Os jovens pouco escolarizados no mercado de trabalho português
INTRODUÇÃO
A sociedade portuguesa sofreu mudanças significativas nas últimas três décadas,
muitas das quais visíveis no mercado de trabalho, em particular no segmento
juvenil. Perceber em que medida a detenção de um diploma escolar de nível
inferior (ao atualmente obrigatório) constitui uma vulnerabilidade no mercado
de trabalho é o principal objetivo da reflexão que propomos neste artigo. Este
questionamento integra-se, teoricamente, nos argumentos de base da abordagem
societal2. Na sua génese, esta abordagem considera que o funcionamento do
mercado de trabalho depende quer da configuração das relações profissionais
(aqui incluído todo o suporte jurídico legal), quer das características dos
sistemas educativos, quer, ainda, da estrutura produtiva. Mais recentemente,
integra na sua análise as transformações ocorridas na sequência da globalização
económica, uma vez que esta submete os atores nacionais a novas formas de
regulação indutoras de processos de convergência parcial.
Nesta linha de raciocínio, o interesse em estudar o lugar ocupado pelos jovens
menos escolarizados no mercado de trabalho através de um conjunto de
indicadores analíticos que caracterizam a relação de emprego, tais como a
antiguidade, a duração do tempo de trabalho, a remuneração e a antiguidade, é
característico da análise societal que entende estas variáveis como
manifestações dos modos de gestão e divisão do trabalho de cada contexto
nacional, integradores de pressões exógenas decorrentes dos ajustamentos e
mudanças repercutidas pela globalização económica (Maurice etal., 1998).
O mercado de trabalho depende da vitalidade da economia, concretamente da sua
capacidade de preservar empregos, em primeira instância, e de os criar num
segundo nível, bem como das políticas educativas e de emprego em vigor. Com
este artigo, pretende-se contribuir para a reflexão sobre o impacto das
tendências macroeconómicas, do sistema de relações profissionais − aqui
tratado em termos da regulação e flexibilidade laboral −, e do sistema
educativo nas dinâmicas do mercado de trabalho juvenil, focando a atenção nos
indivíduos entre os 15 e os 24 anos de idade, com níveis de educação
correspondentes ao ISCED 0-23. Importa estudar estes níveis autonomamente, pois
englobam o que até 2008 em Portugal foram os 9 anos de escolaridade
obrigatória. Em 2009 legislou-se4 o alargamento da escolaridade obrigatória
para 12 anos, uma alteração motivada, entre outras razões, pela necessidade de
aproximar Portugal da realidade europeia e alcançar melhores desempenhos da
economia e das empresas (Capucha etal., 2009).
A compreensão do funcionamento do mercado de trabalho dos jovens com idades
compreendidas entre os 15 e os 24 anos, para o período de 1988 a 2007, exige
uma incursão pelas tendências macroeconómicas e sociodemográficas verificadas
no horizonte temporal em análise, na medida em que pressupomos a existência de
um efeito societal (Maurice, Sellier e Silvestre, 1982), isto é, um efeito de
força de coerências societais através das quais o salariato de cada país se
desenvolve como uma entidade irredutível em relação à realidade económica e
social que o envolve. A ideia de articulação entre os níveis macro/micro, ator/
espaço e sincronia/diacronia (Maurice etal., 1998) e a noção de coerência
societal dão sentido à proposta interpretativa deste artigo.
A primeira secção do artigo revisita, de modo abreviado, as tendências
anteriormente referidas, tendo por base indicadores demográficos, educativos e
da estrutura de emprego tidos como fundamentais para captar as transformações
no mercado de trabalho juvenil dos menos escolarizados. A secção seguinte
procura enquadrar os aspetos mais pertinentes que têm sido equacionados sobre o
sistema de relações profissionais, aprofundando a análise da relação entre
legislação laboral e emprego juvenil, com base num conjunto de variáveis
previamente selecionadas. Trata-se, igualmente, das relações entre o sistema
educativo e o mercado de trabalho, tomando como referenciais teóricos a
problemática dos mercados internos, profissionais e externos de trabalho
(Velden e Wolbers, 2001), alicerçados nas teorias da segmentação (Doeringer e
Piore, 1971). A análise detalhada da relação de emprego dos jovens
trabalhadores por conta de outrem, pouco escolarizados, a partir dos dados não
publicados da fonte estatística Quadros de Pessoal do Ministério do Trabalho e
da Solidariedade Social de 1988, 1998 e 2007, ocupa a terceira secção do
artigo. Finalmente, apresentam-se as conclusões mais relevantes decorrentes do
percurso analítico realizado ao longo do artigo.5
ECONOMIA, DEMOGRAFIA E EDUCAÇÃO: TENDÊNCIAS ENQUADRADORAS DO EMPREGO JUVENIL
Neste ponto focalizam-se as principais tendências socioeconómicas e
sociodemográficas tidas como fundamentais para captar as transformações que
enquadram e contextualizam o emprego juvenil pouco escolarizado. De acordo com
a abordagem societal, estas componentes de caráter macro estruturante,
associadas, em especial, às características do sistema educativo e do sistema
de relações profissionais que integram o chamado efeito societal determinante
na configuração do mercado de trabalho e das modalidades de gestão da mão-de-
obra. Acredita-se que as mudanças na estrutura de emprego da população jovem em
análise estão correlacionadas com a mudança estrutural da sociedade portuguesa
ao longo das últimas décadas.
Um dos principais sinais da vitalidade económica de uma sociedade traduz-se na
sua capacidade de gerar riqueza, medida pela taxa de crescimento real do
produto interno bruto (PIB) em cada ano, na medida em que esta capacidade se
repercute na configuração da estrutura de emprego (Figura_1). A evolução da
taxa de crescimento do emprego na economia portuguesa aproxima-se
significativamente da registada no PIB per capita(PIBpc6) entre 1987 e 2007.
Quando o PIBpc aumenta, o volume de emprego também tende a aumentar, mas não
necessariamente na mesma proporção. Outra ilação relevante a retirar prende-se
com a volatilidade das taxas de crescimento quer do PIBpc, quer do emprego, o
que significa que, durante as últimas três décadas, Portugal atravessou
diferentes dinâmicas económicas. Este aspeto é decisivo para a contextualização
dos marcos temporais de análise definidos. O nível de dinamismo económico em
1988, 1998 e 2007 ajuda a compreender a situação de emprego da população em
estudo pois a vitalidade económica é muito diferente nos finais de cada uma das
décadas em causa (1980, 1990 e 2000), conforme evidenciam os dados estatísticos
de fontes oficiais apresentados na figura_1.
Mateus (2006) refere que em nenhuma das três últimas décadas ocorreu uma
vitalidade económica constante, verificando-se momentos de expansão e recessão.
A primeira parte de 1980 fica marcada por um ambiente recessivo, em contraponto
com um final de década francamente expansionista. Efetivamente, em função da
grande dependência de importações na cadeia energética, a economia portuguesa
foi especialmente beneficiada com a forte redução da fatura petrolífera a
partir dos finais de 1985, que contribuiu decisivamente para a abertura de um
importante processo de desinflação (Mateus, 1992, p. 656). Lopes (1999) também
confirma o ano de 1985 como um período de mudança, já que a economia
portuguesa entrou numa nova fase, com características marcadamente diferentes
das dos dez anos anteriores (Lopes, 1999, p. 34). Entre 1987 e 1990, o PIBpc
cresceu a uma média anual de 7%; apenas o ano de 1988 regista uma taxa de
crescimento abaixo dessa média ponderada mas, ainda assim, cifrando-se nos
5,5%.
O final da década de 1980 regista um período de grande vitalidade económica,
não sendo o ano de 1988 exceção à regra. O mercado de emprego também refletiu
esse dinamismo, registando taxas de crescimento sempre superiores a 2% ao ano.
Um dos fatores que contribuiu para a expansão económica verificada entre 1986 e
1992 foi a adesão de Portugal à Comunidade Económica Europeia (CEE). Diversos
autores (Mateus, 1992; Lopes, 1999; Neto, 2008) referem mesmo que a análise
diacrónica das grandes tendências de evolução da economia portuguesa não pode
contornar este acontecimento, não só pelas consequências positivas que
suscitou, mas pelo grau de exposição em que colocou o país (com a liberalização
de mercados, a adesão à moeda única, entre outros fatores). Teve a capacidade
de desencadear inicialmente o crescimento acelerado das exportações e das
importações e o afluxo de elevados montantes de capitais estrangeiros e
proporcionou o recebimento de transferências de montantes muito consideráveis
financiadas pelos fundos estruturais da Comunidade (Lopes, 1999, p. 389).
Mateus (1992) evidenciou que nos primeiros cinco anos de pós-adesão à CEE, o
PIB, a preços de mercado, da economia portuguesa cresceu a cerca de 4,6% ao
ano. Nesse período, terão sido criados aproximadamente 400000 dos quais no
setor secundário (120 000 na indústria transformadora). Os fundos comunitários
assumiram um papel importante no desenvolvimento económico do país. Os aspetos
mais positivos situam-se na dinamização de um largo conjunto de investimentos
estruturantes no processo de modernização da economia e das suas
infraestruturas (Mateus, 1992, p. 669). A evolução da taxa de crescimento do
PIBpc apresentada na figura_1 sublinha essa situação.
Nem toda a década de 1990 conheceu taxas de crescimento de riqueza produzida
semelhantes. É um período, essencialmente, de expansão económica, sobretudo
entre 1994 e 1998 (Mateus, 1992). O ano de 1998 regista a segunda maior taxa de
crescimento do PIBpc (4,4%). A partir deste ano, o nível de crescimento da
riqueza produzida no país começa a diminuir, contribuindo para que a década de
2000 seja, na sua essência, conhecida como um período de recessão económica.
Consequentemente, o ano de 2007 situa-se num contexto económico totalmente
diferente do verificado nos demais marcos temporais analisados, mesmo que nesse
ano o PIBpc tenha crescido cerca de 1,6% e em 2006 cerca de 1%. Além disso,
também se pode observar que o valor do PIBpc entre 1998 e 2007 cresceu pouco,
contrariamente ao que sucedera entre 1988 e 1998. O PIBpc em 1988 era de
7903,70 [a preços constantes (base=2000)], enquanto em 1998 atingia o valor de
11186,60. Em 2007, situava-se nos 12442,20.
Com os elementos apresentados, ainda que de modo sintético e parcelar,
pretendemos demonstrar como o grau de dinamismo económico tem repercussões ao
nível do mercado de trabalho, na medida em que períodos de crescimento
económico têm representado aumento do emprego e períodos de recessão têm
suscitado a sua contração. Este cenário, direta e indiretamente, reflete-se no
emprego juvenil. Em suma, do ponto de vista da influência no volume emprego dos
jovens pouco escolarizados, os anos de 1988 e 1998 foram de forte crescimento
do PIBpc com consequências provavelmente não penalizadoras do emprego juvenil,
circunstância que não se verificou em 2007, o que indicia uma tendência de
decréscimo do emprego disponível para o segmento populacional em estudo.
Dois outros fatores condicionadores da dinâmica do emprego juvenil são as
tendências demográficas e a configuração do sistema educativo que, associados,
se traduzem numa menor presença de jovens no mercado de trabalho. A sociedade
portuguesa tem conhecido um processo contínuo de envelhecimento populacional.
Apesar de entre 1988 e 2007 a população portuguesa ter aumentado em cerca de
5,7%, em 2007 havia menos 22,8% de habitantes com idades compreendidas entre os
15 e os 24 anos do que em 1988 (Quadro_1). Nesse ano foram contabilizados
1265531 habitantes entre os 15 e os 24 anos, menos 374680 do que em 1988. É um
dado analítico relevante, uma vez que revela uma diminuição das pessoas em
idade ativa e das pessoas empregadas com idades compreendidas entre os 15 e os
24 anos.
A taxa de atividade é um dos indicadores do mercado de trabalho em que a
influência da alteração da escolaridade obrigatória fica mais visível, em
especial se for considerada a taxa de atividade juvenil. Genericamente, estes
indicadores fornecem uma espécie de índice de disponibilidade para integrar o
mercado de trabalho.7 Como as leis de bases da educação apontam para um
movimento de democratização do acesso à escola, contribuindo para que cada vez
mais jovens prolonguem o seu percurso no ensino, até mesmo para além da
escolaridade obrigatória (Capucha etal., 2009), a diminuição da proporção de
pessoas com idades compreendidas entre os 15 e os 24 anos disponíveis para o
mercado de trabalho tenderá a continuar.
Este dado coloca em evidência a relação existente entre sistemas educativo e
produtivo. As alterações introduzidas no quadro legislativo da escolaridade
obrigatória suscitaram alterações na idade mínima de acesso ao trabalho e,
subsequentemente, no volume de mão-de-obra juvenil disponível para o mercado
laboral. Com a Lei de Bases do Sistema Educativo aprovada em 1986, passou a ser
obrigatório frequentar o ensino, pelo menos, até à conclusão do 9.º ano de
escolaridade ou até se atingir os 15 anos de idade, o que representa,
genericamente, um acréscimo de três anos de educação escolar face à legislação
anterior que estabelecia o 6.º ano de escolaridade e os 12 anos de idade.8
Embora esta medida não tivesse um efeito imediato, já que se aplicava aos
estudantes que iriam iniciar o seu percurso estudantil9, viria a ter
consequências significativas no decurso da década de 1990, em particular na
parte final desta década.
Um reflexo direto do alargamento da escolaridade obrigatória foi a necessidade
de se ajustar a política laboral em termos de idade mínima de acesso ao
emprego. O Decreto-Lei n.º 396/91, de 16 de outubro10 cumpriu esse pressuposto,
ao ajustar o quadro normativo básico do trabalho de menores em Portugal em
conformidade com a Convenção n.º 138 da Organização Internacional do Trabalho.
A confirmação dos 15 anos como idade mínima de acesso ao emprego trouxe um novo
contexto social em termos de emprego e de educação, obrigando a novas formas de
relacionamento dos jovens com a escola e o trabalho. Este aspeto assume extrema
relevância para a análise longitudinal que se empreendeu a partir das
estatísticas relativas ao mercado de trabalho (Quadro_1).
Os dados referentes à taxa de atividade juvenil sinalizam uma quebra acentuada
entre 1988 e 2007, o que de alguma forma pode se compreendido à luz dos
elementos indicados anteriormente, ainda que estes não expliquem a totalidade
do fenómeno. Em 1988, cerca de 60,6% dos jovens com idades compreendidas entre
os 15 e os 24 anos encontravam-se disponíveis para o mercado de trabalho,
enquanto em 1998 este número se situava nos 46,9%. Em 2007, a taxa baixou para
os 41,9%. Para esta tendência de decréscimo contribui mais o sexo masculino do
que o feminino, circunstância esta atribuível ao facto de os jovens terem
sempre evidenciado um grau de disponibilidade para o mercado de trabalho
superior ao das jovens. Se a taxa de atividade juvenil tem vindo a decrescer, a
taxa de atividade assume uma tendência oposta. Este parece ser um movimento
perfeitamente coerente com as atuais condições de entrada e saída da vida
ativa, pois as pessoas começam a trabalhar cada vez mais tarde e tendem a
manter-se ativas igualmente até mais tarde, para atingirem o tempo necessário
para requerer a aposentação. Situação que suscita um decréscimo da população
jovem empregada, em contrabalanço com o aumento do volume total de população
empregada.
A taxa de atividade tem também aumentado devido ao incremento da proporção de
mulheres que se encontra disponível para trabalhar. Este reforço é indicativo
do processo de feminização ocorrido nas últimas décadas, na esfera educativa e
laboral, em quase todas as sociedades mais desenvolvidas, incluindo a
portuguesa (Ferreira, 1999; Casaca, 2005b). Outro sinal desse processo é o
valor elevado da taxa de desemprego feminino, quando comparada com a masculina,
principalmente ao nível da população jovem (Quadro_1). O crescimento do nível
de participação feminina no mercado de trabalho pode ser, ele próprio, uma das
justificações para a elevada incidência do desemprego nas mulheres, já que,
devido ao facto de permanecerem mais tempo no sistema educativo, entram mais
tarde no mercado de trabalho, ficando mais expostas à incerteza do mercado/
economia. Apesar de muitas variáveis determinarem o funcionamento do mercado de
trabalho, a antiguidade é uma variável importante para se lidar com a
volatilidade do emprego. A taxa de atividade jovem ajuda a confirmar essa
circunstância. Os homens sempre evidenciaram uma disponibilidade maior para se
tornarem ativos, tal como já se tinha referido, fazendo com que tenham uma
probabilidade superior de ingressarem no mercado de trabalho mais cedo do que
as mulheres e, subsequentemente, adquirirem estabilidade mais cedo.
Associado a este aumento da importância das mulheres na produção de riqueza do
país por via do reforço da sua posição no mercado de trabalho, está o processo
de terciarização da economia portuguesa. São dois processos que se influenciam
mutuamente, uma vez que a presença feminina se concentra no setor dos serviços,
particularmente em alguns subsetores com características singulares11 (Cruz,
2010). Para a terciarização da atividade produtiva e do emprego contribui,
significativamente, a quebra verificada no setor primário. Dornelas etal.
(2006) referem que, entre 1976 e 2005, este setor diminuiu o seu peso
percentual na estrutura de emprego em cerca de vinte pontos percentuais, mesmo
que em Portugal continue a assumir valores superiores à média comunitária. Em
1988 o setor primário absorvia cerca de 21,1% do emprego, quando em 2007 já só
absorvia 11,6% (Quadro_1). As grandes quebras ocorreram nas décadas de 1980 e
1990, dado que em 1998 a cifra é já de 13,8%, e encontram-se associadas a uma
diminuição mais significativa do número de mulheres do que de homens a
trabalhar neste tipo de atividades económicas, nomeadamente no que se refere ao
emprego jovem.
A quebra do emprego no setor primário foi um fator preponderante, até porque
uma das características das últimas três décadas é a estabilidade percentual do
emprego no setor secundário. O cálculo do peso relativo de cada setor em cada
ano, a partir dos valores absolutos presentes no quadro_1, permite verificar
uma diminuição do peso do emprego industrial, principalmente entre 1998 e 2007,
mas que não foi muito acentuada (35,1% e 30,5%, respetivamente). Tal não
significa que o setor se manteve imune a qualquer mudança. Para esta
estabilidade contribuiu uma espécie de regeneração interna, pois em
determinados subsetores registou-se uma redução substancial do emprego.
Dornelas etal.(2006) referem que na indústria transformadora o emprego se
reduziu a uma taxa média anual de 2,5% entre 1998 e 2005, sendo que na área
têxtil essa redução atingiu os 4,5% ao ano. A fraca visibilidade destes efeitos
nas estatísticas agregadas deve-se ao facto de terem ocorrido simultaneamente
processos inversos, ou seja, taxas de crescimento noutros subsetores que
contrabalançaram a destruição de emprego registada em subsetores como o têxtil,
o calçado ou o mobiliário. A regeneração interna ocorreu, principalmente, por
via do acréscimo de emprego na fabricação de máquinas e equipamentos (incluindo
os elétricos e óticos) e na construção civil e obras públicas.
A evolução da estrutura setorial de emprego jovem apresenta quer
características próximas das registadas para o total da população empregada,
quer características particularmente diferenciadoras. Em comum, regista o facto
do setor terciário se posicionar como o mais empregador; no entanto, esse
predomínio só começou a ser consolidado a partir de 1998, contrariamente ao que
sucedia com a globalidade da população empregada que, já em 1988, registava o
setor terciário como principal empregador.12 Esta circunstância também
evidencia que a terciarização da atividade económico-produtiva na população
jovem ocorreu, essencialmente, nas décadas de 1990 e de 2000. Em 1988, o setor
terciário representava cerca de 33,9% do emprego jovem, oscilando para 46,7% em
1998 e 58,9% em 2007. Esta evolução diferenciada deste segmento da população
empregada relaciona-se com o papel que o setor secundário sempre teve. O
declínio começou a sentir-se na década de 2000, já que a diminuição entre
finais de 1980 e o final da década de 1990 foi residual (em 1988 congregava
cerca de 49,6% do emprego jovem e em 1998 cerca de 48,5%). O ano 2000 marca
mesmo uma viragem, pois a partir desse ano o emprego jovem no setor secundário
entrou numa fase de declínio, fazendo com que em 2007 apenas absorvesse 37,3%.
Todavia, não deixa de ser uma proporção significativa, muito superior à
registada noutros segmentos etários da população empregada, reafirmando a
relevância da indústria, da construção e do setor energético no emprego da
população com idade compreendida entre os 15 e os 24 anos. Para concluir,
importa referir que também neste segmento populacional o emprego no setor
primário está em declínio, sofrendo quebras ainda mais acentuadas que nos
demais segmentos etários da população empregada (Quadro_1) (em 1988
representava 16,5% do emprego jovem, mas em 2007 a proporção situava-se nos
3,8%). O declínio ocorreu, principalmente, ao longo de 1990, continuando em
2000 mas com uma intensidade menor.
A diminuição da preponderância dos setores primário e secundário ficou a dever-
se, essencialmente, ao decréscimo de mão-de-obra feminina, em contraponto com o
sucedido no setor terciário (foi este grupo que mais contribuiu para o seu
crescimento). A distribuição de homens e mulheres em cada setor de atividade,
na globalidade da população empregada, não é reproduzível no segmento jovem,
principalmente devido à sua fraca expressão no setor primário. Neste escalão
etário há um forte desnível em favor dos homens, que foi sendo reforçado ao
longo do tempo. Em 2007, cerca de 76,2% das pessoas jovens empregues neste
setor eram homens, enquanto no conjunto da população empregada a distribuição
do emprego pelos sexos estava mais equilibrada (51,6% eram homens e 48,4% eram
mulheres).
Em suma, o aumento da escolaridade obrigatória teve um impacto significativo no
mercado de trabalho, já que ao alterar a idade mínima de acesso ao emprego
obrigou a que a legislação laboral consagrasse esse novo preceito, contribuindo
para a diminuição da taxa de atividade juvenil e da quantidade de população
jovem empregada. Também não se pode descurar o impacto da evolução demográfica,
isto porque o peso da população jovem no total da população diminuiu
significativamente entre 1988 e 2007. Em 1988, representava 16,4% da população
total, enquanto em 2007 já se situava nos 11,9%. É um reflexo do não
rejuvenescimento populacional, sobretudo a partir do final da década de 1990.
De registar que, em 1998, a população com idade compreendida entre os 15 e os
24 anos ainda representava 15,4% da população total. No entanto, a quebra no
volume e peso da mão-de-obra jovem empregada foi muito superior à verificada no
total da população jovem, daí que o declínio demográfico e o aumento da
frequência escolar deverem ser perspetivados em conjunto na explicação da
diminuição considerável do emprego jovem nas últimas décadas.
REGULAÇÃO LABORAL, MERCADOS DE TRABALHO E EMPREGO JUVENIL
Os diversos relatórios produzidos sobre a relação entre legislação laboral e o
funcionamento do mercado de trabalho parecem ser unânimes numa questão: o grau
de rigidez da legislação de proteção do emprego (LPE) influencia o nível de
competitividade, o emprego, o desemprego e a empregabilidade no mercado de
trabalho. Por isso, têm sido constantes os debates em torno do impacto e
importância da flexibilidade laboral, bem como da necessária ligação do
conceito de flexibilidade com os conceitos de estabilidade, segurança e
desenvolvimento profissional. Na perspetiva da Organização para a Cooperação e
Desenvolvimento Económico (OCDE, 2004, cit. por Dornelaset al., 2006), a
flexibilidade laboral deve ser entendida como uma capacidade, neste caso das
organizações, para modular a segurança laboral consoante as dinâmicas e
contextos económicos. O entendimento da União Europeia (UE) é bastante similar,
focalizando a capacidade das organizações para se ajustarem às necessidades de
procura do mercado. O conceito remete, genericamente, para duas formas de
flexibilidade, a flexibilidade externa, que se reflete na capacidade das
organizações para contratar e despedir, e a flexibilidade interna, que se
reflete na forma como as organizações estruturam a sua força de trabalho (MTSS,
2006).
A flexibilidade externa é a que mais tem sido focada, relacionando-se
diretamente com a empregabilidade, em geral, e com a transição profissional dos
jovens para o mercado de trabalho, em particular, já que configura a capacidade
de as organizações contratarem e despedirem em função das conjunturas
económicas (incluindo o recurso a contratos temporários ou por tempo
determinado), permitindo-lhes adaptarem-se às circunstâncias imprevistas e às
novas tendências, tais como alterações na procura de produtos/serviços e nos
próprios requisitos de qualificações. Este tipo de atuações só será permitido
em quadros legais que não sejam muito restritivos em termos de proteção do
emprego, circunstância que não sucede em Portugal, tal como evidenciam os
relatórios de diversas instâncias nacionais e internacionais (OCDE, 2004, cit.
por Dornelas etal., 2006).
Para Portugal, a observação mais comum, refletida de forma sistemática nas
recomendações de política de emprego da UE, do Fundo Monetário Internacional
(FMI) ou da OCDE, é a necessidade de se reduzir a rigidez estrutural do mercado
de trabalho (MTSS, 2006). Estas entidades consideram que o regime de proteção
em Portugal, tal como está definido, acentua a disparidade entre as pessoas
empregadas na zona protegida do mercado (contratos permanentes, emprego
estruturado, essencialmente de profissionais com maior antiguidade) e na zona
desprotegida (contratos a termo ou falso trabalho independente) (MTSS, 2006).
A elevada proteção do emprego estável é um elemento que, nas atuais condições
económicas de incerteza, reduz o dinamismo no mercado e pode transformar-se num
inibidor quer das necessidades de ajustamento no mercado, quer da mobilização
de capitais estrangeiros e de unidades produtivas que se deslocam para outras
localizações mais atrativas, do ponto de vista das obrigações legais laborais
para as entidades empregadoras. A existência de uma menor segurança seria mais
vantajosa, potenciando mais e melhores oportunidades de emprego e maior
capacidade de adaptação das empresas à inovação (MTSS, 2006). Num contexto de
globalização económica, o país é aconselhado a promover uma maior segurança aos
empregos temporários, a facilitar mecanismos de inserção profissional,
nomeadamente dos jovens, e a imprimir uma maior flexibilidade aos empregos
permanentes, designadamente por via da agilização dos processos de
requalificações e reconversão profissional. A redução dos incentivos que
condicionam a mobilidade do desemprego para o emprego é outro aspeto apontado,
já que Portugal é um dos países da OCDE que mais proteção oferece aos
trabalhadores no desemprego (OCDE, 2003 cit. por MTSS, 2006).
Também a proteção à parentalidade é considerada elevada e funciona como um
elemento de fechamento e rigidez do mercado de trabalho por duas vias que à
partida poderão parecer mutuamente exclusivas. Por um lado, porque a forte
proteção ao exercício da parentalidade tende a ser vista como um entrave à
produtividade e à competitividade, já que este exercício, mais do que um
direito se assume como um dever, sendo condição essencial para a conciliação
equilibrada da vida profissional e familiar. Por outro lado, fomenta o caráter
rígido do mercado de trabalho pelo não cumprimento cabal do que a lei
preceitua.
O processo de flexibilização do mercado de trabalho começou a consolidar-se com
a aprovação do regime de cessação de contratos de trabalho e da contratação a
termo em 1989, com as mudanças introduzidas na legislação sobre a duração do
tempo de trabalho decorrentes do Acordo Económico e Social de 1990 (definição
do período normal de trabalho semanal, alargamento dos limites anuais de
trabalho suplementar, possibilidade de despedimento por inadaptação) e com o
Acordo de Concertação Social de Curto Prazo de 1996, que introduziu importantes
medidas referentes à gestão do tempo de trabalho, à mobilidade funcional, à
articulação direta entre organizações relacionadas com a problemática do
desemprego e (re)inserção profissional, à revisão do regime legal dos apoios à
contratação de jovens à procura de primeiro emprego e de desempregados de longa
duração, promoção do mercado social de emprego, à valorização do trabalho a
tempo parcial e sua utilização como estratégia de combate ao desemprego, entre
outros aspetos. Na atualidade, e desde o Código do Trabalho de 2009, que se
discutem novas formas de flexibilização laboral, já que a evolução registada ao
nível da LPE, segundo os organismos oficiais internacionais, tem sido
considerada insuficiente face ao padrão de regulamentação dos demais países da
OCDE. Um estudo realizado por este organismo em 2004 (Dornelas etal., 2006)
pontifica a rigidez estrutural do sistema laboral português, a partir da
avaliação do rigor da LPE, baseada em três parâmetros: dificuldade em despedir
trabalhadores com contrato sem termo, em realizar despedimentos coletivos e
limitações à contratação temporária. É ao nível do primeiro parâmetro que
Portugal se afasta mais da média dos países da OCDE e da própria União
Europeia, sendo na proteção dos despedimentos coletivos o país mais próximo do
padrão dos países da OCDE.
Diversas críticas foram apontadas à metodologia utilizada no estudo retratado,
reforçando que não se podia focalizar apenas a eficiência do mercado, já que a
mesma não depende só do grau de rigor da LPE, devendo-se também considerar a
perceção que os trabalhadores têm da segurança no emprego, bem como o grau de
consciência e usufruto dos seus direitos. Os dados apresentados por Dornelas
etal. (2006) demonstram a pertinência desse reparo. Apesar de Portugal ser o
país com uma legislação mais apertada, o nível de autoperceção de segurança no
emprego encontra-se abaixo da média dos países da OCDE, evidenciando a atitude
conservadora associada aos trabalhadores portugueses, veiculada pela renitência
em abandonar a ideologia do emprego para a vida. A volatilidade dos mercados e
dos ciclos produtivos, a debilidade da estrutura económica portuguesa, bem como
a evolução da própria legislação laboral, deixa a população trabalhadora
insegura face ao futuro, mesmo gozando de alguma estabilidade contratual. Isto
indicia que as situações de precariedade laboral não se medem exclusivamente
pela natureza do vínculo contratual, como sugere Paugam (2000), mas que incluem
outras dimensões de cariz mais subjetivo, como o receio de perder o emprego a
curto prazo, com repercussões noutras esferas da vida social, para além da
laboral. Trata-se de aspetos relevantes, na medida em que indicam que as causas
da rigidez do mercado de trabalho português não se situam, unicamente, no plano
da legislação laboral. Mesmo sendo considerado rígido e protetor, as pessoas
sentem-se inseguras, dada a fragilidade que afeta o sistema produtivo.
A atuação governativa também tem sido um forte entrave, apesar da evolução
legislativa anteriormente referenciada. Dornelas etal. (2006), com o objetivo
de fornecerem uma estimativa comparável do esforço público feito em cada Estado
membro da UE15 para proteger legalmente o emprego e socialmente os
desempregados e promover a empregabilidade, compararam, para o período de 1998
a 2003, o grau de rigidez da LPE, a despesa pública em políticas passivas por
décima da taxa de desemprego e a despesa pública em políticas ativas de emprego
por décima da taxa de atividade de cada país com a média comunitária. Destacam-
se as seguintes conclusões: (i) o grau de rigor português é o mais elevado da
UE15, cerca de 1,5 vezes superior à média comunitária; (ii) a despesa pública,
avaliada em percentagem do PIB, em políticas ativas de emprego, por décima da
taxa de atividade das pessoas com 15 a 64 anos de idade, corresponde a menos de
60% da média da UE15 e a 75% no caso das políticas passivas; (iii) no conjunto,
o esforço público de proteção e promoção do emprego e de proteção social dos
desempregados é ligeiramente superior a 90% da média comunitária, sendo
nitidamente inferior ao da Bélgica, Dinamarca e Alemanha ' os países com
melhores níveis ' e, claramente, superior ao da Irlanda, Grécia e Reino Unido '
os três com piores indicadores.
Todos os fatores referidos até ao momento contribuem para que o caso português
seja um paradoxo. As contradições são relativamente fáceis de sintetizar. O
país evidencia fragilidades estruturais significativas, tais como: baixos
níveis de qualificação escolar e profissional de uma parte substancial da
população; relevância económica de setores produtivos com fraco valor
acrescentado caracterizados por uma forte componente de mão-de-obra que aufere
baixos salários e tem importantes défices de qualificação profissional (MTSS,
2006); reduzida presença de oferta formativa de natureza vocacional ou
desfasamento entre oferta educativa/formativa e as necessidades
qualificacionais das organizações. Contudo, apesar dessas fragilidades
contribuírem para que Portugal tenha uma das forças de trabalho menos
qualificadas da Europa, não deixa de ser surpreendente que possua um dos
desempregos mais qualificados e desempregados com mais dificuldades de aceder
ao emprego (MTSS, 2006).
Esta situação explica-se, igualmente, pela articulação existente entre sistemas
educativo e produtivo. Segundo Wolbers (2001), a fraca articulação existente
entre educação e emprego, a par da escassez de saídas profissionais, são
características centrais dos mercados externos de trabalho, estruturação
peculiar dos países do Sul da Europa, como Portugal, Espanha, Itália e Grécia
(Jobert, 1997; Gangl, 2001). A vertente vocacional da estrutura educativa não é
valorizada neste tipo de mercado de trabalho, contribuindo para que a relação
entre os sistemas de ensino e formação e o sistema produtivo seja incipiente
(Jobert, 1997; Gangl, 2001). Os jovens encontram-se ou a frequentar o sistema
educativo, ou a trabalhar ou numa situação em que não estudam nem trabalham.
Esta circunstância também se fica a dever à hegemonia detida pelo ensino geral
e científico-humanístico13 no sistema educativo português, que não propícia a
entrada direta no mercado de trabalho. O acesso à vida ativa continua a ser um
momento de transição conturbado dada a ausência da dimensão trabalho no sistema
educativo e da carência de qualificações válidas no mercado de trabalho. Apesar
de nas últimas três décadas se ter verificado um aumento significativo do
recurso ao ensino vocacional (ou profissionalizante)14, esta opção continua a
ser uma modalidade subalternizada ao dar acesso apenas a profissões manuais,
pouco valorizadas e considerada por muitas famílias uma escolha de segunda
(Seabra, 2009).
Segundo os dados estatísticos do Gabinete de Estatística e Planeamento da
Educação (GEPE), no ano letivo de 2007-2008 a taxa de cobertura dos cursos
vocacionais ainda não ia além dos 35% de alunos inscritos no ensino básico e
secundário (GEPE, 2009). Naturalmente que, comparativamente aos 6,9% registados
em 1988-1989 e aos 24,7% em 1998-1999, representa uma evolução significativa,
mas face ao que é a realidade dos países que consideram os mercados internos de
trabalho15 e/ou os mercados profissionais de trabalho16 é ainda insuficiente.
Os mercados internos e profissionais de trabalho também estão presentes nos
países do sul, todavia, além da pouca expressividade que assumem, apresentam-se
como uma realidade mais fechada aos jovens, sobretudo aos pouco escolarizados
e/ou que procuram o primeiro emprego decorrente do elevado protecionismo do
mercado de trabalho. Na maioria dos casos, aos jovens resta o mercado externo
de trabalho e a subjacente instabilidade associada às flutuações dos ciclos
económicos, tal como se evidenciou na análise macroeconómica inicialmente
apresentada.
A forte presença de jovens no desemprego com mais qualificações do que a grande
maioria da população ativa que já se encontra no mercado, bem como as
dificuldades de acesso ao emprego que essa mesma massa laboral juvenil sente,
ficam a dever-se, significativamente, às fragilidades que são doutrinadas pelas
desconformidades e rigidez já evidenciadas, conformando uma realidade laboral
portuguesa deveras desconexa e restritiva do seu próprio desenvolvimento
socioeconómico.
JOVENS TRABALHADORES ENTRE 1988 E 2007
Para analisar a população jovem empregada por conta de outrem, com idades
compreendidas entre os 15 e os 24 anos, importa começar por observar o quadro
2.
O quadro_2 mostra a diminuição progressiva dos jovens empregados nas
organizações produtivas. A quebra mais relevante ocorreu na década de 2000, já
que em 1988 eram 425272, diminuindo para 405973 em 1998 e 336052 em 2007.
Observa-se que aproximadamente em vinte anos existem menos 89220 indivíduos,
apesar de cada vez mais organizações serem contempladas pelo inquérito que está
na base dos dados provenientes dos Quadros de Pessoal. Esta circunstância
reforça o padrão verificado no mercado de trabalho em geral, como se demonstrou
anteriormente. As causas aí apontadas mantêm-se válidas: declínio da vitalidade
económica, aumento da escolaridade obrigatória e dos ciclos de estudos.
Esta quebra deve-se à diminuição do número de indivíduos com habilitações
correspondentes ao ISCED 0-2, em contraponto ao aumento de indivíduos com
outros níveis de escolaridade, refletindo uma tendência de acréscimo do nível
de escolarização desta população. No ISCED 0-2, as quebras foram superiores a
40%, enquanto o ISCED 3-4 quase triplicou a sua importância e o ISCED 5-
6 passou a integrar em 2007 aproximadamente oito vezes mais pessoas do que em
1988. Estas tendências são acompanhadas por uma outra relacionada com o reforço
da presença feminina (para os ISCED mais elevados) na população empregada
jovem. Não é possível falar em feminização porque o incremento é bastante
residual, sendo, no entanto, evidente nos níveis de escolaridade superiores, em
particular no ISCED 5-6 (em 2007, 68,4% da população empregada entre os 15 e os
24 anos de idade com habilitações ao nível do ensino superior, eram mulheres).
RELAÇÃO DE EMPREGO DOS JOVENS TRABALHADORES POUCO ESCOLARIZADOS
Para caracterizar a relação de emprego da população jovem trabalhadora entre os
15 e os 24 anos, com ISCED 0-2, segundo o sexo, optou-se por selecionar um
conjunto de variáveis que mais singularizam a situação deste segmento de mão-
de-obra no mercado de trabalho: contrato, antiguidade, duração do tempo de
trabalho e remuneração, que a seguir se analisam. Com o intuito de mensurar em
que medida os indivíduos com ISCED 0-2 se afastam ou aproximam dos detentores
de diplomas escolares mais elevados, consideram-se os ISCED 3-4 e 5-6 como
padrão comparativo.
Globalmente, entre os trabalhadores com habilitações equivalentes ao ISCED 0-
2 regista-se um peso aproximado de contratos sem termo e com termo (Quadro_3).
Já entre os que possuem habilitações superiores há um predomínio vincado dos
contratos a termo. A distribuição de tipos de contratos por sexo, nos ISCED 0-
2 e ISCED 3-4, revela-se bastante semelhante, enquanto no ISCED 5-6 existe uma
presença mais expressiva do contingente feminino com contratos a termo. As
restantes modalidades contratuais exibem valores percentuais bastante
inferiores, embora mais elevados no contrato a termo para cedência temporária,
e manifestam diferenças entre sexos pouco acentuadas.
Estes dados permitem sublinhar que os jovens com escolaridades compreendidas no
ISCED 0-2 se encontram mais protegidos de vínculos contratuais precários, o que
leva a questionar a importância dos títulos escolares de forma absoluta, bem
como a relação de emprego que aos mesmos se encontra associada. Estudos
recentes ao nível europeu, nomeadamente Oliveira e Carvalho (2010), demonstram-
se inconclusivos acerca das repercussões da escolarização para a qualidade do
emprego, perspetivada a partir dos vínculos contratuais. O caso português
revela características únicas na medida em que o diploma escolar,
independentemente do grau, não protege da precariedade: antes pelo contrário,
Portugal a par da Inglaterra, protege da precariedade mais do que qualquer
outro país, os indivíduos com níveis mais baixos de escolarização (Oliveira e
Carvalho, 2010, p. 93). A afirmação perentória desta relação implicará
controlar a variável antiguidade, procurando perceber se os níveis menos
escolarizados demonstram níveis de antiguidade no mercado de trabalho mais
elevados, o que é um fator de acréscimo de estabilidade contratual.
Simultaneamente, a percentagem dos contratos de trabalho sem termo dos
trabalhadores entre os 15 e os 24 anos é muito inferior à dos trabalhadores no
geral, respetivamente 27,2% e 70%, para o ano de 2007, o que corrobora uma
tendência de precarização do vínculo contratual junto da população juvenil já
evidenciada, nomeadamente em investigações portuguesas (Guerreiro, Abrantes,
2004) e estrangeiras (Furlong, Cartmel, 1997; Bradley, Devadason, 2008). Tal
constatação reforça justamente as considerações anteriores acerca da
complexidade dos efeitos da escolarização para a qualidade do emprego
dimensionada a partir de relações contratuais sem termo. É também indicativa da
existência de um mercado de trabalho juvenil com singularidades evidentes, em
particular ao nível da complexidade que atravessa o processo da transição
profissional (Furlong e Cartmel, 1997) e da sua natureza mais alongada motivada
pelo prolongamento da escolaridade, mas, igualmente, pela dificuldade
generalizada em encontrar um percurso profissional mais estável e com contornos
definidos (Bradley e Devadason, 2008).
A variável antiguidade pode ser observada numa perspetiva evolutiva no quadro
4. No ano de 1988 é visível a maior preponderância da mão-de-obra com ISCED 0-
2 no escalão de antiguidade 1-4 anos, diferentemente do que sucede nos
restantes ISCED que tendem a situar-se no nível de antiguidade mais baixo.
Regista-se uma concentração considerável de trabalhadores com menos de 1 ano
de antiguidade à medida que aumentam as habilitações escolares. Em 1998, ao
contrário de 1988, os trabalhadores localizados no ISCED 0-2 concentram-se
preferencialmente no escalão de antiguidade inferior, uma tendência reforçada
com o acréscimo de escolarização. Para estes dois anos (1988 e 1998) não
ocorrem diferenças acentuadas entre sexos no ISCED 0-2.
No último ano considerado (2007), assinala-se um predomínio da população com
ISCED 0-2 na antiguidade menos de 1 ano, situação idêntica para os
trabalhadores com níveis de escolaridade equivalentes aos ISCED 3-4 e 5-6. A
distribuição por sexos é muito equilibrada no ISCED 0-2, tal como sucede no
ISCED 3-4, diferentemente do que ocorre no ISCED 5-6, em que se regista uma
presença ligeiramente superior do contingente feminino na antiguidade 1-
4 anos. Este escalão de antiguidade conhece, entre 1998 e 2007, um acréscimo
acentuado, em detrimento da antiguidade menos de 1 ano.
Sumariamente, ao longo dos três anos em análise, verifica-se que à medida que a
escolaridade aumenta, o nível de antiguidade dos trabalhadores entre os 15 e os
24 anos diminui. Esta tendência resulta da combinação de fatores ocorridos na
sociedade portuguesa desde o último quartel do século XX (Magalhães, 2008),
entre os quais se salienta o estabelecimento de nove anos de escolaridade
obrigatória para os estudantes que iniciaram o seu percurso educativo em 1986 e
a permanência perlongada na instituição escolar com uma intensificação da
frequência do ensino superior. Um reflexo direto do alargamento da escolaridade
obrigatória foi a necessidade de se ajustar a política laboral em termos de
idade mínima de acesso ao emprego, tal como se referiu anteriormente. Essas
alterações fizeram com que, em 1998 e 2007, um jovem só estivesse em condições
para entrar no mercado de trabalho quando atingisse os 15 anos17, enquanto em
1988 já poderia estar no mercado de trabalho há cerca de três anos,
circunstância que contribui, igualmente, para o desenho da tendência apontada
para a variável antiguidade.
Se retivermos agora os dados sobre a duração do tempo de trabalho segundo o
ISCED e sexo (Quadro_5), em 200718 vemos uma forte prevalência de trabalhadores
com níveis escolares correspondentes ao ISCED 0-2 na categoria 21-40 horas,
em particular do sexo masculino, em comparação com os restantes ISCED.
Simultaneamente, regista-se o menor peso destes trabalhadores na categoria 1-
14 horas, em relação aos demais ISCED, em particular o ISCED 5-6. Sobressai,
igualmente, a preponderância feminina nos escalões inferiores de duração do
tempo de trabalho, muito em particular em períodos temporais de 15-20 horas.A
propósito da maior incidência do trabalho a tempo parcial junto dos jovens mais
escolarizados, convém sinalizar que a literatura não é consensual (Furlong,
2007)sobre se a mesma significa um acréscimo da precarização das condições de
trabalho, ou o desejo crescente de flexibilidade por parte destes jovens
trabalhadores.
Embora o horário a tempo parcial seja residual no mercado de trabalho em geral,
verifica-se uma tendência nacional para a sua feminização, já apontada por Rosa
(2000), e uma distribuição por idades não homogénea do regime de emprego a
tempo parcial feminino, isto porque, por exemplo, na faixa etária entre os 25 e
os 49 anos de idade os valores tendem a ser superiores face aos do escalão
etário dos 15 aos 24 anos (Casaca, 2005a, 2005b), o que reforça a importância
do ciclo de vida associado à maternidade que tende a estar marcado por uma
procura maior de trabalho a tempo parcial (Perista e Lopes, 1999).
Finalmente, o quadro_6 evidencia, em 1988, a concentração de indivíduos com
escolaridade equivalente ao ISCED 0-2 no escalão de rendimento menor ou igual
a 135.67, situação semelhante à dos detentores do ISCED 3-4. O seu peso no
ISCED 5-6 é bastante menor. Ainda neste escalão remuneratório, correspondente
ao salário mínimo nacional à data, ocorre uma ligeira preponderância feminina
no ISCED 0-2, tal como no ISCED 3-4, e uma presença mais vincada no ISCED 5-6.
Porém, acima do salário mínimo nacional, a população com ISCED 0-2 perde
destaque em favor dos níveis escolares mais elevados, em particular do ISCED 5-
6 que apresenta incidências importantes nos escalões 135.68-230.00 e 231.00-
330.00 e do ISCED 3-4 que revela uma ligeira predominância no escalão logo a
seguir ao salário mínimo nacional 135.68-230.00. Ao contrapor a distribuição
de rendimento nos vários níveis de escolaridade concluímos que, se nos níveis
mais baixos a grande maioria dos trabalhadores possui rendimentos
correspondentes ao escalão mínimo (valores quase sempre acima dos 90%), nos
mais elevados este escalão perde preponderância em favor dos dois escalões
seguintes.
Os valores relativos a 1998 apontam para a maior incidência da população com
ISCED 0-2 no escalão remuneratório 293.80-399.00, logo a seguir ao intervalo
remuneratório equivalente ao salário mínimo nacional, enquanto nos ISCED 3-4 e
5-6 a concentração ocorre nos intervalos remuneratórios de 400.00-599.00 e
600.00-999.00, respetivamente.
Em 2007, os jovens com ISCED 0-2 predominam no escalão de rendimento 403.01-
699.99, seguido do escalão remuneratório que integra o salário mínimo
nacional menor ou igual a 403.00, onde se assinala um diferencial entre
sexos na ordem dos 10 pontos percentuais desfavoráveis às mulheres. Tendências
semelhantes à do ISCED 0-2 ocorrem no ISCED 3-4, sendo que no ISCED 5-
6 sobressaem os escalões remuneratórios superiores.
Em suma, nos três anos analisados verifica-se uma relação de sentido positivo
entre escolarização e rendimento, ou seja, quanto mais baixa a escolaridade
mais baixo o rendimento e quanto maior a escolaridade maior o rendimento.
Simultaneamente, a variável sexo introduz diferenciações importantes, pois o
contingente feminino menos escolarizado associa-se à remuneração mais baixa, ao
invés do que ocorre com a categoria masculina mais escolarizada preponderante
no escalão de rendimento mais elevado. Estes valores refletem a maior
vulnerabilidade feminina no mercado de trabalho, em particular das mulheres com
qualificações escolares inferiores (Casaca, 2005b). Durante os últimos 20 anos,
o crescimento da economia nacional, caracterizado na primeira secção deste
artigo, bem como as consequências de convergência económica e social
decorrentes da adesão à Comunidade Europeia, em primeiro lugar, e depois à
moeda única, contribuíram para que uma proporção significativa da mão-de- -obra
passasse a ganhar acima do salário mínimo nacional (de 22,7% em 1988, para
78,2% em 2007), o que significou uma melhoria generalizada das condições de
vida (Lopes, 2004), nas suas múltiplas dimensões. Independentemente dessa
situação, é de salientar que o salário mínimo nacional não tem evoluído ao
ritmo do crescimento dos preços, valendo menos do que no ano em que foi criado
(1974) para atenuar os desequilíbrios sociais e económicos.
CONCLUSÕES
Nos anos de 1988, 1998 e 2007, as tendências macroeconómicas e demográficas, em
simultâneo com as alterações das políticas de emprego e educativas,
influenciaram a evolução da relação de emprego dos jovens entre os 15 e os 24
anos de idade pouco escolarizados (ISCED 0-2), face aos mais escolarizados
(ISCED 3-4, ISCED 5-6). Se em finais de 1980 e no decurso de 1990 o cenário
económico é marcado por um ambiente expansionista (Mateus, 1992; Lopes, 1999,
2004), já a década de 2000 corresponde a um período de recessão económica, em
que o PIBpc cresce pouco, ou não cresce. Por sua vez, o alargamento da
escolaridade obrigatória para nove anos em 1986 e a fixação dos 15 anos como
idade mínima de acesso ao emprego contribuem, entre os jovens, para o
prolongamento da frequência escolar e para a diminuição da taxa de atividade e
da quantidade de população empregada entre os 15 e os 24 anos, no período de
1988 a 2007.
A relação entre legislação laboral e empregabilidade juvenil permitiu verificar
que Portugal revela debilidades estruturais: baixos níveis de escolaridade e de
formação profissional de um segmento populacional considerável; padrões de
especialização produtiva baseados em setores intensivos em mão-de-obra a
auferir salários baixos e com qualificação profissional reduzida; escassa
presença e opção por percursos educativos de cariz vocacional. Acresce a isto
uma outra fraqueza, que resulta do mercado de trabalho se caracterizar por uma
das forças laborais menos qualificadas da Europa e um dos desempregos mais
qualificados, onde pululam jovens cada vez mais qualificados e com dificuldades
de acesso ao emprego, em virtude, entre outros fatores, do desfasamento entre a
oferta do sistema educativo e as necessidades do mercado de trabalho, de um
tecido produtivo com fraca capacidade de integração e de atração de jovens,
sobretudo na área industrial, enquanto o setor terciário se afirma em áreas
igualmente pouco qualificadas e de baixo valor acrescentado (Parente, 2008).
A análise das variáveis contrato, antiguidade, duração do tempo de trabalho e
remuneração, que autonomizam o mercado de trabalho juvenil face à globalidade
do mercado de trabalho, sublinhou que a escolaridade é um fator diferenciador
da relação de emprego dos jovens menos escolarizados face aos mais
escolarizados. Com efeito, no âmbito do vínculo contratual, verificámos que os
jovens menos escolarizados estão mais protegidos da precariedade
comparativamente à população detentora de ISCED mais elevado, o que, desde
logo, permite questionar os efeitos da escolarização na qualidade do emprego
(dimensionada a partir do vínculo contratual sem termo), sobretudo em Portugal,
onde recentemente se legislou a escolaridade obrigatória até aos 18 anos de
idade. Ao nível da antiguidade, apurámos que à medida que o grau de
escolaridade da população dos 15 aos 24 anos se eleva, a antiguidade nas
organizações diminui. A análise da duração do tempo de trabalho revelou que a
população com ISCED 0-2 trabalha, sobretudo, a tempo inteiro e que o tempo
parcial atinge mais a mão-de-obra com ISCED superior. Por fim, a análise da
variável remuneração evidenciou uma relação de sentido positivo com os níveis
de escolarização.
É nossa perspetiva que estes dados relativos à relação de emprego dos jovens
trabalhadores entre os 15 e os 24 anos, no período de 1988 e 2007, convidam ao
prolongamento das análises para os anos seguintes, sobretudo pela conjuntura
económica recente ter sido marcada por fortes oscilações e Portugal ter
entretanto legislado os 12 anos de escolaridade obrigatória. Podemos,
igualmente, questionar qual será o impacto do mais atual código do trabalho de
2009 nas relações de emprego dos mais jovens, sobretudo por via da introdução
da figura jurídica dos contratos de muito curta duração e do trabalho
intermitente.