Protesto político e atividade policial: a perceção dos media
ARTIGO
Protesto político e atividade policial: a perceção dos media
Political protest and police activity: the media perception
INTRODUÇÃO
Quando se pensa no modo como construímos a perceção acerca de instituições do
sistema social, nas decisões que tomamos e nos comportamentos que adotamos em
face delas, o tema da qualidade e do teor das informações com que somos
confrontados assume particular relevo. A enorme quantidade de informação em
circulação e, sobretudo, a diversidade de meios tecnológicos atualmente
disponíveis se por um lado democratiza o acesso a conteúdos, por outro torna
mais problemática a sua fiabilidade. Isto pode dificultar a decisão das pessoas
quanto à informação em que podem e devem confiar. Contudo, também pode levar a
que evitemos certas fontes, colocando-se aqui a questão de saber se elas são,
efetivamente, menos credíveis ou se são simplesmente descartadas por um
critério ad hoc.
Os conteúdos informativos difundidos pelos órgãos de comunicação social (OCS)
são, para muitos, ainda hoje, os únicos que facultam algum conhecimento acerca
de certos assuntos, que os instruem em primeira mão sobre temas com os quais
nunca tiveram qualquer contacto. Acresce que, apesar de a comunicação
eletrónica estar amplamente disseminada, os OCS tradicionais mantêm lugar de
destaque ao difundirem em larga escala informações às quais grande parte das
pessoas não têm acesso por outras vias. Muitos afirmam que o desenvolvimento
das democracias modernas se fez a par com a expansão e diversificação dos OCS
(Benkler, 2006; Dahlgren, 2005; Goldman, 1999), o que faz cair, pelo menos em
parte, a responsabilidade da promoção do sucesso da democracia sobre os media
(Goldman, 1999). De facto, principalmente depois da Segunda Grande Guerra, à
medida que os media comerciais foram surgindo e as pessoas se tornaram
progressivamente mais instruídas, os mass media foram dominando a esfera
pública (Dahlgren, 2005; Habermas, 1989).
No que respeita à informação de cariz político, as pessoas confiam que os OCS a
difundam e interpretem, através do contacto privilegiado que mantêm com fontes
credíveis e dos jornalistas e comentadores especialistas em certas matérias.
Ora, circulando a informação desta forma pelo tecido social, ela propaga
representações que se tornam partilhadas por todos, no sentido da expressão de
Durkheim (1995 [1895]) de crenças coletivamente partilhadas. Os media são
produtores de significado, não meros dispositivos reprodutores ou refletores de
significado (Pais etal., 2013, pp. 205-206), possibilitam o contacto e o
acesso a experiências sobre temas e objetos de outro modo desconhecidos ou
inacessíveis. Os media dão forma(s) à realidade, criam-na; constituem-se como
influências modeladoras (Bandura, 2001) para os cidadãos. E isto liga-se com
a existência de um agendamento (agenda-setting) dos media que conhece reflexos
na perceção que as pessoas vão ter sobre certos temas. É neste sentido que as
representações sociais (Moscovici, 2000) estão ligadas ao controlo social
porque elas definem para a maioria da população os acontecimentos
significativos atuais, mas também oferecem interpretações fortes (hard) para a
sua compreensão (Critcher etal., 1993, p. 228).
Este agendamento tem igualmente relação com o facto de muitas empresas de
comunicação serem privadas, visando a obtenção de lucros para os seus
acionistas, conflituando este objetivo com a exigida imparcialidade,
transparência e verdade da informação que apresentam (Goldman, 1999), embora os
mesmos problemas possam colocar-se relativamente às entidades estatais.
Referindo-se aos OCS privados, Benkler (2006, p. 198) escreve que eles formam
a base que providencia a síntese requerida pela opinião pública e aumenta a
saliência de assuntos que preocupam o público até ao ponto da potencial ação
coletiva. Os interesses económicos destas empresas resultam também na
concentração dos OCS em locais onde é mais frequente acontecer a notícia ou
onde ocorrem conferências de imprensa (Goldman, 1999), tornando evidente uma
assimetria no processo comunicacional que se liga à autoridade e legitimidade
das fontes.
Assim, há um preço que se paga quanto à qualidade da informação. Focando a
televisão, Goldman (1999, p. 341) refere a obsessão que existe relativamente a
histórias sobre conflito e adversarialismo, em detrimento de histórias
genuinamente importantes sobre consenso e conciliação. Para conseguirem shares
progressivamente maiores, a competição e o jogo político merecem bastante
atenção, mas também temas como crime e sexo que, ligando-se à (nossa própria)
intimidade, permitem desviar a atenção de assuntos importantes para toda a
sociedade (Pais etal., 2013). O preço a pagar traduz-se, pois, na oferta de uma
visão parcial sobre certos temas socialmente relevantes, configurando a
realidade de uma certa maneira, simplificando o significado complexo de certos
assuntos, mostrando às pessoas que temas estão na ordem do dia e, portanto,
sobre os quais podem/devem pensar (Saperas, 2000) e discutir com os seus
colegas, amigos e familiares.
Por outro lado, considerando o ponto de vista do recetor da informação, quando
se fala no medo do crime, por exemplo, é sabido que as pessoas constroem a
sua noção de violência de acordo com a posição que assumem relativamente às
características da narrativa que lhes é apresentada, independentemente do que
os construtores da notícia pretendessem que fosse percebido (Livingstone, Allen
e Reiner, 2001). As pessoas mais temerosas são mais dependentes e fáceis de
persuadir e manipular, aceitando mais facilmente, por exemplo, um reforço das
medidas de manutenção da segurança sempre que o clima político é exagerado
pelos OCS em termos de situações perigosas que possam ocorrer, ou deixando,
simplesmente, de participar em eventos políticos, ou de outro tipo.
Os OCS fornecem, então, mapas de significados (Mealha, 2009; Pais etal.,
2013) que permitem às pessoas contextualizar a informação aos mais diversos
níveis ' social, político, cultural ' de maneira a ser-lhes possível, ou pelo
menos mais fácil, assumir posição relativamente a determinado assunto. Os media
oferecem mundivisões, representações da ordem e da desordem, sempre reforçando
a estabilidade da estrutura social. Por paradoxal que possa parecer, a visão de
uma sociedade do consenso é fortalecida em detrimento do dissenso e da
disrupção (como mostram os estudos sobre as notícias de crimes; e.g. Ericson,
Baranek e Chang, 1991), e por isso os media constituem-se enquanto reguladores
sociais, enquanto dispositivos de controlo social (Cohen e Young, 1988).
Então, a informação transmitida pelos OCS, até pela extensão do seu alcance e
diversidade de meios que utilizam, exerce influência sobre a maneira como as
pessoas apreendem, compreendem e organizam o seu meio envolvente. Por isso,
importa que a psicologia dos media estude os assuntos a que as pessoas são
expostas através da informação que lhes é disponibilizada (Giles, 2003), uma
vez que ela interfere, ainda que indiretamente, na maneira como vão perceber o
funcionamento das instituições do sistema social (Saperas, 2000). Aliás, não é
aceitável pensar que nas sociedades contemporâneas os cidadãos possam
constituir um grupo homogéneo ou suscetível de ser tornado homogéneo (Botein
e Rice in Castells, 2010, p. 359), como pensaram os responsáveis das televisões
governamentais até cerca dos anos 1980.
As pessoas não são passivas relativamente aos efeitos da comunicação. Os
conteúdos comunicacionais, explícitos ou subliminares, são trabalhados,
processados pelos indivíduos colocados em contextos sociais específicos, assim
modificando o que era o efeito pretendido para a mensagem (Castells, 2010, p.
364). Entretanto, nas relações interpessoais, também se reconstroem e negoceiam
significados (Bruner, 1990), obrigando os media a acompanhar estas
transformações e a especializar-se em certos assuntos, de maneira a responder
às demandas das diferentes audiências.
Se a comunicação social influencia, em geral, a construção da imagem das
instituições do sistema social, importa conhecer em concreto de que forma isto
acontece em relação a uma dessas instituições: a polícia. Na verdade, os
conteúdos transmitidos acerca da atividade policial constituem-se num discurso
que vai conhecer reflexos na formação da perceção das pessoas relativamente a
esta instituição estratégica no sistema social. Ao longo do tempo, a construção
deste enquadramento sociopolítico estabelecerá um território discursivo onde se
configurarão representações acerca da polícia que podem influenciar o
comportamento social. Aliás, a polícia está cada vez mais atenta ao impacto
potencial das representações dos media sobre a perceção pública de legitimidade
e autoridade do seu trabalho, como demonstram os estudos de Chermak e Weiss
(2005) ou de Mawby (2002). Como chamam a atenção Mendes e Seixas (2005, p.
102), os relatos dos jornalistas, de crítica ou endosso das acções
empreendidas, dão aos participantes os recursos para a produção das lógicas de
justificação das acções de protesto e aos públicos os quadros de interpretação
das mesmas. Embora referindo-se, no caso, aos movimentos sociais e às ações de
protesto, esta produção de lógicas de justificação aplica-se à ação da polícia,
também ela, afinal, participante ativa na cena social.
Neste estudo caracteriza-se o discurso veiculado por OCS portugueses acerca da
atividade policial no contexto do policiamento de grandes eventos políticos
durante o ano de 2012, procurando descrever os esquemas interpretativos que as
notícias providenciam para que as pessoas possam observar e entender a ação da
polícia nestes contextos, e destacando diferenças e similaridades entre
diferentes tipos de OCS.
MÉTODO
Recorreu-se a uma abordagem qualitativa (Denzin e Lincoln, 1994) que permitiu a
codificação dos conteúdos das peças noticiosas e o estabelecimento de
inferências, tentando compreender a construção do seu significado. Foram
realizados três estudos de forma a possibilitar uma análise comparativa,
baseada no mesmo procedimento de recolha, codificação e análise dos conteúdos
dessas peças noticiosas.
CORPUS
Para cada estudo, o corpus submetido a análise foi constituído pelo universo
das peças noticiosas (para cada meio de comunicação) relativas ao policiamento
em grandes eventos políticos, transmitidos durante 2012, considerando os
critérios de seleção. Foram escolhidos para análise: a agência de notícias
portuguesa Lusa; os jornais diários Correio da Manhã, Diário de Notícias e
Jornal de Notícias; e, os telejornais diários transmitidos às 13h00 e às 20h00
dos canais televisivos RTP, SIC e TVI. Os jornais diários e os canais de
televisão foram escolhidos com base na tiragem e nos níveis de audiência,
respetivamente.
A escolha dos eventos baseou-se na definição de grande evento adotada pelo
International Permanent Observatory on Security during Major Events (2007).
Foram selecionados seis grandes eventos políticos que decorreram em Portugal
durante o ano em análise: duas manifestações da CGTP; duas greves gerais; e,
duas manifestações de protesto social.1
Nos três estudos foram usadas consistentemente nove palavras-chave na seleção
das notícias, feita por clipping nas bases de dados CISION e LUSA: greve geral;
indignados; manifestação; polícia; policiamento; protesto; PSP; rasca; e
troika.
Seguindo Bardin (1977), o corpus foi considerado válido pois respeita as
regras: da exaustividade (não foi excluído qualquer item noticioso que
correspondesse aos critérios de seleção); da representatividade (todos os itens
coletados foram tomados para análise, neste caso, o universo de notícias); da
homogeneidade (todos os itens eram do mesmo tipo); e da pertinência (todos os
itens eram relevantes para a análise).
INSTRUMENTO
A análise de conteúdo (Bardin, 1977; Ghiglione e Matalon, 1993; Krippendorff,
1980; Weber, 1985) foi usada como instrumento de tratamento de dados. Descrita
como sendo um instrumento apropriado para lidar com dados que não foram gerados
para investigação, a análise de conteúdo aplica-se a materiais que foram
livremente produzidos pelos seus autores. É o caso dos materiais selecionados
para este estudo.
Como qualquer outro instrumento científico, a análise de conteúdo obriga a
procedimentos especializados de forma a considerar-se válida e replicável,
assegurando a qualidade da análise e a validade dos resultados. A qualidade da
análise é determinada por procedimentos de fiabilidade e validade. A
fiabilidade está ligada aos procedimentos de análise (codificação) e, assim, ao
instrumento e ao próprio analista (investigador). Primeiro, as categorias de
conteúdo não podem ser ambíguas, possibilitando a codificação de todas as
unidades de registo (ur) ' neste caso, uma proposição ou um parágrafo que
expresse uma ideia enquadrável numa categoria específica ' com certeza e
segurança, e de forma rigorosa. Depois, o corpus deve ser submetido a
procedimentos de codificação em tempos diferentes ao longo da análise
(fiabilidade intracodificador) pelo analista (critério da estabilidade) e por
diferentes analistas (fiabilidade inter-codificador), de maneira a chegar aos
mesmos resultados. Este é o critério da reprodutibilidade que, de acordo com
Krippendorff (1980), é talvez o atributo mais importante da fiabilidade.
Quanto à validade, ela atravessa todo o processo de análise e está ligada à sua
qualidade. Se provada, os resultados da investigação devem ser aceites e
tomados em consideração enquanto factos incontestáveis (Krippendorff, 1980).
A definição das categorias é, pois, crucial, devendo permitir uma
representação simplificada dos dados brutos (Weber, 1985, p. 12), funcionando
como um título genérico (Bardin, 1977) para um conjunto de informação que
partilhe características comuns. Entretanto, a codificação de uma secção de
informação implica detetar as características ou indicadores de uma categoria
específica. Um critério importante da validade interna da categorização é o da
exaustividade da análise: a totalidade do corpus (das ur) deve ser codificada
nas categorias definidas. Outro é o critério da exclusividade, que obriga a que
cada unidade de registo seja codificada uma única vez numa única categoria.
PROCEDIMENTO
Todos os materiais escritos foram copiados para uma base de dados entretanto
constituída (os materiais das televisões foram primeiro transcritos verbatim) e
depois analisados seguindo as regras atrás descritas, assim garantindo a
fiabilidade e a validade dos procedimentos. Utilizou-se a grelha categorial de
Pais etal. (2013), embora se mantivesse abertura à definição e inclusão de
novas categorias, usando um procedimento misto de análise. Procurou-se que as
categorias, que a seguir se apresentam, fossem simultaneamente exclusivas,
homogéneas e pertinentes considerando os propósitos da investigação.
A. Manifestantes (e.g. subcategoria A.3 ' caracterização: pessoas de
várias gerações, notícia 80 ' televisão).
B. Polícia de Segurança Pública ' PSP (e.g. subcategoria B.6 '
resultados/consequências da atuação: à hora do fecho desta edição, a
polícia apontava para 48 feridos ligeiros, 21 dos quais polícias,
notícia 65 ' jornais).
C. Discurso direto (e.g. subcategoria C.7 ' sindicatos: nem os
serviços mínimos estão a ser cumpridos, porque o tribunal arbitral
exclui o SNM [Sindicato Nacional dos Motoristas] da negociação,
notícia 127 ' Lusa).
D. Instâncias (e.g. subcategoria D.4 ' instâncias judiciárias: ( )
Tribunal de Pequena Instância, notícia 1 ' televisão).
E. Discurso indireto (e.g. subcategoria E.2 ' fonte policial: trata-
se de uma relação que funciona com base na confiança entre
profissionais das duas instituições ( ) dizem ( ) fontes ligadas à
PSP, notícia 91 ' jornais).
F. Enquadramento/descrição (e.g. subcategoria F.5 ' objetivos: a
manifestação ( ) tem como objetivo ( ) protestar contra a
precariedade, notícia 4 ' Lusa).
G. Sistema explicativo espontâneo (e.g. subcategoria G.1 ' atuação
policial: tão serena que espancou protestantes pacíficos, notícia
77 ' jornais).
Cada autor deste trabalho serviu como juiz independente nos estudos realizados.
As discordâncias no processo de codificação foram resolvidas consensualmente
depois de voltar aos dados brutos de maneira a analisar as unidades de registo
(ur) no seu contexto. Finalmente, foi efetuada uma análise estatística que
permitiu o exame e interpretação dos resultados seguindo uma abordagem
descritiva e comparativa.
RESULTADOS
APRECIAÇÃO GERAL
Codificou-se um total de 12289 unidades de registo: 6293 ur relativas a 221
peças noticiosas da Lusa, e 3615 ur relativas a 122 peças noticiosas dos
jornais, cobrindo os seis eventos estudados; e, 2381 ur atinentes a 87 peças
noticiosas das televisões, cobrindo apenas três dos eventos estudados.
Em termos de quantidade de conteúdos noticiados, quase não se registam
diferenças entre os OCS: cerca de 28 ur por notícia da Lusa; 29 ur por
notícia dos jornais; e, 27 ur por notícia das televisões. Todavia, é
importante referir desde já que 90,5% das notícias da Lusa referiam-se à greve
geral de 22 de março, à manifestação que se lixe a troika de 15 de setembro,
e à greve geral europeia de 14 de novembro. As televisões cobriram precisamente
estes três eventos, e nenhum dos outros selecionados para análise. Os jornais
dedicaram 82,8% das notícias à greve geral de 22 de março e à greve geral
europeia de 14 de novembro. Isto permite afirmar que os OCS se concentraram,
sobretudo, em noticiar os eventos em que ocorreram confrontos entre a PSP e os
manifestantes.
Verifica-se uma tónica predominantemente descritiva do conteúdo noticioso, e
uma centração (expectável) na informação relacionada com a PSP, com recurso,
nomeadamente, ao discurso direto dos diversos intervenientes nos eventos.
Contudo, os manifestantes são pouco referenciados pelos OCS.
Outra nota digna de registo relaciona-se com a pesquisa feita diretamente sobre
as ur que exibem um caráter claramente positivo ou negativo, considerando
toda a informação transmitida pelos OCS sobre a atuação policial nos eventos
estudados. Pode afirmar-se que a tónica dos discursos produzidos é,
genericamente, mais positiva que negativa: na Lusa, de forma mais evidente (242
ur com conteúdo positivo contra 122 ur com conteúdo negativo); e, também,
nas televisões, ainda que de forma menos clara (162 ur com conteúdo positivo
contra 147 ur com conteúdo negativo). Os jornais, entretanto, invertem esta
tendência, tendo sido codificadas 111 ur com conteúdo positivo contra 139
unidades de registo com conteúdo negativo. Esta diferença pode ficar a dever-se
às características dos diferentes tipos de OCS, o que se procurou perceber com
a continuação da análise dos resultados, mais especificamente das fontes de
informação em que os jornalistas se apoiaram para construir as notícias.
FONTES DE INFORMAÇÃO
Considerando as fontes de informação, procurou-se saber quem fala em discurso
direto (a quem é dada voz) e quem é citado, por vezes com referências a fontes
anónimas (discurso indireto parafraseado pelos jornalistas). Em primeiro lugar,
diga-se que as fontes diretas são usadas por todos os OCS em maior quantidade
do que as fontes indiretas. Analisemos agora quais os atores que mais falaram
diretamente à comunicação social (cf. Figura_1).
Na figura pode verificar-se que a PSP não foi a fonte de informação
privilegiada pelos OCS para apresentação do seu discurso em primeira mão. A
Lusa privilegiou as palavras de ordem, e fontes diversas como advogados dos
detidos nas manifestações ou elementos da Inspeção-Geral da Administração
Interna; só depois surgem os membros do governo e a polícia. Este enfoque
poderá resultar da necessidade de ouvir os governantes acerca da justificação
da atuação policial, nomeadamente dando voz ao ministro da Administração
Interna (e.g. quando [a polícia] foi forçada a intervir fê-lo de forma
legítima em reação às agressões e para repor a ordem pública, notícia 77).
Os jornais deram também mais voz a fontes diversas como as já mencionadas;
depois à polícia, quer para explicar quer para fornecer resultados da sua
atuação nos eventos; a membros do governo; e, aos organizadores dos eventos.
Refira-se que apesar de ser apresentado o discurso da polícia na primeira
pessoa, a fonte não é geralmente identificada em concreto ' em 77,0% dos casos
apenas surgem referências como: fonte oficial da PSP (notícia 58), ou a PSP
(notícia 62).
As televisões deram primazia às palavras de membros do governo, que em nenhuma
ocasião criticam negativamente a atuação policial, depois às de elementos dos
sindicatos e, só então, às das fontes policiais, quase não dando voz aos
organizadores dos eventos.
De referir, também, o relevo que assumem as declarações de peritos,
especialistas ou comentadores na imprensa, em comparação com os outros OCS.
Este tipo de intervenções está geralmente associado à emissão de opinião
especializada, ou técnica, mas também à reflexão sobre determinados assuntos
específicos, os quais são abordados de um ponto de vista mais pessoal,
eventualmente menos objetivo. É o que acontece nos artigos de opinião (Crato,
1995), sendo que foram analisadas, neste trabalho, 29 peças desse género
jornalístico.
Uma nota para as palavras dos políticos, considerando aqui todos os OCS. As
declarações que valorizam positivamente a atuação policial são feitas,
sobretudo, por elementos da área política do governo, e as declarações de cariz
negativo são feitas por elementos da oposição ao governo, nomeadamente de
partidos mais à esquerda no espectro político.
As palavras dos manifestantes não assumem grande peso nas notícias, embora
sejam mais usadas pelas televisões, onde, em apenas 32,0% das declarações
transmitidas são tecidas críticas negativas à atuação policial. Nas notícias da
Lusa, embora os manifestantes quase não sejam ouvidos e pouco se pronunciem
sobre a ação policial, quando o fazem referem-se a esta de forma sobretudo
negativa (em 78,3% das declarações).
No que respeita às fontes citadas, ou seja, às declarações que foram
apresentadas nas palavras dos próprios jornalistas, observe-se a figura_2.
Na figura pode verificar-se que todos os OCS tomam o mesmo tipo de fontes para
construir o seu discurso, a saber: interlocutores vários; polícia; e, membros
do governo. Apenas os jornais dão maior prevalência às fontes policiais, ainda
que marginalmente e, de novo, quase nunca mencionando a identificação concreta
das fontes (e.g. dizem ( ) fontes ligadas à PSP, notícia 91). Os vários
interlocutores são, basicamente, os mesmos que foram ouvidos de viva voz,
talvez devido ao facto de grande parte dos conteúdos analisados dizerem
respeito, como já se escreveu, a eventos durante os quais ocorreram confrontos
entre manifestantes e PSP, resultando na abertura de processos de averiguação.
Assim, temos: advogados dos detidos nas manifestações; Inspeção-Geral da
Administração Interna; e, Observatório de Segurança, Criminalidade Organizada e
Terrorismo.
Quanto aos membros do governo, é sobretudo com base nas declarações do ministro
da Administração Interna que são apresentadas justificações para a atuação
policial durante os eventos e informação acerca das medidas tomadas na
sequência da instauração de processos de averiguação (e.g. o ministro ( )
justificou implicitamente a atuação dos agentes com a afirmação de que reagiram
a provocações, como o arremesso de pedras, notícia 19 ' jornais).
Diga-se, entretanto, que o discurso indireto que as televisões apresentam
acerca da atuação policial é mais positivo. Os membros do governo e,
especificamente, o ministro da Administração Interna enaltecem a atuação da PSP
(e.g. o ministro ( ) elogiou o trabalho da PSP, notícia 74).
Conforme aconteceu na análise do discurso direto (Figura_1), na categoria
discurso indireto os jornais dão particular destaque ao que dizem peritos,
especialistas ou comentadores, quando comparados com os outros OCS.
Deve, igualmente, dar-se nota da subjetividade das/nas notícias analisadas.
Este elemento específico foi analisado através de uma categoria (G ' sistema
explicativo espontâneo) que codificou toda a informação suportada em
declarações subjetivas, que dissessem respeito a atribuições e causalidades
implícitas, feitas para descrever as diversas ocorrências, concebidas pelos
jornalistas ou reformuladas a partir das fontes. Declarações com conteúdo
marcadamente subjetivo foram encontradas em somente 3,5% da totalidade das
notícias, maioritariamente produzidas pelos jornais e pelas televisões. Isto
evidencia o esforço de muitos jornalistas na apresentação de informação o mais
isenta possível, onde não fiquem espelhados os seus juízos de valor e
convicções pessoais. Observe-se então a figura_3.
Embora o valor global encontrado na categoria seja baixo, revela, não obstante,
a existência de peças noticiosas onde tal acontece, especialmente nos jornais e
de forma mais notória quanto às atividades policiais. Nos jornais, analisadas
as unidades de registo, pode afirmar-se que o discurso é marcadamente negativo
(e.g. valentes agentes que se comportaram como delinquentes de farda, notícia
21; é de recear que a polícia pense levar a cabo tal combate com bastões',
notícia 26; a brutalidade da polícia contra os infelizes, os pobres, os
explorados, notícia 80), e foi produzido, sobretudo, no âmbito da greve geral
de 22 de março, dia em que ocorreram incidentes no Chiado envolvendo
manifestantes, jornalistas e polícia.
Interessante é o facto de existirem também, nos jornais, declarações favoráveis
relativamente à atuação policial, nomeadamente na decorrência da manifestação
de 14 de novembro (greve geral europeia), em que houve confrontos entre
manifestantes e polícia durante uma vaga de dispersão realizada pela PSP após
horas de agressão por parte de manifestantes, frente à Assembleia da República
(e.g. como fator positivo, deve reconhecer-se que as forças da ordem, da PSP,
estiveram à altura das suas responsabilidades, notícia 66; esperemos que as
forças de segurança mantenham ( ) o bom senso que têm demonstrado nos últimos
tempos, notícia 72; os polícias são seres humanos, notícia 74).
As televisões, apesar de terem apresentado juízos subjetivos, sobretudo nas
descrições que fizeram dos eventos, também o fizeram acerca da atuação
policial. Neste caso, analisando as unidades de registo, pode afirmar-se que o
cunho negativo não é tão evidente. Contudo, a mesma tendência verificada quanto
aos jornais pode observar-se nas televisões: apreciações negativas a propósito
da ação da polícia no dia da greve geral de 22 de março (e.g. a jornalista já
a recuar, o agente de bastão com destino certo, notícia 83); e, positivas a
propósito da greve geral europeia de 14 de novembro (e.g. podemos ver um carro
da PSP aqui mas de forma bastante ordeira, notícia 56).
OS EVENTOS
Os eventos foram apresentados seguindo um padrão discursivo comum em todos os
órgãos de comunicação social pesquisados (cf. Figura_4).
As notícias, eminentemente descritivas, procuram caracterizar o ambiente dos
eventos e o desenvolvimento dos acontecimentos (e.g. pelo caminho, as montras
de agências de entidades bancárias ( ) foram partidas, notícia 46 ' jornais;
onde está montado um microfone, já havia intervenções de pessoas que iam
participar na manifestação, notícia 88 ' Lusa; os manifestantes da CGTP vão
ficar mesmo em frente à escadaria da Assembleia da República, notícia 17 '
televisões). São fornecidos alguns detalhes quanto aos locais de realização dos
eventos, dia e hora. A Lusa e os jornais dão igualmente algum relevo aos
motivos que levaram à realização dos eventos (e.g. vão protestar contra as
medidas penalizadoras do OE, notícia 202 ' Lusa; contra as medidas de
austeridade em Portugal, notícia 52 ' jornais), ainda que as televisões lhes
prestem menor atenção. Ou seja, as notícias quase não tratam as questões
estruturais que geralmente mobilizam as pessoas para participar neste tipo de
ação social ( ) [assim descurando] a vasta ecologia social do cenário político
(Pais etal., 2013, p. 214). De notar, ainda, que os órgãos de comunicação
social prestaram pouca atenção aos objetivos que se pretendiam alcançar com a
realização dos eventos, sendo residual a sua menção nas notícias.
OS PARTICIPANTES NOS EVENTOS: MANIFESTANTES E POLÍCIA
Os manifestantes presentes nos grandes eventos políticos de 2012 são referidos
nas notícias quanto à sua caracterização (cf. Figura_5), verificando-se
novamente a prevalência de uma tónica descritiva no conteúdo noticioso (e.g.
pessoas de várias gerações, notícia 80 ' televisões; alguns manifestantes
tidos como radicais, notícia 45 ' jornais), em detrimento das razões pessoais,
políticas, ideológicas e sociais que possam ter levado à participação nos
eventos.
Quanto aos elementos policiais presentes nos eventos (cf. Figura_6), os OCS
claramente salientam os resultados e consequências da sua atuação, e também
descrevem a atuação policial propriamente dita. Estes resultados devem ser
entendidos à luz dos acontecimentos analisados, dado que foram aqueles em que
ocorreram confrontos entre manifestantes e elementos policiais que mereceram
maior cobertura noticiosa. Entretanto, os motivos que estiveram na base das
ações da polícia, e que poderiam sustentar a sua necessidade, são menos focados
nas notícias. Por outro lado, informação que, supostamente, exige um maior
conhecimento acerca dos métodos e práticas policiais (e.g. o dispositivo
policial destacado especificamente para os eventos) quase não é mencionado nas
notícias, o que coloca a questão de saber se os jornalistas estão
familiarizados com estas matérias.
Considerando o conjunto dos três tipos de OCS, pode afirmar-se que as
televisões deram particular destaque à PSP (com 42,5% do total de ur, contra
32,7% dos jornais e 34,3% da Lusa). Detalhando a análise da cobertura
televisiva feita, pode dizer-se que 68,7% dos conteúdos noticiados dava conta
dos resultados e consequências da atuação policial (e.g. vão ser estudadas
formas de identificar os profissionais de comunicação social no meio das
multidões, notícia 11; a intervenção da polícia durante a manifestação
desencadeou entretanto outros protestos, notícia 75), sendo reportadas as
detenções feitas e os feridos registados (e.g. os detidos foram algemados,
sentados no chão e depois transportados em carrinhas da PSP, notícia 38; dos
confrontos resultaram 48 feridos, notícia 18).
Embora preocupando-se menos com a descrição das ações levadas a cabo, são
feitas afirmações com conotação negativa pelos jornalistas, todas elas
referentes à atuação da polícia por ocasião da greve geral de 22 de março,
quando jornalistas foram alvo da intervenção policial (e.g. e no momento em
que digo que sou jornalista, deixem-me passar, levei a bastonada, notícia 6);
e, são igualmente feitas afirmações com conotação positiva pelos jornalistas,
todas elas relativas à atuação da polícia durante a greve geral europeia de 14
de novembro, quando manifestantes foram alvo de uma vaga de dispersão após
terem agredido elementos policiais em frente à Assembleia da República (e.g.
aqueles que ofereceram resistência naturalmente foram atingidos pela polícia,
notícia 84).
Uma palavra para as imagens transmitidas. Mais de metade delas mostram
elementos policiais, quase sempre (81,4%) utilizando a força para dispersar
manifestantes mais violentos, em confrontos com manifestantes, e também a
efetuar detenções. São igualmente mostradas mais imagens de manifestantes
violentos, a derrubar grades de segurança ou a empurrar elementos policiais, do
que a manifestarem-se pacificamente. Em menor número são também apresentadas
imagens de algumas pessoas entrevistadas. Por último, refira-se a exibição,
pelas televisões, de imagens amadoras. Embora com pouca expressão, elas
sinalizam que o jornalismo feito pelo cidadão (citizen journalism) parece
encontrar também acolhimento junto deste OCS, pelo elevado potencial noticioso
que possui (Greer e McLaughlin, 2010). Este tópico não foi, no entanto, objeto
de análise, deixando-se para mais tarde, noutros estudos, a sua consideração.
DISCUSSÃO
A comunicação social fornece mapas de significado que servem à construção de
mundivisões e ao concomitante posicionamento das pessoas no seu contexto social
de vida. Sobre os mais diversos temas, os media podem expressar, filtrar, e
acreditar afirmações ( ), de modo a que eles se tornem tópicos bem
especificados e realistas para o debate público entre cidadãos informados
(Benkler, 2006, p. 198).
Consideramos que é importante conhecer os discursos que circulam na sociedade
acerca da atividade policial, de maneira a ultrapassar algumas ideias falsas,
ou menos precisas, acerca da polícia, instituição estratégica no sistema social
e indispensável à ordem e paz social com a garantia da defesa de direitos e
liberdades.
Se a polícia procura, cada vez mais, uma maior proximidade aos cidadãos através
da implementação de programas específicos (Programa Integrado de Policiamento
de Proximidade), os media, enquanto produtores de realidade, difundem conteúdos
que criam um certo clima comunicacional, assim colocando na ordem do dia certos
assuntos que são, ou se tornam, importantes para as pessoas. Trata-se, pois, de
perceber melhor que tipo de conteúdos podem passar a integrar os seus próprios
discursos, que partilham nas suas relações interpessoais e que, por isso mesmo,
multiplicam, configurando ao longo do tempo, como se escreveu acima,
representações acerca da polícia que podem influenciar o comportamento social.
É sabido que a atuação policial e a perceção que dela tem a sociedade é
pesquisada de diferentes maneiras, seguindo diversos ataques metodológicos.
Do mesmo modo, é uma evidência que a atividade policial não se resume aos
grandes eventos políticos. O foco escolhido para esta investigação encontra
justificação noutra ordem de ideias. A quantidade de pessoas envolvidas e os
temas e motivos pelos quais saem à rua para se manifestar fazem dos grandes
eventos políticos acontecimentos de obrigatória e intensa atenção dos órgãos de
comunicação social. Estes, por outro lado, amplificam inexoravelmente os
eventos, exponenciando o número de pessoas que com eles tomam contacto, direta
ou indiretamente. Assim, enquanto a atividade quotidiana da polícia acaba por
passar despercebida para muitos, ela é tornada visível nas manifestações
políticas.
Associando isto ao atual contexto social, político e económico português, de
contestação, perceberemos melhor a importância acrescida que tem aceder a estes
conteúdos, de forma a entender qual a imagem que os OCS passam acerca da PSP,
que pode usar a força para manter a ordem social. Se os protestos e as
reivindicações não são formas patológicas de acção política mas formas
expressivas de realização de cidadania em contexto democrático (Mendes e
Seixas, 2005, p. 125), a atividade policial, de manutenção da ordem e da
segurança dos cidadãos, é uma actividade essencial num Estado de direito
democrático, levada a cabo por instituições públicas no sentido de garantirem a
efectividade dos direitos civis, políticos e sociais (Oliveira, 2006, pp. 54-
55).
Merece ser discutido o destaque que os OCS dão aos eventos políticos em que
ocorreram confrontos entre a polícia e os manifestantes. Esta notoriedade
relaciona-se, evidentemente, com os valores-notícia do conflito e da
negatividade (Galtung e Ruge, 1999; McQuail, 2003; Tuchman, 1978; Wolf, 1987),
que tornam este tipo de informação noticiável, evidenciando o potencial que as
fontes têm de colocar dentro do sistema comunicacional assuntos que possam ser
assumidos pelo público como merecendo preocupação e consideração (Benkler,
2006). Esta tendência corresponde também ao já referido particular interesse
que as televisões têm em histórias de conflito e adversarialismo (Goldman,
1999, p. 341). Como empiricamente se viu, as razões que levaram a polícia a
atuar nos eventos são residualmente valorizadas pelos OCS, o que torna difícil
a compreensão das intervenções policiais, colocando igualmente questões sobre a
imagem que dela é transmitida para a esfera pública, especificamente no
contexto de grandes eventos políticos, onde é suposto os cidadãos corporizarem
a liberdade de reunião e de expressão.
Este facto condicionou, assim, todo o discurso produzido quer quanto às fontes
utilizadas, quer quanto aos conteúdos propriamente ditos. Como ficou claro,
dois eventos tornaram-se dominantes no panorama noticioso analisado: a greve
geral de 22 de março; e a greve geral europeia de 14 de novembro. Ainda que a
pesquisa não tenha sido realizada evento a evento, tornou-se visível a
utilização de duas estratégias comunicacionais diferentes na cobertura
noticiosa que deles foi feita. Uma assumiu um caráter mais negativo, de crítica
face à atuação policial durante a greve de 22 de março, em que ocorreram
confrontos entre manifestantes, jornalistas e polícias, no Chiado. Outra
assumiu uma tónica mais positiva, referindo-se à greve de 14 de novembro, em
que a polícia desencadeou uma vaga de dispersão após ter sido alvo de
agressão durante várias horas em frente à Assembleia da República.
Esta distinção é importante dada a focalização feita nos resultados e
consequências da atuação policial em detrimento da apresentação dos motivos que
estiveram na sua base, transmitindo às pessoas que assistem ou leem as notícias
informação parcelar e parcial sobre o que aconteceu (framing), dando assim azo
a um entendimento deturpado dos acontecimentos, neste caso acerca da ação
policial. Mas uma nuance deve aqui ser referida. Apesar de a polícia ser a
instituição, num Estado de direito democrático, com poder para recorrer ao uso
da força nas suas ações de reposição e manutenção da ordem pública, a impressão
que fica é a de que ela apenas exerce essa função legitimamente, aos olhos dos
órgãos de comunicação social, quando antes foi vítima, ela própria, de
violência. Por outro lado, esta dupla via de cobertura noticiosa conduz,
igualmente, à questão de saber até que ponto interesses corporativos estão na
sua base: quando há jornalistas envolvidos em confrontos a atuação da polícia é
descrita de forma mais negativa.
Sendo certo que estas inferências podem ser contestadas pois não foram feitos
estudos que permitam estabelecer relações de causalidade, constituem-se, pelo
menos, como indicadores para reflexão no âmbito das relações entre as
autoridades policiais e as direções dos OCS. De facto, no caso específico dos
grandes eventos, é sabido que a perceção de legitimidade da ação é importante
para todos os grupos participantes nos eventos, incluindo-se aqui, obviamente,
o grupo dos elementos policiais. No modelo da identidade social elaborada
(elaborated social identity model, primeiramente desenvolvido por Reicher,
1984, 1996; cf., também, Drury, Stott e Farsides, 2003; Gorringe, Stott e
Rosie, 2012; Hoggett e Stott, 2010; Stott e Reicher, 1998) refere-se,
precisamente, que numa situação em que as relações intergrupais são
assimétricas, como é o caso dos grupos de manifestantes e do grupo dos
elementos policiais, pessoas inicialmente pacíficas podem passar à ação (mesmo
violenta), modificando a sua identidade social, caso julguem a ação policial
como ilegítima. Isto, por exemplo, porque a percecionam como não direcionada
especificamente para elementos perturbadores numa dada situação. Por outro
lado, se a polícia percecionar a multidão como um todo, ao invés de a ver
composta por diferentes grupos com diferentes motivações e intenções, com
diferentes repertórios de ação que podem incluir comportamentos violentos, pode
desencadear uma ação repressiva, não diferenciando os diferentes grupos que a
compõem. E acontece a escalada de violência, com a perceção, de ambas as
partes, da plena legitimidade dos seus comportamentos.
Não sendo, porém, o foco deste trabalho a discussão das implicações desta
conceção para o policiamento da ordem pública, importa realçar a possibilidade
de a imagem que as pessoas têm da polícia ' mais ostensiva e repressora ou mais
tolerante embora firme ' ser construída com a participação dos OCS, através das
narrativas que colocam em circulação na sociedade, influenciando assim o clima
social e político e, em última instância, os comportamentos.
De qualquer modo, o papel da polícia no processo comunicacional deve ser,
também, objeto de atenção. O fornecimento de informação aos OCS, por parte da
polícia, quando ocorrem grandes eventos desportivos, nomeadamente jogos de
futebol das principais equipas, e/ou que sejam considerados de risco, é
visivelmente maior, recorrendo, até, à realização de conferências de imprensa.
Dias antes do evento começa a ser transmitida informação à população,
respeitante, por exemplo, a condicionamentos de trânsito, política de fãs,
objetos proibidos, e comportamentos inapropriados que não serão tolerados.
Desta forma, a generalidade das pessoas, e dos jornalistas, toma conhecimento
de que as forças policiais estarão no terreno para assegurar a realização do
espetáculo desportivo, procurando que antes, durante e depois haja um clima
ordeiro, tranquilo e de festa para todos. Esta abordagem coloca a polícia na
dianteira do processo comunicacional, mostrando-se mais interessada, proativa e
próxima dos cidadãos ao tornar pública a sua estratégia de ação, o que além de
assegurar e reforçar a sua relação com os media está em concordância com o
princípio da educação constante dos princípios de redução do conflito
(conflict-reducing principles, e.g. Reicher et al., 2004; Reicher et al.,
2007). De facto, se a polícia deve ser instruída quanto às identidades sociais
dos vários grupos que compõem as multidões nos eventos, seus valores,
objetivos, e historial de ações levadas a cabo, também o público em geral e os
jornalistas devem ser instruídos acerca da polícia e suas missões.
Aliás, como se viu, as notícias pouco referiam informação mais específica
acerca de modelos e práticas utilizadas pelos elementos policiais durante os
eventos, o que coloca a dúvida sobre a preparação que os jornalistas possuem
para cobrir este tipo de situações. Atualmente, as redações têm dificuldade em
destacar e treinar jornalistas em tópicos específicos e, por outro lado, também
os profissionais contratados em regime temporário acabam por sucumbir aos
desígnios de certas políticas de informação, mais ou menos ancoradas em
interesses políticos, económicos, ou outros. Este aspeto pode ser pensado
recorrendo ao posicionamento de Goldman (1999) quando se refere à falta de
treino de jornalistas e proprietários de OCS em práticas que privilegiem a
transmissão de informação transparente e verdadeira (veritistically optimal
practices, p. 340).
Mas tudo isto tem a ver com a maneira como a sociedade percebe a atividade
policial de imposição e manutenção da ordem: usando a força em nome do Estado,
ou em resposta ao pedido social de proteção de todos os cidadãos (e.g.
policiamento por consentimento da comunidade ' policing by consent, Waddington
e Wright, 2009). Os resultados deste trabalho obrigam a equacionar dois
raciocínios distintos. Por um lado a história portuguesa recente mostra a
ligação de um regime político ditatorial (até 1974) com um estilo policial de
tipo paramilitar (Waddington, 2007), focado na autoridade do Estado, baseado no
exercício ostensivo da força e poder à custa dos direitos fundamentais dos
cidadãos (para uma análise aprofundada do uso da força por parte do Estado no
protesto político em Portugal, vd. Palacios Cerezales, 2011). Associado a isto,
pode pensar-se na assunção de uma postura corporativa por parte dos
jornalistas, que se mobilizaram, inclusivamente, num protesto de menores
dimensões realizado à frente da Direção Nacional da PSP, no dia a seguir à
manifestação de 22 de março em que ocorreram confrontos com jornalistas. A
defesa da integridade dos jornalistas e da liberdade de informação face à
utilização da força ' um resquício de uma representação social (Moscovici,
2000) de uma polícia repressiva, provavelmente reavivada durante estas
ocorrências. Aqui, os media não podem ser entendidos como instrumentos de/para
o controlo social (Cohen e Young, 1988) mas, sim, como representantes da
liberdade em rota de colisão com o exercício de um poder autoritário.
Por outro lado, pode observar-se uma aproximação a uma polícia vista como
composta por pessoas comuns, mas que conseguem manter a calma numa difícil
situação em que são alvo de agressões durante horas a fio por parte de
manifestantes, como no evento de 14 de novembro. Muitos, seguramente, ter-se-ão
identificado com aqueles indivíduos que se mostraram imperturbáveis durante as
agressões, compreendendo e acedendo, por fim, à reação policial. Aqui o
discurso dos media mudou. Neste caso, verificou-se uma atitude generalizada de
crítica positiva face à atuação policial, com críticas negativas veiculadas por
vozes conotadas com os partidos mais esquerdistas.
Assim, os produtores de notícias não são, efetivamente, independentes, pelo
menos no que respeita à defesa da corporação. Mas, para o que aqui importa,
eles constituem influências modeladoras (Bandura, 2001), difundindo um clima
social e político determinado, ajudando as pessoas a organizar o seu mundo
imediato (Saperas, 2000). Poderá pensar-se na existência de uma imagem ambígua
da polícia quando intervém em grandes eventos políticos, que se traduzirá em
perceções ambivalentes por parte dos cidadãos.
Um outro resultado deve ser mencionado e sinalizado para futuros estudos. Como
se viu atrás, a tónica geral do discurso dos OCS é positiva, à exceção dos
jornais que, entretanto, deram bastante relevo às declarações de peritos,
especialistas ou comentadores, quando comparados com os outros OCS. Estas
personagens servem a função de emitir opinião especializada, técnica, mas
apresentam igualmente as suas reflexões pessoais, cientificamente sustentadas
ou não, contribuindo quer para uma discussão de pontos de vista opostos sobre
determinada matéria quer para a sustentação e credibilização de declarações dos
jornalistas aquando da apresentação das notícias. A questão que se coloca
relaciona-se com o facto de, regra geral, o público apenas poder conjeturar
acerca do posicionamento político destes comentadores, dado que,
independentemente da sua área de formação e de especialização académica, não
são absolutamente claros sobre a ideologia que subjaz aos seus comentários.
Fica a pergunta: qual o seu contributo na coloração da informação?
Uma última nota para mencionar algumas limitações deste estudo. Apesar de ser
usual a crítica quanto à utilização da análise de conteúdo, para além de terem
sido cumpridos todos os procedimentos relativos à fiabilidade e validade,
assume-se, aqui, o posicionamento de Reiner (2007, p. 304) quando afirma que
os resultados devem ser interpretados reflexiva e cautelosamente como uma
leitura possível. Como tal, podem suscitar ideias valiosas e questões sobre o
significado de tendências e padrões. Refira-se, também, que os resultados
deste estudo devem ser lidos considerando a forma como os OCS trataram a
informação sobre os eventos selecionados durante o ano de 2012, o que não
autoriza a generalização da discussão feita para a perceção social do modus
operandi da polícia. A transferibilidade dos resultados e sua discussão para
outros contextos da atividade policial em grandes eventos (e.g. desportivos)
merecerá a necessária atenção em estudos futuros. Por outro lado, não se
analisaram as eventuais diferenças nos discursos dos OCS estatais e privados.
Entretanto, o programa de investigação prossegue anualmente, o que
possibilitará maior abrangência e precisão nas interpretações feitas.
A terminar, referimos dois assuntos que têm merecido crescente interesse e que,
não tendo sido tomados para análise neste estudo, merecem uma menção, embora
deixando-se para mais tarde o seu desenvolvimento: o jornalismo feito pelo
cidadão (citizen journalism); e a comunicação eletrónica, em particular a
internet. A diversificação dos meios tecnológicos tem permitido a participação
de não-jornalistas na divulgação de certos acontecimentos, por estarem no local
no momento em que acontecem. Os cidadãos deixaram de ser simples fontes de
informação e/ou espectadores, mas [são] também colectores e criadores de
notícias (Mythen, 2010, p. 45), assim alterando a maneira como elas são
criadas, transmitidas e consumidas (Greer e McLaughlin, 2010). Contudo, esta
forma de jornalismo, embora seja cada vez mais utilizado pelo potencial que
encerra, coloca dúvidas quanto à credibilidade das fontes e problemas quanto ao
tratamento dos conteúdos, que não é cabalmente feito. Entretanto, sobre a
internet inúmeros estudos têm sido desenvolvidos assumindo este tópico, hoje,
lugar de destaque na investigação da comunicação política, a par com a
investigação sobre os media tradicionais (Dahlgren, 2005). A internet veio
alterar radicalmente o panorama dos processos de comunicação, ao tornar as
pessoas participantes no debate político, social e cultural, competentes para
se autoconstruírem ao desenvolver procedimentos de recolha, processamento e
interpretação da informação, assim adquirindo e melhor definindo a sua posição
na sociedade (Benkler, 2006; Pais etal., 2013).
Também por estas razões a polícia tem de divisar e concretizar novas formas de
relacionamento e comunicação com os cidadãos, constituindo-se claramente como
fonte primeira de informação, fomentando a proximidade não apenas no terreno
mas também atentando, antecipando, e respondendo aos esquemas discursivos que
circulam na sociedade.