Literacia mediática e cidadania: uma relação garantida?
ARTIGO
INTRODUÇÃO
Sem grande controvérsia, a literacia mediática ' a capacidade de aceder aos
media, de compreender e de avaliar de modo crítico os diferentes aspetos dos
media e dos seus conteúdos, e de criar comunicações em diversos contextos
(União Europeia, 2007) ' tem vindo a ser afirmada como condição essencial para
o exercício de uma cidadania ativa e plena, como fator importante para uma
cidadania ativa (União Europeia, 2009). Mas existirá evidência empírica
robusta que prove tal relação?
A hipótese de que a literacia mediática dos cidadãos tem impacto relevante nas
suas práticas de cidadania foi submetida a investigação rigorosa em Literacia
mediática e cidadania. Práticas e competências de adultos em formação na Grande
Lisboa. A operacionalização da pesquisa teve por base uma estratégia
metodológica quantitativa-extensiva, envolvendo a aplicação de um inquérito por
questionário (instrumento de avaliação de práticas) e de uma prova de literacia
mediática (instrumento de avaliação de competências) a uma amostra de cerca de
500 estudantes adultos, a frequentar ações de Educação e Formação de Adultos
(EFA) e cursos de licenciatura, mestrado integrado ou mestrado, na Grande
Lisboa, no ano letivo 2011-2012.
No questionário, o recurso a um conjunto de indicadores relacionados com as
representações sociais de cidadania, a integração e participação política,
profissional, social e cívica, a automobilização política e cívica, o interesse
pela política e o autoposicionamento político permitiu a operacionalização das
práticas de cidadania nesta investigação.
A prova de literacia mediática ' concebida em fases, partindo de três domínios
operacionais de processamento da informação (conhecer e compreender, avaliar
criticamente, criar para comunicar), para as dimensões de análise (técnica,
crítica, criativa) e as operações de processamento, e daí para os suportes
(classificados segundo o formato, o meio de origem e o tipo de informação) e as
tarefas (localizar e identificar, integrar e interpretar, avaliar e refletir,
gerar) ', é constituída por 20 questões (em rigor, exercícios ou tarefas). Os
itens que integram este instrumento original de medição de competências de
literacia mediática foram analisados, em termos de discriminação e de
dificuldade, segundo a Teoria Clássica dos Testes e a Teoria da Resposta ao
Item, em colaboração com Patrícia Costa, investigadora do Joint Research
Centre, da Comissão Europeia. Esta análise demonstrou a quase totalidade dos
itens são discriminativos, não se tendo verificado diferenças significativas na
análise com recurso às duas abordagens.
Nas próximas páginas revelam-se alguns resultados da investigação,
particularmente quanto a práticas de cidadania e a competências de literacia
mediática.
CIDADANIA
O CONCEITO DE CIDADANIA
O conceito de cidadania tem-se tornado uma espécie de rótulo, multiplicado por
variados e contraditórios significados (Pais, 2005, p. 53), estando muito
presente nos discursos político, académico e mediático, particularmente nas
últimas três décadas. Como o desenvolvimento etimológico do conceito demonstra,
não existe uma, mas várias e distintas formas de cidadania (Turner, 1990;
Inglehart, 1997; Norris, 2002; Menezes, 2002 e 2005). Em rigor, a cidadania não
se traduz somente num sentimento de pertença a uma comunidade e num rol mais ou
menos enumerável de direitos e deveres (plano da normatividade). Esta deve-se
afirmar como um conjunto de práticas e de competências individuais, do cidadão,
isto é, como participação (plano da agência).
O conceito de cidadania emerge, neste sentido, da conjugação de três
componentes (Bellamy, 2008): pertença a uma comunidade política democrática
(cf., por exemplo, Touraine, 1994; Mozzicafreddo, 1997; Schnapper, 1998;
Mouzelis, 2008), um conjunto de direitos e deveres associados a essa pertença
(cf., por exemplo, Marshall, 1950-2009; Espada, 1997; Morgado, 2010), a
participação nos processos políticos, económicos e sociais dessa comunidade
(cf., por exemplo, Kaase, 1984; Barbalet, 1989; Turner, 1993; Schnapper, 1998;
Cabral, 2000; Saull, 2002; Welzer, Inglehart e Deutsch, 2005; Morgado, 2010).
RESULTADOS
REPRESENTAÇÕES SOCIAIS DE CIDADANIA
As representações sociais de cidadania foram operacionalizadas através de
indicadores presentes e testados na primeira edição do European Social Survey
(ESS)1, em 2002, (Grupo E: Cidadania, Associativismo e Democracia) e na edição
de 2004 do International Social Survey Programme2 (módulo: cidadania).
Consideraram-se 11 afirmações do que se deve fazer para se ser um bom cidadão,
medidas numa escala de 1 (nada importante) até 10 (muito importante).
A partir das respostas dadas pelos alunos realizou-se uma análise de
componentes principais (Quadro_1). Os resultados revelam que as conceções
acerca do que significa ser um bom cidadão podem ser agrupadas em quatro
componentes ou dimensões: solidariedade (ajudar as pessoas que vivem pior,
colaborar com organizações de voluntariado), ordem social (nunca tentar fugir
aos impostos, obedecer a leis e a regulamentos), participação política e social
(participar em organizações sociais e políticas, manter-se vigilante em relação
ao governo, votar sempre, tentar compreender as ideias dos outros), e autonomia
(tomar decisões e ser livre, ter opinião própria/independente).3
O passo seguinte foi a construção de quatro índices, cada um deles integrando
as variáveis com maior peso (loading) em cada uma das componentes principais4
(Quadro_2).
Os resultados mostram que, em média, os inquiridos tendem a aderir às
diferentes conceções de bom cidadão subjacentes aos itens, não rejeitando
nenhuma delas: o grau médio de importância atribuído é relativamente elevado em
todas as componentes, situando-se os valores obtidos entre os pontos 8 e 9 da
escala (em que, recorde-se, 1 corresponde a nenhuma importância e 10 a muita
importância). Ainda assim, é possível estabelecer uma hierarquia na adesão às
quatro conceções, revelando os resultados em que as mais valorizadas são as que
dizem respeito à autonomia (na tomada de decisões e na formação de opinião),
apresentando valores mais baixos as que se relacionam com participação política
e social (9,02 vs. 7,83).
Tendo em conta a idade (Figura_1) conclui-se que os indivíduos mais novos
(entre os 18 e os 22 anos) são os que menos valorizam as conceções de ordem
social (nunca tentar fugir aos impostos, obedecer a leis e a regulamentos). Os
inquiridos mais velhos são os que menos valorizam as representações sociais de
participação (participar em organizações sociais e políticas, manter-se
vigilante em relação ao governo, votar sempre, tentar compreender as ideias dos
outros).
O quadro seguinte (Quadro_3) mostra os valores médios de cada indicador
(resultados globais e por nível de escolaridade a frequentar).
Considerando apenas os valores médios mais elevados, o padrão de resposta dos
inquiridos traduz uma mesma tendência: o bom cidadão é aquele que tem opinião
própria/independente, toma decisões e é livre, e tenta compreender as ideias
dos outros.
A questão da honra fiscal é no mínimo interessante: 49% dos inquiridos (total
da amostra) afirmam ser muito importante nunca tentar fugir aos impostos.
Sem se pretender a comparação direta, adiante-se que, segundo o relatório do
ESS 2004, os portugueses estão entre os europeus que mais concordam que os
cidadãos não deviam fugir aos impostos: 34,9% concordam totalmente que não se
deve fugir aos impostos (Brites, 2011, p. 104). O dado é confirmado pelo ISSP
2004: 54,2% dos portugueses consideram muito importante nunca fugir aos
impostos.
Participar em organizações sociais e políticas é o indicador menos expressivo,
independentemente do nível de escolaridade em análise. A participação em
organizações sociais e políticas é, na verdade, considerada muito importante
apenas por 10% da amostra.
Refira-se que os resultados do ESS 2002 mostram que o padrão de resposta aos
indicadores é idêntico em todos os países europeus envolvidos no estudo: ter
opinião própria', obedecer a todas as leis e regulamentos', votar sempre nas
eleições' e ajudar as pessoas que estão em pior situação' registam os valores
mais elevados (Brites, 2011, p. 97).
Em Portugal, ter opinião própria, ajudar as pessoas que estão em pior
situação e obedecer a todas as leis e regulamentos ocupam os primeiros três
lugares (Brites, 2011, p. 99).
INTEGRAÇÃO E PARTICIPAÇÃO CÍVICA, SOCIAL, POLÍTICA E PROFISSIONAL
A integração e participação cívica, social, política e profissional constituem
uma das arestas da cidadania ativa.
O quadro_4 regista os resultados (globais e por nível de escolaridade a
frequentar) dos dez indicadores de integração presentes no questionário,
organizados segundo as diferentes dimensões identificadas na análise de
componentes principais. Os resultados mostram claramente uma baixa propensão
para a integração cívica, social, política ou profissional.
Isolemos os valores que respeitam à integração e participação ativa (cf. fez
parte e participou ativamente). O padrão de resposta dos inquiridos, tendo em
conta os últimos 12 meses, revela uma mesma tendência: os alunos fizeram parte
e participaram ativamente em coletividades de bairro, clubes ou grupos
desportivos (EFA básico: 20%; EFA secundário: 21,1%; ensino superior: 17,1%),
em igrejas ou associações religiosas (EFA básico: 25,5 ; EFA secundário:
17,5%; ensino superior: 10,3%), em associações cívicas (EFA básico: 13,6%; EFA
secundário: 11,5%), em associações de estudantes (EFA básico: 11,6%; ensino
superior: 10,1%) e em associações recreativas ou grupos culturais (ensino
superior: 11,4%). Tomando a amostra como um todo, os homens participaram mais
do que as mulheres: em todos os indicadores de integração e participação
política e cívica disponíveis, e tendo por baliza temporal o último ano, foram
mais os homens que declararam a sua integração e participação do que as
mulheres, e em alguns casos com diferenças muito acentuadas (como no caso de um
partido político ou de uma coletividade de bairro, clube ou grupo desportivo).
Confirme-se a existência de evidência empírica que conclui pela integração/
participação essencialmente em associações do tipo desportivo, cultural ou
recreativo e de solidariedade social e religiosas, particularmente no caso dos
jovens (Cabral, 2000; Viegas, 2004; Menezes etal., 2005; Ferreira, 2008;
Magalhães e Moral, 2008). O estudo europeu Citizenship, Involvement, Democracy5
revelou que as associações desportivas, culturais e recreativas e as
associações de solidariedade social e religiosas representaram a maior fatia
da presença associativa em Portugal (Viegas e Santos, 2009, p. 127). A
exploração empírica (Viegas, 2004; Viegas e Santos, 2009) permitiu também
traçar uma tendência no modelo de envolvimento associativo português: um
reduzido número de participantes, mas com alta intensidade de participação
(Viegas e Santos, 2009, p. 128).
Uma nota para dar conta das taxas de participação e adesão muito baixas dos
Jovens Portugueses de Hoje6 (Cabral e Pais, 1998). Em Os jovens e a
política (2008), Magalhães e Moral concluíram que os níveis de pertença
associativa dos jovens portugueses são baixos, exceto em associações de cariz
religioso ou paroquial (Magalhães e Moral, 2008, p. 42). Também Pedro Moura
Ferreira investigou a pertença associativa dos jovens portugueses. Os
resultados revelaram que a atividade associativa com que os jovens mais se
identificam é a desportiva, embora a pertença a uma associação desportiva
signifique, na maior parte das vezes, apenas uma prática de desporto sem uma
relação efetiva com a organização e a vida associativas (Ferreira, 2008, p.
111). O investigador concluiu ainda que há diferenças nas atitudes cívicas e
políticas entre jovens associados e não associados: os jovens associados têm
uma presença mais assídua nos atos eleitorais, manifestam um interesse mais
acentuado pela política e envolvem-se mais frequentemente em ações de
voluntárias na comunidade. O associativismo ajuda a consolidar o sentido da
cidadania (Ferreira, 2008, pp. 113-124).
Um índice global de participação ativa enquadrou a pertença dos inquiridos
(pertença partidária e profissional, social ou cívica), independentemente do
nível de ensino a frequentar, do sexo e da idade (Quadro_5).
Note-se que mais de metade dos alunos (55,8%) declara não ter estado integrado
nem participado em qualquer tipo de organização (partido político, sindicato,
associação, coletividade, movimento ou igreja) no último ano.
A partir das respostas dos inquiridos quanto à sua participação ativa, nos
últimos 12 meses, em organizações de natureza política, profissional, social e
cívica realizou-se uma análise de componentes principais (Quadro_6). A análise
revelou que os dez indicadores presentes no nosso questionário podem ser
organizados em três grupos: participação cívica (associação cívica; associação
humanitária; movimento ambiental, ecológico, de direitos dos animais),
participação social (associação recreativa ou grupo cultural; coletividade de
bairro, clube ou grupo desportivo; associação de estudantes; igreja ou
associação religiosa) e participação política e profissional (partido político;
sindicato; associação socioprofissional).
AUTOMOBILIZAÇÃO POLÍTICA E CÍVICA
A automobilização política e cívica constitui outra aresta da cidadania ativa.
No presente estudo, os indicadores utilizados, um total de 15, reportam-se às
formas de ação política e cívica7 realizadas no último ano, em anos anteriores,
nunca realizados mas possíveis de realizar, e impossíveis de realizar. Estes
indicadores integram formas convencionais de participação, como votar,
participar numa manifestação ou recorrer à greve, por exemplo; e formas menos
convencionais ou não convencionais de participação, seguindo Kaase (1984), como
participar num fórum ou grupo de discussão através da internet, criar
iniciativas cívicas e/ou políticas num blogue ou rede social ou promover
iniciativas cívicas ou políticas num blogue ou rede social.
De um outro ângulo analítico, e seguindo Russell Dalton (2009), estes mesmos
indicadores dizem respeito a vários tipos de mobilização, como votar, protestar
(por exemplo, participar numa manifestação ou recorrer à greve), contactar (por
exemplo, contactar um político ou os media) ou participar publicamente (por
exemplo, assinar uma petição ou um abaixo-assinado ou fazer donativos a
instituições).
Olhemos os resultados obtidos para os indicadores utilizados no quadro desta
investigação (Figura_2).
Os resultados globais revelam que apenas dois indicadores reúnem a maioria dos
inquiridos quanto às suas práticas no último ano: votar em eleições (68,1%) e
assinar uma petição ou um abaixo-assinado (56,3%). Sublinhe-se, no entanto, que
apenas votar em eleições reúne a maioria dos inquiridos de todos os níveis de
ensino: afirmaram ter votado em eleições no último ano 56,8% dos alunos do EFA
básico, 61,8% dos alunos do EFA secundário e 70,7% dos alunos do ensino
superior (Quadro_7).
A propósito, afirmou Walzer: a cidadania é hoje o mais passivo dos papéis: os
cidadãos são espectadores que votam (Walzer, 1995). Também Isabel Menezes e
Bártolo Campos concluíram que o exercício da cidadania entre os mais jovens se
resume ao ato de votar, num estudo que envolveu adolescentes portugueses
(Menezes e Campos, 1996). Quase uma década depois, Pedro Magalhães e Jesus Sanz
Moral concluíram que o voto continua a ser visto como a forma mais eficaz de
participação política e que as diferenças entre escalões etários são reduzidas
e não significativas (Magalhães e Moral, 2008, pp. 27-28).
O quadro_8 mostra os resultados (globais e por nível de escolaridade a
frequentar) de 14 indicadores de automobilização política e cívica presentes no
questionário, organizados segundo as diferentes dimensões identificadas na
análise de componentes principais (cf. Quadro_9). Pela sua especificidade e
transversalidade, foi excluída a participação política, cuja leitura foi já
realizada de forma autónoma.
Tendo por referência os últimos 12 meses, observa-se que todas as práticas de
automobilização política e cívica são declaradas por minorias, exceto assinar
uma petição ou abaixo-assinado e apenas no caso dos inquiridos que frequentam
o ensino superior (64,8%).8 Em rigor, os alunos do ensino superior apresentam
alguns resultados expressivos: no último ano, 24,4% destes alunos compraram ou
boicotaram produtos por razões políticas ou éticas, 23,9% contactaram
instituições ou serviços, 20,1% fizeram donativos a instituições/grupos/
organizações políticas. É interessante reter o que os inquiridos dizem que
nunca fariam: a maioria dos alunos afirma que nunca compraria ou boicotaria
produtos por razões políticas ou éticas (EFA básico: 50%; EFA secundário:
49,3%; ensino superior: 44,1%) e nunca participaria em ações de protesto
ilegais, como boicotes eleitorais ou corte de estradas (EFA básico: 50%; EFA
secundário: 47,8%; ensino superior: 50,6%).
Quanto a formas convencionais de participação, e tomando a amostra como um
todo, a maioria dos inquiridos nunca contactou ou apareceu na comunicação
social (69,5%), nunca contactou ou tentou contactar um político ou um alto
funcionário do Estado (65,5%), nunca participou em discussões públicas (65,5%),
nunca participou em peditórios por uma causa pública (58,6%), nunca recorreu à
greve (54%) ou nunca participou numa manifestação (52,7%). A grande maioria
destes alunos nunca participou num comício ou reunião política (49,6%), nunca
contactou instituições ou serviços (43,1%), nunca comprou ou boicotou produtos
por razões políticas ou éticas (42,5%) e nunca fez donativos a instituições/
grupos/organizações políticas (41,1%).
Quanto a formas menos convencionais de participação, outro conjunto de
indicadores muito interessante é o que se relaciona com os novos movimentos
sociais: os resultados dos três indicadores disponíveis mostram claramente que
a maioria dos inquiridos, independentemente do nível de ensino, nunca
participou num fórum ou discussão online (55,6% da amostra), nunca criou
iniciativas cívicas/políticas num blogue ou rede social (63,8% da amostra) e
nunca promoveu iniciativas cívicas/políticas num blogue ou rede social (60,8%
da amostra).
Por fim, registe-se que os inquiridos que afirmam ter realizado no último ano
alguma das várias formas de ação política e/ou cívica listadas no questionário
representam 82,3% da amostra. No entanto, se excluirmos o voto em eleições,
essa percentagem cai para os 66,7%.
Recorde-se que também Pedro Magalhães e Jesus Sanz Moral (2008, p. 30)
concluíram que os níveis de participação em Portugal são baixos, em formas de
participação convencional e não convencional, em todos os escalões etários e
que os comportamentos participativos dos jovens não se distinguem daqueles
exibidos pelo resto da população ativa (Magalhães e Moral, 2008, p. 34). Na
verdade, a investigação sociológica realizada em Portugal tem revelado, ao
longo das últimas décadas, um país com uma baixíssima propensão para a ação
coletiva (Cabral, 1997), com um claro desinteresse pela política, pela
participação e pela ação coletivas (Cabral, 1997; Mozzicafredo, 1997; Cabral e
Pais, 1998; Pais, 1999; Vala, Cabral e Ramos, 2003; Casanova, 2004; Vala e
Torres, 2006), com uma crise de cidadania ativa, particularmente entre os
mais jovens. No entanto, convém não esquecer, como salienta a investigadora
Isabel Menezes, que falar de participação cívica e política dos jovens'
envolve um reconhecimento da pluralidade de diversidades que integram esta
categoria (Menezes etal., 2012, p. 10). Por outro lado, há que reconhecer que
a participação não decorre num vácuo social, mas em contextos determinados por
uma rede de influências institucionais e societais (Menezes etal., 2012, p.
11). Quanto ao género, uma investigação de Baum e Espírito-Santo revelou que as
mulheres têm uma menor propensão para o exercício de formas de participação
política extraeleitorais (Baum e Espírito-Santo, 2007).
Recorde-se também que o inquérito à população portuguesa, coordenado por Manuel
Villaverde Cabral, concluiu que existe alguma capacidade de automobilização na
defesa de interesses e valores, mas fracos níveis de cidadania política e uma
grande distância em relação ao poder (Cabral, 2000). Já Manuel Braga da Cruz,
em meados da década de 90 do século XX, havia sugerido que a baixa participação
política dos portugueses mostra uma fraqueza na edificação da democracia
nacional e que as novas formas de participação política (como protestos ou
petições) são um indicador de um processo de substituição de uma participação
política orientada pelas elites para uma participação orientada para as elites
(Braga da Cruz, 1995, p. 317).
Uma nota para o projeto multidisciplinar europeu ProcessesInfluencing
Democratic Ownership and Participation. O PIDOP decorreu entre 2009 e 2012 e
foi desenvolvido por nove equipas de investigação, uma das quais portuguesa (da
Universidade do Porto, liderada por Isabel Menezes). Centrado nas experiências
de agência e participação política e cívica dos jovens (em Portugal, envolveu
jovens de origem portuguesa, de origem angolana e de origem brasileira), o
estudo revelou que os inquiridos de origem portuguesa afirmaram não existir
oportunidades suficientes para a sua participação (para além do voto),
reconheceram que o seu interesse relativamente a questões políticas é (em
geral) baixo e que, mesmo estando interessados em questões sociais (ambientais
ou de direitos humanos, por exemplo), raramente se envolvem ativamente
(Ferreira, 2012, p. 152). A sua baixa participação é notória (embora a larga
maioria já tenha tido alguma experiência de envolvimento) assim como é clara a
sua baixa perceção de eficácia do envolvimento político (Ferreira, 2012,
p.152).
A partir do conjunto de indicadores de formas de ação política e cívica foi
realizada uma análise de componentes principais (Quadro_9), no sentido de
perceber se estes podem ser organizados num número menor de dimensões
(componentes).
Os resultados apontam para uma organização em quatro componentes: comunicar
(criar iniciativas cívicas/políticas num blogue ou rede social, promover
iniciativas cívicas/políticas num blogue ou rede social, contactar ou aparecer
na comunicação social, participar em discussões públicas, contactar ou tentar
contactar um político ou um alto funcionário do Estado), protestar (recorrer à
greve, participar em ações de protesto ilegais, participar numa manifestação,
num comício ou reunião política), reivindicar (assinar uma petição ou abaixo-
assinado, comprar ou boicotar produtos por razões políticas ou éticas,
participar num fórum ou grupo de discussão online) e contribuir (fazer
donativos a instituições/grupos/organizações políticas, participar em
peditórios por uma causa pública).
A partir desta análise, foram construídos quatro índices. Cada índice integra
as variáveis com maior peso (loading) em cada uma das componentes (comunicar,
protestar, reivindicar, contribuir) e traduz o nível de participação, em termos
médios, em diferentes modalidades de automobilização política e cívica dos
inquiridos9 (Quadro_10).
Os resultados revelam que reivindicar é a forma de ação/mobilização cívica que
apresenta frequências médias mais elevadas e protestar a que apresenta valores
mais baixos (2,61 vs. 2,05). De qualquer forma, diga-se que, em média, os
quatro tipos de ação/mobilização apresentam frequências relativamente
equivalentes e pouco elevadas: os valores globais médios situam-se todos entre
o 2 e o 3).
Os alunos do ensino superior revelam práticas de ação/mobilização política e
cívica mais altas em todas as componentes: estes alunos são, como seria de
esperar [a evidência empírica tem vindo a mostrar que a ação e participação
política e cívica varia significativamente com a escolaridade (cf., por
exemplo, Cabral, 2000)], os mais proativos política e civicamente (Figura_3).
Quanto à idade, constata-se que, tendencialmente, as ações reivindicativas
descrescem à medida que aumenta a idade e as de protesto aumentam à medida que
aumenta a idade (Figura_4).
INTERESSE PELA POLÍTICA
O indicador interesse pela política traduz, de alguma forma, a preocupação
dos cidadãos pela coisa pública (Brites, 2011, p. 72). A maioria dos
inquiridos, independentemente do nível de ensino, afirma ter algum interesse
pela política (43,5%). A percentagem de mulheres que declara ter algum
interesse pela política é de 62,9% (homens: 37,1%). Segmentando os dados por
níveis de escolaridade (Quadro_11),
observa-se que a percentagem de alunos que dizem ter muito interesse pela
política ronda os 20%, independentemente do nível de ensino que frequentam (EFA
básico: 22,4%; EFA secundário: 22,8%; Superior: 20,4%), 46,8% dos inquiridos a
frequentar o ensino superior afirmam ter algum interesse pela política e 36,7%
dos inquiridos do EFA básico (a maioria, aliás) confessam ter pouco interesse
pela política.
Nesta amostra, o interesse manifestado pela política tende a ser mais elevado
do que noutros estudos de âmbito nacional.10
AUTOPOSICIONAMENTO POLÍTICO
O indicador utilizado no questionário para avaliar o posicionamento político
dos alunos participantes teve por base a partição clássica esquerda-direita e
foi operacionalizado através de uma escala entre 0 (mais à esquerda) e 10 (mais
à direita).
Entre os alunos inquiridos, a opção pelo centro da escala (cf. média) é
bastante evidente, independentemente do nível de ensino. A diferença entre as
médias (EFA básico: 4,4; EFA secundário: 4,9; ensino superior: 5,1) é muito
pouco acentuada (Quadro_12).
Pensamos poder existir uma baixa compreensão de conceitos como esquerda e
direita no Portugal de hoje. Em rigor, a alternância eleitoral, desde o
início dos anos (19)80, entre o centro-esquerda (identificada com o Partido
Socialista) e o centro-direita (identificado com o Partido Social Democrata),
em média a cada dois sufrágios, espelha este facto e revela o país do
centrão.
Visto numa outra perspetiva, e tomando a amostra como um todo, os resultados
revelam que a maioria dos inquiridos se situa no centro da escala. O centrão
(4-5-6) reúne 50,4% dos inquiridos. O que podemos denominar por esquerda mais
à esquerda (3-0) reúne 24,1% dos inquiridos. Na mesma linha, a direita mais à
direita (7-10) representa 25,5% dos participantes.11 Relacionando o
autoposicionamento político dos inquiridos com o interesse declarado pela
política e a pertença a um partido político, concluímos existirem tendências
semelhantes à esquerda e à direita.12
A fechar este ponto, diga-se que o autoposicionamento político dos inquiridos
neste estudo reproduz, em rigor, os resultados apurados numa série de outros
estudos (nomeadamente, o ESS) que usam o mesmo indicador: a maioria escolhe o
centro da escala e evita os extremos. Ao que parece, os inquiridos
considerarem-se moderados (Brites, 2011, p. 89). Este facto repete-se na
maioria dos países europeus: na Europa, os cidadãos autoposicionam-se
maioritariamente em torno do centro da escala, ou seja, identificam-se com
posições moderadas ao centro (Brites, 2011, p. 93). A conclusões semelhantes
chegaram Villaverde Cabral13 (2000, p. 92) e Magalhães e Moral14 (2008, p. 48).
COMPETÊNCIAS DE LITERACIA MEDIÁTICA E PRÁTICAS DE CIDADANIA
O CONCEITO DE LITERACIA MEDIÁTICA
As sociedades contemporâneas são sociedades das literacias. A literacia
mediática ' assim como a literacia digital, a literacia financeira, a literacia
da saúde, etc. ' constitui-se como um recurso: uma condição básica para a
reflexividade, por um lado, e potencialmente uma condição básica para a
cidadania e a participação na esfera pública, a base da democracia (Habermas,
1997), por outro.
O conceito de literacia mediática remete para um conjunto de capacidades, de
competências-chave, que permitem ao cidadão aceder, analisar, interpretar,
avaliar criticamente, criar e comunicar mensagens em diversos contextos
(Aufderheide e Firestone, 1993; Thoman, 2003; Livingstone, 2003; Thoman e
Jolls, 2003; Martinsson, 2009).
Estas competências ' técnicas, críticas, sociais e criativas (Helsper e Eynon,
2013) ', multidimensionais e processadas em continuum (Potter, 2001), são
desenvolvidas ao longo da vida e usadas de forma relativamente automática e
inconsciente, mobilizadas como resposta a exigências específicas, mais ou menos
complexas, em contexto. As competências de literacia (mediática) são, portanto,
recursos e disposições para a ação (Ávila, 2008) que permitem a cada indivíduo
responder às necessidades da vida em sociedade (Kirsch etal., 1993, p. 2).
O interesse pelo estudo da literacia mediática tem crescido exponencialmente
nos últimos anos e tem incidido mais nas práticas mediáticas do que nas
competências de literacia mediática dos indivíduos. De facto, é relativamente
simples encontrar evidência empírica acerca das práticas mediáticas dos
portugueses (e, neste particular, refira-se o trabalho do Observatório da
Comunicação) e bastante difícil encontrar alguma informação acerca das suas
competências de literacia mediática. A investigação científica neste particular
' centrada em três grandes áreas: Ciências da Comunicação, Ciências da Educação
e Sociologia ' resume-se, em Portugal, a menos de uma dezena de trabalhos e
todos eles muito recentes (João e Menezes, 2008; Silva, 2010; Lopes, 2014;
Carvalho, 2015; Pereira, Pinto e Moura, 2015).
A RELAÇÃO ENTRE LITERACIA MEDIÁTICA E CIDADANIA
A importância da educação para os media (e para a literacia mediática) e a sua
relação com práticas de cidadania tem vindo a ser destacada desde a Declaração
de Grünwald sobre a Educação para os Media (UNESCO, 1982). De forma bastante
explícita, e em particular na última década, tem integrado (como pressuposto) o
discurso de instituições e organizações internacionais, como a UNESCO, o
Conselho da Europa ou a União Europeia, de instituições e grupos da sociedade
civil, como o Center for Media Literacy, o CLEMI ou o consórcio EAVI, e de
investigadores e académicos, como os espanhóis José Manuel Pérez-Tornero e José
Ignacio Aguaded Gómez, os franceses Jacques Gonnet e Evelyne Bevort, os
britânicos Sonia Livingstone e David Buckingham, ou as norte-americanas
Elizabeth Thoman e Renee Hobbs, por exemplo. A nível nacional, o destaque vai
para o trabalho de alguns ' poucos ' investigadores portugueses, como Manuel
Pinto e Sara Pereira, ambos do Departamento de Ciências da Comunicação da
Universidade do Minho, ou Vítor Reia-Baptista, da Universidade do Algarve.15
Todos estes discursos têm em comum a ideia de que, em teoria, existe uma
relação entre literacia mediática e o exercício de uma cidadania ativa: ora
sublinhando a educação para os media e a literacia mediática como potencial
ferramenta para compreender a sociedade e participar na vida democrática
(UNESCO, 2007), reconhecendo a importância da literacia mediática e o seu
papel na promoção da participação ativa dos cidadãos na vida económica,
cultural e democrática da sociedade (União Europeia, 2008), afirmando a
literacia mediática como fator importante para a cidadania ativa na sociedade
da informação de hoje (União Europeia, 2009), ora como uma extraordinária
forma de iniciação às práticas democráticas (Gonnet, 2007, p. 7) ou como uma
dimensão da cidadania e um direito humano fundamental (Buckingham, 2003).
A um nível empírico, a investigação baseada na hipótese de que a literacia
mediática dos cidadãos tem impacto relevante nas suas práticas de cidadania
encontra-se ainda numa fase embrionária, tanto a nível nacional como
internacional.
A nível internacional, um trabalho de investigação de referência é Beyond
cynicism. How media literacy can make students more engaged citizens, de Paul
Mihailidis (2008), no qual se avaliam práticas mediáticas e competências de
literacia mediática junto de uma amostra de 239 alunos da Universidade de
Maryland, nos Estados Unidos.16 A nível nacional, o estudo Literacia mediática
e cidadania: Práticas e competências de adultos em formação na Grande Lisboa
(Lopes, 2014) inaugura uma linha de investigação, ao relacionar e submeter a
investigação empírica a relação entre competências de literacia mediática e
participação cívica.
RESULTADOS
Uma análise global dos resultados, com base numa escala de 100 pontos, permite
concluir que a escolaridade e a idade são duas importantes dimensões
sociográficas explicativas das competências de literacia mediática destes
indivíduos.17
A análise do quadro seguinte (Quadro_13) permite verificar que, em média, à
medida que o nível de ensino frequentado aumenta, aumentam as pontuações médias
do desempenho dos alunos na prova de literacia mediática.
Quanto à idade, a análise permite constatar que, em média, os alunos mais novos
apresentam melhores classificações na prova. O quadro seguinte (Quadro_14)
apresenta a média do desempenho dos alunos por escalões etários:
As maiores diferenças nas médias das classificações verificam-se essencialmente
entre os alunos com idades até aos 31 anos e os seus colegas com idade igual ou
superior a 52 anos.
Verifica-se que, em média, não existem diferenças relevantes entre as
classificações dos alunos e das alunas que responderam à prova.
COMPETÊNCIAS DE LITERACIA MEDIÁTICA E PRÁTICAS DE CIDADANIA
Como vimos anteriormente, a integração e participação cívica, social, política
e profissional dos inquiridos faz-se sobretudo em coletividades de bairro,
clubes ou grupos desportivos (17,9% dos inquiridos) e em igrejas ou associações
religiosas (12.8% dos inquiridos). Mas será que a participação ativa está
relacionada com as competências de literacia mediática dos indivíduos? A partir
da análise desta amostra, a resposta é negativa (Quadro_15).
Na verdade, o facto de os indivíduos fazerem parte e participarem ativamente
neste tipo de organizações não parece influenciar ou determinar as suas
competências de literacia mediática. Em alguns casos, a relação entre as
variáveis é até negativa, como no caso da integração/participação em igrejas ou
associações religiosas, partidos políticos ou sindicatos.
Esta relação inversa entre literacia mediática e contexto social e político
pode estar relacionada com o perfil social daqueles que participam neste tipo
de organizações (mais velhos, menos qualificados) e/ou com a escassa exigência
deste tipo de competências neste tipo de organizações. Por outro lado, o
caráter doutrinário deste tipo de organizações (e falamos especificamente de
igrejas, partidos políticos e sindicatos) pode, de alguma forma, condicionar
(no sentido de entrar em conflito) as competências de literacia mediática dos
indivíduos, particularmente nas suas dimensões crítica e criativa.
Quanto a formas de (auto)mobilização política e cívica, e usando os indicadores
que nos parecem mais expressivos (cinco indicadores de quatro componentes:
votar, comunicar, protestar e reivindicar), nota-se uma relação positiva,
embora ligeira: os resultados mostram a fraca relação entre práticas políticas
e cívicas e competências de literacia mediática dos indivíduos (Quadro_16).
A relação entre competências de literacia mediática e grau de interesse pela
política não é significativa, embora, em média, à medida que o interesse pela
política aumenta, aumentam as pontuações que refletem as competências de
literacia dos indivíduos. Esse aumento é, no entanto, muito ligeiro. Em rigor,
diga-se que falamos de uma variação que atinge, no máximo, 5,8 pontos (Quadro
17).
ANÁLISE DE REGRESSÃO MÚLTIPLA: PRÁTICAS DE CIDADANIA
Esta pesquisa foi orientada, desde o primeiro momento, por um objetivo muito
concreto que é agora oportuno relembrar: que relação existe (se ela existe)
entre literacia mediática e práticas de cidadania? Dito de uma outra forma, em
que medida é que as práticas mediáticas e as competências de literacia
mediática contribuem para explicar as práticas de cidadania dos indivíduos?
Para dar resposta a esta questão, e dada a importância de se perceber quais os
fatores que podem influenciar as práticas de cidadania, recorremos a uma
análise de regressão linear múltipla (Quadro_18). Através desta análise,
tentámos perceber qual o peso relativo de alguns fatores e qual a sua
correlação com algumas práticas de cidadania ativa.
Partindo da análise de componentes principais (ACP) das formas de ação política
e cívica foram mobilizadas três variáveis dependentes para esta análise: ACP
comunicar (criar iniciativas cívicas/políticas num blogue ou rede social,
promover iniciativas cívicas/políticas num blogue ou rede social, contactar ou
aparecer na comunicação social, participar em discussões públicas, contactar ou
tentar contactar um político ou um alto funcionário do Estado), ACP protestar
(recorrer à greve, participar em ações de protesto ilegais, participar numa
manifestação, participar num comício ou reunião política) e ACP reivindicar
(assinar uma petição ou abaixo-assinado, comprar ou boicotar produtos por
razões políticas ou éticas, participar num fórum ou grupo de discussão online).
As variáveis independentes acionadas nesta análise dizem respeito à
caracterização sociográfica do inquirido (escolaridade, sexo, idade), à
caracterização de algumas das suas práticas mediáticas (práticas de leitura de
livros e de jornais, de audição de rádio, de visionamento de TV, nomeadamente
nas vertentes informação, entretenimento e cultura, e de navegação e utilização
de internet, nomeadamente na vertentes informação e pesquisa, e edição de
conteúdos), e às competências de literacia mediática (a partir de uma escala 0-
100 pontos).
No quadro_18 encontram-se sombreados os resultados de variáveis independentes
que se revelaram estatisticamente significativas na análise de cada ACP.
No primeiro modelo (no qual a percentagem de variação explicada pelo modelo é
de 23%), os resultados mostram a existência de correlações positivas entre as
formas de ação/mobilização política e cívica que compõem a ACP comunicar e a
gestão de conteúdos (edição de imagem, de som e/ou de vídeo, construção/
manutenção de um blogue ou de uma página web), o visionamento de géneros
jornalísticos informativos na televisão (telejornais, programas de entrevista
ou debate, grandes reportagens) e o número de livros impressos lidos por ano. O
modelo mostra também uma correlação negativa com a frequência de visionamento
de televisão: quem mais vê televisão, menos participa ativamente.
A correlação entre este tipo de práticas e o sexo dos inquiridos revelou-se
também significativa: há mais homens do que mulheres a criarem ou a promoverem
iniciativas cívicas/políticas num blogue ou rede social, a contactarem ou
aparecerem na comunicação social, a participarem em discussões públicas, a
contactarem ou a tentarem contactar um político ou um alto funcionário do
Estado.
Embora não se tenha mostrado estatisticamente significativa, destaque-se a
relevância da relação entre este conjunto de práticas de cidadania e a
escolaridade (os inquiridos a frequentar níveis de ensino mais elevados tendem
a praticar mais ações políticas e cívicas deste tipo) e a leitura de jornais
(quem lê mais jornais impressos, comunica mais).
No segundo modelo (e sublinhe-se desde já que a percentagem de variação
explicada pelo modelo é de apenas 11%), as variáveis mobilizadas que parecem
estar mais positivamente correlacionadas com as formas de ação/mobilização
política e cívica que integram a ACP protestar são a idade, o número de
livros (impressos) lidos por ano e a gestão de conteúdos: os mais velhos, os
que leem mais livros por ano e os que mais conteúdos gerem no seu quotidiano
são os que mais protestam.
De referir ainda o peso da escolaridade e do visionamento de géneros
informativos televisivos, embora não sejam variáveis estatisticamente
significativas.
Quanto ao terceiro grupo de práticas de cidadania ativa, integradas na ACP
reivindicar (e aqui a percentagem de variação explicada pelo modelo sobe para
os 25%), o número de livros (impressos) lidos por ano mantém um contributo
decisivo. No entanto, afirme-se que os fatores mais determinantes neste
particular são a escolaridade e a idade: os inquiridos que frequentam níveis de
ensino mais elevados e os mais velhos são os que mais reivindicam, isto é, são
os que mais assinam petições ou abaixo-assinados, compram ou boicotam produtos
por razões políticas ou éticas, e participam em fóruns ou grupos de discussão
online.
Como vimos, o número de livros impressos lidos por ano é a única variável
estatisticamente significativa a integrar as três análises de regressão linear
múltipla (comunicar, protestar, reivindicar), é a principal determinante das
práticas de cidadania nesta amostra.
A relação entre competências de literacia mediática e práticas de cidadania
revela-se surpreendente: em nenhum dos casos analisados, as competências de
literacia mediática se mostraram significativas quando associadas a formas de
ação/mobilização política e cívica. Realce-se que apenas na análise da ACP
reivindicar esse tipo de competências de literacia ganha algum destaque:
reivindica mais quem detém mais competências de literacia mediática.
Em síntese, apresentamos (Figura_5) os fatores explicativos das competências de
literacia mediática e das práticas de cidadania que se revelaram mais
significativos nesta investigação.
NOTAS FINAIS
Os resultados de Literacia mediática e cidadania. Práticas e competências de
adultos em formação na Grande Lisboa obrigam-nos a questionar a ideia
(preconcebida) de que os mais jovens e mais escolarizados são, à partida,
indivíduos ativos, participativos, empenhados. Em rigor, os dados revelam que
apenas uma minoria destes jovens se empenha e se mobiliza e que muito poucos
são os que efetivamente usufruem das potencialidades das novas tecnologias.
Quanto a práticas de cidadania, os resultados mostram uma baixa propensão para
a integração política, profissional, social ou cívica e uma baixa propensão
para a (auto)mobilização política e cívica ' conjunto de dados preocupante e
que impõe reflexão (e ação), nomeadamente a nível de políticas públicas. Os
níveis de pertença associativa são bastante baixos.
Todas as práticas são declaradas por minorias, exceto votar e assinar uma
petição ou abaixo-assinado (e, neste caso, apenas por alunos a frequentar o
ensino superior). Quanto a novos movimentos sociais, a maioria dos inquiridos
nunca participou num fórum ou discussão online e nunca criou ou promoveu
iniciativas cívicas ou políticas num blogue ou rede social. Em rigor, os
inquiridos neste estudo não perseguem os seus interesses online ou offline,
parecendo pautar-se pela indiferença, ociosidade e apatia política, social e
cívica.
A partir de uma análise de componentes principais, e muito embora a variação
seja ligeira, podemos dizer que reivindicar é a forma de mobilização cívica com
frequências médias mais elevadas. Pela associação entre escolaridade, idade e
práticas de cidadania, ficámos a saber que os alunos a frequentar o ensino
superior revelaram, como seria de esperar, ser um pouco mais ativos, sobretudo
no que diz respeito a ações de reivindicação; os mais velhos reivindicam menos,
mas protestam mais.
A relação entre competências de literacia mediática e práticas de cidadania
revelou-se pouco significativa. Em relação à pertença associativa, a integração
dos indivíduos não parece influenciar ou determinar as suas competências de
literacia mediática. Em relação à mobilização política, social e cívica,
concluiu-se pela relação não significativa entre as práticas de cidadania
analisadas e as competências de literacia mediática.