Modernidade, classes sociais e cidadania política: Portugal sob um olhar
internacional
INTRODUÇÃO
São muitas e conhecidas as análises efetuadas aos padrões, processos e
estruturas de classes e desigualdades em Portugal (Nunes, 1964; Martins, 2006;
Machado e Costa, 1998; Carmo, 2010).1 Contudo, à exceção de escassos trabalhos
(Cabral, 1997, 2000, 2006a, 2006b) poucos são aqueles que consideram a
cidadania política enquanto um tipo específico de desigualdade, fulcral no
acesso a recursos e poder. Assim, pretende-se com este texto, através de uma
dimensão analítica complementar, entender de que forma a relação entre classes
sociais e cidadania constitui um indicador da relação que os cidadãos
desenvolvem com as instituições e, assim, perscrutar formas diferenciadas de
integração no âmbito do Estado-Nação a partir de dados do European Social
Survey 2002.
A análise será feita em dois momentos: (1) desenvolve-se uma tipologia de
cidadania política e compara-se, em diferentes blocos de países, a relação da
mesma com as classes sociais; (2) testa-se a robustez das classes sociais face
a outras variáveis, perspetivando fatores complementares de explicação da
cidadania política.
MODERNIDADE, CLASSES SOCIAIS E CIDADANIA
As classes sociais, enquanto ferramenta de análise sociológica, têm sido
ciclicamente questionadas por um conjunto de autores e teorias. Nos últimos
vinte anos foram, sobretudo, as teorias da modernidade (reflexiva e pós-
modernidade) que contestaram a sua validade heurística. Através de um movimento
ascendente e descendente, respetivamente, para a globalização e o indivíduo, as
suas propostas esvaziaram de sentido e importância conceitos anteriormente
fulcrais, como classes sociais e Estado-nação.
Os autores destas correntes, em termos gerais, enfatizam que novas forças
sociais conduzem os indivíduos a escolher reflexivamente, sendo que a pertença
de classe deixou de ser um impedimento às decisões de vida, não formatando nem
as práticas, nem as identidades. Referem, assim, a instabilidade, a
fragmentação, a individualização, a destandardização, a reflexividade e a
fluidez social prevalecentes nas sociedades modernas ou pós-modernas,
conseguida através do aperfeiçoamento dos mercados e da consequente
destradicionalização (Inglehart, 1990 e 1997; Pakulski e Waters, 1996; Beck,
2007).
Os seus argumentos aplicam-se ao campo económico, cultural e político
(Atkinson, 2010, pp. 1-14; Crompton, 2008, pp. 71-93). No plano económico
sustentam que um conjunto alargado de mudanças como a terciarização, o pós-
fordismo, a flexibilidade e a desregulação do mercado de trabalho conduziram a
um nivelamento do consumo e afluência, devido à difusão da propriedade e da
educação (Beck, 2007; Inglehart, 1990 e 1997). Em termos culturais dissolve-se
a cultura de classes baseada na produção e é o consumo que passa a estruturar
os estilos de vida (Pakulski e Waters, 1996).
No campo político, vários autores sustentam que com o desaparecimento da
política de classes emergiram clivagens pós-materialistas (Inglehart, 1997)
em que se baseiam os novos movimentos sociais focados nas políticas da vida
(Giddens, 1997), centrados no indivíduo e socialmente heterogéneos. Este tipo
de argumentação está intimamente ligado às correntes que prenunciam o fim das
classes sociais, assim como com o desvanecimento da ligação entre classes
sociais e sociologia política, sobretudo no que diz respeito ao voto de classe
(Clark e Lipset, 2001). Porém, outros autores mostram que é possível verificar
o impacto do estatuto socioeconómico (SES) na explicação da participação não
eleitoral (Verba e Nie, 1972).
É, portanto, necessário demonstrar a relevância das classes sociais neste campo
específico, isto é, perceber como estruturam as ações políticas. As
desigualdades têm um papel fulcral na análise da distribuição do poder em
democracia já que permitem identificar diferentes capacidades de exercício de
influência das instituições (Rueschemeyer, 2004; Cabral, 1997): às
desigualdades sociais sobrepõem-se desigualdades políticas que se apreendem
através da diversidade de formas de participação. Deve-se, assim, admitir que
as classes sociais continuam a ter validade heurística e que são uma ferramenta
importante para a análise dos fenómenos sociais. Contudo, não são o único fator
explicativo, apesar da sua relevância na explicação de diversos fenómenos
(Costa et al., 2000). Há sobretudo que ter em atenção os contextos
institucionais e históricos e a forma como as classes sociais neles se
enquadram.
Contrariamente aos autores até agora referidos, Mouzelis (2008) propõe uma
definição de modernidade que, numa perspetiva institucionalista e histórica,
remete para a centralidade do Estado-nação na estruturação das relações sociais
e que se centra nos processos de diferenciação social e integração. Este
enquadramento permite focalizar, em especial, os fenómenos sociopolíticos, já
que o autor acentua, na sua proposta de desenvolvimento histórico do Estado-
nação, as relações entre classes sociais e cidadania enquanto indicador da
forma como as classes subalternas e destituídas de poder político foram
progressivamente, por via do alargamento dos direitos, ganhando preponderância
devido à sua proximidade ao centro político.
Deste modo, através da relação entre classes sociais e cidadania é possível,
segundo Mouzelis, constatar de que forma se constituem processos de
centralização e diferenciação institucional e, como tal, a proximidade dos
cidadãos ao centro político. Uma sociedade civil forte, na perspetiva de
Mouzelis (1995), manifesta-se pela expansão e realização dos diversos direitos
de forma autónoma pelas diferentes classes sociais, sendo que estes só são
plenamente realizados pela ação dos direitos políticos, sinal, portanto, de
integração no centro político dos cidadãos como argumenta Cabral (2000). Ou
seja, a cidadania política, expressão da sociedade civil, é, enquanto
participação, um indicador chave da forma como o poder se distribui no âmbito
dos processos democráticos.
Os conceitos centrais que estruturam este trabalho são, então, os de classe
social e de cidadania política. As classes sociais enquanto sistema articulado,
dinâmico, duradouro e multidimensional de desigualdades, baseado em
diferenciais de recursos, de poder e de oportunidades, permitem perscrutar de
que forma a posição social afeta o conjunto das ações políticas (Bourdieu,
1997; Costa etal., 2000; Silva, 2009). A cidadania política trata-se, como
refere Cabral (1997, 2000), dentro tríade clássica de direitos (civis,
políticos e sociais), dos únicos que se desfrutam pela ação, porque ao
contrário dos atributos da cidadania cívica e social, ( ) nunca são
automáticos, mas sim algo que tem de ser exercido ( ) de forma activa (Cabral,
2000, pp. 86-87), o que permite alcançar uma medida de funcionamento real dos
regimes democráticos, através do exercício objectivo dos seus direitos
(idem).
É fulcral determinar modalidades diferenciadas de cidadania política, indo além
das tradicionais medidas de participação que se baseiam apenas nas práticas
realizadas, perspetivando a combinação de diversas dimensões. Propõem-se duas
dimensões para a cidadania política: a ativa e a latente (Ekman e Amna, 2012).
A primeira diz respeito à participação política, enquanto a segunda incorpora o
envolvimento comunitário e moral, sem incluir necessariamente a participação,
expressando-se no interesse e discussão de problemas comuns, identificação e
sentido de pertença.
Pretende-se, assim, verificar os efeitos estruturais das desigualdades no
acesso à democracia independentemente da posição social ocupada, testando a
preponderância das classes sociais em diferentes blocos de países da Europa e
em Portugal. Os trabalhos que se têm dedicado a estas questões (Caizos e Voces,
2010; Nunes e Carmo, 2010; Nunes, 2013; Cabral, 2000; Silva e Vieira, 2011)
demonstram que o volume e o tipo de recursos dominantes em cada classe social
são preponderantes no entendimento da participação política.
Resulta, assim, que em contexto de modernidade a integração é passível de
constatação por via das relações entre classes sociais e cidadania política,
dando conta dos tipos de distância ao poder e influência (Cabral, 2000). A
relação entre os cidadãos e as instituições políticas permite, assim,
compreender de que forma se estruturam relações de poder no âmbito do Estado-
nação e o impacto das desigualdades sociais de classe é fulcral no descortinar
dos enviesamentos nesta relação.
OBJETO, METODOLOGIA E HIPÓTESES
A partir do quadro teórico formulado e na problematização realizada, o nosso
objeto de análise passa por compreender a relação entre classes sociais e
cidadania política em Portugal, em comparação com a Europa, bem como testar a
solidez desta relação. Esta relação, argumenta-se, permite perspetivar a
proximidade ao centro político por parte de agentes com diferentes recursos e
posições sociais. Porém, um apuramento cabal destas questões só é possível se
se comparar com os padrões do resto da Europa, de modo a apurar diferenças e
especificidades de Portugal.
Utilizam-se, para isso, dados disponíveis do European Social Survey 2002 (round
1), devido às variáveis do módulo relativo à cidadania dessa edição que
permitem operacionalizar a dimensão ativa e latente e, assim, desenvolver uma
tipologia a partir de uma análise de correspondências múltiplas (Carvalho,
2008). Esta pesquisa situa-se no âmbito dos atuais estudos sobre a relação
entre classes sociais e cidadania, e é enquadrada por uma perspetiva das
classes a um nível internacional (Costa, Machado e Almeida, 2009; Carmo e
Nunes, 2013).
As classes sociais são operacionalizadas através do indicador socioprofissional
que cruza a profissão com a situação na profissão (Costa etal., 2000) e que dá
conta de posicionamentos sociais tipo. Estes são indicadores da distribuição
relacional de recursos, mas também de condições sociais de vida, atributos e
práticas comuns, não deixando por isso de ter também aqui subjacente uma
questão identitária. Este cruzamento resulta nas seguintes categorias da
tipologia ACM que dá conta de diversos atributos e capitais associados a
diferentes posições sociais: empresários, dirigentes e profissionais liberais
(EDL), profissionais técnicos de enquadramento (PTE), trabalhadores
independentes (TI), empregados executantes (EE) e operários (O). Como referem
Costa, Machado e Almeida (2009), a análise de classes baseia-se não só numa
análise das posições, mas também da formação de classes de agentes. Por esse
mesmo motivo é essencial diferenciar vários tipos de recursos ou capitais.
Deve-se, assim, também ter em conta outros indicadores como a escolaridade,
enquanto capital cultural, ou o rendimento, enquanto parte do capital
económico. Não se reifica, assim, o indicador em questão e pode-se perceber
como este varia em diferentes contextos. Esta abordagem é diferente da
explicitada no ponto anterior em relação ao SES. Este último não diferencia os
tipos de capitais subjacentes a cada classe social e tem uma visão
hierarquizada e estratificada do posicionamento social, ao contrário das
correntes ligadas às classes sociais cuja premissa base é de cariz relacional.
Há, portanto, uma diferença teórica substancial e que tem um impacto importante
na interpretação.
Na análise agrupam-se os países por blocos, ao mesmo tempo que se inclui
Portugal numa análise comparativa. Na segunda parte da análise, a partir dos
object scoresda primeira dimensão da análise de correspondências múltiplas
define-se um índice de cidadania política através dos procedimentos mencionados
por Carvalho (2008, pp. 215-226). O objetivo é a partir deste testar outros
preditores para além das classes sociais.
Julga-se relevante proceder à comparação de Portugal com espaços internacionais
de forma a compreender as suas particularidades. A análise comparativa efetuada
nestes moldes permite de forma sintética e parcimoniosa agrupar países
consoante características comuns. Se é certo que a agregação poderá levar à
perda de informação, esta escolha justifica-se já que o que se pretende é
perspetivar as especificidades de Portugal face às restantes regiões. Unem-se,
assim, países com lógicas de desenvolvimento histórico semelhantes,
analisando-se os mesmos enquanto totalidades e configurações singulares e
complexas. Os blocos de países presentes no quadro_1 têm, então, por base
semelhanças históricas de longo termo. Este critério não é exclusivamente
geográfico, pois vários autores referem, a diferentes níveis, as semelhanças
institucionais entre estes países, nomeadamente ao nível do Estado-providência
e às variedades de capitalismo (Esping-Andersen, 1990; Hall e Soskice, 2001).
Acresce, como se poderá verificar na secção seguinte, que as estruturas de
classes são bastante semelhantes. Ainda que não se procure utilizar estes
contextos institucionais como variáveis explicativas, estes ajudam a explicitar
a agregação aqui feita.
Pretende-se aqui proceder a comparações entre países e blocos, levando em conta
as classes sociais em cada um deles como um fator adicional de explicação.
Assim, comparam-se não só as variações a nível societal, como também ao nível
das classes sociais, possibilitando maior profundidade analítica.
CLASSES SOCIAIS E DUALIDADES: PORTUGAL FACE À EUROPA
São clássicos os trabalhos de Nunes (1964) e Martins (2006), os quais
identificavam os padrões de desigualdades e dominação em que assentava o Estado
Novo. Este baseava-se na forma como continha a oposição política e na distância
social existente entre os grupos sociais detentores de poder e os que não o
possuíam. Esta distância ocorria, sobretudo, por via do ensino: o superior era
o veículo privilegiado de reprodução social das elites e o primário de
manutenção e inculcação da dominação das classes subalternas. Esta dualidade
firmava-se também a nível territorial numa oposição entre os principais centros
urbanos e o interior rural. Se o primeiro se caracterizava pelo maior dinamismo
industrial, a segunda era marcada pela predominância do campesinato e
trabalhadores agrícolas.
Trabalhos mais recentes permitem identificar os processos de reprodução e
transformação da estrutura social face ao regime político anterior. Machado e
Costa (1998) advogam que Portugal se encontra num processo de modernidade
inacabada: se alguns grupos estão dentro de padrões europeus, outros ainda se
encontram distantes devido ao peso das baixas qualificações, apesar da subida
dos níveis de escolarização. As principais alterações na estrutura de classe
após o 25 de Abril são, por um lado, um declínio acentuado das frações de
classe associadas à agricultura e, por outro, um crescimento das restantes
categorias socioprofissionais. Na base destas alterações estão processos de
terciarização dos setores económicos, com ênfase para o crescimento do setor
dos serviços e do Estado-providência. Contudo, apesar destes processos de
mudança verifica-se ainda uma distância considerável entre grupos
escolarizados e grupos não escolarizados, ou seja, a distância relativa entre
estes mantém-se apesar do crescimento dos níveis médios de educação.
Machado e Costa (idem) contrapõem, ainda, EDL e PTE, devido aos seus diferentes
protagonismos. Os primeiros na esfera económica e da iniciativa privada, têm
usualmente baixos níveis de escolaridade e detêm empresas familiares, enquanto
os segundos, grupo com maior crescimento relativo devido às transformações
descritas, detêm importância profissional devido aos conhecimentos
intelectuais, científicos e técnicos sustentados pelos elevados níveis de
escolaridade. Contudo, quando comparada com outros países, a estrutura de
classes portuguesa apresenta ainda um baixo número de PTE e destaca-se o nível
elevado de trabalho independente (Costa, Machado e Almeida, 2009). Continua
ainda atido a um modelo que se encontra longe do padrão europeu, em que os PTE
se destacam pela sua dimensão. Se se pode observar um conjunto de alterações na
estrutura de classes imputáveis a processos nacionais e transnacionais, isso
não invalida que se mantenham, no essencial, padrões de desigualdade e
dominação assentes numa distância entre as classes subalternas e dominantes,
tanto em termos culturais como económicos (Costa, Machado e Ávila, 2009; Carmo,
2010 e 2013).
Tendo em conta a síntese realizada, note-se as particularidades de Portugal
face às restantes zonas da Europa a partir dos dados do European Social Survey
de 2002. No que se refere à estrutura de classes na Europa por blocos de
países, existem diferentes predomínios consoante a região. Nos países
escandinavos, esta caracteriza-se pelo domínio dos PTE (29,8%) mas também por
uma percentagem alta de EE (31,7%). Na generalidade das classes sociais e face
às outras regiões, existem níveis de escolaridade elevados em todas as classes
sociais. Nos países do Centro, apesar da grande diversidade existente, estes
pautam-se também pela presença de um elevado número de PTE (30,9%) e de EE
(32%). Nos países anglófonos há um peso elevado dos EE (37,2%) e, em termos
comparativos, dos EDL (16,9%). Nos países do Leste verifica-se uma percentagem
elevada de operários e mais baixa de EE. Mas existe um padrão semelhante no que
respeita à percentagem elevada de operários e mais baixa de EE, com os padrões
de escolaridade ao nível da Escandinávia e dos países do Centro. Os países do
Sul caracterizam-se por um nível alto de trabalho independente (14,1%). Os
empregados executantes representam pelo menos um quarto da população, assim
como o operariado. Os PTE apresentam percentagens mais baixas, apesar dos
níveis de escolaridade serem semelhantes aos dos restantes países da Europa,
enquanto as restantes classes sociais têm níveis médios de escolaridade abaixo
dos restantes blocos. É de notar que em todos os blocos de países a soma entre
EE e O se situa entre os 50%-60%, enquanto no Sul a soma dos TI atinge os 70%,
deixando apenas 30% no PTE e EDL.
Torna-se, assim, necessário caracterizar a modernidade política em Portugal,
isto é, verificar os padrões de cidadania e como estes se distribuem pelos
lugares de classe. Nas abordagens até agora mencionadas, falta-nos ainda as
questões ligadas à política e à relação com o Estado, uma vez que esta é também
uma dimensão fulcral da análise da modernidade (Mouzelis, 2008). Assim, de que
modo as dualidades sociais em que assenta a estrutura de classes não
fundamentam também os padrões de cidadania política e se transformam em
desigualdades políticas?
As formas de dominação e a constituição da estrutura de classes em Portugal
dependem também do modo como se dá a relação com o Estado e não apenas de
fenómenos estritamente económicos: a distância ao poder de que Cabral (2000,
2006a e 2006b) fala é expressão disto mesmo.
PADRÕES DE CIDADANIA POLÍTICA E CLASSE SOCIAL: ATIVISMO E ENVOLVIMENTO
Desenvolver-se-á neste capítulo uma abordagem à cidadania política que envolve
duas dimensões: ativismo e envolvimento. A conjugação destas permite
identificar padrões de cidadania de forma não linear e dicotómica e compreender
formas distintas de ação política.
A dimensão ativa, estudada através da participação política, corresponde a um
conjunto de práticas individuais e coletivas realizadas com o objetivo de
influenciar a ação de representantes políticos ou de instituições e
organizações económicas e culturais (Teorell, Torcall e Montero, 2007; Viegas e
Faria, 2007). Para medir este tipo de ação utiliza-se um indicador que tem como
objetivo identificar diferentes modalidades de ação política, nomeadamente
aqueles que não tem qualquer tipo de ação política (inativos), os que apenas
votam, e de seguida os que participam em outras atividades para além do voto.2
Ekman e Amnå (2012) propõem, ainda, que se deve também considerar uma dimensão
latente que permite aprofundar o significado que ganha o conjunto das práticas
de participação, tornando-se o conceito mais abrangente, indo além do mero
exercício de influência. Incluem-se aqui situações pré-políticas que
contextualizam a participação. Esta combinação permite observar de forma
complexa a cidadania e a sua relação com as instituições, principalmente quando
observadas pela perspetiva das desigualdades sociais. Para o desenvolvimento da
dimensão latente, a um nível operacional, utilizam-se tipologias já testadas
por outros autores e que permitem, de algum modo, cobrir os vários tópicos
descritos, nomeadamente as propostas para a mobilização (Dalton, 2007;
Inglehart, 1997) e para o envolvimento político (Martin e van Deth, 2007).
A mobilização combina identificação partidária e discussão regular de assuntos
políticos. Permite compreender diferentes tipos de relação com a política
dentro das modalidades definidas pelos autores, sendo que cada tipo pressupõe
formas distintas de identificação grupal, mobilização de recursos e
sofisticação política e, portanto, de inclusão. Consideram-se, então, 4 tipos:
(1) os apolíticos ' nas margens da política, com uma baixa sofisticação, não se
envolvem em partidos nem discutem política; (2) os apoiantes3 ' partido como
guia na ausência de mobilização cognitiva (isto é, discussão), seguindo
recorrentemente as suas indicações eleitorais e esclarecimentos na ausência de
recursos; (3) os apartidários ' politicamente independentes, possuem
competências para se orientarem sem indicação partidária, sem excluir um
envolvimento desse tipo, ainda que a sua ação extrapole essa esfera; (4)
mobilização partidária ' envolvimento forte com partidos, mantendo
independência e sofisticação política.
No que concerne ao envolvimento político, os autores definem-no como
correspondente à forma como os cidadãos se ligam à comunidade política. Pode
ser medido por três variáveis: importância da política, interesse na política
e exposição a informação política nos media. Na sua proposta combinam
importância e interesse numa tipologia, com as seguintes características4:
(1) decisionista ' baseado numa autoridade forte, com a esfera da decisão a ser
reservada às elites; (2) unitário ' baseado na ideia de um interesse comum da
comunidade política, em que os cidadãos estão envolvidos sem participarem; (3)
liberal-representativo ' acentua-se o modelo elitista e o caráter não político
dos cidadãos como no caso dos decisionistas, tendo estes o papel de
contrabalançar o poder das elites, por exemplo em associações enquanto atores
intermédios; (4) participativo ' enfatiza-se a importância da participação
extraeleitoral e dos cidadãos enquanto atores influentes dos processos de
decisão.
Quanto aos meios de comunicação, revelam-se essenciais como elemento de
discussão, informação e conhecimento das matérias políticas e, portanto,
enquanto espaço de confrontação de diferentes atores e ideais políticos,
importantes na constituição de uma sociedade aberta e democrática (Wolton,
1999). Assim, a informação é um aspeto essencial na dimensão latente da
cidadania, pois dá também conta da sofisticação da mesma, tornando-se um
indicador complementar à discussão. Foi operacionalizado através do somatório
do número de horas despendidos com TV, rádio e jornais.
Como é possível verificar no quadro_3, em termos de envolvimento político nos
países aqui em análise, destacam-se os decisionistas (45,5%), com expressão
mínima dos de tipo unitário (6,9%), isto é, cerca de 50% dos inquiridos não tem
interesse pela política. Quanto à exposição aos media políticos cerca de 25%
consome pelo menos uma hora de informação política diária. A mobilização tem
maior expressão nos de tipo partidário (36,6%) e nos apartidários (24,6%),
seguidos de perto pelos apolíticos (23,4%). Quanto à ação política, destacam-
se, na Europa, duas categorias: os indivíduos que apenas votam (25,7%) e, com o
valor mais alto, cerca de 36%, aqueles que têm uma ação política ligeira (uma a
duas práticas). Com uma prática mais intensa (3-12 ações) encontram-se cerca de
25%, sendo os inativos cerca de 13,2%.
Através de uma análise de correspondências múltiplas (Carvalho, 2008) é
possível verificar de imediato dois padrões claros no que se refere à
cidadania, quando se combinam estas duas dimensões num plano bidimensional
(figura_1).5 Há uma primeira contiguidade entre inativos, apolíticos,
decisionistas e baixo consumo de informação, em que o afastamento da política
por via do envolvimento se reproduz também na inação; uma segunda associação
tem em consideração a mobilização partidária, um modelo participativo, consumo
de informação e ação política intensos. Entre estes, apesar de não ser tão
claro, devido às proximidades entre si, pode-se, ainda assim, fazer uma
interpretação mais fina das mesmas. Deste modo, é relevante que o voto surja
tão perto dos unitários e dos apoiantes aproximando-se de uma forma de
envolvimento passiva que se traduz no voto. Outro padrão está patente na
associação entre liberais-representativos, apartidários e ação política ativa.
Nesta primeira discussão emergem duas dimensões em linha com o enquadramento
teórico realizado. Se o ativismo se subdivide em diferentes formas de atividade
e inatividade, o envolvimento distribui-se num continuum entre não
partidarização e partidarização. De um modo geral, emergem quatro configurações
distintas que permitem tipificar diferentes formas de cidadania, com as
seguintes características:
(1) Apolíticos excluídos: não participam e não se envolvem. Trata-se
da inação política, associada à exclusão e à autoexclusão social,
apoliticismo e preferência por um modelo decisionista no qual se
delega as decisões políticas.
(2) Votantes passivos: a sua ação política circunscreve-se ao voto e
o seu envolvimento restringe-se à simpatia partidária, sem discutirem
ou se interessarem por política. Trata-se do modelo de passividade em
que, apesar da ação via voto, se seguem as opções políticas
delineadas pelas elites políticas.
(3) Ativos apartidários: a sua participação (1 a 4 práticas) é
enquadrada por uma mobilização não partidarizada, mas com manifesto
interesse na política e consumo de informação. O caráter apartidário
e pluralista assenta na importância da sociedade civil (enquanto
atores intermédios).
(4) Ativos mobilizados: participam de uma forma ativa (5 a 12) e
acumulam vários fatores de envolvimento que enquadram a sua ação.
Expõem-se às fontes de informação de forma intensa. Este é o modelo
da participação e atividade, isto é, o contributo destes cidadãos vai
para além do voto, ao agirem recorrentemente para além das eleições e
ao tomarem parte nos processos políticos.
Estas diferentes formas de atuação correspondem a modos diferenciados de
relação com a esfera política, em que é possível identificar diferentes
competências políticas, correspondendo estas também a uma divisão do trabalho
político.
Verifique-se agora a distribuição desta tipologia consoante as regiões
europeias e as classes sociais, através do quadro_4. Em termos regionais,
excetuando o Sul, predominam os ativos apartidários. Porém, nos países de
Leste, ao contrário dos outros dois blocos, este resultado não é acompanhado de
altos níveis de politização e ativismo, mas antes de exclusão e passividade. No
Sul domina o modelo da passividade, sendo que entre esta região e o Leste, a
principal diferença prende-se com o número de passivos e apartidários. Portugal
tem valores semelhantes aos apresentados pelo Sul.
Em termos da distribuição por classe social, no quadro_4 verifica-se
imediatamente que o volume total de recursos tem um efeito positivo na forma
como se participa, em qualquer região da Europa, sendo que se os O, EE e TI são
aqueles que apresentam maior nível de exclusão ou passividade, os PTE e EDL
apresentam percentagens mais elevadas de atividade.
Reproduz-se, assim, um padrão por todas as regiões mas com diferentes impactos,
o que poderá ser importante numa análise dos sistemas representativos e da
abertura e oportunidades de participação que possibilitam aos cidadãos. Numa
análise por classe social, em termos gerais, nos diferentes blocos de países
são os PTE, seguidos dos EDL, aqueles que apresentam uma maior percentagem de
ativismo, quer este seja apartidário ou mobilizado. Em todos os blocos são
sempre os operários quem está entre os grupos de votantes passivos ou
apolíticos excluídos. Os trabalhadores independentes, na sua maioria, surgem
como votantes passivos.
Quanto aos padrões dos países nórdicos e do Centro, ainda que com diferentes
percentagens, os PTE e os EDL tendem a uma maior politização, enquanto as
restantes classes se centram no apartidarismo. Já no Leste e no Sul da Europa
há uma maior concentração nas atividades apartidárias por parte das classes com
maiores recursos e nas passivas ou da exclusão por parte daqueles que têm menos
recursos. Contudo, verificam-se diferenças entre estes dois blocos: (1) entre
TI, EE e O o padrão é semelhante apesar de diferenças mínimas em alguns
valores, nomeadamente o maior nível de passividade dos operários no sul; (2) é,
sobretudo, entre os PTE e EDL que as diferenças sobressaem, com os EDL a terem
um papel mais ativo no Leste e os PTE no Sul da Europa. No Sul, os EDL têm um
perfil de maior passividade enquanto os PTE registam maior níveis de ativismo
que os primeiros; já no Leste, são os EDL aqueles com maiores níveis de
ativismo.
Apesar de o padrão global de Portugal se encontrar próximo do padrão do Sul da
Europa, quando se analisa a distribuição por classes sociais destacam-se
diferenças importantes. O grau de ativismo mobilizado dos PTE é semelhante aos
restantes países do Sul da Europa, porém a distância entre estes e os EDL é
maior do que no bloco em que se inserem, assim como os níveis de ativos
apartidários é também ele superior. No entanto, os EDL estão presentes entre os
ativos apartidários e os passivos. Nas classes de menores recursos é,
sobretudo, entre os TI que se destaca um maior nível de exclusão. Em Portugal
acentua-se, então, um padrão característico nos países do Sul. Surgem, assim,
indícios de uma dualidade que foi anteriormente registada e que deverá dar
lugar a uma reflexão acerca das modalidades de cidadania política que se
registam em Portugal e da sua concentração em termos de classe, nomeadamente
naquela que é possuidora de títulos escolares e que têm sido ligadas a outras
formas sociais como o clientelismo e o familismo (Cabral, 2006a). Estes
resultados são também coincidentes com os que foram expostos por Silva e Vieira
(2011) e Nunes (2013), que identificam a dualidade existente na democracia
portuguesa no acesso à participação.
De uma forma geral, a tipologia aqui proposta permite verificar com maior
exatidão formas distintas de cidadania política, influência societal e
distância ao poder, quando desenvolvida de forma relacional, isto é, tendo em
consideração as condições sociais de existência no quadro da modernidade. Se se
tomar em consideração as propostas teóricas iniciais pode-se perscrutar, por
via dos tipos de cidadania política desenvolvidos, que é nos países de Leste e
do Sul, onde predominam formas de cidadania inativas e passivas, ou seja,
apesar da recente instauração da democracia, ainda está por concretizar uma
maior integração por via da participação das classes sociais com menores
recursos no centro político, contrariamente ao que sucede nos restantes blocos
de países.
PREDITORES DA CIDADANIA POLÍTICA NA EUROPA: PARA ALÉM DAS CLASSES SOCIAIS?
A análise anterior permitiu apurar de que forma os cidadãos se distribuem nos
diferentes grupos de países da Europa por classes sociais. Após esta primeira
análise pretende-se agora expandir o modelo inicial. Importa, no âmbito do
questionamento elaborado por vários autores acerca do fim das classes sociais
(Atkinson, 2010), testar a robustez da análise anteriormente efetuada face a
outros fatores no âmbito de uma análise exploratória que permita discernir e
identificar preditores alternativos da cidadania política.
Destacam-se, assim, na análise o papel das desigualdades de género. Será que o
mundo político continua a ser um exclusivo masculino? Ou, pelo contrário, as
desigualdades de género esbatem-se com tendências de modernização? (Torres e
Brites, 2009; Cabral, 1997). Dentro do quadro teórico das classes sociais
consideram-se ainda duas variáveis complementares: a escolaridade (capital
cultural) e o rendimento (capital económico). Outra variável importante remete
para o capital social, aqui medido por via da confiança interpessoal e
institucional. Este tem sido utilizado para explicar a participação (Cabral,
2004; Putnam, 2000), pois como destacam vários autores (Nunes, 2013; Herreros,
2009; Rosthein, 2009) a distribuição de igualdade de oportunidades favorece a
confiança, que regula a vida social e fomenta a participação política.
Adiciona-se também o fator idade.
Utiliza-se como variável dependente os objects scores da primeira dimensão da
análise de correspondências múltiplas realizada, enquanto variável quantitativa
que conjuga ativismo e envolvimento e corresponde a um índice de cidadania
política, passível de ser usado para outro tipo de operações estatísticas como
as regressões (Carvalho, 2008). Este índice varia entre -2,35 e 2,09 em que o
primeiro valor corresponde ao valor mínimo e o segundo ao valor máximo, ou
seja, refere-se a um continuum em que à medida que aumenta o seu valor aumenta
o nível conjunto de ativismo e envolvimento.
O quadro_5 permite efetuar uma primeira análise geral deste indicador, tendo em
conta as diversas regiões até agora analisadas. Repetem-se os padrões gerais
anteriormente encontrados, em que se destacam as classes de maiores recursos
(EDL e PTE) em todos os grupos de países em análise com um nível mais alto de
cidadania política. Existe um hiato entre os dois grupos, isto é, EDL e PTE
face aos TI, EE e O; porém, as distâncias entre os grupos tendem a aumentar
entre os diferentes blocos, isto é, existe uma maior distância entre classes
sociais como os PTE e EDL face aos grupos TI, EE e O nos países do Sul e do
Leste do que nos restantes blocos. Da mesma forma, observa-se que em todas as
classes sociais, o nível de cidadania política decresce entre os diversos
blocos. Note-se ainda que os níveis de cidadania política das classes sociais
com menores recursos na Escandinávia e Centro tende a ser semelhante aos dos
grupos de maiores recursos no Leste e no Sul da Europa. É ainda possível
identificar diferentes configurações entre os blocos, nomeadamente o maior peso
dos PTE no Sul quando em todas as outras zonas são os EDL quem possui um nível
mais elevado, ainda que as diferenças sejam mínimas, excetuando os países de
Leste.
Novamente, em Portugal sobressaem os padrões presentes no Sul, em que a
distância entre PTE e EDL é maior. Além desse aspeto, se nas diferentes zonas
são os O aqueles que têm um nível mais baixo de participação, em Portugal são
os TI. Os O e EE em Portugal têm um nível neste índice maior do que no Sul.
Quando se analisa a distância entre estes valores é na Europa do Sul que se
encontra a maior diferença entre classes sociais, sendo que em Portugal essa
diferença é ainda mais acentuada.
Pode-se aprofundar a análise efetuada anteriormente através de uma regressão
linear. Em termos gerais, na Europa, ainda que os valores sejam diferentes
entre blocos, como se viu anteriormente, pode-se afirmar que em termos
probabilísticos não existem diferenças entre blocos. No geral, tirando os
países de Leste em que predominam os EDL, são os PTE os que têm maior
probabilidade de participar face aos O. Em vários blocos de países não existem
diferenças significativas entre O, EE e TI e quando esta é significativa os
valores são baixos (o que acontece no Centro e Sul da Europa), ou seja, existe
uma divisão clara quanto à probabilidade de participar. Pode-se, assim, talvez
recuperar as propostas de Cabral (2006b) acerca da divisão entre operariado e
elites no que diz respeito à participação na Europa, já que este primeiro
modelo explicita de forma clara a divisão. Contudo, é importante perceber as
especificidades existentes entre diferentes classes sociais no que concerne aos
tipos de capitais predominantes, nomeadamente entre os EDL em que predomina o
capital económico e os PTE em que o capital cultural constitui a base do seu
posicionamento de classe e cujo modelo citado não diferencia.
Uma breve descrição das variáveis a incluir no modelo por blocos até agora
analisados mostra as diferenças existentes. O nível de escolaridade médio é
semelhante nos vários blocos, apesar de a Europa do Sul e Portugal apresentarem
valores mais baixos. A percentagem de indivíduos do sexo masculino tende a ser
semelhante entre os vários blocos, assim como a média das idades. A confiança
quer nas instituições políticas, quer sociais, é mais alta nos países
Escandinavos e baixa mais nos países de Leste. A variável que apresenta maior
disparidade entre os blocos é o rendimento.
Uma análise do quadro_8 mostra que em termos gerais o efeito das classes
sociais, enquanto categoria socioprofissional, se mantém ainda que diminua com
a introdução de novas variáveis. As variáveis com um impacto mais forte são a
escolaridade, seguindo-se geralmente a pertença aos PTE, ser homem, ou a idade.
Quanto às variáveis relativas à confiança têm também um papel relevante na
explicação da cidadania, ainda que tenda a diminuir entre os diversos blocos.
Na maioria dos blocos em análise o rendimento não suplanta em termos de impacto
as categorias de maiores recursos, isto é, os EDL e os PTE. Note-se, também,
que a confiança social, que tem especial relevo na criação de laços sociais que
conduzem à participação, é diminuta, ainda que positiva, ou mesmo negativa em
Portugal. Da mesma forma, a confiança nas instituições políticas é importante
na maioria dos blocos, mas com valores mais baixos do que nos restantes blocos
de países. A confiança nas instituições tende a ter um papel mais relevante nos
países escandinavos, do Centro e do Leste, aparecendo com menor preponderância
nos países do Sul e anglófonos.
Em Portugal, as variáveis com maior relevância são o número de anos de
escolaridade, ser homem, a idade e o rendimento. No que se refere ao indicador
de posicionamento aqui utilizado, nenhuma das variáveis mantem um efeito
significativo. Contudo, a escolaridade tem um valor mais acentuado face a
qualquer um dos blocos em análise. Este resultado vem demonstrar que são
aqueles que detêm capital cultural que detêm um índice de cidadania política
maior. A dualidade existente, e que foi atrás demonstrada, reforça este aspeto,
isto é, o capital cultural assume uma relevância particular em Portugal, aspeto
que traduz um efeito de classe social, tal como foi referido anteriormente.
CONCLUSÃO
Explorou-se neste texto de que forma Portugal se posiciona, no âmbito de uma
análise internacional, em termos da relação entre classes sociais e cidadania
política, com base num trajeto teórico que identificou questões relativas ao
fim das classes nas teorias da modernidade e levou em conta o contexto social
das classes em Portugal.
A partir de dados do European Social Survey de 2002 procurou-se responder a
estas questões por duas vias: (1) tipologia de cidadania política, a partir da
qual se procedeu à comparação da análise bivariada com as classes sociais; (2)
utilização do índice de cidadania política que permitiu realizar regressões e
testar outras variáveis.
Ao longo deste artigo demonstra-se que as classes são um elemento importante na
explicação da cidadania política, apesar da relação entre classes sociais e
cidadania política se afigurar mais complexa do que pensada inicialmente, pois
os posicionamentos sociais são-no sempre em contextos particulares. Uma divisão
fundamental emergiu entre países do Sul e do Leste em relação aos anglófonos,
da Escandinávia e do Centro da Europa. Nos países escandinavos, apesar das
diferenças existentes, a integração das classes com menores recursos não é
problemática, pois, em termos comparados, situam-se acima das classes com
maiores recursos das restantes zonas. Nos países do Centro e anglófonos, apesar
de algumas diferenças, o padrão é semelhante. O Leste e Sul Europeu encontram-
se numa situação análoga entre si, o que pode dever-se, em parte, à juventude
dos seus sistemas democráticos.
No que concerne à análise internacional de Portugal face aos restantes blocos
na Europa apontam para as seguintes tendências: (1) predominância dos
apolíticos excluídos e votantes passivos entre os lugares de classe com menores
recursos; entre os lugares de classe relacionados com o capital cultural (PTE)
encontram-se os ativistas mobilizados e ativos apartidários; (2) é a
escolaridade que continua a desempenhar um papel fulcral na explicação dos
fenómenos políticos em Portugal, neste caso da cidadania política.
Emerge, assim, uma dualidade que advém de processos gerais de mudança que
tendem a gerar dinâmicas contraditórias. No que à cidadania se refere, há que
ter em atenção que esta dualidade se sobrepõe e é causada por outras de raiz
económica e cultural, com impactos negativos na legitimidade dos governantes. É
importante perceber como esta relação está imbricada num sistema de dominação
que se tem reproduzido ao longo da história, em diversos regimes políticos
(Cabral, 2006a), sendo que esta se reflete nas formas de cidadania política com
impactos negativos entre os cidadãos de menores recursos gerando processos de
desafeição política e afastamento face ao poder político (Magalhães, 2005). A
integração no centro político por parte das classes subalternas em Portugal é
ainda deficiente e incompleta, em grande medida por causa do défice de recursos
educativos e materiais, mas também pela falta de abertura das instituições. Em
causa podem estar as dualidades de classe e os bloqueios que estas poderão
provocar: em vez de um ciclo virtuoso entre participação e integração, produz-
se um ciclo vicioso que mantém estruturas de poder associadas ao capital
escolar, em que um fechamento do Estado por parte de uma elite de poder
conduz, independentemente da forma que o Estado assume, a dependências
verticais que alimentam discursos e atitudes que afastam os cidadãos do poder,
apesar de dependerem dele. Ainda que Fishman (2011; Fishman e Lizardo, 2013)
demonstre como a natureza não hierárquica da revolução em Portugal levou a uma
maior abertura institucional, isso não significa, porém, que não se mantenham
dualidades pré-existentes.
Assim, a caracterização da modernidade inacabada deve ter em conta processos
e dinâmicas políticas, para além das de cariz social e económico. Ainda que
tenha havido um claro desenvolvimento nestas esferas, em Portugal, tal como em
outras dimensões da vida social, são os grupos de maiores recursos, sobretudo
aqueles que detêm escolaridade elevada, que se encontram próximos de padrões
europeus ao contrário das restantes classes sociais. A dualidade política
identificada corresponde a uma desigualdade na capacidade de influenciar as
instituições políticas. É nestes termos que a desigualdade política alimenta
desigualdades de outra natureza: o monopólio da participação e representação
restringe a influência das classes subalternas na condução dos assuntos
políticos.
Em trabalhos futuros a análise das classes sociais deveria incorporar uma
perspetiva e contextualização histórica e institucional que permita identificar
o complexo de relações sociais e a formação de grupos e o seu respetivo poder.
Com base nas características identificadas na Europa do Sul deveria
perspetivar-se uma análise histórica da transição para a democracia e a
preponderância das dualidades sociais na explicação nos processos democráticos
em cada um destes países.