As universidades portuguesas na senda da investigação empreendedora: onde estão
as diferenças?
INTRODUÇÃO
Os temas que têm alimentado o debate contemporâneo sobre o estado da ciência
são múltiplos e controversos. A lista é longa, mas alguns destes temas são
recorrentes, em especial os que mais diretamente se interessam pelas mudanças
atuais dos quadros epistemológicos, éticos e sociais que envolvem a ciência.
Uma boa parte da literatura no campo tem interrogado consistentemente estas
mudanças, organizando as suas propostas de teorização em torno de um conjunto
de questões críticas para a produção de ciência (Olssen e Peters, 2005;
Marginson, 2007; Cohen, McAuley e Duberley, 2001; Pels, 2003; Santiago e
Carvalho, 2004; Martins, 2004, 2011; Garcia e Martins, 2008; Bourdieu, 2008;
Becher e Trowler, 2001; Ziman, 1994, 2000; Gibbons etal., 1994; Calboun, 2006;
Slaughter e Rhoades, 2004; Bok, 2003). Estas questões incluem, entre outras, a
distinção entre a base disciplinar e a base inter e transdisciplinar da
ciência; a relação entre a ciência básica/fundamental, a ciência auto-
interessada e a ciência aplicada, estratégica e tecnociência; as fronteiras
entre ciência e mercado; e o controlo e a regulação da ciência e do seu espaço
e tempo (longo, médio ou curto prazo).
A possibilidade de delinear um conjunto de reflexões em torno destas questões
não pode ignorar as profundas transformações ocorridas no ambiente
institucional, e que têm hegemonizado as conceções e as finalidades da ciência
desde o início da década de 80 do século passado. De facto, o aumento das
críticas dirigidas à ciência tradicional foi coincidente com o movimento de
colonização das políticas públicas pela nova racionalidade política e de
mercado neoliberal, servidas, no terreno, pelo managerialismo/Nova Gestão
Pública (NGP). Em muitos países ocidentais, o Estado tornou--se um ator central
na criação das novas condições sociais, institucionais e epistemológicas sob as
quais o conhecimento é compreendido e produzido. Seguindo o pensamento de
Bourdieu (1989; 2006), podemos dizer que, num certo sentido, o campo científico
também é objeto da imposição de categorias simbólicas de pensamento sobre o que
deve ser a produção de ciência e as suas finalidades. Estas categorias são
dominadas pela lógica económico- utilitarista, conectada com as narrativas
sobre a sociedade do conhecimento, crescentemente significada como economia
do conhecimento (Olssen e Peters, 2005). Dos diferentes lugares de produção
do conhecimento, em particular das universidades, é esperada uma revolução
cultural e empresarial/empreendedora que coloque uma boa parte da ciência no
envelope da racionalidade económico-gestionária. O recurso às noções de
ciência académica e pós-académica de Ziman (1994, 2000), ao significado dos
acrónimos CUDOC (Comunalismo, Universalismo, Desinteresse, Originalidade,
Ceticismo) (Merton, 1973; Merton e Barber, 2004) e PLACE (Proprietário,
Local, Autoritário, Comissionado, Especializado) (Ziman, 1994) e aos tipo-
ideais Modo 1 e Modo 2 de produção do conhecimento (Gibbons et al., 1994)
contribui para caracterizar tal revolução. Sobretudo, permite compreender
melhor o impacto epistemológico, social e cultural resultante da imposição de
valores empresariais/empreendedores e de mecanismos de coordenação pelo mercado
nos sistemas de ciência e tecnologia. Em última instância, o que parece estar
em causa nesta imposição é a crença na possibilidade de reconfigurar o
capitalismo tradicional através da reconversão da economia industrial em
economia do conhecimento (Feldman, 2001).
O domínio das narrativas sobre a racionalidade económica e utilitária na
produção do conhecimento constitui uma tentativa profunda para reconfigurar o
paradigma tradicional de ciência. O controlo e a regulação da investigação
deixa de ser uma prerrogativa dos académicos, exige resultados a curto prazo e
impõe uma hierarquia na investigação, assente na ideia de resolução de
problemas orientada para a relevância económica. As barreiras disciplinares são
quebradas, emergindo, numa posição dominante, uma transdisciplinaridade
utilitária, submetida à retórica da inovação, e alinhada com os interesses do
mercado e da economia. Em suma, uma boa parte da investigação tornou-se menos
independente, os critérios exógenos vão, crescentemente, substituindo os
critérios endógenos na definição do que deve ser investigado (Bourdieu, 2008) e
os seus produtos passaram a ser categorizados como um bem privado, com um
preço no mercado. Subsiste, contudo, uma importante questão que ainda não foi
inteiramente explorada nos numerosos estudos no campo. Até que ponto a agenda
do Estado, da indústria e dos serviços, desenhada para transformar o modo de
produção de ciência, foi endossada pelas universidades e pelos académicos e
transformada num projeto institucional próprio?
Na realidade, no estado atual do conhecimento, parece-nos não ser possível
ajuizar ainda, com alguma segurança, em que grau a agenda e pressões
governamentais e da indústria sobre as novas formas e modos de fazer ciência,
penetraram nos discursos e nas práticas das instituições e dos académicos. Da
mesma forma, não é ainda possível apreender o sentido estratégico desse mesmo
discurso, sabendo-se que os ganhos de numerosas universidades com a
comercialização do conhecimento têm ficado muito aquém das expectativas criadas
(Bok, 2003; Calboun, 2006; Vestergaard, 2007).
Em Portugal, desde os finais dos anos 90, as narrativas e o controlo e
regulação da produção de ciência têm seguido um trajeto semelhante ao que
descrevemos atrás. A relevância económica da ciência e da tecnologia foi
claramente colocada no centro das prioridades políticas, em detrimento da
relevância social e cultural. No entanto, em termos gerais, também pouco se
sabe sobre o impacto dessas prioridades nas instituições e nos académicos/
investigadores. De uma forma mais específica, ainda é relativamente
desconhecida a forma como estas prioridades têm sido significadas pelas
instituições como um novo projeto próprio, científico e académico, e
assumidas como uma oportunidade para produzir, no exterior, uma nova imagem
institucional e social.
Este artigo pretende analisar o modo como a investigação é apresentada pelas
universidades públicas portuguesas nos seus websites. A análise das narrativas
que visam divulgar essas atividades são assumidas, no contexto deste estudo,
como textos orientados por valores, direcionados para comunicar a audiências,
internas e externas, um valor específico ou uma dada imagem institucional,
sustentada em determinadas conceções da ciência e da investigação (Walton,
2005; Mautner, 2005). Neste âmbito, com recurso à análise de conteúdo temático-
categorial, foram analisados os websites das 15 universidades públicas
portuguesas, em particular os seus enunciados de missões e objetivos, e as
estratégias e estruturas de investigação divulgadas nas suas diferentes
páginas.
AS NOVAS CONDIÇÕES NA PRODUÇÃO DE CONHECIMENTO
Mais recente que o ensino, a investigação emergiu na universidade embutida na
filosofia humboldtiana. Esta filosofia centrava-se em princípios como a
integração do ensino e da investigação, atribuindo à universidade a obrigação
de promover a criação de conhecimento, e de assegurar a sua preservação e
transmissão, em nome de uma procura constante e desinteressada da verdade. O
conhecimento tornou-se, assim, na matriz da reconstrução da universidade
enquanto instituição da modernidade. Embora as humanidades tenham,
decisivamente, contribuído para esta reconstrução, a institucionalização
académica das ciências naturais e físicas impulsionou-a fortemente,
transformando a universidade numa estrutura sistemática de investigação
(Barnett, 2003).
A adaptação social e cultural da filosofia humboldtiana ao Estado-providência
permitiu, em certa medida, que a investigação fosse relativamente protegida das
pressões políticas, sociais e de mercado. Em termos históricos, as exceções a
esta proteção são sobejamente conhecidas, assim como a instrumentalização da
investigação e da ciência por diferentes aparelhos industriais, coloniais e
político-militares (Martins, 2004, 2011; Garcia e Martins, 2008). Apesar destas
exceções, a investigação básica e aplicada manteve-se, até ao início dos anos
70, essencialmente como uma atividade de natureza pública, na qual se inscrevia
o pressuposto, largamente partilhado, de que a ciência era um bem público que
produzia substanciais benefícios sociais e externalidades positivas. A
transferência de conhecimento da universidade para a indústria não era um
fenómeno estranho, mas a lógica política e académica do interesse e benefício
público da ciência ia prevalecendo em confronto com o interesse e benefício
privado (Lazerson, 1998).
Neste contexto, a investigação académica era conduzida, principalmente, com
base em processos endógenos (Bourdieu, 2008), ligados a iniciativas científicas
individualizadas (Olssen e Peters, 2005) e ancoradas na articulação entre a
motivação intrínseca e extrínseca dos investigadores. A motivação extrínseca
era (e, em parte, continua a ser) impulsionada por recompensas simbólicas,
materializadas na conquista de prestígio social, de poder e da liderança
científica num dado campo disciplinar ou sub-disciplinar. A organização interna
da ciência sustentava-se numa base disciplinar e na distinção entre ciência
básica (descoberta de conhecimento básico) e aplicada (aplicação para
finalidades específicas).
A articulação da filosofia humboldtiana com o tipo-ideal mertoniano de
produção e disseminação da ciência ' CUDOC ' emergia como um quadro
representacional dominante na orientação das condutas dos investigadores e das
instituições. O acrónimo CUDOC sintetiza um conjunto de normas ideológicas e
tácitas (Bourdieu, 2008) que procuram legitimar a ideia de criação de
conhecimento livre (for its own sake) e os princípios da curiosidade e dos
valores neutros da ciência (Pels, 2003), enquanto algo separado dos interesses
económicos específicos da sociedade. Num certo sentido, o acrónimo CUDOC serviu
de inspiração a Gibbons etal. (1994) na construção do tipo-ideal Modo 1, com
o qual procuram caracterizar a ciência tradicional, e ainda a Ziman (1994,
2000) quando propõe a noção de ciência académica para significar o espaço-
tempo institucional no qual a ciência é endogenamente localizada (nas
universidades), conduzida por académicos/investigadores autónomos, e submetida,
exclusivamente, ao controlo dos pares.
Este quadro de referência, simultaneamente ideológico, institucional e
epistemológico, tem sido objeto de um forte escrutínio crítico ao longo das
últimas três décadas. As origens próximas deste escrutínio podem ser analisadas
tomando duas direções, articuladas entre si. Em primeiro lugar, mais do que em
períodos anteriores, emergiram fortes pressões governamentais e empresariais
para a reconfiguração do capitalismo industrial tradicional, com base na crença
de que a solução para esta reconfiguração reside na indústria/economia do
conhecimento (Feldman, 2001) e no papel que esta pode assumir na aquisição de
vantagens competitivas nacionais na arena da globalização. O interesse do
Estado é aqui identificado com os interesses empresariais. Em segundo lugar, as
mudanças nas narrativas e nas práticas, que têm alimentado esta reconfiguração,
têm sido conduzidas, de forma dominante, por assunções neoliberais, centradas
no produtivismo e no utilitarismo, em estreita conexão com os princípios do
mercado, os quais, progressivamente, têm imigrado para o ensino superior e para
o sistema de ciência e tecnologia pela mão do managerialismo/NGP.
Voltando à nossa primeira direção de análise, parece-nos importante salientar
que a tela em que estão inscritos os processos de reconversão do capitalismo é
tecida pela ideia de que a sustentação dessa reconversão reside na nova
economia ou na economia do conhecimento. O papel do conhecimento na
reprodução do capitalismo é obsessivamente sobrevalorizado pelo palco da
globalização competitiva. Esta sobrevalorização tem conduzido o Estado a
(re)conceptualizar e a instrumentalizar as suas políticas do ensino superior e
de ciência e tecnologia com o objetivo de transformar o conhecimento numa nova
forma de acumulação de capital, orientada para a competitividade da economia
(Calboun, 2006). Nesta perspetiva, o conceito de capital intelectual constitui
um dispositivo-chave na legitimação das práticas legais de proteção do
conhecimento, materializando-se na identificação da propriedade individual com
a noção de propriedade intelectual. Este fenómeno permite perceber, por um
lado, por que é que a universidade é politicamente representada como um ator
coletivo-chave na reconfiguração do capitalismo, mesmo que já não detenha o
monopólio da produção de conhecimento, e, por outro lado, por que é que o
ensino superior e a ciência e a tecnologia foram eleitos como uma prioridade
política. Esta prioridade tem insistido, recorrentemente, na necessidade de
alinhar o ensino superior com a economia e o mercado de trabalho, assim como no
estabelecimento de interações estreitas e/ou parcerias com a indústria. O
pressuposto que sustenta este alinhamento reflete, claramente, a crença sobre
a possibilidade de reconstruir uma economia mais sólida, baseada na
transferência de conhecimento e na sua transformação em tecnologia e inovação.
Algum pensamento académico tem legitimado esta nova estratégia política de
colocar a ciência no envelope da racionalidade económica. O modelo triple
hélix, proposto por Etzkowitz (2003a; 2003b) é exemplar quanto a esta
legitimação. Para Etzkowitz (2003a) a institucionalização de uma terceira
missão para a universidade ' a missão económica ' e, simultaneamente, a criação
de valor através do capital intelectual ' o capital intelectual está a tornar-
se tão importante como o capital financeiro como base do futuro crescimento
económico (p. 295) - seriam as condições básicas requeridas para o
estabelecimento de uma nova aliança entre a universidade/ciência, a indústria e
o Estado. Esta aliança pressupõe, no entanto, reconversões mútuas: a
transformação da universidade num semi-ator empresarial (quase-empresa), da
indústria em semi--ator académico (quase-universidade) e o Estado em
supervisor, ou terceiro parceiro, guardião dos interesses económicos nacionais
e da consistência do sistema.
Contudo, como Kleinman e Valas (2001) argumentam, existe uma convergência
assimétrica nesta aliança. A indústria é sempre dominante neste sistema de
interações, e isso apesar de as universidades terem privatizado alguns dos seus
meios de produção de conhecimento, transformando-os em unidades que se
comportam como empresas ou quase-empresas. Apesar de em Portugal o peso da
indústria não ser tão significativo na economia, quando comparado com outros
países desenvolvidos, não deixa de ser um facto que as universidades e os
académicos estão submetidos a fortes pressões políticas e gestionárias. Estas
decorrem, em grande medida, de restrições financeiras substanciais, que têm
conduzido, noutros países, a um aumento do controlo do conhecimento por
gestores e pelas lógicas da gestão (Hellstöm e Jacob, 2005). Deste modo, as
condições que definem as relações entre a universidade e a indústria são
desiguais. Ao nível simbólico, os conceitos de capital intelectual e de
propriedade intelectual têm sido tão popularizados, e com tal insistência
apresentados como um argumento racional, orientado para aumentar a utilidade
económica do conhecimento, que a sua intrusão no ensino superior e na ciência
tem vindo a ser absorvida como uma verdade incontestável e naturalizada,
dificilmente refutável (Hellstöm e Jacob, 2005).
Tomando agora a nossa segunda direção de análise, parece-nos pertinente
sublinhar o papel determinante que o neoliberalismo, e as perspetivas
tecnocráticas do managerialismo/NGP, que se constituíram como a sua
instrumentação, têm assumido na reestruturação do ensino superior e do sistema
de ciência e tecnologia. Na realidade, os novos ambientes institucionais,
gerados a partir desta reestruturação, procuram impor a ideia de que as
universidades devem ser, sobretudo, um mecanismo coletivo eficiente, de modo
a aproveitar, de forma otimizada, as oportunidades que surgem no mercado do
ensino e da ciência. As universidades são instadas a adquirir capacidades para
se alinharem com a sociedade, ou melhor dizendo, com a economia (Gibbons et
al., 1994; Helstöm e Jacob, 2005), no sentido de mobilizar melhor os seus
recursos no processo de acumulação de capital (Feldman, 2001). As universidades
são, assim, representadas segundo uma perspetiva vincadamente utilitarista,
quase como sistemas de inputs-ouput redutíveis a uma mera função económica
(Olssen e Peters, 2005). Nesta lógica, é esperado que tomem a cultura
empresarial/empreendedora como um projeto próprio, transformando-se em
agentes económicos e parceiros do Estado e da indústria (Cohen, McAuley e
Duberley, 2001).
A institucionalização de um projeto desta natureza coloca grandes desafios
aos processos de produção de conhecimento. Entre estes, o maior é, sem dúvida,
o da emergência da dependência epistemológica, ligada à simplificação e à
redução, a mecanismos utilitários da complexidade cognitiva, cultural e social
envolvida no próprio conceito e processos de construção da ciência (Pels,
2003). De facto, o domínio do utilitarismo na ciência ignora, em grande medida,
o conhecimento cultural, moral e social desinteressado, esvaziando-o dos seus
conteúdos humanos (Muller e Subotzky, 2001). A transdisciplinaridade
económica, a desvalorização dos temas disciplinares isolados, a sobreposição
da resolução de problemas à pesquisa crítica, livre e auto-interessada e a
substituição do longo e médio prazo pelo curto prazo na obtenção de resultados,
surgem como fatores que podem contribuir decisivamente para esse esvaziamento.
Ziman (1994, 2000) caracteriza este novo contexto de produção de ciência com a
noção de ciência pós-académica, o qual, em certa medida, cobre um conjunto
semelhante de fenómenos que Gibbons etal., (1994) se propõe analisar com o
tipo-ideal Modo 2 de produção de conhecimento. Entre estes fenómenos é
possível destacar a crescente contextualização da ciência e a
transdisciplinaridade; a diversidade organizacional na produção de ciência; o
domínio da racionalidade económica sobre os processos e resultados de
investigação, e o controlo da investigação pela racionalidade de gestão e da
economia, o que confere aos investigadores uma determinada responsabilidade
perante uma certa ordem de mercado e os seus clientes/empresas (Olssen e
Peters, 2005). O acrónimo de Ziman (1994, 1996, 2000) ' PLACE ' expressa bem o
crescente domínio desta ordem de mercado sobre a ciência contemporânea. As
dinâmicas exógenas e a heteronomia na construção social da ciência, dependentes
da satisfação dos clientes/investidores, vão conquistando uma posição
hegemónica em relação às dinâmicas endógenas e à autonomia dos investigadores
(Bourdieu, 2008).
Contudo, parece emergir um paradoxo nessa hegemonia. Calbour (2006), por
exemplo, referindo-se às universidades americanas, sublinha que se algumas têm
aumentado, recentemente, os seus rendimentos com a comercialização da ciência,
poucas beneficiaram efetivamente com as parcerias com o setor empresarial, no
que respeita a licenças ou outras atividades. Vestergaard (2007), na mesma
linha de argumentação, constata que poucas universidades conseguiram captar
fundos significativos a partir da comercialização da investigação. O autor
assume, contudo, que os papéis empresariais e académicos podem ser integrados
na mesma estrutura académica, embora de forma separada.
Apesar deste balanço, muitas universidades parecem ter substancialmente
interiorizado este projeto externo (em última instância, em termos
retóricos). Nesta perspetiva, tentam impor aos académicos uma determinada
agenda na investigação ' concentração em temas limitados e potencialmente
comercializáveis ', e têm criado centros de investigação inter e
transdisciplinares claramente orientados para beneficiar de potenciais lucros
comerciais com a transferência direta de conhecimento e tecnologia para a
economia (Calboun, 2006). É possível, igualmente, que esta interiorização
obedeça a outra lógica: a conquista de prestígio social, no quadro das
narrativas dominantes sobre a sociedade/economia do conhecimento, e,
subsequentemente, a abertura de novas oportunidades para aceder a outras fontes
externas de financiamento (Santiago e Carvalho, 2004). Deste modo, o
envolvimento das universidades com a investigação estratégica, comercial e a
tecnociência, pode, também, representar uma oportunidade para estas
(re)construírem o seu capital simbólico, o qual permitiria a conquista de
vantagens posicionais no jogo competitivo interinstitucional.
Independentemente do comprometimento das universidades com objetivos
comerciais, simbólicos ou sociais, esta dinâmica parece atrair muitas
universidades para a esfera da cultura empresarial (Clark, 1998, 2003, 2004;
Barnett, 2003), do capitalismo académico (Slaughter e Leslie, 1997) ou do
capitalismo do conhecimento e da aprendizagem (Slaughter e Rhoades, 2004). Esta
atração conduz as próprias universidades e os académicos/investigadores, para
um envolvimento ativo no jogo de mercado ao nível das estruturas, dos
processos e dos resultados da produção de ciência. Até que ponto este
envolvimento pode tomar corpo na retórica e nas práticas institucionais
constitui uma questão controversa, que vai continuar inscrita na agenda
política e institucional futura. Não obstante, esta retórica está impregnada de
valores sobre o que deve ser a produção do conhecimento, os quais, em última
análise, podem exercer uma influência estruturante sobre os comportamentos
individuais e coletivos dos atores académicos. Nesta direção, seguindo o
raciocínio de Barnett (2003), torna-se importante refletir se as universidades
começaram a viver fora de si-mesmas e até que ponto a sua construção está
dependente das imagens dos seus grupos de clientes/investidores.
Este tópico constitui a preocupação central deste artigo. Nele, procuramos
analisar o papel das variáveis exógenas e endógenas na divulgação pública das
atividades científicas promovida pelas universidades portuguesas. Em termos
genéricos, a literatura documenta bem a forma como a reconversão do capitalismo
tradicional se tem apoiado na managerialização e mercantilização do ensino
superior, assim como as fortes pressões que daí resultam para as universidades
se tornarem performativas no âmbito da produção de ciência e de tecnologia útil
para a economia. Neste sentido, a análise das estratégias desenvolvidas pelas
universidades portuguesas para comunicarem as suas atividades científicas a
audiências externas (e internas) constitui um tema em aberto na investigação
sociológica em Portugal. Surge aqui uma possibilidade de captar novos elementos
que possam alicerçar uma reflexão empírica e conceptualmente mais apoiada sobre
o impacto dos princípios de mercado e do managerialismo na produção de ciência
e tecnologia nas universidades portuguesas. O esbatimento das fronteiras entre
a produção do conhecimento e as necessidades empresariais no âmbito da inovação
tecnológica tornou-se na pedra de toque dos discursos governamentais e, em
parte, institucionais (Santiago e Carvalho, 2004; Santiago, Magalhães e
Carvalho, 2005). O novo regime jurídico das Instituições de Ensino Superior
(RJIES ' Lei 62/2007), aprovado em 2007, consagrou institucionalmente este
esbatimento, ao insistir expressamente, no seu artigo 2.º al. 4, no princípio
de que as instituições têm o direito e o dever de participar em atividades de
ligação à sociedade [ ] designadamente de difusão e transferência de
conhecimento, assim como de valorização económica de conhecimento.
OS CAMINHOS SEGUIDOS NA RECOLHA DE INFORMAÇÃO
A componente empírica deste artigo baseou-se na análise de conteúdo de
informação extraída dos websites das universidades portuguesas, algumas
especialmente dedicadas à divulgação das atividades de investigação. A esta
informação atribuímos um duplo estatuto ‒ por um lado, trata-se de um conjunto
de narrativas institucionais às quais atribuímos o estatuto de textos
orientados por valores (Walton, 2005) para comunicar, a audiências internas e
externas, uma determinada imagem social da instituição; e, por outro lado,
surge como um repositório de dados autênticos que podem ser utilizados para
objetivos de investigação (Mautner, 2005). É possível aceitar, então, que a
informação, apresentada nos websites pelas universidades, visa a aquisição (e a
reconstrução) de capital simbólico, social, cultural e económico (Bourdieu,
1989, 2006) com o objetivo de conquistar uma posição mais vantajosa no campo
organizacional do Ensino Superior e de diversificar a captação de recursos no
exterior. Neste contexto, procuramos analisar, especificamente, a forma como as
universidades expressam o seu posicionamento sobre as atividades de
investigação, e as conceções de ciência que as suportam, na comunicação que
estabelecem com as suas audiências internas e externas através dos seus
websites.
A amostra definida para o estudo, que decorreu entre junho e julho de 2008,
corresponde ao universo total (15) das universidades públicas portuguesas.1
Numa primeira fase do estudo, foi selecionada como principal corpo da análise
de conteúdo apenas a informação relacionada com os enunciados de missão e
objetivos das universidades. A expectativa é a de que estes enunciados, nos
quais incluímos, igualmente, os discursos e tomadas de posição dos reitores na
apresentação da instituição, possam permitir apreender o quadro geral de
crenças, imagens e representações sobre a investigação e ciência que cada
universidade quer transmitir para audiências internas e externas.
Num segundo momento, a análise de conteúdo foi estendida à informação mais
específica, em particular a informação divulgada sobre a forma como as
universidades desenvolvem as suas estratégias de investigação e sobre as
estruturas organizacionais que criam para as concretizar. É neste nível de
análise que, na quase totalidade das universidades portuguesas, emergiu com
mais visibilidade um conjunto de mudanças mais profundas, direcionadas para
conceções e práticas na investigação e na ciência mais próximas da esfera da
racionalidade económica e de mercado.
IDEOLOGIA, ESTRATÉGIAS E ORGANIZAÇÃO DA INVESTIGAÇÃO: O QUE OS WEBSITES DAS
UNIVERSIDADES COMUNICAM
MISSÃO E OBJETIVOS NA INVESTIGAÇÃO
Os conteúdos dos enunciados de missão e dos grandes objetivos da investigação
extraídos dos websites das universidades públicas são, transversalmente,
homogéneos. Esta transversalidade desdobra-se em três cenários básicos,
relacionados com as conceções institucionais de investigação e de ciência
disseminadas nas universidades. Um primeiro cenário, que designamos por
tradicional/endógeno, engloba um conjunto de dimensões próximas do sistema de
crenças e normas mertoniano (Merton, 1973; Merton e Barber, 2004), da noção de
ciência académica de Ziman (1994) e do Modo 1 de produção de conhecimento
de Gibbons et al. (1994). Este cenário corresponde a processos tradicionais e
endógenos de construção de conhecimento científico, no interior dos quais a
diferenciação entre investigação fundamental/básica e aplicada parece continuar
a constituir o organizador principal do quadro ideológico geral de
investigação idealmente assumido pelas instituições. Este quadro é completado
com a reafirmação do princípio humboldtiano de ligação entre a investigação e o
ensino (Santiago e Carvalho, 2004). Não existem, nos enunciados, referências
concretas a áreas disciplinares, embora alguns façam referência à promoção de
intercâmbios entre a cultura/arte e a ciência e tecnologia enquanto enfoque
preferencial e principal da produção e difusão do conhecimento (ver Tabela_1).
Podemos dizer que o significado da matriz que suporta este primeiro cenário
articula a cultura humboldtiana, baseada no modelo do conhecimento, com a
ideologia e as normas tácitas mertonianas (Merton, 1973; Merton e Barber,
2004), resultando desta articulação uma certa continuidade na afirmação da
herança do capital simbólico embutido na ideia tradicional de universidade. Por
outro lado, inclui-se também neste cenário um conjunto de enunciados de missão
que expressam significados ligados ao caráter público da ciência. O
conhecimento é representado como um bem público, que tem por função promover o
progresso da cultura nacional, geral e científica, assim como o desenvolvimento
da sociedade portuguesa. Torna-se importante sublinhar que este primeiro
cenário constitui o quadro de referência dominante na maioria das narrativas
sobre a missão da investigação nas universidades portuguesas.
Um segundo cenário ' economia-mercado/exógeno ' situa-se numa maior
proximidade em relação aos significados expressos pelo acrónimo PLACE, pela
noção de ciência pós-académica/pós-industrial de Ziman (1994, 2000) e pelo
Modo 2 de produção de conhecimento (Gibbons et al., 1994). De facto, alguns
dos enunciados de missão incidem sobre os processos e critérios exógenos que
influenciam a produção de ciência e tecnologia, assim como sobre as formas
estruturais que suportam a sua organização, em particular as conectadas com o
envolvimento e estabelecimento de parcerias das universidades com o tecido
empresarial. A investigação estratégica, comercial, empresarial e personalizada
no cliente/empresa, surge como uma referência importante para as
universidades no contexto da nova economia do conhecimento, baseada na inovação
tecnológica (ver Tabela_1). A presença da racionalidade e do utilitarismo
económico nestas narrativas é mais densa e mais claramente orientada para a
reconfiguração dos quadros de referência tradicionais da investigação e da
ciência.
O terceiro cenário ' híbrido endógeno-exógeno ' evidencia nos enunciados de
missão e objetivos uma tentativa de articulação dos processos endógenos e
exógenos, ao nível epistemológico e institucional, na divulgação das atividades
de investigação nos websites. O lado endógeno deste cenário enfatiza as
dinâmicas internas na produção de conhecimento. As universidades apresentam-se
como os atores principais na criação e promoção do progresso científico e
tecnológico, na inovação, na construção da modernidade e na promoção do
desenvolvimento económico quer ao nível internacional, quer nacional e/ou
regional. Por sua vez, o lado exógeno, traduz a incorporação parcial pelas
universidades das imposições coercivas (por exemplo, a legislação e alguns
indicadores de avaliação da ciência) e indutivas (por exemplo, as políticas
seletivas de financiamento da investigação) de um projeto externo ' estatal e
empresarial ' de transformação da produção de ciência na direção da metáfora
sociedade/economia do conhecimento. Para além disso, ainda na lógica deste
cenário, as narrativas tendem a esbater as fronteiras entre a investigação
fundamental/básica e a investigação aplicada.
ESTRATÉGIAS E ORGANIZAÇÃO DA INVESTIGAÇÃO
Para além das narrativas sobre a missão e objetivos das universidades,
procurámos igualmente nos websites das universidades informação mais específica
e pormenorizada sobre a divulgação das estratégias de desenvolvimento das
atividades de investigação e das formas organizacionais criadas para as apoiar.
A análise de conteúdo que desenvolvemos centrou-se em torno das seguintes
categorias, que nos permitiram explorar conceptualmente a informação
selecionada: a base disciplinar/interdisciplinar da produção de conhecimento;
as estruturas de coordenação organizacional da investigação; a especialização
interna do conhecimento; os contextos da produção de conhecimento; e os
académicos/investigadores e a prestação de contas.
Numa perspetiva comparativa, foi possível detetar grandes discrepâncias entre
os dois tipos de informação. A análise de conteúdo das narrativas sobre as
estratégias e as estruturas de investigação, ao invés dos resultados obtidos
com a análise da missão e objetivos gerais das universidades, mostra a sua
evidente aproximação ao segundo e terceiros cenários atrás descritos '
economia-mercado/exógeno e híbrida-endónega/exógeno. O quadro de referência
dominante surge, agora, contextualizado num conjunto de representações sobre a
ciência mais próximas da noção de ciência estratégica e comercial,
eventualmente orientada para a economia e/ou para o tecido empresarial.
Contudo, as referências à ciência tradicional continuam a assumir uma certa
centralidade em várias universidades.
Vejamos agora os resultados da análise de conteúdo, obtidos com cada uma das
categorias atrás enunciadas, e os esforços de interpretação e conceptualização
que esses resultados nos permitiram.
Base disciplinar/interdisciplinar da produção do conhecimento
Como foi possível inferir da análise de conteúdo das narrativas das
universidades sobre as suas estratégias de desenvolvimento da investigação, as
fronteiras disciplinares da ciência surgem representadas de uma forma ambígua.
O discurso sobre a interdisciplinaridade é dominante, mas trata-se de um
discurso que parece enquadrar-se mais em razões de ordem pragmática do que em
razões de ordem epistemológica. Um dos objetivos estratégicos enunciado nas
páginas web de uma das universidades ilustra este tipo de discurso:
Promover a interdisciplinaridade de modo a identificar os temas
principais de investigação externa (socioeconómico) e também o
financiamento de regras externas de estruturas e projetos científicos
[UM].
Não é possível determinar, com segurança, se este significado da noção de
interdisciplinaridade é suportado, inteiramente, numa lógica de
interdisciplinaridade de mercado. Aliás, as universidades são muito prudentes
na divulgação das suas narrativas neste campo. Mas o que nos parece mais
evidente é o alinhamento da noção de interdisciplinaridade com critérios
exógenos de produção de ciência ' resolução de problemas económicos sociais e
regras financeiras externas ' do que com o princípio do conhecimento baseado na
indagação livre ou, pelo menos, na ciência auto-interessada. Mesmo quando
este princípio parece estar mais presente nas narrativas das universidades '
[ ] avanços no conhecimento com base na interação disciplinar promovida pela
universidade (UL; UNL) ' a referência a temas isolados de investigação,
gerados no interior dos campos disciplinares, são por elas quase ignorados.
Para além das dinâmicas internas, inerentes aos processos de desenvolvimento do
conhecimento científico, a identificação da inter e transdisciplinaridade com a
modernidade, articulada com as pressões políticas (coercivas e indutivas) e
empresariais para a esfera do utilitarismo, pode, eventualmente, ajudar a
explicar essa ausência.
Num outro registo, em algumas universidades, as narrativas sobre a
interdisciplinaridade ' [ ] promover a interdisciplinaridade de forma a
aumentar a produtividade e criatividade científica e a mobilizar
infraestruturas e projetos (UA) ' parecem emergir igualmente como um
instrumento de legitimação de modalidades de controlo e regulação
institucionais e de gestão da investigação (Hellstrom e Jacob, 2005), alinhado
com a cultura da performance.
Estruturas de coordenação organizacional da investigação
Olssen e Peters (2005) argumentam que a produção de conhecimento tem surgido
como uma preocupação política central dos governos e das universidades. Estas,
enquanto atores-chave neste processo, são, como vimos, externamente submetidas
a fortes pressões para construir conexões estreitas com a indústria e os
serviços. A investigação é, assim, representada como um dispositivo essencial
na ativação do desenvolvimento económico e no aumento da competitividade
nacional na arena da globalização económica (Santiago e Carvalho, 2004).
Neste contexto, as estruturas de coordenação organizacional dedicadas à gestão
da investigação são abundantemente publicitadas nos websites das universidades
públicas. A maioria destas novas estruturas organizacionais é apresentada como
um instrumento de gestão da investigação e de facilitação das interações entre
os centros, unidades, institutos e laboratórios e o exterior, sobretudo as
agências governamentais e a indústria e serviços:
[ ] existem outras unidades de ligação, que promovem a interação das
unidades de investigação com parceiros sociais e económicos fora da
universidade [UA].
[ ] as unidades de investigação devem ser consideradas como
instituições de intercâmbio, tendo a universidade como parceiro
principal e outras organizações que representam interesses externos
(indústrias, corpos governamentais, etc) [UP].
Algumas destas estruturas são constituídas sob a forma de incubadoras de
empresas. Outras são categorizadas como unidades de intercâmbio, dedicadas à
institucionalização das interações entre o ambiente académico e empresarial ou
ao apoio e à proteção da propriedade industrial, em particular o registo de
patentes:
[ ] promover a emergência de empresas baseadas na tecnologia através
da criação de uma incubadora [UALG; UA].
[ ] unidade de intercâmbio para promover as ligações entre o ambiente
académico e empresarial e para proteger a propriedade industrial
[UA].
[ ] unidade de intercâmbio para promover a relação entre unidades
externas, inovação, transferência de conhecimento e o
empreendedorismo [ ] e para dar apoio à gestão da propriedade
industrial [UC; UBI].
A emergência destas novas formas organizacionais traduz um fenómeno de forte
envolvimento das universidades (e de muitos académicos) no jogo do mercado e
na procura de potenciais benefícios financeiros, através da comercialização do
conhecimento científico e tecnológico (Calboun, 2006; Bok, 2003). No entanto,
esta pode não ser a única razão que conduz as universidades a abraçar o
capitalismo académico (Slaugther e Leslie, 1997) e o capitalismo do
conhecimento/aprendizagem (Slaugther e Rhoades, 2004) ou, em geral, a cultura
empresarial/empreendedora (Barnett, 2003). A acumulação de capital simbólico
constitui um dado que merece uma atenção tão cuidada como a acumulação de
capital económico. A criação de novas formas organizacionais, ou a reformulação
das tradicionais, dedicadas a sustentar a transferência de conhecimento e
tecnologia para o tecido empresarial e a promover o sucesso da investigação
económica e de mercado, parecem instituir-se como novas bandeiras usadas na
renovação da imagem social das universidades enquantoorganizações modernas.
Assim, as narrativas sobre a criação e os objetivos consignados a estas
estruturas expressam também tentativas para conquistar posições mais favoráveis
e/ou dominantes no campo do ensino superior, através das tentativas de
reconversão em capital simbólico do impacto nas audiências (internas e
externas) da divulgação de informação sobre a (re)configuração organizacional
da investigação. Tal como sublinha Calboun (2006), as novas pressões
competitivas sobre as universidades aumentaram o significado das suas posições
no campo hierárquico das instituições de ensino superior.
Por outro lado, num registo mais tradicional, a divulgação de informação
sobre as novas estruturas organizacionais ' em particular, alguns centros
interdisciplinares ou de investigação ' surge mais instrumentalmente orientada
para o interior das instituições. Ou seja, para o desenvolvimento de
estratégias tendentes a situar e/ou a hierarquizar a investigação numa escala
organizacional mais larga ou a promover o diálogo e a cooperação científica
intrainstitucional:
[ ] centro interdisciplinar para localizar os centros de excelência '
ciências da saúde, ciências sociais e ciências da terra e do espaço
[UL].
[ ] centro de investigação para promover o diálogo científico e a
cooperação entre os centros de investigação [UL; UNL].
Mas esta projeção da investigação para uma escala organizacional mais larga
pode, igualmente, traduzir tentativas para centralizar e desfragmentar os
diferentes loci de produção da investigação, introduzindo algum tipo de
unificação nas atividades de investigação e referências comuns nas ações e
condutas dos investigadores. A ênfase concedida a este tipo de narrativas por
algumas universidades é suscetível de conter um significado que elege a gestão
institucional da investigação como uma dimensão essencial na (re)construção de
uma dada identidade organizacional, eventualmente alinhada pela ideia de
universidade de investigação.
A especialização interna do conhecimento
A separação entre investigação básica e aplicada surge destacada, na maioria
dos websites das universidades, nas narrativas sobre as estratégias e
estruturas organizacionais de promoção da investigação. A relevância económica
sobrepõe-se, claramente, neste destaque, à relevância cognitiva, social e
cultural do conhecimento, sendo esta raramente mencionada. Este fenómeno é
visível na interseção narrativa das dimensões instrumentais, económicas e
empresarialmente orientadas do conhecimento, tal como são expressas na
divulgação de diversos objetivos definidos para a promoção de atividades e
projetos de investigação. As narrativas mais divulgadas sobre a forma como a
produção de conhecimento é significada e organizada assumem duas dimensões
hegemónicas: a sobrevalorização da investigação aplicada; a identificação deste
tipo de investigação com a ciência comercial e a tecnociência:
[ ] promover projetos de investigação aplicada e transferência de
tecnologia [UALG; UC].
[ ] desenvolver projetos de I&D nas áreas de impacto científico,
tecnológico e sócio-económico como robótica, inteligência artificial,
telefones e mecanismos de ensino [UA].
[ ] desenvolver projetos aplicados ao envolvimento de parceiros
empresariais [UAC].
[ ] o desenvolvimento técnico e científico quer preparar planos de
negócios com sucesso, de modo a otimizar as qualidades dos produtos e
dos serviços [UTL].
Olssen e Peters (2005) sublinham que este fenómeno traduz um modelo de
conhecimento em que o princípio da soberania do consumidor conduz os projetos
de investigação. O que está em causa neste modelo parece ser a assunção de uma
determinada noção estratégica de I&D, no âmbito da qual as áreas
disciplinares básicas das ciências naturais, físicas e sociais são mais
negligenciadas, assim como as artes e humanidades. Por outro lado, o mercado
surge representado como um mecanismo eficiente de sustentação das mudanças na
ciência e tecnologia (Calboun, 2006).
Apesar deste panorama hegemónico, as referências à investigação tradicional
continuam a assumir alguma relevância nas narrativas quer das universidades
clássicas, quer das universidades novas. A diferenciação entre investigação
básica e aplicada, a criação de conhecimento por si mesmo, e a investigação
científica auto-interessada (objetivos definidos a partir de iniciativas
internas) continuam a subsistir como uma referência importante nas estratégias
e organização das atividades científicas, como mostra um dos enunciados a
seguir transcritos:
[ ] criação de conhecimento ou investigação científica como um
objetivo próprio ou por si mesmo [UMA; UC].
Por outro lado, as narrativas construídas por algumas universidades dão lugar à
coexistência de atividades de investigação aplicada e inovação tecnológica com
a investigação básica/fundamental.
[ ] Algumas das escolas estão envolvidas na investigação aplicada e
no desenvolvimento da inovação tecnológica, assim como algumas na
investigação fundamental [UTL].
Esta coexistência traduz a emergência de um certo hibridismo nas conceções e
práticas institucionais de ciência, situadas entre a ciência académica e a
ciência pós-académica (Ziman, 1994, 2000), esta última assumindo, claramente,
um caráter estratégico-comercial. A noção de bilinguismo (Trowler, 2010)
permite-nos perceber melhor as contradições com as quais as universidades
portuguesas se confrontam neste processo de hibridação. Por um lado, emerge a
necessidade de preservar a herança simbólica e de manter compromissos
institucionais com a ciência básica, que se sustenta num sistema de crenças e
normas tácitas, historicamente mais sólidas, e ainda com força institucional
para suportar as noções de validade e de confiança na objetividade do
conhecimento. Este sistema de crenças e normas tácitas continua a persistir
como uma fonte determinante de legitimidade e prestígio social da investigação.
Por outro lado, a sobrevivência das universidades como agentes ativos na
estruturação do campo científico e tecnológico contemporâneo, conduz à assunção
de uma linguagem identificada com o utilitarismo do conhecimento, permitindo um
alinhamento com os novos critérios institucionais da modernização científica
e tecnológica.
Contextos da produção de conhecimento
Olssen e Peters (2005) argumentam que, sob pressão do mercado e do
managerialismo/NGP, o conhecimento se tornou mais dependente do financiamento
externo, escrutinado e contestável, separado do ensino e mais controlado pelos
governos e agências externas. O alinhamento das dinâmicas de produção de
conhecimento pelos princípios da racionalidade económica e de mercado
transformou-se numa prioridade política. O Estado assumiu um papel central na
reconfiguração deste novo ambiente institucional, sedimentado por expectativas
sobre a missão económica da investigação e ensino das universidades (neste
último caso, em boa medida, sob a influência das teorias do capital humano) e
sobre a abertura dos seus sistemas de conhecimento ao exterior.
Num certo sentido, algumas narrativas sobre a divulgação dos objetivos das
novas estruturas organizacionais e de interface, dedicadas ao apoio às
atividades de investigação, parecem traduzir uma interiorização, pelo menos
parcial, deste projeto. Várias enunciações insistem, de facto, na necessidade
de seguir o agenciamento empresarial a propósito da transferência de
conhecimento e tecnologia para a economia:
[ ] promover as nossas próprias tecnologias dentro do sector
empresarial e atender às suas necessidades [ ] e ser um parceiro
importante de numerosas empresas [ ] com as quais numerosos projetos
de I&D e novos produtos são desenvolvidos [UA].
[ ] criar um ambiente de cooperação com o sector empresarial [UE;
UC].
[ ] identificar as exigências tecnológicas do sector empresarial e a
sua transformação correspondente nos projetos inovadores e
competitivos do desenvolvimento tecnológico [UE; UC].
[ ] promover iniciativas que possam ligar empresas com universidades
e C&T [UALG].
[ ] Planear estrategicamente a investigação com o ambiente
socioeconómico circundante em mente [UM].
[ ] Orientar a investigação para o ensino relevante e para a inovação
e o progresso tecnológico [UNL].
[ ] Para melhorar e flexibilizar a interação ciência/indústria,
permitindo um melhor diálogo mútuo e confiar de modo a facilitar a
criação de diversas formas de cooperação [UAC].
Seguindo a argumentação de Pels (2003), sobrevalorizar este tipo de contexto de
produção de conhecimento pode configurar o risco da criação de uma rede de
estreitas interdependências entre as dimensões cognitivas e económicas da
ciência. A emergência de uma possível transdisciplinaridade geral é subsumida
pela hegemonia de uma transdisciplinaridade economicamente orientada, em
grande parte devido à posição secundária que as ciências básicas naturais,
ciências sociais, humanidades e artes ocupam nesse novo contexto.
Contudo, as narrativas também desvendam que os processos de estruturação dos
contextos internos de investigação nas universidades não foram exclusivamente
configurados por dinâmicas exógenas, no sentido da sua inscrição num projeto
externamente imposto pela disseminação das noções de ciência empreendedora e
comercializável. Uma parte das suas iniciativas na organização dos contextos
internos de investigação ainda parece obedecer a uma dinâmica
estrategicamente endógena, orientada para a acumulação e o reconhecimento
externo de prestígio social, institucional e científico (nacional e
internacional).
[ ] A universidade só pode ambicionar a continuar como uma
universidade se puder incentivar, respeitar e valorizar a componente
de investigação [UMA].
[ ] produzir conhecimento científico de referência ao nível nacional
e internacional [UL].
[ ] assumir um papel principal na definição de estratégias e
políticas nacionais de investigação e, em alguns casos, também ao
nível Europeu [UTL].
Nesta perspetiva, o que parece estar agora em causa, não será tanto a conquista
institucional de uma posição mais favorável no campo do ensino superior,
visando a diversificação da captação de fundos no exterior, mas a possibilidade
de as universidades se tornarem agentes ativos na influência sobre a formulação
das políticas e estratégias nacionais e internacionais de investigação. A
ideologia e as normas tácitas mertonianas sobre a hierarquização social da
ciência, com base na aquisição e reconhecimento do prestígio social, surgem
articuladas aqui com a ideia de universidade de investigação, formando um dos
quadros de referência da produção dos contextos de criação e difusão do
conhecimento científico.
Mas, mais uma vez, é possível constatar que duas narrativas diferentes e
aparentemente contraditórias sobre a investigação e conhecimento, podem
coexistir, e mesmo articular-se, no interior de uma mesma universidade. É
provável que para além do fenómeno do bilinguismo, já antes sublinhado, esta
diferenciação surja igualmente como o reflexo da diversidade de conceções de
ciência e dos objetivos da investigação, tal como são assumidos nos diferentes
territórios disciplinares, e interdisciplinares, pelas diferentes tribos
académicas presentes em cada instituição (Becher e Trowler, 2001).
Os académicos e a prestação de contas
A autonomia e a liberdade científica dos académicos são temas que surgem, com
alguma relevância, nas narrativas sobre a divulgação das atividades de
investigação nos websites das universidades. Uma das universidades analisadas
assume mesmo uma posição ativa e explícita de defesa deste princípio:
[ ] A universidade defende a autonomia científica dos centros de
investigação assim como a liberdade científica dos seus
investigadores [UL].
Com efeito, a autonomia pressupõe o autocontrolo dos académicos sobre as
iniciativas, o desenvolvimento e a regulação da investigação (conhecimento
crítico e livre), mas, também, a condução do controlo epistemológico e
institucional sobre os resultados, materializado pela ação dos pares. Contudo,
algumas universidades divulgam informação sobre a criação de sistemas de
controlo da qualidade científica da investigação, que incluem mecanismos de
quantificação, baseados em indicadores de produtividade científica (número de
publicações). É sublinhado que a tomada de decisão institucional, a propósito
do desenvolvimento das atividades de investigação, pode ser baseada nos
resultados obtidos com estes indicadores; uma das universidade analisadas
enfatiza ainda que estes serviriam para melhorar as posições das universidades
nos ranking:
[ ] Análise da produção científica (bibliométrica) de modo a apoiar
as decisões estratégicas das universidades na investigação
científica. [para] ter uma posição relevante no ranking das
universidades Europeias [UNL].
Em geral, a formalização destes sistemas, ligados a uma lógica de produtividade
e de prestações de contas, é crescentemente representada como uma componente
central da institucionalização de uma nova cultura da performance na
investigação, controlada por gestores, ou académicos-gestores, e por objetivos
de gestão (Hellsrom e Jacob, 2005). Este controlo não deixa de se constituir
como uma forte limitação à autonomia e liberdade dos académicos/investigadores,
resultante em grande medida da influência crescente exercida pela lógica de
gestão e do mercado sobre a organização da investigação. O poder dos
profissionais académicos/investigadores é transferido para instrumentos de
medição externa da produtividade científica, estruturados à imagem da
produtividade económica. Esta transferência pode afetar os critérios
epistemológicos de validade e a confiança no conhecimento produzido,
aprisionando a liberdade e a crítica de indagação científica dos académicos/
investigadores no desenvolvimento da investigação (Barnett, 2003).
CONCLUSÕES
Conduzidas pelos pressupostos do managerialismo/NGP, assistiu-se a uma
intensificação e densificação das mudanças no ambiente institucional do ensino
superior português a partir de finais dos anos 90. As condições que hoje
contextualizam o trabalho académico são substancialmente diferentes das
existentes há uma década atrás. Estas condições são mais configuradas por
tentativas de impor um projeto empresarial/empreendedor, estranho às
instituições, do que pelas suas dinâmicas internas (Santiago e Carvalho, 2003;
Santiago e Carvalho, 2004). Por outro lado, a organização institucional e
social da ciência também tem mudado com alguma rapidez. A concentração da
produção de ciência nas universidades tem diminuído, dispersando-se agora por
diferentes estruturas localizadas na esfera pública ou privada. Esta
concentração originou um tipo de fenómeno que Muller e Subotzky (2001),
referindo-se a outras realidades nacionais, designam como transinstitucional.
Apesar do caráter hegemónico deste novo ambiente institucional, amplamente
estruturado pelo capitalismo académico e o capitalismo do conhecimento/
aprendizagem (Slaughter e Leslie, 1997; Slaugther e Rhoades, 2004), a análise
dos resultados empíricos deste estudo permitiu evidenciar várias conclusões que
matizam, no caso português, o alcance dessa hegemonia.
Uma primeira conclusão, de âmbito geral, refere-se à ambiguidade das narrativas
institucionais que suportam a divulgação da investigação nos websites das
universidades. Por um lado, a investigação tradicional' permanece um quadro
ideológico importante para o desenvolvimento das atividades de investigação. A
análise de conteúdo dos enunciados de missão e dos grandes objetivos
institucionais, dedicados à investigação e à ciência, mostra que as grandes
narrativas que lhes dão corpo continuam a articular os princípios
humboldtianosdo conhecimento e as crenças e normas tácitas mertonianas de
produção de ciência (Merton, 1973; Merton e Barber, 2004). Mas, por outro lado,
quando a análise se foca na divulgação de informação mais específica, sobre as
estratégias e a organização institucional das atividades de investigação, o que
parece evidenciar-se é a assunção de uma gramática managerialista e
mercantilista como matriz de atribuição de significados aos processos,
objetivos e finalidades da ciência. Esta gramática desenvolve-se na esfera de
uma conceção de ciência em linha com o que Ziman (1994) categorizou como
ciência pós-académica/pós-industrial ou Gibbons etal. (1994) como o Modo 2
de produção de conhecimento.
Tentando apreender a lógica destes dois discursos, é possível sustentar a
hipótese da existência, ao nível institucional, de fenómenos de hibridismo, ou,
pelo menos, de fenómenos de bilinguismo (Trowler, 2010) na relação que as
universidades estabelecem com as suas audiências internas e externas. As
universidades utilizam, simultaneamente, linguagens diferentes, de modo a
adaptar-se a interesses diferentes ' uma linguagem moderna, que enfatiza a
investigação empresarial/empreendedora, podendo traduzir uma forma de
alinhamento com os requisitos externos do mercado, e uma estratégia de
conquista de posições simbólicas no campo da relevância económica da nova
ciência; uma linguagem da tradição, provavelmente orientada para a proteção e
preservação da herança simbólica e cultural da ciência, mas usada também como
instrumento de aquisição e de reconhecimento de prestígio social e
institucional.
A segunda possível conclusão deste estudo é, agora, mais específica. Prende-se
com a ideia de que as universidades procedem à naturalização, na informação
divulgada, das estratégias e ações de transferência de conhecimento e de
tecnologia para a indústria e os serviços. A maioria das narrativas, neste
campo, enfatiza a importância das variáveis e dos critérios exógenos
(económicos) na orientação das atividades de investigação, alinhando-os com a
noção utilitária de produtividade económica (Muller e Suboztky, 2001). A
produtividade na ciência é, naturalmente, identificada com a produtividade
económica, sendo esta identificação apresentada como inevitável. A este
propósito, Feldman (2001) sublinha que apesar das críticas dirigidas à
universidade empresarial/empreendedora, não é possível ignorar as ligações
existentes entre a detenção de recursos do conhecimento e a acumulação de
capital. A questão que deve ser colocada, seguindo ainda o raciocínio de
Feldman, é a de saber como é que esses recursos podem ser democraticamente
governados, subtraídos ao controlo empresarial e redistribuídos de uma forma
mais justa pela sociedade.
Uma terceira conclusão, também específica, decorre da comparação qualitativa
dos resultados da análise de conteúdo, confrontando as narrativas produzidas
pelas universidades clássicas com as narrativas das universidades novas. Na
verdade, não existem diferenças significativas entre estes dois grupos de
universidades quanto às características das narrativas institucionais sobre a
ciência e a investigação publicitadas na web. As diferenças que emergem são
mais de ordem intrainstitucional do que interinstitucional, provavelmente
traduzindo a diversidade epistemológica e organizacional dos territórios e
das tribos académicas presentes em cada instituição (Becher e Trowler, 2001).
Finalmente, uma última conclusão deste estudo relaciona-se com a hipótese de as
universidades usarem as narrativas na web para induzirem uma imagem social de
si-próprias como universidades de investigação. O sucesso desta estratégia de
comunicação pode contribuir para a conquista de uma maior legitimidade das
universidades junto das audiências internas e externas (tecido empresarial,
estudantes, outras instituições, associações profissionais, e o Estado). Esta
conquista serve um duplo propósito: a diversificação das fontes de captação de
recursos financeiros; e a conquista de uma posição mais vantajosa no campo do
ensino superior, em particular, neste último caso, através da renovação
institucional do capital simbólico, do capital cultural e do capital social das
universidades. Em trabalhos futuros seria relevante analisar o modo como estes
discursos se encontram alinhados com os discursos políticos sobre a produção e
divulgação do conhecimento.