depende do facto de ser sentida. Se se alargar o problema a todos os
seres vivos, tem-se uma dificuldade sem solução porque não se sabe identificar
o início da vida mental na história da terra e dos animais. O mundo do Abade de
Faria ficou completamente para trás; passou a ser impensável.
Até este momento, Bettencourt Raposo dá ao seu leitor problemas bem
equacionados, apesar de não ter solução para nenhum deles. O que é inaceitável
é a sequência de ideias que desenvolve em consequência destes problemas. Como
Bettencourt Raposo não conseguiu resolver o problema das outras mentes e do
critério da identificação da consciência nos seres vivos, e como sabe que isso
é absurdo porque, obviamente, as outras pessoas têm consciência e os animais
também parecem ter, acaba por negar a consciência na experiência imediata que
cada um tem dela. O seu projeto torna-se o da demonstração da não existência
dos chamados atos do espírito (1878-79: 431). A vida mental passa a ser, deste
ponto de vista, uma hipótese essencialmente desnecessária (ibid.). Está-se em
presença da mais famosa teoria sobre o papel da mente na ordem natural que a
segunda metade do século XIX produziu: o epifenomenismo da consciência.
Não se compreende, porém, como é que Bettencourt Raposo justifica que a
natureza se tenha dado ao incómodo de produzir uma estrutura mental, que é
constante e não desaparece na vida pessoas, que é universal e que todas as
pessoas têm, mas que alegadamente não serve para nada. O autor de Tentando as
Asas (1888) estava tão convencido de que a consciência é um efeito secundário
sem importância da atividade do cérebro que nunca chegou a reparar de todo na
questão filosófica. Afinal, se não serve para nada ter consciência, por que
razão é que ela existe de todo? Sem resposta para esta questão, a estratégia
argumentativa de Bettencourt Raposo para garantir que a consciência desaparece
do seu lugar cimeiro na vida mental humana passa pela denúncia da sua
irrelevância. Este é o âmago da tese epifenomenista: a consciência existe mas
não serve para nada.
A crítica de Bettencourt Raposo ao comportamento livre ajudou, contudo, a que
se pensasse no papel do inconsciente. São muitos os factos que o autor dos
Estudos Filosóficos e Fisiológicos sobre a Vida e Algumas das suas
Manifestações (1877) inventaria para afirmar a existência de uma vida mental
inconsciente. Eis alguns. As impressões sobre a medula não são conhecidas pelo
cérebro. As impressões sensoriais desaparecem depois de um período de tempo,
mas o movimento celular a que deram origem não desaparece, o que significa que
o cérebro continua a trabalhar esses dados sem que deles a pessoa tenha
consciência. Afirma Bettencourt Raposo que a impressão que fora consciente
deixou após si uma impressão mitigada inconsciente (1878-79: 439). Como o
cérebro nunca está em descanso, nem durante a vigília, nem durante o sono, a
atividade cerebral de que se não tem consciência está na origem dos sonhos e,
em casos especiais, das alucinações. A informação que é recebida pelo cérebro
para além dos limiares da perceção constitui um outro exemplo de atividade
cerebral inconsciente. A periferia do campo visual é, por exemplo, uma zona que
continua a receber impressões sensoriais, só que delas não se tem consciência.
O critério que o autor de Sonetos (1936) toma para separar as impressões que se
tornam conscientes das que não se tornam conscientes é a intensidade do
movimento e da vibração: para que haja consciência, é preciso que os
movimentos materiais tenham certa intensidade as ações menos enérgicas
tomarão parte na impressão, como não poderia deixar de ser, mas parte não
consciente (1878-79: 54). Bettencourt Raposo avança com uma classificação dos
vários tipos de impressões. Existem as impressões sensoriais que se tornam
conscientes, as revivescentes, como as memórias que são recordadas devido a
algum movimento celular no cérebro, as arquivadas, que se associam a
determinadas células para registar eventos determinados que podem mais tarde
ser recordados, e as inconscientes, que influenciam o comportamento mas de que
o sujeito não tem consciência. Esta tipologia anuncia as futuras classificações
de consciente, subconsciente e inconsciente. Como é evidente, Bettencourt
Raposo não explica por que razão as impressões especialmente energéticas se
tornam conscientes; afinal, há na natureza movimentos muito mais energéticos e
violentos do que os que acontecem no cérebro humano, e não é devido a isso que
têm consciência. O problema da prova também não é abordado: como se prova que o
trabalho inconsciente realizado pelo cérebro é menos energético do que o
trabalho consciente? Afinal, se muito do trabalho cerebral é inconsciente, como
é que se prova que é menos energético do que o trabalho cerebral que dá origem
à consciência? Qual é a diferença entre a alegada energia da vigília e a
alegada falta de energia do sono durante os períodos hipnagógicos entre esses
estados?
Reparar neste enigma e, sobretudo, tentar solucioná-lo era coisa que não
interessava de todo a Bettencourt Raposo, tal como não interessava a Augusto
Rocha, a Cândido de Pinho, a Miguel Bombarda, a Júlio de Matos, a Alves Correia
e a todos aqueles que os filósofos mais conservadores da época, como Manuel
Pinheiro de Almeida e Azevedo e José Maria Rodrigues, classificavam de
materialistas. Não interessava porquê? Todos estes autores estavam
completamente obcecados pelo problema filosófico da determinação do
comportamento humano, assunto conhecido na altura como o problema do livre-
arbítrio, e que hoje se reconhece debaixo do rótulo do problema do determinismo
e da liberdade. Os rótulos podem ser diferentes mas o que sempre esteve em
causa foi o que faz com que cada pessoa decida de um modo ou de outro, faça
isto ou aquilo. O que é que determina o comportamento humano? A resposta de
Bettencourt Raposo é clara: o motor dos nossos atos são as nossas impressões,
os estados do nosso sistema nervoso, sem o intermédio estranho, e muito menos
intermédio arbitrário e livre (1878-79: 67).
Se a consciência não joga o papel de intermediário entre as impressões
recebidas pelos sentidos e as ações que as pessoas realizam, há uma
continuidade imediata entre as impressões e os comportamentos. No meio não há
nada. É claro que parece haver: parece que há vontade, que existe a iniciativa
própria, que há criatividade, que há espontaneidade e liberdade, que as pessoas
têm desejos próprios e intenções. A lista do que pode ocupar o lugar do
intermediário é grande, mas resume-se em duas palavras: mente consciente. Só
que, como se viu, para Bettencourt Raposo, esta existe mas não desempenha
nenhum papel. A denúncia sistemática da impotência da consciência tornou-se o
melhor argumento de apoio à existência de uma instância mental inconsciente. O
que aparta uma instância da outra é apenas a hipotética e não demonstrada
intensidade da vibração. Ao afastar a consciência, Bettencourt Raposo fica com
o mesmo processo de propagação dos sinais celulares, com a exceção de que não é
consciente: assim como as impressões conscientes podem tornar-se
inconscientes, assim também a memória pode ser inconsciente, isto é, podem as
impressões reviver sem que se tornem conscientes (1878-79: 443). Estas
impressões que podem reviver sem que se tornem conscientes constituem a vida
mental inconsciente. O distinto médico tentará defender o automatismo total do
trânsito inconsciente das impressões até aos comportamentos. Contudo, como o
processo é inacessível à consciência, e como tem uma vastidão que ultrapassa a
capacidade racional dos seres humanos, segue-se que a ignorância sobre a
atividade inconsciente será interpretada, para todos os efeitos, como
criatividade do próprio inconsciente. Não se sabe como é; acredita-se que
funciona sem influência da mente consciente porque está é alegadamente
irrelevante; interpreta-se o que se sabe e o que não se sabe como processo
inconsciente; em conclusão, atribui-se ao inconsciente o privilégio de
determinar toda a vida mental. Este argumento resume o pensamento de
Bettencourt Raposo. É digno de nota que um autor tão perspicaz não tenha
reparado que este argumento é inaceitável.
A razão para este resultado encontra-se na atração que este autor tinha pelas
vantagens de uma visão do mundo em que a consciência não desempenha nenhum
papel útil, podendo, até, ser prejudicial. As consequências desta teoria
aplicam-se a muitas áreas de atividade. Veja-se como. Esta é a descrição de um
mundo em que a vontade não tem nenhum papel. É claro que parece que as pessoas
têm vontade própria, mas, quando se considera os factos, vê-se que a vontade
livre é ilusória. Este é um mundo sem sujeitos. Bettencourt Raposo afirma sem
ambiguidade isto mesmo: prescindamos do sujeito do verbo sentir; não vimos já
que a consciência, que a memória, são a impressão, são o movimento? O
movimento existe, existir é sentir, sentir é existir (1878-79: 448). Este
mundo também não tem ação livre nem de iniciativa das pessoas. Não há
imaginação criadora, porque, diz Bettencourt Raposo, a imaginação provaria a
existência em nós de um quid alheio às leis gerais do universo, de um espírito
dotado de autonomia. E conclui imediatamente: temos de recusar a autonomia da
imaginação (1878-79: 53). Não há hesitações nem escolhas. Não há criatividade
também, porque, afirma, é tão automática a descoberta científica, uma invenção
mecânica como o mais disparatado sonho (1878-79: 54). A ideologia cegou a
tal ponto o discernimento do grande médico que ele não se apercebeu de como é
inaceitável tudo o que afirma. Uma descoberta científica tem o mesmo valor que
o sonho mais disparatado? São ambos automáticos'? Num mundo que é interpretado
de um modo tão implausível quanto este, é evidente que também não acontecem
crimes. Parece a qualquer pessoa razoável que existem crimes e criminosos no
mundo. A honra (duvidosa) de poder ser responsabilizado por um crime, e de
poder ser punido devido a ele, é impensável para uma teoria da mente deste
tipo. Como é evidente, se o mundo é desta forma, a teoria faz recomendações de
cursos de ação a seguir. Está aberto o processo de denúncia da vontade, do
sujeito, da liberdade, da iniciativa, da criatividade e, até, do crime.
Bettencourt Raposo e uma geração inteira de intelectuais portugueses
afadigaram-se a aplicar de modo geral à sociedade portuguesa esta teoria da
mente. Tudo isto seria muito interessante se fosse apenas um debate intelectual
em que se esgrimem argumentos. Estes autores garantiam aos seus leitores que as
suas teorias estavam baseadas no maior rigor científico possível, nos factos
mais provados em que se pode pensar. O próprio Bettencourt Raposo faz
retoricamente muitas confissões de ignorância esclarecida: se não conhece os
factos, também não adianta qualquer explicação. Diz ele, por exemplo, não
compreendemos, não explicamos, mas também não nos assaltam temores de chegar ao
absurdo (1878-79: 432). Diz ele, também, que não temos por ora reunidos dados
bastantes para uma boa interpretação, e por isso nos abstemos (1878-79: 443).
Estas confissões extraordinárias são em número elevado no texto, e transmitem
uma impressão de grande honestidade intelectual. O drama de autores que
acreditam que são intelectualmente honestos é o de não terem espaço para verem
que as suas teorias são completamente implausíveis e descrevem um mundo de
autómatos, não de seres humanos normais, acordados e livres.
Estas teorias, contudo, a coberto da retórica falaciosa do Positivismo, não
ficaram nas estantes das bibliotecas ou dentro das paredes das academias. Estes
autores sofisticados tinham de garantir posições influentes no aparelho do
Estado, nos hospitais e nas academias. Fazer pela vida implicava retirar o
poder a quem o detinha. Não há nenhuma novidade nisto. Estas teorias da
consciência inútil e do inconsciente soberano foram rapidamente aproveitadas em
todas as áreas da vida social. Apenas um exemplo flagrante. Se não há
iniciativa das pessoas, estas também não poderão ter a iniciativa de cometer um
crime. Muitos autores da época lutaram frontalmente contra uma legislação penal
que responsabilizasse os autores dos crimes. O combate mais importante
aconteceu com o debate interminável em torno dos crimes cometidos por alienados
mentais. Mas todos os crimes viram reduzidas as suas penas, ao longo dos anos,
devido a estas teorias da desresponsabilização penal. Aliás, a linha de
fronteira entre crimes cometidos por loucos e crimes cometidos por pessoas no
uso da sua razão é suficientemente clara para permitir uma aplicação de penas
sem problemas. No século XIX nada disto era evidente, sobretudo porque existiam
teorias como a do criminoso nato, de Lombroso, que afirmava que algumas pessoas
já eram criminosas mesmo que ainda não tivessem cometido factualmente o crime.
A distinção entre alienados e pessoas normais também não era nada clara, e
alguns autores afirmavam que qualquer crime era já obra de alienados mentais.
Era a teoria do crime como pródromo da loucura. A estas pseudo-teorias há que
acrescentar a degeneração, as muitas teorias da hereditariedade mórbida e a
teoria do crime como manifestação atávica de comportamentos violentos do
passado. Todas estas teorias fantásticas viam boa parte da humanidade em estado
decaído e interpretavam os comportamentos individuais como totalmente
influenciados pelo passado coletivo e pelo estado degenerado.
Entre nós, e na mesma época em que Bettencourt Raposo defendia a sua teoria da
consciência inútil, Alves Correia, por exemplo, publicava na revista Era Nova,
de 1880, a sua proposta de aplicação das investigações sobre o cérebro e da
reflexão sobre a mente humana à legislação penal e às reformas sociais, no
texto O crime e a responsabilidade. Para Alves Correia, destas verdades
científicas e filosóficas é que se deduz logicamente a irresponsabilidade
moral dos criminosos que, em consequência da sua organização cerebral ser
defeituosa, não podem fazer uma apreciação justa das ações a que estão
submetidos, e praticam atos prejudiciais para a sociedade mas que eles julgam
bons e necessários (1880: 303). Para que não haja qualquer dúvida sobre o
assunto, Alves Correia diz com todas as letras que os crimes acontecem devido à
responsabilidade da sociedade que não educa os seus membros inferiores (1880:
395). Estas palavras só podem significar que a sociedade não colocou no
inconsciente dessas pessoas o controlo do seu comportamento.
Estas teorias sobre o crime derivam em linha direta dos debates intelectuais
sobre a natureza da mente humana. Como é evidente, estes debates tiveram amplas
consequências em assuntos muito concretos como a legislação penal, a vida
penitenciária, os asilos manicomiais, as escolas e a educação, e o culto do
corpo, da saúde e da juventude através da educação física. As consequências
foram ainda mais dramáticas porque estes debates deram origem a propostas
eugénicas violentas. Muitos autores desejaram fazer intervenções mais
musculadas nos indivíduos degenerados, impedindo, por exemplo, a sua
reprodução, ou fazendo coisas ainda piores. O próprio Alves Correia aponta para
este caminho quando afirma que os elementos inferiores reproduzem-se com uma
facilidade espantosa sem que por algum meio os governos pensem em intervir
neste estado de coisas. Em consequência, a sua recomendação é a de que a
sociedade tem o direito de impedir a produção de indivíduos inferiores inaptos
para a luta pela existência (1880: 560). A ênfase na determinação inconsciente
do comportamento e o ataque ao papel desempenhado pela consciência
influenciaram, como se vê, a produção legislativa, a vida dos tribunais e a
ética. Ao lado das tradições popular, filosófica, religiosa e médica a respeito
do inconsciente, será necessário colocar a tradição jurídica e a tradição
biopolítica de intervenção do Estado nos assuntos íntimos dos cidadãos.[2]
Todas estas ideias estavam no ar da época. O Doutor Miguel Bombarda (1851-1919)
chega a afirmar que o comportamento mais correto dos seres humanos acontece na
ausência de consciência: É sabido que um ato automático ' não sei até se o
diga dos atos intelectuais ' tem maior grau de probabilidade de caminhar
perfeito quando é inconsciente, isto é, quando a alma está ausente, do que
quando acompanhado de consciência (1898: 244). Os processos orgânicos que
decorrem de modo inconsciente são, pois, o modelo da perfeição humana para este
médico republicano. A existência da consciência nos seres humanos é um defeito,
uma imperfeição. O grande psiquiatra parece mostrar uma inveja da condição
animal. Os seres humanos possuem consciência mas seriam muito mais felizes se
fossem como os animais. Pior ainda: como os animais parecem ter formas pouco
desenvolvidas de consciência, os seres humanos seriam ainda mais perfeitos se
fossem como as máquinas, totalmente desprovidas de senciência. A aversão de
Bombarda em relação à consciência é tão grande que considera que esta é um
obstáculo ao comportamento humano perfeito. Como não pode negar a sua
existência, acaba por considerá-la como uma ilusão. Uma existência enganosa não
serve para nada e não influencia a sorte biológica dos indivíduos. É claro que
até mesmo as ilusões têm de ser explicadas. A única forma de explicação que
Bombarda aceita é a do acidente. Com todas as letras: a consciência é um
acidente (1898: 275). Mais uma vez, a cegueira ideológica impediu que o
distinto médico reparasse nos erros desta conceção da mente humana. A tese do
acidente obrigaria a que se provasse, pelo menos, por que razão o acidente é
permanente e universal e por que razão a alegada ilusão tem uma estrutura
estável. Os acidentes não costumam ter nenhuma destas propriedades.
Em parágrafos com antecipações notáveis de exemplos de Freud em A
Psicopatologia da Vida Quotidiana, de 1901, Bombarda identifica um nível
elevado de complexidade psicológica mesmo nas cadeias de associações
inconscientes. Fenómenos como o lapsus linguae, a criatividade, a gesticulação,
a indiscrição e as manifestações fisionómicas das intenções privadas revelam
que as associações neuronais inconscientes são construtoras de sentido
psicológico. Bombarda continua o legado de Bettencourt Raposo. Também ele
repara que a vida mental inconsciente tem uma dimensão superior à que se
poderia esperar: na inconsciência há atividades em muito mais vasta extensão.
Ainda não se conseguiram medir as profundidades da vida psíquica inconsciente.
Esta verificação, meritória em si mesma, fez com que formulasse em consequência
um programa completo para a investigação do inconsciente: não é muito pensar
que as observações terão de se multiplicar à medida que estes factos se
tornarem mais conhecidos e que o campo da inconsciência, já hoje tão iluminado
pelos estudos de psiquiatria e de hipnologia, se alargará cada vez mais (1898:
287).
A vida perfeita e saudável deveria ser inconsciente. Para Bombarda, todos os
seres humanos deveriam ser autómatos que não sentissem o que quer que seja.
Como se compreende, está posição é muito difícil de sustentar. Bombarda parece
mentir a si próprio ao reconhecer que algumas experiências conscientes
influenciam o curso da evolução biológica. Ao fazer o inventário de diferenças
individuais que o ambiente pode favorecer, Bombarda coloca, surpreendentemente,
a sensação subjetiva de prazer: Se a variação importa uma vantagem para o ser
... porque traga consigo uma sensação de prazer derivada do mesmo facto da
adaptação ... se, repito, a variação é vantajosa, pelo seu próprio uso grava-se
mais fundamente e, portanto, aumenta a probabilidade para os filhos de a
herdarem. É a seleção (1898: 230).
Este argumento é muito importante. O que vale para o prazer pode ser
generalizado a qualquer outra sensação consciente. Não se compreenderia que não
fosse assim. Afinal, a sensação de prazer é uma manifestação da consciência. Se
as pessoas não têm consciência de que sentem prazer, então não há prazer. É
axiomático que não há prazeres inconscientes. Todos os prazeres são
conscientes. Bombarda não o afirma ostensivamente mas também não o recusa. Pela
lógica interna do seu texto, a sensação de prazer deve ser interpretada como um
exemplo prototípico de uma classe. As sensações conscientes de prazer (ou de
dor, ou de vermelho, ou de sexo) fazem diferença na história da evolução. Uma
descrição científica do processo evolutivo tem de as tomar em consideração. O
prazer é uma vantagem para o indivíduo. Se isto é verdadeiro para esta parte da
consciência, então também é verdadeiro para a totalidade da consciência. Em
resumo, é melhor a consciência do que a inconsciência.
As contradições da tese que defende a vida mental inconsciente são evidentes.
Bombarda, porém, nunca abandonará a sua ideia de que a consciência é um
epifenómeno causalmente impotente e que seria bem melhor acabar de vez com esse
epifenómeno irritante e que não vale nada.
O fascínio por uma humanidade robótica, que se mova exclusivamente de forma
inconsciente, sem sentir o que quer que seja, mostra-se também nas obras do
médico José Caetano de Sousa e Lacerda (1861-1911). Como Bettencourt Raposo,
este clínico, irmão do músico Francisco de Lacerda, tinha uma sensibilidade
estética apurada, chegando a publicar volumes de poesia (Hecatombe, 1888, e
Flor de Pântano, 1889) e reflexões sobre educação (Esboços de Patologia Social
e Ideias sobre Pedagogia Geral, 1901). Esta sensibilidade é difícil de
conciliar com o elogio de uma vida desprovida de consciência. O Doutor José de
Lacerda tinha, contudo, argumentos racionais para apoiar a sua visão da mente
humana. Do seu ponto de vista, quando se começa uma tarefa nova, a consciência
está especialmente atenta e alta. Quando já se domina na perfeição essa tarefa,
a consciência deixa de existir e até se pode realizar de forma automática. Isto
para ele é o modelo perfeito da explicação das relações entre inconsciente e
consciente na espécie humana: a consciência, maximamente viva no início da
respetiva aprendizagem nêurica, vai-se embotando tanto mais quanto mais
perfeita esta vai sendo. Como se sabe, o físico alemão Erwin Schrödinger
defenderá muito mais tarde, nas suas Conferências Tarner, ideias semelhantes,
publicadas no ensaio Mind and Matter (1985: 14-18). Para o Doutor Lacerda, a
consciência esteve presente no início da vida na terra, mas, com a evolução e
aperfeiçoamento durante milhões de anos, alguns seres conseguiram não ser
conscientes, e o futuro é precisamente isso: a perfeição dos organismos
acontecerá no futuro quando todos forem inconscientes. Nas suas próprias
palavras, a consciência é uma maneira infantil e decrescente das
sensibilidades nêuricas é um estado inferior e transitório das recetividades
nervosas, indispensável para a obtenção do automatismo na evolução da série
viva, a consciência foi pouco a pouco esmorecendo até de todo se extinguir,
como aptidão anacrónica e inútil (1897: 124-5). O Doutor Lacerda não se deu ao
incómodo de explicar a sua teoria fantástica: nada teve a dizer que explique
por que razão a consciência parece a toda a gente estar ligada aos animais
superiores e aos seres humanos, e só a ele parecer que está ligada a seres
primitivos do início da vida na terra, sendo, como afirma, um neurofenómeno
curioso (ibid.). O Doutor Lacerda também não se deu ao incómodo de explicar
por que razão viver sem sentir nada é uma vantagem em relação a viver sentindo
alguma coisa. Como é evidente, também não se deu ao incómodo de provar a ideia
curiosa de que o cérebro atual chegará, no decorrer do porvir, ao inteiro
automatismo (1897: 126).
IV
Algumas Conclusões
Como interpretar estas ideias tão extraordinárias? Em primeiro lugar, é
necessário reparar na longevidade dos modelos de inconsciente que, ao longo do
século XIX, foram sendo propostos. O inconsciente como fonte da criatividade
manifesta-se em Cândido de Figueiredo, mas também na ideia de Bombarda e
Lacerda de que os seres humanos poderiam ser muito melhores se forem totalmente
automáticos. O inconsciente como modelo de perfeição do psiquismo manifesta-se
no Abade de Faria, que lhe atribui poderes terapêuticos e cognitivos
excecionais, e atinge o seu ponto alto na defesa de uma humanidade futura
totalmente inconsciente, porque ficará inevitavelmente desprovida de
consciência. O inconsciente como instância mental manipulável, seja de cima
para baixo (trabalhando a atenção e os gestos para se chegar às memórias
profundas), seja de baixo para cima (trabalhando os determinantes inconscientes
do comportamento), atravessa todo o século XIX português. Faria desenvolve as
técnicas de manipulação, Figueiredo leva-as às últimas consequências na sua
fantasia literária, os psiquiatras procuraram técnicas associativas para
influenciar os processos inconscientes. Nenhum destes modelos desapareceu, e
todos tiveram, e continuam a ter, amplo sucesso junto do público popular, não
académico. Os aspetos mais fantasiosos dos modelos do Abade e de Figueiredo,
como a capacidade de visualizar épocas remotas e até mundos possíveis,
continuam, surpreendentemente, a merecer a atenção de muitas pessoas, como se
vê pelo sucesso de autores como Dolores Cannon. O que concluir, pois? Os
modelos não são científicos e nunca foram provados. As ideias sobre a mente
humana são manifestamente implausíveis. As representações oitocentistas do
inconsciente continuam a influenciar muitas áreas da vida contemporânea, da
literatura ao Direito, da Psicologia às teorias filosóficas sobre a mente. Pior
do que tudo, não há progresso evidente no conceito de inconsciente, nem, aliás,
no conceito de consciência. Apesar de todos estes defeitos, este assunto
continua a merecer uma atenção continuada. Tudo isto diz muito sobre todos nós.
Repare-se, em segundo lugar, que os grandes teóricos oitocentistas do
inconsciente não são autores menores. É verdade que existiram muitos autores
populares que divulgaram o assunto junto do público leitor. Contudo, figuras
como Bettencourt Raposo, Miguel Bombarda e José de Lacerda fizeram parte da
elite intelectual do final do século XIX português. Ideias semelhantes foram
defendidas, por exemplo, por distintos professores de Medicina, como Cândido de
Pinho (1879-80 e 1882), e por publicistas com reputação na sua época, como
Silva Graça (1880-81). Que o assunto tenha merecido centenas de páginas de
autores populares e de autores que tinham uma reputação académica a defender
também diz muito sobre todos nós.
Em terceiro lugar, veja-se como as várias conceções de inconsciente parecem
apontar para um modelo final. A defesa da ideia de que todos os seres humanos
viveriam melhor se forem autómatos inconscientes faz nascer um embaraço
intelectual enorme. Poder-se-ia perguntar o que leva tantas personalidades
cultas a sentirem-se manifestamente desconfortáveis com a esfera consciente das
suas decisões? Não é aceitável que se veja neste processo de estruturação do
conceito de inconsciente um resultado de investigações científicas que
forçaram, de algum modo, os autores a conformarem-se com a importância do
inconsciente e com a menorização da consciência. Bettencourt Raposo, Bombarda e
Lacerda, entre outros, poderiam afirmar que apenas os motivou os resultados
sérios da ciência positiva. O problema é o de que a noção de inconsciente tem
características semelhantes tanto em autores mágico-religiosos (não se esqueça
que Faria era originalmente um brâmane hindu), quanto em autores científicos.
Exemplo disso está a crença de que o inconsciente é uma manifestação dos
direitos maternais da natureza sobre os seres humanos, uma perfeição a que se
deve voltar para garantir a saúde, como queria o Abade, para adquirir
conhecimentos supra-humanos, como queria Figueiredo, para ter um comportamento
mais eficiente, como queria Bombarda, e para alcançar o fim último da
humanidade, depois das enfermidades da infância coletiva, como a doença da
consciência, como queria Lacerda. Nada disto tem a ver com a ciência, e tudo
isto diz muito sobre todos nós.
Um quarto aspeto tem a ver com a influência destas ideias sobre o inconsciente.
Nenhuma destas teorias morreu, apesar de parecerem completamente absurdas.
Estas teorias estão, por exemplo, bem vivas nos tribunais e na legislação penal
de muitos países, em que os determinantes inconscientes da ação criminosa são
amplamente inflacionados para apoucar os crimes e para atenuar as penas. Há
sempre uma teoria do inconsciente ao serviço de alguém para desresponsabilizar
os indivíduos que cometeram crimes. O que se passa nos tribunais nasceu,
obviamente, no século XIX por ação destes teóricos do inconsciente. Sabe-se que
as suas teorias são cientificamente erradas, que são tão fantásticas quanto as
ideias do Abade de Faria e a imaginação literária de Cândido de Figueiredo, mas
ainda não desapareceram as aplicações amplas que tiveram nos tribunais, na
teoria da educação, na prática psicoterapêutica, na clínica médica e na
explicação dos processos de criatividade artística. As teorias estão erradas,
mas os filhos das teorias estão bem vivos. Também isto diz muito sobre todos
nós.
Para terminar, se há alguma coisa a valorizar nestas obras, é o facto de terem
equacionado com grande força o papel da instância inconsciente da vida mental
humana. O século XIX português foi palco de uma guerra terrível dos seus
intelectuais mais notáveis contra a noção de alma, tentando naturalizar na
íntegra a vida mental humana. Curiosamente, ao descobrirem o inconsciente,
descobriram também a profundidade da alma. Não estava na intenção deles
descobrir qualquer profundidade num assunto que pensavam que era ilusório e não
existente. Como a vida das ideias é muito complexa, estes autores acabaram por
demonstrar que o tal assunto que não existe é, afinal, dotado de grande
profundidade. Dizendo de outro modo: para que algo tenha a propriedade de ter
grande profundidade, é evidente que tem de existir. Só podemos estar gratos a
estes autores. Os seus erros foram tão grandes que só os podemos felicitar.
Vimo-nos ao espelho nesses erros.