O projeto matrimonial de Isabel Francisca Josefa de Bragança e Vítor Amadeu II
de Saboia (1675-1682): estratégias familiares e geopolítica
On verra que ce ne sont point les guerres qui depuis quatre cents ans ont fait
en Europe les grands changements; mais les mariages, les successions, les
traités, les Edits; enfin c'est par des dispositions civiles que l'Europe a
changé.
MONTESQUIEU, Réflexions sur la monarchie universelle en Europe.
Pouco tempo depois de ter chegado a Lisboa na condição de representante
diplomático da monarquia espanhola, o abade siciliano Giovanni Domenico
Maserati comunicou às autoridades de Madrid que tinha mantido uma conversa com
cinco indivíduos de aquella nobleza, na qual lhe tinham falado do miserable
estado de aquel reino [Portugal] por la falta de sucesor varón. Os
fidalgostinham-lhe também confessado o seu receio de que o trono, no qual se
tinha sentado o regente D. Pedro, pai de uma única filha fruto do seu casamento
com Maria Francisca de Saboia-Nemours, viesse a ser ocupado, através de um
casamento, por um príncipe controlado por França ou que, aún cuando les
quedase a los portugueses el arbitrio libre para dar marido a la infanta, a
herdeira fosse oferecida a outro candidato que impedisse um entendimento entre
os portugueses e a monarquia hispânica. De acordo com o que lhe explicaram,
repugnaba a toda razón política y de conveniencia el hacer peso a otro ningún
lado que no [fosse] Castilla. Apesar das muitas lisonjas que lhe foram
dirigidas, a esses comentários o abade Maserati procurou reagir com
indiferença, sin asentir, ni reprobar discurso, diciendo que la edad de los
príncipes pondría con la sucesión en paz estos dictámenes.2
Até essa data pouco se tinha discutido, nas cortes europeias, sobre o que iria
acontecer a Isabel Luísa Josefa de Bragança, a primogénita do príncipe
português que, em 1668, tinha ousado afastar o seu irmão do poder, mas que não
se tinha atrevido a assumir o título de rei de Portugal. A infanta, nomeada
princesa da Beira e jurada, nessa qualidade, herdeira do trono pelas Cortes
de 1674, era, efetivamente, bastante jovem. Do que não havia dúvidas, em
Madrid, era sobre o facto de que as autoridades de Lisboa jamais seriam tão
complacentes com os espanhóis como desejavam os nobres com quem falou Maserati
logo no começo da sua missão. A lógica protetora da regência de D. Pedro
convidava a manter alguma distância entre Portugal e a monarquia espanhola, e a
desconfiança que imperava em relação aos Áustrias proporcionava poucos pontos
de entendimento com os Habsburgo. De facto, a missão do abade Maserati começou
num ambiente crispado (Cardim, 2005; Martín Marcos, 2011, pp. 70-87). O seu
antecessor, o conde de Humanes, havia provocado uma profunda crise no momento
em que deu ouvidos e ' supostamente ' cobertura aos desafetos que tinham
tentado depor o regente e resgatar D. Afonso VI do seu cativeiro nos Açores,
arquipélago onde permaneceu até ser transferido para a vila de Sintra em
setembro de 1674.3 Por tudo isso, e num cenário de tensões acentuado pelo facto
de o povo de Madrid ter apedrejado a residência do conde de Gouveia (embaixador
português em Espanha), eram outras as apostas que, destinadas a consolidar a
independência lusa, estavam a ser equacionadas na corte de Lisboa.
Avisado pelos fidalgos de que a sombra de Paris poderia mesmo cobrir a
princesa, o próprio Maserati deu conta, no verão de 1676 ' ou seja, ano e meio
depois do referido encontro com os nobres ', de algumas diligências de Luís XIV
para casar o Delfim com Isabel Luísa. Maserati considerava que tal enlace era
negativo para os interesses espanhóis e, por isso, começou a movimentar-se
contra ele, sobretudo junto do marquês da Fronteira e do visconde de Ponte de
Lima, ambos conselheiros de Estado e sujetos interiormente poco afectos a la
Francia.4 Para além de expor as suas opiniões contrárias ao casamento com o
Delfim, garantiu que a monarquia espanhola não iria colocar qualquer obstáculo
no caso de a corte de Lisboa acabar por procurar candidatos nos menos
comprometedores ducados da Baviera ou da Toscana.5 Ou inclusive no Piemonte,
onde Vítor Amadeu II podia também ser uma hipótese a considerar, apesar de
estar destinado a governar um estado que era visto como uma espécie de satélite
de Luís XIV no norte de Itália.
Para que a opção piemontesa viesse a ser a escolhida seria suficiente que os
equilíbrios no seio das elites lisboetas não fossem muito alterados. Foi assim
que teve início uma longa negociação que se sabia que só poderia ser bem-
sucedida desde que proporcionasse continuidade à família real de Lisboa. Maria
Francisca, a esposa de D. Pedro e anteriormente mulher do rei D. Afonso VI,
tinha exercido um papel fundamental na ascensão ao trono do agora regente.
Apesar de ter nascido em Paris, era parte integrante de um ramo secundário dos
Saboia (Oresko, 2006) e o estreitar de laços com o ducado italiano, em prol de
objetivos familiares, não deixava de ser observado com naturalidade.
Aparentemente, a opção por Saboia pouco mudava na rivalidade hispano-francesa.
Constituía uma espécie de empate nas aspirações dos contendentes, pois atraía
os Bragança até aos interesses da família Saboia-Nemours. À medida que o
projeto foi tomando forma, os representantes de Paris e de Madrid acabaram por
abraçar a discrição. Na instrução ao embaixador José de Haro, mandado para
Portugal depois de a morte ter surpreendido Maserati em Lisboa, corria o ano de
1681, recomendava-se que o diplomata se deveria comportar oyendo a todos y
participando lo que llegue. Mas devia fazê-lo sempre pasivamente.6
Esta ordem, numa data tão tardia, parece indicar que, pelo menos os espanhóis,
ignoravam a estratégia de longo alcance que, a partir do casamento de Isabel
Luísa, estava a ser desenvolvida tanto pela regente portuguesa, quanto pela sua
irmã Maria Joana Baptista ' a chamada Madama Reale, mãe de Vítor Amadeu e,
naquela altura, regente do ducado piemontês ' tendo em vista algum dia chegar a
colocar o eixo Lisboa-Turim no seio do debate sucessório de Espanha. Nissun
principe dell'Europa poteva apportare al Portogallo vantaggi et raggioni che vi
apportarà S.A.R. [o duque] per essere egli chiamato alla successione di
Spagna, disseram à regente Maria Francisca os enviados saboianos a Portugal.7
Era um plano ambicioso mas que, por se tratar de um acordo privado, tinha
passado despercebido. No entanto, quando foi descoberto, em vez de convidar à
inação, não só despertou o alarme em Madrid, como chegou mesmo a pôr em causa a
suposta tutela de Paris. No fim de contas, Portugal, no decorrer da chamada
Restauração e durante a etapa imediatamente posterior à paz com Espanha, foi
considerado como mais um cenário da rivalidade generalizada entre os Áustrias e
os Bourbons, e, para os observadores contemporâneos, a ideia de que os
portugueses chegariam a ter um papel ativo nas relações internacionais daquele
período era pouco mais do que uma quimera.
Pouca gente pensava nessa possibilidade, sendo de certo modo compreensível que
nem Maserati, nem Haro, tivessem concedido uma grande importância à opção
saboiana. Com algumas exceções (Didier, 1999), para a geração a que pertenciam
estes homens a ideia de reintegrar Portugal na monarquia hispânica tinha sido a
possibilidade colocada com mais frequência. Sendo uma conceção unidirecional,
a escolha tinha gerado um relato parcial das relações hispano-portuguesas; sem
atenção a detalhes menores, a historiografia assumiria este relato quase sem
contestação, mostrando reduzido interesse por este projeto matrimonial
(Macedo, 2006 [1987], pp. 249-255; Disney, 2009, p. 235). E tal aconteceu
apesar de, pouco antes da morte de Carlos II, D. Pedro, já como rei de
Portugal, ter chegado a reclamar os seus direitos ao trono espanhol (embora os
seus pedidos tenham acabado por ser considerados anedóticos ou, até, como uma
mera forma de obter alguma compensação territorial). Uma coisa é certa: de
então para cá a historiografia sempre encarou este tema como um episódio de
alcance diminuto e contraposto à versão oficial. Muito menos conhecidos são os
desígnios de Turim e de Lisboa a propósito de uma princesa e de uma aliança que
acabou por ficar truncada (Romano, 1993, p. 134).
PRETENDIDA OU PRETENDENTE?
Isabel Luísa Josefa de Bragança nasceu em Lisboa a 6 de janeiro de 1669.
Exatamente um ano e um dia depois da assinatura, em Madrid, do tratado que,
ratificado na capital lusa a 13 de fevereiro de 1668, tinha posto fim à guerra
e sancionado o reconhecimento espanhol da independência de Portugal. De
qualquer modo, foi só no final de março que o conde de Miranda, embaixador do
príncipe D. Pedro na corte de Madrid, transmitiu a notícia do nascimento à
regente Mariana de Áustria. A alegria que exteriorizou nessa ocasião, vestido
com uma bela libré da qual pendiam quarenta galões de ouro, foi ensombrada ' de
acordo com o relato de um contemporâneo ' pela morte, em Lisboa, de uma irmã do
conde.8 Mas tal não impediu que demostrasse, ante o olhar dos curiosos, que as
novas que chegavam de Lisboa não podiam ser mais positivas para o destino de
Portugal.
Depois das atribulações da época de D. Afonso VI, a filha de D. Pedro e de
Maria Francisca assegurava a sobrevivência da dinastia lusa. Isabel Luísa
Josefa foi aclamada com entusiasmo, em Lisboa, na manhã do Dia de Reis, durante
a qual o repicar dos sinos fez correr a boa nova. O padre António Vieira, num
sermão pregado na catedral lisboeta e destinado a celebrar a ocasião, saudou o
nascimento como a melhor prenda que Portugal poderia ter recebido do céu, ao
mesmo tempo que recordou a aziaga morte de D. Sebastião em Alcácer Quibir,
afirmando que este rei, se tivesse deixado sucessor, teria perdido a vida mas
não o reino. No entender de Vieira, era aí que radicava a importância da
notícia por ele enaltecida na Sé de Lisboa. No passado, Portugal tinha perdido
o seu império e a sua soberania no momento em que Deus lhe tinha dado um rei
sem herdeiro. O facto de, naquele momento, a coroa portuguesa receber a
infanta, testemunhava o ponto altíssimo [ ] em que se via Portugal e o seu
Príncipe (1669, p. 11). O poeta e compositor António Marques Lésbio foi outro
dos que celebrou o nascimento da infanta, garantindo que com esse feliz
acontecimento en decorosa paz [com] Marte ufano se confirmava a sucesión
feliz (Lesbio, 1669, pp. 8-10).
Importa no entanto ter em conta que nem todos se reviam na opinião do padre
Vieira. O facto de ser uma mulher a ocupar o primeiro lugar na linha sucessória
do trono de Portugal acarretava inconvenientes e, ao mesmo tempo que se
escutavam gritos de alegria, algumas vozes provocavam apreensão em Lisboa, ao
difundirem o rumor de que o embaixador espanhol Charles de Wattevile tinha
celebrado o nascimento da infanta e antevisto um casamento desta com Carlos II,
enlace que uniria de novo os dois reinos ibéricos (Dória, 1944, p. 287). De
qualquer modo, tratava-se de uma empresa complicada, tendo em conta o passado
mais recente da política ibérica. No entanto, e ao mesmo tempo, tal hipótese
deixava antever que a princesa, dentro em pouco, se iria converter num foco de
atenção das cortes europeias, dando origem a um problema de difícil resolução,
em especial porque, pelo menos durante as duas décadas seguintes, D. Pedro
procurou reiteradamente salvaguardar a sobrevivência de um Portugal
independente e alheio aos conflitos europeus.
De qualquer modo, não foi Watteville quem alimentou esses rumores. Falecido a
19 de setembro de 1670, os boatos que então surgiram, tirando partido da
aversão que muitos nutriam pela monarquia dos Áustrias, circularam sem que a
delegação espanhola os pudesse controlar, ao mesmo tempo que se ia confirmando
que o casal real não iria ser capaz de engendrar mais filhos (Braga e Braga,
2011, pp. 85-87). Logo no começo de 1672 constou que o conde de Humanes, o novo
representante espanhol, vinha propôr o cazamento de El Rey de Castella com a
senhora Infanta (Faria, 2007, pp. 343-345). Lançou-se a ideia de que a corte
de Madrid olhava para a princesa como uma via para se aproximar do reino
português. Para além disso, dizia-se também que as autoridades de Madrid tinham
a intenção de, tão depressa quanto possível, apresentar o monarca Habsburgo
como pretendente de Isabel Luísa, e que talvez se servissem da tenra idade dos
dois príncipes para calarem os críticos. De algum modo, era como se o atavismo
de Carlos ocultasse o poderio hispânico frente a Portugal. Todavia, tal
pretensão não chegou a concretizar-se com a rapidez que seria de esperar e o
primeiro cenário de casamento que se ponderou, na corte de Lisboa, e entre
discretas alusões à Casa de Neoburgo e a príncipes franceses, foi um enlace com
um filho de Fernando Maria, duque da Baviera.
Para tanto contribuíram as tensões provocadas pelo próprio Humanes e,
sobretudo, a certeza de que o enlace com Carlos II, comparado com outro tipo de
alianças, seria visto, em Lisboa, como o fim da independência do Portugal dos
Bragança. A candidatura bávara chegou mesmo a prosperar, sobretudo depois de se
saber que o duque apresentava o seu filho mais novo, e não o primogénito, para
desposar Isabel Luísa.9 Tal é referido pela própria Maria Francisca, numa
carta à sua irmã. E o facto de esta referência ter sido feita no verão de 1673
é, do nosso ponto de vista, bastante significativo, pois revela uma manobra de
reagrupamento dos Saboia-Nemours. Trata-se de uma manobra que remonta ao tempo
em que a regente deu à luz a sua filha em Lisboa. No fundo, e ainda que a
primeira menção explícita a um casamento luso-saboiano, na correspondência
entre ambas as irmãs, date de março de 1675 (Osborne, 2012, p. 211), nada
impede de se pensar que o assunto terá marcado presença, desde 1673, nos
projetos das duas irmãs saboianas.
Não é um acaso que, num primeiro momento, o canal de comunicação utilizado para
tratar deste assunto tenha sido o fraternal. Como também não é uma casualidade
que o cariz privado deste canal tenha permitido dar forma às intenções de Maria
Francisca, numa altura em que o governo português ainda nem sequer tinha
avaliado as consequências de uma aliança com Turim, e num momento em que o
padre Vieira continuava a explorar a via florentina para conquistar um marido
para a infanta (Vieira, 1928, p. 304). Numa estrutura mínima, circunspecta e
etérea, que ligava os Alpes e o Tejo, Maria Francisca, secundada pela sua irmã,
traçava as linhas mestras de uma política que só alguns anos mais tarde seria
dada a conhecer pelos representantes saboianos. Quando o assunto veio a
público, foi apresentado como uma mera aspiração do ducado, à qual deveria
corresponder o governo de Lisboa. Assim se percebe por que é que, em Madrid, em
1677, alguns dignitários deram por concluído um projeto de casamento entre a
infanta e Carlos II con molte circonstanze improbabili & inverosimili, ao
mesmo tempo que o conde Girolamo Marcello De Gubernatis, diplomata saboiano,
se ufanava do quão desencaminhadas estavam essas bravatas. Io vorrei vederlo
stabilito con S.A.R. [o duque], [ ] che li Spagnoli [ ] restarebbero ben
chiariti nel vedere che in mano di Savoia fossero le chiavi d'Italia e della
Spagna, diria então o representante da corte de Turim.10
Havia motivos para ter optimismo e, alguns meses mais tarde, o abade Giacomo
Spinelli, recém-chegado a Portugal para liderar a embaixada do ducado de
Saboia, incluiu o próprio D. Pedro entre os partidários do projeto de casamento
entre Turim e Lisboa. Segundo se depreende das cartas do abade, as reuniões
secretas mantidas com a princesa Maria Francisca, com o seu confessor, o padre
de Ville, e, por mediação de ambos, com o príncipe, logo no começo de 1678,
estavam a dar os seus frutos, ao ponto de, naquele momento, o governo luso ter
manifestado o desejo de, quanto antes, comunicar a Luís XIV, por via oficial,
os seus planos.11 De acordo com o abade, na corte de Lisboa esperava-se que a
França concordasse com a proposta, pois sempre se opusera quer a um matrimónio
entre a infanta e Carlos II, quer a qualquer acordo entre Espanha e Portugal.
Tendo em conta a conjuntura em que a França se encontrava, ainda em guerra com
os Áustrias e com os seus aliados holandeses, esperava-se que a anuência
gaulesa fosse fácil de alcançar. O que de tudo isto há a realçar é a capacidade
da dupla Maria Francisca/Maria Joana Baptista de Saboia-Nemours para inserir a
sua estratégia familiar no centro dos circuitos internacionais.
Visto em perspetiva, o mérito deste par de irmãs era duplo. Por um lado, e como
reconheciam os protagonistas do processo, a opção que defendiam para esposo da
princesa Isabel Luísa impunha-se a qualquer outra e tinha a vantagem de excluir
os outros estados italianos que procuravam uma aliança com Portugal. As irmãs
faziam assim gorar as diligências do duque de Parma, o qual, pouco tempo
depois, faria chegar a Lisboa um pedido para que fosse o seu filho Eduardo a
desposar a infanta portuguesa, por ser linha direita do Real Sangue da Caza de
Bragança.12 Além de Parma, as duas irmãs saboianas derrotavam, também, a corte
de Florença, o que era ainda mais significativo. A rivalidade entre os Saboia e
os Médicis pela supremacia em Itália remontava aos tempos em que Cosme I da
Toscana tinha obtido do papa Pio V o título de grão-duque e, desde então, as
disputas de precedência entre saboianos e toscanos estavam a converter-se numa
espécie de corrida até à coroa real (Bianchi, 2007, pp. 153-154). A
possibilidade de casamento com Isabel Luísa de Portugal representava, para
Turim, um passo em frente nessa corrida. Por outro lado, o enlace adquiria um
valor especial em Portugal porque a esposa de D. Pedro tinha superado todos
aqueles que tinham defendido outros partidos e que, a partir daquele momento,
se resignavam com a opção saboiana. Cada um dos pretendentes tinha, em Lisboa,
um defensor, e esta circunstância torna ainda mais claro o ascendente de Maria
Francisca numa corte muito dividida por rivalidades. Aliás, e na opinião do
padre de Ville, se a infanta tivesse de contrair matrimónio com um natural de
Portugal, os portugueses ter-se-iam digladiado até à morte.13
Entendida em termos literais, a metáfora do confessor da regente é muito
reveladora, e o facto de que não tivesse havido mortes nem tivessem surgido
pretendentes mostra que as elites lusas encararam a opção saboiana com
condescendência. Optar por um português teria sido ir contra uma questão
absolutamente estratégica para o Portugal Restaurado, a saber, a visibilidade
dos Bragança na Europa, já que condenaria a dinastia a um isolamento que iria
muito para além do calculado distanciamento que D. Pedro sempre procurou manter
face a França e à monarquia hispânica. Ainda que seja impossível saber o que os
saboianos pensavam sobre este assunto, não há dúvida de que alguns nobres
portugueses podiam ter interesse em obstaculizar o negócio, por nutrirem
esperanças de virem a suceder ao regente, caso o ramo pedrista da casa de
Bragança acabasse por se extinguir. Spinelli chegou a pensar que poderia ser
esse o caso do duque de Cadaval (Antunes, 1997), um dos homens fortes do
príncipe. Desconcertante nos seus movimentos, tão depressa entusiasta com o
negócio de Turim como reticente em relação ao mesmo, o duque de Cadaval talvez
fosse uma personalidade a ter em conta como candidato ao trono, e o abade
Spinelli e os seus superiores só abandonaram esta ideia depois de comprovarem,
num documento genealógico, que as possibilidades sucessórias do duque eram, de
facto, remotas.14
O acordo nupcial teria de ser fechado. O facto de Maria Francisca ter
conseguido fazer com que a sua opção fosse a única aceite na corte, exceptuando
o breve interlúdio bávaro, mostra bem que tal princesa era uma digna
representante da categoria das rainhas consortes da Europa Moderna, para as
quais tanto o capital dinástico, quanto o poder formal e informal desempenhavam
um papel fundamental (Campbell Orr, 2004, pp. 1-15). De facto, no momento em
que o projeto foi conhecido (por um descuido de De Gubernatis em Madrid), a
diplomacia florentina não tardou a remeter ao seu cônsul em Lisboa a informação
de que o enlace estava já praticamente concluído.15 Por esse motivo, não se
registou uma significativa oposição desde o exterior e, uma vez que França via
com bons olhos o acordo, foi possível consumar o triunfo da regente.
Claude de Guénégaud, o representante de Luís XIV em Portugal, foi o grande
responsável pelo facto de o desenlace desta negociação ter sido de acordo com o
desejo da regente Maria Francisca. Através de uma sólida instrução, o seu
soberano instava Guénégaud a fazer ver aos ministros lusos o grande prejuízo
que lhes provocava a paz com Espanha e a recordar-lhes a conjura que se fez
contra o Príncipe [D. Pedro].16 Assim, Guénégaud apresentou-se ante os
Bragança com a intenção de se opor a qualquer avanço do partido espanhol. Pouco
depois de chegar a Lisboa, apercebeu-se de que os interesses anti-Habsburgo de
Paris e os de Maria Francisca eram convergentes. Em vários momentos escutou as
reservas desta ante as aparentemente recorrentes pretensões de Madrid para
fazer de Carlos II o marido da sua filha. Guénégaud estava incumbido de a
sossegar e de lhe transmitir o total apoio de Paris ao seu projeto saboiano
(Guénégaud, 1901, pp. 39-40). A pressão francesa tornou-se tão forte que, com o
pano de fundo da assinatura do tratado de Nimega em setembro de 1678, o governo
de Madrid acabaria mesmo por aceitar a francesa Maria Luísa de Orleães como
esposa do soberano espanhol, numa manobra que ia muito para além da questão
portuguesa.
O tranquilizador testemunho de Guénégaud, mais tarde plasmado nas suas
memórias, transmitia a complacência francesa face à opção matrimonial de
Saboia. Era isso, exatamente, o que a regente procurava, e tal acabaria por ser
suficiente para que, por fim, Spinelli pudesse passar a negociar os pormenores
do que haveria de ser o tratado matrimonial. A despeito das modificações que
teriam ainda de ser efetuadas em Turim e em Lisboa, o abade assegurou, no
começo de maio de 1679, que a proposta que iria apresentar pessoalmente a
Madama Reale se encontrava num estado adiantado, à espera da ratificação
portuguesa.17 Implicado no desenvolvimento de uma aposta que poderia ter
consequências muito positivas para Saboia, poucos meses depois Spinelli
atravessou a Península Ibérica rumo a Itália, altura em que pôde confirmar o
distanciamento da corte madrilena em relação ao casamento. Mais tarde, e quando
regressou a Portugal, transmitiu ao padre de Ville o desejo dos seus superiores
de que o príncipe regente acelerasse a convocatória dos Três Estados. Nessa
altura já se falava de uma ampliação do lisboeta Paço da Ribeira para receber o
duque saboiano.18 Porém, estava ainda por concretizar a revogação das atas das
Cortes de Lamego, uma (apócrifa) disposição jurídica que, supostamente desde o
século XII, excluía os estrangeiros do trono, inclusive se contraíssem
matrimónio com uma mulher chamada à realeza de Portugal (Torgal, 1981, pp. 231-
233). Como é evidente, era indispensável revogar as ditas atas para que esta
norma não impedisse Vítor Amadeu de desposar a infanta portuguesa.19
Entretanto, as dúvidas em relação ao casamento com Saboia persistiam e, em
julho desse ano, amanheceram à porta da Capela Real de Lisboa uns versos nos
quais se podia ler: Saboia/falar-me em casamento/isso é falar ao vento (
[Paixão], 1938, pp. 70-73).
Claro que autorizar os não-naturais do reino a ocupar o trono teria sido
impensável alguns anos antes. Contudo, nesse momento, tal era visto como um
passo indispensável. Fundamental para que a dinastia dos Bragança, com o futuro
da coroa pendente da infanta Isabel Luísa, garantisse a sua continuidade, razão
pela qual a assembleia de Cortes de Portugal seria acompanhada com especial
atenção pelas autoridades de Turim, as quais, para a ocasião, ordenaram ao
conde De Gubernatis a sua imediata passagem de Madrid para Lisboa. De
Gubernatis foi incumbido de acompanhar o processo, uma vez que Spinelli
estabelecera que o corolário da sua missão seria D. Pedro dar, no mês de
outubro, a sua anuência ao enlace.20 Naquele momento o objetivo do conde De
Gubernatis era velar pelo entendimento que o seu antecessor havia alcançado em
Lisboa, mas também demostrar, com a sua chegada à cidade na véspera da abertura
das Cortes, a importância que Saboia concedia a esse evento político, ao ponto
de ter conferido à sua embaixada um caráter extraordinário. O júbilo imperava
e, a 22 de novembro, na cerimónia inaugural da reunião dos Três Estados, a
coroa mandou anunciar que, no futuro li portoghesi e li savoiardi
governarebero unitamente come fratelli.21 A 11 de dezembro, depois de vários
dias de negociações paralelas para ajustar os termos da declaração com que se
iria aprovar o casamento, as Cortes aprovaram, com caráter extraordinário, a
derrogação da lei que até esse momento tinha vedado, a estrangeiros, a sucessão
no trono português.
Após os lastimosos exemplos de Fernando I e D. Sebastião, ambos mortos sem
filhos varões e últimos elos das dinastias de, respetivamente, Borgonha e Avis,
os participantes nas Cortes tiveram em conta a particular conjuntura em que se
encontrava o príncipe, pai de uma única filha. Depois de terem avaliado o
ajustamento para o matrimónio entre a infanta e Vítor Amadeu, e entendido que a
proibição estabelecida em Lamego de caxarem as filhas erdeira e succesoras
fora do Reino parecia não compreender o caso presente ' podia ler-se no
documento ', aprovavam a derrogação porque não convem falte a mais exubirante
cautela.22 Tudo estava pronto para o enlace, apesar de, nos dias subsequentes,
De Gubernatis ter lamentado o facto de a revogação das leis de Lamego não ter
sido definitiva. De facto, a decisão tomada em Cortes comportava uma
excecionalidade que o incomodava. Porém, e na realidade, foi suficiente para
limitar, no futuro, a intervenção dos Três Estados nos negócios sucessórios
(Cardim, 1998, p. 114). A aliança estava, assim, assegurada. Como sinal de
concórdia e dando resposta a uma pretensão ainda mais ambiciosa das autoridades
de Saboia, D. Pedro permitia inclusive que um navio com o pavilhão de Saboia
pudesse realizar cinco viagens ao Brasil depois que a S.A.R. meu bom irmão
entrar nesta Corte.23
SOBRE UM PROJETO POSSÍVEL
Ninguém poderia imaginar, na corte de Lisboa que, a 23 de janeiro de 1681,
recebeu o marquês de Dronero (encarregado de pedir a mão da infanta em nome de
Vítor Amadeu II), que o casamento acabaria por não ter lugar. Apesar de D.
Pedro ter uma vez mais surpreendido a corte com uma ausência em Salvaterra, o
diplomata saboiano foi recebido, com honras e a bordo de um bergantim, pelo
conde da Ericeira. Os canhões dos fortes lançaram grandes salvas e os sinos das
igrejas repicaram de alegria. O Tejo encheu-se de um grande número de
embarcações que acompanharam os dois dignitários e, já em terra, vários coches
conduziram o marquês de Dronero à residência do conde De Gubernatis. Cinco dias
mais tarde, com o príncipe D. Pedro já de volta a Lisboa, a primeira audiência
ante o regente não foi menos majestosa. V'erano carrozze di Monsig.re Nuntio,
de' Grandi e di quasi tutti i Fidalghi. Dall'entrare della gran Piazza insino
al Palazzo stava l'Infanteria co' suoi officiali sotto le armi e bandiere e al
suono de' tamburi, escreveria o marquês.24
No entanto, aqueles que, a partir do começo do século XVIII, estudaram a
história deste projeto matrimonial, transmitem a impressão de que, desde a sua
origem, o projeto estava condenado ao fracasso. Como se recordou recentemente
(Osborne, 2012, pp. 213-216), John Colbatch, o capelão inglês que publicou, em
1700, uma descrição da corte portuguesa, assinalou uma série de circunstâncias
que justificavam o desacordo entre Lisboa e Turim. Por exemplo, que a Madama
Reale, apesar de ter promovido o matrimónio para se perpetuar no poder, tinha
chegado à conclusão de que, sem o seu filho, a sua sobrevivência política iria
depender, em demasia, da França. Ou que, em parte como forma de oposição a
Paris, Vítor Amadeu II ' que chegou a ser enaltecido pela historiografia
risorgimentale e considerado um bastião da liberdade italiana (Carutti, 1863;
Claretta, 1865) ' teria sido alçado ao poder pela nobreza a fim de se garantir,
com a sua presença no ducado, a independência de Saboia e do Piemonte. Mas não
é menos certo que o próprio Colbatch foi o primeiro a reconhecer que, apesar
das controvérsias, naquele momento ninguém duvidou de que o enlace se
celebraria e que, pelo menos em Lisboa, a fidalguia estava encantada com o
acordo com Saboia ([Colbatch], 1700, pp. 133-134). No entanto, e apesar de
extasiados com a receção com que foram brindados em Lisboa, os embaixadores
saboianos tinham outra opinião, facto que coloca em dúvida a versão dos
acontecimentos proporcionada pelo memorialista Tristão da Cunha de Ataíde,
conde de Povolide, o qual dá conta de um apedrejamento sofrido pela carruagem
de Dronero (altercado que, ao que parece, não chegou a ter lugar) (Ataíde,
1990, p. 119).
De acordo com as informações do marquês de Dronero, Vítor Amadeu II não só fez
difundir em Portugal, através do enviado saboiano, a escritura na qual
ratificava os acordos matrimoniais, como terá mesmo anunciado que se iria mudar
para a cidade do Tejo no verão de 1682.25 Era isso, precisamente, o que
desejavam as autoridades portuguesas. A data da sua chegada foi-se aproximando
e as autoridades lusas, em impaciente espera, aguardavam-no com toda a boa
vontade. Tal e como se tinha descrito, um ano antes, numa relação portuguesa
elaborada de propósito para o futuro marido da infanta, eram muitas as
distrações que se podiam encontrar na cidade e nos seus arredores. O rio,
alegre e pacífico na primavera, recebia, nos meses de verão, uma grande
quantidade de aves e de peixes, podendo servir de grande entretenimento para
os curiosos da caça e da pesca. Nas suas margens encontravam-se Alcântara e
Belém, abundantes em perdizes, lebres, coelhos e gamos; e não muito mais longe,
o monte Ártabo ou da Lua, a que os marítimos chamão Roca, e os Naturais a
Serra de Sintra, região que também proporcionava bastantes atrativos, com o
seu palácio e os seus coutos repletos de numerosíssimas espécies, menos a de
Javalis, especificava o escrito. Também a serra da Arrábida, a sul do Tejo,
convidava ao prazer com variadas distrações junto do rio Sado. O mesmo
acontecia com as reais residências de campo de Almeirim e de Salvaterra e, já
perto da fonteira com Castela, aquelle mais celebre [lugar] da Serenissima
Casa de Bragança, como era o Palácio de Vila Viçosa. Aí sim, dizia-se, os
javalis eram ferozes e os veados e os gamos, abundantíssimos.26
A réplica saboiana, mais sisuda do que essa espécie de guia turístico de Lisboa
e arredores, surgiu no Compendio genealógico da Real Casa de Saboya, com hvm
appendix, em que se dà succinta noticia dos Estados, Rendas, Forças, &
Titulos, que tem esta Augustissima Casa(De Gubernatis, 1682). Obra de Marcello
De Gubernatis e traduzida do italiano para o português, em 1682, por Matteo
Bosio, seu secretário, este relatório parece querer dar destaque às grandezas
da dinastia saboiana e dos seus estados. A primeira rainha de Portugal,
recordava o conde na dedicatória que dirigiu a Maria Francisca, tinha sido a
então condessa Mafalda de Saboia, e a infanta Beatriz, filha de D. Manuel I,
tinha contraído matrimónio com o duque Carlos II em 1521. As relações entre
Portugal e a Saboia eram, pois, uma longa história que remontava à Idade Média,
história essa que tinha proporcionado vários acordos de grande importância.
Porém, o objetivo do Compendio não era tanto contar essa história, mas sim
frisar a dignidade do ducado de Saboia. Em relação à estratégia da dinastia na
sua corrida em direção à realeza, o Compendio proporcionava um detalhado estudo
sobre os antepassados do duque Vítor Amadeu II, os quais vinculava a Otão I (De
Gubernatis, 1682, p. 3). Tal ilustra a persistente necessidade dos Saboia de
recorrer à genealogia para dignificar o ducado, mas revela, também, um certo
complexo de inferioridade ante uma verdadeira casa real como era a de Portugal.
Porque os títulos dos reis portugueses eram extensos, a relação dos estados dos
duques de Saboia, na lista elaborada por De Gubernatis, foi apresentada como
algo que não era de desprezar: eram titulares de cinco ducados, de três
principados, de quatro grandes marquesados, de seis condados, de treze cidades
episcopais e de outras cem vilas amuralhadas e, ainda, nos contornos de Turim
varias Quintas, & Casas de prazer, abundantes de todo género de
divertimentos (De Gubernatis, 1682, pp. 32-35). Além disso, concluía o conde,
e como se não bastasse, cada ano o duque de Saboia recebia só em rendas hum
Milhão de ouro, que são de Patacas, & tres de Cruzados de Portugal (De
Gubernatis, 1682, p. 38). O que mais poderiam desejar os príncipes de Portugal
e de Saboia nesta união entre os seus Estados?
Nada, muitos devem ter pensado em Lisboa, sobretudo depois de 27 de março de
1681, data em que Dronero e Cadaval selaram os esponsais. O duque de Cadaval,
representando D. Pedro, conferiu a maior solenidade ao ato. Aos olhos dos
estrangeiros, era ele quem comandava o governo, alcançando sempre o favor do
príncipe e da sua esposa.27 O duque de Cadaval acabou por ser o escolhido para
conduzir os navios reais até ao porto de Nice e para trazer Vítor Amadeu II até
Portugal, facto que garantia, de algum modo, que aquilo que tinha sido
negociado estava bem encaminhado.
Completado o processo a 1 de outubro de 1681, com a ratificação do próprio D.
Pedro, tudo parecia preparado. Apenas uns escassos meses separavam o duque de
Saboia do seu novo destino e, nessa ocasião, o conde Marcello De Gubernatis
refletiu sobre o cenário que o seu senhor iria encontrar em Lisboa. Preocupava-
o, antes de mais, a oposição que alguns mercadores portugueses tinham movido
contra as tentativas dos saboianos para estabelecerem uma companhia de comércio
autorizada a operar no Brasil. Não há dúvida de que, do ponto de vista dos
interesses de Turim, esse era um dos pontos fortes do acordo. Porém, De
Gubernatis estava sobretudo contrariado com a manipulação que se fazia da
doutrina católica para evitar mudanças que, na sua opinião, poderiam ser de
grande utilidade pública: Non haverebbe certamente questo Regno da invidiare
ad alcuna Potenza nell'Europa se si sradicasse questa zizania alimentata da un
supposto zelo di Religione, defendia o conde, ao mesmo tempo que sublinhava
que os cristãos-novos portugueses se tinham mostrado interessados em ir para os
estados do duque a fim de evitarem as perseguições da Inquisição.28 Não tinha
passado muito tempo desde que o roubo de uma imagem sagrada da igreja matriz de
Odivelas tinha provocado um surto de anti-semitismo em Lisboa. A lembrança
desse sacrilégio estava ainda muito presente (Azevedo, 1921, pp. 289-330) e não
era de excluir que os tumultos regressassem, ensombrando a estadia do duque.
Por isso, talvez não fosse má a ideia de oferecer um refúgio próximo dos Alpes
a uma comunidade com um potencial económico tão elevado, composta por numerosos
homens de negócio. De Gubernatis parece estar convencido de que o futuro do
reino passaria por esses cristãos-novos, e não pelos nobres que se preparavam
para ir ao encontro de Vítor Amadeu II no estuário do Tejo.
Na frota que, na primavera de 1682, partiu de Lisboa rumo ao porto de
Villefranche ' porta de entrada para a cidade de Nice ', a lista de passageiros
ilustres era extensíssima. Entre os perto de quarenta nobres que acompanhavam o
duque de Cadaval encontravam-se o visconde de Fonte Arcada, o conde de São
Vicente, o marquês da Fronteira ou o próprio Tristão da Cunha de Ataíde, o qual
relataria a viagem nas suas memórias, onde faz também referência à ameaça de
uma altercação que terá ocorrido, pouco antes, com as hostes de Dronero
(Ataíde, 1990, pp. 120-122). É possível que ninguém quisesse estar longe
daquele que tinha sido chamado a ser rei de Portugal. O duque de Saboia era o
escolhido e, em princípio, não havia dúvidas a esse respeito. No entanto, já em
águas saboianas, chegaram notícias que davam conta de uma doença de que
supostamente padeceria Vítor Amadeu II, notícias essas que fizeram recordar '
segundo Ataíde ' o que tinhão dito muitos em Lisboa, de que não havia ter
efeito o casamento (Ataíde, 1990, p. 122).
A notícia de que o estado de saúde do duque de Saboia era débil foi recebida
com apreensão pelos membros da delegação. Em Lisboa contava-se com a presença
do futuro príncipe para antes do final do verão e qualquer indisposição poderia
fazer com que a sua chegada demorasse mais do que o esperado. O acordo
matrimonial estava em jogo e, tal e como supostamente referiam outras fontes,
Cadaval teria escrito de imediato a D. Pedro para dar conta do motivo pelo qual
o seu regresso iria tardar (Antunes, 1997, I, p. 86). Este detalhe é revelador
da sua intenção de tentar compreender o que estava a acontecer com Vítor
Amadeu, tendo em vista resolver o problema. Contudo, e uma vez mais, não foi
essa a imagem que a historiografia nos transmitiu. Da jornada a Turim de Nuno
Álvares Pereira de Melo ficou para a posteridade a impressão de uma certa
atitude desmedida do nobre português, ou até mesmo uma excessiva celeridade no
trato, a que se junta a recusa de Vítor Amadeu II de abandonar Saboia.
Para Pedro Norberto d'Arcourt e Padilha, autor de uma obra sobre a rainha Maria
Francisca publicada em Lisboa em meados do século XVIII, Cadaval estava por
detrás da crise do projeto matrimonial. Para o demostrar, d'Arcourt e Padilha
baseou-se na correspondência entre Maria Joana Baptista e a regente de
Portugal: O tempo fará ver as frívolas quimeras, e descobrirá as razões
particulares no obrar de algumas pessoas com os interesses distintos dos do
Estado, dizia a duquesa numa carta dirigida à sua irmã, na qual se lamentava
das más artes de Cadaval, carta essa publicada por d'Arcourt e Padilha (1748,
p. 94). Não podia ser de outra maneira: tanto para as duas mulheres que tinham
dado corpo ao projeto, como para os seus servidores, o duque converteu-se no
foco de todas as críticas. Dando a impressão de que aquilo que o movia era
denegrir Cadaval, De Gubernatis dirá que o duque sempre desejou a ruptura e que
tudo terá feito, em conivência com o secretário de Estado, no sentido de
distorcer a mente do príncipe D. Pedro.29 Esta versão não será posta em causa
pela historiografia italiana do século XIX, satisfeita com a negativa de Vítor
Amadeu II em seguir para Portugal. De facto, tal historiografia limitar-se-á a
referir a saturação do representante luso (Claretta, 1865, pp. 170-178), ideia
que, por seu turno, também teve algum eco na historiografia produzida em
Portugal.
Não por acaso, o próprio conde de Povolide desenhou um perfil pouco abonatório
do duque de Cadaval, assinalando, nas suas memórias, que terá sido o duque a
decidir que Vítor Amadeu II, naquele estado, não seria a escolha indicada para
marido de Isabel Luísa. Fazendo eco da fama de inflexível de que desfrutava
Cadaval, Povolide relata que o enviado teria declarado que buscando Portugal
Princepe que lhe desse sucessão não convinha um que estava em tão miserável
estado (Ataíde, 1990, p. 122). António Álvaro Dória, imbuído de um certo
patriotismo, defendeu, já em 1944, que Cadaval teria pressentido, em Turim,
tôda a falsidade italiana daquela Côrte de terceira ordem, para passar depois
a lamentar os elevados dispêndios daquela jornada (1944, p. 333).
É importante assinalar que todos estes testemunhos têm em comum o facto de
jamais darem a palavra a Nuno Álvares Pereira de Melo. Por esse motivo, talvez
seja melhor deixar o duque de Cadaval falar, depois de tanto tempo, a fim de
esclarecer se as referidas presunções são verdadeiras. O Livro da Embayxada de
Saboya, um conjunto documental conservado na British Library, contém a
detalhada correspondência do duque durante a sua missão. De acordo com uma das
missivas, a 23 de junho, logo depois de arribar na pequena ilha de Santa
Margarida (nas proximidades de Cannes), Cadaval incumbiu o estribeiro Marcos
Barbosa de Almeida de entregar a Vítor Amadeu II um aviso no qual lhe
comunicava a sua chegada. De acordo com esse aviso, permaneceria a bordo da
capitânia à espera de conhecer as intenções e as ordens do duque de Saboia,
manifestando o seu desejo de cumprir o novo vínculo de obediência que o unia
à sua pessoa.30 O saboiano, na verdade, tinha-lhe remitido, semanas antes, uma
carta na qual o avisava da sua indisposição e, antes de atracar em Nice,
Cadaval sabia já, por outras vias, que iria ser conduzido até Turim pelo conde
de Govone, pelo general Grondana e, ainda, pelo abade Spinelli, o qual tinha
conhecido em Lisboa.31
Claro que não estava nos seus planos iniciais ter de se deslocar até à corte de
Saboia sem ter a certeza absoluta de que contaria com tudo a seu favor. No
entanto, depois de ter comprovado que não abundavam, no país, muitos
desconsolados nesta doença, e após ter consultado os nobres que o acompanhavam
sobre qual seria a solução mais adequada ante tal situação, o duque de Cadaval
resolveu empreender a jornada de uma forma incógnita. Era uma situação bastante
embaraçosa e, a 28, quando chegou a Turim, Madama Reale transmitiu-lhe, de viva
voz, que ela própria se encontrava com grande disgosto pela doença do seu
filho. Referia que alguns achaques o tinham debilitado e impedido de
desempenhar as suas funções com normalidade, acrescentando que tais achaques o
estavam a obrigar a ficar na cama. De qualquer modo, os achaques não impediram
Vítor Amadeu de receber Cadaval, nesse mesmo dia, na sua alcova. Os medicos '
assegurou-lhe Vítor Amadeu II ' lhe diziam que não tinha nada, e que elle se
achava somente com o achaque da fome, razão pela qual, talvez, e no final das
contas, o seu estado não fosse tão grave. Segundo lhe revelou depois Madama
Reale, o duque não confiava demasiado no juízo dos médicos. Dava a sensação de
que padecia de um mal de espírito e ambos concordaram que António Mendes, o
prestigioso médico de que Cadaval se tinha feito acompanhar na sua viagem a
Itália (Viterbo, 1910), seria a pessoa indicada para avaliar a situação para,
se assim fosse necessário, trabalhar em conjunto com os colegas saboianos tendo
em vista a cura de Vítor Amadeu.32
De qualquer modo, após esse primeiro contacto, o pouco que Cadaval podia
assegurar era que, apesar dos problemas de saúde do duque de Saboia e das
dúvidas que alguns acalentavam, a jornada para Portugal he[ra] infallível.
Por mais que tivesse informado Madama Reale e o seu filho de que a armada
portuguesa poderia permanecer em Nice o tempo que fosse necessário, Cadaval
acrescentou que se sentiria satisfeito se fosse possível partir no começo de
agosto.33 Estava, portanto, otimista e, curiosamente, nisso parecia distinguir-
se do sentimento que começava a instalar-se em Lisboa, de onde o secretário de
Estado Manuel Pereira lhe escreveu recordando o quão necessário era o casamento
da infanta e antecipando que, no caso de falecimento do duque de Saboia, alguns
príncipes do Império poderiam ser excelentes maridos para a princesa.34 Cadaval
estava longe de conceber um cenário tão dramático. Não acreditava que o duque
corresse verdadeiro perigo de vida, embora notasse, em todo o caso, que havia,
em Turim, quem ficasse descontente ante qualquer sintoma de melhora. Falava-se
de que a sua partida estava para breve. No entanto, esta acabou por ser negada,
no final de julho, tanto por opositores, quanto por conspiradores (Ferrero
della Marmora, 1862, pp. 45-75; Contessa, 1936). Por essa altura o enviado
português informou que Vítor Amadeu II iria ser transferido da capital para a
sua residência de Moncalieri, a caminho de Nice, aproveitando para garantir que
a sua influência, aliada ao ascendente de Madama Reale na corte, estavam a
surtir efeito e a impor-se às opiniões dos médicos e de alguns cortesãos
saboianos.35
Naquela fase o desconcerto dos primeiros dias tinha ficado para trás, chegando
mesmo a contemplar-se, com Madama Reale, e caso viesse a ser necessário, a
possibilidade de se subornar os médicos que acompanhavam o estado de saúde do
soberano a fim de se agilizar ainda mais o processo. De qualquer modo, algo
deve ter mudado na disposição de Cadaval durante a sua estadia em Moncalieri.
Talvez desconfiasse do duque de Saboia. Assim, a 12 de agosto escreveu ao
regente D. Pedro assegurando-lhe que não era crivel o contentamento com que
este Princepe receb[ia] qualquer milhoria.36 Sem apresentar sintomas
especialmente graves, estava há mais de uma semana prostrado no seu leito e
talvez fosse esse um dos motivos que levaram Cadaval a enumerar, numa outra
carta escrita nesse mesmo dia à regente Maria Francisca, aquilo que considerava
serem as limitações do saboiano. De natureza débil, o duque tinha atravessado
um período difícil. Se inicialmente o duque de Cadaval ainda chegou a pensar
que era conveniente esperar, com a armada, todo o tempo que fosse necessário,
agora que Vítor Amadeu estava por fim recuperado o mesmo Cadaval recusava
empreender a viagem nos meses de inverno, alegando que tal o iria expor a uma
morte quase certa. Vítor Amadeu II tinha tudo menos saúde e robusteza capaz de
cazar, afirmava um Cadaval nitidamente preocupado com a capacidade do saboiano
para proporcionar descendência à família real portuguesa. Estava ainda muito
fresca a memória das dificuldades reprodutoras de D. Afonso VI, durante o seu
breve enlace com a mesma Maria Francisca que agora orquestrava estes planos
matrimoniais. Além disso, Cadaval advertia a regente do muyto mal criado que
podia chegar a ser o filho da Madama Reale. V. Mag.de he primero may da
Infante que tia do seu sobrinho: não peça V. Mag.de a Deos este genro,
recomendava o enviado ' recordaria, mais tarde, Povolide.37
Era uma declaração de intenções que, oposta à atitude que tinha demonstrado
aquando da sua chegada a Turim, Cadaval defendia, a partir desse momento, sem
outras pretensões. Antes da sua viagem Cadaval tinha sido olhado com receio
pelos agentes saboianos em Lisboa. Agora, desculpava-se ante a regente,
assegurando que nada lhe fazia pensar nos interesses da sua casa ou da sua
família, ao mesmo tempo que procurava explicar qual era, do seu ponto de vista,
o problema de fundo vivido em Saboia. Segundo Cadaval, Madama Reale não só era
incapaz de se impor ao seu filho, como temia o dia em que este quisesse
governar seus Estados e cazar com quem lhe parecer, até ao ponto de,
garantia, preferir vê-lo morto a tê-lo vivo em Saboia. No fim de contas, e como
lembrava o mesmo Cadaval, se Vítor Amadeu falecesse, o trono recairia em Manuel
Filiberto, o sobrinho surdo-mudo de Madama Reale e titular do principado de
Carignano. Nessa situação, seria bem provável que o governo continuasse, com o
beneplácito francês, nas mãos de Madama Reale.38 Um cenário que, em última
instância, também aconteceria caso o duque acabasse por se ausentar dos seus
domínios ao transferir-se para Portugal. Daí o clima de indefinição que se
respirava em Moncalieri e que, aos poucos, começou a ser conhecido em toda a
Europa. Daí, também, as dúvidas e as ponderações sobre o matrimónio e acerca do
empeño de la Duquesa, como então comunicou o governador de Milão à corte de
Madrid.39
O que atualmente mais surpreende, na análise efetuada pelo duque de Cadaval,
não é o seu conteúdo, mas sim o seu destinatário. Maria Francisca, juntamente
com a sua cunhada, foi a grande promotora do acordo matrimonial entre Portugal
e Saboia, e foi precisamente a ela que o enviado se dirigiu da maneira mais
crua. Revelou-lhe as suas opiniões mais arrojadas e confessou-lhe o quão
inapropriado era aquele dignitário de Saboia para desposar Isabel Luísa Josefa,
o que demonstra que Cadaval tinha mais à-vontade com a regente do que com o
secretário de Estado Manuel Pereira ou, inclusive, com o regente D. Pedro. Com
eles, e mesmo sem utilizar uma linguagem assética, foi mantendo viva a
esperança de que, na primavera seguinte, Vítor Amadeu II iria realizar a sua
viagem até Portugal, embora manifestasse essa esperança ao mesmo tempo que
falava do duque como um moribundo. A debilidade física de Vítor Amadeu '
explicava Cadaval ao secretário de Estado ' foi-se tornando mais notória à
medida que a saúde do duque melhorou. Por isso, Cadaval recusava-se a levar
para marido da Infanta hum Principe que parece o mesmo retrato da morte. Seria
escrever com a minha mão a sentença a todo o Reyno, acrescentava, ao mesmo
tempo que recomendava que se aguardasse até que o saboiano se tornasse mais
forte.40
Apoiadas nos diagnósticos de António Mendes, as impressões de Cadaval calaram
fundo em Lisboa, onde a nobreza começou a mostrar o seu descontentamento pelos
gastos de uma viagem que já tinha consumido mais de 9 milhões de cruzados, sem
qualquer retorno.41 A situação que se arrastava em Moncalieri punha em causa a
estratégia de Lisboa e, sobretudo, ameaçava a continuidade da dinastia dos
Bragança. Não era viável que o enviado permanecesse indefinidamente no
Piemonte. O duque de Saboia dava cada vez menos garantias. Por isso, no começo
de setembro foi enviada a ordem para que, até ao final do mês, a armada
regressasse a Lisboa ' como o próprio Cadaval tinha sugerido ', deixando em
Saboia o gentil-homem Domingos Barreiro Leitão, incumbido de informar as
autoridades portuguesas sobre o estado de saúde do duque.42 Numa missiva a
Vítor Amadeu II, D. Pedro alegou que não havia condições para que a frota
portuguesa permanecesse no Mediterrâneo durante os meses de inverno, ao mesmo
tempo que garantia que continuava a contar que o duque de Saboia efetuasse a
sua viagem na primavera, sem o menor risco e com o gosto e o contemtamento
como hé dezejado nestes Reynos.43
Será que se tratou de uma simples desculpa para se distanciar? É possível que
sim, atendendo a que a notícia da partida da armada portuguesa foi recebida,
por Madama Reale, com enorme preocupação. Aturdida, procurou reter Cadaval o
máximo de tempo possível, sabedora de que era cada vez mais remota a
possibilidade de afastar o seu filho de Turim. Sugeriu-lhe que, pelo menos,
permanecesse na corte de Saboia, ainda que a armada tivesse de partir, e que
fizesse a viagem por terra até Lisboa acompanhando Vítor Amadeu II.44 Madama
Reale chegou mesmo a propor a Cadaval, por via do abade Spinelli, que o seu
correio-mor desposasse mademoiselle Saluzzo, a amante do duque, porque desta
maneira iria S.A.R. para Portugal com mais gosto. Cadaval respondeu que não
podia consentir que a princesa fosse vítima de adultério,45 e foi nesses termos
que, no começo de outubro, abandonou Nice.
DEPOIS DA DIVERGÊNCIA
É provável que a lenda da sempre noiva e dos seus infinitos pretendentes
tenha começado a ser forjada depois do regresso de Cadaval a Lisboa (Farges,
1907). As negociações que se tinham desenrolado durante anos e que tinham
parecido bem-sucedidas com a viagem a Itália, não produziram qualquer
resultado. Em Portugal o caso acabou por gerar uma onda de indignação. Apesar
das supostas esperanças de uma rápida recuperação do duque, no outono de 1682
era já público e notório que o projeto estava definitivamente morto, e que a
jornada de Saboia se tinha revelado um fracasso. É aí que radicam os
verdadeiros motivos das queixas de Maria Francisca e da Madama Reale contra
Cadaval, assim como os memoriais que foram nessa altura redigidos e que
instavam a procurar um novo marido para a infanta. No fundo, o facto de as
irmãs acusarem o enviado português de se opor ao casamento ' desejado, pelo
contrário, por parte da nobreza saboiana em Turim ' não ocultava a sua
incapacidade para manter o controlo sobre Vítor Amadeu II. Tal incapacidade era
igualmente reveladora da impossibilidade de garantir a afinidade de uns
interesses que, graças aos laços familiares, tinham passado do âmbito pessoal
para o estritamente geo-político, num movimento típico das estratégias
nobiliárquicas dos pequenos Estados (Lipp, 2011).
O final do idílio estabelecido entre Lisboa e Turim, que tinha no sangue o seu
elemento aglutinador, surgiu, curiosamente, como reação patriótica ao
dinasticismo (Fernández Albaladejo, 2002, pp. 485-532). Na carta que, no mês de
outubro, Luís de Sousa, arcebispo de Braga, escreveu ao regente D. Pedro em
resposta a um pedido do secretário de Estado, são passadas em revista as
diversas cortes europeias e as conveniências e as desvantagens de cada uma
delas, alegando-se que o fracasso do casamento tinha apenas servido para
sentenciar, de facto, a queda em desgraça do projeto saboiano. Sousa defendeu
que a princesa deveria ser desposada por um dos filhos do duque de Neoburgo,46
ainda que tivessem sido muitos os nomes que saíram à luz durante os meses
seguintes, sobretudo depois de se ter dado oficialmente como dissolvido o
tratado matrimonial com o duque de Saboia. Paralelamente, sucederam-se os
comentários sobre a deslealdade de Cadaval ou acerca da incapacidade de Vítor
Amadeu II.
O que aconteceu mais tarde não permite chegar a conhecer, no entanto, se a
opção tomada pelo arcebispo para a princesa, que contaria inclusive com o
beneplácito de Cadaval e do marquês de Gouveia,47 poderia ter sido bem
sucedida. A morte de Maria Francisca em dezembro, dois meses depois de o
regente ter sido aclamado como rei Pedro II, na sequência do falecimento de D.
Afonso VI, condenaria Isabel Luísa Josefa a uma subalternização política da
qual jamais voltaria a sair. A partir desse momento cabia ao seu pai desposar
uma dama e, apesar de se ter contemplado a possibilidade de abdicar a favor da
sua filha e de se transferir para o Brasil (Pereira, 1953), o seu casamento, em
1687, com Maria Sofia ' precisamente uma Neoburgo ' e o nascimento, dois anos
mais tarde, do seu primeiro filho, o futuro D. João V, fariam com que o
interesse pela princesa decaísse. Esquecida pelos círculos de intriga das
cortes europeias, a infanta faleceria, solteira, em 1690, depois de ter
assistido, à distância, ao crescente poderio, em Saboia, de Vítor Amadeu II,
bem como ao seu casamento com uma nobre francesa. Não cabe aqui dizer o que
teria acontecido se os acontecimentos tivessem seguido um outro rumo e se o
casamento luso-saboiano se tivesse realizado. Teria existido ' ou não ' uma
monarquia hispânica de signo português (como chegou a augurar um punhado de
saboianos)? O que é verdadeiramente importante sublinhar é que essa ideia
chegou a ser formulada nas mentes dos protagonistas. Não equacionar esta
hipótese equivaleria a cair no mais básico erro de perspetiva (Russell, 1976,
p. 1).
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