D. Francisco de Melo Manuel da Câmara (1626-1678): biografia, património,
estatuto social e fidelidades
DOSSIÊ: ESTRUTURAS SOCIAIS, VALORES, SOCIABILIDADES
D. Francisco de Melo Manuel da Câmara (1626-1678): biografia, património,
estatuto social e fidelidades
D. Francisco de Melo Manuel da Câmara (1626-1678): biography, estate, social
status and loyalties
BIOGRAFIA
1.ª FASE(1615-1662)
D. Francisco de Melo Manuel da Câmara1 nasceu em Lamego a 15 de fevereiro de
1626 [ver Figura_1]. Cresceu no seio de uma família nobre com domínios
patrimoniais distribuídos por Portugal continental e ilhas, especificamente na
ilha de S. Miguel, arquipélago dos Açores, na qual a propriedade da Ribeirinha
era pertença da família Câmara desde que o trisavô ' Antão Rodrigues da Câmara
' a comprara em 1508 e a vinculara a morgado.2 O pai ' D. Gomes de Melo (c.ª
1580-1645) ' era fidalgo da Casa de Bragança, alcaide-mor de Lamego e
comendador da Ordem de Cristo, cargo e título que o filho herdou após a sua
morte. Do lado materno, era filho de D. Marinha Drago de Portugal, descendente
também de uma família de fidalgos da Casa Real, proprietária de uma quinta em
Vilar de Maçada, Vila Real, herdada em 1600 aquando da morte de seu avô,
Salvador Drago (Sousa, 1747b, p. 123).
D. Francisco descendia pois de uma linhagem ligada, por laços de
consanguinidade, à dinastia de Bragança desde o século XV pela união do seu
trisavô D. Diogo de Melo com D. Maria Manuel de Faro e Noronha (c.ª 1500),
sobrinha neta de D. Fernando II, 3. duque de Bragança (1430-1483).3
Ao longo dos séculos XV e XVI, a Casa dos Melos Manuéis acumulou grandes
benesses, tanto ao nível de cargosrégios (D. Diogo de Melo, trisavô de D.
Francisco, foi estribeiro-mor da imperatriz D. Isabel de Portugal), como
aonível do desempenho de funções no poder local (por exemplo, a alcaidaria de
Lamego na posse do avô, D. Francisco Manuel da Câmara até 1621 e do pai, D.
Gomes de Melo, até 1645) e que se concentraram no património da personagem em
análise. Nesta convergência teremos de ter em conta a transmissão de morgados,
de que é exemplo o já referido morgado da Ribeirinha, por falecimento do filho
de seu primo D. Francisco Manuel de Melo (1666) ' D. Jorge Manuel de Mello
(1674) ', bem como as comendas na Ordem de Cristo de São Mamede de Mogadouro e
de S. Pedro da Veiga de Lila, Santa Maria da Torre, S. Martinho de Ranhados e
do Zambujalinho, termo de Évora, comendassob a tutela da Casa de Bragança
(Sousa, 1747b, pp. 123-124). Do lado materno, D. Marinha Drago de Portugal
herdara de seu avô e de seu pai Nuno Cardazo Homem de Vasconcelos ' capitão-
mor de Lamego ', o morgado da Taipa e dos Reguengos de Folhadal e Paramos, na
comarca de Viseu.4 Acumulou igualmente outros cargos ao longo do tempo como por
exemplo o de trinchante-mor do rei D. João IV, facto mencionado no testamento e
no prefácio da Carta de Guia de Casados.5
Sobre a educação recebida na juventude pouco conseguimos apurar. Sabemos apenas
que o pai era um apaixonado pela História Genealógica e, neste sentido, terá
exercido grande influência sobre D. Francisco. Segundo Diogo Barbosa Machado,
foy egregiamente instruído na Poesia, Lição da História Sagrada e Profana e
muito versado na inteligência das Linguas mais polida6, talento que o destinou
à representação diplomática, mesmo a contragosto, acrescentamos nós.
Como é sobejamente conhecido, era primo co-irmão de D. Francisco Manuel de
Melo, 18 anos mais velho, famoso escritor da nossa história literária. O
contacto com ele mantido contribuiu para o seu enriquecimento pessoal e
cultural. De facto, na vida e obra de D. Francisco Manuel, há várias
referências aos laços de amizade que mantinha com D. Francisco de Melo. Este
participou na obra D. Teodósio através da execução de um desenho que mereceu
uma explicação por parte do escritor: Neste Livro Thedósio, que a Sua
Magestade escrevo, de que determino fazer lhe prezente, fiz debuchar um
Capricho por meu primo D. Francisco, com que raro acerto o poz em effeyto, para
dele se abrir huma estampa que sirva de rostro ao verdadeyro Livro7 [ver
Figura_2].
Anos mais tarde, já em plena liberdade, conviveram no início da década de 60,
na célebre Academia dos Generosos, a cujas sessões D. Francisco de Melo
presidiu por duas vezes (Prestage, 1996, pp. 301-302 e 304). D. Francisco
Manuel de Melo nas Obras Metricas ' Samfonha de Euterpe escreveu-lhe a Carta
II e na Viola de Talia elogiou-o desta forma: Pois que direy de hum Mello/Que
traz a melodia em paralello/ Porque segundo a grega Analogia/ Disse, quam
dicoMelos, Melodia (Machado,1966 [1748], p. 201).
2.ª FASE (1662-1678)
O ano de 1662 constituiu uma mudança radical na vida de D. Francisco de Melo,
uma vez que viajou com a comitiva que acompanhou a rainha de Inglaterra ' D.
Catarina de Bragança (1638-1705) ' até à cidade de Londres, na qual viveu
durante 12 anos, interrompidos pelos quatro em que residiu na cidade de Haia.
Numa primeira fase (1662-1663/4), D. Francisco desempenhou o cargo de
camareiro-mor de D. Catarina, fazendo parte da família, juntamente com a irmã
D. Maria, condessa de Penalva (Rau, 1962, p. 10).
Por estudos recentes, verifica-se que a composição da Casa da rainha de
Inglaterra teve em conta não só a fidelidade da nobreza que aclamou D. João IV
(os casos de Francisco de Mello e Torres e D. Nuno da Cunha Ataíde, por
exemplo), como também a escolha de famílias ligadas a Inglaterra, por exemplo
as açafatas da rainha - D. Francisca Inácia de Vasconcelos, D. Luisa de
Vasconcelos, irmãs do manteeiro da Casa Real, António Toscano de Vasconcelos,
e todos netos de Robert Torne, mestre de capela em Vila Viçosa e mestre de D.
João IV, desde os tempos como duque de Bragança (Flor, no prelo).
Desta forma, o facto de D. Francisco de Melo ser fidalgo da Casa Real, na qual
exercia o ofício superior de trinchante-mor de D. João IV e, mais tarde de D.
Afonso VI, constituíram uma das bases para a sua integração (Monteiro, 2003, p.
532). Em segundo lugar, as qualidades pessoais intrínsecas, ou seja o prudente
juízo que era ornado colocava-o numa posição privilegiada para aconselhar a
inexperiente rainha de Inglaterra.
Essa sensatez, que lhe é reconhecida pela historiografia, aliada a uma cultura
sólida, valeu-lhe a nomeação como embaixador, por diversas vezes. Neste sentido
há que clarificar o caráter das suas diversas nomeações (Cluny, 2004, p. 56).
Logo em novembro de 1663 substituiu, em missão especial, o embaixador português
em Inglaterra, Francisco de Mello e Torres, marquês de Sande, que havia
partido incógnito para Paris a fim de tratar das negociações de casamento de D.
Afonso VI.8 Nesta época, foi responsável pela entrega da cidade de Bombaim,
cláusula consignada no Tratado de Paz e Aliança.
Em 1667, é nomeado embaixador extraordinário em Haia, com o firme propósito de
renegociar o Tratado de Paz com os Estados Gerais das Províncias Unidas
(Faria, 2005, p. 609). Esta designação configura o tipo de nomeação de
negociação, na qual o embaixador não pertencia à nobreza titular, mas era
próximo da Casa Real, inclusivamente primo do conde de Castelo Melhor, valido
de D. Afonso VI (Cluny, 2004, p. 62).
Da leitura da extensa correspondência para várias figuras portuguesas a partir
daquela cidade holandesa conhecemos o dia-a-dia do embaixador, as dificuldades
das negociações, a falta de dinheiro, as intrigas constantes e as impressões
sobre as relações humanas e sociais da época. Ficamos também a conhecer melhor
a personalidade educada deste embaixador, bem como a sua fina ironia, presente
em várias passagens da sua epistolografia como, por exemplo, no comentário
sobre a prestação de Francisco de Brito [que] pediu três coisas: o título de
Visconde, a Vila de Coruche de onde é natural e uma Dama do Paço, que he
peitição nova.9
O retratofísico do embaixador em estudo poderá ser visualizado na obra
domédicoFernando Mendez, um judeu nascido nas Beiras, e que se doutorou em
Montpellier. Em 1667, Mendez publicou na cidade de Lyon a obra Stadium
Apollinare, cujo prefácio é dedicado a D. Francisco de Melo da Câmara,
designado no texto como equiti aurato10 [ver Figura_1].
Em 1668, a alteração política verificada em Portugal, com a subida ao trono de
D. Pedro II, obrigou-o a uma viagem ao reino, a fim de receber novas
instruções. Desta breve permanência (entre os meses de agosto e de novembro),
temos poucas notícias. Data desta época a sua nomeação como 1.º senhor da Silvã
de Cima (mercê concedida por D. Pedro II a 8 de novembro de 1668), título pelo
qual não se deve ter sentido recompensado, não só pelos sacrifícios pessoais
que estava a fazer em Haia, como também pelo facto de este título não estar de
acordo com o caráter extraordinário de que se revestira a sua embaixada.
A 29 de novembro, viria a desembarcar em França (La Rochelle), de onde escreveu
a Duarte Ribeiro de Macedo para lhe conceder hospedagem. Em Paris, conviveu com
este influente diplomata e juntamente tentaram a mediação do Tratado com a
Holanda recorrendo à diplomacia de Luís XIV (Faria, 2005, p. 637). De regresso,
a viagem até Haia é feita por terra, atravessando em pleno inverno cidades como
Lille, Courtrai, Gand e Antuérpia, tendo ficado em casa de Francisco da Silva
filho de Duarte da Silva que aly vive agora.11 Esta estadia estará porventura
relacionada com compras realizadas na Flandres, por exemplo de duas tapeçarias
em Bruxelas.12
Em fevereiro de 1669 passou a escrever de Haia, e, nos meses seguintes, vemo-lo
ocupado com as negociações do Tratado, que findou com louvável sucesso.13 Após
este período, permaneceu mais alguns meses em Haia, e a ociosidade daqueles
tempos destinou-a a passeios (banhos em Achen), visitas e aquisições de obras
de arte para alguns nobres portugueses.
No final desse ano, foi nomeado embaixador ordinário em Londres, mas só a 8 de
dezembro de 1671 fez a entrada pública na cidade do Tamisa, uma vez que o rei
Carlos II não o quis receber devido à aliança matrimonial de D. Pedro II com D.
Maria Francisca de Sabóia. Sobre este assunto escreverá: mas todavia he
grande disgraça que isto estivesse guardado para my no cabo de minha velhice:
bem me advinhava a my o coração que tanto contra minha vontade fui embaxador de
Inglaterra .14 A desilusão era compreensível: em primeiro lugar o significado
político de um ministro do príncipe de Portugal humilhado publicamente. Em
segundo lugar, as consequências pessoais: perdera o caráter de embaixador
extraordinário, o que significava a descida dos seus rendimentos, e constatava
que a sua nomeação não havia acompanhado a tendência geral, verificada após
1668, de dotar as representações permanentes com elementos titulados. O nosso
diplomata via que a titularidade lhe ia fugindo, configurando uma situação em
que aparentemente o reconhecimento do mérito do diplomata, oriundo de uma
antiga nobreza [era tomado em conta], mas sem acesso à Grandeza (Cluny, 2004,
pp. 63 e 65).
Em relação à sua vida privada, sabemos que D. Francisco de Melo nunca se casou,
mas estamos inteirados de que essa possibilidade foi equacionada, mesmo a
poucos anos do seu falecimento, pois cartas já publicadas dão-nos conta dessa
notícia. Com efeito, é através de uma missiva de Manuel Dias para o duque de
Cadaval que apurámos pormenores sobre este assunto, tratado, note-se, com
consentimento do próprio embaixador (Rau, 1962, pp. 21-22). Mas estes anos
correspondiam já aos da doença de D. Francisco, pelo que o negócio não se
chegou a realizar. Determinámos também que, nessa data, tencionava ainda
regressar a Lisboa, como se pode verificar pelo interesse em adquirir casas,
junto a Valverde.15
O nosso diplomata faleceu em Londres, a 9 de agosto de 1678, sendo o testamento
aberto pouco tempo depois. Nele pedia à sereníssima rainha de Inglaterra para
ser enterrado na capela de Somerset House, enquanto não fosse o corpo enviado
para Portugal, como efetivamente veio a suceder no primeiro de dezembro desse
mesmo ano, tendo sido enterrado no mosteiro dos Terceiros em Lisboa, em que
assistiram todos os senhores da corte (Prestage,1966, p. 303).
O PATRIMÓNIO
A 19 de maio de 1674, encontrando-se doente, D. Francisco ordenou a redação de
um longo testamento que conheceu um codicilo em 1678, um mêsantes do
falecimento. Neste texto, optámos poranalisá-lo em onze partes16:
(1) Recomendações preliminares e vontades estipuladas no que diz respeito ao
lugar de enterramento: é pela leitura do testamento que ficamos inteirados do
facto de D. Francisco de Melo querer fazer-se sepultar na capela de Nossa
Senhora da Estrela, localizada no cruzeiro, do lado do Evangelho, na igreja do
convento de S. Francisco de Évora [Figura_3]. Esta capela havia sido fundada
por um seu antepassado, João Afonso Aguiar (c. 1430), provedor de Évora, e o
pai - D. Gomes de Melo - não tivera tempo de concluir as obras para que se
pudesse sepultar conjuntamente com a esposa D. Marinha Drago. D. Francisco
ordenava então que as obras fossem concluídas, os ofícios retomados pelos
religiosos franciscanos, e que tudo fosse custeado pelos rendimentos das
propriedades do Zambujalinho, Évora e Avis. Os pais ficariam sepultados
onthe two sides of the altar in two vaults
, tal como o irmão D. Nuno de Melo, cujo corpo repousava na igreja de S.
Lourenço, perto do convento da Rosa. Para o sepultamento dos próprios restos
mortais escolhia o meio da capela, com uma inscrição colocadaupon the wall
over against the window and cheifely.17
(2) Nomeação dos herdeiros: D. Maria Drago Portugal (c.ª 1610-1684), condessa
de Penalva, foi dada como herdeira universal, devido ao falecimento de seus
irmãos - D. Nuno de Melo18 e de D. Jerónimo de Melo (fevereiro de 1671). Após a
morte do diplomata em estudo, D. Maria Portugal recebia todas as comendas da
cidade de Lamego, outros reguengos e bens da coroa.
O segundo herdeiro nomeado foi D. Francisco Manuel de Melo (c.ª 1667-1724),
filho de D. Jerónimo, nascido naÍndia eórfão, como se pode depreender pelos
receios de D. Francisco quanto à sua tenra idade e longa viagem a efetuar da
Índia para Portugal. Para este herdeiro deixou todo o património do irmão que
havia revertido para D. Francisco de Melo: as duas comendas de S. Miguel de
Linhares e S. Pedro da Torre (?), uma pensão a ser paga na Alfândega, e uma
quantia em dinheiro. À época do falecimento de sua irmã, se não houvesse
herdeiros diretos, o legado passaria para a via colateral, nomeadamente para o
sobrinho D. Pedro de Vasconcelos, filho do primo, D. Simão de Vasconcelos e
Sousa, com a condição de que aquele passasse a usar Melo no nome.19
(3) Propriedades: de igual forma, a irmã foi nomeada herdeira, pelo regime de
uma vida, no solar de Silvã de Cima, para o qual teria de pagar os respetivos
direitos aos religiosos do Convento de Cristo em Tomar, assim como de outros
bens que não estivessem especificados.
(4) Dívidas: a enumeração das dívidas que contraiu é interessante pelas
relações estabelecidas e pelo tipo de negócios a que se dedicou. Distingue
entre as dívidas maiores, lançadas pelo secretário no livro das despesas de sua
casa, e as de menor valor enunciadas de seguida: em primeiro lugar, devia a
Jerónimo Nunes da Costa 1060 dólares pela edição de um livro na Holanda, cujo
título infelizmente não foi referido. Teria sido o AtlasEspanhol com a
genealogia dos reis de Portugal, que mencionou em uma carta dirigida ao marquês
de Fronteira?20 O destino concreto desse dinheiro não o conseguimos apurar, e o
mesmo se pode dizer em relação aos florins que devia a D. Rodrigo Gomes Dias,
morador em Antuérpia.
Em Londres devia a vários artistas de diferentes profissões: ao relojoeiro '
mestre Seignier ' 20 libras esterlinas pelos trabalho de dois relógios e mais
30 guinéus por mais um que fez para a rainha D. Catarina; ao carpinteiro da
Casa de York21 pela execução de uma mesa e bancos, 5 libras; ao pintor mestre
Walton22 por ter feito uma cópia de um retrato de Carlos II, enviada para
Lisboa, avaliada em 40 shillings. Refere ainda que a quantia do gravador que,
até à data (1674), havia trabalhado na sua casa, fosse feita a partir de uma
taxa de 4 libras, de acordo com os registos de Marcos Barbosa e, o mesmo,
acontecendo com o bordador, pelo trabalho dos paramentos de um leito (cobertura
de cama, dossel e suas cortinas).
(5) Assuntos pendentes: no que concerne a este ponto, optámos por designá-lo de
uma forma genérica, dado os assuntos serem de índole diversa, desde finanças a
obras de arte. Assim, constatamos que tinha contas por saldar com D. Fernando
de Mascarenhas sobre a venda de laranjas enviadas da Holanda por este último, e
de tapeçarias, as quais D. Fernando havia pedido a D. Francisco de Melo para
serem vendidas em Londres. Esta combinação deverá ter-se efetuado em Lisboa em
1668 e, posteriormente, do resultado da venda foi despachada uma encomenda, a
saber:
a dressing cabinet with peeces of plateand other things belonging thereonto
which might be worth according to my remembrance sixty or seventy pound
sterling
.23
Declarou ainda que existiam 190 libras esterlinas à guarda do administrador da
Junta do Comércio em Londres ' Álvaro da Costa ' para pagamento de uma letra
enviada através do chanceler inglês a D. Francisco pela aquisição de
tapeçarias.24 Também relacionado com estas, esclareceu estar na posse de um
conjunto representando Rinaldo e Armida que pertencia ao cavaleiro de Jant
(1626-1676), embaixador francês em Portugal em 1655, o qual havia pedido a D.
Francisco que o tentasse vender. Esta informação é para nós importante, uma vez
que é reveladora dos contactos diplomáticos e culturais mantidos entre Jant e
certos meios da nobreza portuguesa.25 A estima terá sido mútua, pois o francês
havia prendado D. Francisco com uma pintura representando S. Sebastião, e
aquele, em testamento, contemplou-o com um relógio de uso pessoal.
Finalmente, declarou que devia 20 mil reis a Luís de Saldanha da Junqueira, por
uma mula que comprou ao irmão António Francisco Saldanha, ambos filhos de Aires
de Saldanha e Albuquerque (1600-1644). Este conhecimento de longa data com a
família Saldanha deverá estar relacionado com a quinta de Alcântara, pertença
do primo, pois há uma referência ao facto de ir viver para aquele lugar, no
final da década de 60.26
(6) Pedidos: apelou para que a rainha de Inglaterra, D. Catarina de Bragança,
lhe pagasse, ainda nesse ano, a tença com que o havia dotado no valor de 1000
libras, bem como o valor da jóia que tradicionalmente era dada aos
embaixadores. Justificou estes pedidos e mais outros dois, a saber, o pagamento
de uma ajuda de custo que lhe havia sido prometida, e os subsídios devidos,
pois correspondiam a grandes despesas.27
(7) Doações a empregados da sua Casa: através destas informações, ficamos a
conhecer parte dos membros da Casa de D. Francisco de Melo em Londres e as
relações de amizade que mantinha com alguns dos seus servidores mais fiéis: em
primeiro lugar Marcos Barbosa de Almeida, a quem deixa 1000 libras esterlinas,
soma que contemplaria, em Paris, os estudos eclesiásticos do irmão Sebastião de
Almeida.28
Em segundo lugar, o seu secretário, monsieur Marevil, a quem concedeu 50 libras
esterlinas, para além do presente que tradicionalmente era concedido aos
secretários dos embaixadores. Aos filhos do secretário concedeu 10 libras
esterlinas.
Ao estribeiro-mor, Diogo de Brito Manuel, sobre o valor do pagamento que lhe
havia prometido de 17 libras, deixa-lhe antes uma verba no valor de 20 libras.
Ao pajem Courtin 15 libras e uma das suas vestes. Somas mais pequenas (8 a 10
libras) foram atribuídas a Fernandes (o fornecedor residente na Holanda) e a
todos os outros oficiais 15 libras esterlinas e uma peça de vestuário. As
roupas e linho branco foram deixadas aos senhores da sua Casa, à exceção de um
casaco bordado, que seria herdado por D. Jorge Manuel, filho do seu primo D.
Francisco Manuel de Melo, conjuntamente com três selas de cavalo.
Por fim, estipulou as últimas vontade relativas aos padres da sua capela: estes
deveriam receber dois meses de pagamento sobre o que lhes era devido.
Particularizou a situação dos padres Perrott e Arthur, estipulando um ano de
pagamento pelos serviços eclesiásticos prestados na encomenda da sua alma a
Deus.
(8) Legados: no que concerne a este ponto, é interessante verificar os objetos
artísticos da sua maior devoção, razão pela qual os doou às pessoas por quem
mais estima sentia.
Nesta lista, a primeira referência é feita a um dossel bordado dado àparóquia
da Madalena, oferta pessoal de D. João IV, e que, à época do reinado do
Restaurador, servia na Capela Real.
Àrainha de Inglaterra legou um crucifixo de âmbar, que lhe tinha oferecido a
princesa de Orange29
, considerando que um presente de uma princesa deveria ser ofertado a outra
princesa, igualmente devota e piedosa. As mesmas razões foram consideradas na
dádiva de uma lâmina representando uma Paixão de Cristo à princesa D. Isabel
Josefa, objeto que lhe fora oferecido por D. Luísa de Gusmão. As contempladas
seguintes foram duas religiosas do Convento da Rosa de Lisboa ' soror Isabel da
Madalena e D. Joana da Silva, sua tia, herdeiras de 3 mil reis de pensão e 10
mil reis, respetivamente.
(9) Processos judiciais: os conflitos que D. Francisco de Melo manteve contra
os condes de Linhares e família revelaram-se uma das maiores preocupações ao
longo da vida, pois encontram-se referências a este tema não só no testamento,
mas também na correspondência mantida.
No cerne desta longa contenda estavam terras situadas em Benavente e Salvaterra
de Magos, doação de D. João IV a D. Gomes de Melo como recompensa dos seus
serviços.30 Confessou que esta doação lhe trouxe 20 anos de contendas
judiciais: primeiro com Luís Álvares de Távora ' marquês de Távora (1634-1672),
representante dos interesses da sua mulher D. Maria Meneses, neta de D. Miguel
de Noronha, conde de Linhares, ramo que contestava a posse destas propriedades.
O marquês de Távora desistira da ação em troca de 6 mil coroas. Mas o mesmo
nãose passou com a restante família. Assim, apósa assinatura do Tratado de Paz
com Castela, em 1668, deu-se o regresso de D. Jerónimo deNoronha a Portugal,
facto que reacendeu o pleito, continuado após a sua morte, pelos irmãos D.
Maria Antónia de VasconcelosSousa e Menezes e D. Fernando, 5.º conde de
Linhares.31
Em 1678, a morte do 5.º conde de Linhares32 parece ter trazido algum
desenvolvimento ao assunto:
Meu primo Simão de Vasconcelos me escreve que Fernão de Souza lhe
propôs que se queria acomodar comigo sobre os prazos de Benavente, de
que ele diz herdeiro, e o Conde de Sarzedas dos cahidos, e me pede
respostas sobre isso.33
Mas sobre a posterior resolução do mesmo não conseguimos apurar, e o codicilo
não faz igualmente qualquer menção ao destino das aludidas propriedades de
Benavente e Salvaterra de Magos.
(10) Nomeação dos executores: o testamento termina com a nomeação dos
executores, a saber: a irmã D. Maria Drago Portugal, o padre Paulo de Almeida,
almoner de D. Catarina de Bragança, o padre Manuel Dias, mestre de cerimónias
da capela da rainha de Inglaterra, e, por último, Marcos Barbosa de Almeida,
todos a viver em Londres. Em Portugal, designou como executores Cristóvão de
Almada, o primo Simão de Vasconcelos e Francisco Lopes Franco.
(11) Codicilo: quatro anos depois, uma série de alterações levou-o a
acrescentar ao testamento um codicilo, pedindo aos seus executores que tivesse
o mesmo valor de lei.
Em primeiro lugar, o falecimento do seu primo D. Jorge Manuel (o filho de D.
Francisco Manuel de Melo, já mencionado), ocorrido na Flandres em 1674, fê-lo
herdeiro do morgado da Ribeirinha.34 D. Francisco de Melo da Câmara tornava-se,
desta forma, o 8.º senhor, passando-o, diretamente para o sobrinho D. Francisco
de Melo (filho do irmão D. Jerónimo), sob a responsabilidade da condessa de
Penalva, uma vez que a criança ainda estava na Índia. Também para ela ficava a
propriedade da Silvã (no regime de terceira vida), bem como bens da Coroa e
ordens religiosas. É neste sentido que pede a D. Pedro II que legitime o
sobrinho natural, de forma a poder herdar o seu património e confirmar para
este herdeiro o lugar de trinchante-mor.35
Em segundo lugar, reafirmou que a doação da propriedade de Silvã de Cima
passava para a irmã (no regime de segunda vida), sob a condição da terceira
vida transitar para o mesmo sobrinho D. Francisco Manuel, bem como o património
da Coroa e ordens, concedido pelo rei. Por outro lado, verifica-se um reforço
na herança do primo, D. Pedro José de Vasconcelos, que herdava assim a comenda
de S. Pedro da Veiga de Lila: in token of my love towards him for the time
that he was with mee in England.36
Em terceiro lugar, a venda do cargo de mordomo-mor junto da rainha37 de
Inglaterra proporcionou-lhe a quantia de 4300 libras esterlinas, cujo dinheiro
estava à guarda de um mercador inglês, de seu nome Daniel Arthur. Esta verba
reverteu para D. Maria Drago Portugal, sob a condição de liquidar todas as
dívidas enunciadas no testamento, e de recompensar em 30 libras esterlinas o
seu ajudante de camareiro (valet de chambre), John Carry.38
Em quarto lugar, concedeu o hábito da ordem de Avis a Diogo de Brito Manuel, e
pediu a D. Pedro II que o recompensasse pelos serviços nas suas embaixadas.39
Em quinto lugar, relembrou as dívidas e o cumprimento do pedido do falecido
primo D. Jorge Manuel de Melo para que se saldassem os seus compromissos na
Flandres com o rendimento do morgado da Ribeirinha; por fim, refere o
empréstimo que devia a Marcos Barbosa de Almeida, no valor de mil libras
esterlinas.
Em último lugar, acrescentou uma informação ao testamento, que se havia
esquecido de mencionar, relativa à quantia de 24 mil serafins deixados pelo
irmão D. Jerónimo, à qual seriam extraídos 8 mil para o filho D. Francisco
Manuel. Ainda neste documento salvaguarda a sucessão dos seus bens de raiz ao
primo Simão de Vasconcelos e Sousa, no caso de D. Francisco Manuel permanecer
na Índia, ou falecer durante a viagem de regresso.
No que diz respeito aos executores do codicilo, nomeia o conde de Castelo
Melhor para a execução das últimas vontades sobre os bens que tinha em Londres,
pedindo-lhe para informar os executores em Lisboa sobre esta adenda ao
testamento de 1674. A testemunhar este ato estiveram Marcos Barbosa de Almeida,
Miguel Ferreira, John Perrotte, Timóteo de Faria e John Cary.40
ESTATUTO SOCIAL
No que concerne ao estatuto social de D. Francisco de Melo Manuel da Câmara, já
atrás mencionámos que era fidalgo da Casa Real, e a ela muito ligado, uma vez
que descendia de servidores da Casa Ducal, ou seja, descendia de um conjunto
de servidores que ascendeu a essas distinções e as reteve nas respetivas casas
ou linhagens até 1640 De extracção fidalga cortesã temoso caso quase exclusivo
dos membros de trêsramos colateraisde descendentes de D. Afonso 1.º conde de
Faro.41 A concessão de ofícios, comendas e títulos de cavaleiro, da
apresentação da Casa de Bragança, segundo a expressão de António Caetano de
Sousa, também éexemplo ilustrativo dessa estreita ligação, embora passível dos
maiores sacrifícios familiares, como podemos depreender pelas palavras do
embaixador ao longo do testamento.
No entanto, existe em toda a avaliação biográfica e patrimonial de D. Francisco
de Melo Manuel da Câmara um pormenor que deverá ser enfatizado: a ausência de
titularidade, uma componente de peso no destino de um fidalgo, que Mafalda
Soares da Cunha designou como simbólica da honra.42 Este é um facto
mencionado diretamente, em meados da década de 70, quando se tenta elevar a sua
condição através de um frustrado projeto matrimonial com uma das senhoras da
Casa de Noronha:
No tocante ao título de Visconde a D. Francisco não ficou tão pouco
satisfeita [D. Antónia de Noronha], nem o há de nunca estar ate se
lhe não fazer da maneira que ella o pede; não obstante as rezois que
eu em particular lhe dei sobre este negocio pressuadindo a que cresse
o quanto S.A. dezejava fazer esta mercê a D. Francisco lha hauia já
de ter feito43
Embora esta afirmação corresponda à opinião pessoal do padre Manuel Dias, cerca
de um ano mais tarde, a própria D. Catarina de Bragança, em carta dirigida a
seu primo, o duque de Cadaval, escrevia que queria ver a Dom Francisco
acomodado.44 A acomodação a que a Sereníssima se refere será ainda a questão
do casamento, aliada à ascensão social de D. Francisco, através do qual D.
Antónia receberia o título de condessa, à semelhançado que víramos acontecer
com os condes de Pontével.45
Por outro lado, se a figura de D. Antónia de Noronha, a quem a carta alude, era
a viúva do conde de Sarzedas, esta união teria sido a fórmula ideal para sanar
o pleito das propriedades de Benavente e Salvaterra de Magos, e,
simultaneamente, recompensar D. Francisco de Melo Manuel da Câmara pelos longos
serviços prestados à Coroa portuguesa. Em março de 1677, a resolução do
conflito patrimonial parece ser a prioridade para o nobre português e, nas suas
palavras, poder-se-á colher alguma resignação:
[ ] assi que de mal o menos, e melhor será passear minha melanconia
pelo Parque de St. James, que de granjear a outra mayor no passo de
Lisboa. O que só quizera he que VM antes de partir me accomodasse com
essa a Condeça de Sarzedas, que pello de mais, eu me accomodarei
muito bem com não ser conde.46
Por vicissitudes desconhecidas, esta combinação não veio a suceder e, se em
1678 a situação patrimonial de D. Francisco nos parece mais estabilizada do que
em 1674, apresentava-se, no entanto, longe das prerrogativas que o embaixador
considerava a família merecer. Esta ideia é colhida por várias referências
feitas ao serviço do primo, D. Francisco Manuel de Melo, e do irmão, D.
Jerónimo Manuel, como também pelas menções que faz ao da própria irmã, a única
que conheceu titularidade,47 mas cujo futuro é objeto de receios por parte de
D. Francisco, como podemos verificar pelas suas palavras no codicilo.48
Nesta análise sobre o estatuto social de D. Francisco de Melo, há que referir
que a sua condição de nobre sem título corresponde a uma realidade usual à
época. Pelos estudos desenvolvidos por Nuno Gonçalo Monteiro, sabemos que
várias casas senhoriais importantes na centúria de seiscentos só viram a sua
ascensão à Grandeza um século depois, como por exemplo a Casa de Cristóvão de
Almada (Monteiro, 2003, p. 41). Este descontentamento também pode ser colhido
no exemplo do 1. conde de Povolide ' Tristão da Cunha de Ataíde (1655-1724),
que só ascendeu à titularidade em pleno reinado de D. João V (Radulet, 1999, p.
27).
A ausência desta recompensa é mais notória em contexto diplomático, quando o
seu nome é citado para representar Portugal nas negociações do Tratado de Paz
em Nijmegen, e D. Francisco de Melo recusa tal pedido, declarando-se achar:
assas embaraçoso com esse negócio e exigindo três pretensões: a primeira o
título; a segundo uma boa ajuda de custo e a terceira um acrescentamento de
mesadas. Porque o 1.ºhe a razãoque acharãoospróprios castelhanos de que eu não
tinha os títulos e dignidades que se requerião para hum tal cargo, em que eu
também lhes acho rezão.49
Embora esconda as suas legítimas ambições por detrás de desígnios políticos, D.
Francisco de Melo é um observador atento às mudanças de títulos e acrescentos
de bens da nobreza portuguesa. Lembremos aqui um episódio ocorrido uma década
antes: em 1669, quando D. João de Mascarenhas recebeu o título de marquês, D.
Francisco de Melo elogia-o, evocando simultaneamente os seus próprios
interesses pois havendo de passar por mãos alheas, asás de boa fortuna he
cahir nas vossas mãos.50
FIDELIDADES
O termo fidelidades aqui utilizado insere-se no tema mais vasto da amizade
durante o Antigo Regime, e a forma como esta foi analisada no âmbito da
diplomacia (Cardim, 2000, 2004).
Tomando por base a leitura do testamento e da correspondência particular de D.
Francisco de Melo da Câmara, apercebemo-nos de que o embaixador nutria especial
afeto por duas figuras da corte portuguesa, designadamente D. João de
Mascarenhas e D. Cristóvão de Almada.51 Esta amizade triangular é também
confirmada pela voz do marquês de Fronteira a D. Francisco, em carta datada de
14 de setembro de 1671:
[ ] como que agradecervos os bons officios que vos devo entre my; e
Christovão de Almada ( );sóvos digo que ambos somos vossos amigos,
eque todos os trêsnãofaremos numero, como unidade, comque pella minha
parte eu hey de ser hum com tantos affectos, como se fora três.
Espero que os doussejãoem cada hum, como eu hei de ser para ambos, e
com isto me mostrais lhe embora esta minha carta, que eu farey que
cada acção minha tenha muito mais que ver em seu serviço, do que tem
esta parte ouvida.52
D. João de Mascarenhas (1633-1681) tornado 1.º marquês de Fronteira pelo
regente D. Pedro II, era membro do seu Conselho de Estado e, nessa qualidade,
estava perfeitamente a par dos assuntos da Secretaria de Estado. Uma das frases
mais exemplificativas para analisar o tipo de amizade mantida entre ambos foi
enviada a Duarte Ribeiro de Macedo: Do Paço não tenho letra, mas o Conde da
Torre que he o meu Paço, me escreve largo.53 Com efeito, entre D. João e D.
Francisco subsiste extensa correspondência trocada entre ambos desde o final da
década de 60 até aos inícios de 70, através da qual os principais
acontecimentos políticos nacionais e internacionais são partilhados e
analisados numa riqueza histórica de grande valia. Em simultâneo, existem
desabafos da vida pessoal (perda de entes queridos, ascensão de cargos e
títulos, dificuldades económicas, entre outros) repletos de pormenores
interessantes para o maior conhecimento biográfico das duas personagens
seiscentistas. A amizade só parece ter sido levemente tocada pelo mal
entendido referente à velha questão do pagamento de mesadas a D. Francisco, ao
tempo embaixador em Haia.54 Este ponto leva-nos a considerar que os laços de
afeto mantidos entre estas duas figuras configuravam também trocas de serviço e
que o embaixador depositava grandes esperanças no poder de gestão de
influências na corte exercida pelo marquês (Cardim, 2004, p. 192).
Estas trocas de serviço eram mútuas e, nesse sentido, podemos considerar as
encomendas feitas pelo marquês de Fronteira junto de D. Francisco de Melo
enquanto esteve na Holanda e em Inglaterra. Aquelas eram de uma variedade
artística assinalável e o seu teor vem acrescentar novas origens para o recheio
do Palácio de Benfica.55 Com efeito, pela leitura da correspondência expedida
da Holanda, ficamos a saber que D. Francisco de Melo forneceu toda a
estatuária em chumbo do tanque dos Pretos do Palácio Fronteira56 [Figura_4],
coches, e várias tapeçarias.57
Além disso, foram igualmente enviados cisnes para o referido tanque, por duas
vezes, pois os primeiros faleceram durante a viagem, bem como flores naturais
58, relógios59, e escritórios60, sendo que as duas últimas encomendas já terão
sido expedidas de Londres. Por último, o conjunto azulejar holandês [v. Figura
5] presente no Palácio de Benfica deverá também ser estudado à luz deste novo
contexto diplomático, até agora inédito.61
D. Cristovão de Almada (1632-1713), outra das figuras do seu círculo pessoal,
foi provedor da Casa da Índia e vedor da Casa das rainhas D. Maria Francisca
de Sabóia, D. Sofia de Neuburgo, e D. Maria Ana de Áustria (Lourenço, 1999,
vol. 3, pp. 57 e 112). Vivia num palácio magnificente na Praia da Boavista,
mandado construir pelo pai, Rui Fernandes de Almada, no qual acumulou grandes
riquezas (Matos, 1990, pp. 93-95).
Era grande a consideração que D. Francisco de Melo nutria por este senhor de
Carvalhais, a julgar não só pelo facto de ter sido nomeado um dos executores do
testamento, como também pela descrição que faz dele ao marquês de Fronteira.62
No testamento, refere-se ainda a Cristóvão de Almada como meu amigo e a este
fidalgo estava confiado extenso património artístico, pertencente a D.
Francisco de Melo: I bequeath to my friend Christopher de Almada all that he
hath in his hands which belongs to mee as well pictures as statues and other
things.63
A confiança sentida era extrema, pois nas mãos de Cristóvão de Almada havia
conservado, desde 1668, uma antiga versão do testamento, do qual D. Francisco
pedia a anulação face ao de 1674. Tal como havia feito ao marquês de
Fronteira, o embaixador em Londres foi fornecendo a Casa de Almada das mais
variadas encomendas, infelizmente para nós não discriminadas.64 Pela informação
retirada da epistolografia parece-nos que esta amizade estaria mais baseada em
sentimentos de crenças partilhadas, comunhão, entreajuda e gratidão, em
comparação com os laços existentes com o marquês de Fronteira (Cardim, 2000, p.
10).
CONCLUSÃO
D. Francisco de Melo Manuel da Câmara, fidalgo da Casa Real, pertencente à
primeira nobreza de Corte sem grandeza, serviu a Coroa nos mais variados
ofícios, destacando-se como um diplomata seiscentista ao serviço de Portugal.
A ligação dos seus antecessores à Casa Ducal de Bragança e a ocupação de um
ofício superior da Casa Real portuguesa ' o de trinchante-mor ', desde o
reinado de D. João IV ter-lhe-á proporcionado a proximidade necessária para
integrar a família de D. Catarina de Bragança, rainha de Inglaterra. Nos
primeiros tempos, exerceuo ofíciode mordomo-mor da Sereníssima Senhora, mas
rapidamente assumiu ocaráter de embaixador ordinário, substituindo, nessa
função, Francisco de Mello e Torres, marquês de Sande. Investido com o caráter
de embaixador extraordinário, partiu em junho de 1667 para a cidade neerlandesa
de Haia, onde por um ano representou a Coroa nos interesses económico-
diplomáticos. A subida ao trono do regente D. Pedro II obrigou-o a uma
deslocação à cidade natal, em finais de 1668. Aqui recebeu a mercê de senhor de
Silvã e a confirmação da sua embaixada com estatuto de ministro de negociação.
Desta forma, é com a ajuda de D. Francisco de Melo Manuel, que Portugal assinou
o Tratado de Paz, Aliança e Comércio com os Estados Gerais. Terminada esta
etapa, regressou de novo a Londres na qualidade de embaixador ordinário,
aísofrendo as consequência políticas do afastamento de D. Afonso VI. Nos sete
anos que se seguiram até à data do seu falecimento, continuou a zelar pelos
interesses portugueses (tanto os da Coroa, como os da nobreza), observando os
acontecimentos políticos e relatando-os aos que estavam perto do centro
decisor. Figura de grande cultura, com interesses artísticos vincados, foi ao
longo de 16 anos um intermediário na aquisição de obras de arte para a primeira
nobreza portuguesa, contribuindo para o enriquecimentos de palácios e quintas
de recreio lisboetas.
No final, apesar dos sacrifícios pessoais e familiares, D. Francisco de Melo
Manuel da Câmara não escapou à estratégia conservadora da Coroa portuguesa da
segunda metade do século XVII: recompensar os nobres pelo serviço e lealdade
através de doações de bens régios, ofícios e comendas, mas simultaneamente
refrear a sua ascensão ao estatuto de Grandeza. Na família Melo, só D. Marinha
Drago, condessa de Pontével, conheceu esta realidade pela exceção de integrar a
Casa da rainha de Inglaterra. Terá sido esta oportunidade que D. Francisco de
Melo vislumbrou,e daío consentimento tardio emcasar-se com D. Antónia de
Noronha, resolvendo os problemas de heranças patrimoniais, mencionados em
testamento, e elevando assim o seu estatuto social e financeiro. No entanto,
tal evento nunca se chegou a realizar e, em épocas de maiores aflições
económica, sentimos toda a indignação deste nobre que, numa erudita, viva e
realista epistolografia, vai descrevendo aos amigos a sua vida na Europa
barroca de seiscentos, envolta em Lamentações de Jeremias.