Mediadores culturais em Portugal: perfis e trajetórias de um novo grupo
ocupacional
INTRODUÇÃO
O presente artigo foca as atividades de mediação das artes e os indivíduos que
nelas intervêm. Estes situam-se numa zona de interseção entre dois universos.
De um lado, as políticas culturais e educacionais, com os seus objetivos e
medidas, algumas consubstanciadas em projetos e programas que visam
fundamentalmente promover práticas culturais e contribuir para reforçar a
literacia e a cidadania. De outro lado, as instituições com programação
cultural, tendo a perceção da importância deste tipo de atividades para a
captação de novos visitantes. Ao requisitar diversos profissionais, incluindo
artistas, para a conceção e realização de visitas guiadas, ateliês, concertos
comentados, oficinas e outras atividades de contacto direto com os públicos, o
processo de mediação cultural realça a centralidade dessas figuras.
Procurou-se compreender quem são estes indivíduos, com um estatuto
simultaneamente central, porque são necessários para assegurar um determinado
trabalho, e secundário, porque a atenção dos estudiosos e analistas das
políticas culturais tem recaído mais nos processos de que participam do que
neles e nas suas intervenções. O que leva estes trabalhadores culturais a
desenvolver estas atividades? Que condições e dinâmicas do campo cultural e
artístico os favorecem ou incentivam? Que benefícios e desvantagens estão em
jogo? Que competências e qualidades são mobilizadas? Que representações da arte
se detetam? Por que motivos alguns artistas se dedicam, a par do trabalho
artístico (criação, interpretação), a atividades de mediação cultural?
Obter respostas para tais perguntas e, deste modo, delinear um esboço dos que
têm este tipo de ocupação foi o objetivo principal da pesquisa aqui
apresentada. A pertinência desta investigação radica nos seus contributos para
o estudo do trabalho cultural e, em particular, do processo de mediação das
artes. Embora a crescente importância deste processo tenha vindo a ser abordada
pela sociologia em Portugal, é de notar que a investigação tem incidido mais no
carácter autoral dos mediadores, que os programadores e gestores culturais
representam (Madeira, 2002; Ferreira, 2002; Silva e Santos, 2010), do que em
figuras com menor visibilidade e notoriedade, como são os trabalhadores
culturais que lidam face a face com as pessoas que frequentam as instituições
culturais (Martinho, 2007; Rodrigues, 2012). Com este trabalho, pretende-se,
pois, contribuir para ampliar a visão sobre um grupo ocupacional que é recente
e se encontra num processo de reconhecimento. Um segundo contributo visa o
alargamento da análise do que é designado como democratização da cultura,
abordando esta temática por um ângulo que tem sido pouco adotado.
A pesquisa abrange três domínios artísticos ' artes visuais, música e livro e
leitura ' e tomou como observáveis algumas iniciativas e instituições1 e um
conjunto de mediadores que nelas trabalha. A estratégia metodológica baseou-se,
fundamentalmente, na realização de análise documental e de entrevistas
aprofundadas, de modo a melhor captar a singularidade dos percursos dos
entrevistados. Foram efetuadas catorze entrevistas individuais, oito das quais
a mediadores no domínio das artes visuais e resultantes de uma primeira
abordagem ao campo da mediação cultural, em 2004; as outras seis entrevistas
foram realizadas em 2010 e repartem-se, em igual medida, pelos domínios da
música e do livro e leitura.
À semelhança do que outros estudos efetuados sobre mediadores culturais
(Aubouin, Kletz e Lenay, 2010; Rodrigues, 2012) revelam, os entrevistados nesta
pesquisa apresentam como traço mais comum a pertença a uma faixa etária jovem,
concentrando-se as idades nos 30 anos. Possuem qualificações escolares
elevadas, e entre as suas áreas de formação académica predominam as artes
visuais, a história de arte, a música; seguem-se a arquitetura, o design, a
ilustração, a psicopedagogia. A maior parte trabalha em regime de
pluriatividade, com o estatuto de freelancer, e metade do grupo de
entrevistados inclui criadores/artistas/autores. Na área das artes visuais, o
conjunto é quase exclusivamente composto por mulheres, correspondendo ao que,
em 2004, era um dos principais traços distintivos do conjunto dos colaboradores
dos serviços educativos dos museus de arte observados. À luz desta
configuração, considerou-se pertinente a inclusão da feminização e a
juvenilização dos monitores de visitas guiadas entre os tópicos do guião da
entrevista, com o objetivo de perceber de que modos tais tendências
interpelavam os entrevistados. A questão da feminização suscitou, como se verá
na primeira parte do texto, ora um olhar tendendo à naturalização, ora uma
perspetiva mais reflexiva, que convoca algumas das principais tendências do
mercado de trabalho.
Por mediadores culturais entendemos aqueles que asseguram um modo específico de
as pessoas se relacionarem com a cultura e as artes. Distinguindo-se da
conceção de mediação enquanto processo que procura resolver diferendos entre
duas partes, a mediação cultural que aqui interessa é a que promove
aproximações e encontros entre as pessoas e as obras de arte. Também ela com
uma componente relacional e requerendo um mediador que intervenha como
catalisador, visa a criação de algo acrescentado em termos de vivência e
conhecimento. A mediação surge como uma passagem: ao apontar a posição
central da figura do intermediário na sociologia da arte, Antoine Hennion
afirmava que a arte não é bela sem especialistas. [ ]. Não supera séculos e
continentes se não se constrói para ela uma passadeira (Hennion, 1985, p.
159).
É de notar que o aumento da programação de atividades pedagógicas para os
públicos de museus, teatros e outros espaços culturais constitui uma das
principais mudanças que marcam o setor cultural em Portugal nas últimas duas
décadas (Martinho, 2007; Gomes e Lourenço, 2009; Gomes e Martinho, 2009). Esta
é uma tendência que aparece em conformidade com objetivos de democratização
cultural e formação de públicos, que, em Portugal, têm estado presentes nas
políticas culturais das administrações públicas desde meados dos anos 90 do
século XX (Lopes, 2007).
Possuindo um historial mais antigo nos museus, a mediação cultural é
enquadrada, na maior parte das vezes, por um serviço educativo e pode assumir
diferentes modalidades, como visitas guiadas, ateliês, oficinas, cursos breves
e outras. Generalizou-se num número crescente de instituições e iniciativas,
destacando-se os museus e os centros de exposições e surgindo depois as
bibliotecas, os centros culturais e os teatros (Aubouin, Kletz e Lenay, 2010).
No atual contexto cultural, marcado pela perda de autonomia da cultura nas
políticas públicas2 e por fortes restrições orçamentais na atividade das
estruturas culturais e artísticas, importa acompanhar com particular atenção a
evolução desta tendência.
A pluriatividade e a juvenilização que caracterizam o grupo de mediadores
culturais entrevistados convocam a temática do trabalho flexível, o modo como
esta lógica atravessa as profissões artísticas e as experiências dos que se
encontram numa fase inicial dos percursos profissionais. Num tempo em que as
trajetórias juvenis deixaram de ser lineares e deterministas para se tornarem
circulares e contingentes (Pais, 2005; Calvo, 2011), os que têm vocações e
ocupações nos mundos das artes, tradicionalmente marcados pela incerteza e pela
vulnerabilidade (Menger, 2005; Conde, 2009), podem experimentar uma exposição
reforçada à indeterminação, muitas vezes procurada e valorizada, outras vezes
temida. Como diversas pesquisas têm mostrado, a atividade dos artistas e outros
profissionais dos mundos da arte é constantemente marcada pela ambivalência
perante a pluriatividade e pelo questionamento da adequação entre interesses e
tempo investidos, remuneração auferida e ligação à profissão conseguida
(Farinha, 2002; Borges e Pereira, 2012). No caso de ocupações em fase de
emergência, como a curadoria e as atividades dos serviços educativos, juntam-se
fragilidades quanto ao reconhecimento social desses recentes perfis
profissionais (Martinho, 2007; Especial, 2010).
Na primeira parte deste artigo, são analisados os modos como os mediadores se
posicionam em diversas dimensões relacionadas com o trabalho de mediação
cultural: (i) modos de entrada na atividade e motivações; (ii) lugar da
atividade no percurso; (iii) ligações institucionais ' exclusividade,
acumulação, transição; (iv) profissão, formação e competências; (v) influências
' trabalhos de mediação e outras atividades; (vi) sobre a feminização e a
juvenilização dos monitores de visitas guiadas; (vii) sobre os públicos. Na
segunda parte, apresentam-se os perfis que foi possível recortar no universo
analisado, a partir da observação de linhas distintivas e de similitudes nos
modos como os entrevistados se colocam nas dimensões antes mencionadas. A
concluir este artigo, chama-se a atenção para alguns aspetos que se destacam e
são, segundo a perspetiva que aqui se defende, merecedores de desenvolvimentos
na investigação.
SER MEDIADOR CULTURAL. MOTIVAÇÕES, LUGAR DA ACTIVIDADE, LIGAÇÕES INSTITUCIONAIS
E OUTROS ASPECTOS
MOTIVAÇÕES E MODOS DE ENTRADA NAS ATIVIDADES
Como acontece num percurso começar-se a fazer visitas guiadas num museu? Que
condições propiciam o acesso ao desempenho desta atividade? A cooptação no meio
escolar, geralmente na fase de conclusão da licenciatura, surge com especial
recorrência. A auscultação quanto ao interesse em realizar visitas guiadas no
Centro de Arte Moderna José de Azeredo Perdigão (CAMJAP) ou na Área de
Exposições do Centro Cultural de Belém (CCB) parte quase sempre de um professor
ou de um colega com ligações àquelas instituições, com estatuto também de
mediador cultural. Afirma-se, assim, a relevância da escola enquanto espaço
social privilegiado na definição de carreiras com aspirações artísticas
(Ferreira, 2003). E ainda que a mediação cultural corresponda mais a um grupo
ocupacional do que propriamente a uma profissão ' entre outros fatores, por não
haver formação específica fornecida pelo sistema de educação ', descortina-se
nesta ocupação e na forma de cooptação descrita, algo do encadeado que, segundo
Eliot Freidson, sustenta as características essenciais das profissões:
existência de tarefas e da sua procura por parte de um mercado; existência
de formação facultada pelo sistema de ensino, conferindo acesso
privilegiado de trabalhadores ao desempenho das tarefas (Freidson, 1995).3
Para as monitoras mais jovens, tal recrutamento representa a situação ideal,
dado que a atividade educativa no museu teve como consequência puderem adquirir
maior conhecimento das instituições do campo artístico e do seu funcionamento.
Daqui decorreu a maior probabilidade de poderem experimentar outras áreas de
trabalho, como a produção de exposições e a curadoria, e a possibilidade de
fazerem opções mais fundamentadas quanto aos seus caminhos profissionais.
Um outro modo de ingresso na função de monitor de visitas guiadas denota maior
iniciativa, partindo de jovens com formação em artes visuais e projetos de
carreiras artísticas, em fase de reconhecimento emergente na altura em que
foram entrevistadas. Tratou-se, para estas, de procurar uma atividade
complementar à criação, que lhes permitisse aplicar saberes especializados ' o
conhecimento prático das linguagens artísticas ' e assegurar uma via
suplementar de subsistência, num regime de trabalho independente.
Repare-se que a dedicação de artistas a tarefas de mediação, que eles vêm como
uma extensão das suas competências, é propiciada pela identificação
profissional do artista, tal como Raymonde Moulin a caracteriza (Moulin,
2004). O facto de esta identificação não depender inteiramente nem da posse de
diplomas que certificam a formação, nem do exercício a tempo inteiro do
trabalho artístico explica que, desde há longa data, muitos artistas procurem
uma diversificação do trabalho artístico e dos contextos da sua intervenção. A
animação, a pedagogia e o comissariado de exposições são áreas que Moulin
inclui entre as experimentadas pelos artistas, acrescentando que o termo de
mediação não se tinha ainda tornado a palavra-chave dos empregos culturais
(Moulin, 2004, p. 2).
No caso dos mediadores culturais nas áreas da música e do livro e da leitura,
as trajetórias e as circunstâncias em que começaram a desenvolver atividades
deste tipo, bem como as próprias motivações, permitem situá-los numa linha de
continuidade e noutra de experimentação.
Na linha de continuidadeestão aqueles que centram o seu trabalho de mediação na
promoção do livro e da leitura, para quem o trabalho de mediador surge como uma
intervenção quase expectável nas suas biografias. Trata-se de pessoas com
percursos fortemente marcados, desde crianças, pelo contacto com atividades
culturais e artísticas, por um declarado gosto por comunicar com os outros e
por partilhar interesses em torno da arte, bem como pelo envolvimento em
projetos coletivos. Estes interesses artísticos incluem a própria visão da arte
como um elemento de mudança das pessoas e das sociedades, no sentido de as
poder melhorar. As nuances que separam estas biografias residem
principalmente no contexto fortemente politizado em que um dos entrevistados
inicia o trabalho de mediação, bem como no facto de este realizar atividades
quer em contextos convencionais (bibliotecas e museus) quer em instituições e
grupos considerados difíceis (prisões, bairros desfavorecidos, grupos de
indivíduos com deficiência e necessidades educativas especiais).
Entre os mediadores que intervêm na difusão de outras áreas do conhecimento,
como a ciência, a vontade de partilhar interesses assume uma idêntica força
mobilizadora, como mostra uma pesquisa sobre as atividades do programa Ciência
Viva, lançado em 1996, pelo Ministério da Ciência e da Tecnologia (Conceição,
2011). A par de outros motivos, como a procura de visibilidade institucional,
os dinamizadores daquelas atividades são fortemente mobilizados para este tipo
de intervenção pela crença de que a ciência e o desenvolvimento tecnológico são
instrumentos privilegiados para o desenvolvimento das sociedades
contemporâneas (Conceição, 2011, p. 287).
Se é certo que nos percursos de outros mediadores ' músicos ', as atividades
de mediação denotam também alguma continuidade, porque estão diretamente
associadas ao seu trabalho principal, a linha que neles se destaca é a da
experimentação. Assim, as atividades que têm desenvolvido no Programa
Descobrir, da Fundação Calouste Gulbenkian, permitiram-lhes testar hipóteses,
aferir reações, encontrar, afinal, mais contributos aplicáveis em dois níveis:
orientação dos seus trabalhos enquanto músicos; exploração continuada do
fenómeno sonoro e da relação entre música e som.
Para um músico, compositor e professor, a realização de um projeto que
conjugava o espetáculo e o ateliê, em que a participação das crianças, com a
voz, tinha um papel decisivo, fê-lo descobrir as virtualidades de atividades
como oficinas e ateliês para o seu trabalho de intérprete e compositor. Já para
um antigo músico de orquestra, também professor de música e elemento de
formações em diversos géneros musicais, o aliciante no convite para realizar
oficinas residia na possibilidade de disseminar o que dizia ser o seu modo de
praticar e ensinar a música: cultivando a criação, a improvisação e o
cruzamento da música com as outras artes; defendendo a ideia de que a música
não existe como uma entidade exterior às pessoas.
LUGAR DA ATIVIDADE NO PERCURSO
O impacto da experiência de fazer visitas guiadas em museus no percurso dos
entrevistados tem uma relação direta com a longevidade dessa prática nas suas
trajetórias. É, pois, possível apreciar diferentes graus de centralidade no
lugar que a atividade tem vindo a ocupar nas suas vidas desde que a desempenham
e no que respeita à continuidade que lhe pretendem dar.
Se as trajetórias dos monitores mais jovens revelam maior centralidade destas
ocupações, os discursos dos mais velhos introduzem um tom mais reflexivo sobre
o significado e a pertinência da manutenção da atividade de monitor de visitas
guiadas. Para estes, o balanço entre os atrativos e os aspetos menos favoráveis
ganha enfoque, mesmo que não se salde em vontade de abandono.
No caso de uma historiadora e crítica de arte que iniciou a atividade em 1997
no campo artístico enquanto guia de visitas, é notório o gradual distanciamento
da função, dando cada vez mais espaço à crítica, à atividade de curadora e à
participação em júris de prémios. O abrandamento do ritmo do trabalho de guia
decorre também de um processo de reconversão da cultura profissional: perante
as funções de gatekeeping que ganham relevância na sua trajetória, o trabalho
direto com os públicos desvaloriza-se, financeira e simbolicamente.
Quanto aos mediadores nas áreas da música e do livro e da leitura, as diversas
situações inscrevem-se num eixo que progride de uma posição de extrema
importância até, noutro polo, um lugar secundário ' havendo, em zona
intermédia, abrandamento da atividade, com vista a repensá-la e a poder retomá-
la noutros moldes.
Há quem estruture toda a sua atividade em torno do trabalho com diversos tipos
de públicos ' das diferentes bibliotecas e escolas em Portugal até territórios
internacionais dos mais desfavorecidos ' desenvolvendo projetos de literacia a
partir do trabalho de construção de um livro. Aqui, o percurso é marcado pela
constante itinerância, tendo sobretudo por base o trabalho em torno dos seus
próprios livros, que lhe permitiram estabelecer, a par da realização de
atividades em museus e outras instituições culturais, uma carteira de
contactos e uma agenda de trabalho autónoma.
A vontade de conjugar o trabalho de mediador com a atividade de pintor é mais
mobilizadora para outro entrevistado em que o trabalho de mediação cultural
ocupa um lugar significativo. E assim, ao mesmo tempo que descreve com grande
entusiasmo os projetos de promoção do livro e da leitura em que tem participado
e continua a querer realizar, anuncia o desejo de voltar a pintar com
continuidade, tendo decidido reduzir o volume de trabalho de mediador cultural.
A contrapartida, acrescenta, será ter um estilo de vida mais austero, em nome
de sacrifícios que têm que se fazer na vida quando se fazem opções artísticas.
Não me queixo, foi uma opção consciente. Esta atitude é ilustrativa das
tendências para sobrepor a gratificação simbólica à satisfação material e para
fazer prevalecer a ideia de vocação sobre a de profissão, que têm sido focadas
em pesquisas sobre percursos e atitudes de artistas, arquitetos e monitores de
visitas guiadas (Farinha, 2002; Menger, 2005; Cabral e Borges, 2010; Rodrigues,
2012).
Avesso a rotinas e defensor do ecletismo como uma mais-valia e uma procura
pessoal, outro entrevistado diz ser essencial conseguir gerir as várias
atividades de modo a não deixar suspensos os trabalhos de criação. Para ele, a
articulação entre o trabalho de músico/compositor e o de mediador decorre de
forma fluida. Trata-se do percurso onde é mais visível o interesse crescente,
na área da mediação, por trabalhos principalmente de conceção, e não tanto pela
execução. Aliás, a progressiva dedicação à conceção, para além da execução, é
também detetável, de algum modo, nos discursos de outros mediadores, com mais
experiência.
Já para outros músicos, as atividades de mediação enquadradas em iniciativas
pedagógicas de instituições culturais assumem um lugar secundário. Para quem
está em início de carreira, as crescentes solicitações para integrar projetos
como músico ganharam mais frequência e relevância. Noutro caso, a
secundarização explica-se pelo que é considerado um aspeto desfavorável do
funcionamento das iniciativas de mediação em que tem participado: o carácter
predominantemente ocasional das experiências proporcionadas aos públicos.
Outros dizem atravessar uma fase de reflexão sobre o caminho percorrido e as
possibilidades de reconfigurar a sua intervenção no campo da mediação cultural.
Por um lado, como no caso de um dos colaboradores mais antigos dos serviços
educativos analisados, por se dar conta que o trabalho tem um carácter
demasiado fugaz e que a posse de habilitações escolares inferiores às dos
colegas dificulta o acesso a outras experiências profissionais afins. Por outro
lado, como na situação de um mediador na área do livro e da leitura, por se
experimentar algum desencanto quanto a um circuito profissional cujo modus
operandi prevalecente se encontra mais voltado, em sua opinião, para os
desígnios dos mediadores do que para os interesses das pessoas a quem se
destina o trabalho.
LIGAÇÕES INSTITUCIONAIS ' EXCLUSIVIDADE, ACUMULAÇÃO, TRANSIÇÃO
No que respeita à ligação com os dois centros de artes visuais abordados,
observam-se situações de exclusividade, acumulação de ligações e de transição
entre a Área de Exposições do Centro Cultural de Belém e o Centro de Arte
Moderna José de Azeredo Perdigão. As colaborações exclusivas resultam da
preferência pelas condições de trabalho numa entidade ou da progressiva
assunção de outras funções no campo artístico, implicando o não alargamento da
atividade de guia a outros espaços.
A lógica de acumulação do trabalho numa e noutra instituição deriva
principalmente da procura de uma remuneração financeira mais sólida e
enquadra-se na pluriatividade que sempre caracterizou, de forma particular, as
ocupações artísticas e culturais. Para as artistas que vêm na função de guia
simultaneamente um contributo para a sua estabilidade financeira e um trabalho
gratificante numa área conhecida, a ligação ao CCB e ao CAMJAP justifica-se
nesses termos.
Se bem que tenham igualmente objetivos de reforço da situação financeira, para
as entrevistadas mais jovens a acumulação do trabalho de guia no CCB e no
CAMJAP denota também interesse em aprofundar o conhecimento do campo e perceber
outras possibilidades de intervenção. Aqui sobressai a circunstância das duas
instituições terem programações diversas, surgindo a presença predominante de
arte contemporânea em Belém como um evidente fator de atração, na medida em que
permite trabalhar a partir de objetos e temáticas mais atuais. No entanto, um
traço se impõe nos percursos que revelavam circulação entre as duas entidades:
o CCB apresentava-se, em 2004, como um contexto mais para começar do que para
continuar.
Era também significativa a possibilidade de alargamento de redes de
conhecimentos, decorrentes de contactos com outros profissionais das
instituições, incluindo os próprios colegas monitores, com quem se desenvolvem
cumplicidades e relações de confiança, geradoras de projetos comuns. Os
benefícios das ligações a estruturas de referência no domínio das artes visuais
traduzem-se, de uma forma mais genérica, no enriquecimento dos curricula,
elemento importante no acesso a formações académicas superiores.
Este é um trabalho que às vezes parece uma faca de dois gumes, temos uma
liberdade que também nos condena. São palavras de uma guia de visitas quando
solicitada a relacionar benefícios e aspetos menos favoráveis no trabalho de
fazer visitas guiadas. As desvantagens consistem fundamentalmente, de acordo
com uma voz unânime no grupo abordado, na irregularidade do ritmo de trabalho,
na precariedade da ligação às instituições, incluindo a baixa remuneração. A
liberdade que condena pronuncia-se por outras palavras: se, por um lado, se
trata de um trabalho que contribui para o enriquecimento dos percursos no campo
das artes visuais e é desempenhado em regime mais flexível que o dos empregos
com horário fixo, por outro lado, representa uma atividade incerta, devido a
fatores como o ritmo sazonal da afluência dos públicos e da programação, a
quase ausência de formalização do vínculo entre as entidades e os
colaboradores. Neste balanço, transparece a presença pouco integrada dos
monitores nas instituições, isto apesar de serem figuras centrais no
estabelecimento e no desenvolvimento do contacto entre os públicos e os espaços
culturais.
O facto de a intervenção dos guias poder ser percecionada como atividade
destinada aos visitantes do segundo dia, nas palavras de um mediador, indicia
o perpetuar, no trabalho dos museus em Portugal, de uma forte divisão
hierárquica entre os diversos profissionais e setores das instituições
(Barriga, 2011). É uma divisão que atravessa a história da instituição museu
e que esta pesquisa abordou noutras etapas: da análise da função de educação
nos museus, entre as outras missões (colecionar, preservar, documentar) que
estruturam a sua criação (Hooper-Greenhill, 1994), até aos depoimentos das
responsáveis pelos serviços educativos. Nessa compartimentação do trabalho,
como que se consagram funções maiores ' curadoria e conservação, focadas nos
visitantes do primeiro dia (art world) ' e outras menores, para os
visitantes do segundo dia (público geral).
Da tríade exclusividade-acumulação-transição, a acumulação é a que assume maior
relevância para os mediadores nas áreas da música e do livro e da leitura, que
têm em comum declararem não gostar de trabalhos únicos e definitivos e
manifestarem disponibilidade e interesse para desenvolver atividades em
diferentes instituições e participar em diversos projetos. Se bem que a procura
de uma remuneração financeira mais substancial ou a vontade de alargar as redes
de contactos também aqui pareçam pesar, outros motivos surgem, agora, mais
sublinhados. O que permite abordar a questão da pluriatividade para além do
ângulo da precariedade, possibilitando vê-la também pelo lado da
disponibilidade para a invenção e experimentação que caracteriza, a par de
outros traços, a atividade artística.
Em primeiro lugar, o pendor para a acumulação de ligações institucionais ' e
ainda que possa assumir um carácter intermitente ' assenta no reconhecimento de
que trabalhar com vários projetos e instituições propicia o que tendem a
considerar desafios e exercita o grau de exigência e qualidade que se imprime
no trabalho. A diversidade de ligações institucionais anda a par, em alguns
casos, do desenvolvimento de metodologias e instrumentos que permitem alcançar
uma margem pessoal de ação e ultrapassar as especificidades e os condicionantes
das diferentes instituições.
Outra vantagem de trabalhar com mais do que uma instituição corresponde à
possibilidade de contactar e trabalhar com grupos socialmente diversos. Como se
compreende, esta circunstância afigura-se especialmente valiosa para os
mediadores que vêm na arte um elemento de transformação pessoal e social.
PROFISSÃO, FORMAÇÃO, QUALIDADES
É característica das ocupações com existência recente serem percecionadas de
forma difusa quanto às necessidades a que respondem e aos seus modos de
funcionamento pelas entidades empregadoras, pela sociedade em geral e até, em
algum grau, por aqueles que nelas trabalham. Neste processo, encontram-se em
jogo os três momentos considerados cruciais, de acordo com Nathalie Heinich,
para pensar a identidade: auto-perceção, a maneira como as pessoas se percebem
a si mesmas; representação, a forma como se apresentam aos outros; e
designação, o modo como os outros, pessoas e instituições, as designam (Heinich
e Ténédos, 2006, p. 76).
Daí ser pertinente colocar a seguinte questão: O que diz quando lhe perguntam
a profissão?. A novidade que ainda rodeia o trabalho dos serviços educativos e
outras modalidades de mediação, aliada à situação precária daqueles que as
desempenham e à inexistência de formação no sistema de educação na área,
explicam algum desconforto perante a questão. Por seu lado, o regime de
pluriatividade dos artistas contribui para que apresentem uma diversidade de
termos e combinatórias. Há quem opte por se afirmar professor, invocando uma
atividade que também realiza (ou já realizou) e que, pela sua longevidade e
estruturação, corresponde melhor à ideia de profissão ' uma profissão
profissionalizada, pela combinação de autonomia, formação, organização,
códigos éticos. Outros apresentam-se com um ou mais atributos: mediador
cultural; investigadora; educadora de museu; designer e guia de visitas em
museu; artista; músico; historiadora e crítica de arte; mediador e artista;
artista e professora.
Quanto à formação considerada mais adequada para trabalhar como mediador
cultural, a área da pedagogia surge muito valorizada; esta, conjugada com
conhecimentos teóricos e práticos sobre arte, constitui, para os entrevistados,
a melhor habilitação para se poder desenvolver o trabalho de mediação cultural.
Salientam-se, igualmente, as vantagens de ter formação superior em áreas
artísticas, por potenciar, no entender dos mediadores, a criatividade na
conceção e na orientação das atividades. E aprender na prática, pelo lado da
experiência, como dizem, é repetidamente referido como etapa essencial de uma
aprendizagem (e de um saber) em regime não formal.
Todos convergem no reconhecimento da importância da conjugação das seguintes
qualidades: ter muito gosto pelo trabalho de mediação; ter vontade e capacidade
de investigar e comunicar; manifestar disponibilidade para acolher
contribuições dos públicos; ter flexibilidade na conceção, organização e
condução das atividades. Note-se que o gosto pelo trabalho e a ideia de que
este requer constantes investimentos pessoais são traços colocados em evidência
por algumas análises sobre percursos e atitudes de artistas e cientistas
(Martinho, 2003; Borges e Delicado, 2010).
Mas é a capacidade de dar atenção aos participantes e perceber as suas
motivações, bem como a aptidão para integrar as suas opiniões, que surgem
enfatizadas nos discursos. Capacidade traduzida ainda na flexibilidade para se
colocar quer do lado do artista e da obra quer do lado da assistência;
conseguir sintonizar-se com os diferentes grupos, recorrendo, nomeadamente, a
referências que lhes possam ser familiares. E estando sempre consciente da
importância da negociação para o sucesso da comunicação. A satisfação pessoal
resultante da interação com os participantes nas atividades de mediação
percorre os discursos de todos os entrevistados. Deste sentimento dá também
conta um estudo em torno dos monitores de visitas guiadas na Casa da Música e
do seu discurso institucional (Rodrigues, 2012).
Se à anterior lista de qualidades consideradas importantes no trabalho de
mediação ' um elenco consensual onde surge sublinhada a competência de gestão
relacional ' se acrescentar a defesa e o louvor do aprender (e do saber) não
formal, ganha evidência a importância dos saberes tácitos na constituição e na
afirmação dos grupos ocupacionais, sobretudo quando o conhecimento não se
encontra certificado (Champy, 2006, pp. 10-13).
A tensão entre a posse de saber e a falta de participação no poder de decisão
institucional, que marca a história das ocupações e profissões, transparece nos
discursos de alguns entrevistados, designadamente quando: referem a
insuficiente valorização do seu trabalho, percecionada por eles em diversas
instituições de que são colaboradores; apontam a falta de reconhecimento do
mérito daqueles que alcançam bons resultados e o desinteresse pela aplicação
das suas competências noutras dimensões do funcionamento das instituições. Como
se o trabalho desempenhado por cada um fosse, no dizer de um entrevistado,
pouco mais do que uma intervenção isolada, um expediente que começa e acaba
na ocasião da execução das atividades. Outro sinal da falta de valorização do
trabalho dos mediadores culturais seria o reduzido investimento institucional
na preservação das diversas iniciativas promovidas, através do seu registo e
documentação.
INFLUÊNCIAS ' TRABALHOS DE MEDIAÇÃO E OUTRAS ATIVIDADES
De que modo as outras ocupações dos mediadores influenciam este trabalho, que
marcas lhe podem conferir? Para as artistas visuais que participam nas
atividades dos serviços educativos, a característica distintiva que podem
imprimir no trabalho de mediação assenta em privilegiarem o compor em vez do
expor ' atribuindo o primeiro modo aos criadores e o segundo aos colegas com
formação em história da arte ' e de procurarem ter como fonte primeira, na
preparação das atividades, os próprios autores das obras.
Quanto à maneira como o trabalho de monitor de visitas no museu influencia o
trabalho artístico, este adquire uma importância especial quando o tipo de
obras produzidas implica de modo muito direto a reação das pessoas, dos
observadores ' como no caso de uma das artistas cuja obra contempla mais o
género instalação. Trata-se de um duplo contributo. Por um lado, a preparação
da apresentação de obras e artistas com semelhante tipo de interesses
proporciona o aprofundamento do conhecimento dessa área. Por outro lado, podem
ser exploradas as potencialidades da presença das pessoas no museu e dos seus
modos de deambular no espaço. E coloca-se ainda uma terceira possibilidade: o
contacto acumulado com a obra de outros artistas faz com que o retomar do
trabalho criativo implique um confronto com a sua própria obra e processos de
criação.
Estamos, assim, perante situações de contaminação recíproca, na expressão de
uma mediadora cultural na área do livro e da leitura, influência que também se
traduz no intercâmbio de metodologias e de objetos de trabalho entre atividades
de mediação e de criação. E se para uns as duas intervenções quase se
confundem, para outros é clara a distinção entre ser artista e ser mediador
cultural. Para os segundos, a demarcação estabelece-se pelo que está
prioritariamente em causa num e noutro desempenho: nas atividades de mediação,
as prioridades seriam os resultados que é possível obter com as pessoas com
quem se trabalha, estas constituindo grupos sempre diversos; no trabalho
artístico, o que ganha prioridade são os resultados artísticos, e aqui o
estabelecimento de limites e tipos de escolhas é da responsabilidade do autor,
em função dos efeitos que pretende que a obra tenha.
SOBRE A FEMINIZAÇÃO E A JUVENILIZAÇÃO DOS MONITORES DE VISITAS GUIADAS4
O facto de a função de guia de visitas, bem como outros trabalhos de educação
no museu, ser maioritariamente desempenhada por mulheres interpela os
mediadores de vários modos. Há quem manifeste sobre a questão um olhar
distanciado, tendendo a naturalizar essa característica, na medida em que a
predominância de mulheres é encarada como prolongamento de uma tendência
observada no sistema de ensino: a presença predominante de mulheres, à exceção
dos níveis superiores. Já uma perspetiva mais elaborada sobre os motivos da
feminização do grupo de guias é avançada por monitoras que o são há mais tempo
e que detêm um maior conhecimento do campo das artes visuais e das suas
dinâmicas profissionais. Para elas, a figura da guia de visitas é menos
reconhecida devido a questões relacionadas com a divisão social do trabalho. Ou
seja, tendo em conta o mais tardio ingresso das mulheres no mercado de
trabalho, é menos provável o seu acesso a posições de poder, no que é uma
tendência que os domínios cultural e artístico também revelam, à semelhança de
outros setores de actividade (ERICarts Report Culture-Gates', 2003; ERICarts
Report Culture-Biz',2005).
A maior compatibilidade entre o género feminino e o trabalho de guia de museu
explica-se, como se percebe nas entrevistas, por dois motivos fundamentais. Um,
corresponde ao facto de atributos como a capacidade de flexibilidade e a
intuição serem ainda considerados mais de mulher. Outro motivo assenta na
perceção de que auferir um salário baixo e ter um emprego pouco duradouro e
prestigiante são situações consideradas mais aceitáveis pelos outros indivíduos
e pelas instituições, se o trabalhador for do género feminino. De facto, e como
variados estudos sobre emprego e relações de género têm demonstrado, estes são
padrões prevalecentes quanto à posição da população trabalhadora feminina no
mercado de trabalho: as mulheres continuam a ser mais desfavorecidas pelas
desigualdades salariais entre géneros (Ferreira, 2010) e são as principais
atingidas pelos efeitos fragilizantes da crescente flexibilização do trabalho
(Casaca, 2010).
Se são as mulheres quem mais facilmente parece suportar a flexibilização e o
défice de reconhecimento associados ao trabalho de guia de visitas no museu, a
integração deste tipo de situação como modo de vida é mais recorrente num
período inicial do seu percurso, em que são mais jovens. Numa fase da vida mais
adulta, o provável acréscimo de responsabilidades pode acelerar a procura de um
trabalho que proporcione um grau superior de estabilidade e um maior equilíbrio
entre o esforço investido e a remuneração obtida.
SOBRE OS PÚBLICOS
O trabalho de mediação cultural constitui um contexto especialmente propício à
perceção da relação das pessoas com a arte e das maneiras como por ela se
sentem interpeladas. De acordo com a experiência dos mediadores, são três as
razões principais que levam as pessoas a frequentar este tipo de atividades. Em
primeiro lugar, a vontade de atualizar conhecimentos sobre arte contemporânea
através do contacto direto com as obras. Depois, o acentuar de uma tendência
para o auto-ensino ' facilitado pelo acesso à informação, por via das novas
tecnologias de informação ', constituindo as atividades organizadas pelos
serviços educativos outras modalidades de praticar o autodidatismo. Em terceiro
lugar, surge a procura, por parte dos responsáveis pela educação de crianças e
jovens, de atividades de ensino artístico alternativas ao ensino das artes no
sistema da educação formal.
A questão que os visitantes mais frequentemente colocam é O que é arte?. A
persistência da pergunta ocorre, note-se, numa época na qual a arte
frequentemente parece ser uma língua estrangeira, na expressão da curadora
Mary Jane Jacob (cit. in Vergara, 1996) e resulta, sobretudo, das
transformações introduzidas pelas práticas artísticas do século XX. Estas
vieram questionar a tradição da cultura ocidental no que diz respeito aos seus
géneros artísticos, desvalorizando parâmetros até então enaltecidos na história
da arte, como a representação, a figuração ou o reconhecimento de um valor
estético da obra de arte (Bell, 1999).
É no quadro desse questionamento que se situa a reação de públicos menos
familiarizados com a arte contemporânea, ora surpresa, ora incrédula. Se o
conhecimento artístico é condição importante da disponibilidade para a produção
artística contemporânea, compreende-se que públicos menos conhecedores possam
mostrar maior alheamento deste universo ou declarar-se mais frequentemente
necessitados de saber o que é arte. Este alheamento, ou mesmo o afastamento,
pode ser também devedor do desencontro entre a formação escolar em artes
visuais e o contacto com exposições de arte contemporânea. Como refere Naomi
Horlock, coordenadora do programa Young Tate, na Tate Gallery, em Liverpool, a
tendência para, desde os primeiros graus de ensino, incentivar o
desenvolvimento de competências técnicas, também em desenho, cria expectativas
sobre o que a arte deve ser. E quando se vê o trabalho dos artistas mostrado em
museus de arte moderna e contemporânea as expectativas podem não ser
correspondidas, passando este espaço a ser visto como um mundo à parte do
quotidiano (Horlock, 2000, p. 17).
Entre os diversos grupos etários, os adolescentes são o segmento apontado como
mais merecedor de atividades de mediação cultural, sendo principalmente os que
trabalham na área do livro e da leitura que referem a necessidade de
desenvolver um trabalho aprofundado com eles. Em primeiro lugar, trata-se de
procurar recuperar o gosto dos adolescentes pelos livros, que não é cultivado
devido, na opinião dos mediadores, à falta de um sistema de ensino mais
articulado e eficaz. Em segundo, realça-se a importância de promover o contacto
dos adolescentes com uma maior variedade de bens culturais, para além dos que
circulam em circuitos mais comerciais. Em terceiro lugar, pretende-se mostrar
que a arte e a literatura têm a capacidade de ajudar os adolescentes a pensar
sobre algumas questões com que mais se confrontam nessa fase das suas vidas.
PERFIS DE MEDIADORES
Observados os modos como se posicionam, em diversas dimensões, os catorze
mediadores culturais entrevistados, é possível reconhecer neste painel vários
traços que os distinguem quanto a motivações, lugar e impacto desta ocupação
nas suas trajetórias. A análise qualitativa das entrevistas permitiu
diferenciar três grandes perfis-tipo, que ilustram a heterogeneidade dos
mediadores em presença: arte e vários caminhos; artistas apresentam arte; arte,
comunicação e cidadania.
Arte e vários caminhos. Fazer visitas guiadas e outras atividades enquadradas
nos serviços educativos de instituições culturais de referência representa para
os mais jovens fundamentalmente um meio de aprofundar o conhecimento do campo
mais diretamente relacionado com a sua área de formação académica. O contacto
profissional com os museus e as diversas áreas e funções neles implicadas
proporcionou simultaneamente: um complemento de formação; o conhecimento da
intervenção dos serviços educativos; a maior consciência de capacidades
pessoais até aí pouco exploradas; uma oportunidade de apurar escolhas
profissionais.
Artistas apresentam arte. A especificidade desta categoria de mediadores advém
de serem artistas, os quais encontram no terreno da mediação um contexto de
aplicação, desenvolvimento e experimentação do conhecimento que detêm dos
processos criativos.
Arte, comunicação e cidadania. Reúnem-se, neste perfil, entrevistados cujo
traço mais transversal é o facto de o trabalho de mediação cultural, em
presença com os públicos, lhes proporcionar uma conjugação de apetências e
recursos pessoais, por um lado, e de formação e atividade profissional, por
outro lado. As atividades com os públicos revelaram-se contextos onde puderam
aplicar profissionalmente o (antigo) interesse pela reflexão sobre matérias
artísticas e sociais junto dos outros, constituindo espaços de comunicação e
partilha. Para alguns, o gosto pela comunicação surge estreitamente relacionado
com a visão da arte como fator de mudança, dos indivíduos e da sociedade, e de
promoção de cidadania.
A heterogeneidade do grupo de catorze entrevistados, de que dão conta os três
perfis recortados, repercute-se no interior de cada perfil, na medida em que as
singularidades das trajetórias abrem algumas segmentações internas.
No grupo dos artistas que apresentam arte, enquanto para as artistas visuais
o trabalho de mediação em museus representa mais um recurso para assegurar a
subsistência, para os músicos tais atividades significam, além de uma fonte
suplementar de remuneração, espaços de pesquisa. Para as primeiras, a
relevância de ter um trabalho de carácter não exclusivamente artístico afigura-
se maior dada a vontade de desenvolverem carreiras independentes das galerias
de arte. Trata-se, para elas, de um trabalho especialmente compatível com a
criação, não só no que respeita a horários como também no que relaciona com
metodologias. Quanto a métodos, na apresentação das obras de arte as guias
artistas dizem poder explorar e expandir o que seria, segundo as entrevistadas,
uma apetência especial dos criadores para a composição (definida como
capacidade de reelaboração do conhecimento adquirido).
Para os músicos, o trabalho pedagógico no âmbito das iniciativas educativas de
várias instituições culturais e com diversos grupos etários tem-lhes permitido
aferir reações às suas propostas e desenvolver a exploração do fenómeno sonoro
para além da estrita identificação entre música e instrumento convencional. A
pesquisa reverte para o trabalho de criação e o trabalho de criação contém
metodologias aplicáveis nas oficinas, ateliês, visitas e outras atividades de
mediação.
Se bem que o gosto pela comunicação seja transversal aos entrevistados que
integram o perfil arte, comunicação e cidadania, também aqui a singularidade
dos percursos exige uma segmentação interna.
Desde logo, observam-se diferentes evoluções quanto ao lugar que as atividades
de mediação tendem a assumir. Para um dos entrevistados que há mais anos tem a
função de guia, esse lugar mantém-se central, o que propicia, talvez, uma
atitude vincada de balanço relativamente à atividade desenvolvida. Atitude que
anda a par da defesa explícita do trabalho de mediação cultural como uma
profissão, não exclusivamente destinada a pessoas em princípio de atividade,
como percebe que tende a ser encarada.
O percurso de outra entrevistada com maior longevidade na colaboração com
serviços educativos de museus tem a especificidade de evidenciar o progressivo
distanciamento do trabalho direto com os públicos, resultante de um maior
investimento noutras formas de mediação em artes visuais, como a crítica e a
curadoria. Estas novas funções, e a tradicional relação de distância que mantêm
com os serviços educativos, acabaram também por ditar o carácter esporádico que
a realização de visitas guiadas ocupa, atualmente, na sua vida profissional.
A questão da conciliação entre oportunidades, carreira e vida familiar assume
especial lugar no percurso desta entrevistada, a única monitora de visitas
guiadas em museus para quem fazer carreira no campo das artes visuais
significou o progressivo acesso a funções predominantemente desempenhadas por
homens, sobretudo a curadoria. Acesso que resultou, como frisava, de
oportunidades aproveitadas, que se lhe colocaram por poder estar presente em
vários circuitos do campo artístico. Por ter, afinal, disponibilidade, condição
considerada fundamental para as mulheres que pretendam prosseguir carreiras
profissionais.
Para aqueles que encaram a arte como elemento de mudança e instrumento promotor
de cidadania, os seus percursos e discursos traduzem modos específicos de
conjugar essa relação.
O cruzamento da mediação cultural com a criação na atividade em torno da
literatura marca particularmente a trajetória de uma entrevistada. A
singularidade desta mediadora reside na integração dos livros que escreve e
ilustra numa intervenção mais vasta, concretizada nos projetos de aproximação
ao gosto da leitura que desenvolve em bibliotecas, escolas e outros contextos,
o que lhe confere autonomia na gestão do trabalho. Subjacente a este tipo de
intervenção está, como foi possível observar no seu discurso, a vontade de
dessacralizar a visão das obras artística. Uma atitude consonante com o
mostrar-se avessa a apresentar-se como escritora e autora ' ainda que, note-se,
alguns dos seus livros tenham obtido várias distinções e as instituições que a
contratam a refiram desse modo.
No caso de outro entrevistado, o que ressalta é o objetivo de testemunhar
junto dos outros uma experiência pessoal em que a leitura surge como um gosto e
um meio de reflexão e desenvolvimento pessoal. Como afirmava, a leitura andou
sempre comigo e a determinada altura tornou-se tão importante que achei que era
obrigação cívica retribuir. A colocação da leitura no centro das suas
atividades evidencia um propósito formativo ' ter pessoas melhores na sua vida
em sociedade ', funcionando o contacto com o livro e a literatura como uma
oportunidade de quem lê poder conhecer outras experiências humanas e modos de
lidar com diversas problemáticas e variadas emoções.
CONCLUSÃO
Este artigo teve por objetivo divulgar conhecimento sobre o trabalho de
mediação cultural em Portugal, produzido a partir de uma investigação focada
naqueles profissionais que contactam diretamente com os públicos das
instituições culturais e artísticas. O estudo de uma ocupação que é ainda
recente entre nós, comparativamente com o que se verifica noutros países,
revelou uma realidade heterogénea quanto às trajetórias dos mediadores, bem
como no que se refere às suas motivações para desenvolver este tipo de
atividade, ao grau de importância que estas detêm nos percursos dos mediadores
e ainda no que respeita a outras dimensões analíticas. A finalizar este artigo,
destacamos três aspetos.
Em primeiro lugar, o trabalho de mediação cultural denota, de modo geral, um
estatuto contraditório. Assim, ao mesmo tempo que tem sido defendido
institucionalmente, em conformidade com objetivos de política cultural, como a
democratização cultural e a formação de públicos, aqueles que o praticam
parecem ocupar uma posição secundária nas organizações culturais e artísticas.
Daí também a evidência, entre os mediadores entrevistados, de tensão na sua
relação com as instituições e as iniciativas em que colaboram: de um lado, as
vantagens da flexibilidade de horários e do conhecimento facilitado do campo
cultural e artístico; do outro lado, as desvantagens da irregularidade do
trabalho e do que consideram ser a insuficiente valorização de desempenhos. A
tensão é mais ou menos enfatizada consoante as idades, a longevidade da
experiência profissional e a existência de outros interesses e/ou prováveis
oportunidades. Até que ponto a evolução do processo de mediação das artes em
Portugal, incluindo os formatos e a regularidade da programação destas
atividades, bem como a gestão dos recursos humanos, contribuirá (ou não) para
manter o dilema? Tendo em conta o cenário atual, em que se verifica a perda de
autonomia desta área nas políticas públicas, tal evolução é uma incógnita.
Em segundo lugar, é de chamar a atenção para a questão da acumulação, por parte
de artistas, de funções diversas no campo artístico. Ao invés do que aponta o
padrão predominantemente veiculado pela mediatização das vidas de artistas,
esta pluriatividade e a opção de intercalar trabalhos diferenciados vem mostrar
que a prática artística é feita de interrupções, períodos de indefinição e
exploração de novos caminhos. Nos entretantos experimentam-se e desenvolvem-
se outros trabalhos em que é rentabilizado o melhor conhecimento das linguagens
artísticas, e exercitam-se competências comunicacionais, entre outras. A
participação de artistas na apresentação e mediação da arte vem também desfazer
a ideia, frequentemente difundida, de que os criadores são avessos a que se
comente o seu trabalho em espaços que não o da crítica ou de outros circuitos
especializados. Esta é uma temática que merece ser desenvolvida, pois a
ampliação ou a redução das possibilidades de leitura das obras não é
indiferente a quem as cria.
Em terceiro lugar, a ideia de que as artes têm impactos sociais positivos e são
um fator de transformação, expressa e defendida principalmente pelos mediadores
na área do livro e da leitura, aponta para a necessidade de um questionamento
problemático deste assunto. São várias interrogações que suscitam mais
investigação e a importância de uma sistematização de diferentes argumentos e
conceções. Sem que se negue o valor da experiência estética, o objetivo é
conseguir uma abordagem desta temática mais rigorosa. Dessa investigação
beneficiará, desde logo, o conhecimento e a avaliação do trabalho de mediação
cultural em diversos setores, instituições e contextos.