A orquestra da sabotagem económica: radicalização discursiva e
conflituosidade laboral durante o PREC (1974-1975)
INTRODUÇÃO
A 3 de janeiro de 1975, cinco mil associados do Sindicato dos Empregados
Bancários do Distrito de Lisboa aprovaram em Assembleia-Geral uma moção que
exigia a imediata nacionalização da banca, denunciando a oposição dos grandes
grupos económicos ao processo de democratização iniciado a 25 de abril do ano
anterior:
Essa democracia, para ser edificada, passa necessariamente pelo
saneamento da luta antimonopolista e pela total destruição do poder
dos monopólios. O Povo Português tem consciência disso e também do
interesse do grande capital em fazer parar ou recuar o tempo. [ ] Que
o Governo Provisório tome medidas no sentido de uma nacionalização da
Banca, única forma, no nosso entender, de colocar este sector chave
da Economia ao serviço do Povo Português, na perspectiva
antimonopolista apontada pelo programa do MFA. Que as medidas acima
apontadas sejam acompanhadas de um profundo saneamento, impondo-se
que a Banca seja dirigida por pessoas dentro do espírito do MFA.2
Anselmo Dias, presidente do sindicato, aproveitou para enumerar as práticas
ilícitas ou ilegítimas denunciadas pelos trabalhadores bancários, nomeadamente
a forma como os bancos encaminham o dinheiro dos depositantes para as empresas
dos grupos a que estão ligados, a criação de empresas com fins meramente
especulativos para as quais desviam grandes massas de capitais, os saques a
descoberto das empresas a que estão ligados, dos seus principais accionistas e
dos seus amigos, a utilização de aceites de favor (como se de financiamentos
a terceiros se tratasse), para, redescontando-os no Banco de Portugal,
utilizarem abusivamente maiores somas de dinheiro e a fuga de capitais.
Referiu ainda o processo de saneamento levado a cabo no setor desde o 25 de
abril, que, não tendo sido tão amplo quanto se pretendia, equivalia já a uma
longa lista de administradores e diretores afastados por iniciativa do
sindicato, cujo poder parecia crescer de forma imparável.
Estas movimentações sindicais levaram dois economistas, Alfredo de Sousa (do
Partido Popular Democrata [PPD]) e Eurico Ferreira (do Partido Socialista
[PS]), a denunciar a existência de uma orquestra da sabotagem económica3.
Tratava-se, como explicavam num artigo publicado no dia seguinte, de encontrar
culpados, bodes expiatórios, para a crise económica que inevitavelmente nos
atingiria; genericamente: o capitalista e o latifundiário, em suma, o potencial
sabotador económico' por excelência e de fazer pairar a ameaça do
saneamento ininterrupto', com processos confidenciais, gerando nas
administrações públicas e privadas um clima de submissão mais ou menos claro às
directivas e pressões das massas' ou dos seus activistas organizados. Os dois
economistas criticavam o processo de condicionamento das decisões no interior
das empresas, atribuindo-o a uma estratégia de cerco à iniciativa privada e de
ofensiva contra o direito de propriedade, com o objetivo de precipitar
transformações económicas de grande envergadura antes das eleições para a
Assembleia Constituinte. Ao utilizar o termo orquestra para sugerir a
existência de um maestro e de uma partitura a conduzir todo o processo,
procuravam deslocar o debate da esfera do comportamento patronal para a dos
interesses que se jogavam em torno da intervenção do Estado nas empresas. Sem
se debruçarem concretamente sobre os factos denunciados, Alfredo de Sousa e
Eurico Ferreira sustentavam que se desenvolvia, a pretexto da sabotagem
económica, uma estratégia deliberada com o intuito de remover administradores
e empresários das principais empresas, ou de os condicionar a tal ponto que se
tornaria fácil aos sindicatos interferir em qualquer ato de gestão do qual
discordassem.
Num contexto de crise e de radicalização dos conflitos laborais, o tema da
sabotagem económica assumiu uma importância decisiva entre 1974 e 1975. A
diversidade de significados de que foi investido, de situações em que foi
empregue e de efeitos que produziu conferiu-lhe um papel fundamental, enquanto
linha de força de uma economia narrativa que atribuía aos principais
empresários do país propósitos conspirativos de sentido contrarrevolucionário.
Essa narrativa teve seguramente mais força à esquerda do que à direita e foi
enunciada de forma particularmente insistente por organizações como o Partido
Comunista Português (PCP)4, o Movimento Democrático Português/Coligação
Democrática Eleitoral (MDP/CDE), a Intersindical e partidos de extrema-
esquerda, mas tornou-se hegemónica no espaço público e suficientemente
persuasiva para que tanto o PS como o PPD viessem a aceitar grande parte dos
seus pressupostos, apoiando medidas de intervenção do Estado na economia que
visavam assegurar o controlo do poder económico pelo poder político5. Este
artigo propõe-se analisar a emergência e funcionamento dessa economia narrativa
− aquilo que Sophie Wahnich (2012, pp. 18-19) denominou, no contexto da
Revolução Francesa, uma radicalização cumulativa do discurso −, assinalando
os efeitos produzidos pelas denúncias de atos de sabotagem económica no
âmbito dos conflitos laborais, com destaque para o setor bancário.6 A hipótese
aqui sustentada é que a narrativa da sabotagem económica − ao estabelecer um
vínculo entre comportamentos patronais e propósitos antidemocráticos − ofereceu
um conteúdo específico ao termo antimonopolista, criando um plano inclinado
para as nacionalizações e colocando a transição para o socialismo na ordem do
dia.
UMA POLÍTICA ANTIMONOPOLISTA AO SERVIÇO DAS CLASSES TRABALHADORAS
O golpe militar de 25 de abril de 1974 desencadeou uma sucessão de eventos
imprevisíveis, favorecidos pela dissolução da polícia política e pela crise de
legitimidade que investiu o aparelho repressivo do Estado.7 A partir do início
de maio, começaram a multiplicar-se os processos reivindicativos e conflitos
laborais em diversas empresas, num surto grevista sem precedentes e que
concorreu de forma decisiva para que a transição democrática iniciada pelo
golpe militar se convertesse num processo revolucionário.8 Durante 18 meses, um
equilíbrio instável entre as instituições do Estado e os movimentos sociais
marcaria o ritmo das transformações em curso. Na ausência de mecanismos
consolidados de negociação das relações laborais e num momento em que uma
solução repressiva generalizada se encontrava fora de questão, tornou-se
urgente resolver o problema da mediação do conflito através da cooptação do PCP
− e da sua influência sobre a Intersindical − para o I Governo Provisório9,
onde Avelino Gonçalves (presidente do Sindicato dos Bancários do Norte e
militante daquele partido) assumiu a pasta do Trabalho. A conflituosidade
laboral tornou-se um elemento polarizador da situação política e as
organizações sindicais passaram de um estatuto de semilegalidade para uma
posição decisiva no aparelho de Estado num curto espaço de tempo.
Simultaneamente, a necessidade de pacificar as relações laborais e de garantir
o relançamento económico tornou imprescindível o controlo do processo
inflacionário e uma relativa estabilização salarial. O Decreto-Lei 217/74, de
27 de maio, fixou o salário mínimo nacional (3300$00 mensais) e congelou os
preços dos bens e serviços em todas as fases de produção, transformação e
comercialização, num esforço para conciliar o trabalho e o capital no âmbito da
transição democrática. O seu resultado esteve no entanto longe de corresponder
às expectativas: aquele valor foi largamente ultrapassado pela força da
mobilização operária nas grandes empresas (nomeadamente nos setores da
metalomecânica e da construção/reparação naval), onde o salário mais baixo foi
fixado em 6000$00; mas foi simultaneamente considerado excessivo por um grande
número de empresários e gestores de empresas de pequenas dimensões ou de
setores virados para a exportação − têxtil, calçado, cortiça ou conservas −,
que faziam dos reduzidos custos laborais o seu principal fator competitivo e se
viam impossibilitados de fazer repercutir na formação dos preços o aumento de
custos. Acrescia a essa dificuldade o facto de um grande número de empresas se
confrontar com problemas de tesouraria e estar largamente dependente da
concessão de crédito, frequentemente a curto prazo e sujeito a taxas de juro
elevadas. O primeiro trimestre de 1974 havia-se caracterizado pelo agravamento
da balança de pagamentos, com um défice da balança comercial de 7 milhões de
contos e uma acentuada descida (25%) do índice geral das ações na bolsa de
Lisboa (Conselho de Administração do Banco de Portugal, 1975, pp. 33-34).
O I Governo Provisório procurou levar a cabo uma política contracíclica,
concedendo crédito à banca privada − cujos problemas de liquidez se viram
agravados pela imobilização forçada da sua carteira de títulos e participações
financeiras, na sequência do encerramento da bolsa de valores por decisão da
Junta de Salvação Nacional − a uma taxa preferencial, através do redesconto
junto do Banco de Portugal, de maneira a responder às dificuldades financeiras
das empresas. Ampliado pela dinâmica de crescimento económico dos vinte anos
anteriores, o sistema bancário tornou-se uma peça-chave da política económica,
com destaque para os bancos integrados nos sete grandes grupos empresariais:
Banco Espírito Santo e Comercial de Lisboa, Banco Nacional Ultramarino, Banco
Totta e Açores, Banco Borges & Irmão, Banco Fonsecas & Burnay, Banco
Pinto & Sotto Mayor e Banco Português do Atlântico.10 O redesconto da banca
comercial junto do Banco de Portugal atingiu em 1974 os 42,284 milhões de
contos (contra apenas 9,067 milhões de contos no ano anterior), apesar da
respetiva taxa de juro ter aumentado de 5% para 6,5% a 24 de agosto, subindo
para 7,5% a 21 de dezembro (Conselho de Administração do Banco de Portugal,
1975, pp. 101-134). O aumento total da massa monetária nos anos de 1974 e 1975
foi calculado em 37% (Ferreira, 1977, p. 37). A situação foi sintetizada pelo
governador do Banco de Portugal, Jacinto Nunes, numa entrevista:
Há que realizar um equilíbrio difícil entre a luta contra a inflação
e o estímulo ao desenvolvimento económico. Em primeiro lugar, dado o
déficit da balança cambial no primeiro semestre, a diminuição do
ritmo de actividade em certos sectores e um injustificado aumento da
preferência pela liquidez (traduzida na posse de notas em casa), o
Banco tem procurado exercer uma acção compensatória. O redesconto tem
sido aumentado substancialmente para atender também às necessidades
de financiamento, resultantes de vários factores entre os quais
avultam a forte alta do preço de mercadorias.11
O aumento do redesconto tinha diversas implicações problemáticas, uma vez que o
banco central não tinha instrumentos para avaliar a aplicação do crédito. Às
instituições governamentais começaram a chegar cartas de empresários que se
queixavam da retração do crédito e da recusa de desconto de letras comerciais
em agências bancárias onde sempre haviam sido considerados clientes de
confiança. A situação era suficientemente alarmante para motivar o envio, a 9
de julho, de um ofício confidencial do sub-secretário de Estado do Tesouro ao
vice-governador do Banco de Portugal:
Têm sido recebidas nesta Secretaria de Estado inúmeras cartas que
invocam a retracção de crédito por parte da banca comercial
portuguesa. Não pôde nem pode esta Secretaria de Estado tratar de
tais matérias casuisticamente e abordou-se, desde logo, a tomada de
decisões de acção global que se têm vindo a concretizar, sendo de
assinalar, entre outros factos, o aumento significativo de redesconto
de papel, proporcionado por esse Banco.12
Entre outras queixas semelhantes, a Federação Nacional dos Industriais dos
Lanifícios enviara cópias da correspondência trocada entre o administrador da
firma João Pilão da Silva, Lda. (Cardação e fiação, Guarda) e o BESCL, depois
de três letras comerciais (no montante de 193386$10) terem sido devolvidas,
apesar de a firma possuir um saldo positivo de 192239$60 em conta naquele
banco. Em anexo estavam cópias dos extratos bancários que demonstravam ter
aquela empresa movimentado um montante superior a 9 mil contos no ano anterior.
Sabendo-se que os principais bancos privados portugueses se encontravam
inseridos em grandes grupos económicos, possuidores de investimentos dispersos
por um vasto número de setores, existia a possibilidade de o dinheiro avançado
pelo Banco de Portugal ser aplicado sobretudo nessas empresas, em detrimento
dos objetivos fundamentais da política governamental. Neste contexto, o
significado da passagem do programa do MFA que sustentava a necessidade de uma
política antimonopolista ao serviço das classes trabalhadoras tornou-se um
elemento problemático. A articulação entre a crescente intervenção económica do
Estado e a conflituosidade social revelar-se-ia o eixo fundamental da
radicalização do processo revolucionário, convertendo a atuação da banca
comercial num tema decisivo do combate político e num terreno de disputa pela
interpretação do que poderia e deveria ser uma política antimonopolista ao
serviço das classes trabalhadoras.
A BANCA PRIVADA NO OLHO DO FURACÃO
O Sindicato dos Empregados Bancários de Lisboa assumira um poder de intervenção
crescente sobre o funcionamento das instituições de crédito, cujas sedes e
principais instalações foram ocupadas, logo no dia 25 de abril, por piquetes
que impediram quadros e administradores de aceder aos cofres e gabinetes.13 A
sua estrutura de delegados sindicais cobria praticamente toda a atividade
bancária nos centros urbanos, revelando-se capaz de monitorizar a concessão de
crédito e os movimentos das contas, como se descrevia numa assembleia realizada
a 15 de maio:
Integrámos várias delegações que se avistaram com os oficiais das
Forças Armadas e, sobretudo, participámos intensamente no controlo da
actividade bancária, com vista a fazer respeitar directrizes da junta
de salvação nacional, ou seja, impedir a fuga de capitais e manobras
especulativas. Dos contactos estabelecidos com elementos da Junta e
do Movimento foi realçado por estes e até declarado publicamente,
perante vários dirigentes sindicais, a colaboração do nosso sindicato
e muito especialmente da nossa rede de Delegados no controlo possível
da actividade bancária, tendente a evitar uma situação grave para o
país.14
A vigilância sobre os movimentos bancários e o funcionamento das instituições
de crédito, somadas à memória da repressão anterior ao 25 de abril, contribuíam
para uma elevada desconfiança relativamente aos banqueiros e administradores do
setor15. Constituíra-se assim um contrapoder no interior da banca, capaz de
interpelar o Governo, o Banco de Portugal ou a Coordenadora do Programa do MFA
com dados e provas concretas relativamente a desvios de fundos e atos ilícitos.
Desde o verão de 1974 que a direção do Sindicato denunciava as manobras do
patronato e o boicote económico desencadeado pelo capital financeiro,
sublinhando o seu compromisso com o regime deposto e o propósito de subverter o
processo democrático, como se podia ler numa moção aprovada a 27 de junho em
assembleia geral:
[ ] perante informações alarmantes de que a banca portuguesa está a
pôr em prática uma política de crédito contrária aos interesses da
economia nacional e que pode a curto prazo levar o país a uma
situação de caos económico que urge evitar por comprometer as
liberdades conquistadas pela revolução de 25 de Abril, os
trabalhadores bancários requerem do Governo Provisório medidas
imediatas para o saneamento da situação, nomeadamente a concretização
do Programa do Governo em relação aos bancos emissores. [ ] O
patronato, perdido que foi o apoio policial, perdida que foi a
matraca, reduzido que foi o apoio do Ministério das Corporações e das
estruturas corporativas, o patronato, habilmente, tenta fazer
qualquer coisa para que tudo fique na mesma.16
As informações alarmantes resultavam da fiscalização levada a cabo pelas
estruturas sindicais e vieram provocar um aceso debate na imprensa. Para além
de artigos de Joaquim Aguiar e Fernando Ulrich em defesa da iniciativa privada
e da economia de mercado, Alfredo de Sousa veio sublinhar que as dificuldades
de liquidez do setor se deviam a fatores como a diminuição dos depósitos
particulares, a descida drástica das remessas de emigrantes e o aumento do
défice da balança comercial, denunciando simultaneamente as motivações
políticas que se escondiam por trás das acusações sindicais:
A situação económica herdada pela revolução já era muito pouco sã e
potencialmente explosiva. Pode também dizer-se, sem exagero, que o
terramoto político português eclodiu no meio de um terramoto
económico mundial. [ ] Não basta porém fazer promessas demagógicas
nem tentar encontrar um ou dois bodes expiatórios a quem se acusa
sistemática e generalizadamente de sabotadores e quejandas coisas.
Este tipo de afirmação irresponsável só mina o clima de confiança que
deve reinar e torna mais perplexos alguns investidores e os
depositantes. A não ser que se queira com tais acusações genéricas
criar justamente a confusão e o caos, para daí se tirar proveito
político partidário, conduzindo a situações de facto irreversíveis,
isto é, criar desde já um clima psicológico para ocupações e tomadas
de controlo ilegais.17
O Banco Pinto & Sotto Mayor fez publicar como publicidade paga em vários
jornais um texto elaborado pelo seu Gabinete de Estudos Económicos, que tentava
rebater as acusações de estrangulamento pelo crédito:
Assim é que se encontram hoje, a cada passo, referências, através dos
diversos meios de comunicação social, à debilidade das nossas
estruturas económicas, à falta de selectividade do crédito bancário,
à dependência da economia nacional dum restrito grupo de interesses
económicos, à sua intensa subordinação a empresas estrangeiras,
nomeadamente multinacionais, etc., etc., sem que entretanto se tente
explicar concretamente quais as causas dessas situações, se avalie
com rigor a sua extensão e se apontem ou sugiram os seus reais
efeitos no processo de desenvolvimento económico do país. Nesses
termos se procede hoje, na apreciação do comportamento de largos
sectores da economia nacional, nomeadamente a banca, cuja actuação
é classificada de sabotagem, sem que até ao momento tenha sido
aduzido um único número que expresse a sua situação,
objectivamente.18
Quase desprovidas de liquidez, as instituições de crédito deveriam limitar-se a
avaliar os pedidos das empresas que procuravam obter financiamento e a
viabilidade dos respetivos investimentos, mas um memorando confidencial enviado
a 7 de agosto por Jacinto Nunes ao ministro das Finanças, José Silva Lopes,
revelava que tudo era mais complicado:
Em relação a alguns desses estabelecimentos a situação de liquidez
atinge aspectos alarmantes. Um deles, ontem, veio referir que dispõe
apenas no Banco de Portugal de cerca de 12 mil contos ' trata-se de
um dos maiores bancos portugueses. Houve que, ontem à noite e hoje de
manhã, estar a estudar operações que o habilitassem hoje a enfrentar
os possíveis efeitos negativos da sessão de compensação da manhã. [ ]
O crédito concedido pelo Banco Central está assim a traduzir-se em
simples acréscimo de circulação, nada ficando retido no circuito
bancário. Por outro lado, não se dispõem de informações fidedignas
sobre o destino final do crédito concedido, pois se a sua mobilização
se faz por papel comercial aceitável pelo Banco Central, a sua
aplicação ulterior é insusceptível de controlo.19
A impossibilidade de controlar a aplicação do crédito pela banca privada abria
a porta a todo o tipo de acusações contra a oligarquia que controlava setores
fundamentais da economia portuguesa. Simultaneamente, os elementos do MFA
começavam a interrogar-se acerca da distância crescente entre o que dispunha o
seu programa e o conteúdo mais prosaico da política económica levada a cabo
pelo Governo provisório e pelo Banco de Portugal. Apesar da nacionalização do
setor estar arredada do horizonte imediato e nenhuma força política com peso
substancial a defender publicamente (desde logo partidos como o PCP e o PS,
apesar do que defendiam os respetivos programas políticos), a banca privada
estava já em foco no debate político desde o verão de 1974. Seriam os
confrontos no seio da coligação governamental e das Forças Armadas a resolver
este impasse, quando a clivagem entre o General Spínola e os membros da
Coordenadora do MFA assumiu proporções irreconciliáveis.
UMA CONSPIRAÇÃO DA ALTA FINANÇA?
Os acontecimentos do fim-de-semana de 28 e 29 de setembro de 1974 foram
decisivos para a radicalização do discurso contra os grandes empresários. A
evolução da situação política levara diversos setores a agrupar-se em torno de
Spínola, em busca de uma liderança providencial que assegurasse um regime com
fortes poderes presidenciais, uma descolonização conduzida contra os movimentos
de libertação nacional e um relançamento económico sem ruturas, repondo a
autoridade nas ruas, nas empresas e nos quartéis. Surgira ao longo do verão uma
pequena mas aguerrida constelação de partidos de extrema-direita, caraterizada
pela defesa intransigente do império e pela oposição à coordenadora do MFA e ao
Governo Provisório, com destaque para o Partido do Progresso, o Partido Liberal
e o Partido Nacionalista Português. Quando, a 10 de setembro, Spínola denunciou
num discurso o assalto sistemático a centros de decisão por grupos à margem de
toda a ordem jurídica e até institucional, avançou um apelo que se revelaria
decisivo:
A maioria silenciosa do povo português terá pois de despertar e de se
defender activamente dos totalitarismos extremistas que se digladiam
na sombra, servindo-se das técnicas bem conhecidas da manipulação de
massas para conduzir e condicionar a emotividade e o comportamento de
um povo perplexo e confuso por meio século de obscurantismo
político.20
No dia anterior, numa reunião entre personalidades e dirigentes de partidos de
extrema-direita, fora decidida a realização de uma manifestação exigindo a
atribuição de plenos poderes ao General, cujos promotores aproveitariam a
expressão empregue no discurso para efeitos propagandísticos. A logística para
a sua preparação contou com relevantes apoios financeiros por parte da banca
privada, conseguidos por intermédio do general Kaúlza de Arriaga e do tenente-
coronel António Figueiredo (Movimento das Forças Armadas, 1975, p. 40). A teia
de financiamentos das movimentações da extrema-direita foi denunciada pela
Comissão de Delegados Sindicais do BESCL, que seguiu a pista do dinheiro
empregue para organizar a manifestação, compilando num livro diversas
informações e documentos (Carvalho etal., 1975). Apesar das necessárias
cautelas na sua abordagem, a veracidade destas informações vê-se
substancialmente confirmada por um documento de 1979, quando, devido a um
conjunto de informações surgidas na imprensa acerca das dívidas de Francisco Sá
Carneiro ao BESCL, o Conselho de Gestão daquele banco abriu um inquérito à
quebra do sigilo bancário. Os administradores viriam a concluir que no ano de
1975, saíram do Banco inúmeros documentos que não só serviram para a publicação
do livro Sabotagem Económica ' Dossier Banco Espírito Santo, como para basear
artigos do jornal O Diário ou até de discursos de políticos em época de
campanha eleitoral21. As informações constantes naquele livro, que inclui
cópias fac-simile de cheques e outros documentos relacionados com o
financiamento daqueles partidos, são por isso um elemento fundamental para
analisar os financiamentos concedidos pelo BESCL aos organizadores da
manifestação.
A José Augusto Deitado, presidente da Comissão de Informação do Partido do
Progresso, foi concedida a soma de 750 contos, depositada no dia 6 de setembro
numa conta em seu nome. A morada que acompanhava o pedido de financiamento
correspondia à sede do Partido do Progresso. Através desta conta foi emitido um
cheque no valor de 125 contos, passado à Tipografia Mirandela e correspondente
à impressão de folhetos e cartazes para a manifestação (Carvalho etal., 1975,
pp. 52-53). Outros 750 contos seriam depositados na mesma conta a 30 de
setembro. Manuel Ramos de Magalhães, um quadro do BESCL que pertencia à
Comissão Organizadora da manifestação e que deixou de comparecer ao serviço
após o fim-de-semana de 28 e 29 de setembro, era titular de uma conta aberta
com um saldo devedor de 180 contos. Este dinheiro terá circulado através da
empresa SINASE, propriedade de António Ávila, dirigente do Partido do Progresso
(que era sediado nas suas instalações), servindo Magalhães como o intermediário
entre o BESCL e a Comissão Organizadora (Movimento das Forças Armadas, 1975, p.
40). José Miguel Júdice, à época dirigente do Partido do Progresso, viria a
confirmar mais tarde o procedimento adotado: Os grupos empresariais deram
apoio a todos os partidos políticos, do PS para a direita. Como é que se fazia?
Através da autorização dada a certas pessoas indicadas por esses partidos para
que pudessem obter o dinheiro através de uma livrança. Portanto, levava o
dinheiro e depois pagava (Fernandes e Santos, 2005, p. 42).
Jorge de Mello Maldonado Passanha e Manuel Sousa Machado abriram a 25 de
setembro uma conta no BESCL que terá desempenhado um papel fundamental na
logística da manifestação. Sem qualquer cobertura, foram sacados desta conta
1208 contos em cheques e transferências durante os dois dias seguintes. Antes
disso, 750 contos haviam sido transferidos para uma conta (n.º 44 375) aberta
no Porto a 19 de setembro, por Carlos Bettencourt (dirigente do Partido
Liberal), Artur Armando dos Santos e Silvino de Castro Moreira. Carlos
Bettencourt integrava, juntamente com José Pinto Moreira e Manuel Andrade, a
Comissão do Norte, encarregue de planear naquela região a logística da
manifestação e esta conta indicava como morada a sede do Partido Liberal no
Porto (PCP, 1976, p. 63). Os 750 contos com que Carlos Bettencourt abriu a
conta do Porto só foram debitados à conta de Passanha e de Sousa Machado no dia
26, existindo um hiato de uma semana entre a abertura da conta no Porto e a
abertura da conta de onde fora oficialmente transferido o montante creditado.
José Harry de Almeida Araújo, que presidia ao Diretório do Partido Liberal,
também recebeu 2 mil contos do BESCL, onde possuía conta aberta desde janeiro
de 1974. Segundo um relatório sobre o 28 de setembro que atribuiu aos
administradores José Manuel Espírito Santo Silva e a Carlos Espírito Santo o
envolvimento pessoal na concessão destes avales, a conta aberta no Porto foi
imediatamente movimentada, sendo os setecentos e cinquenta contos rapidamente
distribuídos entre os dias 20 e 27 de setembro, com destaque para 450 contos
concedidos a Luís Lobo Xavier para o aluguer de camionetas a partir do Minho
(Movimento das Forças Armadas, 1975, p. 43). O Eng.º Sousa Machado,
administrador da Companhia Mineira do Lobito, foi um dos principais vértices da
mobilização, juntamente com dois ou três financeiros que apoiavam esta
intervenção e utilizando para o efeito uma empresa chamada SOCESA
(Bernardo, 2004, pp. 35-37). Um jornal de extrema-direita particularmente
ativo, o Bandarra, contava com uma publicidade de página inteira do Banco Pinto
& Sotto Mayor e era dirigido por Miguel Freitas Costa (ex-redator de órgãos
conotados com o Estado Novo, como o Diário da Manhã e o Agora) ' sendo
propriedade da Editorial Restauração e tendo com principais acionistas Pedro
Soares Martinez, Filipe de Bragança e o Conde de Caria (PCP, 1976, p. 35).
O fracasso destas movimentações levou uma parte dos envolvidos à prisão de
Caxias e outra ao exílio. A 30 de setembro, a direção do Sindicato dos
Bancários ordenou o congelamento das suas contas bancárias e a vigilância sobre
as respetivas empresas. Três dos mais destacados organizadores, o tenente-
coronel António Figueiredo, José Almeida Araújo e João Braga, abandonaram à
pressa a suíte do Hotel Sheraton de onde acompanhavam as operações e fugiram
para o estrangeiro, deixando uma vultuosa conta que incluía várias chamadas
telefónicas para o estrangeiro e duas para a residência da família Espírito
Santo (Movimento das Forças Armadas, 1975, p. 47; Fernandes e Santos, 2005,p.
40). No rescaldo do fim-de-semana, o editorial do Expresso não hesitava na
interpretação dos acontecimentos:
A reacção começou a organizar-se na própria madrugada de 26 de Abril.
Muitos dos que perderam o poder político em diversos níveis ou que
viram perigar o domínio económico que até aí detinham não se
conformaram com o novo regime e logo principiaram a conspirar. A
conspiração que estava preparada teria como desfecho o regresso de
Portugal a um regime antidemocrático. Restabelecer-se-ia então um
fascismo porventura disfarçado, regressariam a censura, a PIDE, os
privilégios, reacentuar-se-ia a diferença entre os muito ricos e os
outros.22
O financiamento de partidos de extrema-direita via-se acrescentado à acusação
de bloqueio do crédito no rol dos instrumentos empregues pelos grandes
empresários contra o novo regime democrático. Mas acima de tudo, ao sublinhar
os propósitos golpistas por trás da manifestação da maioria silenciosa, a
denúncia sindical vinculava os respetivos financiadores ' e muito concretamente
a família Espírito Santo, máximo símbolo da alta finança ' a uma teia
conspirativa cuja sombra pairava sobre o governo provisório e o MFA, com
consequências que se viriam a revelar decisivas. Embora não houvesse qualquer
indício de envolvimento de banqueiros ou grandes empresários na preparação do
golpe militar derrotado a 11 de Março, o facto de ele ter sido protagonizado
pelos militares spinolistas favoreceu a sua inscrição no mesmo enredo do 28
de setembro: uma conspiração da alta finança contra a democracia, utilizando
os circuitos bancários à sua disposição.
UM PRINCÍPIO DE PÂNICO
Com a oscilação da situação política para a esquerda na sequência da demissão
de Spínola, o debate em torno das transformações necessárias à consolidação do
regime democrático evoluiu num sentido socializante, ganhando força a ideia
de que o Estado deveria intervir mais ambiciosamente na esfera económica. A
própria interpretação dos acontecimentos recentes favorecia esta passagem. O
editorial do Expresso de 5 de outubro, por exemplo, classificava o 28 de
setembro como um confronto claro entre uma esquerda' apoiada numa certa
leitura do Programa do MFA e apoiante deste movimento (ou melhor, da maioria
deste), e uma direita', que não quer e não sabe jogar a democracia (e por trás
da qual se perfilam grupos capitalistas de relevo)23. Fernando Ulrich,
comentador de assuntos económicos naquele jornal, que poucos meses antes
defendia soluções que respeitassem a iniciativa privada e oferecessem garantias
aos investidores, considerava agora fundamental a intervenção do Estado para
organizar a economia e assegurar a autoridade necessária ao funcionamento
regular das empresas, com uma argumentação pragmática que sublinhava a
impotência do patronato numa situação de crise revolucionária:
Nota-se um princípio de pânico na burguesia portuguesa. [ ] Para além
do susto que apanharam (os capitalistas) nos últimos dias, com os
piquetes populares, as prisões de implicados na intentona e as buscas
domiciliárias, o acelerar do saneamento nas empresas privadas
diminuir-lhes-á grandemente, não só a capacidade de iniciativa
individual (já deficiente na maioria dos casos), como lhes retirará
aliados. Conjugando estes aspectos com o aumento da coesão e do poder
das organizações sindicais, veremos facilmente que o argumento em que
mais se tem baseado a defesa da iniciativa privada está fortemente
ameaçado: a capacidade de gestão.24
A 12 de outubro foi dado um passo determinante, quando o III Governo Provisório
decidiu intervir no Banco Intercontinental Português e demitir os seus
administradores. Fundado por Jorge de Brito (antigo quadro do Banco Pinto e
Sotto Mayor), o que se designava por Grupo BIP incluía a instituição com o
mesmo nome, o Crédito Predial Português, a Companhia de Seguros Bonança, o
jornal O Século e parte do capital da BRISA. Tinha ainda uma intensa atividade
no setor do imobiliário, através de uma relação privilegiada com a Torralta,
empresa dedicada aos investimentos com fins turísticos. A crise deste setor
veio imobilizar uma larga soma de investimentos, reforçando a crise de liquidez
de um banco cuja atividade dependia de uma acelerada rotação de capitais. O
grupo sofrera consideráveis dificuldades financeiras ao longo dos dois anos
anteriores, suscitando dúvidas relativamente ao valor das suas emissões
públicas de títulos, considerados sobreavaliados25. José Silva Lopes recordaria
mais tarde as causas da intervenção:
Brito utilizava os depósitos para os seus negócios pessoais. Tudo
quanto ali se punha era para os seus negócios pessoais. Não
emprestava apenas a si próprio. Emprestava também ao jardineiro, que
era para ele, claro. Ele comprava de tudo: terrenos, palácios, arte
tudo. Depois, nas compensações do Banco de Portugal [o acerto dos
cheques e transferências passados pelos clientes e depositados
noutros bancos], o BIP estava sempre a descoberto. E o BdP aparecia-
me lá quase todos os dias a dizer mais um descoberto do BIP. O BdP
teve que adiantar nessa altura 10 milhões de contos.26
O afastamento dos administradores do grupo ocorreu ao abrigo do Decreto-Lei n.º
540-A/74 (12 de outubro), que enquadrava a intervenção do Estado nas
instituições de crédito que sofriam dificuldades de tesouraria, autorizando o
Governo a apoiá-las financeiramente sempre que se verificasseuma solução de
desequilíbrio que, pela sua extensão e continuidade, possa afetar o regular
funcionamento dessa instituição ou tenda a perturbar as condições normais do
mercado monetário, cambial ou financeiro, bem como a nomear delegados para os
seus órgãos administrativos e remover ou suspender os administradores.27 O
diploma especificava a excecionalidade e o caráter temporário dessa
intervenção, que deveria terminar logo que reunidas as condições para o regular
funcionamento da instituição em causa. Se até este momento a política económica
assentara sobretudo no objetivo de garantir liquidez às empresas sem interferir
com a sua gestão, o novo diploma admitia a intervenção do Estado e a nomeação e
demissão de administradores caso o interesse público o justificasse.
O Decreto-Lei n.º 660/74 de 25 de novembro veio alargar as modalidades de
assistência e intervenção do Estado a todas as empresas que não funcionassem
em termos de contribuir normalmente para o desenvolvimento económico do país e
para a satisfação dos interesses superiores da coletividade nacional,
estabelecendo nada menos do que oito tipos de situações para a justificar:
a) Encerramento ou ameaça de despedimentos, total ou de secções
significativas da empresa, ou despedimentos efectivos ou iminente de
parte do pessoal sem justa causa; b) Abandono de instalações ou
estabelecimentos; c) Descapitalização ou desinvestimento
significativos e injustificados; d) Incumprimento ou mora no
cumprimento, de forma reiterada, das obrigações da empresa; e) Desvio
de fundos da actividade corrente da empresa; f) Redução dos volumes
de produção não justificada em termos de mercado; g) Empolamento
injustificado das despesas gerais e de administração; h) Outras
situações emergentes de conduta dolosa ou gravemente negligente na
condução da actividade empresarial.28
Tratava-se de um conjunto muito alargado de situações, que correspondiam a atos
muito diferentes, alguns dos quais não poderiam deixar de corresponder a
avaliações necessariamente subjetivas. O decreto incluía ainda as condições
para a concessão de crédito de emergência e a possibilidade de substituir os
órgãos sociais de uma empresa por uma Comissão Administrativa nomeada pelo
Governo, para além de assumir um alcance mais decisivo no seu artigo 5.º : Se
tiver sido constatado entretanto que é contrário ao interesse público restituir
uma empresa que foi reequilibrada com recursos da coletividade àqueles que a
conduziram à rotura do seu equilíbrio económico e financeiro, o Estado pode
decretar a sua nacionalização subsequente. Muitas das situações que podiam
justificar um inquérito e posterior intervenção correspondiam ao campo de
vigilância e denúncia das Comissões de Trabalhadores e delegados sindicais.
Funcionando como convite à fiscalização da contabilidade e dos inventários de
cada empresa pelos próprios trabalhadores ou seus representantes, o diploma
favorecia uma inversão da correlação de forças no interior das empresas da qual
saía fragilizada a parte patronal.
A 29 de novembro foi instituída, através do Decreto-Lei 671/74, a nomeação de
delegados do Banco de Portugal junto da banca privada, que podiam assistir às
reuniões de todos os órgãos sociais das instituições de crédito que
acompanhavam e consultar qualquer documento necessário à investigação de
eventuais irregularidades. Deviam recolher dados sobre aplicações de capital,
concessão de crédito ou avales bancários, obtenção de créditos externos e
relações com as sucursais no estrangeiro, para além de informações acerca da
situação financeira das empresas que solicitavam crédito à banca privada.
Nalguns casos a análise dos delegados veio revelar que as instituições de
crédito canalizavam o dinheiro que obtinham junto do Banco de Portugal para
fins distintos do previsto, ou simplesmente difíceis de avaliar. No Banco do
Alentejo, cerca de 230 mil (63%) dos 360 mil contos concedidos correspondiam a
empresas do grupo, motivando uma apreciação bastante crítica:
Observa-se já que 12 das empresas do grupo, tendo no seu conjunto um
capital social de 3850 contos, apresentam responsabilidades totais
superiores a 460 000 contos. Independentemente do resultado de
ulteriores trabalhos, a fim de averiguar da situação patrimonial das
empresas, trabalhadores que directa ou indirectamente nelas laborem,
etc., este facto é só por si elucidativo e chocante. Mas não é
surpreendente, antes confirma o que se sabia já em relação a este e
a outros bancos, isto é, que estão ao serviço ' e servindo-se também
' de empresas, tantas delas sem expressão em termos de capital
próprio e insignificantes em termos dos postos de trabalho que
proporcionam, todas elas agrupadas em torno dos interesses do seu
grupo, e cuidando exclusivamente desses ' ou muito pouco de outros
alheios.29
No Banco Borges & Irmão o delegado concluiu quealiquidez injetada no
sistema bancário pelo Banco de Portugal estava a ser canalizada
primordialmente para um pequeno conjunto de empresas, estando 51% da carteira
comercial daquela instituição distribuída por 183 empresas, das quais 48
beneficiavam de 67% dos avales e garantias prestadas30. Cerca de 44% das
empresas do grupo não tinham qualquer atividade produtiva, beneficiando no
entanto de metade do crédito concedido às empresas associadas, que correspondia
a 16% do crédito total concedido. Sete empresas mereceram uma atenção especial,
uma vez que o crédito que lhes foi concedido (financiamentos titulados por
letras e livranças) não tinha qualquer correspondência com o seu capital
social, resultados comerciais ou despesas com pessoal, sendo impossível efetuar
a sua cobrança nos prazos de vencimento previstos, devido à imobilização das
carteiras de títulos e participações financeiras que compunham os seus
ativos31. A conclusão que resultava da sua análise era liminar:
A quase totalidade das empresas referidas não suporta encargos com
pessoal, o que comprova a inexistência de qualquer actividade.
Verifica-se que, mesmo ante a legislação que disciplina o sistema
bancário, cuja fragilidade em algumas disposições reflecte a pesada
influência que os interesses e o poder de pressão política daqueles
que deveria disciplinar exerciam no anterior regime, a situação do
grupo é ilegal: a despeito da proliferação de empresas criadas com
capitais sociais simbólicos (destinados apenas a iludir as
disposições limitativas da concessão de crédito por um banco a uma
mesma entidade, impeditivas da aquisição de acções de um banco pelo
próprio banco, ou de outras operações do mesmo tipo) os limites de
concessão de crédito a uma mesma empresa estão excedidos em vários
casos, conforme aliás, já foi superiormente comunicado.32
Apesar da variedade de informações e apreciações que resultavam do
acompanhamento das instituições da banca privada por estes delegados, o segredo
e a confidencialidade que habitualmente caracterizavam as instituições de
crédito iniciavam aqui o seu recuo decisivo, num momento em que à vigilância
sindical se vinha somar a do Banco de Portugal. Atuando em paralelo ou de forma
concertada, ambas revelavam a prática de irregularidades em diversos bancos e
acabavam por confirmar que a liquidez injetada pelo Banco de Portugal nem
sempre era aplicada de acordo com os critérios determinados pelo Governo.
Mas nada disto era do conhecimento público na madrugada de 13 de dezembro,
quando foram presos vários empresários e administradores associados à Torralta,
ao Banco Intercontinental Português, ao Crédito Predial Português e à Sociedade
de Financiamento Portuguesa, acusados de atos de sabotagem económica como
desfalques e desvios de fundos para o estrangeiro33. Efetuadas com mandatos
emitidos pelo COPCON, estas detenções geraram polémica no interior do III
Governo Provisório e levaram mais tarde à publicação do texto de defesa de
alguns dos detidos (Carvalho, 1976). Tudo resultara das investigações levadas a
cabo na Sociedade Financeira Portuguesa, à qual foi atribuída a prática de
diversas operações fraudulentas e desastrosas de que teriam resultado
avultadas e indevidas comissões em favor dos respetivos intervenientes34. Ao
inquérito sucedera-se uma investigação da Inspeção-Geral de Crédito e Seguros,
por suspeitas de irregularidades de algumas transferências bancárias efetuadas
pelo BIP (Carvalho, 1976, pp. 55-59). A Torralta viera por arrasto, devido aos
seus problemas de liquidez e à venda de títulos não autorizados pelo Banco de
Portugal. Numa altura em que o Governo Provisório multiplicava os apelos à
moderação salarial e a uma política de austeridade, o impacto das notícias
vindas a público era considerável no que respeitava à representação dos
empresários portugueses. As causas apresentadas para justificar as detenções
pareciam justificar severas medidas de controlo sobre a iniciativa privada e um
aprofundamento da dimensão antimonopolista do programa do MFA, sugerindo que
a intervenção do Estado na economia corria o risco de vir a ocorrer demasiado
tarde. Pelo seu lado, o Sindicato dos Bancários esforçava-se por associar o
setor financeiro aos inimigos da democracia e da revolução, distribuindo no dia
seguinte um comunicado onde considerava que o facto de a actuação do MFA ter
atingido particularmente o sector bancário demonstrava a justeza do nosso
entendimento quando o definimos como um sector-chave que urge transformar
adaptando-o às necessidades da luta antimonopolista, tarefa primordial no
actual momento político35. A 30 de dezembro uma nova circular fazia o ponto da
situação, referindo a recolha de elementos denunciadores de actividades
sabotadoras e conspirativa, desvios propositados de capitais e
financiamentos de atos contrarrevolucionários, como o 28 de Setembro
detetados pela vigilância sindical. Faltavam quatro dias para os trabalhadores
da banca exigirem ao Governo Provisório a nacionalização do setor e a orquestra
da sabotagem económica não cessava de tocar.
Durante o inverno de 1974-1975 começou a ganhar forma uma segunda vaga de lutas
sociais marcada por uma passagem da reivindicação económica ao movimento
político (Santos et al., 1976, p. 60). Os despedimentos e a retração da
iniciativa privada provocavam novos conflitos relacionados com o poder no
interior das empresas e com o controlo sobre a produção e a gestão financeira.
Surgiram experiências de autogestão em pequenas empresas que enfrentavam
quebras de encomendas e problemas de tesouraria, com o objetivo de salvaguardar
o pagamento dos salários na sequência da fuga ou afastamento do respetivo
proprietário, solicitando frequentemente a realização de inquéritos para apurar
irregularidades e a intervenção do Estado36. Nas grandes empresas exigia-se
saneamentos e nacionalizações, no sentido de quebrar a espinha dorsal do
capital monopolista. Nos campos do Sul começavam as primeiras ocupações de
terras, impulsionadas pelo Sindicato dos Trabalhadores Agrícolas ao abrigo do
Decreto-Lei 660/7437, enquanto Carlos Fabião, falando em nome do MFA, deixava
antever o futuro próximo:
A pátria é de todos e não apenas de alguns, pelo que, se os
empresários, dentro de determinados parâmetros que consideramos
razoáveis, estiverem dispostos a colaborar, como aliás tantos o estão
fazendo, serão bem-vindos e apreciados. Porém, é óbvio que se
colocarem o seu desejo de lucro fácil e imediato acima dos reais
interesses do povo ou pretenderem furtar-se à colaboração que lhes
foi pedida, teremos de utilizar outros processos que a sua actuação
reaccionária largamente legitimará. O nosso povo costuma dizer que
para grandes males grandes remédios e é bom que todos saibam que o
MFA recorrerá a todas as vias possíveis para salvar a economia
nacional. Pergunta-me quem definirá o ponto em que o capital deixará
de colaborar? É fácil, será o próprio capital. A partir daí o modo
não interessa, qualquer um que se utilize será legal.38
Cada irregularidade detetada ou ato de sabotagem económica denunciado vinha
reforçar a imagem dos banqueiros conspiradores, dos capitalistas monopolistas,
dos patrões reacionários, cujo poder se tornava necessário combater para
defender a própria democracia. A 4 de março, um comunicado intitulado
Vigilância contra os sabotadores económicos estabelecia com meridiana clareza
a relação entre política e economia no contexto do processo revolucionário:
A experiência adquirida pelos monopolistas sabotadores e os apoios de
que dispõem dentro e fora do país, permite-lhes o aperfeiçoamento dos
processos que irão refinando enquanto tal lhes for permitido. Se não
aproveitamos também as nossas possibilidades e a nossa experiência
para tornar a vigilância cada vez mais eficaz, corremos o risco de
deixar pôr em perigo as conquistas já obtidas. [ ] E das duas uma: ou
a banca (e através dela os monopólios) continua estruturada da mesma
maneira e subverterá a situação política (regresso à ditadura
fascista), ou o poder político a domina fazendo-a actuar de acordo
com as necessidades do avanço do processo revolucionário.39
Tornou-se assim fácil para os delegados sindicais tomar conta do setor bancário
no dia 11 de março de 1975 e impor a sua nacionalização, sob o pretexto de
retirar o controlo de um setor fundamental da economia àqueles que eram
considerados os mais perigosos inimigos do novo regime democrático. No início
de abril a direção sindical veio expor um conjunto exaustivo de informações
relativas a atos de sabotagem monopolista e reaccionária, obtidas na
sequência do acesso dos delegados sindicais aos cofres-fortes e gabinetes das
administrações da banca comercial.40 Quatro dias depois, o Jornal de Notícias
publicou uma entrevista em que Mário Murteira, que passara recentemente de
vice-governador do Banco de Portugal a ministro da Coordenação Económico do IV
Governo Provisório, discorria sobre o mesmo assunto:
Imediatamente verificámos que nacionalizar a banca privada significou
destapar os segredos do grande capitalismo nacional e internacional
no nosso país. E aquilo que se suspeitava por aqui e por acolá pôde
imediatamente vir à superfície. Quando se falava em sabotagem
económica numa linguagem quase mística, figurada, nós pudemos então
verificar exactamente como as coisas se passavam: inúmeras
irregularidades, fraudes, desvios de fundos para o estrangeiro,
medidas que favoreciam determinados grupos em detrimento de pequenas
e médias empresas, fenómenos de corrupção.41
As recém-nomeadas Comissões Administrativas detetaram mais desvios e
exportações ilícitas de capitais, a existência de sacos azuis e manobras
especulativas no mercado de títulos, muitas das quais haviam resultado em
elevados prejuízos deixados à banca nacionalizada pelas administrações
anteriores. Mas destapar os segredos do grande capitalismo já não
correspondia tanto ao discurso de acusação das organizações sindicais contra a
alta finança e o capital monopolista, passando a integrar uma narrativa que
justificava e enquadrava as transformações em curso na esfera económica,
incorporando o conteúdo do comunicado de 4 de março: liquidar o poder da
oligarquia que controlava a banca privada era uma condição necessária para a
democratização da sociedade portuguesa. Não apenas os piquetes sindicais
formados a 11 de março tomaram conta das instalações bancárias, mantendo-as
encerradas até o Conselho da Revolução aprovar a sua nacionalização, como a
orquestra da sabotagem económica providenciaria à campanha eleitoral para a
Assembleia Constituinte uma pauta ' a da via portuguesa para o socialismo '
que definiria o horizonte histórico pelo qual se regeria o debate político ao
longo dos anos seguintes.
CONCLUSÃO
As organizações sindicais e Comissões de Trabalhadores revelaram a capacidade
estratégica de empregar a seu favor, nos conflitos que as opunham às entidades
patronais, uma narrativa que fez das denúncias de atos de sabotagem económica
uma antecâmara da intervenção do Estado ou da nacionalização da respetiva
empresa/setor. A reivindicação de um interesse coletivo (nacional),
contraposto aos interesses privados (monopolistas) permitiu-lhes mobilizar um
dispositivo capaz de tornar visíveis práticas de gestão empresariais
habitualmente opacas, de enunciar a sua ilegitimidade num contexto de crise e
de prescrever a sua expropriação enquanto condição para uma democratização
integral da sociedade portuguesa. Essas práticas correspondiam tanto a
financiamentos a partidos políticos empenhados no combate à coordenadora do MFA
como à rejeição de pedidos de crédito de pequenas e médias empresas,
despedimentos ou lock-outs, exportações ilícitas de capitais e sacos azuis para
remunerar depósitos a taxas superiores ao que era permitido pela legislação
bancária, desvios de fundos para empresas fictícias e venda não autorizada de
títulos mobiliários. A sua subsunção num mesmo conceito correspondeu a um
trabalho político, discursivo e interpretativo, conduzido por múltiplos atores
e sujeitos, de acordo com estratégias variáveis, mas que conduziam todas ao
mesmo objetivo: a deslegitimação dos grandes empresários portugueses e a
intervenção do Estado na economia, consagrando o poder das organizações
representativas dos trabalhadores no interior das empresas em detrimento do
direito de propriedade e das estruturas de gestão privada. Prolongando as lutas
sociais que contribuíram, em maio e junho de 1974, para que o golpe militar se
convertesse num processo revolucionário, as denúncias das irregularidades e
práticas conspirativas levadas a cabo pelos grandes empresários levaram a que a
transição para a democracia assumisse ' ainda que fugazmente ' a forma de uma
transição para o socialismo. Sem a orquestra da sabotagem económica, a
economia política do processo revolucionário teria sido substancialmente
diferente.