Crianças e internet: a ordem geracional revisitada
APRESENTAÇÃO E OBJETIVOS
No campo da teoria, a sociologia da infância tem construído os seus objetos de
análise a partir de três principais pontos de vista. Para uns, a infância é
abordada como uma representação, uma categoria de discurso, associada a um
tempo e a um espaço, legitimada por dispositivos de saber (e de poder) (Lee,
2005). Para outros, a atenção é posta nos seus protagonistas, as crianças, com
capacidade de agency' ora como atores plurais, coprodutores do seu processo de
socialização (na família ou na escola, face a adultos ou entre pares) (Sirota,
2006), ora ainda como criadoras de culturas próprias e específicas,
reproduções interpretativas dos universos adultos (Corsaro, 2005). Num
terceiro olhar, enfim, a infância é entendida (tal como a adultez) como uma das
duas gerações sobre a qual assenta a ordem geracional, estrutura permanente que
existe, com a sua clivagem binária, em todas as sociedades (Qvortrup, 2004). O
presente artigo inspira-se nesta terceira corrente teórica e pretende pô-la à
prova, a partir de uma investigação em curso sobre crianças e internet.
No que toca à infância, a ordem geracional ' defendem alguns autores ' assenta
assim numa relação de domínio entre adultos e crianças. Atributos, acesso a
recursos de uns e de outros são profundamente desiguais: as crianças são
percecionadas como menores, dependentes do saber transmitido pelos mais velhos,
também responsáveis pela sua proteção face a ameaças exteriores; por outro
lado, as crianças são discriminadas em termos de recursos económicos e
espaciais disponíveis, cuja posse os adultos exclusivamente controlam. Porém,
este paradigma não pode hoje deixar de ser interpelado por uma constatação
frequente: em Portugal, como em alguns outros países europeus, as crianças
lideram na apropriação e uso competentes de novas tecnologias de informação e
comunicação, revelando intensidades de utilização e níveis de proficiência
superiores aos adultos e exibindo notáveis capacidades de navegação e
comunicação no ciberespaço.
Estaremos, então, perante situações que desconstroem a visão dominante da
ordem de gerações, na medida em que invertem a relação de poder entre ambas,
desarrumam o arranjo de espaços que a sustém? De que modo a proximidade com os
novos media altera os contornos, a natureza das categorias geracionais?
O presente artigo pretende discutir estas questões. Na primeira parte retoma-se
o debate teórico sobre a infância como geração, recusam-se perspetivas
essencialistas (sobre a ordem geracional ou as novas TIC), defendendo pelo
contrário a necessidade de as situar em contexto. A argumentação é desenvolvida
a partir dos resultados (quantitativos e qualitativos) de uma investigação em
curso sobre crianças e internet em Portugal, a partir da qual se exploraram
algumas modalidades com que o acesso e o uso das novas tecnologias por crianças
e adultos surgem na realidade. Convocam-se os dados recolhidos sobre a casa
tecnológica, as aprendizagens e as fontes de saberes sobre internet e as formas
de ajuda entre filhos e pais. Numa síntese conclusiva, procura-se mostrar como
os resultados trazem novos contributos para a abordagem das relações
geracionais nas sociedades contemporâneas.1
CRIANÇAS E ADULTOS, A ORDEM GERACIONAL
Na literatura sociológica sobre a infância, falar de ordem geracional implica
distinguir adultos de crianças como segmentos opostos e contrários de uma
estrutura estável que, tal como a que assenta no género ou na classe social,
organiza e fraciona o edifício social. Vários autores trazem para a discussão o
contributo fundador de Mannheim (Mayall e Zeiher, 2003; Alanen, 2003; Prout,
2005), que considerava diferentes níveis de análise para se abordar uma
geração: a coorte de pessoas nascidas num certo tempo e expostas a certos
acontecimentos e valores, históricos e sociais, partilham um lugar geracional e
formam uma geração em si; essas pessoas, ou algumas delas, podem ainda
desenvolver uma interpretação comum dessas experiências vividas e passam a
definir-se e a identificar-se como uma geração para si. O primeiro nível é
recuperado para enquadrar a mesma perspetiva nos estudos sobre a infância: as
crianças constituem, justamente, coortes que permanentemente entram e reciclam
a vida social. Mas, ao contrário de Mannheim (1990 [1923]), o que interessa à
sociologia da infância não é a observação ou comparação entre duas coortes de
adultos que se sucedem no tempo e transportam marcas culturais distintas. A
aceção e o olhar aqui são outros: num corte sincrónico, colocam-se frente a
frente coortes de idades (biológicas) diferentes, a dos adultos e a das
crianças, discutindo-se lugares, estatutos, espaços e poderes de uma e de
outra. Por outro lado, Mannheim considerava as gerações como fenómenos
culturais, descrevendo e compreendendo os processos sociais externos que as
caracterizavam e distinguiam. Metodologicamente, portanto, as gerações são, na
sua reflexão, uma variável dependente. Ora a sociologia da infância encara-as,
sobretudo, como variáveis independentes. Se não, vejamos.
Qvortrup (2004, 2007) é um dos pioneiros na exploração da infância como
segmento permanente de uma estrutura de gerações, com o objetivo explícito de
denunciar o seu estatuto de categoria dominada face à adultez.
As crianças são uma minoria discriminada em termos de recursos ou privilégios e
um dos desígnios dos estudos da infância deve ser o de dar visibilidade a esta
franja de população, estranhamente ausente (estamos então nos finais da década
de 70 do século passado) da teoria sociológica. Num balanço recente que fez do
seu percurso pioneiro na investigação, Qvortrup recorda, referindo-se a esses
primórdios:
Children had no home in social thinking. Our aim was to identify and
locate this home, the name of which was childhood': the home could
be good or bad, large or small ' first of all it would be the home
for all children and only for children. No sociological
conceptualization of childhood had been attempted [ ]. No
sociologists had asked about the nature of the social space of
childhood [Qvortrup, 2007, p. 396].
Sob o cenário de fundo da ordem geracional, como se distinguem, em seu
entender, as crianças dos adultos? Através de três critérios. Do ponto de vista
da regulação, as crianças são legalmente os menores de 18 anos (portanto
excluídos de certos direitos de cidadania) e os indivíduos que, na sociedade,
são obrigados a estar na escola e a estudar (enquanto os adultos trabalham).
Valores e normas dominantes, em segundo lugar, marcam as crianças pelo seu
(baixo) nível de maturidade, competência, autonomia, pela sua vulnerabilidade,
factos que implicam dispositivos que assegurem a sua proteção e participação.
Embora desigualmente valorizado por Qvortrup, o controlo do espaço infantil
pelo poder dos adultos seria outra variável a considerar nesta distinção. No
imaginário coletivo, as crianças associam-se a territórios domésticos e
escolares resguardados, a salvo das atividades predatórias de stranger-dangers
(Valentine, 2001) cujo terreno de caça de eleição é a rua e o espaço público,
no qual apenas os adultos circulam livremente.
Estruturalmente, e como último critério, Qvortrup sublinha a desigual posição
das gerações face ao acesso e uso de recursos económicos. Por exemplo, os
índices de pobreza destacam fortemente a população infantil. Feito o contraste
entre as duas categorias, infância e adultez, o autor insiste no caráter
compósito da ordem geracional: a moldura exibe uma permanência básica, ao
mesmo tempo que o seu conteúdo muda quase continuamente pela entrada/saída
ininterrupta de contingentes de crianças. Todas elas, porém, are its residents
for a while (Qvortrup, 2007, p. 396). A infância remains while it is
changing (idem).
L. Alanen (2003) virá a retomar e enriquecer a perspetiva de Qvortrup.
Inspirando-se na proposta de Mannheim, reclama que a sociologia da infância
realize uma inversão da perspetiva: a geração pode ser considerada uma variável
independente, com força causal explicativa nos processos de mudança e ordem
sociais. E chama a atenção para a importância de distinguir a análise de
categorias (de género, de idade), estática e sobretudo descritiva, da análise
processual, que foca os processos através dos quais essas categorias são
relacionalmente fabricadas. Como defende igualmente Mayall (2002), tomando por
referência os estudos de género, a perspetiva da generation pode e deve ser
cruzada com a da generationing, isto é, the relational processes by whereby
people come to be known as children, and whereby children and childhood acquire
certain characteristics [ ] the processes through which social positions are
constituted, reproduced and transformed through relational activity (Mayall,
2002, p. 27).
Assim, uma análise geracional da infância pode envolver uma dupla perspetiva, a
das relações externas e a das conexões internas (Alanen, 2003). Na primeira
(exemplarmente ilustrada em Qvortrup), as crianças são definidas pela pertença
estrutural a uma categoria específica, construída a partir de semelhanças
observáveis ou da partilha de certos atributos ' ficando porém por explorar os
modos através dos quais esta estrutura é reproduzida, bem como reforçada a sua
imagem de sistema de dois blocos sólidos e irredutíveis que necessariamente se
opõem (Prout, 2005), descurando-se a atenção à possível diversidade interna de
cada um deles. Na outra perspetiva, o foco é posto nas relações das crianças
com o mundo social, e portanto na conceção de uma estrutura geracional que se
refere aos conjuntos complexos de processos relacionais através dos quais
certas pessoas se tornam adultos, enquanto outras se tornam crianças; essa
construção envolve o conceito de agency, atribuído tanto a adultos como a
crianças, reportório de práticas de generationing através dos quais essas duas
categorias recorrente e mutuamente se constroem (Alanen e Mayall, 2001).
AS NOVAS TIC E A DESIGUALDADE GERACIONAL
A visão binária veiculada na sociologia da infância pela teoria da geração, na
qual as crianças são remetidas para o estatuto de minoria dominada, desapossada
de recursos de saber e de poder, é hoje desconfortavelmente confrontada com
sinais vindos de uma outra esfera da realidade: a das práticas infantis
relativas ao uso das novas tecnologias de informação e comunicação. Sabe-se que
as TIC (especialmente a internet) se têm difundido com uma intensidade e
velocidade vertiginosas entre os europeus, e especialmente os mais jovens.
Dados estatísticos oficiais e resultados de investigações recentes comprovam-no
à exaustão (consultar quadros n.º_1 e n.º_2). Os novos media passaram a fazer
parte do quotidiano (profissional, familiar, escolar) dos portugueses. A
utilização é quase universal entre as franjas dos mais novos (até aos 24 anos a
percentagem de utilização da internet supera os 90%), o que os deixa a uma
expressiva distância dos mais velhos (onde as percentagens rondam os 50%); essa
clivagem geracional no acesso é mais vincada em Portugal do que na União
Europeia (quadro_n.º_3). A apropriação familiar das novas TIC, destinada a usos
educativos (mas também lúdicos, comunicacionais, informativos) é notável (Ponte
e Vieira, 2008; Livingstone, Haddon e Görzig, 2010; Almeida, etal., 2012;
Cardoso, Espanha e Lapa, 2007).
Esta evidência empírica, recente mas pujante, é interpretada por alguns como o
advento de uma nova era geracional e cultural. Enaltece-se o papel das
crianças, digital natives, como líderes naturais deste processo de
aprendizagem e inovação, outpacing and overtaking adults on the technology
track (Tapscott, 1998). E, simultaneamente, retratam-se os adultos, digital
immigrants (Prensky, 2001), como a inábil retaguarda acomodada, excluída ou
marginalizada da modernidade digital.
A reflexão de Tapscott ilustra exemplarmente esta perspetiva. Eis então, ao que
parece, as categorias da ordem geracional propostas pela sociologia da infância
de estatuto invertido. O fosso entre gerações, o generational apartheid
continua a existir, mas nele as relações de poder alteram-se radicalmente. As
crianças que constituem a net-generation, nascidas em ambiente tecnológico,
respirando tecnologia, são hoje a autoridade em matéria de literacia e
cultura digitais e, em sentido mais lato, os promotores de uma revolução de
mentalidades que inunda a sociedade global. Estas crianças-filhos possuem uma
entusiástica capacidade de estar em comunidade, comunicar, e criar online; uma
forte independência e autonomia, derivadas do seu treino como information
seekers (e não apenas como information recipients), abertura intelectual e
emocional; promovem a inclusão e estabelecem pontes entre os universos local e
global; they live and breathe innovation; revelam-se maduros, autênticos;
demonstram curiosidade, criatividade, e capacidades inéditas de investigação.
Ao contrário, os adultos-pais (a geração da TV) são conservadores, inflexíveis,
rígidos e centralizadores. Revelam-se incapazes de acompanhar o processo de
inovação, sentem que o seu poder é limitado e posto em causa, e vivem uma
tremenda angústia (se não mesmo pânico) perante uma perturbadora realidade que
lhes é estranha.
As hipóteses de Tapscott foram duramente criticadas por autores como Buckingham
(2008). É simplista e arriscado ter uma visão essencialista da tecnologia,
considerando-a responsável direta pela mudança de comportamentos ou valores,
infantis ou outros. A tecnologia não atua num terreno virgem nem a solo (Keller
e Kalmus, 2009). Os novos media digitais entram numa paisagem moldada pelos
media que os precederam, e em que uns coexistem com outros, contínua ou
descontinuamente, formando arranjos complexos e híbridos. Por outro lado, essa
paisagem não é plana, na medida em que desigualdades entre grupos, regiões,
países, géneros, etnias a marcam estruturalmente e portanto condicionam ou
potenciam modos de acesso e de uso da internet. Enfim, a força libertadora
que Tapscott vê na tecnologia é talvez mais um juízo moral do que um argumento
científico empiricamente validado. Mas essencialista é, também, '
acrescentaremos nós ' a visão que Tapscott tem das gerações ' crianças vs.
adultos. Trata-as como entidades naturais, universais e abstratas, de contornos
fixos e indivisíveis, ignorando que elas se enraízam em espaços sociais, se co-
constroem em relação, e são não só moldadas por essas raízes como podem ser
atravessadas por uma grande diversidade interna. Não basta conceber uma
clivagem binária, aplicar uma taxinomia (net-generation vs. TV-generation) e
opor as duas metades a partir de um reportório de atributos qualitativos.
Trazer o contexto para a análise, admitir que ele conta, pode justamente
fornecer novos contributos para a discussão teórica da relação geracional na
contemporaneidade, a partir do impacto das novas TIC. É isso que procuramos
fazer nos pontos que se seguem.
UM PROJETO EM CURSO: OBJETIVOS, METODOLOGIA E RESULTADOS
Partimos de um projeto em curso no ICS-UL, Crianças e internet: usos e
representações, a família e a escola (financiado pela Fundação Calouste
Gulbenkian)2, que procura genericamente apreender a presença e as apropriações
da internet no quotidiano das crianças, em casa e na escola. Desenvolveu-se em
dois momentos metodologicamente distintos. Numa ótica extensiva, a primeira
fase (2008) baseou-se num inquérito por questionário dirigido a crianças,
alunos de turmas do 4.º, 6.º e 9.º anos, do ensino público e privado. Procurou-
se captar uma parcela alargada, territorialmente dispersa e socialmente diversa
de crianças. Construiu-se uma amostra não aleatória de 60 escolas/agrupamentos,
correspondendo a 180 turmas (3049 inquiridos), por quotas em função do tipo de
ensino (público ou privado), região e características socioeconómicas da
localidade. As características desta amostra não permitem a generalização
automática dos resultados à população infantil.
Privilegiando um olhar intensivo, a segunda fase decorreu em 2009-2010 e
consistiu na realização de entrevistas em profundidade a crianças (N=158) e
respetivos pais (N=50) e professores (N=50). A amostra de crianças foi
segmentada por sexo, ano de escolaridade (anos finais do 1.º, 2.º e 3.º ciclos
do ensino básico), região (áreas metropolitanas de Lisboa e Porto e o distrito
de Viseu) e estrato social (aferido pelo nível de instrução dos pais
(detentores/não detentores de qualificação superior). A amostra de pais (cujas
idades estão compreendidas entre os 30-40 anos) seguiu também critérios
regionais e de qualificação, e a dos professores foi segmentada por ano de
escolaridade e região; no entanto, as suas entrevistas têm apenas um valor de
contextualização e complementaridade relativamente ao discurso infantil, não
tendo sido objeto de análise aprofundada que permitisse medir os acessos, usos
e competências dos adultos.
Para efeitos da discussão que nos ocupa, recorreremos nos pontos seguintes aos
resultados das duas fases, extensiva e intensiva, do projeto. E centramo-nos em
três temas principais: a entrada das novas TIC no cenário doméstico, que vêm
transformando a casa num site of a multimedia culture (Livingstone, 2002);
as modalidades de aprendizagem infantil no acesso e utilização da internet; a
rede de entreajuda entre pais e filhos.
A CASA: UM RECREIO DIGITAL
Fortemente encorajado pelas preocupações educativas e securitárias dos pais
(Almeida, etal., 2011b), pela baixa de preços no mercado e pelas políticas
públicas de massificação do acesso a computadores (ex.: e-escolas e e-
escolinhas), o apetrechamento das casas familiares em novos equipamentos e
serviços tecnológicos ao serviço da criança é notável em Portugal. Do ponto de
vista dos pais entrevistados, é a preocupação educativa, impulsionada pela
democratização e qualificação escolares, que parecem constituir os fatores mais
decisivos na origem de um investimento familiar tecnológico tão intenso. Não se
concebe a experiência escolar da criança sem um acesso próximo e doméstico ao
computador: a internet permite a pesquisa rápida (estonteante) da informação
indispensável à realização dos trabalhos da escola, constitui um instrumento
importante da sua aprendizagem.
Para uns, os pais mais escolarizados, essa mobilização educativa vem de trás, é
tradicionalmente uma marca contínua da trajetória familiar, ajustando-se agora
aos sinais dos novos tempos; para outros, uma experiência inaugural e inédita,
em rutura com a sua própria experiência de socialização e genealogia familiar.
Todos, porém, são unânimes em reconhecer o facto de a internet e as novas
tecnologias serem fundamentais para as crianças.
O quadro_n.º_4, construído a partir das respostas das crianças no inquérito,
ilustra bem a quantidade e diversidade desses objetos infantis disponíveis em
casa, media destinados não só ao cumprimento dos deveres escolares, mas também
para que a criança desfrute do seu tempo livre numa envolvente rica,
estimulante e variada ' em potencial de entretenimento, informação e
comunicação. A profusão de ecrãs de computadores, consolas e telemóveis veio
juntar-se aos ecrãs de televisores (não esquecendo os livros), e é diante deles
que parte substancial do tempo infantil é despendido (Ponte e Vieira, 2008;
Cardoso, Espanha e Lapa, 2007). Aliás, em termos de preferências expressas nas
entrevistas destaca-se, indiscutivelmente, o computador (cf. quadro_n.º_5).
Os testemunhos das crianças, sejam elas provenientes de meios mais ou menos
favorecidos, revelam a abundância e saturação mediática do cenário doméstico.
Dois exemplos, retirados de meios sociais muito diferentes, ilustram-no
sugestivamente:
Muitos [livros] são meus e da minha mãe. O meu pai gostava de ler
quando era mais novo, mas agora já não lê. Estão na sala e numa
estante no meu quarto. [ ] Tenho mp3, a minha mãe tem mp4 e o meu pai
tem mp3, mas a minha mãe e o meu pai é muito raro usarem, a minha mãe
usava mais era no trabalho para ouvir a rádio ou assim. [ ] Sim,
tenho uma Nintendo DS, uma playstation portátil e uma playstation2.
Estão no meu quarto. [ ] Temos 4 televisões, na cozinha, no quarto
dos meus pais, no meu quarto e na sala. Todas com mais de 4 canais.
[ ] O meu pai tem 2 (telemóveis), a minha mãe tem 1 e eu tenho 2, os
2 em uso, porque os meus pais são 93 e eu tenho chamadas gratuitas
para eles, só que eu também quis um 91 porque muita gente tem 91,
então eu também quis, para mandar mensagens ou às vezes telefonar ou
assim [Lara ' 14 anos ' 9.º ano ' Barreiro ' EPUB ' LN].3
Isso é a coisa pior que há na minha casa São uma, duas, três,
quatro, cinco [televisões] [ ] na sala. Depois, cada uma, eu e a
minha irmã, cada uma tem uma televisão no quarto, os meus pais
também. E depois é uma coisa que eu e a minha irmã nos arrependemos
de ter pedido uma vez, que é uma na casa de banho [ ] A da casa de
banho tem os 4. Mas as outras têm todas mais do que 4 canais. [ ]
Existe um computador fixo e cada membro da família tem pelo menos eu
tenho o fixo e o portátil ou seja são 5 computadores [ ] Além dos
que já estão lá mais antigos porque o meu pai vai recebendo vários
computadores à medida que vão evoluindo. Ele trabalha na PT e à
medida dos anos ele vai recebendo vários computadores [Ana Rita ' 13
anos ' 9.º ano ' Lisboa ' CPRIV ' LS].
Se a quantidade de media, em especial computadores, e o acesso generalizado à
internet a partir de casa parecem definir uma paisagem tecnológica
relativamente uniforme, já a qualidade dos recursos domésticos4 e a apropriação
do seu uso (por adultos e/ou crianças) se revelam como indicadores de
diversidade. Como escreveu Livingstone, discutir a desigualdade digital, como
no passado, a partir da dicotomia haves e have nots é hoje simplista e
parcial, pois a evidência revela que um acesso igual e massivo à internet não
significa um uso universal e uniforme, uma apropriação individual idêntica das
novas TIC (Livingstone e Bober, 2005). Está hoje em jogo uma second-level
digital divide (Hargittai, 2002) que justamente distingue níveis de
proficiência, modalidades e competências de uso mais ou menos diversificados,
criativos ou sofisticados da internet. A diversidade digital não se organiza ao
acaso, mas encontra-se fortemente associada à diversidade social (Livingstone e
Helsper, 2007; Buckingham, 2008; McQuillan e d'Haenens, 2009; Hargittai,
2010).5
Na amostra (e tal como demonstrado em Lee, 2008) há claras divergências que
opõem famílias de crianças com pais menos escolarizados e profissões
desqualificadas a famílias de crianças com pais com diplomas de ensino superior
e profissões qualificadas. Nas primeiras, o uso dos computadores e o acesso à
internet gravitam em torno do eixo crianças-filhos e, mais remotamente, de uma
figura masculina (o pai). Em muitas, é através do e-escola e do Magalhães,
fruto das políticas públicas de distribuição de equipamentos informáticos a
baixo custo, que a família estabelece pela primeira vez uma ligação ao espaço
global a partir de casa e a criança se apropria individualmente dela, tornando-
se, não raro, o administrador exclusivo, a partir do seu quarto, do equipamento
ou da rede doméstica, com os quais, aos poucos e pontualmente, os pais se vão
relacionando pela mão dos filhos. Os testemunhos seguintes dão sugestivamente
conta de modalidades de acesso e arranjos de partilha do equipamento disponível
geridos pelas crianças:
Tinha acabado de receber o computador da e-escolas e, até aí nunca
tinha mexido muito em computadores, porque, a nível financeiro, até
esse ponto nunca foi permitido a esse nível, e também nunca foi uma
coisa que eu ligasse muito, nunca pedi aos meus pais, portanto, foi
quando recebi o computador da e-escola que tinha acesso à internet
que comecei a utilizá-la [Cátia ' 14 anos ' 9.º ano ' Barreiro ' EPUB
' LN].
Existem três computadores mas só dois é que funcionam. [ ] E a quem
pertencem? A mim e à minha irmã. Os três? Um portátil um portátil e
fixo é meu e o outro portátil é dela [Diogo ' 14 anos ' 9.º ano '
Oeiras ' EPUB ' LN].
O fosso geracional entre estes pais e estes filhos torna-se evidente. Eis aqui,
com propriedade, o contraste entre uma geração digital infantil, responsável
pela introdução e apropriação da inovação tecnológica em casa, e a geração de
adultos autoexcluída ou bem mais distante desse universo ' mas apesar de tudo
mobilizada para o investimento familiar neste domínio.
O mesmo não se passa nas famílias de crianças com pais detentores de níveis de
escolaridade superior. A localização e os acessos à internet em casa e os usos
do computador surgem em arranjos claramente mais equilibrados e simétricos,
entre pais e filhos. Os usos são intensos por parte de todos os membros da
família, assegurando-se a partir de uma certa idade uma utilização individual
do computador a cada membro da família. Cada um tem o seu e, não raro, ainda há
extras ' para as visitas ou a empregada (como num caso), ou para desempenho
de certas funções (o computador da impressora ou do scanner). O cenário é
marcado por uma grande abundância e racionalização de meios, não raro colocados
em rede. Por exemplo, nas entrevistas a criança tem muitas vezes de parar para
contar, ao certo, o número de computadores que possui em casa (deixe-me fazer
contas ).
Mais ou menos 5. [ ] Acho que são 6, não me lembro. 2 são meus,
outros 2 são do meu irmão e depois a minha mãe tem outro e o meu
irmão tem outro E mais 1 do meu irmão! [José António ' 9 anos ' 4.º
ano ' Porto ' CPRIV ' LN].
O retrato revela ainda que os computadores estão presentes em casa há mais anos
nas famílias mais afluentes do que nas famílias com menores recursos, sugerindo
um tempo digital com várias camadas, vários ritmos e dimensões. O esforço de
renovação e upgrade do parque informático é permanente e estimulado pelo poder
de compra ou pelas carreiras profissionais dos pais. Surgem referências a
computadores mais velhos, postos de lado, encaixotados ou arrumados; a
computadores fixos antigos que vão passando dos pais para os filhos, dos irmãos
mais velhos para os irmãos mais novos, ou que passam a ficar adstritos a certas
funcionalidades (impressora, scanner); de computadores portáteis topo de gama
trazidos pelos pais, associados às suas atividades profissionais, que
contrastam com os equipamentos menos sofisticados propositadamente reciclados
por filhos de idades mais baixas que se iniciam no seu uso.
Uma outra novidade flagrante face às famílias desfavorecidas é a visibilidade,
em matéria de gestão e competência informática, da figura da mãe. Tal como o
pai, possui um computador seu, que leva na pasta de e para o trabalho, e está
plenamente envolvida na rede digital familiar, da qual aliás é um dos motores.
Quatro [computadores]. [ ] Um é do meu pai, outro é da minha mãe,
outro é meu e outro é do meu irmão, e outro portátil [Paulo ' 9 anos
' 4.º ano ' Porto ' CPRIV ' LS].
Existe o meu, o Magalhães, o da minha mãe, que acho que é Macintosh,
depois a minha mãe também tem um Toshiba e o meu pai tem o do
trabalho mas traz para casa, também é um Toshiba [Diana ' 9 anos '
4.º ano ' Oeiras ' EPUB ' LS].
No que toca à instalação do parque tecnológico doméstico e sua apropriação por
parte das crianças e adultos, os resultados obtidos através do inquérito haviam
já revelado a existência, por baixo de uma camada superficialmente homogénea,
de sinais de diversidade. A pergunta Quem utiliza mais a internet em tua
casa? permitiu distinguir arranjos distintos segundo os níveis de escolaridade
dos pais (cf. quadro_n.º_6). O protagonismo solitário das crianças recua dos
níveis mais baixos para os mais altos, enquanto avança o uso em simultâneo por
filhos e pais. Fixemo-nos, por exemplo, nas categorias correspondentes aos
extremos: pais com o 1.º ciclo de escolaridade vs. pais com diplomas de ensino
superior. Nas primeiras famílias, a internet é realmente um recurso quase
exclusivo dos mais novos, Ego (70% dos casos) ou os irmãos (51%), enquanto a
visibilidade do pai e a mãe surge com uma expressão quase residual (7%). Nas
outras, e se bem que as crianças surjam destacadas na utilização intensiva
(52%, no caso de Ego; 32% no caso dos irmãos), as colunas correspondentes ao
pai, à mãe ou a todos surgem com um peso muito superior (máximo nos dos
primeiros casos) do que nos níveis de escolaridade mais baixos.6
Retomando a discussão teórica de partida, os resultados parecem problematizar
correntes de investigação que, ignorando as condições sociais da infância ou os
contextos familiares de apropriação das novas tecnologias de informação e
comunicação, invocam uma ordem geracional abstrata em que os perfis e os
comportamentos das duas gerações, crianças e adultos, blocos homogéneos, se
opõem. Ora porque as crianças constituem um grupo desapossado de recursos, e
dominado (veja-se o legado de Qvortrup) ' como descrever então a apropriação
competente que algumas franjas infantis fazem da internet e da inovação
tecnológica que pela sua mão entra em casa, da qual se mantêm arredados os
adultos? Ora porque as crianças constituem a vanguarda da revolução digital
(veja-se a proposta de Tapscott ou Prensky) ' e como descrever então a co-
construção dos recreios tecnológicos por pais e filhos, a liderança proficiente
dos primeiros na gestão e upgrade quotidianos do mesmo? Impõe-se, ao que
parece, um olhar mais rigoroso e prudente: o contexto emerge como uma variável
decisiva na modelagem desta relação entre gerações e na definição dos seus
perfis. O próximo ponto ajuda a aprofundar esta hipótese.
AS APRENDIZAGENS E AS FONTES DE SABERES
A entrada massiva de equipamento tecnológico em casa veio reavivar na família
um estatuto de lugar de produção e transmissão de saberes entre gerações '
digitais, neste caso. Ao lado da escola, persistentemente limitada a formas de
ensino-aprendizagem tradicionais, onde apesar do choque tecnológico as novas
TIC assumem um papel meramente auxiliar, esporádico, ou mesmo residual na
relação pedagógica (Almeida, Alves e Delicado, 2008; Sigalès e Mominó, 2009), a
família contemporânea é hoje um lugar ativo de produção, troca, reciclagem e
atualização informais de conhecimento técnico sobre inovação tecnológica em
todas as suas vertentes educativas, comunicacionais, informativas e lúdicas.
Como escreve Buckingham (2007, p. 87), assiste-se ao surgimento de uma new
digital divide between in-school and out-of-school use, associada a duas
culturas distintas: de um lado temos hierarquia, formalidade e a conceção da
criança como aprendente passivo e dependente; do outro, informalidade,
espontaneidade e a conceção da criança como aprendente autónomo e ativo. À
pedagogização do quotidiano familiar (Almeida e Vieira, 2006), em que a família
se mobiliza em atividades úteis para a escola, junta-se agora a evidência de
uma família ela própria escola, centro de conhecimento digital. Este processo
não é, porém, replicado uniformemente em todos os contextos.
Interrogadas sobre com quem aprenderam a usar a internet (quadro_n.º_7),
quase metade das crianças do inquérito (43%) responde que aprendeu sozinha.
Outros 37% fizeram-no com irmãos ou amigos (portanto pares). Mas cerca de um
quarto refere os pais e apenas 10% os professores da escola; os cursos de
informática representam uma fatia residual (7,5%).
Notam-se tendências marcantes7: a percentagem de crianças que diz aprender
sozinha mantém-se relativamente estável nos quatro primeiros níveis, e cai no
caso dos pais com diploma de ensino superior; os amigos (e os professores) são
sobretudo importantes nos níveis de instrução mais baixos; o papel dos pais
sobe acentuadamente destes para os mais altos (ultrapassando a categoria
sozinho, e todas as outras entre os diplomados de ensino superior, onde
atinge aliás o seu valor máximo na amostra). Evidencia-se, portanto, uma
diversidade de fontes de aprendizagem, associada a papéis diversos
desempenhados por adultos e crianças na rede de ensino-aprendizagem digital,
consoante os contextos sociofamiliares em que se instala: claramente controlada
pelos mais novos, nuns casos, ou dinamizada pelos mais velhos, nos outros. As
entrevistas permitiram aprofundar esta questão.
As crianças pertencentes a famílias desfavorecidas revelam ter aprendido a usar
a internet por sua conta, mesmo quando recebem o primeiro equipamento
informático da escola (via e-escola ou e-escolinha). A sua aprendizagem a solo
faz-se na verdade a partir de outras crianças ou jovens que estão já num
patamar de proficiência superior ' por instruções diretas (ela a dar-me as
dicas), por observação e imitação, atividades experimentais de tentativa-
erro: eu ficava a ver e pedia ajuda quando não sabia mexer. O papel dos pais
é, não raro, nulo: os meus pais diziam sempre, lê os avisos do computador
porque tu não sabes nada, nem nós sabemos nada. Às vezes, porém, são eles que
ensinam aos filhos os primeiros gestos ou que descobrem, com eles, a usar a
internet. O papel da escola como lugar de aprendizagem parece ser reduzido,
embora algumas crianças digam ter sido ensinadas por professores ou algum
funcionário (por exemplo da biblioteca). O que neste meio parece
verdadeiramente contar é não só a curiosidade da criança (aprendi sozinho no
meu computador), como as redes de sociabilidade infantil que envolvem irmãos,
colegas e amigos. A aprendizagem faz-se por pequenos passos que vão sendo
vencidos; a partir de um receituário mínimo, as crianças lançam-se em novas
descobertas e práticas ' e começam a perceber como se mexe no rato, nas
teclas, fazer os textos, no coiso para fazer desenhos, onde eram as
coisas para ir à internet, os botões para escrever o que eu queria.
Eis alguns exemplos. David e Luís iniciaram-se na internet descobrindo tudo
sozinhos:
Comecei a usar a internet no meu e-escola Eu andava no ATL, e eles
já usavam os computadores e os rapazes jogavam, e eu ficava sempre a
ver e pedia ajuda quando não sabia mexer. A maior parte, descobri eu
sozinho, fui ali mexendo [ ] Ensinaram, por exemplo, onde é que eu
escrevia, ou como é que eu ia parar àquele, a ver sites e coisas
assim. Fui clicando, fui vendo as coisas, eu fui experimentando as
coisas e depois logo aprendi, eu lia as coisas [David ' 11 anos ' 6.º
ano ' Barreiro ' EPUB ' LN].
Tinha para aí uns 10 ou 11. [ ] Lembro-me que o meu pai instalou e eu
vi aquilo e achei muita graça e muito divertido e depois pronto ao
longo do tempo fui aprendendo a usá-la e agora uso diariamente. [ ]
[Aprendi] sozinho mais os meus colegas, pronto alguns já tinham e
eles diziam para eu ir ao MSN e isso tudo. [ ] Não eram da escola,
eram outros amigos [Luís ' 14 anos ' 9.º ano ' Perafita ' EPUB ' LN].
Já Manuel, Bruna e Tiago destacam o papel decisivo dos irmãos, dos amigos ou
colegas de turma:
Omeu irmão ensinou-me os cuidados que devia ter [ ] Hum Não ir para
sites desconhecidos. [ ] Por exemplo, aqueles do onde se vê algumas
vezes os vídeos e isso Pode ter coisas assustadoras [ ]. Os vírus
[Manuel ' 9 anos ' 4.º ano ' Perafita ' EPUB ' LN].
Foi com a minha irmã [que aprendi]. [ ] Ensinou-me a ir para a
internet, a escolher os jogos, ensinou-me a ligar o computador e
isso. Ensinou-me no computador a ligar, a desligar, a imprimir,
depois a falar com os meus amigos e a fazer trabalhos no Word, no
Word Paint, a ir à internet copiar os trabalhos [Bruna ' 11 anos '
6.º ano ' Perafita ' EPUB ' LN].
Um colega meu disse assim: Olha, escreve aí uma coisa que tu queiras
ver e eu escrevi lá hum lembro-me perfeitamente que foi Black Eyed
Peas [Tiago ' 11 anos ' 6.º ano ' Perafita ' EPUB ' LN].
Outro grupo de crianças destaca o papel da escola, dos professores ou de algum
funcionário do centro de recursos, da biblioteca ou estudoteca
Os professores ensinavam! [ ] abriam os mails, quando queríamos
procurar qual era a página que íamos no Google, quando íamos ver
imagens, Web, mapas e aquelas coisas e eles ensinavam assim!
[Geninha ' 11 anos ' 6.º ano ' Barreiro ' EPUB ' LN].
No 3.º ou no 4.º [ ] Foi com a minha professora, na minha escola
antiga, tínhamos uma aula de informática, por semana. E aprendíamos.
[ ] A utilizar a internet, o Word, e o PowerPoint. a pesquisar no
Google. [ ] utilizar o Messenger [Ivo ' 14 anos ' 9.º ano ' Porto '
EPUB ' LN].
Com uma funcionária da escola na biblioteca. [ ] Ensinou-me como se
usava e para quê. Ensinou-me como é que se pesquisava [André ' 13
anos ' 9.º ano ' Perafita ' EPUB ' LN].
André e Maria José destacam o papel do pai e da mãe: na iniciação, explicaram-
lhes as regras básicas que depois se fixam e a partir das quais têm de
aprender sozinhos:
Foi a mãe que foi dizendo carregas ali e ali e fui fixando e depois
memorizei. Quando eu tinha 7 anos, o meu pai jogava jogos de cartas
na Internet e eu ficava a vê-lo e depois sabia o site, carregava nos
botões e também ia jogar jogos de cartas [André ' 13 anos ' 9.º ano '
Perafita ' EPUB ' LN].
Desde os seis anos. [ ] Foi com a minha mãe. A minha mãe ensinou-me
como escrever. Eu tenho e-escolinhas [Maria José ' 9 anos ' 4.º ano '
Porto ' EPUB ' LN].
Já nas crianças de famílias favorecidas, é notável a importância das redes
familiares, onde mais do que os irmãos se destacam a mãe e o pai. São eles que
iniciam e ensinam a criança a navegar na internet (operações e gestos, formas
de navegação, sites interessantes ou a evitar, alerta para perigos). Eu
estava a brincar no meu quarto e a minha mãe chamou-me. É um ensino cuidadoso,
que alude a riscos e a modos de os contornar: Não podes ir a sítios que não
conheces, O meu pai que começou a dar-me alguns conselhos como ir para outros
sites, para me ajudar a ver o que é perigoso. Para além da iniciação, os pais
(e também os irmãos) acompanham depois os progressos da criança, supervisionam
com maior ou menos proximidade usos e atividades. A estas fontes domésticas
juntam-se também, mas em segundo plano, e para instruções mais específicas (por
exemplo: as mais recentes novidades em software), os amigos e os colegas ' como
se nota nos comentários de André e Paulo:
Eu estava a brincar no meu quarto e a minha mãe chamou-me, e depois
disse-me depois eu olhei, e olhei para o botão, para o computador e
disse eu quero isso mas ela disse-me que era o computador e começou-
me a mostrar-me a internet e a ensinar-me a mexer no computador e na
internet [André ' 8 anos ' 4.º ano ' Lisboa ' CPRIV ' LS].
Acho que foi, já não me lembro muito bem, eu acho que foi quando tive
computador. Foi aos sete anos na escola. [ ] Foi com o meu pai. [ ]
Ensinou-me a ir ao Google, mais, a ir ao Messenger, a ir ao point,
mais, a ir ao youtube, e mais nada. [ ] Depois fui aprendendo [Paulo
' 9 anos ' 4.º ano ' Porto ' CPRIV ' LS].
A escola ocupa um segundo plano relativamente a esse papel primordial dos pais,
mas há crianças que referem também ter tido uma iniciação com professores ou em
aulas de informática no infantário, na primária, ou mesmo ter frequentado
cursos de computadores. Os pais continuam, quase sempre, presentes 'Eu vou
aprendendo com várias pessoas ao longo do tempo!.
Eis os testemunhos de Marta e Rita:
Também porque na primária aqui aprende-se a usar a internet, temos
aulas de informática, e eles também nos ensinam muito. [ ] Uma vez o
meu irmão apanhou uma bofetada porque me ensinou uma coisa que não
devia, tipo mostrar-me uns sites que não devia. [ ] Sites impróprios
sim. Mas eu também não ligava nada a isso [Marta ' 11 anos ' 6.º ano
' Porto ' CPRIV ' LS].
Com o meu pai e o meu irmão. Foram eles que me ensinaram e depois
tive uma vez umas aulas de informática [Rita ' 11 anos ' 6.º ano '
Viseu ' EPUB ' LS].
E DEPOIS DO ACESSO: AJUDAS E TROCAS
Interrogadas sobre a ajuda que prestam ou recebem dos pais, no caso do uso
quotidiano da internet, as crianças invocam contextos extremamente
diferenciados consoante os meios familiares de pertença. As clivagens sociais
voltam a vir ao de cima.
No caso das famílias mais desfavorecidas, é claríssima a preponderância das
crianças: são os filhos que ensinam, acompanham, monitorizam os pais no acesso
e aprendizagem deste recurso. Nestas famílias, os pais são provisores de
equipamentos e serviços, mas não protetores nem participantes ao mesmo
nível (Renaut, 2002). A maioria faz um uso passivo, direcionado (supervisionado
pela criança) e não-criativo da internet; executa operações básicas, explora
uma ou duas ferramentas. Se tomarmos como referência o continuum de
oportunidades digitais proposto por Kalmus, Runnel e Siibak (2009), estes pais
situam-se claramente nos seus níveis mais baixos. Refira-se, todavia, o impacto
positivo do retorno à escola dos pais (por exemplo, através do programa Novas
Oportunidades), que pode constituir um incentivo à sua entrada no mundo
digital, não raro feito pela mão dos filhos, que ora se queixam de ficar
fartos de ter de ensinar os pais, ora confessam achar piada a essa função de
tutores digitais. Os próximos excertos são elucidativos:
Acho que (eles, os pais) estão assim um bocadinho tremidos em relação
a isso [Sandra ' 15 anos ' 9.º ano ' Viseu ' EPUB ' LN].
Às vezes quando quer desligar o computador e não sabe como é que se
desliga e ainda tenho de ir lá desligar [Inês ' 9 anos ' 4.º ano '
Lisboa ' CPRIV ' LN].
Estas crianças ajudam os pais em atividades lúdicas:
Às vezes para procurar filmes, que é para depois ele ir à loja
alugar, filmes que sejam novos, e outras vezes para procurar músicas
[Minerva ' 9 anos ' 4.º ano ' Barreiro ' EPUB ' LN].
e ainda em atividades profissionais (dentro ou fora de casa) e educativas/
escolares:
Às vezes. [ ] a minha mãe, quando andou a tirar o 9.º ano, pedia-me
para a ir ajudar a pesquisar para trabalhos. O meu pai, como ele é
camionista, também pede ajuda para ver os caminhos [André ' 13 anos '
9.º ano ' Perafita ' EPUB ' LN].
Também é visível a sua participação em atividades informativas:
Pedem-me para pesquisar sobre os jornais, para ver nos jornais
[Aldina ' 2 anos ' 6.º ano ' Barreiro ' EPUB ' LN].
ou de natureza comunicativa
A minha irmã está longe e então pede esse tipo de ajuda: Lurdes,
liga à Inês e eu digo como é que se liga, eu até acho piada, quando
eu digo: Olha como é que isto se liga? Isto não dá e eles não sabem
mexer, eu acho uma certa piada [Lurdes ' 16 anos ' 9.º ano ' Perafita
' EPUB ' LN].
Eles dizem que são chiques e gostam de ir para o Facebook e etc. E
então, depois querem estar lá a mexer, só que não sabem e então
chamam-me para eu ir lá dizer-lhes como é que se faz [Tiago ' 11 anos
' 6.º ano ' Porto ' EPUB ' LN].
A sua intervenção passa ainda pela resolução de problemas técnicos e por
operações básicas:
Ah, a minha mãe quando está sozinha em casa e comigo, pergunta-me
como é que se faz uma coisa por que de vez em quando a impressora não
dá, tenho lá de ir eu [Nuno ' 14 anos ' 9.º ano ' Barreiro ' EPUB '
LN].
Nas famílias favorecidas, é baixíssima a frequência com que surgem alusões às
ajudas que as crianças prestam aos pais. Pelo contrário, as crianças realçam o
facto de os pais saberem muito:
Sim, eles sabem mexer muito bem nos computadores [Rita ' 11 anos '
6.º ano ' Lisboa ' CPRIV ' LS].
Não, eles não precisam. Preciso mais eu do que eles [Rodrigo ' 9 anos
' 4.º ano ' Viseu ' EPUB ' LN].
Quanto aos pais, quando isso sucede, o pedido refere-se a ajudas dos filhos
para a execução esporádica de tarefas e ajudas específicas:
O meu pai, uma vez precisou de uma fotografia de satélite e eu
mostrei-lhe um site onde podia ter isto [Diogo ' 14 anos ' 9.º ano '
Lisboa ' CPRIV ' LS].
A minha mãe de vez em quando está com um problema. Ela costuma estar
a ouvir música no Youtube e às vezes aquilo encrava ou não dá para
abrir, certos vídeos não dá para abrir e ela pergunta-me e depois eu
explico [Andreia ' 11 anos ' 6.º ano ' Viseu ' EPUB ' LN].
São assim pais que, para além de provisores de equipamentos e serviços
informáticos às suas crianças, se assumem como ativos participantes na sua
aprendizagem digital e também seus protetores (Renaut, 2002). É tipicamente
nestas famílias, de resto, que regras de acesso e de uso da internet e práticas
de vigilância da navegação são impostas pelos mais velhos aos mais novos,
(Almeida, Alves e Delicado, 2008). A internet constitui assim um instrumento de
construção de uma networked family (Kennedy etal., 2008) ou de reforço da
família relacional (Singly, 1993), fomentando a aproximação de pais e filhos
através da partilha comum de inovações e experiências tecnológicas, a partir da
esfera doméstica.
NOTAS FINAIS: A ORDEM GERACIONAL REVISITADA
Adotar a perspetiva geracional em estudos sobre crianças revela-se uma
oportunidade virtuosa. Desde logo pelas assunções teóricas que pressupõem um
certo olhar sobre a realidade que é desvelada e categorizada sob outro prisma
(Qvortrup, 2007): a relação (desigual) entre gerações, crianças e adultos, é
uma ordem permanente que estrutura o tecido social; essas gerações são
categorias dicotómicas portadoras de atributos opostos, pois o seu acesso a
recursos, a representação que delas faz o senso comum não é igual. Mas também
pelo quadro de observação que propõe ao investigador: as crianças são
observáveis com legitimidade metodológica idêntica à dos adultos, tratando-se
pois de as considerar em face a face, admitindo que é da relação binária que
infância e adultez se co-constroem. Esta grelha teórica de leitura carece,
porém, de algum aprofundamento. Na sua formulação mais austera, não possui,
afinal, finura suficiente para captar marcas contemporâneas da ordem
geracional.
Primeiro, não basta descrever estaticamente a moldura de gerações obtida, como
insiste Alanen (2003): a investigação deve atender aos processos através dos
quais se chega ao produto final. E é importante, depois, testar em contextos
concretos a estabilidade das representações que se colam aos dois blocos (e
aptidões que naturalmente se lhe associam: maturidade vs. imaturidade,
competência vs. incompetência, superioridade vs. inferioridade). Justamente
essas foram pistas seguidas neste artigo, tomando como pretexto a apropriação
familiar das novas TIC no Portugal contemporâneo, em particular a internet. O
que nos conduziu a outra linha de reflexão que se entronca nesta, a que
questiona a emergência de uma net-generation infantil, formada por digital
natives, líderes competentes da mudança tecnológica, por oposição à geração
adulta de digital immigrants, manifestamente ultrapassada (ou colocada em
apartheid) pelos mais novos.
Procurámos pôr em evidência a relevância teórica do contexto (familiar, no
caso), sem o qual não se ultrapassam visões essencialistas ou deterministas
sobre tecnologia ou geração. A relação geracional, a apropriação infantil das
novas TIC, não se faz no vazio, mas em lugares situados e por isso com um poder
desconstrutor de afirmações genéricas sobre atributos fixos de adultos vs.
crianças. Ora na versão dos sociólogos estruturalistas da infância, que tendem
a reificar essa relação e a vê-la, sempre, como uma relação de domínio e
superioridade dos primeiros sobre os mais novos, ora na versão de muitos outros
especialistas (ex.: da psicologia do desenvolvimento), que sustentam a natural
imaturidade e incompetência dos últimos no acesso e uso da internet. As duas
gerações não constituem, como se demonstrou, dois blocos homogéneos; a
diversidade interna cinde-as em grupos de crianças ou de adultos que
protagonizam distintas condições de infância e de adultez, situadas a maior ou
menor proximidade das representações dominantes destas duas categorias no
discurso social (e científico). A experiência vivida da infância desconstrói,
em certos contextos, a representação que a caracteriza como segmento dominado e
dependente dos adultos.
Em ambientes domésticos ricos do ponto de vista do seu recheio tecnológico, as
crianças que inquirimos ou entrevistámos revelam práticas muito distintas de
uso da internet consoante a posição social da sua família de pertença (por nós
medida através do nível de escolaridade dos pais). Entre as famílias mais
desfavorecidas, as crianças assumem-se de facto como uma net-generation
promotora de mudança e inovação digital, arrastando por vezes atrás de si os
pais ' a quem muitas vezes iniciam e formam na prática da navegação. A
internet, domínio privilegiado das crianças, reforça um fosso geracional entre
mais velhos e mais novos, mas nele a relação de poder (e saber) joga em favor
das crianças, e não dos adultos, claramente discriminados no que toca à
literacia digital. A oposição entre quem está dentro e quem está fora do
sistema é vincada. Já entre as famílias mais favorecidas, a internet é
introduzida como plataforma familiar, para onde todos dão ' mas sob o impulso,
controlo e vigilância dos pais ' o seu contributo. Todos, e não só as crianças,
respiram tecnologia (utilizando uma expressão de Tapscott, 1998), e esta
passa a fazer parte de um intricado e vivo sistema de comunicação que se vem
anichar no centro da relação familiar. Nos primeiros contextos, a internet
mantém distância e clivagem de saberes entre gerações, com superioridade para
as crianças; nos segundos atualiza-os e aproxima-os, sob a liderança e o
acompanhamento próximo dos mais velhos.
Sendo uma proposta interessante de leitura da realidade, a ordem geracional é,
pois, atravessada por lógicas sociais que lhe são externas e a diversificam em
contextos particulares. Neste sentido, os atributos das duas categorias
geracionais dicotómicas não são dados de uma vez por todas, ou indistintamente
reproduzidos em qualquer lugar do espaço social. Surgem em reportórios
distintos consoante contextos distintos. A infância não representa, sempre, o
segmento dominado, desapossado da balança de poderes (saberes): situações há em
que a agencydas crianças, potenciada pela experiência escolar, as coloca em
franca vantagem sobre adultos desfavorecidos por percursos escolares curtos e
incipientes, que se repercutem negativamente no acesso e uso de novas TIC.
Saindo do reduto da sociologia da infância para retomar temas maiores do debate
sociológico contemporâneo, a questão pode ser abordada a partir de uma
perspetiva teórica mais ampla. Nas sociedades reflexivas do Ocidente europeu,
onde o indivíduo plural (Lahire, 2001) cresce e constrói a sua biografia
entre vários tabuleiros de socialização e interação (com valores e lógicas de
ação nem sempre coincidentes entre si), onde treina a experiência de laços
sociais eletivos, múltiplos e dispersos, a geração não pode apenas ser
projetada a uma dimensão e num tempo de sucessão linear. À ordem geracional
entendida como estrutura herdada do passado e de formato previsível, pode
contrapor-se hoje a existência de ordens geracionais múltiplas, construídas
sobre uma realidade fragmentada em tempos e condições díspares que coexistem e
formam, nos vários recantos sociais do presente, arranjos híbridos e complexos
' de gerações (crianças e adultos), de categorias (infância e adultez).