Os secretários de Estado da democracia portuguesa, 1976-2011
INTRODUÇÃO1
Quando Jean Blondel (1982, p. 13) utilizou a expressão whether we believe that
rulers are good or bad, effective or inept, strong or weak, we believe in their
importance sintetizou de modo expressivo o impacto social de quem governa, na
medida em que dispõe de recursos institucionais vitais. Efetivamente, o Governo
pode ser considerado um órgão-chave do sistema político (Blondel, 1995, p.
267), tendo inclusivamente hoje um impacto na vida dos cidadãos muito superior
ao que assumiu no passado (Rose, 1984, p. 1).
No entanto, os estudos sobre as elites políticas governativas só recentemente
têm conhecido um desenvolvimento proporcional à relevância destes atores
(Blondel, 1985; Cohen, 1988; Dogan, 1989; Blondel e Thiébault, 1991; Tavares de
Almeida etal., 2006; Blondel et al., 2007; Dowding e Dumont, 2009). Foi
precisamente Jean Blondel o autor do estudo seminal Government Ministers in the
Contemporary World (1985), uma das obras fundamentais na exploração sistemática
do perfil dos ministros e da sua carreira governativa.2 Este autor partiu da
ideia segundo a qual a posição institucional estratégica dos ministros lhes
permite deter recursos e condicionar os resultados do sistema político num
nível superior a outros agentes políticos, sendo por isso actors in the strong
sense of the word, e consequentemente merecedores de especial atenção por
parte dos investigadores (Blondel, 1985, p. 7). Utilizando uma abordagem
comparativa, fixou a sua atenção no recrutamento e na carreira governativa dos
ministros, duas das dimensões mais significativas na análise das elites
governativas.
O recrutamento ministerial configura um fenómeno de escolha de um restrito
número de indivíduos que passará a integrar a classe política nacional ou, caso
já a integre, de promoção a um dos cargos políticos nacionais mais elevados
(Czudnowski, 1975). Entende-se, portanto, como um processo de ascensão a
posições dirigentes e implica, por um lado, que existam determinadas
credenciais mais adequadas a um bem-sucedido aspirante ao cargo e, por outro,
que sejam identificáveis canais ou rotas de ascensão ao topo (Putnam, 1976, p.
46; Dogan, 1989, p. 8).
Por sua vez, a carreira governativa entende-se como o período compreendido
entre a primeira nomeação e a última exoneração governativa ao longo da vida do
indivíduo (Blondel, 1991, p. 13). Assim, pode compor-se de três dimensões,
segundo a esquematização de Teruel (2011, p. 18): uma dimensão temporal ' por
quanto tempo e quando na vida do indivíduo é exercido o cargo; uma dimensão de
mobilidade ' número de governos e pastas; e uma dimensão posicional ' tipo de
ministérios e relação destes com o perfil do ministro. A dimensão temporal é
muitas vezes um indicador da influência que um ministro pode alcançar num
governo (Blondel, 1985, p. 167; Dogan, 1989, p. 241). Já a mobilidade pode
demonstrar nomeadamente até que ponto existe especialização ministerial
(Bakema, 1991). Por fim, a dimensão posicional diz respeito aos ministérios e
permite diferenciar os tipos de pastas, bem como relacionar o perfil do
indivíduo com a pasta que este tutela (Blondel, 1985, pp. 189-212; Bakema e
Secker, 1988).
Na esteira de Blondel, uma influente linha de investigação tem desde então
aprofundado esta análise, permitindo o conhecimento minucioso, tanto a nível
nacional como comparado, das características sociodemográficas e políticas dos
ministros da Europa, bem como das principais especificidades da sua carreira
governativa (Blondel e Thiébault, 1991; Stefan, 2004; Tavares de Almeida etal.,
2006; Blondel et al., 2007; Dowding e Dumont, 2009; Teruel, 2011).
No entanto, ao contrário dos ministros, os secretários de Estado têm
permanecido praticamente terra incognita na literatura especializada de ciência
política. Com efeito, apesar de fazerem parte integrante da elite política
governativa, os secretários de Estado têm tido um tratamento manifestamente
exíguo. Segundo Thies (2001, p. 47), while comprehensive data sets on
ministers are now available, data on junior ministers and other institutional
arrangements within cabinets are rare finds. Uma das razões que justifica a
inexistência de estudos comparados é a variação considerável do estatuto formal
e das funções desempenhadas por estes atores políticos. Em geral, partilham a
pouca relevância constitucional, a dependência funcional de um ministro, a
responsabilidade de nível departamental e não governativo (à exceção do
secretário de Estado da Presidência, quando exista).3 Manow (2008, p. 7), numa
tentativa de definição deste cargo, utiliza a expressão government positions
and political appointees which do not formulate policy and prepare legislation
on their own. Mas a principal razão para a escassez de literatura deve-se
essencialmente ao entendimento generalizado de que estes se tornam
(exclusivamente) relevantes em governos de coligação. Assim, seriam uma
recompensa das elites partidárias no contexto da constituição de um governo de
coligação (Laver e Schofield, 1985). Noutra perspetiva, seriam um meio de
equilíbrio partidário no momento da distribuição das pastas governativas,
garantindo alguma proporcionalidade aos partidos da coligação (Mershon, 1996;
Manow e Zorn, 2004).4 No entanto, Magone (2000b, pp. 549-50) afirma que o
equilíbrio de pastas não é uma realidade relevante em Portugal, devido à
importância do primeiro-ministro no processo de seleção de ministros e
secretários de Estado.
Uma outra perspetiva associada aos governos de coligação, perceciona os
secretários de Estado como um meio de controlo dos membros do governo
pertencentes ao outro partido (Thies, 2001; Verzichelli, 2008; Carroll e Cox,
2012). Segundo este ponto de vista, funcionariam como uma espécie de
watchdogs, controlando as iniciativas do ministro, ou como guidedogs, sendo
efetivas correias de comunicação entre os dois partidos (Andeweg e Irwin, 2005,
p. 128). No entanto, a função de controlo do ministro foi testada empiricamente
por Verzichelli (2008, p. 261), tendo este autor concluído pela escassa
relevância de secretários de Estado com essas funções em Portugal, através da
análise da composição partidária dos ministérios em governos de coligação.
Já fora do âmbito da análise dos secretários de Estado em governos de
coligação, a literatura olha para este cargo como tendo um caráter de
aprendizagem. Com efeito, autores como De Winter (1991, p. 60) e Theakston
etal. (2012) têm encarado os secretários de Estado como aprendizes de
ministro, seja como teste à capacidade de adaptação aos problemas governativos
de indivíduos sem experiência política ou como meio de especialização setorial
das elites mais politizadas. Por este motivo, a estes atores políticos têm
apenas sido reservados pequenos subcapítulos ou referências pontuais em obras
focadas no recrutamento ministerial ou na orgânica governativa (Blondel, 1982;
Blondel e Muller-Rommel, 1988; De Winter, 1991; Searing, 1989; 1994).
O tratamento mais aprofundado deste cargo surgiu no Reino Unido. Milne (1949)
foi um dos primeiros autores a dedicar-se ao seu estudo e Theakston publicou em
1987 Junior Ministers, uma obra que iria ser uma referência neste tema
(Theakston, 1987) e que teria continuação em obras mais recentes (Theakston,
1999; Theakston etal., 2012; Mcmaster e Bairner, 2012). Não obstante estes
autores britânicos terem iniciado e desenvolvido uma importante discussão sobre
o papel dos secretários de Estado no Governo, esta discussão permaneceu
restrita ao Reino Unido e não visou o conhecimento aprofundado do perfil
sociopolítico e das carreiras governativas destes atores.5
Por outro lado, tanto a perspetiva que vislumbra os secretários de Estado como
peões partidários em governos de coligação como aquela que lhes atribui uma
função de aprendizagem visando a ascensão ministerial têm dificuldade em
interpretar o cargo de secretário de Estado em países como Portugal, onde
existem vários governos monopartidários e aqueles detêm uma importância
significativa no dia-a-dia do ministério, nomeadamente em termos de formulação
de políticas públicas (Lobo, 2005b, pp. 190, 193; Miranda e Sousa, 1985).6
Consequentemente, nestes países parecem coexistir secretários de Estado com
forte grau de politização e secretários de Estado com perfil apartidário. Esta
é, porém, uma perceção a que tem faltado confirmação empírica, na medida em que
são muitíssimo raros os estudos existentes. Para Portugal, em particular,
desconhecemos qualquer investigação específica e sistemática sobre os
secretários de Estado do período democrático.7
Deste modo, permanecem por responder algumas perguntas. Quem são os secretários
de Estado da democracia portuguesa? Que características e experiências detêm e
como se caracteriza a sua carreira no governo? Em que medida o perfil
sociodemográfico e a carreira governativa são diferenciados conforme o perfil
político? Este artigo visa responder a estas questões através de uma análise do
perfil de recrutamento e da carreira governativa dos secretários de Estado do
governo português nomeados entre julho de 1976 e março de 2011, ou seja, desde
o I até ao XVIII Governo Constitucional, inclusive.8 Deixamos deliberadamente
de fora os secretários de Estado nomeados nos governos provisórios por visarmos
uma análise de executivos cuja legitimidade seja atribuída por um quadro
constitucional democrático estável, existente desde a entrada em vigor da
Constituição de 1976.
A nossa hipótese pressupõe que diferentes perfis políticos dos secretários de
Estado estão associados a diferentes perfis sociodemográficos e a diferentes
carreiras governativas. Baseamo-nos na ideia segundo a qual cada indivíduo é
escolhido para o governo tendo em conta as competências pelas quais é
essencialmente reconhecido na comunidade política. Naturalmente, essas
competências advêm das suas experiências anteriores à nomeação para o cargo,
entre as quais a experiência política assume uma importância central. A própria
designação de independentes, bastante comum em Portugal, expressa o perfil de
alguém que não é reconhecido primacialmente pelas suas capacidades políticas
mas antes pelas suas aptidões setoriais ou de gestão. Neste sentido, podemos
considerar que um indivíduo com experiência política poderá possuir
características pessoais e uma carreira governativa diferenciadas de um
indivíduo sem essa experiência.
A parte seguinte deste artigo visa analisar a experiência política acumulada
pelos secretários de Estado até ao momento da sua primeira nomeação, pois esta
análise permitirá identificar as principais rotas de acesso à carreira
governativa, bem como avaliar o perfil político destes atores.
Na terceira parte visamos uma análise das suas principais características
sociodemográficas. O perfil que emergir desta análise permitirá demonstrar a
importância de determinadas características sociais e credenciais educativas e
profissionais no acesso ao cargo de secretário de Estado.
Na última parte pretendemos obter uma caracterização da passagem dos
secretários de Estado pelo governo. Teremos em atenção os aspetos mais
relevantes, como a duração da carreira governativa, a mobilidade governativa,
os tipos de governo, as pastas ministeriais e a ascensão ministerial. Tanto
estas dimensões como as que compõem a caracterização sociodemográfica serão
analisadas à luz da distinção entre políticos e não-políticos.
AS VIAS PARA O PODER: PERCURSOS POLÍTICOS E EXTRA-POLÍTICOS
O percurso político prévio é um dos fatores com maior capacidade de condicionar
a escolha governativa (Cabannes, 1990, p. 71). As competências políticas
adquiridas, por exemplo, numa experiência parlamentar, partidária ou executiva
anterior (ainda que estas não tenham tido lugar no período imediatamente
anterior à nomeação) podem vir a revelar-se fundamentais para a nomeação como
secretário de Estado. Nesse sentido, podem ser identificados canais políticos
preferenciais de acesso à carreira governativa, bem como ser avaliado o grau de
politização dos atores que acedem às mesmas carreiras.
A rota parlamentar é usualmente considerada uma das mais determinantes no
acesso a cargos no governo (De Winter, 1991). A sua importância relativa
confirma-se no caso português na medida em que o cargo de deputado nacional é
um dos mais relevantes no cursus honorumdos secretários de Estado da Democracia
portuguesa, sendo apenas superado pelo cargo de dirigente partidário (Quadro
1). No entanto, em termos absolutos, apenas um em cada cinco destes indivíduos
tinha tido assento parlamentar antes de ascender ao governo e a maioria dos que
exerceu o cargo de deputado fê-lo durante um único mandato. Com efeito, apenas
cerca de 20% destes teve uma experiência parlamentar considerável, assumindo o
cargo em 3 ou mais legislaturas. Por outro lado, o número de secretários de
Estado com experiência parlamentar nas Assembleias Legislativas das Regiões
Autónomas ou no Parlamento Europeu é praticamente inexpressivo.9
A baixa taxa de parlamentarização dos secretários de Estado portugueses pode
ser interpretada em primeiro lugar como resultado da substancial autonomia
gozada pelos primeiros-ministros na escolha do elenco governativo (Portas e
Valente, 1990; Silva, 2002, 2004; Lobo, 2005a). No caso específico dos
secretários de Estado, a escolha é muitas vezes deixada ao livre critério do
ministro, que gozando de tal autonomia utiliza como critério principal de
escolha a competência setorial ou de gestão (Portas e Valente, 1990, p. 334;
Silva, 2002, p. 108). Em segundo lugar, existe no sistema político português
uma tendência para a subalternização relativa do papel desempenhado pelas
estruturas parlamentares, como comissões e grupos parlamentares, não obstante a
tendência de racionalização parlamentar (Leston-Bandeira, 2004). Em terceiro
lugar, deve ter-se em conta que existe uma tendência importante para escolher
tecnocratas e independentes para os governos portugueses (Tavares de
Almeida e Pinto, 2006, p. 53; Tavares de Almeida e Pinto, 2012). Por fim, esta
relativa desvalorização da experiência parlamentar pode estar relacionada com a
tardia democratização portuguesa, já que se tivermos em conta a globalidade dos
países da Europa Ocidental, Portugal terá de ser considerado um latecomer. Na
verdade, tendo em conta que os Governos estão no topo de uma gigantesca máquina
administrativa revestida de legitimidade democrática (Cotta, 1991, p. 176), é
expectável que as suas ligações com a instituição parlamentar se tendam a
fortalecer progressivamente após a transição democrática.
A par da experiência parlamentar, a experiência partidária é tida como uma das
mais importantes no acesso a posições governativas, não fosse uma das
principais funções e características definidoras dos partidos políticos a
seleção das elites políticas (Czudnowski, 1975, p. 225; Putnam, 1976, p. 49). É
este, com efeito, o cargo político detido por mais secretários de Estado no
momento da sua primeira nomeação. Apesar disso, apenas cerca de 26% dos
indivíduos nomeados entre 1976 e 2011 exerceram funções dirigentes partidárias
de cariz nacional ou regional.
Os motivos da relativa baixa partidarização dos secretários de Estado devem ser
equacionados tendo em conta a fragilidade estrutural dos partidos portugueses,
já que se verificam tradicionalmente baixos níveis de penetração territorial e
social (Jalali, 2007). A perceção deste fenómeno tem inclusivamente levado os
partidos a promover iniciativas pré-eleitorais de abertura à sociedade civil,
que têm servido como rampas de lançamento para a nomeação de independentes
para o governo (Tavares de Almeida e Pinto, 2012, p. 10). Esta situação afeta
especialmente os secretários de Estado devido ao cariz setorialmente muito
específico deste cargo, nomeadamente por contraposição à natureza mais
generalista do cargo ministerial. Com efeito, à medida que se desce na
estrutura governativa, aumenta a especificidade das áreas de governação e será
natural que aumente a tendência para a escolha de indivíduos mais
especializados.
No acesso ao cargo, a experiência executiva como subsecretário de Estado não se
destaca como uma experiência política particularmente importante, a que não
deve ser alheio o facto de este cargo não se ter afirmado na estrutura de
governo, existindo em apenas alguns executivos e em algumas pastas específicas
ao longo da Democracia portuguesa.
A política regional ou local assume-se em muitos países como uma verdadeira
rampa de lançamento para carreiras governativas (Thiébault, 1991). No entanto,
qualquer um destes cargos não representou mais do que 6% das experiências
prévias dos secretários de Estado. A baixa representatividade da experiência
política regional como porta de acesso a este cargo está necessariamente ligada
com o facto de Portugal assumir a forma de Estado Unitário, apesar de
descentralizado administrativamente. Com efeito, a escassez de dimensão
territorial e a inexistência de clivagens culturais assinaláveis, foram dois
importantes fatores para evitar o fortalecimento de identidades e práticas
políticas regionais.10 Outra razão associada à baixa representatividade da
experiência política regional em Portugal pode prender-se com o facto de os
cargos regionais sempre terem mantido uma grande autonomia em relação ao
processo político nacional: enquanto os governadores civis se tornaram cada vez
mais posições controladas pelas estruturas partidárias regionais, a composição
dos Governos Regionais permaneceu no âmbito da autonomia estatutária dos
partidos das respetivas regiões autónomas. No que diz respeito à experiência
política local, o baixo número de grandes cidades em Portugal não permitiu com
frequência a construção de sólidas carreiras autárquicas, com projeção nacional
suficiente para fomentar o acesso a cargos governativos. Por outro lado, só
recentemente as autarquias portuguesas têm vindo a conhecer maior autonomia e
capacidade financeira, condições consideradas importantes para a passagem de
uma carreira política local para uma carreira política governativa (Tavares de
Almeida e Pinto, 2006, pp. 52-53; Thiébault, 1991, p. 31).
Entre as rotas parlamentar, partidária, executiva e regional ou local,
subsistem vários tipos de experiências políticas onde os indivíduos podem
adquirir competências relevantes no acesso ao governo, nomeadamente ao cargo de
secretário de Estado. Muitas vezes estas experiências sobrepõem-se no percurso
político individual, não sendo por isso raros os casos de indivíduos que, em
especial, acumulam experiências parlamentares e partidárias, o que Blondel
(1985) designa de party-cum-parliamentary route. No caso português, são cerca
de 15% os secretários de Estado que detinham, à data da primeira nomeação,
estes dois tipos de experiência política.
No outro extremo do espectro, situam-se os indivíduos que são nomeados sem
qualquer uma destas experiências políticas, representando 65,77%. Esta
inexperiência política está muitas vezes associada à especialização. Nas
palavras de Blondel (1985, p. 191): Western governments may place great
emphasis on representation; but the question of technical competence cannot
altogether be avoided. Este autor foi um dos primeiros a chamar a atenção para
a importância do estudo sistemático e comparado da especialização dos ministros
(Blondel, 1985). Visava ultrapassar a dicotomia clássica entre ministros
políticos e ministros originários da Administração Pública ou do setor militar,
criando uma nova tipologia que espelhasse melhor a ligação entre a experiência
profissional anterior e a pasta ministerial. Para o efeito, utilizou como
critério diferenciador a adequação da profissão anteriormente exercida e a
pasta ministerial para que o indivíduo foi nomeado, resultando em dois tipos
distintos de ministros: amateurs, quando não existe nenhuma relação entre a
ocupação profissional anterior e a pasta que ocupa no Governo; e specialists,
quando a pasta governativa está intimamente relacionada com a sua ocupação
anterior (Blondel, 1985, pp. 22-23).
A diferença essencial verifica-se entre quem teve uma preparação específica
para o desempenho daquela função ministerial e quem não teve tal preparação
(Blondel, 1985, p. 23). Apesar de a análise de Blondel não incluir uma análise
longitudinal da especialização técnica dos ministros, a sua tipologia e a
constatação de que [i]n every region of the world specialists are a
substantial proportion of all ministers (Blondel, 1985, p. 195), teve grande
influência em estudos posteriores, como os de Müller-Rommel (1988), Bakema e
Secker (1988), De Winter (1991), Beckman (2006) e Teruel (2011).
11A maior parte destes estudos utiliza, na esteira de Blondel, critérios de
distinção relacionados com a adequação de experiências (académicas,
profissionais e até políticas) anteriores à nomeação e a pasta detida pelo
ministro. A principal exceção é De Winter, ao utilizar como critério único a
experiência política (parlamentar e partidária), criando uma tipologia binária
que contempla insiders e outsiders. Os primeiros possuem experiência
parlamentar com duração mínima de 10 anos e simultaneamente experiência
partidária a nível nacional, enquanto os segundos não detêm nenhuma experiência
política (De Winter, 1991, pp. 44-47). Com esta distinção, o autor consegue
diferenciar os ministros que foram escolhidos pelas suas competências políticas
e aqueles que foram escolhidos pela sua competência setorial e/ou de gestão:
[n]on-parliamentary ministers may be regarded as not being true
politicians, especially if they do not belong to the leadership
circles of their party. They appear to be men and women who have
reached the government because they are specialists in the subject
matter of the department or have experience as managers of large or
complex organisations. [ ] such men and women can be regarded as
outsiders [De Winter, 1991, p. 46].
Julgamos que a tipologia de De Winter é preferível às anteriores na medida em
que nos parece ser mais convincente do ponto de vista do recrutamento
ministerial e por se adequar em particular ao cargo de secretário de Estado.
Com efeito, esta distinção tem na sua essência o motivo da escolha de um
determinado ministro ou secretário de Estado. Este critério permite, deste
modo, incluir como outsiders não só os indivíduos selecionados por terem
conhecimento especializado na pasta que sobraçam, mas também aqueles que
possuem um perfil de gestor, devido à sua formação académica e/ou percurso
profissional, apesar de essa formação ou percurso não estarem relacionados com
a pasta que assumem.11 Por outro lado, as pastas dos secretários de Estado têm
um conteúdo bastante mais específico que as ministeriais, pelo que exigir uma
experiência profissional ou educacional adequada seria restringir em demasia o
número de não-políticos num cargo que é, por natureza do seu estatuto formal,
mais específico setorialmente.
Adaptámos, no entanto, os critérios utilizados por De Winter para se ajustarem
melhor ao caráter precoce e funcionalmente específico da carreira política dos
secretários de Estado face aos ministros. Assim, foram considerados definidores
de experiência política um conjunto alargado de cargos políticos (deputado
nacional, regional ou europeu; dirigente partidário nacional ou regional;
governador civil; membro de Governo Regional; presidente de Câmara Municipal;
vereador; membro de Assembleia Municipal; subsecretário de Estado).12 Por outro
lado, considerámos ser suficiente o exercício de qualquer um destes cargos no
momento anterior à primeira nomeação como secretário de Estado.
Deste modo, ao longo do presente artigo denominaremos de políticos os
secretários de Estado que tenham experiência política, ou seja, que tenham
exercido efetivamente algum dos cargos referidos anteriormente. Designaremos de
não-políticos os secretários de Estado que não tenham exercido nenhum desses
cargos, não obstante poderem ter tido outras funções de cariz politizado, como
por exemplo a de assessores ou de dirigentes de organizações de interesse.
Da aplicação desta distinção aos secretários de Estado da democracia portuguesa
decorreram os seguintes resultados: 190 indivíduos podem ser considerados
políticos, correspondendo a 34,2%, e 365 indivíduos não-políticos,
correspondendo a 65,8%. Esta distinção corresponde a duas vias paralelas de
chegada ao governo. Cumpre agora perceber quais são as implicações dessa
distinção no perfil sociodemográfico e na carreira governativa.
QUEM CHEGA AO PODER: O PERFIL SOCIODEMOGRÁFICO
O recrutamento dos secretários de Estado configura um fenómeno de escolha muito
seletiva de indivíduos que passarão a integrar o governo, ou seja, um dos mais
restritos círculos da elite no poder (Dogan, 1989). Nesta escolha, determinadas
características pessoais e credenciais educacionais e profissionais podem
revelar-se decisivas. Quando o secretário de Estado é escolhido, essas
características e credenciais são tidas em conta, pelo que é possível
identificar um perfil sociodemográfico coletivo destes indivíduos durante a
democracia portuguesa.
Se tivermos em consideração o género, o cargo de secretário de Estado em
Portugal é uma função quase exclusivamente masculina, na medida em que 91% dos
indivíduos que exerceram o cargo eram homens. A baixa taxa de feminização deste
cargo deve ser entendida como um fenómeno mais amplo, não exclusivo de Portugal
e não restrito às elites políticas (Viegas e Faria, 2001).13 Os principais
fatores envolvidos são tanto de natureza histórica, cultural, sociológica e
económica, como estritamente política e estão muitas vezes interligados (Davis,
1997; Siaroff, 2000; Escobar e Taylor, 2005).
Os valores registados praticamente não se alteram se tivermos em conta os
diferentes perfis políticos, embora se verifique que é entre os não-
políticosque se encontram mais mulheres (Quadro_2). A diferença verificada,
apesar de pouco expressiva, reflete a tendência para a nomeação de mulheres
para o governo como especialistas (Davis, 1997, p. 87; Escobar-Lemmon e Taylor-
Robinson, 2005). Com efeito, como também refere Siaroff (2000, p. 209)
specialist recruitment patterns aid in women in cabinet.
Apesar de as 50 secretárias de Estado representarem apenas 9% do universo
analisado, a proporção de mulheres que ocupam este cargo tem vindo a aumentar
em Portugal. Na verdade, no período compreendido entre 1976 e 1995 a
percentagem de secretárias de Estado rondava os 6% mas entre 1995 e 2011 era de
cerca de 13%.
A idade média de acesso ao cargo de secretário de Estado em Portugal situa-se
em torno dos 43 anos. Apesar de o indivíduo mais jovem ter sido nomeado aos 25
anos e o menos jovem aos 67 anos, ingressos com estas idades constituem
situações excecionais, já que cerca de 80% são nomeados para este cargo entre
os 30 e os 50 anos. A distinção entre o perfil etário de um político e de um
não-político não é muito expressiva, revelando que, em média, aqueles são
nomeados com 41 anos e estes com 43. A diferença acentua-se um pouco em relação
às nomeações pré-30 anos, onde os secretários de Estado políticos possuem mais
peso relativo. Com efeito, um indivíduo com perfil não-político possui em regra
uma carreira educacional e profissional mais longa, o que torna mais difícil o
ingresso no governo antes dos 30 anos. Pelo contrário, essa situação torna-se
um pouco mais usual no caso de indivíduos com um perfil político: a pertença
desde cedo às estruturas dirigentes partidárias e/ou o cumprimento de um ou
dois mandatos como deputado podem constituir credenciais suficientes para
despoletar uma nomeação governativa antes ou pouco depois dos 30 anos.
Tendo em conta que o cargo de secretário de Estado é para muitos destes
indivíduos o seu primeiro cargo político de relevo, a idade de 43 anos pode
considerar-se relativamente alta, principalmente se se tiver como termo de
comparação a idade média dos ministros portugueses entre 1974 e 1999, que se
situa à volta dos 46 anos (Tavares de Almeida e Pinto, 2006, p. 34). Seria
naturalmente previsível que os secretários de Estado fossem em termos médios
mais jovens do que os ministros, mas seria igualmente expectável que, sendo o
cargo de secretário de Estado muitas vezes encarado como de aprendizagem
governativa ou setorial, a diferença pudesse ser mais pronunciada.
Relativamente à origem geográfica, verificamos uma grande predominância de
Lisboa, representando cerca de 30% das proveniências dos secretários de Estado,
o que demonstra o centralismo geográfico do seu recrutamento. Para além da
capital portuguesa, obtêm especial relevância as restantes capitais de
distrito, com especial destaque para o Porto, confirmando a importância dos
centros urbanos na extração das elites políticas. No caso dos não-políticos, o
grau de centralização geográfica ainda é mais expressivo, pois a representação
na capital atinge mais de o dobro em relação aos políticos. Efetivamente,
secretários de Estado com um perfil político possuem uma proveniência
geográfica mais heterogénea, o que pode ser interpretado como resultado da
implantação territorial dos partidos políticos (e subsequente criação de elites
partidárias regionais) e ainda da existência de círculos eleitorais com base
distrital. O critério de representação geográfica estará, por esse motivo, mais
subjacente na escolha de secretários de Estado políticos do que na escolha de
não-políticos.
A predominância de origens regionais nas grandes cidades, com especial destaque
para Lisboa, não é uma característica exclusiva dos secretários de Estado, mas
sim uma tendência histórica verificada em Portugal nas elites burocráticas
(Tavares de Almeida, 2005), parlamentares (Magone, 2000a) e ministeriais
(Tavares de Almeida e Pinto, 2006). O crescimento do Estado central, a pujante
dinâmica económica e crescimento populacional da área metropolitana de Lisboa,
bem como a tradicional tendência centralizadora do sistema político fizeram
continuamente de Lisboa o centro político nevrálgico do país.
Em termos educativos, podemos caracterizar os secretários de Estado como uma
elite política altamente qualificada, já que 96% dos indivíduos possuíam à data
da nomeação um diploma universitário. Por outro lado, é considerável o peso dos
indivíduos com um grau académico superior à licenciatura, incluindo
doutoramento.14 A detenção de estudos pós-graduados ou de doutoramento assume
especial peso no grupo dos não-políticos enquanto é nos políticos que a
proporção sem formação superior completa é mais elevada. A educação afirma-se,
nesse sentido, como um atributo fundamentalmente diferenciador para estes
indivíduos.
Direito e Economia são as suas principais áreas de formação académica, já que
cerca de 59% detinha em alguma daquelas áreas o seu grau de formação superior
mais elevado.15 Para além de Direito e Economia, merecem destaque a Engenharia
e as Ciências Sociais. Na verdade, estas quatro áreas representam cerca de 84%
das formações, o que é assinalável se tivermos em conta a crescente
diversificação da oferta curricular ocorrida em Portugal nas últimas décadas.
A tendência para o predomínio do Direito e da Economia, e, numa segunda linha,
da Engenharia e das Ciências Sociais mantém-se quando distinguimos entre
políticos e não-políticos. Todavia, existem diferenças no peso destas áreas de
formação em cada um destes perfis. Com efeito, apesar de o Direito ser o grau
académico mais generalizado, entre os não-políticos é a Economia a principal
área de formação, sendo consequentemente nos políticos que o Direito assume um
peso substancial. Por outro lado, se no caso da Engenharia a diferença é
pequena em favor dos não-políticos, já no caso das Ciências Sociais verifica-se
um peso relativo bastante superior desta área de formação entre os políticos.
Como lembrava Weber (1991, p. 81), ao jurista estão associados um conjunto de
características importantes para o exercício de cargos políticos. O cargo de
secretário de Estado, apesar de não possuir a exigência em argumentação e
oratória que o cargo de ministro ou mesmo de deputado, implica que o indivíduo
desempenhe um conjunto diversificado de funções políticas onde a formação
jurídica pode ser uma competência importante (Theakston, 1987). Neste sentido,
é natural que seja entre os secretários de Estado políticos que o Direito seja
mais relevante. Pelo contrário, o aumento progressivo da formação económica tem
especial impacto nos não-políticos, na medida em que nestes são essencialmente
valorizadas outras competências, pelo que as aptidões educacionais de gestão e
planificação são um ativo fundamental.
Lisboa é a cidade mais importante na formação académica dos secretários de
Estado. A Universidade de Lisboa e a Universidade Técnica de Lisboa foram as
instituições de ensino superior mais frequentadas, sendo a Faculdade de Direito
de Lisboa e o Instituto Superior de Economia e Gestão autênticos viveiros de
recrutamento governativo.16 Depois da capital, as cidades nacionais mais
proeminentes no percurso educativo dos secretários de Estado são Coimbra e
Porto. Merece, no entanto, especial menção o número de indivíduos que
frequentaram universidades estrangeiras durante o seu percurso académico. Com
efeito, cerca de 20% obtiveram um diploma numa universidade estrangeira, com
especial destaque para as universidades britânicas e norte-americanas.
No campo profissional, as ocupações a que mais secretários de Estado se
dedicavam como profissão principal eram, respetivamente, as de professor
universitário, funcionário público administrativo, gestor e advogado,
representando estas quatro cerca de 76% das ocupações profissionais. Existe, no
entanto, uma diferença clara entre o perfil profissional de políticos e não-
políticos: entre estes predominam as profissões que implicam a aquisição de
competências específicas, seja de cariz educacional, como os docentes
universitários, setorial, como os funcionários públicos administrativos, ou de
gestão, como os gestores empresariais; ao invés, entre aqueles destacam-se
também profissões mais generalistas, como advogado ou mesmo a de político a
tempo inteiro.
O peso dos professores universitários confirma a Universidade como meio de
recrutamento preferencial das elites governativas portuguesas (Tavares de
Almeida e Pinto, 2006, pp. 41-42), sendo em especial um meio privilegiado de
recrutamento de não-políticos, altamente qualificados numa área específica do
saber e consequentemente percecionados como peritos.
A passagem pela Administração Pública tem também bastante destaque, na medida
em que estas funções constituem muitas vezes uma experiência fundamental para
se ser reconhecido como alguém com valiosas competências setoriais. Este
reconhecimento pode ser ainda maior quando o indivíduo tem uma longa carreira
na Administração Pública, tendo percorrido toda a cadeia hierárquica até chegar
ao topo da carreira numa determinada área específica. Os dados revelam que esta
via ocupacional foi efetivamente importante sobretudo no caso dos não-
políticos. Outro percurso profissional importante está associado à gestão de
empresas, sendo igualmente mais proeminente entre os não-políticos. Por fim, a
advocacia é especialmente relevante entre os políticos, sendo inclusivamente
muitas vezes exercida por estes indivíduos como atividade secundária.
Como é notório, a maioria das profissões encontram-se ligadas ao Estado. Com
efeito, cerca de 80% dos secretários de Estado tinham tido algum tipo de
atividade profissional de natureza pública antes de serem nomeados para o
cargo, pelo que apenas 20% estiveram ligados exclusivamente ao setor privado.
Estes resultados demonstram um grande peso das atividades profissionais ligadas
ao Estado no acesso ao cargo, por oposição a percursos profissionais
estritamente privados. Se tivermos em conta a distinção entre indivíduos com
perfil político e não-político, verificamos que aqueles têm mais percursos
ligados ao setor privado do que estes. Demonstram ainda que os não-políticos
muito raramente adquirem competências específicas fora da órbita do Estado,
pois o usual será adquirirem competências educacionais como professores
universitários, ou setoriais como funcionários públicos administrativos. No
mesmo sentido, a aquisição de competências de gestão verifica-se essencialmente
através de posições em empresas e instituições públicas.
A PERMANÊNCIA NO PODER: A CARREIRA GOVERNATIVA
Um cargo no governo é normalmente considerado o zénite da carreira política de
um indivíduo. Mas só se analisarmos separadamente o percurso até ao governo e o
percurso no governo poderemos estar aptos a interpretar o que esse cargo
significa para a instituição governativa e para os indivíduos que os ocupam
(Teruel, 2011, pp. 17-18). O tempo, a posição e a mobilidade revestem, neste
sentido, particular interesse na análise da carreira governativa dos
secretários de Estado da democracia portuguesa.
Em termos temporais, a duração média da carreira governativa como secretário de
Estado é de cerca de dois anos e meio. Apesar de existirem casos de longas
carreiras governativas, como por exemplo o de Jorge Figueiredo Lopes,
secretário de Estado durante cerca de 13 anos17, em regra os secretários de
Estado têm carreiras curtas. Carreiras governativas de curta duração retiram
capacidade de eficácia aos cargos governativos, na medida em que em escassos
meses os indivíduos não têm sequer o tempo necessário para se adaptarem às
funções e à dinâmica governativa. Tendo em conta que, como verificámos, a
maioria dos secretários de Estado não tinham qualquer tipo de experiência
política prévia, este período de aprendizagem seria fundamental para um
desempenho eficaz do cargo. No entanto, 29% dos secretários de Estado
permaneceu no cargo por um período inferior a um ano (Quadro_3). Por outro
lado, só um grupo muito restrito, composto por 9 indivíduos, ultrapassou os
oito anos, podendo por isso considerar-se excecionais os casos como o de Jorge
Figueiredo Lopes.
Quando distinguimos entre políticos e não-políticostransparece uma ligeira
maior duração média da carreira governativa dos primeiros (2,7 face a 2,1
anos). Ainda que não seja muito acentuada, a tendência para os políticos
deterem carreiras mais longas está associada à existência de maiores
expectativas de regresso ao governo por parte destes indivíduos e ao facto de a
exoneração de não-políticos, em regra, envolver menos custos partidários. Com
efeito, ao contrário dos políticos, aqueles são percecionados como tendo
tarefas específicas (men with a mission), pelo que será natural completarem
apenas um mandato e estarem mais sujeitos a remodelações.
A relativa curta duração das carreiras das elites governativas em Portugal não
pode ser dissociada de fatores estruturais, como a transição democrática e uma
dinâmica de rejuvenescimento. Com efeito, segundo Blondel (1985, p. 112) os
processos de transição entre regimes políticos podem ter como efeito encurtar a
duração dos mandatos ministeriais até que o novo regime se estabilize. Em
Portugal o processo de estabilização inicia-se a partir de 1982, com a
importante I revisão constitucional (Linz e Stepan, 1996, pp. 116-129). Este
processo teve reflexo na estabilidade governativa, pois permitiu em 1987 a
constituição pela primeira vez de um governo com maioria absoluta de um só
partido. Até então Portugal tinha apenas conhecido governos minoritários,
governos compostos por várias combinações partidárias ou governos de iniciativa
presidencial, fórmulas que não tinham assegurado a pretendida estabilidade
governativa: entre 1976 e 1987 nenhum governo completara o mandato de quatro
anos. Outro fator importante associado à curta duração das carreiras
governativas é a dinâmica de rejuvenescimento nos sistemas onde o apoio
parlamentar do executivo é essencial (Blondel, 1985, p. 143). Esta dinâmica de
rejuvenescimento tende a acentuar-se quando o primeiro-ministro goza de grande
autonomia na seleção e exoneração dos membros do governo, o que efetivamente
acontece em Portugal (Lobo, 2005a; Pinto e Tavares de Almeida, 2009). Na
realidade, ao optar por uma estratégia de substituição regular de alguns
ministros, o primeiro-ministro despoleta na prática quase sempre a substituição
dos secretários de Estado sob a tutela desses ministros.
Tendo em conta que a carreira governativa tem uma duração média de dois anos e
meio e que existe quase um terço dos indivíduos cuja carreira não durou mais de
um ano, podemos concluir que o cargo de secretário de Estado está longe de
configurar uma ocupação, ou mesmo uma etapa consolidada da carreira política.
Pelo contrário, ser secretário de Estado em Portugal assume, em regra, um
caráter transitório. Entre os indivíduos com perfil político esta
transitoriedade deve-se em parte ao facto de o cargo de secretário de Estado
ser encarado como de passagem, muitas vezes para funções ministeriais, mas
também para regressar à política local ou parlamentar com um capital político
reforçado. Já entre os não-políticos este cargo é normalmente encarado como uma
oportunidade ocasional de pôr em prática medidas concretas numa área onde se
sentem confortáveis.
A maioria dos secretários de Estado exerceu funções em apenas um governo (ainda
que tenha eventualmente sobraçado diferentes pastas durante esse período).
Consequentemente, a mobilidade entre governos não pode ser considerada elevada:
o cargo de secretário de Estado em Portugal é em geral exercido de modo
contínuo após uma única nomeação. Ainda assim, um em cada quatro indivíduos foi
nomeado em dois governos e cerca de 10% exerceu funções em três ou mais
governos ao longo da sua carreira governativa.
Não obstante a diferença não ser muito acentuada, os políticos possuem maior
mobilidade entre governos pelo facto de, em regra, permanecerem politicamente
ativos após a primeira nomeação, mantendo aspirações a voltar ao governo.
Utilizando as palavras claras de Dogan (1989, p. 241), referindo-se aos
ministros: It is beautiful to be a minister. It is still better to remain one
or to become one again. Pelo contrário, a expectativa de regresso ao governo
por parte dos não-políticosé menor na medida em que estes, em geral, encaram o
cargo político como uma interrupção da sua carreira profissional, regressando
depois à profissão em que são peritos.18
A esmagadora maioria dos secretários de Estado apenas deteve uma única pasta ao
longo da sua carreira governativa. Com efeito, cerca de 81% dos indivíduos
exerceram sempre funções na mesma secretaria de Estado (ainda que,
eventualmente, em mais do que um governo), enquanto 16,4% foram nomeados na sua
carreira em duas pastas substantivamente diversas. Mais raramente ainda, foram
nomeados para três ou mais pastas diferentes. Estes resultados sugerem uma
mobilidade entre pastas bastante baixa: em geral, quando um secretário de
Estado é nomeado a primeira vez para uma pasta, permanece na mesma pasta ao
longo de toda a sua carreira governativa. A baixa mobilidade entre pastas é
ainda mais acentuada entre os não-políticos e deve entender-se à luz das
principais competências em causa em cada perfil: as competências específicas
destes indivíduos tornam a mobilidade entre pastas mais difícil, já que são
quase exclusivamente percecionados como peritos numa determinada área de
atuação governativa. Pelo contrário, os políticos possuem competências mais
genéricas, pelo que a mobilidade entre diferentes pastas torna-se mais
expectável (Bakema, 1991, pp. 95-96).
O nível de mobilidade entre pastas pode ter implicações efetivas no processo de
formulação de políticas públicas no governo. Um governo composto
predominantemente por ministros e secretários de Estado com baixa mobilidade
tenderá a formular políticas de modo diferente de um governo onde predominam
atores com experiência em várias pastas governativas, já que, como refere
Blondel (1985, p. 214), Mobile' ministers [ ] are likely to take a broader
view of the whole policy process. Assim, a baixa mobilidade entre pastas de
ministros e secretários de Estado em Portugal indicia um alto grau de
departamentalização na formulação de políticas, não obstante a crescente
importância da coordenação política (Lobo, 2005b).
No que diz respeito ao tipo de governo e à respetiva composição partidária, os
secretários de Estado com perfil não-político permanecem maioritários em todas
as formulações (Quadro_4). No entanto, existem algumas diferenças no grau de
relevância da presença de políticos e não-políticos de acordo com o tipo de
governo: aqueles têm mais expressão nos governos de coligação e estes assumem
um peso mais acentuado nos governos monopartidários.
A maior expressão de políticos em governos de coligação deve-se em grande
medida à necessária negociação interpartidária existente neste tipo de governo
no momento da distribuição das secretarias de Estado. Com efeito, num governo
de coligação as pastas devem ser distribuídas através de um processo de
negociação entre os diversos partidos, o que implica a escolha de indivíduos
fortemente identificados com os respetivos partidos (Strøm etal., 2010). Foi o
que admitiu Francisco Pinto Balsemão em entrevista logo após a posse do VII
Governo Constitucional:
Em primeiro lugar, trata-se de um governo de coligação [ ]. Na
composição do Governo atendeu-se à necessidade de uma representação
dos partidos que integram essa coligação. Não se trata, portanto, de
cedências mas apenas de respeitando uma determinada proporção,
escolher as melhores pessoas para cada lugar. [Entrevista de
Francisco Pinto Balsemão a Maria João Avillez, Expresso de 10-01-
1981, Revista, p. 2]
É natural, portanto, que a tendência para escolher indivíduos com experiência
partidária ou experiência parlamentar se acentue neste tipo de governos. Por
outro lado, nos governos monopartidários, não obstante existir negociação
intrapartidária (Strøm, 1990), a autonomia do primeiro-ministro é maior. Esta
autonomia na escolha dos membros do governo (potenciada pela obtenção de
maiorias absolutas em governos monopartidários) afirma-se desde logo face ao
partido e é traduzível na maior facilidade com que o chefe de Governo ou os
ministros escolhem indivíduos sem experiência política (Lobo, 2005a; Dowding e
Dumont, 2009).
Como seria expectável, os não-políticos têm uma presença esmagadora nos
governos de iniciativa presidencial, representando cerca de 89% dos secretários
de Estado nomeados no III, IV e V Governos Constitucionais. Na medida em que
estes governos visaram expressamente a constituição de um elenco apartidário, a
presença depolíticos foi muito excecional, tendo apenas sete indivíduos com
perfil político pertencido a estes governos.
Em termos partidários, os secretários de Estado políticos possuem maior peso
nos governos monopartidários do PS do que nos governos do PSD. Simultaneamente,
é nos governos do PSD que os não-políticos assumem maior expressão (cerca de
77,5%) face aos governos do PS (cerca de 59%). Estes resultados indiciam
estratégias de captação e politização de independentes mais ativas por parte do
PSD, o que muitas vezes foi inclusivamente reflexo de opções pessoais do
primeiro-ministro. Com efeito, como escreveu Cavaco Silva, o único primeiro-
ministro de governos monopartidários do PSD:
Nunca foi minha preocupação restringir a participação no governo a
militantes do PSD ' no que era criticado por alguns dirigentes do
partido [ ]; era deliberada a minha vontade de abertura a pessoas de
espírito independente. [Silva, 2004, p. 30]
Pelo contrário, no PS essa opção não foi tão clara. Apesar de António Guterres,
primeiro-ministro de dois governos monopartidários do PS, ter sido pioneiro no
lançamento da iniciativa Estados Gerais, como meio de atrair figuras
independentes para a pool ministeriável, esta opção nunca foi, segundo Laura
Ferreira-Pereira (2008), o alfa e ómega da formação dos governos de Guterres,
já que nestes os dirigentes históricos do PS tiveram sempre um peso muito
avultado.
A distribuição dos Secretários de Estado pelas diversas pastas ministeriais
demonstra que existe uma clara diferenciação na atribuição das pastas baseada
no perfil político. Verifica-se uma tendência para os não-políticosserem
chamados para pastas económicas e sociais, associadas a áreas mais complexas e
de índole técnica. Ao invés, os políticos estão maioritariamente presentes em
pastas de soberania e de coordenação política, onde o conteúdo político é mais
vincado. Estas pastas, que compunham o núcleo duro dos governos pós Segunda
Guerra e que representam as funções clássicas do Estado, possuem efetivamente
um substrato tradicionalmente mais político do que as restantes pastas,
surgidas com o desenvolvimento das funções do Estado (Blondel, 1982, pp. 181-
189). Nesse sentido, entende-se a preferência por indivíduos com perfis mais
politizados para ocupar estas pastas. Pelo contrário, em pastas ministeriais
setorialmente mais específicas a detenção de conhecimentos especializados na
área de atuação ou de competências de gestão tornam-se critérios mais decisivos
do que a detenção de competências políticas. No caso particular das secretarias
de Estado, onde a especificidade das áreas de governação se acentua, a escolha
de não-políticos ganha especial sentido. Assim, cerca de 79% dos secretários de
Estado com perfil não-político não detiveram pastas políticas. Pelo contrário,
o caráter mais generalista dos políticos permite-lhes não estar confinados a
pastas políticas.
O cargo de secretário de Estado é importante no acesso à carreira ministerial,
na medida em que cerca de 46% dos ministros nomeados entre 1976 e 1999 tinham
sido secretários de Estado (Tavares de Almeida e Pinto, 2006, p. 48). Entre os
indivíduos que exerceram o cargo de secretário de Estado, a ascensão
ministerial é mais frequente entre os políticos. No entanto, nem sempre a
nomeação é efetuada exclusivamente em pastas ministeriais nas quais já foram
secretários de Estado. Com efeito, a maioria dos indivíduos que ascendem a
ministro foram nomeados em pastas ministeriais onde nunca tinham exercido
aquele cargo governativo. Existe, no entanto, uma diferença entre perfis:
enquanto os políticos tendem a sobraçar pastas diferentes quando ascendem a
ministro, a maioria dos não-políticos são nomeados apenas para pastas
ministeriais em que já exerceram o cargo de secretário de Estado. Esta
diferença deve ser entendida à luz da maior especialização das competências
destes indivíduos, normalmente associados exclusivamente à área de atuação
governativa em que são considerados peritos. Pelo contrário, ao serem
presumivelmente selecionados com base nas suas competências políticas, os
políticos podem colocar tais competências ao serviço do governo num conjunto
mais diversificado de pastas.
CONSIDERAÇÕES FINAIS
A literatura tem-se limitado a olhar para os secretários de Estado como peões
partidários em governos de coligação ou como aprendizes de ministro. No
entanto, este cargo em Portugal dificilmente pode ser considerado nestes
termos. Pelo contrário, ao invés de um meio de recompensa das elites
partidárias, um meio de equilíbrio partidário no momento da distribuição das
pastas governativas em governos de coligação ou um meio de controlo dos membros
do governo pertencentes ao outro partido (watchdogs), os secretários de
Estado emergem como uma função despolitizada, inserida numa carreira
governativa curta e ocasional. Com efeito, para além de os secretários de
Estado serem nomeados tanto em governos de coligação como monopartidários, não
detêm maioritariamente um perfil muito politizado. Pelo contrário, em geral
estamos perante indivíduos sem experiência política mas com altas credenciais
académicas e com uma carreira profissional em que são considerados
especialistas. O exercício do cargo de secretário de Estado surge para a
maioria como uma interrupção momentânea dessa carreira, uma ocasião em que têm
a oportunidade de aplicar com maior impacto social os seus conhecimentos
específicos.
Por outro lado, só de modo mitigado poderemos considerar o cargo como tendo
essencialmente um caráter de aprendizagem, tendo em vista a preparação de
indivíduos para o cargo de ministro. De facto, apesar de metade dos ministros
terem sido anteriormente secretários de Estado (Tavares de Almeida e Pinto,
2006, p. 48), a maioria foi nomeada num ministério onde nunca tinha sido
secretário de Estado. Por outro lado, a carreira governativa é muito curta, o
que pode ter contribuído para inviabilizar uma efetiva aprendizagem política,
ou seja, uma adaptação aos problemas governativos.
Deste modo, o cargo de secretário de Estado afirma-se em Portugal com um
conteúdo funcional efetivo, onde é relevante a adequação do perfil individual
às funções setoriais e políticas que este terá de executar no desempenho do
cargo. Com efeito, verificamos que emergem diferenças importantes entre
indivíduos com competências políticas e indivíduos com outras competências,
como as setoriais e/ou de gestão, ou seja, entre secretários de Estado
políticos e não-políticos. Efetivamente, se o perfil do secretário de Estado
for não-político é mais provável que as altas qualificações académicas
signifiquem a detenção de uma pós-graduação ou mesmo de um doutoramento,
possivelmente em Economia. Em termos profissionais, aumentam as hipóteses de
ser professor universitário e de possuir um percurso profissional de natureza
pública. A probabilidade de a sua carreira ser restrita a uma só pasta (não-
política) num único governo aumenta consideravelmente e caso tenha chegado a
ministro, algo muito inverosímil, é presumível que seja nomeado na mesma pasta
ministerial onde tinha exercido o cargo de secretário de Estado. Pelo
contrário, se o indivíduo tiver um perfil político é provável que a sua área de
formação educacional seja Direito e que possa exercer advocacia como ocupação
profissional principal. Em termos de carreira governativa, o seu perfil
generalista permite-lhe não ficar restrito a pastas não-políticas. Por outro
lado, aumentam as hipóteses de ter sido nomeado em mais de um governo e em mais
do que uma pasta.
As diferenças entre políticos e não-políticosdemonstram a importância do perfil
político no estudo das elites governativas. Sem essa distinção teriam
permanecido ocultos muitos aspetos fundamentais na compreensão do perfil
sociodemográfico e da carreira governativa dos secretários de Estado da
democracia portuguesa. Assim, não obstante estes possuírem, em geral, um perfil
não-político, permanece identificável um núcleo minoritário de indivíduos com
experiência política cujas características sociodemográficas e carreira
governativa são particulares. Neste sentido, podemos concluir pela coexistência
de dois grupos com perfil político distinto dentro da elite governativa. Fica
por avaliar a evoluçãodos referidos perfis, bem como os impactos dessa
coexistência no funcionamento ministerial e governativo ao longo da democracia
portuguesa.
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NOTAS
1
O presente artigo baseia-se na dissertação de mestrado Os Secretários de
Estado da Democracia Portuguesa: Perfis Sociopolíticos e Carreiras
Governativas, que defendi na Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da
Universidade Nova de Lisboa em dezembro de 2013. A referida dissertação foi
realizada no âmbito do projeto Ministros tecnocratas e independentes nas
democracias europeias, PTDC/CPJ CPO/118086/2010, financiado pela FCT e sedeado
no CESNOVA (FCSH-UNL), tendo como Investigador Responsável o Professor Doutor
Pedro Tavares de Almeida.
2
Devem, no entanto, referir-se obras anteriores com relevância, como as de
Wilson (1959), Ollé-Laprune (1962), Dogan (1967), Rose (1971), Headey (1974),
Birnbaum (1982) e Gaxie (1983).
3
Para uma análise (essencialmente) formal dos secretários de Estado em outros
países, cf. Manow, 2008, pp. 7-12.
4
Estes argumentos foram invocados nomeadamente para Itália (Cotta e
Verzichelli, 2007, p. 121) e Espanha (Bar, 1988, p. 130).
5
Só muito recentemente surgiram estudos preliminares sobre os secretários de
Estado da democracia espanhola, onde o enfoque é colocado nos padrões de
recrutamento (Dato e Teruel, 2013; Dato, Teruel e Mir, 2013).
6
Marcelo Rebelo de Sousa (1999, p. 257) interpreta do seguinte modo o aumento
do número de secretários de Estado em Portugal: O número de secretários de
Estado tem crescido, em paralelo com o dos ministros, e a lógica desse número,
bem como do elenco das Secretarias de Estado, nem sempre é facilmente
compreensível, retratando antes equilíbrios partidários e orientações políticas
e pessoais dos ministros.
7
O único trabalho específico sobre secretários (e subsecretários) de Estado em
Portugal é o estudo de Carvalho e Fernandes (2003). Estes autores traçam o
perfil sociopolítico e analisam a carreira governativa destes indivíduos no
Marcelismo, comparando ministros, deputados e secretários/subsecretários de
Estado.
8
Para este efeito foi construída uma Base de Dados, preenchida através de
pesquisa documental assente essencialmente em fontes primárias, como currículos
em registos públicos (Presidência do Conselho de Ministros, sítio do Governo,
Diário da República, Arquivo Parlamentar, arquivos partidários, sítios
institucionais), mas também em fontes secundárias de credibilidade e qualidade
reconhecidas (biografias de figuras públicas como Mário Soares, Freitas do
Amaral e Cavaco Silva) e ainda, subsidiariamente, recorrendo à imprensa
escrita. A recolha de informação beneficiou ainda da possibilidade de consultar
a base de dados do projeto Regime change and ministerial elite transformation
in Southern Europe, coordenado pelos Professores Pedro Tavares de Almeida,
António Costa Pinto e Nancy Bermeo, e as bases de dados próprias das
investigações do Dr. João Pedro Ruivo e do Dr. Thierry Dias Coelho, pelo que a
todos deixamos o nosso agradecimento.
9
Verificam-se resultados muito semelhantes para os secretários de Estado da
democracia espanhola (1977-2010), com uma taxa de parlamentarização de cerca de
20% (Dato e Teruel, 2013, p. 22). Uma diferença assinalável face ao caso
português é a relevância da experiência parlamentar regional, ainda que não
ultrapasse os 8%.
10
Em Espanha, tanto os ministros (Teruel, 2011, pp. 315-22) como os secretários
de Estado (Dato e Teruel, 2013, p. 22) têm mais experiência em arenas políticas
regionais.
11
Tavares de Almeida e Pinto (2012) aplicam um critério muito semelhante para
Portugal e dão a este respeito o exemplo do ministro da Saúde do XIX Governo
Constitucional, Paulo Macedo, anteriormente alto dirigente do Ministério das
Finanças e gestor de um banco privado: apesar de não existir adequação entre a
sua formação académica ou percurso profissional e a pasta ministerial, é
considerado um não-político no âmbito do governo.
12
A escolha destes cargos é justificada essencialmente devido à relevância
política dos mesmos e à existência de fontes oficiais consolidadas disponíveis.
13
A proporção de secretárias de Estado na democracia espanhola (1977-2010)
situa-se nos 13,5% (Dato e Teruel, 2013, p. 12).
14
Em Espanha, os secretários de Estado possuem igualmente um elevado nível de
escolaridade, na medida em que apenas cerca de 2% dos indivíduos não possuíam
formação académica superior e que cerca de 35% detinham diplomas de estudos
pós-graduados ou de doutoramento (Dato e Teruel, 2013, p. 14).
15
Note-se que mesmo se tivermos em consideração todo o percurso académico, a
predominância dos indivíduos que obtiveram algum diploma (licenciatura, pós-
graduação/mestrado ou doutoramento) em Direito e Economia ao longo do seu
percurso académico mantém-se. Assim, 32,5% estudaram Direito nalgum momento da
sua carreira académica e 30% Economia. Este facto é relevante pois muitos
indivíduos obtiveram uma formação interdisciplinar, combinando uma formação
pós-graduada distinta da licenciatura.
16
Um em cada três secretários de Estado licenciou-se numa destas Faculdades
(cerca de 18% na Faculdade de Direito de Lisboa e cerca de 14% no Instituto
Superior de Economia e Gestão). Seguem-se-lhes o Instituto Superior Técnico e a
Faculdade de Direito da Universidade de Coimbra, cada uma com cerca de 8%.
17
António Jorge de Figueiredo Lopes exerceu o cargo de secretário de Estado da
Administração Pública (III e IV Governo Constitucional), do Orçamento (VI
Governo Constitucional), da Reforma Administrativa (VII Governo
Constitucional), e da Defesa Nacional (IX, X e XII Governo Constitucional).
18
João Correia, secretário de Estado da Justiça no XVIII Governo Constitucional,
justificou assim a sua saída prematura do executivo: Entrei no governo para
cumprir uma missão. Entendi que já estava cumprida e tudo o que estivesse a
mais era só para estragar. Entrevista de João José Garcia Correia disponível
na edição online do Jornal i, de 05-04-2011. Disponível em: http://
www.ionline.pt/artigos/joao-correia-fundamentacoes-ministro-sao-fantasticas-
ilegais [consultada em 14-08-2013].