Quando os públicos do Porto vão a Lisboa: anatomia de uma performance
O PÚBLICO VAI AO TEATRO ' CONTEXTUALIZAÇÃO
A sociologia tem já uma longa tradição de estudos no domínio da arte, mas as
relações existentes entre os dois mundos não deixaram de ser marcadas pela
exterioridade, estranheza, e até alguma resiliente desconfiança. Assim,
mereceu-nos algum espanto, logo seguido de entusiasmo, o convite lançado em
jeito de desafio por um grupo de jovens atores, tendo em vista a nossa
colaboração enquanto académicos num projeto artístico de intervenção social.
O projeto intitulava-se O público vai ao teatro1 (PVT) e foi idealizado pela
companhia Teatro Meia Volta e Depois à Esquerda Quando eu Disser2 (TMV),
inserindo-se num controverso ciclo dedicado ao teatro do Porto promovido pelo
São Luiz Teatro Municipal, em Lisboa. O ciclo de teatro do Porto?,
inicialmente elaborado por Isabel Alves Costa, adquire a sua forma última
mediante alçada de João Pedro Vaz, comissário do evento. Na sua planificação,
assume-se a preponderância dos projetos teatrais na cidade e, como tal, é
incentivada a participação de propostas independentes ou emergentes (como o
TMV) desprovidas da presumida centralidade inerente ao Teatro Nacional São João
(TNSJ), espécie de retrato de família (Alfredo Martins, TMV) da atividade
teatral neste território.3
Mas, no cerne da celebração, surgem algumas interrogações. Desde logo, os
motivos subjacentes à realização de um ciclo de teatro do Porto em Lisboa. Na
opinião da companhia, trata-se de uma solução paternalista e arrogante,
circunscrita numa difícil relação em termos de programação cultural. Evidente
crítica à incorporação, por vezes inadequada e descontínua, do trabalho
nacional no cartaz cultural da capital. Outra incerteza sobressai no repertório
que tencionava celebrar o teatro do Porto, dez anos decorridos sobre a Capital
Europeia da Cultura. Pelo menos no que concerne ao critério de seleção dos
emergentes,que terá partido do relacionamento (in)formal com a incubadora
artística Fábrica da Rua da Alegria, porventura limitando o espetro de escolha.
Não obstante, o desafio é aceite e durante a Tarde Mundial do Teatro4,dia
dedicado às companhias emergentes, públicos das duas cidades reúnem-se no
Teatro São Luiz. Num misto de ironia e algum senso de responsabilidade no papel
de formação de públicos, a jovem companhia TMV assume que, ao procurar traçar
um esboço territorializado da realidade teatral, seria negligente desligar a
criação dos seus públicos e organiza uma performanceetnográfica em que o
público do Porto se mostra em Lisboa:
Quando nos fizeram a proposta [ ] para participarmos no Ciclo de
Teatro do Porto? No dia dos emergentes decidimos propor fazer um
arraial de São João [ ] no Teatro de São Luiz.
Decidimos que queríamos levar as pessoas que vivem mesmo nas
imediações do edifício do TNSJ levá-las a Lisboa, perceber também
qual é a relação delas com o teatro e com o edifício já que vivem
ali. E levá-las a Lisboa a ver o que se faz de teatro no Porto mas em
Lisboa.
Para nós isto tem muito a ver com perceber também a dinâmica [ ] do
que se passa no Porto a nível de teatro. Qual é o público? O que é
que as pessoas procuram? Para quem é que se programa teatro?
[Sílvia Silva ' TMV, in Inculta TV, 2011]
[ ] Já que as outras companhias levam os espetáculos então (risos)
levaremos nós o público do Porto já que é para (risos) fazer um
retrato de família do que se faz aqui.
Há um grupo da população do Porto que se calhar mais do que um
público é um não público, não é? Porque não têm, não têm hábitos
regulares de teatro. Mesmo o hábito de ir ao teatro, a realidade da
produção teatral é uma coisa que não faz parte da vida deles.
[Alfredo Martins ' TMV, in Inculta TV, 2011].
Distintamente dos objetivos satíricos inerentes à performance final que
pretendia abordar desigualdades territoriais (Lisboaversus Porto), associadas a
programações e políticas culturais destituídas de descentralização, o TMV
estrutura num complexo programa de atividades todo um trabalho com a comunidade
local, que intenta conhecer a conexão entre a população do Porto e o meio
teatral, debatendo motivações individuais de frequência, fatores de
afastamento, condicionantes financeiros no acesso ao teatro, preconceitos
quanto à oferta teatral, relação entre público e instituições teatrais e o
papel das organizações da sociedade civil na divulgação desta arte.
Compreendendo as dificuldades do estudo em causa, a companhia enfatiza uma
colaboração plural no processo criativo, estimulando a comunicação entre
disciplinas e novos olhares sobre o objeto. Nesse sentido, recruta uma equipa
multidisciplinar distribuída por áreas de conhecimento tão multifacetadas como
o teatro, a produção cultural, o vídeo, a sociologia, o serviço social e a
animação sociocultural, intercâmbio facilitado pelo (parco) financiamento do
São Luiz Teatro Municipal. Não menos importante, terá sido o apoio informal
disponibilizado por entidades como TNSJ, Junta de Freguesia da Sé (JFS) e
Associação de Solidariedade da Zona das Fontainhas (ASZF), que assim
contribuíram para um processo que se ambicionava bottom-up.
A proliferação de objetos híbridos deste tipo acompanha uma nova abordagem ao
teatro mais próxima do conceito wagneriano de obra de arte total, ressaltando,
ainda, a procura de um novo papel para o público numa utilização não-
convencional de espaço e comunidade. Excelente condição para os sociólogos,
habituados a estudar práticas e políticas culturais, desempenharem uma tripla
tarefa: (1) um melhor conhecimento dos instáveis públicos do teatro; (2) um
acompanhamento em termos de animação/mediação sociocultural do processo, ou
seja, o aconselhamento e, de alguma maneira, auxílio, na sua execução; (3) uma
avaliação on going e ex post do projeto. De certa forma, um convite para
aplicação de uma etnografia dos públicos em ação (Lopes, 2007), alicerçada em
metodologias participativas. Um trabalho de pesquisa estruturado pela
observação participante enquanto método, articulando no terreno simultaneamente
estratégias qualitativas (conversas informais, entrevistas semidiretivas e
métodos visuais - quer a observação direta, nas suas versões deambulantes, quer
a recolha de imagem, em articulação com a equipa de cinema documental), com
dispositivos mais sistemáticos de recolha de informação, como fichas de
caracterização sociológica e inquéritos de satisfação. Tentou-se, ainda,
concretizar a articulação entre fenómenos estruturais (pertenças de classe e de
género, idade, etc.) e as singularidades/subjetividades dos participantes
focando-nos nos quadros de interação como unidade de análise facilitadora do
contínuo vaivém macro-micro, especialmente adequados à análise dos modos de
relação entre as pessoas e os seus contextos de ação, neste caso quer os
modos de relação com as artes e a cultura enquanto esferas institucionais
especializadas, quer os modos de relação concretos, em situação, das pessoas
singulares com os seus contextos imediatos de ação, no domínio das práticas
culturais (Costa, 2004, pp. 134-135). Vários foram esses quadros de interação:
o enquadramento da JFS, do TNSJ ou do Teatro Carlos Alberto (teCA), nas sessões
de conhecimento dos bastidores, dos equipamentos, ou durante o antes, o agora e
o depois dos espetáculos teatrais a que os participantes foram assistir; as
preparações da viagem em contexto associativo e, é claro, o apogeu da própria
deslocação a Lisboa.
PÚBLICO DO PORTO ' IMPORTÂNCIA DA MEDIAÇÃO INSTITUCIONAL
O público do Porto seria selecionado seguindo um ironicamente arbitrário, mas
rigoroso critério de proximidade com o TNSJ, encerrando-se no perímetro de 1km
desse equipamento: 3460 residentes da freguesia da Sé (INE, Censos 2011). Ainda
assim, um número extremamente elevado para as cinquenta pessoas que deliberaram
levar de excursão até Lisboa, soma determinada pelos lugares disponíveis num
autocarro. A solução consistiria em contactar entidades que conseguissem
intermediar o acesso à população. Assim, foi possível evidenciar que estes
organismos locais representavam cruciais elos de ligação entre comunidade,
teatro e outras atividades de lazer, desempenhando um papel fundamental no bem-
estar social e cultural das suas populações, principalmente no combate à
solidão e à exclusão social. Em relação ao público sénior aqui analisado,
identificámos como principal mediador a Junta de Freguesia. Quanto à população
mais jovem, observámos dois mediadores centrais: a escola e a associação.
Abstraindo da equação inicial critérios de amostragem sistematizados, tão caros
aos sociólogos, a territorialidade e intermediação da seleção do público
determinariam as particularidades sociodemográficas dos participantes. Tal
acarretaria um certo enviesamento das características inerentes à população
residente na freguesia da Sé e condicionaria uma série de outros componentes.
Inevitavelmente, constituiu-se um público predominantemente idoso e reformado
(42%), com reduzidas habilitações académicas, ' proveniente dos contactos com a
JFS ', contraposto a um outro de jovens estudantes (29%) recrutado pela ASZF.
No seu conjunto, as idades oscilaram entre os 10 e os 84 anos.5 Por outro lado,
a centralização da seleção do público do Porto numa das freguesias históricas
desta cidade, assinalada por processos de exclusão social, poderia potenciar a
análise de uma hipotética relação distante com a produção teatral e, em
particular, com a dramaturgia contemporânea, trabalhando-se assim com a
ausência de disposições e hábitos regulares de frequência teatral:
Mas será que há uma coincidência real entre o público teatral do
Porto e o nosso público do Porto? Será que a população que vive nas
imediações da Praça da Batalha vai ao teatro? Alguma vez entrou no
seu vizinho teatro nacional? (sic) Será que alguma vez viu algum
espetáculo de teatro que se produziu no Porto? Se não viu, vai ver.
[Projeto PVT, 2011]
(DES)ENCONTROS COM O TEATRO ' ETAPAS DO PROJETO6
Nesta proposta, o público do Porto não é entendido como mera abstração
estatística ou recetor passivo da criação artística, mas antes como elemento
central do objeto criativo, agente ativo e reflexivo. Nos debates organizados
ou nas pequenas conversas informais, estes agentes partilham histórias de vida,
memórias e representações sobre o teatro, equipamentos culturais, obras
dramatúrgicas e atores, por vezes até mesmo alguns desabafos. Abraçando tal
proposição, o projeto adquire contornos inovadores que, de certa forma, rompem
com conceções tradicionalistas de estudos de público nas ciências sociais, numa
tentativa de (re)aproximar física e simbolicamente o público do teatro e tendo
como pretexto um programa composto por uma série de encontros prévios à
performance final em Lisboa (cf. Quadro_1). Os preparativos para este último
momento, cerca de quatro encontros distribuídos no mês que antecedia o evento,
procuravam preservar a multidimensionalidade do grupo constituído, acautelando
possíveis sequelas inerentes a iniciativas deste género, particularmente o
risco de reprodução das discriminações existentes.
Antoine Hennion (2007) vem sublinhando que os públicos são ativos produtores de
sentidos, de dispositivos e métodos de fruição. Se o gosto é uma atividade
reflexiva (embora não necessariamente calculada e instrumental), importa
conhecer os meandros dessa fabricação/experimentação, através dos usos
pragmáticos e performativos da cultura. Diz o autor francês que, para esse fim,
é incontornável mergulhar na configuração da teia de relações entre práticas
culturais e praticantes, para além da enunciação das regularidades
estatísticas. Ora, não era objetivo escamotear os indivíduos e suas
significações, mas perceber motivações, dispositivos, contextos e habitus
incorporados (Bourdieu, 1989). Aliás, a própria noção de formação de públicos
poderia suscitar alguma controvérsia. Nas palavras de Jacques Rancière (2010),
a educação do espetador parte da presunção de um abismo radical entre quem
forma e quem é formado, ensinando a estes últimos o lugar da sua própria
incapacidade (Rancière, 2010). Contrariamente, o TMV planeia implementar um
estudo multidimensional, com os ingredientes de quem não tenciona fazer tábua-
rasa das experiências anteriores dos sujeitos, nem impor um determinado bom
gosto cultural. A performance que se inicia desde o primeiro encontro procura
resgatar possibilidades de criação de disposições ou de ativação de disposições
adormecidas e/ou enfraquecidas (Lahire, 2013) através do programa de trabalho e
da sua dignificação enquanto agentes que observam, selecionam, comparam,
interpretam (Rancière, 2010, p.19) em quadros de interação delimitados e
territorialmente contextualizados.
ENCONTROS INICIAIS
Uma tarde chuvosa do mês de fevereiro inaugura o calendário de reuniões com o
núcleo de habitantes da Sé, população que entusiasticamente se transformou no
público do Porto do PVT. Na primeira sessão os participantes foram convidados
a fazer uma breve apresentação individual (idade, profissão ), iniciando-se
depois um debate informal. A gravação em vídeo do encontro não parece ter
causado grande transtorno, pois a maioria sente-se à-vontade perante as
câmaras. Porém, os mais novos ficam um pouco intimidados com o efeito câmara ou
a atenção direta. Verificou-se que o lanche oferecido e o local acolhedor
(ASZF) proporcionaram um ambiente descontraído que se manteve ao longo de toda
a iniciativa, permitindo um entrosamento entre a equipa e o grupo, fator
crucial para o sucesso deste processo.
Na maioria dos casos, a participação era motivada pela oportunidade de sair,
conviver e ir ao teatro a preços acessíveis. Rapidamente ficou claro o
diversificado preenchimento dos tempos livres do público do Porto, evidente
até mesmo na dificuldade em reunir os participantes em todos os eventos
promovidos. Possivelmente, a escolha destes indivíduos poderá ter
condicionado esse universo de gostos e práticas. Na verdade, quem se
disponibilizou a participar encontrava-se à partida numa relação privilegiada
de acesso a iniciativas deste tipo, precisamente pela sua pertença
institucional. Logo, em muitos casos, a predisposição para uma procura ativa de
atividades de lazer e de ocupação dos tempos livres já se encontrava acionada.
Ainda assim, é invulgar agregar em tantas ocasiões um conjunto de pessoas
portadoras de um visível sentimento de comunidade, forte identificação com o
lugar onde habitam, aliando a esta afeição redes de vizinhança ativas.
Durante os vários encontros, o grupo vai demonstrando a sua apetência em
relação ao teatro, utilizando com relativa frequência palavras como adoro e
gosto muito para exprimir o seu apreço. O género predileto varia entre
comédia e revista, mesmo que, em algumas situações, sejam referidos outros como
o teatro de marionetas, que apelidam de teatro de trapos. O público do
Porto estudado, principalmente o mais envelhecido, prefere grandes produções
de teatro, em particular as obras de Filipe La Féria (provavelmente devido ao
papel que teve na urbe portuense com os trabalhos realizados no Teatro Rivoli).
Talvez aqui resida a génese da representação de que o ingresso para um
espetáculo é algo exorbitantemente oneroso. Por outro lado, um olhar desatento
acharia enigmática a consonância deste grupo a propósito do interesse
demostrado pelo teatro, considerando que se procurava estudar um possível
distanciamento. No entanto, tal gosto não determinaria necessariamente uma
frequência elevada de espetáculos. Observou-se, ainda, que esta atividade se
encontrava intrinsecamente afeta a questões geracionais, mas não somente
dependente destas.
A fraca participação dos mais jovens nos debates dinamizados não nos permite
retirar conclusões assertivas sobre o relacionamento que mantêm com o teatro e
a oferta cultural da cidade. No entanto, fica claro que mesmo contactando com
esta forma artística, demonstram recordações e laços de afetividade mais
débeis, indicador que poderá porventura associar-se a um certo distanciamento
da prática teatral e seus espaços.
No caso dos adultos e dos participantes mais velhos, as memórias do teatro e
das salas de espetáculo da cidade continuam ativas, ainda que fortemente
relacionadas com fases de vida específicas. Alguns recordam perfeitamente os
espetáculos que viram enquanto jovens, mesmo que estes se tenham reconfigurado
num hábito que foram perdendo. Outros há que, ainda hoje, mantêm vivo o gosto,
mas dificilmente a frequência que desejariam.
Vários condicionantes impediram o desenvolvimento desse gosto e outros tantos
determinam que não o possam cultivar atualmente. Os reformados identificam a
azáfama diária das suas juventudes como um desses fatores. Mesmo tendo acesso a
bilhetes gratuitos, os horários de trabalho, a acumulação de empregos e a
ausência de férias desmotivavam a prática de lazer, cenário muito similar ao
das famílias recentes. Mas não só encargos diários limitam a ida ao teatro.
Mais do que desinteresse, constrangimentos financeiros influenciam uma saída
cultural, sobretudo devido ao preço dos bilhetes e de outros eventuais gastos
associados, principalmente se organizada no seio familiar. Nesse sentido, a
constituição e o alargamento familiar acarretam encargos que estabelecem
escolhas de consumo, mas situações de redução familiar e velhice encerram
igualmente restrições. As baixas reformas, o sentimento de insegurança, e o
défice de redes relacionais podem contribuir para uma certa anomia doméstica.
Quando esta população efetivamente frequenta o teatro, opta por recorrer a
grupos organizados e/ou bilhetes gratuitos. Entre as diversas gerações,
sobressai ainda a densa concorrência de outras práticas culturais, entre as
quais o visionamento de televisão. Acresce a esta listagem uma representação
negativa face à divulgação da programação organizada pelos espaços culturais da
cidade. A incompreensão domarketingutilizado e a insuficiente informação são
apontadas como lacunas que, por vezes, os distanciam da receção cultural.
Felizmente, nenhum destes fatores afastou quem participou neste projeto, nem
tão pouco diminuiu a intensa curiosidade e a expetativa face à possibilidade de
uma renovada fruição teatral.
A segundasessão estrutura-se numa ida ao teatro. Agradável convite para um
público relativamente familiarizado com esta atividade, mas um pouco arredado
de propostas dramatúrgicas mais recentes. Melhor ainda quando se propunha um
contacto direto com os agentes teatrais no final da peça. Assim, não é de
estranhar que tenham comparecido ao encontro 32 elementos do nosso público,
tornando-o num dos encontros mais procurados (cf. Quadro_2).
A escolha do espetáculo não poderia ter sido mais adequada, até mesmo pelas
características da companhia em causa. Com um conceito inovador no nosso país,
a Companhia Maior, para além da sua qualidade técnica, distingue-se pelos
elementos que compõem este grupo e a sua particular faixa etária: atores,
músicos, bailarinos, que ultrapassaram os 60 anos e se encontravam afastados
dos palcos, dos ecrãs, dos microfones. O enredo do espetáculo abordava dilemas
existenciais retratados em assuntos como a passagem do tempo, o valor da
experiência, o dom da memória e as segundas oportunidades. Tiago Rodrigues
(escritor/encenador) reinterpreta de forma tocante o clássico BelaAdormecida,
aqui conto desencantado, onde o tempo decorrido permanece ausente das memórias
mas envelhece o corpo. Considerando o teor da peça e as características do
grupo que assistiu a esta obra (composto maioritariamente por idosos e jovens),
o encontro representou uma magnífica ocasião para questionar a atualidade e as
suas inquietações. Uma oportunidade única de repensar a contemporaneidade,
dialogando com os atores que representaram este conto de fadas atualizado.
Curiosamente, a presença de atores e personagens facilmente reconhecíveis dos
media não intimidaram o público do Porto. Num ambiente bastante informal, com
proximidade entre elenco e público, foram abordados temas como os percursos
profissionais dos atores, a importância das suas idades e algumas dúvidas
existenciais, sobretudo as que se relacionam com a vida num tempo que pertence
à juventude:
Eu gostei por isto: porque aquilo foi eh, os 100 anos que esteve
adormecida e depois ficaram todos admirados como é que estiveram
tantos anos a dormir! Portanto, aquilo foi já vida contada daquilo,
daquela cena que se deu. Eu gostei de ver e achei muito bem e gostei
muito das pessoas que trabalharam foram espetaculares. Eu gostei,
gostei muito! [reformada, 75 anos]
O terceiro encontro reflete prenoções, não muito infundadas, da equipa criadora
em relação ao público deste projeto. Baseando-se na premissa de que o grupo
constituído se encontraria desligado dos equipamentos culturais existentes na
cidade, a companhia entendeu como imprescindível a criação de uma sessão que
permitisse a familiarização com o universo da produção teatral portuense,
aproximando os habitantes da Sé do seu vizinho TNSJ. O objetivo seria facultar,
através de uma visita guiada ao interior deste monumento nacional, o acesso a
áreas funcionais do teatro normalmente inacessíveis ao público. Entre as várias
sessões, a visita ao TNSJ destaca-se por ter encantado os participantes,
conclusão mesurável pelo elevado grau de satisfação relatado, mas também pela
utilização de uma emocionada descrição referente à decoração e estrutura do
edifício:
[ ] aquilo está com um amor, com uma perfeição [reformada, 67 anos].
Eu gostei da visita, da visita guiada ao Teatro de São João! Gostei
de ver a parte de baixo, gostei de ver aquilo tudo! E de ver aquelas
grandes obras que está uma maravilha! [ ] Parece um um Teatro só
para ópera. Tá muito lindo! [reformada, 75 anos].
Nunca pensei que estivesse assim tão bonito [desempregada, 62 anos].
A proximidade física, que por vezes passa despercebida devido à convivência
quotidiana, não corresponde obrigatoriamente a uma proximidade social ou
funcional com o espaço. Apesar da contiguidade do edifício marcar as rotinas
dos residentes da Sé, não raro foi relatado um profundo desconhecimento
referente ao interior do atual TNSJ. Constatamos que o público do Porto se
encontrava apartado do usufruto deste equipamento cultural, e que em muitos
casos este distanciamento ocorria há mais de vinte anos:
[ ] Acho que me ficou na memória eu tinha p'raí uns 13 anos/12 anos,
eu acho que foi até a última vez que eu entrei no São João. Eu já há
30 anos que não entrava no São João, aqui tão perto moro a 200 metros
do São João! [presidente ASZF/vigilante, 45 anos].
Como explicar esta situação? Tal como Rennes (1994), consideramos que os
indivíduos se relacionam com o espaço de variadíssimas formas, podendo a mesma
realidade ser processada através: (1) das representações cognitivas que lhe
estão associadas, (2) das reações afetivas que estimula e (3) dos
comportamentosque suscita (Rennes, 1994, p.19). Neste sentido, o espaço social
é também definido por coordenadas da memória, sistema de significações em
função do imaginário coletivo (Fernandes, 1992, pp. 73-74). A memória é
simultaneamente sincrónica e diacrónica, evento permanentemente relido com base
em novas vivências, novos conhecimentos adquiridos e novas representações
(Halbwachs, 2006). Desta forma, constitui-se não apenas como mero resgate de
informações do passado, mas enquanto ressignificação de histórias já vividas a
partir da experiência presente.
Num primeiro momento, provavelmente fruto das diversas funções incorporadas por
este espaço, os entrevistados não reconhecem o TNSJ como a Casa de Teatro do
Porto, mas antes como sala de cinema. Como vimos, a história da cidade
confunde-se com as múltiplas narrativas dos seus habitantes, e será por esse
mesmo motivo que a identificação de um equipamento cultural como Teatro ou
Cinema provenha das funções desempenhadas em determinado ciclo, mas também das
representações e comportamentos continuamente construídos sobre o espaço. Logo,
não parece surpreendente que existam confusões quanto aos nomes dos ícones
culturais portuenses e principais atividades, uma vez que se foram moldando
temporalmente mediante a relação que com eles mantinham. Lembremos que o espaço
é sempre relacional, intrinsecamente marcado pela possibilidade de
coexistências (Fernandes, 1992, p. 63).
Talvez seja plausível encontrar a origem destas representações revendo o
historial das salas de espetáculo identificadas nas memórias do público do
Porto. Comecemos a análise pela instituição/edifício que acreditam
estaratualmente mais relacionada com o teatro na cidade do Porto, o TNSJ.
Durante um longo período, manteve a designação de São João Cine, sendo
reclassificado apenas no início dos anos 90 após aquisição do Estado. O
programa de espetáculos estabelecido em 1992 pelo diretor Eduardo Paz Barroso
honrou a sua nova denominação, sendo preenchido por espetáculos musicais e
produções teatrais externas. Findas as obras de restauro (1993-1995), reabre
sobre a marcante direção de Ricardo Pais (1995-2000), uma função que retornaria
a exercer em 2002, após um breve interregno assegurado pelo trabalho do ator/
encenador José Wallenstein. Mais recentemente, a direção artística encontra-se
a cargo do encenador Nuno Carinhas, que tem vindo a desenvolver um esforço no
desenvolvimento da produção teatral da cidade do Porto e na reaproximação do
TNSJ a públicos heterogéneos. Contudo, a oferta cultural deste equipamento não
é tópico consensual nesta pequena amostra da população do Porto. Enquanto
alguns dos nossos entrevistados reconhecem o trabalho de Ricardo Pais, outros
há que consideram a programação cultural disponibilizada inacessível, ou
melhor, de difícil interpretação, criando um certo hiato entre o possível
público que reside nas imediações do teatro e o próprio TNSJ. As razões deste
distanciamento são variadas, mas entrelaçam-se com uma representação quanto às
classes sociais que frequentam este local, gente mais chique, mais moderna,
com maior capital cultural e financeiro, em suma. Assim, uma insinuante
vergonha social impede uma ligação mais intima entre os equipamentos culturais
e a população local.
O Coliseu do Porto é outro palco abordado pelos participantes adultos e idosos
do público do Porto (como vimos as memórias dos mais jovens são ténues no que
concerne a estas temáticas). A maioria dos intervenientes conhece bem o espaço
e a sua polémica história. Recordam que, nos anos 90, a empresa proprietária do
Coliseu solicitara à Câmara Municipal do Porto (CMP) uma extensão de
atividades, visando incentivar a exploração por parte de entidades como a
Igreja Universal do Reino de Deus (IURD). Este procedimento gerou uma acesa
contestação entre os habitantes da cidade, chegando a originar uma onda de
manifestações pela proteção do equipamento cultural, protesto esse em que
muitos dos nossos intervenientes participaram. Mas, apesar da agitação popular,
a situação só seria normalizada em 2001 durante a iniciativa Porto Capital
Europeia da Cultura.
Nesta ronda de equipamentos controversos existentes na cidade, relembram ainda
o Teatro Municipal Rivoli (1913), ilustre herdeiro do Teatro Nacional, que, nos
anos 70, se deteriorou devido a questões financeiras. A visível degradação do
imóvel obrigou à aquisição e intervenção da CMP, uma atitude bem aceite pela
população, que se revela menos tolerante quando, em 2006, a gestão financeira/
cultural é entregue a entidades privadas e, mais tarde, ao produtor/encenador
Filipe La Féria. Deste modo, é compreensível que os entrevistados evoquem
acontecimentos envolvendo o teatro e se mantenham a par dos desenvolvimentos
sobre o caso, até porque o visitaram mais frequentemente devido às grandes
produções que este lugar acolheu. O Teatro Sá da Bandeira, por seu turno,
revela-se um caso peculiar por ter conservado a denominação teatro:
Cá no Porto, cá no Porto o que foi sempre teatro era o Sá da
Bandeira, o resto era tudo cinemas [reformada, 75 anos].
Acreditam que a mudança de proprietário deste espaço tenha lesado a sua
programação (em especial através das sessões de cinema para adultos),
diminuindo a oferta teatral, substituída progressivamente por bailaricos e
concertos temáticos ditados por condicionamentos da lógica da procura.
Relativamente ao TeCA, foi possível identificar um certo distanciamento, ou até
desconhecimento, do atual uso do edifício. Averiguamos que este equipamento
cultural era percecionado como cinema, o antigo Auditório Carlos Alberto.
Representação mais que compreensível, uma vez que, até à década de 70, se
dedicava quase exclusivamente à exibição cinematográfica, sendo apenas
devolvido à cidade como sala de teatro a partir de 2003, após a sua aquisição
pela Sociedade Porto 2001. Com alguma propriedade podemos concluir que,
contrastando o vínculo memorial e afetivo com equipamentos culturais mais
antigos na cidade, o público do Porto se encontra profundamente desligado de
espaços mais recentes como o Teatro Campo Alegre, Helena Sá e Costa, Teatro da
Vilarinha, ou o Teatro de Belomonte ' Teatro de Marionetas do Porto ou mesmo o
próprio TeCA. Face a esse afastamento, advogam a criação de uma Casa do
Teatro no Porto como instrumento para quebrar o elitismo cultural existente
na capital, embora tenham presente os encargos orçamentais que tal acarretaria:
Este senhor falou, falou muito bem! Foram, fizeram a Casa da Música
faziam a Casa do Teatrotambém! Lisboa se tem nós também podíamos ter!
Não é assim? Lá está a tal diferença em que há sempre Porto e Lisboa!
É Benfica e Porto! É sempre assim! [reformada, 75 anos].
Assinalam, ainda, o carismático Teatro Experimental do Porto ' TEP (1953) como
averdadeira Casa de Teatro do Porto. Não ousamos assumir esta noção, mas é
notório que a produção teatral existente no Porto se correlaciona intimamente
com o surgimento do TEP (anos 50), o incentivo à formação profissional do
espetáculo (anos 90): Balleteatro Escola Profissional, Academia Contemporânea
do Espetáculo, Escola Superior de Música e Artes do Espetáculo e dos projetos
que daí germinam. Anteriormente o Porto seria: [ ] espetador entusiasta de
obras não só de Teatro, mas também de Ópera e Opereta, vindas de fora (quer de
Lisboa quer do estrangeiro) e apresentadas sempre com enorme êxito nos espaços
teatrais da época: o Teatro Sá da Bandeira, o Teatro Nacional S. João e o
Teatro Rivoli (Costa, s/d). Esta situação esclarece, em parte, o
posicionamento do grupo quanto aos espaços referidos e até mesmo no que
respeita à produção teatral recente da urbe.
Conforme projetado pela companhia, a quarta e última sessão antes da
performance final ocorreu na ASZF. Este encontro encerrava alguma complexidade
nos objetivos que se propunha alcançar, em boa medida por ser o último momento
planeado de interação direta e diálogo com os participantes. Por um lado,
pretendiam instruir o público sobre os contornos da performance que
tencionavam apresentar no Teatro Municipal de São Luiz. Por outro, a preparação
e apresentação do itinerário de viagem obrigavam a muito mais do que apenas
informar pormenorizadamente sobre o horário estabelecido para as várias etapas
do dia dedicado ao teatro, uma vez que se pretendia esclarecer sobre o papel
que iriam desempenhar e sobre os adereços que deveriam transportar na
derradeira encenação. De ressalvar que, ao longo das reuniões, não existia a
pretensão de ensinar um texto para o evento. A performance estruturava-se a
partir dos encontros dinamizados anteriormente e sobre os modos como o público
do Porto interpretaria esta vivência, escrevendo e construindo o seu próprio
enredo na mise en scèneda vida quotidiana (Goffman, 2005; Alexander, 2006):
[ ] então já nasci ator entende? Eu tenho todos os dias uma maneira
de estar na vida. Eu vou na rua vou a viver uma personagem, embora às
vezes eu não sei qual é, mas vou assim a minha esposa bem (risos)
sabe que é verdade. Chego a casa diz ela assim não sabe quem é que
eu sou hoje! [reformado, 65 anos].
Porém, nesta sessão aventurava-se um pouco mais, através de uma reflexão final
sobre o percurso do programa estabelecido. Para aceder a esse feedback
recorre-se ao visionamento deimagens editadas alusivas ao primeiro debate. Os
teasers produzidos serviriam dois propósitos, funcionando quer como
instrumentos de divulgação do projeto à comunidade artística, quer como
mecanismos de discussão e confrontação representacional do público do Porto.
Após o visionamento das gravações, inicia-se um momento de discussão no qual se
recuperam dimensões anteriormente abordadas. No fundo, uma tentativa de
apreender se as representações precedentes se haviam modificado, ou se, pelo
contrário, a série de encontros havia perpetuado ou até mesmo reforçado as suas
perspetivas iniciais. Embora de difícil determinação sem um acompanhamento
diacrónico, é possível considerar que este estudo poderá ter facilitado alguns
efeitos (re)socializadores no público em questão.
De um modo geral, concordam que a participação nos encontros constituiu uma
vantagem para as suas vidas, ao permitir estimular a procura de lazer fora do
espaço doméstico, o convívio, e mesmo uma procura ativa da oferta teatral
disponível na cidade. A informação e as dicas úteis disponibilizadas foram
encaradas como componentes que motivaram um interesse acrescido. A oportunidade
de socialização entre os diversos intervenientes foi intensamente acolhida,
sendo a troca intergeracional destacada como ponto forte do programa de
trabalhos. Refere o presidente da ASZF que, nos quase 40 anos da associação,
este tipo de convívio nunca foi impulsionado entre as organizações locais,
concluindo que a mensagem principal deste projeto passava, precisamente, pela
necessidade de dinamizar encontros que permitam a interação entre as diversas
gerações e as instituições locais, mas também um maior contacto com a realidade
teatral portuense.
Por outro lado, a formação de públicos passa a ser percebida como fundamental
para uma maior aproximação ao teatro, uma vez que, devido a limitações na
divulgação das obras ou à incompreensão na decifração das mensagens, eles se
encontram alheados da atual oferta existente. Entendem, pois, que a aposta
neste tipo de encontros de formação de públicos, contribuiria para um maior
discernimento acerca da qualidade artística dos atores e das propostas
dramatúrgicas, incentivando uma maior predisposição para a ida ao teatro.
Testemunhámos, ainda, uma ligeira mudança no relacionamento com o teatro, ou,
mais prudentemente, com as representações que lhe estão subjacentes. O público
do Porto, que no início dos encontros achava que ir ao teatro era algo para
pessoas granfinas, conclui, no final do processo, que este estereótipo é
acima de tudo um sistema de autoexclusão, que em muito se (e os) afasta da
realidade.
PERFORMANCE FINAL
A chegada apoteótica do público do Porto ao Teatro Municipal São Luiz,
solenemente acompanhada por batedores da GNR, culminaria após a receção num
ambiente de verdadeiro arraial São Joanino. Este espetáculo vernacular, a
performance proposta pelo TMV, concentrava toda uma complexidade metafórica e
conceptual. Teatro dentro do teatro, onde públicos do Porto deambulavam
orquestradamente no Teatro São Luiz para espreitar outras performances.
Simultaneamente teatro dentro da vida, assumindo os públicos do Porto uma
personae em que realidade e representação se confundiam. Terminada a
sardinhada, é tempo do público vindo do Porto se imiscuir entre os visitantes
e descobrir o que raramente vê no seu próprio território, teatro feito no Porto
por companhias emergentes desta cidade. Os públicos do Porto, criteriosamente
conduzidos pelos atores do TMV, passeiam-se pelo Teatro Municipal São Luiz com
uma t-shirt alusiva à performance e assistem a várias peças: Arrumadores de
pessoas (Radar 360º, 2011), Meto a colher?! (Pele, 2008), Dimas e Gestas.
Um espetáculo de café-teatro para crucificados (Palmilha Dentada, 2011), Fio
de prumo (Erva Daninha, 2011), Deambulações (de utópolis) e Silêncio (de
diz que diz) (Teatro do Frio, 2011).
Sobre a satisfação em relação às peças a que assistiu, o público inquirido7
revela um forte grau de satisfação e uma clara superação das expetativas. Mas,
neste caso, o cansaço provocado pela viagem e pela corrida pelos espetáculos,
certamente terá dificultado uma fruição com qualidade daquilo que observavam,
sobretudo nas últimas visitas, o que por certo terá influenciado a sua
perceção. Não obstante, é de realçar o ativo interesse do público do Porto na
oferta teatral do programa do Ciclo de Teatro do Porto (cf. Figura_2).
Em suma, presenciamos uma reação positiva referente ao programa de trabalho
idealizado, principalmente em relação à viagem (100%), ao visionamento da peça
de teatro Bela Adormecida (81%) e à visita ao TNSJ (78%), superando, na
maioria dos casos, as expetativas iniciais sobre os encontros.
Analisando estes dados, conseguimos concluir que a fruição das peças
propriamente dita é o que mais mobiliza este conjunto de pessoas, o que indicia
uma franca abertura para um trabalho de formação de públicos. Mas um olhar mais
profundo dar-nos-á novas pistas. Apesar do registo de valores sempre acima dos
70%, nos indivíduos com ligações à JFS, é verificável a preferência pelos
últimos dois encontros (87% sessão quatro e 100% sessão cinco). Estes números
poderão indicar uma maior fidelização ao projeto com o avançar do processo. De
certa forma, podemos considerar que não só o visionamento de teatro cativa este
grupo, mas também a própria experiência, a troca intergeracional, e o convívio
proporcionado nestes encontros:
[ ] Eu gostei imenso. Eu gostei muito. Gostei, eu gostei de tudo
gostei sim senhora. E assim como gosto destas reuniões que a gente
tem tido. Em tudo por tudo. Fazemos convívio uns com os outros. [ ]
Fazemos convívio com os jovens, saímos de casa, e puxa-se uns aos
outros! Vamos embora, vamos embora!; Ah hoje não vou!; Vamos sim
senhora, vamos embora! É muito bom [Laurinda, reformada].
CONSIDERAÇÕES FINAIS
Num sincero elogio à imprevisibilidade criativa do campo artístico, o conceito
de performance adquire nesta proposta uma nova roupagem, mantendo, no entanto,
algumas das principais linhas orientadoras que caracterizam esta tipologia
desde finais dos anos 60, sobretudo a crítica ao sistema estabelecido, atributo
que tem transformado a arte performativa numa espécie de arte fronteira ou
arte viva, irreverente, em contínua rutura com a arte-estabelecida
(convencional), mas permanentemente em diálogo com os ténues limites que
separam vida e arte (Cohen, 2002, p.38). Como destaca o sociólogo alemão
Bernhard Giesen (2006): não é nem a intenção criadora do artista nem a
qualidade substancial da peça de arte ou o simbolismo convencional, que
constitui a arte, mas, em vez disso, a perspetiva do espetador ou o público
sobre ela que transforma algo em arte (Giesen, 2006, p. 316).Também neste
projeto hibrido e multidisciplinar se desenvolve um profundo questionamento do
papel desempenhado por atores, instituições e públicos no teatro contemporâneo.
Aqui, o público é retratado como elemento central do objeto criativo ou, se
preferirmos, a mise en scèneda vida quotidiana (Goffman, 2005) de um público
que, não sendo habitué do espaço teatral, se pretende que entre nele não como
o outro lado, o que observa, mas como o que participa (Madeira, 2012, p. 7).
Por outras palavras, assistimos ao reposicionamento do papel de espetador no
processo de criação do teatro moderno (ou pós-moderno), um fenómeno que o
filósofo francês Jacques Rancière (2010) aponta como a inadiável emancipação
do espetador. Explica-nos o autor ser iminente um teatro sem espetadores no
qual quem assiste aprenda, em vez de ser seduzido por imagens, no qual quem
assiste se torne participante ativo, em vez de ser um voyeur passivo
(Rancière, 2010, p. 10). Ideia partilhada por Denis Guénoun (2004) quando nos
indica ser necessário chamar o homem comum à cena: não sua imagem, mas suas
singularidades e seus grupos, efetivamente, vivos. É preciso abrir as cenas à
vinda daqueles que foram deles banidos: os ditos não-atores, os não-artistas
(Guénoun, 2004, pp. 156-157). O grupo de habitantes da Freguesia da Sé, '
prudentemente selecionado através de mediação institucional ', transforma-se,
então, em agente ativo e reflexivo que discorre sobre o que anteriormente
aproximava esta população do teatro e os condicionalismos que hoje determinam o
desencontro. Mas o papel do público prolonga-se para além do debate, uma vez
que estes atores sociais (Goffman, 2005; Alexander, 2006) são convidados a
participar numa série de eventos e de encontros com vista a reavivar um
relacionamento adormecido.
Projetos híbridos como o aqui analisado (designados por vezes de performance
social) reivindicam novos espaços de discussão, novas tipologias de
participação artística e de intervenção na sociedade. Ao elegerem comunidades
específicas, grupos ou concretas situações de exclusão social, criam
oportunidades de integração, convívio e aprendizagem para atores sociais em
situações mais ou menos fragilizadas. Fazendo jus ao entendimento do teatro
como forma privilegiada de interpelação do real, a companhia TMV desempenha
neste projeto um importantíssimo papel de formação de públicos. Ainda que
informalmente, no decorrer dos encontros foram trabalhadas representações
referentes ao mundo teatral. Este processo de desconstrução e reconstrução
conceptual consubstancia-se pela introdução a realidades tão distintas como:
(1) funcionamento lato do teatro e suas especificidades; (2) papel das
estruturas de produção e divulgação; (3) contrariedades que companhias de
teatro independentes padecem; (4) aproximação corpórea e simbólica do público
aos equipamentos culturais e sua oferta cultural. Assim, a necessária recolha
de informação sobre o público do Porto foi sendo intimamente articulada com o
empowerment da população através do manejo de códigos interpretativos. No
fundo, um reforço do conhecimento sobre o teatro e suas particularidades,
acompanhado de estratégias práticas para uma reconciliação com a frequência
teatral. Pese embora de enorme interesse, se desprovido de processos de
acompanhamento sistematizados por parte de instituições, plataformas
associativas, ou entidades como companhias teatrais, este tipo de intervenção
isolada resume-se a um conjunto de momentos de convívio. Considerando o nosso
público do Porto, tais iniciativas dificilmente cumprirão a função estrita de
formação de públicos, talvez antes de inclusão ou integração social. Não
seremos inexatos se, conjuntamente com um plausível reencontro com o teatro,
reconhecermos como aspetos positivos deste projeto a partilha intergeracional
gerada pela pertença associativa, o intercâmbio de experiências e a
socialização entre habitantes do mesmo território que raramente se cruzam.
Em suma, trata-se de qualificar uma dinâmica recente que reivindica novos
espaços de discussão e novas tipologias de participação artística, em íntima
articulação com intervenção na e com a sociedade. De igual modo, valoriza-se o
contexto de abertura à multidisciplinariedade exaltado no âmbito desta
estratégia artística, bem como a amplitude das consequências concretas que pode
desencadear numa população.
Enfim, é de todo o interesse que se estimule uma maior cumplicidade entre
universos artísticos e académicos. Ainda que respeitando a liberdade criadora
do artista, torna-se fundamental uma vigilância epistemológica, dentro de um
trabalho em parceria de diferentes valências, que permita resguardar os
interesses do elo mais importante e sempre mais fraco, o próprio público e a
sua intrínseca pluralidade.