Narrativas em perspetiva sobre a história da sociologia em Portugal
Narrativas em perspetiva sobre a história da sociologia em Portugal1
Frederico Ágoas*
*CesNova, FCSH, Universidade Nova de Lisboa e Departamento de Estudos Ibéricos
e Latino-Americanos, Birkbeck, Universidade de Londres. E-mail:
fagoas@gmail.com
INTRODUÇÃO
É comum sugerir-se que a plena afirmação das ciências sociais em Portugal é
relativamente tardia. Quanto à sociologia, em particular, teria sido preciso
esperar pela revolução de 25 de abril de 1974 e pela instauração da democracia
para ver a disciplina vingar em toda a sua plenitude académica. Simetricamente,
assume-se, a vigência de um governo ditatorial durante quase meio século (1926-
1974) explicaria por si mesma ' ou mais do que qualquer outro factor, pelo
menos ' o reputado atraso luso no panorama internacional daquelas ciências. É
corrente, por exemplo, a evocação de máximas lapidares do ditador Oliveira
Salazar em que este faria equivaler sociologia e socialismo; como corrente
é também a ideia mais geral de que vigoraria então ao mais alto nível político
o receio expresso de que uma eventual sociologia pudesse descobrir as
disparidades sociais que o regime fascista tanto se empenhou em ocultar.2 É
bem verdade que o Estado Novo levantou entraves ao livre desenvolvimento das
ciências sociais, como, de resto, ao livre progresso das ciências em geral.
Mais que isso: começou por aniquilar boa parte do débil aparelho científico-
institucional que herdou da I República, separando a investigação do ensino;
impediu que muitos escritores e investigadores pudessem apresentar livremente
os seus trabalhos; e chegou mesmo a afastar da universidade diversos docentes
por motivos políticos. Quanto a isto não haja dúvidas. Nem por isso se pode
afirmar, contudo, que a sociologia surge do nada, por geração espontânea, no
limiar do regime democrático.
De facto, e tal como o comprovam trabalhos mais ou menos recentes sobre o tema,
à data da revolução a disciplina possui já consideráveis antecedentes ' como
é comum descrever os seus primórdios oitocentistas mais distantes ', mas também
a sua presença, parcial e discreta, nos derradeiros anos da ditadura, que
entretanto teria passado a tolerá-la (Almeida et al., 1999, p. 19). Como
teremos oportunidade de ver, aliás, à data da revolução, a disciplina faz parte
de diversos currículos académicos e existe já uma licenciatura em Sociologia,
outra em Ciências Sociais e outra ainda em Ciências do Trabalho, de acentuando
pendor sociológico. Nalguns casos, refira-se, com o apoio de importantes
setores do Estado Novo ou até mesmo no seguimento mais ou menos direto de
medidas da sua própria iniciativa.
Na realidade, creio, a perceção do atraso relativamente à afirmação da
sociologia em Portugal procede em boa medida da projeção no passado de uma
figura epistémica de contornos académicos perfeitamente definidos ' uma
disciplina ' que de facto, e enquanto tal, só começou a ganhar forma (em
Portugal como noutros locais, sublinhe-se) na segunda metade do século XX. Mais
especificamente, tal perceção procede da vinculação historiográfica de uma
rutura epistemológica entre um passado pré-disciplinar e um presente
propriamente científico que, não sendo arbitrária, naturaliza no seu resultado
culminar o processo de disciplinarização a que foram submetidas diversas formas
de conhecimento científico-social, e anula a ascendência que sobre ele tiveram
outras tradições académicas, mas também o Estado, entre outros intervenientes
não académicos.3 Não sem efeitos ao nível da imagem corrente do processo de
constituição e desenvolvimento da sociologia em Portugal (e das ciências
sociais no seu todo) e da dignidade histórica atribuída àqueles antecedentes,
como veremos. Dito isto, e para ser perfeitamente claro, o objetivo genérico do
presente texto consiste em questionar não tanto a ideia do atraso português
nesta matéria, mas mais propriamente a força de narrativas que o tomam por
adquirido. É que, independentemente das suas virtudes, semelhantes narrativas
tendem a gerar importantes efeitos de desconhecimento sobre aspetos centrais da
história das ciências sociais em Portugal. Aqui procurar-se-á justamente
atender a alguns dos limites dessa abordagem que considero consagrada, que
quando refere aqueles e outros antecedentes ora tende a depreciá-los, ora a
considera-los marginais à narração que constrói.
Começarei então por efetuar um exercício de história do conhecimento
recuperando três textos dessa fase de transição da década de 1950 para a década
de 1960 que lhe servem de perfeita ilustração e que assinalam o momento
inaugural da narrativa que, tal como procurarei demonstrar, lhe corresponde.
Paralelamente, e com base nesses mesmos textos, tratarei de fixar alguns dos
principais marcos dessa pré-história da sociologia em Portugal, para abordar
depois de forma sistemática, a concluir, alguns desses efeitos a que chamei de
desconhecimento, gerados por aquela narrativa.
UM EXERCÍCIO DE HISTÓRIA DO CONHECIMENTO
Começo então por evocar três textos ' três histórias ' de meados do século XX
cujas datas de publicação não estão separadas entre si por mais de sete anos,
mas que veiculam duas atitudes muito distintas ' na realidade opostas '
relativamente à história da sociologia em Portugal e das ciências sociais em
geral.
Em 1956, as páginas da revista Imprensa Médica abriam-se a um complacente
Esboço da história das ciências do homem em Portugal assinado por um discreto
médico higienista, Fernando da Silva Correia. Laborioso polígrafo, autor, entre
outras obras, de duas peças de teatro (A Máscara, A Sombra de Esculápio) e de
um romance (Vida Errada), foi também tradutor de Júlio Verne e de obras de
medicina social, área em que assinou ainda alguns trabalhos originais, entre os
quais se deve destacar Portugal Sanitário, extensa síntese do estado da saúde
pública da nação (Correia, 1938). Profissionalmente assumiu funções de inspetor
da 3.ª área de saúde escolar, de delegado de saúde e de professor do curso de
Administração Sanitária no Instituto de Higiene Doutor Ricardo Jorge, de que
foi também diretor; era ainda membro do muito ativo grupo português de história
da ciência (Calafate, 2000, pp. 541-582) ' facto que ajudará a explicar a
redação do trabalho em apreço. Na realidade, a obra posicionava-se
explicitamente como réplica portuguesa a um livro estrangeiro, Vers la
médecine sociale, dedicado à formação dessa subespecialidade médica, onde, em
capítulo próprio, se procedia à inspeção dos contributos dos diversos países
para o progresso das ciências do homem, e onde se afirmava serem reduzidos ou
nulos os sucessos portugueses nesse domínio (Sand, 1948). Movido também por
despeito, Silva Correia propunha-se então, ao longo de cinco fascículos, a
rever os contributos lusos para aquelas ciências, já depois de ter retorquido
ponto por ponto aos restantes capítulos da obra ' sucessivamente centrados nas
histórias da organização hospitalar, da higiene pública, da assistência social
e das ciências do homem, de cuja evolução aquela medicina constituiria natural
corolário (Correia, 1956).
Mais do que os conteúdos do texto ou a revisão histórica a que o autor submetia
cada uma das ciências tratadas, interessa começar por sublinhar a publicação de
uma história das ciências humanas numa revista de medicina, facto só na
aparência extravagante; mas é o próprio elenco de saberes abordados que importa
destacar (e que de certa forma justifica a opção) ' em concreto, estatística,
demografia médico-social, antropologia, biotipologia, psicologia, psicologia
social, medicina psicossomática, sociologia descritiva, genética e eugenia,
política da população, política da família, pedagogia, criminologia e
penologia. Importa destacar, efetivamente, a perfeita indistinção entre
ciências naturais e sociais que estruturava o texto; mas sobretudo a amálgama
entre conhecimentos científicos e políticas sociais que o caracterizava '
prática até então relativamente corrente e que nos deverá dizer desde já alguma
coisa acerca da procedência compósita das ciências humanas e da potencial
relevância das políticas públicas na sua constituição. De facto, e ao contrário
do que é hoje vulgar, os diversos itens considerados encontram-se então
agrupados não tanto pelo tipo de abordagem, mas pelo respetivo objeto ' no
presente caso, o Homem; este aspeto tinha, de resto, rigorosa correspondência
no que toca aos limites (igualmente difusos) dos próprios saberes considerados.
Relativamente à sociologia, em particular, o autor identificava uma verdadeira
abundância que, entre outros itens, contemplava ocorrências tão distintas
quanto a penetração do positivismo de Auguste Comte no meio intelectual
português a partir da década de 1880, a criação do Centro Académico da
Democracia Cristã e da sua revista Estudos Sociais, ou a influência da
designada sociologia descritiva, inspirada nos métodos de Frédéric Le Play,
no final da monarquia e nos primeiros anos do Estado Novo; mas também,
sublinhe-se a realização de algumas monografias de localidades, indústrias e
instituições, elaboradas por alunas do Instituto de Serviço Social de Lisboa,
e a execução de topografias médicas redigidas por alunos do curso de Medicina
Sanitária do Instituto Superior de Higiene (Correia, 1956, n.º 7, pp. 400-402)
' áreas adjacentes aos encargos profissionais do autor.
A relativa prodigalidade da sociologia portuguesa seria confirmada num outro
texto originalmente redigido em 1958 e publicado em 1962 por Fernando Falcão
Machado nas páginas de um jornal regional de Coimbra ' o jornal Expansão '
intitulado Sociologia em Portugal e que veiculava, também ele, uma imagem
bastante difusa dessa forma de conhecimento. O autor era um empenhado
sociólogo, necessariamente amador, professor de liceu de profissão, mas um dos
primeiros representantes nacionais em congressos internacionais da disciplina.
Quanto ao texto, tratava-se de uma versão ampliada de um artigo originalmente
publicado numa obra de referência norte-americana ' Contemporary Sociology
(Roucek, 1958) ' dedicada ao estado de desenvolvimento da sociologia nos
Estados Unidos da América e noutros países (entre os quais Portugal) e onde,
para além de incontáveis publicações mais ou menos avulsas e do advento das
primeiras ideias mutualistas, na primeira metade do século XIX, e socialistas,
na segunda metade do mesmo século, Falcão Machado começava por destacar, também
ele, a receção do positivismo comteano entre a intelectualidade republicana
portuguesa de finais de oitocentos e a instituição das primeiras cadeiras de
sociologia na Faculdade de Direito de Coimbra, como Sociologia Fundamental e
Filosofia Geral do Direito (1889), entre outras ' o que, de resto, e tal como
sublinhava, teria feito de Portugal um dos países em que a Sociologia mais
cedo ingressara nos quadros do ensino oficial (Machado, 1962, p. 2).
Da sequência natural do texto, contudo, destacava-se uma outra tradição
científico-social de origem francesa, relativamente ignorada, mas que viria a
ter expressão particularmente pronunciada em Portugal: a designada Ciência
Social da Escola de Frédéric Le Play, de que o autor representava de certa
forma um derradeiro representante luso.
Engenheiro de Minas francês, Frédéric Le Play (1806-1882) foi, como se sabe, um
dos precursores da sociologia empírica. A este respeito, aliás, talvez valha a
pena lembrar que a nomeação sociologia começaria por designar uma forma de
conhecimento essencialmente especulativa ' recorde-se a natureza abstrata dos
trabalhos do francês Auguste Comte, ou do inglês Herbert Spencer, que primeiro
se reclamariam do termo. Ora, Le Play aproveitaria as suas funções de
especialista metalúrgico para praticar a observação positiva dos factos sociais
e para entrar em contacto direto com as populações operárias de diversos países
europeus, com objetivos reformistas declarados, procurando nomeadamente pôr
cobro ao radicalismo operário emergente. Em Les ouvriers européens (1865), a
principal obra da sua extensa bibliografia, e verdadeiro manifesto daquela
tendência, apresenta três dezenas de monografias familiares e expõe o método da
sua Ciência Social, assente sobretudo na realização seriada daquelas
monografias e na determinação dos orçamentos domésticos das famílias. À data da
sua morte deixará instalado um dispositivo institucional suficientemente
firmado para que os seus seguidores possam preservar e desenvolver o seu
legado. Figuras como Henri de Tourville e Edmond Desmolins destacar-se-ão num
grupo reunido em torno da revista francesa La Science sociale, que alargaria
decisivamente as ambições científicas daquela escola e amplificaria o alcance
metodológico e teórico da monografia familiar.
Suplantada em França pela sociologia de Émile Durkheim, a influência desta
Ciência Social estender-se-ia entretanto a diversos países europeus e aos
Estados Unidos da América, onde resistiria à extinção. Nalguns deles (e neste
último em particular), tal tradição revelar-se-ia aliás de especial importância
na institucionalização académica da sociologia propriamente dita. Em Portugal,
como disse, e tal como denotava o artigo de Falcão Machado, a sua ascendência
institucional e intelectual far-se-ia sentir durante boa parte da primeira
metade do século XX. A este respeito, o autor começava por referir a visita ao
país do secretário-geral da Sociedade Internacional de Ciência Social (Joseph
Durieu), em 1908, que realizaria conferências na Sociedade de Geografia de
Lisboa sobre o estado actual da ciência social, entre outros temas; visita à
qual sobreviria o convite por parte da Liga de Educação Nacional a outro
destacado sociólogo da mesma escola, Léon Poinsard, para vir trabalhar em
Portugal (1909), na sequência do interesse manifestado pelo monarca D. Manuel
II em utilizar a Ciência Social para um plano de reformas. Da estadia
resultaria a publicação daquele que é o primeiro trabalho de sociologia
empírica sobre o país, Portugal Ignorado, assinado por Poinsard (1912) e
realizado em colaboração com alguns entusiastas do método monográfico.
Autêntica carta económico-social da nação onde se passava em revista o estado
geral da agricultura, indústria e comércio, da vida pública e da vida familiar,
Portugal Ignorado constitui ainda hoje fonte insubstituível para a história
social portuguesa do princípio do século XX. Os seus ecos começariam por
reverberar na edição de alguns artigos do engenheiro belga Paul Descamps no
Boletim da Faculdade de Direito de Coimbra, na fundação da Sociedade Portuguesa
de Ciência Social (1918) e na publicação de Sciencia Social. O Méthodo, de José
Fontes (1918), e de outras obras nacionais de caráter metodológico ou
especulativo, direta ou indiretamente inspiradas na mesma tendência. Falcão
Machado apontava-as4.
No seguimento destes trabalhos e destas iniciativas, contudo, importa sobretudo
registar ' ainda segundo o mesmo autor ' a abertura em 1930- -1931 de um curso
de sociologia (em rigor, de Ciência Social) na Faculdade de Direito de
Coimbra, regido por Paul Descamps e realizado por sugestão de Oliveira Salazar,
à data ministro das Finanças e admirador de longa data dos princípios
corporativistas e social-católicos subjacentes aos trabalhos de Le Play. O
curso viria a ser repetido um ano mais tarde, na Faculdade de Direito de
Lisboa. De ambas as iniciativas resultaria o manual La sociologie
expérimentale, de 1933 (e que Falcão Machado passava em claro), e a realização
de monografias familiares por parte dos alunos de ambas as faculdades, num
total de 90 colaboradores. Igualmente de Paul Descamps, cumpre ainda dar nota
da publicação de Les répercussions sociales du climat du Portugal (1934),
texto que acusava abertamente o marcado pendor naturalista da sociologia
inspirada em Le Play; e destacar o seu principal trabalho sobre o país, Le
Portugal. La vie sociale actuelle (1935), sucessor de Portugal Ignorado, e
também ele importante para a reconstituição da vida social portuguesa na
primeira metade do século XX.5 Refira-se a propósito que já depois da partida
de Descamps, que manteria o seu curso em Lisboa até 1934, Marcello Caetano,
futuro sucessor de Oliveira Salazar na presidência do Conselho de Ministros, e
então docente na Faculdade de Direito de Lisboa, começaria por assumir aquela
orientação sociológica nas suas lições de Direito Administrativo e incitaria,
também ele, os seus alunos à realização de monografias locais (cf. Universidade
de Lisboa, 1935) ' aparentemente sem grande sucesso.6
De resto, a avaliar pelo relato de Falcão Machado, a sociologia portuguesa de
inspiração leplaysiana sobreviveria apenas de forma muito mitigada a este seu
fulgor inaugural, entre as décadas de 1910 e 1930. Assim, em 1941, o refugiado
polaco Stefan Wloszczewski apresentaria na Universidade de Coimbra uma
conferência designada Le diagnostique de Poinsard sur le Portugal
(Wloszczewski, 1941), que retomava uma outra comunicação submetida a um
Congresso Nacional de Ciências da População, de 1940 (e acerca da qual Machado
nada dizia)7; e, em 1945, o próprio Falcão Machado publicaria um razoável
resumo da metodologia da Ciência Social intitulado Considerações sobre o
método em Sociologia (Machado, 1945). Em boa verdade, a influência doutrinal
da Ciência Social de Le Play persistiria marginalmente no lançamento de algumas
iniciativas de cariz assistencialista, públicas e privadas, inspiradas nas suas
orientações reformistas, nomeadamente na instituição dos cursos de Serviço
Social em Coimbra, Lisboa e Porto; e persistiria também, entre setores sociais
católicos (e em particular no âmbito das Semanas Sociais Portuguesas), na
publicação de alguns trabalhos especulativos, mais ou menos afins àquela
tendência ' e que Falcão Machado anotava indistintamente.8 A influência desta
Ciência Social persistiria ainda, de forma indireta mas particularmente
pronunciada, num importante acervo de trabalhos científico-sociais do Instituto
Superior de Agronomia sobre os quais nada se dizia (Ágoas 2010a, 2010b).9
Já na segunda metade do século XX, à margem destes desenvolvimentos e na
extensão mais ou menos direta da ação do Estado, Falcão Machado começava por
referir a realização de uma série de lições de sociologia na Escola Superior
Colonial (1952), proferidas pela socióloga belga France Govaerts Marques
Pereira e de que resultaria a correspondente publicação (Pereira, 1954).10 Na
sua sequência surgiriam então numerosos trabalhos de sociologia, dizia o
autor, relativos às províncias ultramarinas e realizados na mesma instituição
do Ministério do Ultramar, destinada fundamentalmente à formação de quadros
coloniais, e que entretanto se passaria a designar Instituto Superior de
Estudos Ultramarinos, primeiro, e, um pouco mais tarde (então na co-dependência
do Ministério da Educação Nacional), Instituto Superior de Ciências Sociais e
Política Ultramarina ' respetivamente em 1954 e em 1962. Antes ainda, e por
iniciativa direta do governo, afirmava-se, haviam sido implantados estudos
sociológicos em todos os cursos de Engenharia do ensino superior e no curso de
Agronomia (1955). Referia-se também a publicação de uma revista de Estudos
Sociais e Corporativos (1962), órgão do Centro de Estudos Sociais e
Corporativos, do Ministério das Corporações (criado em 1959), e o lançamento do
Plano de Formação Social e Corporativa (1956), que previa a criação de
instituições de estudo e aplicação do Serviço Social e do Trabalho e ao
abrigo do qual seriam instituídos este e outros centros congéneres; e,
finalmente, a criação no início da década de 1960 do Instituto de Estudos
Sociais (junto do mesmo ministério), originalmente destinado à organização de
cursos de nível superior em ciências sociais e corporativas e à formação de
quadros técnicos daquele organismo.
Tal é, em resumo, a história da sociologia em Portugal, afiançava então o
autor (Machado, 1962, p. 12). Enfim, uma miríade de ocorrências de onde
sobressaía a hegemonia da linhagem de Le Play e a aparente saliência da ação do
Estado.
Ora, semelhante abundância (e isto à margem dos seus eventuais méritos)
contrastava sobremaneira com o panorama traçado num outro texto, de António da
Silva Leal, também ele intitulado A sociologia em Portugal e publicado em
1963, um ano depois daquele. Na realidade tratava-se de réplica explícita ao
artigo de Falcão Machado, de onde ressaltava a crítica implícita ao seu
entusiasmo e a conspícua ausência de qualquer referência ao leplaysianismo
português. Aí, face ao que se considerava ser a escassa produção sociológica
nacional, pugnava-se pelo desenvolvimento de estudos e inquéritos que
permitissem conhecer o melhor possível a realidade que nos rodeia e de que
fazemos parte (Leal, 1963, p. 135). Efetivamente, declarava o autor, à falta
de espírito científico em geral acrescia a inexistência de enquadramento
universitário adequado, que pudesse servir de base ao desenvolvimento autónomo
da disciplina; juízo aliás generalizável à maior parte das ciências humanas,
afirmava, mas com contornos particularmente salientes no caso da sociologia. O
autor apontava, também ele, os seus primórdios positivistas no meio intelectual
português e na academia em particular, e a influência de Auguste Comte, de cujo
Cours de philosophie positive a sociologia teria emergido já organizada: Será
possível encontrar ao longo da história do pensamento ocidental, prenúncios da
constituição da sociologia, mas nenhuma outra disciplina pôde, como ela, nascer
já com uma aparência de maturidade (Leal, 1963, p. 132). Paradoxalmente,
afirmava, a subida ao poder dos seus mais acérrimos defensores republicanos, em
1910, acabaria por significar a exclusão da sociologia dos currículos
universitários. Seria então preciso esperar meio século pelo regresso da
sociologia à universidade, em Engenharia e Agronomia, mas onde não possuía,
sugeria-se, possibilidades de vingar (Leal, 1963, p. 134).
António da Silva Leal era então membro associado do Centro de Estudos Sociais e
Corporativos e relativamente próximo da primeira geração de sociólogos
informais liderados pelo economista de formação Adérito Sedas Nunes (que, à
data da instituição daquele centro, assumiria a respetiva direção).
Originalmente reunidos neste e noutros institutos da orgânica estatal ou
corporativa, começavam então a dar corpo a um processo de renovação das
ciências sociais portuguesas ' nomeadamente no recém-criado Gabinete de
Investigações Sociais (GIS), anexo ao Instituto Superior de Ciências Económicas
e Financeiras (ISCEF), e sobretudo através da sua revista, Análise Social.
António da Silva Leal seria igualmente um dos envolvidos nos trabalhos
preparatórios que em 1962 conduziriam à publicação do diploma criador do já
referido Instituto de Estudos Sociais, onde ele próprio e Sedas Nunes viriam a
lecionar.11 Dez anos depois, em boa parte por ação deste último, o IES passaria
a Instituto Superior de Ciências do Trabalho e da Empresa (ISCTE), no qual
viria finalmente a ser formalizada a primeira licenciatura em Sociologia no
ensino público.
Estávamos então no limiar de uma nova era de progressiva profissionalização e
especialização da sociologia, que entre as décadas de 1950 e 1960 se estenderia
a diversos estabelecimentos do ensino superior (Nunes, 1963, pp. 9-11); mas
também da investigação social, que a partir de 1955 conheceria um
extraordinário incremento (Pereira, 1965). Nova era que culminaria no início da
década de 1970 na aprovação de uma licenciatura em Ciências do Trabalho no
recém-criado ISCTE, de um bacharelato com o mesmo nome, e uma licenciatura em
Ciências Sociais no Instituto Superior de Ciências Sociais e Política
Ultramarina, e já, depois de 25 de abril de 1974, na reconversão daquela
primeira licenciatura em Sociologia pura e simples. Nova era, insista-se, a que
corresponderiam entretanto novas genealogias institucionais e científicas
formalmente ligadas entre si por estratégias de demarcação relativamente aos
respetivos primórdios pré-disciplinares e a outras iniciativas análogas ' e de
que o texto de Silva Leal representava, por assim dizer, o momento inaugural.
Não é esta a ocasião para passar em revista semelhantes narrativas, mas vale a
pena notar, por exemplo, como no final da década de 1960, das conclusões de um
colóquio pedagógico realizado no referido ISCSPU ressaltaria, entre outros
traços notórios e a propósito do objetivo expresso de responder às
necessidades do País no domínio do ensino e da investigação em Ciências
Sociais, a revindicação, diante de outras escolas que directamente concorrem
com ele no mercado de trabalho, da hegemonia sobre as Ciências Políticas e
Administrativas, a Antropologia e a Sociologia, onde primeiro haviam encontrado
afirmação universitária e, segundo se afirmava, que agora se pretendem
autonomizar em licenciaturas próprias12. Desse mesmo colóquio ressaltaria
ainda o esforço de distanciamento face à matriz burocrática do ensino
ministrado no mesmo estabelecimento, durante muito tempo uma escola de quadros,
como vimos. Facto tanto mais saliente se tivermos em consideração que em 1965,
quatro anos antes, num artigo publicado por um professor da mesma casa na
revista do Instituto, se reclamava para o ISCSPU a posição de liderança no
processo de renovação do ensino das ciências sociais (e da sociologia em
particular) justamente com base na antiguidade da sua missão oficial (Barata,
1965).13
No mesmo sentido, registe-se como sensivelmente na mesma altura, num texto
especificamente dedicado à Situação e problemas do ensino de Ciências Sociais
em Portugal (na realidade quase exclusivamente dedicado à sociologia) e
publicado por José Carlos Ferreira de Almeida na Análise Social, se advogava
igualmente o incremento da formação neste domínio científico, no quadro de uma
reflexão alargada acerca do panorama académico daquelas ciências pontuada
também ela por uma estratégia de demarcação apenas implícita, mas comparável (e
ademais reciproca), à do ISCSPU (Almeida, 1968). A este respeito, começava por
retomar-se a avaliação do campo proposta por Sedas Nunes, cinco anos antes:
[ ] a situação da Sociologia nas Universidades é, efectivamente,
muito precária. Inexistente em 7 das 8 Faculdades (2 Faculdades de
Direito, 3 de Letras, 2 de Economia e o Instituto Superior de
Ciências Sociais e Política Ultramarina) em que, lógicamente, deveria
apoiar-se, e impossibilitada, em 6 das 7 Faculdades onde penetrou, de
suscitar vocações docentes específicas, devido à ausência de um
quadro legal que permita a especialização sociológica [Nunes, 1963,
p. 460 apud Almeida, 1968, p. 700].
Os cursos de Administração Social de Empresas e de Política Social, no
Instituto de Estudos Sociais (IES); o diploma de Conselheiro de Organização
Científica do Trabalho e Relações Humanas na Empresa (com opção em Sociologia
Industrial), oferecido pela Escola Superior de Organização Científica do
Trabalho (anexa ao Instituto Superior de Línguas e Administração, de natureza
privada); e ainda a licenciatura em Sociologia no (também privado) Instituto de
Estudos Superior de Évora ' todos eles entretanto criados ' não alteravam
substancialmente a situação (Almeida, 1968, pp. 701-702).
Em boa verdade, afirmava-se, ensinavam-se em Portugal Técnicas Sociais mas
não propriamente Ciências Sociais (Almeida, 1968, p. 705). No ISLA eram os
próprios anúncios insertos na imprensa diária que publicitavam a formação de
Técnicos de administração e psicologia industrial e de Peritos em relações
humanas na empresa ' de aplicadores, portanto, e não de cientistas; o
mesmo podia ser dito, de resto, do IES ou dos Institutos de Serviço Social. Em
Évora, por seu turno, tratava-se de preparar dirigentes competentes sobretudo
para as obras sociais das Empresas ou de outros Centros em que o progresso
social deva surgir com o progresso económico ' com objetivos afinal
semelhantes aos dos cursos anteriores (Almeida, 1968, pp. 702-704). Evoluções,
aliás, que pelo seu caráter parcelar não vinham senão tornar manifestas
resistências institucionais ao movimento de procura social genérica da ciência
do social, confirmadas, de resto, sugeria-se ainda, pela fração dessa procura
que recebera efetiva satisfação; ou ainda pela natureza essencialmente privada
dessas iniciativas: numa sociedade espartilhada entre imperativos
modernizadores e a pesada herança do passado, a sociologia científica e, de
forma alargada, as ciências sociais eram consideradas potencialmente
subversivas e temidas como tal (Almeida, 1968, pp. 708-710).
Quanto ao ISCSPU ' a única das escolas acima mencionadas que era eximida da
impossibilidade formal de suscitar vocações académicas na área da sociologia,
indistintamente imputada às Faculdades de Engenharia, Instituto Superior
Técnico, Instituto Superior de Agronomia e Escola Superior de Medicina
Veterinária, de cujos currículos efetivamente constava ' afirmava-se que também
aí não se tinham atingido ainda as condições de diferenciação-centração que
corresponderiam a uma real formação fulcralmente científica (Almeida, 1968, p.
704). Salientava-se o caráter híbrido da formação sancionada pela
licenciatura em Ciências Sociais e Política Ultramarina, produto de uma
evolução institucional bem conhecida (Almeida, 1968, 704) e correspondente à
preparação fornecida pelo Curso de Administração Ultramarina acrescida da
ministrada no Curso Complementar de Estudos Ultramarinos, com diversas
disciplinas de índole sociológica e antropológica, mas onde avultava o número
de cadeiras dedicadas a problemas do Ultramar, com carácter mais de ciência
aplicada ou de técnica social do que de ciência fundamental (Almeida, 1968,
pp. 703-704) ' sem se conformar, portanto, ao sentido restrito que no texto
se imputava ao termo. O mesmo sentido restrito, sublinhe-se, que
desclassificava igualmente parte das ocorrências (não se especificava quais)
apontadas no texto acima citado de Falcão Machado, para o qual J.C. Ferreira de
Almeida remetia a referência aos antecedentes da sociologia no país, e que
justificava ainda uma advertência quanto à acepção demasiadamente
compreensiva que aquele autor atribuía àquela designação (Almeida, 1968, pp.
700-701, n. 3). De resto, e significativamente, recomendava-se que a leitura do
mencionado texto fosse complementada por outro, de António da Silva Leal, no
qual lhe são feitas certas críticas ' A sociologia em Portugal, que também
acompanhámos mais acima e que de certa forma servia de mote ao presente artigo.
Não se trata de afirmar a derivação direta entre estes dois textos (e muito
menos entre qualquer um deles e as conclusões do colóquio pedagógico do
ISCSPU), mas de destacar a forma como o primeiro antecipa argumentos do segundo
(e, de alguma forma, também daquele colóquio). E não está apenas em causa a
simples renúncia ao passado pré-disciplinar da sociologia, atitude comum a
ambos (ou àquelas conclusões) e consumada em nome de uma nova aceção do termo,
implícita mas expressivamente sugerida no título A Sociologia em Portugal, de
Silva Leal, por força do artigo definido que se antepunha ao indeterminado
Sociologia em Portugal, de Falcão Machado. Na realidade, o argumento aplica-
se também ao modo como nos dois textos se assume a ideia de uma ciência do
social de contornos relativamente definidos e com pergaminhos académicos
firmados e incontestados que, enquanto tal, ou se encontra devidamente
institucionalizada ou então não existe de todo, como de facto se acaba por
confirmar. Vale a pena notar, também, como diante de tal conceção, as razões
dessa ausência são consideradas como exteriores à ciência em si ' falta de
espírito científico ou resistências institucionais ativas, consubstanciadas por
exemplo na traição dos seus mais acérrimos defensores republicanos, na falta de
enquadramento universitário, ou em fundados receios arcaístas. Enfim, vale a
pena notar também como, na decorrência dessas duas posições, fica estabelecida
à partida a dupla especificidade da sociologia portuguesa, perante as demais
ciências (institucionalizadas) e face às sociologias de outros países '
independentemente, portanto, do processo específico de construção de uma
ciência do social em Portugal.
Sem prejuízo dos objetivos científicos e institucionais mais manifestos dos
textos em causa (a este respeito é bom não perder de vista o contexto
epistémico e político em que são produzidos, a que fui fazendo referência), os
efeitos retóricos veiculados por este tipo de genealogias científico-
institucionais são também eles notórios e os seus objetivos genéricos
encontram-se anotados em bibliografia avulsa ou especificamente dedicada ao
tema (Levine, 1995; Graham et al., 1983). De forma geral, trata-se de validar
pretensões profissionais de grupos intelectuais já estabelecidos ou emergentes
face aos concorrentes e diante das entidades credenciadoras, nomeadamente pela
delimitação ou redefinição de um domínio de conhecimento de cujos proponentes
se apresentam então como representantes autorizados ' ora por asserção de
filiações a figuras ou filões intelectuais tidos por adequados, ora por
dissolução de traços da sua própria história (um processo de seleção do
predecessor, nas palavras de um sociólogo americano, que pode operar por
elisão do mesmo, permito-me acrescentar) (Camic, 1989 apud Topalov, 2004, p.
127). Estratégias que na sua aparente dissonância podem não só complementar-se,
como relevam aliás de uma mesma disposição identitária, por via da qual se
insinua a antiguidade do programa científico proposto (celebrando o
prosseguimento de uma tradição consagrada) ou se sugere a sua máxima
singularidade (esconjurando as impurezas genealógicas da sua constituição) ' e
que, de uma forma ou de outra, estabelecem a respetiva legitimidade.
Nos casos apontados ' não me parece abusivo afirmá-lo ' trata-se também de
assumir posições nesse campo disciplinar emergente (epistemicamente indefinido
e institucionalmente disperso), reivindicando de forma mais ou menos expressa a
titularidade da hegemonia intelectual e reclamando o desenvolvimento de
estruturas institucionais próprias ' alegando, respetivamente, a menoridade
científica das restantes forças presentes e (mais do que a eventual omissão) a
deficiente ação do Estado. O que não significa, naturalmente, e não é demais
insistir neste ponto, que se visem apenas efeitos retóricos, tendentes à
consagração académica de um qualquer conhecimento científico-social, ou que
esses discursos sejam puro reflexo de interesses emergentes. Existem de facto
diferenças epistemológicas entre esta sociologia fulcralmente científica, tal
como entretanto viria a impor-se ao nível do ensino e da investigação, e os
saberes que a precederam, de que a aptidão explicativa consignada à
investigação empírica, por oposição a ambições predominantemente descritivas,
ou a especificidade relativa dos métodos praticados e ensinados, face a outras
disciplinas, são apenas duas. E, insista-se uma vez mais, existiram de facto
entraves institucionais, políticos, mas também académicos, à afirmação das
ciências sociais, sobretudo no que toca, justamente, à sua diferenciação
disciplinar e autonomização universitária. Tal não invalida, por seu turno, que
a ação do Estado (e de outros poderes) tenha contribuído para a constituição
daqueles saberes; como não invalida que esses mesmos saberes possam ser
estudados na sua dignidade própria, independentemente de qualquer teleologia
epistemológica, e, simultaneamente, como parte de um processo de
disciplinarização de um conhecimento que nem sempre terá sido perfeitamente
idêntico.
A este respeito poder-se-ia dizer que A Sociologia em Portugal de Silva Leal
(1963) contém in nuce os princípios centrais da narrativa que acompanharia o
processo de afirmação universitária da sociologia portuguesa ' mas também da
narrativa que viria a impor-se como história da sociologia em Portugal. Ou
melhor seria dizer que uma e outra partilham, mais do que elementos concretos,
uma mesma atitude formal face ao desenvolvimento científico-social. É que, num
e noutro caso, a história da ciência vê-se transformada numa prova de
obstáculos: em concreto, numa luta pela afirmação de um conhecimento mais ou
menos constituído contra a ação deletéria do Estado ' por definição mais
interessado em administrar a vida social da população (incluindo intelectuais e
cientistas) do que propriamente em conhecê-la ' e contra os antecedentes pré-
disciplinares da sociologia ' aos quais se imputa à partida um estatuto infra-
científico. E assim, se acerca da influência do positivismo comteano existem
hoje alguns estudos notáveis, embora à margem daquela história e
predominantemente centrados na sua ascendência sobre o ideário político
republicano ou sobre o pensamento jurídico oitocentista e.g. Catroga, 1977), já
o mesmo não se pode dizer do leplaysianismo português, acerca do qual pouco se
sabe; ou até mesmo de outros saberes sociológicos produzidos na alçada direta
ou indireta do Estado, pura e simplesmente descurados, ou, na melhor das
hipóteses, tratados, também eles, sob outros tópicos.14
Para a história da sociologia subsistiriam sobretudo relatos do processo de
constituição do Gabinete de Investigações Sociais e das ações dos seus membros,
que viriam de facto a ser responsáveis pela criação da primeira licenciatura em
Sociologia no ensino superior público. A este respeito tem vigorado sobretudo a
narrativa proposta por Adérito Sedas Nunes (1988) num célebre artigo publicado
na revista Análise Social, na verdade um testemunho pessoal, mas sobre o qual
tem recaído (a despeito da vontade do próprio, diga-se) o estatuto de estudo
sobre a matéria. Não sem prejuízo para a história daqueles primórdios, como
disse, mas também, creio, para a compreensão global do processo de constituição
das modernas ciências sociais em Portugal. É o que passaremos a ver de seguida.
GENEALOGIAS CONTEMPORÂNEAS
Como comecei por sugerir, Afirmar que a sociologia portuguesa só começou
verdadeiramente após a revolução de abril de 1974 é quase um lugar-comum
(Pinto, 2007, p. 69), Quem o afirma é o sociólogo José Madureira Pinto, num
texto relativamente recente onde procede à revisão dos principais estudos sobre
o tema e onde confirma aliás a necessidade de temperar a força de semelhante
afirmação, por força da especificidade dos processos sociopolíticos que
precederam e se desencadearam com a reinstauração da democracia em Portugal.
Efetivamente, diz Madureira Pinto, desde o último quartel do século XIX, o
campo intelectual português foi registando ecos relativamente nítidos do
movimento das Ciências Sociais nos países centrais, referindo-se nomeadamente
à dominância do positivismo comteano no que designa de primórdios da
sociologia em Portugal. E se é verdade que o mesmo autor não deixa de
reconhecer o desenvolvimento, ainda durante a ditadura, de condições
globalmente favoráveis à difusão de quadros de pensamento de orientação
desenvolvimentista e à procura de conhecimentos sistemáticos sobre o social
(p. 71); e até mesmo o advento de um novo fôlego neste domínio, a partir de
1960, animado por investigadores de prestígio internacional e por um grupo
de jovens estudiosos dos problemas sociais, quase todos economistas e [ ] com
ligações ao movimento católico [ ] (p. 73); não é menos verdade que esta
História breve da sociologia portuguesa não faz menção à maioria das
ocorrências que deixámos referidas para o período do Estado Novo e faz-lhe
corresponder uma fase de interregno. Para Madureira Pinto, o golpe militar de
1926 instaura uma ruptura decisiva no campo intelectual português: Durante
quase cinco décadas de regime ditatorial, toda a reflexão de tipo sociológico
passou a ser encarada pelo aparelho ideológico-repressivo instalado como
actividade potencialmente contrária à segurança do Estado, devendo por isso ser
vigiada, censurada e reprimida (p. 71).
Sobre este tópico, em particular, o autor faz eco de posições anteriormente
avançadas por si próprio e por outros colegas de profissão. Num volume já com
22 anos, consagrado ao estado geral da Ciência em Portugal, o sociólogo João
Ferreira de Almeida, em capítulo dedicado às Ciências Sociais, sustenta
também ele que o período da ditadura conservadora teria afetado o campo
científico de forma generalizada, embora com especial incidência no que toca
àquelas ciências (Almeida, 1991, p. 73). Mais especificamente, o discurso
oficial teria então privilegiado a aproximação normativa e autoritária à
sociedade. A empiria atrapalhava. Não havia que mexer-lhe muito, nem mesmo
com instrumentos teóricos. E quando isso se não podia de todo evitar, então
havia que fazê-lo acriticamente, em pesquisas desgarradas, favorecendo um
hiperinstrumentalismo posto directamente ao serviço de qualquer política
sectorial. Assim, prossegue ainda o mesmo autor, disciplinas científico-
sociais que à data do golpe de Estado de 1926 haviam já logrado algum peso e
tradição, como a história e a economia, conseguiriam sobreviver, ao passo que
outras, como a sociologia e a antropologia, ficariam impossibilitadas de
irromper à luz do dia, até que a irresistível viragem da década de 1960,
sociocultural primeiro, política depois, lhes permitisse finalmente germinar
(Almeida, 1991, pp. 73-74). Ocorrências que, num caso como noutro não invalidam
o diagnóstico de partida ' antes parecem confirmá-lo: as primeiras teriam
sobrevivido definhadas, ao passo que as segundas nasceriam em pequenos
microclimas isolados e de forma apenas tímida.
Parece ser essa também a convicção do sociólogo António Teixeira Fernandes
(1996), que rejeita a maioridade científica das iniciativas de índole
sociológica que efetivamente identifica para o período anterior à revolução de
abril de 1974; e isto apesar do esquema faseado, mas sequencial, que propõe num
artigo dedicado à história da sociologia em Portugal, relativamente à qual
distingue três etapas distintas: uma primeira que se prolongaria desde as
últimas décadas de oitocentos aos finais da primeira década do século XX e onde
pontuariam nomes como Teófilo Braga ou o publicista Alfredo Pimenta; uma
segunda que remontaria a meados do século XX e que seria protagonizada pela
revista Análise Social e pelo seu segundo diretor, Adérito Sedas Nunes; e uma
terceira constituída com o pós-25 de abril, em que a sociologia passaria
finalmente a poder ser creditada com estatuto próprio ' A Sociologia
institucionaliza-se, passa a ser praticada como disciplina autónoma, adquire
contornos de uma verdadeira profissão e entra em pleno nas Universidades
(Fernandes, 1996, pp. 11-17). Com efeito, diz o autor, se a Sociologia
daquela primeira fase (entre aspas na sua formulação) Assume uma feição
essencialmente doutrinal e ideológica, frequentemente polémica, em detrimento
da produção de conhecimento científico e Procura mais a mudança do que a
cientificidade, revelando-se alheia às questões epistemológicas e
metodológicas (p. 14); a sociologia que lhe sucede, embora fazendo apelo aos
métodos das ciências sociais, teria mantido intuitos doutrinais idênticos,
agora imbuídos de inspiração católica (e já não republicana) mas de qualquer
forma preponderantes sobre as análises objetivas: Trata-se mais de elaboração
doutrinal, com propósitos sociais, do que investigação propriamente dita [ ],
afirma Teixeira Fernandes (1996, p. 16), recuperando a apreciação que o
economista Mário Murteira (1993) faz de um famoso estudo sociológico da
sociedade portuguesa levado a cabo por Adérito Sedas Nunes em 1964.
Na realidade, e ainda segundo o argumento de Teixeira Fernandes, nenhuma das
sociologias anteriores a 1974 parece estar à altura da designação: entre aquilo
que a sociologia começou por ser e o que ela atualmente é, não existe qualquer
semelhança. A coincidência reside apenas no equívoco do nome (p. 15); e quanto
ao que ela terá sido entretanto, em meados da década de 1960, e no caso
específico de Sedas Nunes, tem pouco ou nada a ver com a perspectiva hoje
dominante nos estudos sociológicos entre nós (também de acordo com formulação
de Murteira, citada por Teixeira Fernandes) (p. 16). De resto, e de forma
explícita, é o próprio autor que começa por dar por assente que a verdadeira
radicação e o desenvolvimento da sociologia só se operam depois do
estabelecimento da democracia e depois da introdução (aparentemente
concomitante) de uma nova prática científica (p. 9) ' confirmando assim,
também ele, a ideia corrente quanto à precedência histórica do regime
democrático face à sociologia.
Ideia, aliás, que, de tão corrente, se poderia dizer quase oficial. Em 1999,
o Observatório das Ciências e das Tecnologias do Ministério da Ciência e da
Tecnologia dava à estampa um Perfil da Investigação Científica em Portugal onde
procedia à avaliação dos diversos domínios científicos nacionais, em cada caso
precedida por pequenas resenhas históricas de cada uma das disciplinas
consideradas. Relativamente à sociologia, o referido relatório começava por
afirmar, de forma mais matizada, que Embora a institucionalização da
Sociologia como ciência, disciplina ou profissão só tenha realmente acontecido
em Portugal após o 25 de abril, podemos admitir que desde a década de 60 [do
século XX] se tolerava a presença, parcial e discreta, deste ramo do saber em
alguns lugares circunscritos (Almeida etal., 1999, p. 19). Para além da
licenciatura em Sociologia no Instituto Superior Económico e Social de Évora
(resultante de uma parceria entre a Companhia de Jesus e Fundação Eugénio de
Almeida), a sua presença estender-se-ia então, no campo do ensino, à introdução
de conteúdos sociológicos em algumas cadeiras de licenciaturas universitárias
(referiam-se os casos secundários de Economia e Direito) e, no domínio da
investigação, à execução de estudos sobre aspectos cruciais da sociedade
portuguesa, inspirados naquele saber e publicados na Análise Social. Sobre o
enquadramento institucional de cada uma destas iniciativas, porém, registavam-
se apenas os pequenos subsídios da parte de vários Ministérios e o apoio
concedido pela Fundação Calouste Gulbenkian (a partir de 1966) ao grupo reunido
em torno daquela revista (graças aos quais teria conseguido sobreviver); e
sobre os primórdios a que começámos por fazer menção, praticamente nada '
nenhuma referência ao que provisoriamente designámos de leplaysianismo
português ou às presenças curriculares atrás referidas (Agronomia e Engenharia,
em particular), nem, tão pouco, a qualquer outra das incidências descritas.
Assim ' confirma-se uma vez mais ' seria preciso esperar por 1974 e pela
mudança radical do panorama científico para que a sociologia, beneficiando da
experiência democrática, se institucionalizasse com um lugar e estatuto
próprios, no ensino superior público (Almeida etal.,1999, p. 20).
Evidentemente, não é minha intenção discutir factos tão consensuais quanto
incontestáveis: com o 25 de abril de 1974, o panorama científico nacional muda
de facto radicalmente; a experiência democrática favorece a hospitalidade
académica e o interesse público perante uma modalidade do saber que fornece
instrumentos para explicar e interpretar a mudança social (Almeida etal.,1999,
p. 20); foi efetivamente depois daquela data que a sociologia foi reconhecida
enquanto licenciatura no ensino superior público, mas também como profissão
(ali e noutros domínios institucionais).
Importará notar, contudo, ainda a respeito do mesmo volume, como convicções
idênticas não impedem que, relativamente à antropologia (que tomo igualmente
enquanto saber fornecedor de instrumentos que explicam a mudança social), se
reconheçam os respetivos antecedentes históricos. De facto, a assunção das
transformações políticas da década de 1970 e das correspondentes mudanças ao
nível das ciências sociais em Portugal e da antropologia em particular (que me
absterei de relatar aqui em pormenor, mas que contemplam igualmente a difusão
alargada da disciplina e a reorientação científica da única licenciatura
existente à data revolução) não invalida que, relativamente a ela, se deixem
registados (de forma necessariamente sucinta) os limites outrora difusos entre
ramos do saber mais ou menos contíguos mas não necessariamente académicos (como
os citados folclore ou os estudos sobre tradições populares); e, nessa
medida, que se aluda também à importância decisiva da ação do Estado no
desenvolvimento geral da disciplina (Almeida et al.,1999, pp. 9-11).
A tais factos poder-se-ia talvez contrapor que essas situações ' a relativa
fluidez das fronteiras disciplinares ou a diluição dos contornos entre
propósitos políticos e interesses de pesquisa ' são específicas da
antropologia, entendida em sentido lato, pelo próprio facto de a designação ter
englobado e englobar ainda hoje saberes tão distintos como a etnografia e
etnologia, a antropologia física e a antropologia social ou cultural (embora já
não os acima mencionados), mas igualmente pelas conhecidas e especialmente
pronunciadas aplicações coloniais dos diversos ramos antropológicos. A este
respeito, contudo, valerá a pena invocar, ainda de acordo com o mesmo
relatório, o caso da demografia, hoje perfeitamente definida, mas durante muito
tempo ciência instrumental em pesquisas que têm alcance, conteúdos, e
enquadramentos institucionais noutras áreas científicas (Almeida etal.,1999,
p. 13). Também aqui, aliás, a mesma indefinição inicial e posterior afirmação
académica não inviabilizam que se considerem os respetivos antecedentes
históricos onde pontuam algumas referências clássicas da investigação
demográfica em Portugal mas sobretudo, e uma vez mais, incidências
diretamente decorrentes da ação do Estado e nomeadamente do Instituto Nacional
de Estatística, considerado A referência institucional de maior peso para a
Demografia em Portugal (Almeida et al.,1999,p. 14). E se desta disciplina
poderia ainda afirmar-se ser derivada de forma praticamente direta (como poucas
outras) de saberes de Estado como a estadística ' não sendo por isso senão
exemplo paradigmático de um tipo de génese que, enquanto tal, se aplicaria
apenas a si própria ou estatística (e daí também, porventura, o seu estatuto
subalterno face a outras disciplinas) ' atente-se ainda no caso relativamente
precoce da geografia, mais finamente caracterizada pelo mesmo texto.
Sujeita, também ela, a profunda inflexão conceptual e metodológica no final da
década de 1960 e sobretudo no início da década seguinte, em função da própria
renovação internacional da disciplina, por um lado, e da modernização da
sociedade e da economia portuguesas e da rutura introduzida pelo 25 de abril de
1974, por outro, carregava do passado, não obstante, importantes heranças
históricas. Essas heranças consubstanciavam-se, em particular, no
desenvolvimento paralelo, a partir da década de 1940, de dois polos
institucionais, um em Coimbra e outro em Lisboa, animados por Amorim Girão e
Orlando Ribeiro, respetivamente, ambos sob a égide conceptual e metodológica do
geógrafo francês Vidal de la Blache (1845-1918) e mais genericamente da Escola
Francesa de Geografia, e filiados portanto em princípios científicos comuns: a)
visão integrada do meio geográfico, com atenção às componentes físicas e
humanas das realidades estudadas; b) análise empírica como principal critério
de cientificidade, assente em observação direta e trabalho de campo; c)
valorização das situações singulares e correspondente ascendência do estudo
monográfico, de âmbito regional; d) e conceção humanista da ciência e heróica
do cientista, com predomínio do trabalho individual (Almeida et al.,1999, pp.
15-16).
Ora, ainda de acordo com os mesmos autores, semelhante conceção do trabalho
científico viria a consolidar-se através dos méritos dos membros mais ativos da
comunidade geográfica universitária, mas também, saliente-se, por via das boas
condições de trabalho proporcionadas pelos Centros de Estudos Geográficos de
Coimbra e Lisboa, criados respetivamente em 1942 e 1943; pelo apoio de
instituições estatais e privadas, nomeadamente do Instituto de Alta Cultura/
Instituto Nacional de Investigação Científica (o primeiro com ação de relevo na
própria instituição daqueles centros), da Junta de Investigações do Ultramar
(do Ministério do Ultramar) e da Fundação Calouste Gulbenkian; e pelas
oportunidades que os territórios ultramarinos criavam, enquanto campo de
investigação (Almeida etal.,1999, p. 16).
Claro que se poderia afirmar que tal se explicaria por estarmos então em
presença, como sublinham os autores, de uma ciência humana mas não social,
pelas metodologias naturalistas a que recorre (Almeida et al.,1999, p. 16) ' o
que significaria esquecer que para o período em causa o mesmo poderia ser dito
da própria sociologia, pelo menos em parte, e do primeiro leplaysianismo
português; seria aliás esquecer também o quanto a orientação conceptual e as
opções metodológicas do próprio Vidal de la Blache são devedoras da sociologia
de Frédéric le Play. De resto, a descrição que ali se faz do trabalho
científico em geografia aplica-se na íntegra (talvez com exceção do predomínio
do trabalho individual, mas sem prejuízo para a visão humanista da ciência e
heróica do cientista) a boa parte da investigação económico-social realizada
sensivelmente no mesmo período no Instituto Superior de Agronomia e noutros
ambientes institucionais conexos (substituindo apenas a visão integrada do
meio geográfico pela visão integrada do meio social ou, talvez, e com
propriedade acrescida, a visão integrada do meio populacional), também ela de
feição predominantemente naturalista e de inspiração conceptual e metodológica
análoga ' e da qual acabaria por se destacar, progressivamente, um importante
acervo de trabalhos de investigação social e, no limite, de sociologia (Ágoas,
2010a).
À margem desta última consideração, poder-se-ia pura e simplesmente argumentar
que, historicamente, nenhuma das duas situações acima referidas ' a relativa
fluidez das fronteiras disciplinares ou a diluição dos contornos entre
propósitos políticos e interesses de pesquisa ' se aplica à sociologia e que
esta, pelo contrário (e mais do que qualquer outra ciência social), teria
emergido já perfeitamente organizada, como vimos sugerir Silva Leal, ou, nas
suas próprias palavras, com singular aparência de maturidade; e que o seu
percurso institucional teria ficado marcado, provavelmente por essa razão, e ao
invés de saberes equiparados, pelo constante receio da parte de poderes
temerosos do seu potencial crítico ' o que, no primeiro caso, os dados
avançados na primeira secção deste artigo parecem denegar e, no segundo, não
desmentem mas obrigam pelo menos a uma salvaguarda (e isto para nada dizer aqui
dos estudos internacionais mais recentes que se ocupam do tema, no âmbito dos
quais Portugal representaria um caso perfeitamente excecional).15 E se se
poderia finalmente pretender, de modo inverso, que, relativamente aos aspetos
que destaquei do relatório que tenho vindo a acompanhar, as heranças e os
contextos apontados para cada um dos saberes considerados (antropologia,
demografia, geografia e sociologia) não são assim tão distintos (entre si),
devo apontar que os antecedentes de cada uma das restantes disciplinas são aí
considerados (independentemente do que se diz a respeito de cada qual)
propriamente antropológicos, demográficos e geográficos, ao passo que os
antecedentes da sociologia ora são qualificados com o substantivo conteúdos
(parcelares ou incompletos, como os que foram introduzidos em cadeiras
universitárias que lhe eram essencialmente esquivas) e, portanto, não
propriamente sociológicos, ora apenas inspirados nesse saber (como nos
estudos realizados acerca de aspetos cruciais da sociedade portuguesa
publicados na Análise Social). E devo apontar também que se entre as primeiras
(antropologia, demografia e geografia) a ação mais ou menos direta do Estado
promove ou, pelo menos, se encontra implicada no respetivo desenvolvimento, no
caso da sociologia detém o seu progresso ou, quanto muito (e de forma pontual),
ter-lhe-ia permitido apenas sobreviver, como vimos.
A respeito da sociologia, poder-se-ia dizer, tem vigorado de forma
particularmente pronunciada a tese geral de Victor de Sá que quatro anos após a
revolução de abril de 1974, num importante e pioneiro Esboço Histórico das
Ciências Sociais em Portugal, afirmaria que:
O que verdadeiramente aconteceu foi que, há meio século, se deu uma
ruptura violenta numa das mais ricas e fecundas tradições da cultura
portuguesa, ruptura que localizamos em 1929, data a partir da qual as
concepções sociais foram entre nós oficialmente preteridas para darem
lugar às concepções corporativistas. Sob a ditadura salazarista a
palavra socialfoi votada a uma certa maldição, assim como as suas
derivadas socialismo e sociologia [Sá, 1978, p. 11].
Rutura tanto mais violenta, sublinhe-se, se considerarmos que o mesmo autor faz
remontar as ciências sociais portuguesas ao período do Renascimento, quando o
humanismo veio substituir, a partir do século XV, a velha cultura feudal (Sá,
1978, p. 15). E se a evocação daquela passagem não permite aceder às razões
daquela especificidade, permite sublinhar a intensidade relativa e o modo
particular como aquela apreciação genérica parece aplicar-se à sociologia.
SOCIOLOGIA, CORPORATIVISMO E CATOLICISMO SOCIAL
Mais recentemente, naquele é na verdade o primeiro trabalho de fôlego sobre a
história da sociologia em Portugal, Nuno Estêvão Ferreira, na esteira das
formulações mais dialéticas de Madureira Pinto a que comecei por fazer menção
na secção anterior, discute de forma apenas implícita a referida tese de Victor
de Sá, controvertendo explicitamente as posições de António Teixeira Fernandes
e de Mário Murteira.
Para estes autores, como vimos, agora segundo Estêvão Ferreira, o relevo que
intencionalidades de modernização socioeconómica e legitimações doutrinárias de
cunho reformista-católico teriam assumido na sociologia praticada em Portugal
nas décadas de 1950 e 1960 (e por Sedas Nunes em particular) justificariam a
convicção de que apenas depois de abril de 1974 passariam a existir condições
sociais para o desenvolvimento daquela disciplina a partir da consolidação
do paradigma científico' (Ferreira, 2006, p. 222). Para Estêvão Ferreira,
alternativamente, o peso que o reformismo católico e o próprio corporativismo
terão assumido na trajetória de Sedas Nunes, por um lado, e o facto de as
instituições por si projetadas só terem sido reconhecidas após a transição
democrática, por outro, não invalidam que já em 1972 estivesse concluída uma
determinante viragem no percurso daquele actor no sentido de produzir
investigações no campo das ciências sociais nos contextos em que estava
inserido (Ferreira, 2006, pp. 222-223). E não só não o invalidam como terão
constituído ' as doutrinas e ideologias perfilhadas bem como as instituições
entretanto criadas ' o enquadramento geral de um processo essencialmente
individual de cariz intelectual (protagonizado por aquele ator) em que, por
ruturas sucessivas, se transitou da doutrinação corporativista para as modernas
ciências sociais, passando pela realização de estudos sociais sobre o
desenvolvimento (até à derradeira depuração epistemológica de um conhecimento
científico-social do real-social). De acordo com o autor, semelhante viragem
abriria caminho àquilo que não seria senão, afinal, a mera legalização da
licenciatura em Sociologia no ISCTE, mas também à transformação do Gabinete de
Investigações Sociais em Instituto de Ciências Sociais (ICS), em 1982, apenas
possíveis no novo quadro político.
Não me ocuparei do argumento de Estêvão Ferreira em toda a sua extensão mas,
para os devidos efeitos, é necessário explicitar este último ponto.
Inicialmente integrado no Gabinete de Estudos Corporativos (GEC) do Centro
Universitário de Lisboa da Mocidade Portuguesa, e posteriormente destacado por
convite para a direção do recém-criado Centro de Estudos Sociais e Corporativos
(CESC) do Ministério das Corporações, Sedas Nunes acabaria por verificar a
incompatibilidade entre a estrutura social portuguesa e as teses
corporativistas, a que começara por aderir. Constatação que o conduziria,
então, ainda no âmbito deste enquadramento institucional genérico, à convicção
da necessidade de se proceder ao estudo aprofundado das estruturas e dos
dinamismos da organização da sociedade (Ferreira, 2006, p. 168) ' e, apenas a
prazo, à sociologia científica.
O movimento descrito decorre em dois passos: se num primeiro momento a
descoincidência entre as realidades sociais e aquele ideário começaria por
suscitar a proposta de aplicação de um pré-corporativismo, ou de um
corporativismo possível, a aplicar (para além da reorganização das empresas)
por intermédio da preparação dos dirigentes e do estudo sério e intenso dos
problemas económicos (Ferreira, 2006, p. 167), num segundo momento, a mesma
constatação, associada a outros factores e designadamente às dificuldades de
concretização de projetos de investigação autónomos (é este o facto destacado
por Estêvão Ferreira), teria significado a definitiva desvalorização dos
princípios doutrinais e, principalmente o recurso a metodologias mais eficazes
no acesso à realidade social (Ferreira, 2006, pp. 164-165). A posição que
Sedas Nunes assumiria como diretor do CESC em 1957, e na qual permaneceria por
cerca de dois anos, representaria o separador simbólico entre estes dois
momentos (Ferreira, 2006, p. 165) e a renúncia ao cargo, justificada pela
recusa da tutela em criar uma publicação periódica que divulgasse os trabalhos
realizados, o corolário de uma mesma postura científica perante os problemas
sociais gerada ainda no GEC, tal como se explicita. Este facto explicaria
também, de acordo com Estêvão Ferreira, a decisão de regressar ao GEC
(Ferreira, 2006, pp. 168-169), agora algo paradoxal, diga-se, perante a
desvalorização do corporativismo (após a passagem pelo CESC), e face ao papel
determinante que (ainda segundo o autor) a definitiva ruptura com aquela
doutrina, por parte de Sedas Nunes, viria a ter no desenvolvimento da
sociologia (científica) e, desde logo, na transformação do GEC em Gabinete de
Investigações Sociais (1962), como sua condição e enquanto resultado,
justamente, das reservas de Sedas Nunes (e de outros membros do GEC)
relativamente à proposta inicial do ministro das Corporações, que começara por
prever a criação de um novo centro de estudos sociais e corporativos. O GIS é
resultado de uma primeira ruptura no percurso de Sedas Nunes (Ferreira, 2006,
p. 164), diz ainda o autor.
Assim, e depois de dois anos iniciais em que os trabalhos produzidos no
Gabinete de Investigações Sociais e publicados na Análise Social permaneceriam
inscritos na perspectiva de uma abordagem de problemas sociais, onde o
trabalho, o sindicalismo, a habitação, o progresso, constituem vectores
importantes, e que podemos considerar na óptica de uma compreensão dos
aspectos sociais do desenvolvimento económico' (Ferreira, 2006, p. 193), em
1965 operar-se-ia uma modificação no perfil da revista no sentido de alargar o
seu cunho sociológico', sem no entanto a desviar do seu interesse fulcral
pelos problemas sociais, e que seria acompanhada pela construção de outros
objectos de análise (Ferreira, 2006, p. 196). Para Estêvão Ferreira, estamos
então em presença de duas dinâmicas complementares em que as questões
metodológicas suscitadas pelos primeiros ensaios de problematização do
desenvolvimento social e económico de Portugal implicavam recorrer a novos
procedimentos de análise, e em que, por seu turno, as abordagens sociológicas
da realidade significavam a valorização de outros tópicos. Enfim, afirma o
autor, Iniciava-se aqui o processo que conduziria à emergência da
fundamentação epistemológica da sociologia, ou dito de outro modo, processava-
se uma segunda transição do percurso de Sedas Nunes, de que resultaria a
derradeira etapa que assinalamos (Ferreira, 2006, p. 196) ' e que, a seu
tempo, como disse, levaria ao reconhecimento da sobredita forma de
conhecimento.
É certo que, já a terminar o texto, Estêvão Ferreira sugere que o próprio
perfil institucional do GIS teria sido relevante para a afirmação da sociologia
no espaço académico português, por nele não se ter operado a cisão (tal como
ocorrido noutros enquadramentos institucionais) entre as metodologias de
objectivação e a interpretação dos resultados (Ferreira, 2006, p. 231). Mas,
como vimos, para além de embater no caráter instrumental imputado aos primeiros
estudos do GIS, tal especificidade (a confirmar-se) decorreria já de si, para
lá das preocupações metodológicas notadas, da rutura individual que as
desencadeara. Aliás, afirma Estêvão Ferreira a propósito e de forma inequívoca:
Na base destas evoluções situa-se a intencionalidade inicial do GIS.
Na verdade, creio, e nos termos do texto que tenho vindo a acompanhar, mais do
que o resultado de uma ruptura individual com o corporativismo, a criação do
GIS e o posterior e correlativo desenvolvimento da sociologia nesse gabinete
parecem ter começado por corresponder a (ou compreendem-se melhor como) uma
progressiva autonomização científico-institucional dos primeiros estudos
económico-sociais realizados ainda no GEC ou, se se preferir, à consumação
formal (e desenvolvimento) de perspetivas aí abertas mas não concretizadas ou
apenas parcialmente concretizadas (o que evidentemente não invalida que
semelhante rutura intelectual tenha de facto ocorrido e contribuído para
semelhante desfecho). E se a criação do GIS, em particular, não pode ser
compreendida à margem das diligências iniciais do ministro das Corporações e
Previdência Social (José João Gonçalves Proença) e, sobretudo, da decisiva
anuência à contraproposta da parte dos membros do GEC, de total reestruturação
do mesmo, aquele deferimento, por seu turno, não pode ele próprio ser entendido
sem referência a um contexto genericamente favorável àquele tipo de estudos e à
criação de institutos votados à sua realização, que não pode ficar por uma
menção vaga ao arranque desenvolvimentista das décadas de 1950 e 1960.
Pelo contrário, a referência a semelhante contexto deverá considerar igualmente
o modo concreto como aquelas transformações desafiaram os moldes consagrados do
intervencionismo público e da orgânica institucional do Estado, e a relação
biunívoca que a governação manteve com os lugares de criação e com a própria
produção de saberes sobre o social (teóricos ou empíricos), de que o GEC
constitui, desde logo, caso a considerar. Tanto mais quando se começa por dar
por assente a desconfiança do regime face a este tipo de estudos ou,
inversamente, quando a suposta relação destes com a inflexão política daquele,
a partir de meados da década de 1950 (que teria tido nos primeiros Planos de
Fomento o seu sinal mais aparente), carece também ela de explicitação.
A este título genérico, aliás, Estêvão Ferreira fornece um contributo
inestimável, não a respeito do Estado ou de organismos na sua esfera de
influência mais ou menos direta, mas a propósito da Igreja, resgatando ao
passado um pouco conhecido acervo de trabalhos de investigação social de âmbito
religioso e a ação do Secretariado de Informação Religiosa (SIR) do episcopado
português, criado em 1959 e responsável pela realização daqueles estudos
(Ferreira, 2006, caps. 2, 3 e 4). Sublinhe-se convenientemente a dupla
importância deste complexo itinerário pelas transformações intelectuais e
institucionais da Igreja, pelas racionalizações conexas protagonizadas pelas
mais altas esferas do clero, e pelas influências estrangeiras a que umas e
outras terão sido sujeitas. Trata-se, antes de mais, de destacar e especificar
a ascendência que determinadas formas de conhecimento empírico acerca da
sociedade terão passado a exercer sobre a ação burocrática (interna) e pastoral
(externa) daqueles setores eclesiásticos, esta última (a ação pastoral) de
especial relevância para o caso português, atendendo ao papel plurissecular da
Igreja propriamente dita ou de outras instituições conexas com a mesma
inclinação assistencialista (como as Misericórdias) na gestão das relações
sociais e na vez de um Estado hesitante ou, nalgumas áreas, assumidamente
demissionário face a esta matéria ' e relativamente ao qual a Igreja poderá, de
facto, ter sido pioneira e, acrescentaria eu, ter chegado a servir de
inspiração. Até porque assim se inaugura um novo capítulo da história das
ciências sociais em Portugal (a sociologia religiosa, como afirma o autor),
relativamente autónomo perante outros filões já referidos embora com vários
atores e dinâmicas comuns àquele outro filão que vínhamos acompanhando, e onde
se destaca, uma vez mais, Adérito Sedas Nunes ' envolvido nalgumas das
primeiras iniciativas científico-sociais daquele setor reformista do
catolicismo português, enquanto militante laico.16
É nesta segunda vertente daquele itinerário, que Estêvão Ferreira (2006) faz
assentar a tese enunciada no título do trabalho que vimos acompanhando (A
Sociologia em Portugal: da Igreja à Universidade), onde evidentemente a obra
não se esgota. Mas se, no quadro do argumento geral, o envolvimento em
semelhantes iniciativas ajuda de facto a compreender o interesse (Ferreira,
2006, p. 163) inicial de Sedas Nunes pela sociologia, tal como pretende o
autor, esse envolvimento e esse interesse também não chegam para justificar a
ulterior afirmação científica (e institucional) daquele conhecimento, mesmo no
quadro daquele argumento, e considerando até problematizações laterais
particularmente interessantes avançadas por Estêvão Ferreira a respeito do modo
como enigmas e insuficiências da ciência económica (em que inicialmente se
formou) terão conduzido Sedas Nunes não só a novos instrumentos de análise, mas
também à conceptualização prévia da esfera ontológica que os reclamará: o
social (Ferreira, 2006, pp. 181-191). Não chegam para justificá-lo, dizia, pelo
menos sem precisar, insisto, a importância que processos análogos terão tido ao
nível dos institutos do Estado ou da orgânica corporativa. O facto de Adérito
Sedas Nunes constituir, como se afirma, o elemento de ligação entre diversos
agentes e contextos sociais, que foram sendo definidos por finalidades
distintas, mas cuja articulação nos permite compreender uma estratégia e
explicar as suas evoluções, não pode (tal como se pretende) servir de
justificação a que um desses dois contextos ' no caso, o corporativismo, por
oposição ao catolicismo social ' se veja subsumido no percurso individual da
figura (ademais apenas uma entre várias) que os liga (Ferreira, 2006, p. 13). A
menos que se considere que no âmbito do objeto estudado ' a sociologia em
Portugal ' cada um dos dois enquadramentos institucionais correspondentes ' o
GEC/GIS e o SIR ' se reveste de dignidade historiográfica distinta, em função
de desenlaces epistémicos e académicos diferenciados e definidos à partida (mas
só retrospetivamente) pelas respetivas finalidades. Bastaria então, de facto,
identificar a emergência do interesse propriamente científico pela sociologia
por parte daquele ator privilegiado e, por outro, mostrar a degenerescência
instrumental (ou a deriva utilitária) de uma ciência já constituída e posta ao
serviço de interesses particularistas.
O que pretendo afirmar, e isto sem prejuízo para o facto de estarmos perante a
mais profunda e interessante análise disponível sobre o tema, é que a
verosimilhança da alegação de que, apesar de se tratar de duas vias paralelas,
a afirmação da sociologia religiosa no SIR e o desenvolvimento da sociologia no
GIS radicam numa mesma matriz (Ferreira, 2006, p. 226), resulta em parte
daquilo que me parece ser a anulação ostensiva das potencialidades (e
correlativas limitações) do corporativismo para enquadrar teoricamente as
implicações sociais e políticas decorrentes da necessidade declarada e
entretanto consagrada de desenvolvimento económico do país ' de que homens de
formação técnica como Sedas Nunes e engenheiros e economistas em geral viriam a
ser os primeiros arautos, e cujas condições e consequências seriam eles os
primeiros a avaliar. Com efeito, o corporativismo não foi apenas a formulação
doutrinária de um modelo de organização económico-social a impor de cima para
baixo (juridicamente ou por doutrinação das elites), ou um princípio formal de
representação política, decorrente daquele e assente numa conceção estritamente
organicista de sociedade; enfim, o corporativismo foi algo mais do que mera
barreira ideológica que teve de ser superada por salto epistemológico para
que o social pudesse ser sequer pensado.
Historicamente, e como têm notado alguns autores, o corporativismo foi também
um sistema hierarquizador e centralista de representação setorial de interesses
e de autoridade estatal, que de resto não se esgotou nos regimes que o
formalizaram enquanto tal; mas foi igualmente, e de forma mais restrita, um
princípio de regulação social ou até mesmo um instrumento (institucional) de
intervencionismo público ' compatível, diga-se, com as orientações genéricas da
doutrina social da Igreja a este respeito, mas que também não se confunde com
ela (Donzelot, 1994, cap. 3). O facto ajudará certamente a compreender que um
Gabinete de Estudos Corporativos (GEC), cuja ação, aliás, foi perfeitamente
consequente com a sua designação, tenha chegado a assumir-se enquanto fórum de
discussão de temáticas como as relações laborais na empresa ou a instituição de
políticas sociais (Cardoso e Rocha, 2003). E surpreenderá menos por isso que as
respetivas publicações e particularmente o seu periódico, a Revista do Gabinete
de Estudos Corporativos, se tenham constituído desde logo enquanto veículos
(entre outros) de introdução e, só até certo ponto, de vulgarização da teoria
social e da sociologia em Portugal ' saber de que Sedas Nunes foi seguramente
o mais destacado promotor, embora não o único, aqui e noutros locais da
orgânica oficial. Nas páginas daquela revista, por exemplo, e ainda antes da
integração de Sedas Nunes no GEC, eram já frequentes algumas referências à
sociologia (ou a alguns dos seus cultores) em artigos como Reformas de
estrutura (Introdução a um estudo de Economia) e Notas sobre o marxismo, do
também economista Francisco Pereira de Moura (1950, 1951), ou Breves
considerações sobre alguns problemas sociais contemporâneos, do jurista e
subsecretário de Estado das Corporações e Previdência Social António Jorge da
Motta Veiga (1951).
A este título, porém, e no que se refere à eventual incompatibilidade entre
corporativismo e sociologia, a edição em livro de Situação e Problemas do
Corporativismo (1954), de Adérito Sedas Nunes (originalmente publicado como
artigo na Revista do Gabinete de Estudos Corporativos com o título Teoria e
problemas do corporativismo), é duplamente sintomática. Por um lado, porque se
tratava efetivamente de um confronto crítico com a doutrina corporativa,
através do recurso a um instrumentário teórico-sociológico mas com o objetivo
declarado de superar formulações abstratas e de realizar o corporativismo na
prática. Efetivamente, o pré-corporativismo então proposto nãorepresentava,
nos termos do texto, o abandono (gradual, que fosse) de uma utopia tida agora
por irrealizável face ao confronto crítico com a sociologia (e, por sua via,
com a realidade social), mas mais propriamente uma estratégia para a sua
progressiva (e, por definição, necessariamente incompleta) implantação,
protelada como estava por iniludíveis clivagens sociais, em si mesmas um
problema para o qual se apontaria, no mesmo volume, a necessidade de se
proceder à reforma das empresas ' por pedagogia corporativista e por
intervenção direta no meio laboral, de acordo com a teoria científico-social
das relações humanas. (Argumento que não invalida que se abrisse assim
caminho para que, a prazo, e para alguns dos seus proponentes, o corporativismo
viesse a tornar-se mais propriamente um meio e não tanto um fim). Por outro
lado, a redação e a própria publicação do texto no primeiro número da Coleção
de Estudos Corporativos beneficiava já de si daquilo que tem sido descrito como
a segunda arrancada corporativa, no âmbito da qual, a seguir à II Guerra
Mundial, se destacariam figuras como Marcello Caetano (convidado a discursar na
inauguração do gabinete, na qualidade de antigo comissário nacional da Mocidade
Portuguesa) e José Pires Cardoso (seu diretor), e no prosseguimento da qual
seriam desde logo implantadas diversas realizações sociais, como a extensão da
Previdência ou a criação do Serviço Social do Trabalho, para além do lançamento
do ambicioso Plano de Formação Social e Corporativa (Wiarda, 1977; Lucena,
1981). Efetivamente, a instituição do GEC constitui já de si semente (e, no
seu desenvolvimento, fruto) de uma atitude política renovada face ao
corporativismo e à ação social do Estado, e é também nesse enquadramento que
devem ser atendidas as ações dos seus membros.
Ora, semelhante argumento, que o trabalho de Nuno Estêvão Ferreira não acolhe,
ajuda a compreender a atenção que aí viria a ser dada aos problemas e políticas
sociais (e, na sua decorrência, à própria sociologia) à margem da relevância
que a influência ideológica da doutrina social da Igreja e a militância
católica de Sedas Nunes tiveram nesse processo; mas ajuda também a compreender
a decisiva anuência do ministro das Corporações e Previdência Social, Gonçalves
Proença, à contraproposta de criação do Gabinete de Investigações Sociais junto
do Instituto Superior de Ciências Económicas e Financeiras, em alternativa a um
novo centro de estudos corporativos. Tal decisão, de resto, encontrava-se
jurídica e doutrinariamente suportada pelo referido Plano de Formação Social e
Corporativa, aprovado pelo seu antecessor (Henrique Veiga de Macedo), e que
contemplava explicitamente, entre outras medidas, a indicação de Fomentar a
criação e promover o desenvolvimento de centros ou gabinetes de estudos sociais
e corporativos nos organismos corporativos ou em quaisquer outras instituições
ou estabelecimentos, designadamente nos de natureza cultural e educativa
(Plano de Formação Social e Corporativa, p. 17).
De forma mais alargada ' e é este o ponto que pretendo sublinhar a respeito da
minha leitura do livro de Estêvão Ferreira, A Sociologia em Portugal: da Igreja
à Universidade ' a verosimilhança da tese enunciada no título começa por
decorrer da desvalorização a que são submetidas algumas iniciativas mais ou
menos avulsas no âmbito da sociologia de inspiração leplaysiana (a que
começámos por fazer menção) e, sobretudo, do menosprezo de outros lugares
institucionais com funções análogas às do Gabinete de Estudos Corporativos e do
Gabinete de Investigações Sociais, como a Junta de Colonização Interna do
Ministério da Agricultura ou o Centro de Estudos Políticos e Sociais da Junta
de Investigações do Ultramar ' numa palavra, da depreciação historiográfica de
outros antecedentes da sociologia académica em Portugal, que de facto são
referidos (parte deles, pelo menos, referentes à burocracia colonial), mas cujo
potencial significado em nada parece inibir semelhante conclusão.
Com efeito, desconsiderar tais iniciativas e lugares impede que se atenda em
perspetiva à importância da ação de determinado tipo de agentes e institutos
sob a alçada direta ou indireta do Estado (e da própria Universidade, à luz da
mesma orientação), e que se integrem as figuras e os locais aduzidos no
referido livro num movimento mais geral de modernização das burocracias
oficiais (agrária, colonial, corporativa) e, por que não sugeri-lo (na
sequência do argumento avançado por Estêvão Ferreira), da burocracia
eclesiástica, e dos métodos de governo dos corpos e das almas aí praticados '
em que, por razões específicas a cada qual (momentos de crise ou ambições
reformistas renovadas, por exemplo) e por outras que se poderiam dizer
transversais (nomeadamente a racionalização progressiva daqueles
procedimentos), o conhecimento empírico dos diferentes domínios administrados
passará a deter uma importância acrescida.
Seja como for, e no que toca àqueles antecedentes em específico, a orientação
do trabalho em causa (e o respetivo corolário) coloca-o junto dos anteriores
que vínhamos acompanhando. Na verdade, e não obstante a atenção dispensada à
ação de agentes não académicos, e o facto de não se fazer depender (como na
generalidade dos trabalhos citados) a constituição da sociologia da instauração
da democracia, poder-se-ia dizer que a estrutura formal do argumento se mantém:
a ruptura entre investigação social (ou a execução de estudos sociais) e
sociologia (ou investigações no campo das ciências sociais) é de facto
antecipada (1972) mas efetivamente confirmada; e, de forma correspondente,
organismos como o Gabinete de Estudos Corporativos ou o Serviço de Informação
Religiosa são implicados na história da sociologia para dela se verem elididos
como não propriamente científicos ou, até mesmo, adversos à sua implantação.
Enfim, poder-se-ia finalmente afirmar, para resumir, que nesse lapso
identificado de dois anos entre a consagração daquela disciplina e o final da
ditadura se condensa a tese de que não foi preciso esperar pela democracia para
ver vingar a sociologia, mas que a sua emergência foi afinal absolutamente
exterior (quando não verdadeiramente antagónica) à ação do Estado.
CONCLUSÃO: EFEITOS DE DESCONHECIMENTO
Sugiramo-lo de forma explícita: neste, como naqueles trabalhos, vemos plasmada
uma certa contradição implícita entre saber e poder que não nega a
possibilidade de instrumentalização (deformada) do primeiro termo pelo segundo,
mas que parece pressupor a incompatibilidade genética entre ambos (hoje mais
fácil de sustentar, face à configuração disciplinar dos saberes em causa, mas
nem por isso absolutamente conforme à realidade, como sabemos) e, por maioria
de razão, o antagonismo radical entre ciência, neste caso social, e um regime
autoritário. Por outras palavras, trata-se de rejeitar à partida a própria
possibilidade de que dos desígnios mais ou menos imediatos do poder possa
emergir verdadeiro conhecimento (social) ou, para tornar o argumento
sociológico, que daqueles desígnios possa surgir (mesmo que a prazo)
conhecimento relativamente autónomo (possibilidade para que remetem,por
exemplo,os conceitos deconsequências imprevistas da açãoou de diferenciação de
campos). Postura de partida, diga-se, com inevitáveis implicações quanto ao que
se considera fazer parte da história da sociologia e quanto à avaliação que se
faz do que legitimamente dela se considere fazer parte.
No que se refere a este último ponto, são ainda os trabalhos de Manuel Braga da
Cruz (o primeiro já com 30 anos) que melhor dão conta em perspetiva dos
sucessivos e diversificados perfis que a sociologia ' chamo-lhe assim por que é
assim que o autor a designa ' foi assumindo em Portugal, particularmente na
Faculdade de Direito de Coimbra, passando pelas primeiras derivações
leplaysianas (no mesmo local) e pelas respetivas aplicações extra-académicas,
até ao seu advento no Instituto Superior de Estudos Ultramarinos e, já na
década de 1960, no Instituto de Estudos Sociais, no Instituto Superior
Económico e Social e em torno da revista Análise Social (Cruz, 1983, 2000).
Relativamente a esta, aliás, e ao respetivo contexto institucional, o autor não
deixa de sublinhar as funcionalidades políticas que começaram por motivá-los,
sugerindo que Com o surto de industrialização iniciado no pós-guerra, e que
atinge o auge nos anos 60, e com os problemas que ao desenvolvimento económico
punham os recursos humanos e a conflituosidade social surgiria então um novo
interesse pela sociologia, formulado a partir de instituições de estudos e
formação corporativa, virados para a optimização e racionalização dos recursos
humanos, afectados pela emigração maciça (Cruz, 2000, p. 467). O mesmo
argumento genérico é feito também a respeito dos restantes períodos em que
divide a sua narrativa.
Tal facto, porém, não invalida que a vocação sistemática da periodização
proposta para a sociologia em Portugal (positivista, experimental, colonial e
do desenvolvimento e do trabalho) tenda a dar por suprido o tratamento de um
tema que não se esgota neste contributo (e naquela periodização). Como não
invalida que o progressismo tácito da sua abordagem acabe por desvalorizar
cientificamente os afloramentos mais antigos desse saber, positivistas e
experimentais, a cujos contornos se contrapõe ' sem referências substantivas
aos trabalhos tipificados ou alusão comparativa a outros internacionais
contemporâneos ' a atual configuração disciplinar (académica e de natureza
fundamental) do mesmo saber. Avaliação que parece também desprender-se da
qualificação comparada que se imputa à designada sociologia colonial,
considerada de integração (relativamente ao regime), à qual se contrapõem
outras utilizações da sociologia, reputadas de ruptura e, afinal,
verdadeiras responsáveis pela sua institucionalização.
Não pretendo discutir a natureza política do Estado Novo. De resto, e no que
toca à política científica, o autoritarismo repressivo do regime não oferece
margens para dúvidas (Ruivo, 1991). Também não pretendo pôr em causa o facto
indisputável de que foi apenas na década de 1970 que ocorreu a decisiva
afirmação da sociologia e, mais genericamente, das ciências sociais, tal como
as conhecemos hoje. Mas as narrativas cotejadas, assentes numa série de pares
ordenados (de utilização mais geral) que qualifica o conhecimento científico-
social a) quanto aos seus lugares de produção como académico ou burocrático,
b) quanto às suas finalidades como fundamental ou aplicado, e que no caso
concreto tem nas equivalências presumidas entre democracia e ciência, por um
lado, e fascismo e ideologia, por outro, uma das suas aplicações extremas,
tendem a gerar efeitos de desconhecimento relativamente à história das ciências
sociais, que de resto não se restringem ao período do Estado Novo.
Efetivamente, e de forma mais específica, as narrativas compostas com base em
semelhantes operadores tendem a desqualificar à partida escolas e saberes que
acabaram por se perder no tempo, sem deixar legado institucional (como o que
designámos de leplaysianismo português); tendem a desvalorizar as raízes
estatais (ou afins) de outros saberes e escolas que vingaram (recorde-se o que
se disse a respeito da relação entre corporativismo e sociologia); e tendem a
gerar um efeito de ocultação sobre a produção de saberes em organismos oficiais
do Estado, em si mesmos relevantes para a história das ciências sociais, e que
em certos casos terão sido determinantes para o próprio desenvolvimento e
autonomização relativa das mesmas junto da academia (veja-se o caso já referido
da sociologia rural do Instituto Superior de Agronomia e muito em particular
trabalhos como o Inquérito à Habitação Rural da Universidade Técnica de Lisboa,
e outros resultantes da parceria institucional e científica entre aquele
instituto e organismos do Ministério da Agricultura, como a Junta de
Colonização Interna e a Junta Autónoma de Obras de Hidráulica Agrícola).17
Diga-se, para terminar, que as mais recentes sínteses da história da sociologia
em Portugal não fazem qualquer referência ao Gabinete de Estudos Corporativos
ou à sociologia rural do Instituto Superior de Agronomia, para citar dois casos
apenas. Na verdade, é possível dizer ' tendo por contraponto os trabalhos que
acompanhámos com maior detalhe, que no seu conjunto (e praticamente sem recurso
a fontes externas) permitem traçar um quadro bastante alargado e diverso
daquela história ' que parece estar a assistir-se, depois dos primeiros
trabalhos de Manuel Braga da Cruz, e com a notável exceção do trabalho de Nuno
Estêvão Ferreira, a uma depuração progressiva da narrativa que dá conta da
emergência e institucionalização da sociologia no país. Semelhante
possibilidade merecerá certamente ser averiguada, à luz das atuais condições de
produção de conhecimento sociológico e histórico-científico. Enfim, importa
sobretudo regressar às fontes disponíveis e procurar alargar, passo a passo, os
termos daquela narrativa.