O programa Habitações de Renda Económica e a constituição da metrópole de
Lisboa (1959-1969)
INTRODUÇÃO
Os anos de 1960 são para o estudo das políticas de habitação em Lisboa uma
época estratégica de investigação, transpondo do espaço para o tempo a
expressão de Firmino da Costa (1999, p. 2). São, por um lado, anos em que uma
rápida e intensa suburbanização transformava a aglomeração de Lisboa em
metrópole (Baptista, 1994, pp. 59-60). Edificado residencial de origem e forma
bem diversa compunha a frente avançada da suburbanização: dos grandes conjuntos
residenciais, a bairros resultantes da urbanização de quintas, passando por
bairros de barracas (Pereira, 1963a, p. 37; Gabinete Técnico de Habitação,
1965) e pela habitação dita clandestina (Corte-Real, 1973; Salgueiro, 1977;
Rodrigues etal., 1989a).
São, por outro lado, anos marcados por iniciativas públicas de planeamento: no
domínio urbanístico, o Plano Director da Região de Lisboa (1959-1964); no
domínio do alojamento, a criação do Fundo de Fomento da Habitação (1969); no
domínio da planificação económica, o Plano Intercalar de Fomento (1965-1967) e
o III Plano de Fomento (1968-1973) ' prevendo ambos investimento público em
habitação. São anos marcados, ainda, pelo relançamento do programa das
Habitações de Renda Económica. O Decreto-Lei n.º 42 454 de 18 de agosto de 1959
enquadrou a iniciativa, facultou meios financeiros e fundiários, e estabeleceu
o modelo da intervenção. Deste programa resultaram os primeiros grands
ensembleslisboetas ' Olivais Norte e Olivais Sul. Na sua edificação, o Gabinete
Técnico de Habitação foi determinante. Este organismo, criado então na
Presidência do Município de Lisboa, planeou, dirigiu e executou o programa das
Habitações de Renda Económica e desenvolveu práticas de investigação sobre as
carências de alojamento na cidade de Lisboa. A partir desse trabalho de
construção social, estatística e política da necessidade habitacional emergiram
argumentos críticos relativamente à política de habitação da época, conduzindo
à enunciação da habitação enquanto direito.
O papel deste programa de habitação na constituição da metrópole de Lisboa é
objeto de reflexão, depois de analisado o seu modus operandi e os seus efeitos
sociais e urbanos para o período compreendido entre 1959 e 1969. Em seguida,
discute-se a emergência de Lisboa enquanto cidade-metrópole dualista,
expressão utilizada por Nuno Portas (1997, p. 120) para designar o facto de na
capital os bairros resultantes do crescimento urbano marginal terem, nos anos
de 1950 e 1960, tomado o lugar que nos países europeus avançados tinham os
grandes bairros públicos do Estado-providência. No final, sugere-se que esta
via de análise oferece contributos significativos quer para a história social e
urbana da metrópole de Lisboa, quer para a sociologia da condição e da
experiência suburbanas.
A CONSTITUIÇÃO DA METRÓPOLE DE LISBOA
Na alvorada da década de 60 do século XX, o processo de urbanização de Lisboa
e dos seus concelhos limítrofes começou a constituir este território como
metrópole. Por um lado, o crescimento da cidade de Lisboa, que entre 1920 e
1950 progrediu à razão de cem mil habitantes por década (Baptista, 1994, p.
64), abrandava o seu ritmo. A cidade de Lisboa apresentava em 1960 uma
população na ordem dos 802 mil habitantes, ligeiramente superior aos 783 mil
habitantes registados em 1950. Por outro lado, Lisboa suburbanizava-se. O
crescimento urbano transformava radicalmente a estrutura de povoamento da
aglomeração (Nunes, 2011, pp. 127-131). A população residente nos concelhos
situados na margem norte do Tejo ' Cascais, Sintra, Oeiras, Loures e Vila
Franca de Xira ' passou de 376 mil habitantes, em 1960, a 618 mil habitantes,
em 1970. Para os concelhos da margem sul do Tejo, o crescimento situou-se na
ordem da centena de milhar de habitantes, passando de 195 mil, em 1960, a 296
mil, em 1970, o número de residentes em Alcochete, no Montijo, no Barreiro, na
Moita, no Seixal e em Almada. O curso demográfico de três concelhos, apreendido
através de dados publicados no X e no XI Recenseamento Geral da População (1960
e 1970), exprime bem o ritmo e o volume da suburbanização em curso: em Almada
registavam-se 23 mil habitantes em 1940, 43 mil em 1960, e 107 mil habitantes
em 1970; em Loures registavam-se 35 mil habitantes em 1940, 102 mil em 1960 e
166 mil em 1970; e, finalmente, a população residente no concelho de Oeiras,
que à data incluía a freguesia da Amadora e o lugar de Algés, progrediu de 37
mil habitantes em 1940 para 97 mil em 1960, ultrapassando, em 1970, os 180 mil
habitantes.
Uma intensa construção de alojamento refazia Lisboa e os seus principais
núcleos suburbanos. Ocorrendo no interior da cidade, nas principais vilas dos
arredores, e nos novos lugares suburbanos situados na sua envolvente, este
fenómeno era descrito na imprensa como avalancha de construções (Nunes, 2011,
pp. 211-216). Nas frentes avançadas da urbanização, destacava-se pela novidade
a edificação de grandes conjuntos residenciais, como os Olivais Sul, de
iniciativa pública, Carnaxide, Miraflores, Santo António dos Cavaleiros, ou a
Reboleira, de iniciativa privada (Nunes, 2011, p. 49). A edificação de bairros
cujo recorte apresentava ainda alguma afinidade formal com ruas e com praças
persistia e, geralmente, decorria da transformação de quintas em bairros,
integrando pequenos construtores nesse processo (Nunes, 2011, pp. 196-200).
Acentuava-se o loteamento e a construção clandestina (Rodrigues etal.,
1989a) ' fenómeno levantado e tratado em reportagens como Os bairros
clandestinos nos arredores de Lisboa (O Século, 16-02-1962) e O cerco à
cidade. Brandoas' há muitas (O Século Ilustrado, 31-10-1970), e em artigos de
opinião publicados, por exemplo, no Diário Popular no ano de 1969.
No domínio do planeamento urbano, o final dos anos de 1950 é marcado pela
preparação do Plano Director do Desenvolvimento Urbanístico da Região de Lisboa
(MOP, 1960) ' um instrumento de ordenamento regional originário da esfera de
iniciativa do Ministério das Obras Públicas. Suscitado pela construção da
primeira travessia rodoviária do Tejo, este plano é uma marca maior da
emergência de uma política de metrópole. Aliás, como bem salienta Margarida
Souza Lôbo (1989), o telos do plano não se esgotava no domínio rodoviário: o
Ministério das Obras Públicas pretendia otimizar o território da aglomeração;
corrigir deficiências na localização das atividades económicas; regular o
crescimento urbano e residencial; e favorecer a miscigenação das diferentes
categorias sócio-ocupacionais.
Na proposta de Lei n.º 14 de 6 de fevereiro de 1959, assinada pelo engenheiro
Arantes e Oliveira, ministro das Obras Públicas, a justificação da necessidade
do plano era acompanhada pelo argumento de que a dinâmica industrial da região
e os persistentes fluxos migratórios campo-cidade alimentavam uma intensa
procura de alojamento. Relativamente ao lado da oferta, o diagnóstico do
ministro era claro:
À falta de um plano director do desenvolvimento da área de influência
da capital, não tem sofrido pràticamente limitações a instalação de
indústrias nos seus arredores, nem tem sido possível impedir o
crescimento desordenado das povoações suburbanas e a criação de novos
núcleos populacionais, ao sabor das iniciativas particulares. Estas
são movidas na maioria dos casos por simples propósitos de
especulação de terrenos ou com o intuito de se evadirem da disciplina
dos planos de urbanização a que estão sujeitos os centros
populacionais mais importantes, incluindo a Capital, reduzindo assim
gravemente a eficiência desses planos e comprometendo até em muitos
aspectos a sua utilidade [Proposta de Lei n.º 14/59 republicada em
MOP, 1960, p. 10].
No ano de 1959, o governo relança o programa das Habitações de Renda Económica.
Como era apanágio da política de habitação do Estado Novo, o enquadramento da
iniciativa realiza-se através de legislação específica ' o Decreto-Lei n.º 42
454/59. No rico preâmbulo à peça legislativa, a capital é descrita como uma
cidade em crescimento, onde o problema da construção de novas habitações e
sobretudo de habitações com rendas acessíveis aos agregados familiares de mais
fracos recursos [se] torna[va] cada dia mais premente, a despeito do aumento
incessante das áreas residenciais da capital (Decreto-Lei n.º 42 454/59 citado
em Nunes, 2007, p. 47). Do Plano Director da Região de Lisboa, o telos da
organização racional do território da aglomeração é recuperado. Na peça
legislativa, o governo reafirmava a vontade de ordenar as novas vias de
circulação e os interstícios por elas gerados, as localizações industriais e os
espaços residenciais, a inserção das populações residentes e as que compunham
os fluxos migratórios de mão-de-obra que à cidade e aos seus arredores afluíam.
Para atingir tais objetivos, o Decreto-Lei reunia e fazia dispor três meios
clássicos para o reforço da ordem urbana. Em primeiro lugar, financiamento a
ser obtido quer por intermédio dos cofres da Previdência Social, quer de um
empréstimo contraído junto da Caixa Geral de Depósitos. Em segundo lugar, solo,
quer originário da política de expropriação conduzida por Duarte Pacheco, e
ainda disponível, quer sujeito a expropriação futura. E, e em terceiro lugar,
capacidade de estudo, planificação e execução que surgia maximizada por via da
intervenção do Município de Lisboa, encarregue de executar o programa.
O modelo concebido para o reforço da ordem urbana era a edificação de novas
unidades urbanas [ ] integradas no planeamento geral da cidade através das
quais se desejava, adianta o legislador, ver executado o vasto plano de acção
social que o Governo confia a este conjunto de providências (Decreto-Lei n.º
42 454/59 citado em Nunes, 2007, p. 48). Tratava-se assim, para o governo, de
edificar conjuntos residenciais minimamente equipados com igreja, escola e
mercado. A sua composição residencial e social era afirmada como não segregada,
pois, de acordo com o Decreto-Lei, estas unidades contariam obrigatoriamente
com todas as categorias de renda previstas no programa, destinadas a diferentes
estratos sociais, numa proporção previamente definida. Do programa, afirmava o
legislador,
Espera-se que a construção em grande número dos fogos das categorias
mais modestas venha facilitar o descongestionamento de prédios de
rendas mais elevadas até agora habitados por excessivo número de
famílias no pouco recomendável regime de partes de casa [e do mesmo
modo] promover-se-[á] a substituição progressiva dos chamados
bairros de lata, por habitações de carácter definitivo e rendas tão
módicas quanto possível [Decreto-Lei n.º 42 454/59 citado em Nunes,
2007, p. 52].
Dois fenómenos que, no entendimento do governo, constituíam nefastas
consequências do urbanismo, bem como um grave problema moral e social.
O PROGRAMA DAS HABITAÇÕES DE RENDA ECONÓMICANAS ÚLTIMAS DUAS DÉCADAS DO ESTADO
NOVO
Criado em 1945, através da Lei n.º 2007, o programa das Habitações de Renda
Económica abriu uma nova fileira de produção e distribuição da habitação de
cariz social. Constituiu uma diferenciação muito significativa na oferta
pública de alojamento: o arrendamento era a forma de ocupação privilegiada e a
edificação em altura era autorizada. No final dos anos 50, através da Lei n.º
2092/58, a ligação do programa às instituições e organismos do Ministério das
Corporações e Previdência Social foi reforçada. As suas fontes de financiamento
viam-se assim alargadas por uma pluralidade de cofres e de caixas. O leque de
potenciais destinatários dos alojamentos era afirmado como mais amplo do aquele
facultado pela legislação então em vigor para o programa das Casas Económicas.
Estas propriedades diferenciavam a Habitação de Renda
Económicaenquantoinstituição do champ administratif de production de la
politique du logement' (Bourdieu, 1990, p. 66). À Habitação de Renda
Económica correspondia uma nova lógica de produção: o investimento dos capitais
acumulados nos cofres da Previdência Social resultantes das quotizações dos
trabalhadores e das entidades patronais. Através da construção de habitação, do
arrendamento e da incorporação de um juro relativo ao investimento no valor
final da renda, as instituições da esfera da Previdência Social do Estado Novo
obtinham uma remuneração de longo prazo para os seus capitais. Esta lógica
distinguia-se daquela que o Ministério das Obras Públicas promovia no programa
das Casas Económicas, administrado através de um esquema de fundos públicos,
facultados para a obtenção de solo e para a construção de alojamento, que ia
sendo amortizado pelas prestações pagas pelos moradores (Gros, 1982, p. 110).A
Habitação de Renda Económica constituía um novo produto: o apartamento,
destinado a alojar populações que por via do seu vínculo laboral estivessem
inscritas em regimes de quotização para a Previdência Social, e
consequentemente aptas a ingressar no programa (Nunes, 2007, pp. 54-55). Este
produto diferia da moradia unifamiliar, o modelo das Casas Económicas, sujeita
a prestações de renda resolúvel, incorporando valores de um seguro, mediante as
quais os seus residentes, também eles sujeitos a seleção administrativa,
acediam à propriedade do alojamento ao cabo de duas dezenas de anos (Baptista,
1999, pp. 48 e ss.).
Progressivamente, de 1958 a 1968, através desta nova lógica e deste novo
produto, o Ministério das Corporações e da Previdência Social evidenciará um
ascendente sobre a política de habitação do Estado Novo (Baptista, 1999, pp.
71-88). De acordo com Nuno Serra (2002, pp. 191 e ss.), a partir da década de
1950, iniciar-se-á uma política de comparticipações que representa uma
significativa alteração na política habitacional do Estado e que encontra
paralel[ism]o em outras mudanças de natureza económica e social. Traduzir-se-
á tal política, entre outros aspetos, na retirada do Estado para os grandes
centros urbanos, na reformulação dos mecanismos de financiamento, e na
inscrição [explicita] da habitação nas estratégias públicas de planeamento do
desenvolvimento económico [Plano Intercalar de Fomento e III Plano de Fomento]
[Serra, 2002, pp. 191; 194; 196].
O modus operandido programa das Habitações de Renda Económicaera fortemente
dependente de mecanismos de construção social das populações, mecanismos
esses que para Jean-Claude Chamboredon (2001 [1985], p. 470) são
particulièrement complexes dans les cas des grands ensembles', dont la
population résulte le plus souvent de la mise en uvre de définitions
juridiques et institutionnelles des droits, de mécanismes économiques et
sociaux d'attribution des logements.
Para a distribuição das Habitações de Renda Económica a edificar no âmbito do
Decreto-Lei n.º 42 454/59, os critérios de acesso foram definidos por despacho
ministerial. Os critérios mais influentes na construção social das populações
eram a pertença de pelo menos um dos membros do agregado doméstico ao regime de
quotizações para uma Caixa de Previdência; os modos de aferição e cálculo de
rendimento familiar face aos escalões de renda estabelecidos; a composição do
agregado familiar; a antiguidade residencial na cidade de Lisboa; e, não menos
importante, um manipulável critério de boa conduta cívica ou moral.
As propriedades materiais e sociais das Habitações de Renda Económica estavam
fortemente associadas aos valores das rendas definidos no Decreto-Lei n.º 42
454/59. Estas variavam entre os 200 e os 1 500 escudos, e eram escalonadas em
quatro intervalos ou categorias, de acordo com o Decreto-Lei n.º 42 454/59. A
maioria dos alojamentos a edificar situava-se no intervalo de renda entre os
200 e os 600 escudos ' nas categorias I e II ', e destinava-se a agregados
domésticos de baixos rendimentos. Visto pelo lado da edificação, o decreto
estabelecia uma relação entre o custo do terreno, o custo do fogo, e as
categorias de habitação e de renda. Visto pelo lado da distribuição social, os
critérios de atribuição destes alojamentos estabeleciam uma relação entre o
rendimento dos agregados domésticos candidatos, em regra vinculados a um regime
de previdência, um tipo de habitação económica, e um escalão de renda.
No entanto, os efeitos da construção social das populações não se restringiam
à eleição de estratos populacionais destinatários das habitações. Uma
equivalente construção material e social (Nunes, 2007, p. 64) das habitações
a edificar engendrava efeitos na cidade e nas suas populações. A cada estrato
populacional eleito correspondia uma habitação diferenciada do ponto de vista
da localização, da área do fogo, e dos elementos de conforto do alojamento;
correspondia igualmente uma posição na hierarquia dos programas que compunham a
política de habitação. Consequentemente, este novo produto estabelecia destinos
residenciais específicos ' construía-os social e administrativamente ' e assim
oferecia uma posição face à diferenciada oferta de meios de alojamento a cada
momento disponível na cidade e nos seus arredores.
Nos últimos quinze anos do Estado Novo, e sob a égide do Decreto-Lei n.º 42
454/59 foram edificados cerca de 7 000 fogos nos Olivais Norte e Olivais Sul.
Por serem bairros concebidos enquantoconjuntos, e pelo número de alojamentos se
situar, em cada um, bem acima do milhar; por na sua origem e edificação se
encontrar uma complexa organização de capitais públicos implicados na
infraestruturação dos bairros e na construção das habitações; por nos seus
planos se prever a instalação de equipamentos que contribuíram para que estes
conjuntos apresentassem uma relativa autonomia urbana; e, ainda, por serem
organismos públicos os detentores do processo de seleção administrativa da
grande maioria dos seus residentes, os Olivais Norte e os Olivais Sul revelam
semelhanças tanto com os grandes conjuntos residenciais europeus das décadas de
50 e 60 do século XX, como com as formas de atuação típicas dos Welfare States
em institucionalização (Nunes, 2007, pp. 174 e ss.). Na origem desta nova forma
de produção de alojamentos de cariz social encontra-se, por um lado, o programa
das Habitações de Renda Económica e, por outro, um apurado labor de
programação, de planeamento urbano, e de controlo de execução de obra realizado
entre 1959 e 1969 pelo Gabinete Técnico de Habitação da Câmara Municipal de
Lisboa.
O GTH ENQUANTO LABORATÓRIO DE URBANISMO
O Decreto-Lei n.º 42 454/59 incumbia a Câmara Municipal da realização de um
vasto programa de habitação económica. Em conformidade com o diploma, e meses
após a sua publicação, na dependência da Presidência do Município foi criado o
Gabinete Técnico de Habitação (GTH). As malhas dos Olivais Norte, Olivais Sul e
Chelas foram escolhidas pela edilidade para a edificação das unidades
urbanas, e o GTH desempenhou um papel central no planeamento, na execução, e
no controlo do programa.
Fazendo uso da expressão laboratório, no sentido conferido por Christian
Topalov (1999), o Gabinete Técnico de Habitação pode ser analisado como
laboratório de urbanismona cidade de Lisboa. Da expropriação e
infraestruturação do solo ao lançamento, controlo e avaliação das empreitadas
(Nunes, 2007, pp. 65-75 e 87-89); dos estudos de economia e normalização da
construção (Nunes, 2007, pp. 70-84) à preparação de instrumentos destinados à
melhoria da eficiência do programa ' como os Cadernos Concepção-Construção
(Catalão, 1963b); da execução do plano dos Olivais Norte, realizado no
Gabinete de Estudos de Urbanização, à conceção dos planos de Olivais Sul e
Chelas, e ao convite às equipas de arquitetura encarregues dos projetos de
habitação e seu acompanhamento (Nunes, 2007, pp. 97-100); da investigação sobre
as necessidades habitacionais em Lisboa, que mais à frente se analisará, à
realização de inquéritos fogo-família com o intuito de aferir a adaptação dos
agregados domésticos aos alojamentos dos Olivais Norte e Sul (Almeida Leite,
1968); da publicação regular de uma revista especializada, o Boletim do
Gabinete Técnico de Habitação, à organização de encontros com especialistas
estrangeiros, foi a partir da ação do GTH que emergiram novas formas de planear
e desenhar, conceber e investigar a edificação de habitação pública de cariz
social em Lisboa.
Ao longo da década, a ação do GTH ia colocando em causa ' se uso se fizer da
expressão de Virgílio Borges Pereira e João Queirós (2012) ' a doxa
constitutiva da política de habitação. Chamando a atenção para os pontos de
viragem na produção da habitação social na cidade do Porto, os autores
argumentam que tais inflexões, verificadas num tempo longo, decorrem de
mudanças na relação entre o Estado, a habitação, e o curso da questão social
naquela urbe. Acerca de uma inflexão verificada em meados da década de 1950, à
relação com mudanças verificadas na economia e na sociedade do Porto, aduzem os
autores duas outras dimensões ' uma legal e institucional, outra intelectual.
Para a cidade de Lisboa de finais de 1950, as mudanças institucionais e legais,
no sentido que Pereira e Queirós (2012) atribuem à expressão, tiveram um papel
determinante na ascensão das Habitações de Renda Económica a instituição do
campo administrativo de produção política habitação de cariz social '
parafraseando Bourdieu e Christin (1990, p. 66). E, mais tarde, através do
Decreto-Lei n.º 42 454/59 foi institucional e legalmente tornada possível a
criação de um organismo municipal orientado para funções executivas no programa
Habitações de Renda Económica. Já a importância da dimensão intelectual
(Pereira e Queirós, 2012) surge aqui reforçada pelo que José António
Bandeirinha (2007, p. 26) identifica como uma mudança na composição
disciplinar, técnica e geracional do pessoal integrado nos organismos do
Estado:
[tais organismos] tinham a seu cargo jurisdição sobre as questões
relacionadas com a habitação ' Laboratório Nacional de Engenharia
Civil, Direcção Geral de Urbanização, Federação das Caixas de
Previdência, as próprias Câmaras Municipais, sobretudo a de Lisboa '
muniram-se de técnicos jovens e sensíveis à urgência de uma solução
mais sistemática para o problema. Foram esses técnicos ' engenheiros,
arquitectos, assistentes sociais, economistas ' que, desde o início
dos anos 60 e nos respectivos serviços, foram desenvolvendo vários
trabalhos de âmbito analítico, de sistematização metodológica ou
mesmo de projecto, e que foram dinamizando alguns núcleos informais
de formação e de especialização menos académicos e mais operativos
que as universidades [Bandeirinha, 2007, p. 26].
Na busca de soluções mais sistemáticas para o problema social da habitação
(Baptista, 1999, p. 19), o GTH constituiu a política de habitação como
problemae como solução. Já enquanto laboratório de urbanismo, a ação do GTH
modificou não apenas o horizonte de possibilidade da intervenção do Estado,
como também as possíveis modalidades de uma futura intervenção do próprio
Estado. O modo qualificado como planeou e concebeu a habitação de cariz social
e a integrou na cidade, de um lado, a crítica que enunciou relativamente ao
funcionamento e aos efeitos socialmente excludentes do programa público
estabelecido no Decreto-Lei n.º 42 454/59, de outro, são elucidativas da
posição deste organismo público face às questões de política de habitação.
Para além de condições estruturais e conjunturais, a margem de ação que a
equipa de urbanismo ao serviço do GTH tomou para si resultou da vaga orientação
urbanística do Decreto-Lei fundador e do cunho experimentalista conferido à
iniciativa pelo primeiro diretor do Gabinete, o engenheiro Jorge Carvalho de
Mesquita. Relativamente à conceção urbanística, Carlos Duarte, em artigo
publicado em 1976 na Architecture d'aujourd'hui,afirma que
[ ] os arquitectos e os outros técnicos acreditaram poder fazer
qualquer coisa e arriscaram uma colaboração no interior do sistema;
relativamente à experiência construtiva em Olivais Sul, esta forneceu
um campo de experimentação nos domínios da tecnologia, da sociologia
e da metodologia de projecto, [ ] sendo possível, ao nível do
conjunto, um controlo sem precedentes, particularmente ao nível da
célula habitacional, dos espaços exteriores, dos lugares comunitários
e da utilização de linguagens arquitecturais [Duarte, 1976, p. 22,
tradução minha].
Significativa parte dessa experiência radicava na observação e no estudo das
realizações britânicas das décadas de 40 e 50 do século XX, e no conhecimento
da cidade de Lisboa. O arquiteto Carlos Duarte, coautor do plano, recorda que
[ ] na altura [se vivia] o entusiasmo das realizações ingleses do
pós-guerra, nomeadamente das cidades novas à volta de Londres
previstas no Plano Abercrombie, que muitos de nós já tínhamos
visitado. E a verdade é que, não seguindo à letra os esquemas de
Harlow, Steverage ou Crowley, certo é que a estrutura de Olivais-Sul
se inspira nos princípios gerais dessas cidades, nomeadamente na
adopção do conceito de unidade de vizinhança. Mas fá-lo na
perspectiva da sua aplicação a uma cidade como Lisboa, com um
património histórico e arquitectónico muito peculiar e uma tradição
de viver urbano que não é a inglesa. Daí a insistência numa vida de
bairro que tem tradução espacial em ruas, caminhos e praças, lugares
tradicionais na nossa cidade de comércios, encontros e convívios. Uma
intenção que teve correspondência no trabalho de algumas equipas de
projectistas [Duarte, 2002, pp. 56 e 58].
A oferta de equipamentos coletivos, concebida pelos autores do plano ao serviço
do GTH, recortava com nitidez uma intenção: produzir um espaço urbano
semiautónomo face à cidade, que qualificasse a experiência de bairro das
populações mais desmunidas em recursos económicos e culturais. Assim, à imagem
dos centros das new towns inglesas e escandinavas, bem conhecidas da equipa
(Medeiros, 1965; Duarte, 1965), o plano previa edificação de um centro cívico e
comercial (Machado, 1967). Aí se localizariam um cineteatro e um grande
armazém, um museu e um auditório, um mercado de grandes dimensões, e uma
igreja, bem como um conjunto considerável de lojas e de serviços; numa órbita
mais afastada do centro previa-se a instalação de duas bibliotecas, dois
mercados, dois parques, e um complexo de instalações desportivas (Nunes, 2007,
pp. 104-15).
É notória a semelhança entre os princípios de planeamento presentes na conceção
dos Olivais Sul e as orientações da política urbana à época propostas e
realizadas pelo Parti Socialiste Français (Dagnaud, 1978) ou por partidos
trabalhistas ou sociais-democratas da Europa ocidental. Esta posição permite
situar o plano dos Olivais Sul enquanto prática urbanística reformista,
concebida e materializada sob a ditadura, e no âmbito de um programa de
habitação com forte cunho neoconservador (Nunes, 2007, pp. 165-172).
DAS NECESSIDADES DE ALOJAMENTO AO DIREITO À HABITAÇÃO
Ao longo da década de 1960, o Gabinete Técnico de Habitação desenvolveu
investigação sobre as necessidades de alojamento da população residente na
capital. Os seus objetos e práticas de investigação revelam como a partir de um
dos mais importantes e significativos programas de habitação económica se
enunciaram argumentos que reivindicavam o entendimento da habitação enquanto
direito.
Um dos primeiros tópicos de análise para o serviço de investigação do GTH foi o
problema da sublocação. Apesar de algumas dificuldades de cálculo, decorrentes
das definições estatísticas de família e de agregado familiar utilizadas
nos Recenseamentos Gerais da População de 1950 e 1960, Maria Conceição Tavares
da Silva (1964a) recortou a partir daquelas fontes um universo de 49 mil
famílias sublocatárias na cidade de Lisboa, para um total de 245 mil famílias
residentes. Ao diagnóstico quantitativo da sublocação, a investigação do GTH
associou, em seguida, o problema da sobreocupação dos fogos. Foram calculados
índices de ocupação dos alojamentos, e ordenados numa escala que resultava do
rácio entre o número de ocupantes e o número de divisões. Apoiando-se nos
trabalhos de Paul-Henri Chombart de Lauwe, Tavares da Silva (1967) traçou o
limiar crítico no intervalo 1,85 a 2,74 ocupantes por divisão. Ao situar a
linha de corteneste intervalo, a autora estimava em cerca de 18 mil os
agregados domésticos mal alojados em sobreocupação. Também através dos dados
apurados no X Recenseamento Geral da População (1960) foram reconstituídas as
condições de habitabilidade dos fogos na cidade de Lisboa. Estimava-se que para
cerca de 13 mil agregados domésticos residentes na capital o seu alojamento era
deficientemente equipado, isto é, onde a falta de cozinha, casa de banho, ou
retrete havia sido registada no recenseamento (Silva, 1967, p. 116).
Paralelamente ao levantamento estatístico da sublocação, da sobreocupação dos
alojamentos e das carências de equipamento doméstico e sanitário, o GTH encetou
o inquérito à população residente nos bairros de lata e construções
abarracadas (Gabinete Técnico de Habitação, 1965). A observação conduzida pelo
gabinete permitiu caracterizar um mundo urbano composto por 10 918 fogos,
distribuídos pelos bairros de lata da capital, onde se alojavam cerca de 43 mil
pessoas e que eram teto para 12 022 famílias ' o que grosso modo representava
cerca de 4% da população residente no concelho de Lisboa em 1960.
Da investigação acerca das necessidades habitacionais em Lisboa resultou um
claro déficit de alojamentos. Jorge Carvalho de Mesquita sintetizava assim o
trabalho do gabinete que dirigia:
[para além das 12 022 famílias a residir em barracas] em regime de
sublocação revelou o censo de 1960 existirem cerca de 57 000
famílias. Mesmo descontando a este número as famílias de pessoa
isolada, cujo problema se apresentava mais atenuado, se chegaria a um
montante de 43 700 o que, de modo algum, se poderia minimizar. Além
disso 2 900 agregados multi-familiares, com alojamento em prédio,
não dispunham sequer de casa de banho, retrete e cozinha ou então só
dispunham de cozinha [Mesquita, 1967, p. 15].
O diretor do GTH concluía que avaliando em 160 000 o quantitativo das
famílias, por razões várias classificadas como mal alojadas se compreendia a
transcendência da crise e assim a exigência em adotar medidas rápidas, para
[que] o déficit carencial se não se acentuasse ainda mais (Mesquita, 1967, p.
15). Do confronto entre o valor do défice de alojamentos apurado pelo GTH e os
mecanismos de construção social das populações destinatárias que operavam no
seio do programa das Habitações de Renda Económica emergiu uma variada gama de
críticas ao programa. Uma das mais significativas foi enunciada por Carvalho de
Mesquita: o diretor do GTH constatava que, para a generalidade das famílias, o
acesso a uma Habitação de Renda Económicase revestia de um grau de dificuldade
superior àquele encontrado na procura de uma casa no setor livre do mercado
(Nunes, 2007, pp. 175-176). O argumento era sustentado por investigação
realizada pelo GTH.
Por um lado, a atrás referida investigação conduzida nos bairros de lata
permitia aferir que boa parte dos agregados domésticos que se alojava em
miseráveis condições não poderia aceder a uma Habitação de Renda Económica por
via dos seus parcos rendimentos (Gabinete Técnico de Habitação, 1965; Nunes,
2007, pp. 110-111). Por outro lado, um inquérito realizado pelo GTH junto da
população que trabalhava na zona oriental cidade apontava para esse mesmo
efeito do programa (Pacheco de Amorim, 1964). E, por outro lado ainda, através
de um inquérito às necessidades de alojamento e rendimento dos serventuários do
Município de Lisboa (Catalão, 1963a, p. 10), o GTH verificava que devido aos
seus reduzidos réditos uma significativa proporção dos trabalhadores do
município deparar-se-ia com dificuldades de acesso a uma Habitação de Renda
Económica.
Os estudos realizados permitiam que os técnicos e dirigentes do GTH
argumentassem a favor de uma redução dos valores das rendas das Habitações de
Renda Económica estabelecidas no Decreto-Lei n.º 42 454/59. O GTH e a Câmara
Municipal de Lisboa criaram a Categoria HR ' Habitações Renda Módica: uma nova
categoria de habitação económica cujas rendas eram inferiores ao mínimo
definido para a categoria I do Decreto-Lei n.º 42 454/59 ' isto é, 200 escudos
(Tavares da Silva, 1964b). Esta categoria foi destinada a ações de realojamento
e a agregados familiares que se encontravam excluídos do programa. Foi incluída
na construção de Olivais Sul (Nunes, 2007, pp. 110-113) e, mais tarde, alguns
agrupamentos foram edificados em Chelas, onde o problema dos bairros de
barracas e do realojamento se colocava de forma aguda (GTH, 1964, pp. 29-30).
Também ao longo da década de 1960 foram formulados outros argumentos e
propostas de revisão do programa das Habitações de Renda Económica e da
política de habitação do Estado Novo. Trabalhos realizados no Gabinete Técnico
de Habitação, como se viu, ou no Laboratório Nacional de Engenharia Civil, por
Nuno Portas (1964), ou ainda na Federação das Caixas de Previdência '
Habitações Económicas, pela equipa de Nuno Teotónio Pereira, apresentavam
denúncias e propostas de alteração programática e operacional dos programas de
habitação pública da época. Desde logo, alterações nos meios e nos modelos da
política de habitação eram reivindicados. Para Luís Catalão, engenheiro-chefe
do serviço de investigação do GTH, era necessário o alargamento do âmbito do
Decreto-Lei 42 454/59 aos arredores da cidade, e era urgente a criação de um
organismo centralizado de distribuição de habitação (Catalão, 1963a). Num
estudo elaborado no Laboratório Nacional de Engenharia Civil, Nuno Portas
(1964, pp. 10-11) propunha a orientação do investimento público para a
edificação de habitações destinadas às rendas mais baixas, uma revisão da
remuneração dos investimentos dos organismos públicos em habitação, isto é, do
juro associado ao capital investido, e um reforço da planificação quer no
domínio orçamental e financeiro, quer no domínio construtivo e urbanístico. A
equipa de Nuno Teotónio Pereira, que integrava a Habitações Económicas '
Federação de Caixas de Previdência, argumentava, entre outros aspetos, a favor
de uma política de solo que dotasse os órgãos do Estado de instrumentos de
controlo e neutralização de processos especulativos (Pereira etal., 1964, p.
3). Em comum, estas três propostas pressupunham o reforço do investimento
público.
A atuação que era requerida ao governo implicava mudanças na produção e na
distribuição da habitação de cariz social. Relativamente à produção, pretendia-
se que um reforço da planificação e do investimento público engendrasse
incrementos no quantitativo de fogos oferecido. Assim se responderia ao déficit
de alojamentos ' um tópico que adquiriu enorme relevo ao longos dos anos de
1960 (Baptista, 1999, p. 117), e que foi tratado de forma pioneira e influente,
quer por Raul da Silva Pereira (1963a) no primeiro número da Análise Social,
quer pelo Serviço de Investigação do GTH, como se tem vindo a mostrar. Assim
também, e por via da planificação e do aumento do investimento público, se
gerariam economias de escala e se induziriam efeitos modernizadores na
indústria e no setor da construção. Já relativamente à distribuição social,
argumentava-se a favor de alterações no desenho do acesso aos programas
públicos e, claro está, do programa das Habitações de Renda Económica em curso.
Modificações na extensão económica e social do instrumento eram requeridas.
Entre a produção e a distribuição, pretendia-se uma melhoria na articulação
entre meios financeiros e programas de habitação.
Em suma, procurava-se uma maior proximidade a modelos e a meios de atuação
típicos dos países europeus e dos Welfare States em institucionalização. Em
1969, um passo é dado nesse sentido. É criado o Fundo de Fomento da Habitação,
organismo situado na esfera do Ministério das Obras Públicas, competindo-lhe a
centralização e coordenação política, técnica e financeira do investimento
público no setor. Também em 1969, um passo é dado no sentido de enunciar a
habitação enquanto direito. No texto do relato final do Colóquio sobre Política
de Habitação, é afirmado: cada agregado familiar necessita de uma habitação.
Desta evidente necessidade decorre o conceito de direito ao alojamento, que,
sendo um direito, deve ser a todos garantido pela colectividade, sob a
responsabilidade do Estado (Colóquio sobre Política de Habitação citado por
Gros, 1982, p. 147).
REFLEXÃO FINAL ' A EMERGÊNCIA DE LISBOA ENQUANTO CIDADE-METRÓPOLE DUALISTA
Num ensaio intitulado A arquitectura de habitação no século XX português,
Nuno Portas (1997) passa em revista a política de habitação dos últimos vinte
anos do Estado Novo. Constata o autor que é face ao déficit quantitativo do
setor público, verificado nas décadas de 1950 e 1960, que se revela o caráter
excecional dos últimos grandes bairros novos em Lisboa ' Olivais e Chelas [ ],
concebidos como new town in town[ ] [e juntando] mais uma vez, sem limitações
de tipologia ou linguagem, o melhor dos arquitectos portugueses modernos,
incluindo os mais jovens (Portas, 1997, p. 120). Argumenta que no início da
segunda metade do século, Lisboa é uma cidade-metrópole dualista na qual o
sector marginal tomou o lugar que nos países europeus avançados tinham os
grandes bairros públicos do Estado-providência, especificando:
De facto, os bairros sociais dos últimos vinte anos do Estado Novo
não eram os das excepções cultas [Olivais Norte, Olivais Sul e
Chelas], mas sim por omissão do Estado os das extensas urbanizações
periféricas nascidas na sua maioria como loteamentos ilegais. De
facto, estas suburbanizações em extensão só eram possíveis num regime
autoritário se toleradas (porque eram tudo menos clandestinas, nome
por que ficaram conhecidas) ' mas ofereciam, embora com custos
ecológicos, às classes populares da capital, aos imigrantes desejosos
de investir no seu país, ou mesmo às poupanças das camadas médias, a
oportunidade de construírem casa própria, de a ampliar ou melhorar,
ou de instalarem actividades produtivas mais ou menos marginais que
as cidades planeadas ou regulamentadas já não podiam integrar
[Portas, 1997, pp. 119-120].
É à margem da promoção pública que o arquiteto e urbanista identifica em alguns
subúrbios lisboetas um mundo de arquitecturas populares sem arquitectos, em
parte auto-construídas ou pelos pequenos construtores para vender e/ou alugar,
já que também eles tinham perdido o seu papel nos centros urbanos ao vingarem
os blocos em altura e a iniciativa do capital financeiro (Portas, 1997, p.
120). A literatura sobre a habitação clandestina em Lisboa deu conta não apenas
das dinâmicas especulativas e dos casos mais visíveis, inclusive, objeto de
campanhas jornalísticas (Salgueiro, 1977), como também das urbanizações mais
discretas (Corte-Real, 1973); levantou o perfil social dos seus protagonistas,
interpretou as suas estratégias económicas e sociais, e reconstituiu as
histórias familiares dos clandestinos, relacionando-as com a transformação do
território por via da ação dos loteadores (Ferreira etal., 1985); analisou a
eficiência e a equidade na produção de espaço clandestino, discutindo a
oferta de habitação face à economia política urbana (Rodrigues, 1989); e
apontou similitudes e identificou diferenças com fenómenos ocorridos em Itália,
na Jugoslávia e na Grécia (Gaspar, 1989).
Na cidade Lisboa e nos seus arredores, durante a década de 1960, a edificação
de grandes conjuntos residenciais, quer de origem pública, quer de origem
privada, foi uma importante peça na constituição da metrópole (Nunes, 2011). As
formas de crescimento urbano marginal podem também ser vistas sob esse prisma
metropolitano, nomeadamente a partir das práticas de loteamento e de construção
de habitação clandestina. Para o arquiteto Luís Bruno Soares, este fenómeno
representa uma transformação informal do território, que se desenvolveu num
período de crescimento demográfico que, note-se, ia igualmente constituindo a
metrópole de Lisboa:
Se os bairros clandestinos dos anos 50 e 60 ofereciam alojamento
barato que era uma alternativa à barraca, à parte de casa, ao quarto
de hóspedes ou à casa insalubre no centro da cidade, os loteamentos
dos anos 70 e 80 oferecem a alternativa de uma moradia e jardim
construídos pelos próprios. Os clandestinos de primeira geração,
instalaram-se e cresceram por falta de uma política de habitação
social que respondesse às necessidades do crescimento demográfico e a
instalação de populações imigrantes de baixos rendimentos. Os da
segunda geração, dominada pela casa própria estão-se a consolidar
por não haver uma política urbanística que responda e um modelo de
habitateleito pela classe média e por grande parte do operariado com
uma capacidade de autoinvestimento acrescida [Soares, 1987, p. 350].
A análise articulada do programa das Habitações de Renda Económicae da
construção de habitação dita clandestina contribui para a reconstituição de
segmentos significativos da história social e urbana da metrópole de Lisboa.
Se tais objetos forem entendidos enquanto meaningful types in a world of
suburbs (Harris, 2010), a sua análise contribuirá então para a sociologia da
condição e da experiência suburbana, tanto à escala nacional como à escala
global.