O desenho de um centro de saúde para jovens: um exemplo de investigação
participativa
INTRODUÇÃO
A importância de dar voz aos jovens e de conhecer as suas perspetivas,
considerando-os como cidadãos e atores sociais, com necessidades e direitos
legítimos e com potencialidades e competências próprias é relativamente
recente. De facto, o direito dos jovens à participação foi instituído somente
em 1989, na UN Convention on the Rights of the Child (UNCRC, 1989), e
ratificado em Portugal em 1990 (Diário da República, I, Série A, n.º 211/90).
De acordo com este documento, todos os jovens têm direito a participar em
questões que lhes dizem respeito, sendo da responsabilidade dos adultos
facilitar a sua participação e garantir que as suas opiniões são efetivamente
consideradas (Horwath et al., 2011).
Adicionalmente, a participação tem diversos benefícios, não só para os jovens
que participam, mas também para as organizações e serviços. Alguns autores têm
vindo a apontar que a participação dos jovens fomenta a cidadania e a inclusão
social, ao incentivar desde cedo o seu envolvimento na vida pública e
comunitária e ao promover a comunicação de jovens de diferentes estratos
socioeconómicos e de diferentes culturas e etnias (Kirbyet al.,2003). Estes e
outros autores indicam ainda que a participação contribui para aumentar
diferentes competências nos jovens (ex., estratégias de coping, comunicação,
trabalho em grupo, etc.), para melhorar a sua autoestima, confiança e
resiliência, para melhorar as relações com adultos e pares, e para aumentar o
sentimento de pertença (Checkoway e Richards-Schuster, 2004; GTZ, 2010; Kirby
etal., 2003; Niekerk, 2007; Sekulovic, 2007).
Por outro lado, nas organizações e serviços, vários estudos indicam que a
participação é benéfica para o desenvolvimento de políticas informadas, que se
traduzem em mudanças nas práticas, nos serviços e nas estruturas
organizacionais (Checkoway e Richards-Schuster, 2004; Horwath etal., 2011). Com
efeito, de acordo com Oldfield e Fowler (2004), um dos maiores benefícios da
participação dos jovens é a melhoria dos serviços. De facto, as evidências
indicam que a participação dos jovens no desenvolvimento, na implementação e na
avaliação dos serviços, assegura que estes são mais eficazes, apropriados,
relevantes e sustentáveis (Feinstein, Karkara, Laws, 2004; GTZ, 2010).
Tendo em consideração a importância da participação dos jovens, coloca--se a
questão de como fomentar a mesma. Neste seguimento, entre várias formas de
promover a participação, salientamos aquela que vamos exemplificar neste artigo
− a investigação participativa Participatory Research). De facto, a
investigação pode ter um papel fundamental na promoção da participação dos
jovens, incluindo-os em estudos que permitam obter um conhecimento mais
aprofundado da sua realidade e das suas perspetivas.
De acordo com Cargo e Mercer (2008), este tipo de investigação caracteriza-se
pelo reconhecimento da importância de envolver os beneficiários, os
utilizadores e os stakeholders relacionados com o objeto em investigação.
Estes autores indicam que a participação atribui maior validade (externa,
social e cultural), maior credibilidade e maior capacidade de generalização aos
dados recolhidos, uma vez que o conhecimento é produzido com base nas
necessidades sentidas pela população (Cargo, Mercer, 2008). Ademais, ao
envolver diferentes stakeholders, é possível aceder às várias perspetivas sobre
os problemas e prioridades enriquecendo o entendimento das questões em estudo
(Holland, 2009). Indicam ainda que isto facilita a transformação do
conhecimento em ação, através de alterações individuais, políticas e
organizacionais, e que permite desenvolver respostas mais compreensivas e
coordenadas, dando aos decisores o conhecimento necessário sobre como melhorar
o desenvolvimento, a implementação e a prestação de programas e serviços (Cargo
e Mercer, 2008; Glasgow e Emmons, 2007). Contudo, embora alguns autores
indiquem que o direito à participação tem sido largamente reconhecido
(Lansdown, 2005) e que têm aumentado os estudos que consideram a perspetiva dos
jovens (Holland, 2009), outros indicam que apesar desta evolução e dos
argumentos relativos à importância da sua participação, continuamos longe de
alcançar este objetivo (Horwath etal., 2011). Com efeito, alguns estudos
indicam que o direito à participação não está a ser consistentemente
implementado ao nível político, legislativo e na organização dos serviços nas
áreas sociais, educacionais e de saúde (Hill, etal., 2004; Lloyd-Smith e Tarr,
2000; Morgan et al., 2002).
O desenvolvimento de investigações participativas com jovens revela-se assim
essencial, sobretudo nos sistemas dos quais são utilizadores e beneficiários
finais, mas com os quais ainda não têm uma relação solidamente estabelecida,
como acontece com os sistemas de saúde (Ryan etal., 1996).
OS JOVENS E OS SERVIÇOS DE SAÚDE: O PAPEL DA PARTICIPAÇÃO NA SUA APROXIMAÇÃO
É sobejamente reconhecido que tanto a adolescência, como a primeira fase da
idade adulta, representam períodos de desenvolvimento crítico para a adoção de
comportamentos relevantes para a saúde (e.g., Jessor, Turbin, Costa, 1998), e
que os padrões estabelecidos durante estas etapas irão muito provavelmente
manter-se ao longo do tempo (Jessor, Turbin, Costa, 1998), com resultados
duradouros na saúde e bem-estar do indivíduo.
No âmbito da promoção de saúde, a procura regular de cuidados de saúde é
considerada um comportamento positivo na medida em que contribui para a
prevenção da doença ou para a sua deteção numa fase precoce (Matos, Simões,
Canha, 1999). Efetivamente, alguns estudos indicam que os recursos comunitários
na área da saúde, e mais especificamente os técnicos de saúde, podem ocupar um
lugar central enquanto fontes de suporte social, num contexto e relação
específica, com potenciais efeitos na saúde e bem-estar dos indivíduos
(Calheiros, 2006; Calheiros e Paulino, 2007; Tracy, 1990). Sabe-se ainda que as
perceções de suporte social institucional têm recebido alguma atenção no seio
da comunidade de técnicos de saúde, devido à influência potencialmente positiva
dos recursos de suporte geral na manutenção da saúde, adaptação à doença
crónica e recuperação dos episódios de doença aguda (Sarason et al.,1987).
Contudo, e apesar dos benefícios de uma aproximação aos serviços de saúde, os
jovens apresentam os níveis mais baixos de recorrência a estes mesmos serviços
(Ryan etal.,1996). De acordo com Ryan etal. (1996), certos grupos de jovens
referem barreiras como o receio da estigmatização por parte da rede de suporte
devido ao facto de utilizarem os serviços, e sentimentos como a vergonha, o
medo de exclusão ou o orgulho, que os leva a enfrentarem os seus problemas sem
recorrerem a fontes formais de suporte social. Acresce que os jovens
desenvolvem muitas vezes perceções negativas em relação à utilização de
serviços de saúde mental, o que reduz a probabilidade da procura de cuidados
mesmo que estes estejam disponíveis (Lindsey etal., 2006). Por outro lado,
parecem existir dificuldades dos serviços de saúde em acolher os jovens que os
procuram (Muza, Costa, 2002). Estas dificuldades podem prender-se com fatores
associados ao próprio sistema de saúde, como a garantia da confidencialidade, o
respeito pelo paciente, a sociabilidade, o anonimato, a acessibilidade
económica e a existência de um serviço regular, entre outros (Pommier et al.,
2001). Assim, proporcionar a aproximação dos jovens a estes serviços poderá ser
uma estratégia de promoção da saúde e prevenção da doença.
Desta forma, neste estudo pretendemos promover a participação dos jovens
através de uma metodologia de investigação participativa, que permita
identificar os fatores que potenciam ou inibem a utilização dos serviços de
saúde, e compreender qual o conceito de centro de saúde ideal que preconizam.
Estes objetivos traduzem-se em duas questões de investigação principais: a) Que
fatores contribuem para o recurso aos serviços de saúde por parte dos jovens;
b) Como seria um centro de saúde ideal para jovens?
A resposta a estas duas questões poderá contribuir para uma melhor definição de
planos de intervenção nesta área e para definir as linhas que deverão orientar
o desenvolvimento de um serviço de saúde que se aproxime desta população,
promovendo a sua saúde e a prevenção da doença.
METODOLOGIA
PARTICIPANTES
Neste estudo participaram 346 jovens1 com idades entre os 11 e os 25 anos
(M=16,58; DP=2,0), que frequentavam instituições de apoio comunitário para
jovens em risco. Destes, 56,6% eram do sexo masculino, 98,5% eram solteiros, e
97,8% não tinham filhos. Note-se que destes 346 jovens, foram selecionados 21
para participar em três grupos focais. Estes tinham entre 13 e 21 anos e 61,9%
eram do sexo masculino.
TÉCNICAS DE RECOLHA DE DADOS
Neste estudo foram utilizados dois tipos de procedimentos de recolha de dados
para responder às questões de investigação colocadas. Um de caráter extensivo '
um questionário com questões abertas ' e outro de caráter intensivo ' grupos
focais.
O questionário contribuiu para responder à questão de como seria o centro de
saúde ideal para jovens. Este possuía duas questões abertas que visavam
explorar as perspetivas dos jovens sobre esta questão. A primeira avaliava as
características de um ponto de vista comparativo e pessoal ' Para ti, como é
que seria um centro de saúde ideal? Em comparação com o atual, o que é que esse
centro de saúde deveria ter?. Com a segunda questão, pretendia-se obter
informação que refletisse a perspetiva dos jovens acerca de características dos
serviços de saúde, que estimulassem a sua utilização por parte deste setor
populacional ' Na tua opinião, o que poderia ter um centro de saúde para que
os jovens da tua idade tivessem vontade de lá ir?.
Os grupos focais contribuíram para responder às questões relacionadas com os
fatores que contribuem para a utilização dos serviços de saúde por parte dos
jovens, e como seria o centro de saúde ideal para jovens. Estes foram
conduzidos a partir de um guião semiestruturado que incluía questões acerca da
utilização dos serviços de saúde, tendo em consideração os jovens em geral e a
sua própria experiência (e.g., Quais os motivos que levam os jovens aos
serviços de saúde? Quais os motivos que levam os jovens a não frequentar os
serviços de saúde?), e acerca do centro de saúde ideal (e.g., Como seria, na
vossa opinião, um centro de saúde ideal para jovens?).
TÉCNICA DE ANÁLISE DE DADOS
Os dados resultantes dos grupos focais e das questões abertas do questionário
foram sujeitos a uma análise de conteúdo, feita através de um método misto,
isto é, com categorias definidas a priori e a posteriori (Vala, 2003). De
seguida, procedeu-se à análise estrutural de valências e de ocorrências do
sistema de categorias.
PROCEDIMENTO
O questionário foi aplicado aos 346 jovens por uma equipa de cinco elementos,
que se dirigiu aos vários equipamentos para a recolha dos dados. Nos casos em
que os inquiridos manifestavam dificuldades de leitura e/ou escrita, o
aplicador auxiliava no preenchimento do questionário, através do esclarecimento
de dúvidas ou do registo das respostas.
Destes 346 jovens, 21 foram convocados para participarem nos grupos focais. Os
participantes foram selecionados no sentido de criar grupos heterogéneos
quanto ao sexo, idade e zona de Lisboa. Os grupos focais foram realizados nas
instalações dos equipamentos acima referidos, com o auxílio de um moderador que
foi tirando notas ao longo da discussão das temáticas. Foi garantido aos jovens
que todos os dados fornecidos seriam confidenciais e anónimos. Foi, ainda,
pedido o consentimento dos jovens para gravar os grupos focais, tendo estes
sido, posteriormente, transcritos e analisados.
RESULTADOS
FATORES QUE CONTRIBUEM PARA A UTILIZAÇÃO DOS SERVIÇOS DE SAÚDE
A identificação dos fatores que inibem ou potenciam a utilização dos serviços
de saúde por parte dos jovens integra a análise dos resultados da primeira
parte dos grupos focais. Esta análise divide-se, assim, em duas áreas
principais: Utilização 'que surgiu na sequência das respostas à questão Quais
os motivos que levam os jovens aos serviços de saúde? ' e Não Utilização 'que
surgiu na sequência das respostas à questão Quais os motivos que levam os
jovens a não frequentar os serviços de saúde?. Tal como se pode observar no ,
em ambas as áreas são referidos os fatores que potenciam ou inibem o recurso
aos serviços de saúde, bem como o tipo de serviços em que este é maior ou
menor.
Utilização(N=104 53,33%)
Esta área abrange as perspetivas dos jovens relativamente aos motivos de
utilização dos serviços de saúde e ao tipo de serviços a que os jovens
recorrem, sendo dividida em duas categorias: Motivos da utilização e tipo de
serviço.
A categoria motivos da utilização inclui três tipos de fatores que levam os
jovens a procurar os serviços de saúde, nomeadamente o tipo de necessidade do
jovem, os fatores sociodemográficos, e os fatores relativos ao contexto
familiar. O tipo de necessidade do jovem destaca-se dos restantes fatores,
afigurando-se como o principal motivo para a utilização dos serviços de saúde
na perspetiva destes jovens.
No tipo de necessidade do jovem são referidas necessidades de natureza
distinta: a prevenção e a doença/sintoma. Neste âmbito, a prevenção
caracteriza-se pela procura dos jovens dos serviços de saúde antes de se
encontrarem doentes, o que configura uma atitude preventiva. Aqui os jovens
salientam duas formas de prevenção, nomeadamente o check-up (realização de
consultas ou exames de rotina enquadrados na vigilância normal da saúde, ex.
No meu caso, de dois em dois meses vou tirar sangue), e a procura de
informação, com o objetivo de obterem esclarecimentos mais ou menos específicos
acerca de questões relacionadas com a saúde (ex. Para tirar dúvidas, Como é
que elas vão tomar? Têm que ter a opinião do médico para eles dizerem qual é a
pílula que ). O segundo tipo de utilização dos serviços de saúde diz respeito
à necessidade de tratarem alguma doença/sintoma (ex. Acorda um dia e está com
febre, por exemplo, e depois continua a ver que a febre não passa, para mim já
era um motivo).
Os fatores sociodemográficos do jovem englobam referências aos fatores
pessoais, nomeadamente o sexo e a idade. No que diz respeito ao sexo, os jovens
manifestam a perceção de que existe uma diferenciação na utilização dos
serviços de saúde em função do género (ex. acho que com as raparigas é mais
próprio, preocupam-se mais com a pílula, mais com essas coisas), considerando
que as raparigas recorrem aos serviços com maior frequência que os rapazes, em
particular por motivos associados ao planeamento familiar. Em relação à idade,
verificam-se menções à pertinência da idade como fator de recurso dos serviços
de saúde (ex. Eu acho que os jovens vão mais frequentemente comparativamente
com os idosos).
Os fatores relativos ao contexto familiar englobam referências acerca da
importância do apoio familiar, bem como da educação e modelagem familiar ao
nível da saúde, para o aumento da utilização dos serviços de saúde por parte
dos jovens (ex. E depois até há a preocupação das mães em marcarem na agenda o
dia que o filho tem médico, depois dizem: olha não te esqueças', mesmo que a
filha vá sozinha).
Com menos peso, a categoria tipo de serviço inclui o tipo de serviços de saúde
a que os jovens recorrem, tendo sido referidos de forma equilibrada seis
serviços, nomeadamente: hospital; urgência; ginecologia/obstetrícia;
planeamento familiar; psicologia e dermatologia.
Não Utilização (N=91 46,67%)
Esta área abrange as perspetivas dos jovens relativamente aos motivos de não
utilização dos serviços de saúde e ao tipo de serviços a que os jovens menos
recorrem, sendo dividida em duas categorias, tal como na área anterior:
motivos de não utilizaçãoe tipo de serviço.
A categoria motivos de não utilizaçãoinclui três tipos de fatores que inibem
os jovens a procurar os serviços de saúde, nomeadamente fatores relativos aos
técnicos, aos jovens e aos serviços, sendo os fatores relacionados com os
técnicos aqueles que detêm maior peso na não utilização dos serviços de saúde.
Os fatores relativos aos técnicos integram referências à relação com os
profissionais de saúde, às características dos técnicos de saúde e às
características do pessoal administrativo. A relação com os técnicos destaca-se
das restantes e inclui aspetos como a desconfiança (ex. Se calhar, não têm
tanta confiança com o médico para falarem aquilo que sentem e querem dizer),
as dificuldades de comunicação (ex. E não gostam de falar com os médicos) e a
vergonha (ex. Sim, algumas têm vergonha de falar com os médicos). As
características do pessoal administrativo que inibem o recurso aos serviços
incluem a antipatia (ex. Elas são super antipáticas!) e a idade avançada (ex.
também acho, as mais novas têm mais calma, mais paciência e isso ). Por outro
lado, ao nível das características dos técnicos de saúde salienta-se a
incompetência (ex. Como eu estava a ver que não estava a ser bem atendida) e
a falta de envolvimento do técnico (ex. E a médica não tinha muita
paciência), como motivos que levam os jovens a não frequentar os serviços de
saúde.
Os fatores relativos aos serviços incluem referências a aspetos do próprio
serviço que levam os jovens a evitá-lo. Estes referem-se sobretudo à falta de
acessibilidade, que se prende com o tempo de espera para ser atendido (ex. E o
que a gente espera lá! Mais vale ficarmos em casa do que irmos para lá ) e com
a distância (ex. Porque é longe. Eu digo, é porque é longe, senão já tinha
ido), com as dificuldades na marcação das consultas (ex. Eu antes de estar
doente e andava assim com alguma dor ou assim, marcava pelo telefone logo
consulta) e com o custo das mesmas (ex. E tem que se pagar).
Os fatores relativos aos jovens englobam referências a aspetos dos próprios
jovens que inibem a utilização dos serviços de saúde como a inexistência de
valores de prevenção, uma perspetiva autocurativa e a ausência de apoio
familiar. A inexistência de valores de prevenção destaca-se dos restantes
fatores e prende-se com o facto de os jovens não valorizarem uma atitude
preventiva relativamente à saúde, e portanto não realizarem uma vigilância
regular (ex. Se não tenho doença nenhuma vou ao médico? Fazer o quê?). Em
alguns casos, esta é complementada por uma perspetiva autocurativa, que leva os
jovens a considerarem que podem tratar-se sem a ajuda de técnicos
especializados (ex. Feridas e isso, curo tudo em casa). A ausência de apoio
familiar refere-se à falta de apoio que os jovens recebem dos familiares na
procura de serviços de saúde, e que aumenta o seu afastamento em relação a este
tipo de serviços (ex. se a gente não tem uma mãe ou um pai que nos ligue
minimamente ou que se esteja pouco borrifando para isso, é normal que a gente
deixe andar).
Com menos peso, a categoria tipo de serviço refere-se ao tipo de serviços de
saúde a que os jovens não recorrem ou recorrem pouco. Aqui, uma parte dos
jovens menciona novamente os hospitais e são referidos os centros de saúde.
COMO SERIA O CENTRO DE SAÚDE IDEAL PARA JOVENS?
O desenho do centro de saúde ideal para jovens integra os resultados dos grupos
focais com jovens relativos à temática do centro de saúde ideal, bem como os
dados resultantes das questões abertas do questionário. A análise destes dados
organiza-se nas seguintes áreas: (1) Serviços integrados;(2)promoção dos
serviços;(3) características dos técnicos; (4) funcionamento;(5) relação entre
técnicos e jovens;(6) espaço físico; e localização dos serviços (Quadro_2).
Serviços Integrados (N=133 27,37%)
Nesta área foram incluídos os serviços que, de acordo com a perspetiva dos
jovens, deveriam constar num centro de saúde ideal para jovens, nomeadamente:
ações preventivas na comunidade; serviços de apoio à saúde; consultas de
psicologia, consultas médicas e serviços de urgência.
As ações preventivas na comunidade destacam-se dos restantes serviços e
referem-se a programas dirigidos à saúde, a estratégias de ação e a serviços de
apoio social à comunidade. Estas três temáticas são referidas sob a égide de
uma atitude preventiva, em particular ao nível da prevenção primária na
comunidade.
Os programas dirigidos à saúde agrupam-se em alguns temas, sobre os quais
deverão versar os programas comunitários para a saúde, como os problemas de
consumo de álcool e estupefacientes (alcoolismo, por exemplo), de higiene e
hábitos alimentares, e de sexualidade (nomeadamente das doenças sexualmente
transmissíveis, ter mais atendimento com as jovens grávidas). Para além
destas temáticas, encontram-se ainda excertos acerca da valorização da
existência de ações preventivas não especificadas no âmbito da saúde (ex. que
seja não só em termos de consultas, mas preste serviços de prevenção).
As estratégias de ação integram verbalizações sobre estratégias específicas
para efetuar as ações de prevenção na comunidade. Estas estratégias podem ser
lúdicas e criativas (ex. com bonecos engraçados), informativas, baseadas em
debates onde os jovens participam, em meios audiovisuais e em formação,
nomeadamente através da disponibilização de informações nas salas de espera.
Os serviços de apoio social à comunidade deveriam, segundo os jovens
inquiridos, ser fornecidos no centro de saúde ideal, nomeadamente um infantário
e um centro de dia para os idosos.
Os serviços de apoio à saúde integram os serviços percecionados pelos jovens
como serviços a serem disponibilizados num centro de saúde ideal, nomeadamente:
planeamento familiar, que inclui o fornecimento de contracetivos; enfermagem;
farmácia; análises clínicas; exames médicos e outros não especificados, que
remetem para a importância de uma resposta generalista e de apoio à medicina
geral no centro de saúde.
As consultas de psicologia salientam-se de seguida, e incluem excertos nos
quais os participantes referem considerar importante que um centro de saúde
para jovens possa integrar consultas desta especialidade.
A propósito dasconsultas médicas, os jovens consideram também importante a
existência nos centros de saúde de consultas de clínica geral e de
especialidades como pediatria, otorrinolaringologista, ginecologia, entre
outras.
Com menos peso surgem os serviços de urgência, apesar de a sua existência no
centro de saúde ser considerada pertinente (ex. uma pessoa quando está muito
mal, e não estivesse muito perto do hospital, ia ao centro de saúde).
Promoção dos Serviços (N=122 25,10%)
Esta área inclui aspetos sugeridos pelos participantes para promover a adesão
dos jovens aos serviços de saúde em geral, e ao centro de saúde em particular.
A categoria atividades de lazer e entretenimento destaca-se das restantes,
sendo composta por depoimentos que remetem para a necessidade de atividades de
lazer e entretenimento no centro de saúde que promovam a adesão dos jovens,
desde jogos, televisão, sala de jovens/convívio, piscina, baloiços, e outras
não especificadas.
Destaca-se também a categoria computadores, composta por excertos relativos à
desejabilidade dos utentes do centro de saúde poderem aceder a computadores e à
internet no mesmo, e a categoria atividades culturaisque inclui excertos
sobre atividades ou recursos culturais que deveriam existir num centro de saúde
ideal e que poderiam promover a adesão dos jovens aos serviços, como livros e
revistas na sala de espera ou teatro (ex. Ah e devia haver lá um grupo de
teatro, também).
Com menos peso surgem as categorias atividades desportivas, que se referem a
tipos de desportos e recursos a incluir no centro de saúde como o ioga, e
equipamentos como um campo de futebol; música, que inclui verbalizações dos
participantes sobre a pertinência de um centro de saúde ideal ter música
ambiente e de terem acesso às músicas que desejam ouvir; divulgação dos
serviços que integra verbalizações acerca da necessidade de divulgação dos
serviços que o centro de saúde oferece aos seus utentes (ex. Acho que todas as
escolas deviam ter cartazes sobre a localização desses centros); serviços de
restauração, que remete para a possibilidade de o centro de saúde oferecer
serviços de buffet, onde os utentes pudessem adquirir ou usufruir de comida e
bebidas, e, por fim, apoio escolar, que se refere à disponibilização de um
serviço de apoio escolar no centro de saúde (ex. apoio para a educação).
Características dos Técnicos (N=81 16,67%)
Nesta área incluíram-se especificidades que os jovens identificaram como
aspetos positivos a existir nos técnicos que trabalham com os jovens,
especialmente num centro de saúde ideal, nomeadamente: juventude dos
profissionais de saúde; simpatia e competência, formação na área da
adolescência e compreensão da parte dos profissionais. Com menos destaque são
ainda mencionadas características como: boa aparência, paciência, rapidez no
atendimento e informalidade no trato, para lidarem de forma mais fácil com os
jovens.
Funcionamento (N=53 10,91%)
Nesta área foram identificados sete aspetos relativos ao funcionamento do
serviço, que, de acordo com os jovens, deviam ser integrados no centro de saúde
ideal: marcações, multidisciplinariedade/articulação entre técnicos, rapidez do
atendimento, serviço de qualidade, custos adaptados à capacidade financeira dos
utentes, recursos humanos, e gestão informatizada dos utentes.
Dentro destes aspetos, os jovens atribuem especial importância às
marcações,referindo que estas devem poder ser realizadas pelo técnico de saúde
(ex. A enfermeira diz, vai à agenda ver quando é que está disponível e marca
logo) e pelo próprio jovem, pessoalmente, por telefone, ou pela internet.
Salientam também a multidisciplinariedade/articulação entre técnicos, que
integra os excertos relativos à importância do trabalho em equipas
multidisciplinares nas quais ocorresse uma boa articulação e comunicação entre
os seus membros (ex. Teria que ser um trabalho articulado com os centros
comunitários), e a rapidez do atendimento, que integra comentários sobre a
importância da rapidez do atendimento aos utentes. Com menos destaque, os
jovens salientam ainda a importância de um serviço de qualidade e de custos
adaptados à capacidade financeira dos utentes.
Por fim, quanto aos recursos humanos, os jovens mencionam que um centro de
saúde ideal deveria ter um número superior de técnicos, com mais especialidades
e formação, e no que concerne à gestão informatizada dos utentes referem que os
registos e as fichas dos utentes deveriam ser organizados numa base de dados
informatizada.
Relação entre técnicos e jovens (N=44 9,05%)
Esta área agrupa algumas características referidas pelos participantes na
relação entre técnicos de saúde e jovens, que seriam essenciais num centro de
saúde para jovens. Entre estas destacam a confiança, o envolvimento e a
confidencialidade. Salientam a importância de relações assentes no apoio aos
jovens, no respeito,na informalidade e na continuidade (ex. ajudava um
bocadinho se fosse o mesmo médico a seguir-nos).
Espaço Físico (N=42 8,64%)
Nesta área foram agrupadas ideias relativas às características do espaço físico
de um centro de saúde ideal, nomeadamente as características do espaço interior
e a estrutura do edifício.
As características do espaço interior são mais mencionadas pelos jovens e
referem-se a aspetos do espaço fundamentais num centro de saúde para jovens
como a decoração moderna, o confortoe o ambiente descontraído (ex. poderia ser
e devia ser, como uma casa nossa).
A estrutura do edifício surge de seguida e refere-se à tipologia e à valoração
do espaço do centro de saúde ideal. Em termos da tipologia, os jovens
manifestam a importância do espaço, i.e., do próprio edifício ter dimensões
adequadas (ex. tinha de ser enorme), de possuir um jardim, e de este ter a
estrutura e aparência de uma casa (ex. Eu queria assim uma casa). Ao nível da
valoração estão integrados os excertos acerca da importância de atender à
própria estrutura do edifício no desenho do centro de saúde ideal (ex. O
espaço é muito importante).
Localização dos serviços (N=11 2,26%)
Esta área é a menos referida no desenho de um centro de saúde ideal para jovens
e integra as opiniões relativas ao local onde este deveria estar situado. Neste
contexto, os jovens salientam a importância de ter serviços dentro do bairro de
residência, nomeadamente serviços de clínica geral (ex. Eu acho que perto de
casa podia ser, por exemplo, a consulta de rotina do médico) e outros não
especificados, onde se integram ideias relacionadas com o facto do centro se
localizar dentro do bairro. Por outro lado, os jovens salientam a importância
de alguns serviços se localizarem fora do bairro de residência, nomeadamente
serviços de psicologia/aconselhamento, por questões de anonimato, e outros não
especificados, onde se integram comentários sobre a preferência por um centro
de saúde fora do bairro onde os jovens residem.
DISCUSSÃO
A declaração do direito dos jovens à participação representou um passo
fundamental no reconhecimento dos jovens como cidadãos ativos, como pessoas
individuais com ideias próprias e capazes de falar por si, contudo, isto não
significa que a sua participação se dê efetivamente. De facto, apesar dos
benefícios da participação, existem vários obstáculos e resistências à mesma.
Alguns estudos indicam obstáculos como a indefinição e confusão em torno do
conceito de participação; as barreiras culturais à participação dos jovens; a
resistência dos adultos à participação e a pouca vontade em partilhar o poder;
a permanência de representações sociais que impedem os adultos de ver os jovens
como atores sociais e políticos; e a falta de capacidade e de experiência dos
adultos na facilitação e promoção da participação (IAWGCP, 2008). Assim, de
acordo com Horwath e colaboradores (2011), para que a participação seja efetiva
e significativa é necessário dar aos jovens o espaço para se expressarem,
aprender a respeitá-los e a ouvir as suas perspetivas, vê-los como atores
sociais capazes e competentes que podem participar de forma significativa nos
processos de tomada de decisão, ter as suas opiniões em consideração e estar
dispostos a investir os recursos financeiros e humanos necessários para
permitir e facilitar uma participação de qualidade.
A investigação participativa é uma das formas de promover a participação dos
jovens, tendo sido exemplificada neste artigo, no contexto dos serviços de
saúde. De facto, a participação dos jovens numa investigação que permita
identificar os fatores que potenciam ou inibem o recurso aos serviços de saúde,
e compreender qual é o conceito de centro de saúde ideal, poderá contribuir
para a redução de alguns problemas, nomeadamente a reduzida utilização dos
serviços de saúde por parte dos jovens (Ryan etal., 1996) e a dificuldade dos
serviços em acolher os mesmos (Muza, Costa, 2002).
Desta forma, neste estudo colocámos duas questões de investigação principais:
a) Que fatores contribuem para a utilização dos serviços de saúde pelos
jovens?; e, b) Como seria o centro de saúde ideal para jovens?
No que diz respeito à primeira questão, e mais especificamente à identificação
dos fatores promotores da utilização dos serviços de saúde, os inquiridos
salientaram motivos que se prendem com o tipo de necessidade do jovem (i.e., de
prevenção ou da identificação de doenças ou sintomas), seguidos de fatores
sociodemográficos como o género (ao considerarem que as raparigas recorrem mais
aos serviços) e de fatores relativos ao contexto familiar (modelos e apoio
familiar; i.e., consideram que os jovens recorrem mais aos serviços de saúde se
a família incentivar e tiver esse hábito). Contudo, nota-se um maior detalhe na
especificação dos motivos associados à não utilização dos serviços de saúde.
Neste âmbito, os jovens salientaram motivos relacionados com os técnicos (má
relação técnico/jovem, antipatia dos técnicos administrativos e a pouca
competência e envolvimento dos técnicos de saúde), os serviços (falta de
acessibilidade, dificuldade na marcação de consultas e fatores monetários) e os
jovens (inexistência de valores de prevenção, ausência de apoio familiar e
presença de uma perspetiva autocurativa). De facto, estes resultados são
consistentes com outros estudos que demonstram que a procura dos serviços é
determinada pela perceção de um problema de saúde, mas também por fatores
relacionados com o sistema de saúde, como a relação estabelecida com os
profissionais de saúde, a garantia da confidencialidade, o respeito pelo
paciente, a sociabilidade, o anonimato, as consultas sem necessidade de
marcação prévia, a acessibilidade económica e a existência de um serviço
regular de saúde, entre outros (Pommier et al., 2001).
No que concerne à segunda questão, salienta-se que, de acordo com os jovens, um
centro de saúde ideal para jovens deverá oferecer uma série de serviços
integrados (programas de intervenção comunitária, serviços de apoio à saúde,
consultas de psicologia, consultas médicas de especialidade e serviços de
urgência) e possuir estratégias de promoção dos seus serviços (atividades de
lazer e entretenimento, computadores com acesso à internet, atividades
culturais, desportivas e música ambiente). Salientaram ainda que os técnicos
que trabalhem neste centro deverão ser jovens, simpáticos, competentes, com
formação na área da adolescência e compreensivos. Realçaram também a relação
técnico/jovem, valorizando uma relação de confiança, envolvimento,
confidencialidade e apoio. Por fim, destacaram aspetos relativos ao
funcionamento do centro de saúde (por exemplo a marcação de consultas e a
rapidez de atendimento), ao espaço físico (amplitude do espaço) e à localização
dos serviços.
Mais uma vez estes resultados são consistentes com outros estudos, que indicam
a importância das características do espaço para a utilização dos serviços.
Mais especificamente, Pommier etal. (2001) concluíram que os serviços de saúde
deveriam ser em locais que promovam a discrição e a intimidade, em espaços que
sugiram vida, confortáveis e acessíveis para os jovens, em que não seja
necessário fazer marcações de consultas e onde se fique pouco tempo na sala de
espera a aguardar atendimento. Salientaram ainda que, apesar da forma e da
estrutura dos serviços ser relevante, o fator mais importante em termos de
atratividade e adequação dos serviços para os jovens é, em última instância, a
competência dos médicos (Pommier etal., 2001). Em suma, os dados recolhidos
permitem definir um conjunto de dimensões orientadoras da melhoria dos serviços
de saúde para jovens, de forma a aproximá-los cada vez mais da imagem de centro
de saúde ideal definida pelos mesmos, como: a) técnicos de saúde com formação
contínua e especializada na área da adolescência; b) relação técnico/
adolescente assente na confidencialidade; c) implementação de serviços
integrados que se situem em locais estratégicos em termos de acessibilidade; d)
espaço interior do serviço informal, confortável, com recursos culturais e de
lazer; e) funcionamento integrado e articulação entre os diferentes técnicos de
saúde, com outros serviços comunitários, com a família e com a escola; f)
disponibilização de serviços dirigidos à educação sexual/educação para a saúde;
e g) reforço de serviços de intervenção médica, com maior variedade de
consultas de especialidade.
Em suma, recomendamos que os serviços de saúde, assim como outros nos quais os
jovens são os beneficiários finais (ex. escolas, residências de acolhimento,
etc.) promovam e valorizem uma participação sistemática e significativa dos
mesmos, por exemplo através de parcerias de investigação participativa, uma vez
que este tipo de participação contribui para a compreensão das necessidades,
prioridades e preocupações dos jovens, estabelecendo uma base de conhecimento
que poderá ser utilizada para a melhoria dos serviços. Em última instância, ao
colocar os jovens no centro da investigação participativa, valorizando as suas
perspetivas e experiências, esperamos contribuir para o seu bem-estar e para a
melhoria das políticas e práticas destes serviços.