Relações sinuosas: Portugal e o mundo árabe, 1950-1973
As três últimas décadas do colonialismo português conheceram as transformações
mais significativas nas políticas islâmicas do império. Os anos 50 e o início
da década de 60 constituíram ainda um período genericamente hostil ao Islão
que, na perceção das autoridades portuguesas, corporizava uma das vertentes do
projeto global saído, em 1955, da Conferência de Bandung, a que em breve se
juntaria a figura de Nasser como súmula de um alegado expansionismo árabe
(Franco, 2006, p. 65). A eclosão das guerras coloniais acentuou a desconfiança
daquelas autoridades em relação aos muçulmanos, particularmente no norte de
Moçambique, onde muitos dos dignitários islâmicos, acusados de apoiar a
FRELIMO, sofreram uma onda repressiva que passou pelo controlo apertado, pela
prisão, e mesmo por execuções extra-judiciais (Alpers, 1999, p. 175; Cahen,
2000, p. 573; Bonate, 2007, pp. 230-231). Contudo, entre meados dos anos 60 e o
desfecho das guerras, esta política de hostilidade veio a sofrer uma revisão
profunda. Mercê de uma redistribuição das alianças preferenciais com os
diferentes grupos étnicos e religiosos, tanto em Moçambique como na Guiné, o
aparelho colonial português ensaiou uma aproximação às lideranças muçulmanas,
com particular ênfase nas confrarias Sufi. Tentativa de cooptação que não
deixou de ser marcada por contradições e por sentimentos de ambivalência que
prolongavam desconfianças antigas, mas que, mesmo assim, logrou marcar alguns
pontos na política de conquista das populações enquanto tática de guerra
anti-subversiva (Machaqueiro, 2012a).
Neste quadro evolutivo, a transnacionalidade do Islão surgiu como um aspeto
especialmente problemático e perturbador para o projeto colonial português
(Machaqueiro, 2011a). Os receios motivados pelo pan-islamismo importaram
representações ansiogénicas que haviam já circulado nos sistemas britânicos e
franceses de governação colonial em territórios onde o Islão era a religião
dominante (Robinson, 1999; Ferris, 2009; Harrison, 1988). No caso português, a
imagem de um Islão transnacional acabaria, contudo, por sofrer os efeitos da
mudança estratégica de meados dos anos 60. Na reta final do colonialismo,
marcada pelo pragmatismo inerente ao conflito militar, o transnacionalismo
islâmico passou a ser visto como oportunidade a explorar, embora com as
precauções sempre ditadas pela imagem do seu expansionismo.
O presente artigo dedica-se, assim, a reconstituir uma parte desta trajetória
do Estado colonial português face a um Islão inscrito no cenário das relações
internacionais.
GEOPOLÍTICAS DO ISLÃO NA IDEOLOGIA COLONIAL PORTUGUESA
Antes do momento de Bandung, e da irrupção de uma possível aliança árabo-
soviética, o receio predominante, nomeadamente dentro do aparelho colonial de
Moçambique, era que a contaminação comunista dos nativos se fizesse não por
via islâmica, mas através da África do Sul, cuja política de apartheid,
propulsora do ressentimento racial, era vista como um estímulo potencial para
a propaganda comunista e uma provável influência sobre os trabalhadores das
minas de Rand, oriundos de Moçambique ' isto apesar de, segundo as autoridades
policiais portuguesas desta região, o nativo ser, em regra, incapaz de
compreender a propaganda comunista1. A experiência histórica veio mostrar
que, no caso específico de Moçambique, explicar o movimento nacionalista com
base no impacto das lutas dos mineiros de Rand ou do Copper Belt, nas quais os
migrantes moçambicanos se envolveram, era muito mais plausível do que invocar
megaconspirações soviético-islâmicas (Newitt, 2009, pp. 520-521).
Em finais da década de 50, porém, deu-se uma mudança neste formato cognitivo. O
vínculo entre Islão e comunismo tornou-se então evidente para muitos ideólogos.
No ano de 1956, ele foi mesmo objeto de uma homilia do bispo da Beira, em
Moçambique, proferida aos microfones da Rádio Vaticano, em que D. Sebastião
Soares de Resende associou o perigo da penetração comunista em África aos
indígenas muçulmanos que poderiam facilmente ser utilizados em organizações
secretas deste género (ou seja: comunistas).2 Assim, dos meios católicos às
Forças Armadas e à intelligence, a fixação numa possível aliança entre Islão e
comunismo passou a ser um tópico frequente. Com respeito às Forças Armadas, o
locus clássico dessa articulação encontra-se na teoria da guerra
revolucionária ou subversiva, que o tenente-coronel Hermes de Oliveira foi
formulando ao longo dos anos 60, segundo a qual o pan-arabismo seria uma das
alavancas, a par do pan-africanismo, para a estratégia soviética de conquista
de África (Oliveira, 1959, pp. 750-752). Houve mesmo análises, dentro do
aparelho colonial português, que localizavam nas formas organizativas do Islão
' inexistência de uma unidade executiva maometana de carácter permanente e
superestrutural e maleabilidade das estruturas islâmicas, em que a hierarquia
não implica [ ] articulações funcionais e disciplinares3 ' a raiz possível
para uma maior permeabilidade ao progressismo de inspiração comunista.
Sendo assim, revestem-se de especial interesse as abordagens que, ao
inscreverem a articulação entre progressismo muçulmano e comunismo numa
leitura mais global da geopolítica islâmica, tentaram perceber que
possibilidades se ofereciam aí para uma estratégia de preservação do poder
colonial. Iremos, em seguida, percorrer alguns exemplos desse género de
abordagem.
A dualidade, quase identitária, na distinção progressismo/tradicionalismo
comandava os argumentos das autoridades portuguesas. Uma Informação dos
Serviços de Centralização e Coordenação de Informações de Moçambique (SCCIM),
assinada pelo seu diretor, major Fernando da Costa Freire4, começava por
identificar duas correntes rivais no Islão árabe: de um lado, o progressismo
islâmico sustentado por Nasser e alimentado, em termos doutrinários, pela
Universidade de al-Azhar no Cairo; do outro, o tradicionalismo do rei Faizal
da Arábia Saudita, que desembocou na criação de uma santa aliança entre as
monarquias saudita, iraniana e jordana com vista a combater a acção
dissolvente da República Árabe Unida sobre o status tradicional do Próximo
Oriente5. No entanto, uma análise mais fina das combinatórias políticas no
mundo árabe vinha revelar que a fronteira entre progressistas e
tradicionalistas era, afinal, muito mais porosa do que poderia parecer.
Segundo os SCCIM, no Kuwait, tal como na Arábia Saudita, predominava a
corrente puritana e rigorista do wahhabismo, para a qual o Islão verdadeiro
foi o da primeira geração de convertidos, condenando portanto todas as
inovações e transigências posteriores; e na Líbia imperava outra corrente
rigorista, a do sennusismo ou sanussismo, chefiada pelo próprio rei
Idriss I. Ainda de acordo com este documento, o sennusismo, por tentar
restabelecer a pureza integral do Islam, era a única corrente Sufita
(ascético-mística) tolerada pelos militantes Wahabitas ' habitualmente opostos
ao que consideravam ser o desvio intolerável que as confrarias Sufi teriam
introduzido em relação à normatividade do Corão. Daí que os SCCIM vissem uma
entente religiosa coligando o Kuwait e a Líbia. E daí também que, na
perspetiva da Informação que estamos a citar, esses dois países considerados
tradicionalistas pudessem alinhar, por razões históricas, com o Egito de
Nasser e com o seu progressismo. Nesta leitura, o anti-ocidentalismo
nasseriano aproveitava, pois, o substrato altamente combativo do Sennusismo e
do Wahabismo, utilizando-o como lhe convém. Não obstante as suas divisões de
caráter político-religioso, o documento reconhecia que progressistas e
tradicionalistas se uniam numa vincada posição anti-colonialista, e tal
era, porventura, o motivo de maior apreensão na perspetiva de um Estado
colonial.
É muito provável que esta análise sofisticada tivesse a marca de Fernando
Amaro Monteiro, então já considerado o islamólogo mais competente do aparelho
colonial português.6 De facto, a interpretação que a citada Informação dos
SCCIM fazia das tensões e das alianças no mundo islâmico ressurge, em grande
medida, num parecer que Monteiro redigiu vários anos depois, em abril de 1973,
sobre a 4.ª sessão da Conferência Islâmica efetuada em Benghazi, na Líbia.7 Aí
o autor retomou a ideia de um antagonismo entre sauditas e cairotas na disputa
pela liderança política do Islão, e repetiu outra noção presente naquele
documento dos SCCIM: a de que o sanussismo líbio e o wahhabismo saudita,
doutrinariamente afins e conciliáveis8, serviam os interesses do
progressismo egípcio pela forma como projetavam um discurso e uma prática
anti-ocidentais. Por outras palavras, Amaro Monteiro pensava que, transpostas
para África, estas correntes integristas ou fundamentalistas do Islão
facilmente se combinariam, apesar da sua componente conservadora, com formas de
progressismo anti-ocidental e anticolonial, convenientes ao pan-arabismo de
Nasser e, por extensão, à estratégia soviética (Monteiro, 1993, p. 90).
Já antes, em julho de 1968, regressado dos seus estudos islâmicos na
Universidade de Aix-en-Provence, Amaro Monteiro redigira um relatório
igualmente marcado pela preocupação com o progressismo no mundo islâmico.9
O autor utilizava aí dois binómios ' África Árabe/África Negra e
progressismo/tradicionalismo ' que só parcialmente se sobrepunham na sua
análise, atendendo ao que se lhe afigurava ser a evolução política do referido
mundo. Por um lado, a África Árabe surgia-lhe fortemente impregnada de
tendências progressistas, com as formulações socialistas concomitantes:
factos generalizados na Tunísia, na Argélia e na República Árabe Unida (RAU),
aumentando cada vez mais em Marrocos, sendo que, em relação à Líbia, Monteiro
parecia antecipar o que veio a ser a Revolução de 1969, que colocou Qadhafi no
poder, ao prever convulsões na sequência de uma eventual morte do rei Idriss I,
as quais levariam esse país a alinhar inequivocamente com a RAU10. A África
Negra, por seu turno, apresentava-lhe um perfil diferente, mas em mudança.
Nela, o islamismo ainda tinha um cunho essencialmente tradicionalista, o que,
segundo Amaro Monteiro, se traduzia por uma simbiose entre Islão e
feiticismo. Nisto o autor subscrevia a conceção, cara aos islamólogos
franceses, de um Islão especificamente africano ou negro, cujo traço maior
era a hibridação com as crenças tradicionais africanas, ditas feiticistas ou
animistas (Dias, 2005; Bonate, 2007, pp. 9-12, e 2011, pp. 34-35). Ora, se
este tradicionalismo islâmico se mantinha forte nos países francófonos,
outros evoluíam rapidamente para as coordenadas progressistas, caso do Sudão,
do Quénia e da Tanzânia. Monteiro rematava estas observações com uma
advertência inquietante na óptica do poder colonial: Tudo leva a prever que o
fenómeno não deixará de atingir a Província de Moçambique, com as implicações
concomitantes, se não houver contra-acção adequada e rápida.
Não é fácil determinar com rigor o uso dos conceitos de progressismo e
tradicionalismo nos documentos que estamos a abordar. Atravessam-nos diversas
flutuações semânticas. Assim, se nalguns o progressismo podia designar o
projeto anti-imperialista e anticolonial de Nasser, a par de uma captura
possível do Islão pelo comunismo soviético, noutros podia significar a
tendência reformadora do wahhabismo. Este, ao pugnar pelo retorno a um Islão
original, supostamente corrompido por inovações e desvios das normas
corânicas, representava, se não um progresso em relação ao conservantismo
negro-islâmico das Confrarias (Monteiro, 1993, p. 90), pelo menos uma
heterodoxia face às abordagens do Islão pelas formas predominantes, mas
pervertidas, do sunismo. Tratava-se pois de uma dissidência religiosa que não
teve dificuldade, por exemplo, em se articular com a luta anticolonial na
África ocidental francesa (Amiji, 1984, p. 122). Por outro lado, o
tradicionalismo, conforme vimos atrás, podia também ser atribuído à corrente
wahhabita, empenhada em restaurar a tradição islâmica alegadamente perdida.
Isso não impedia que essa mesma noção surgisse, por sua vez, associada ao
referido conservantismo negro-islâmico das confrarias Sufi, apesar de se
conhecer o conflito violento que as opunha ao wahhabismo. Uma tal oscilação
conceptual refletia, talvez, a imbricação complexa no modo como todas estas
realidades do Islão se perfilavam aos olhos de observadores externos.
Voltando ao relatório que Amaro Monteiro redigiu em 1968, ele expressava também
preocupação com os fenómenos de polarização das hierarquias islâmicas locais,
entendendo-se por polarização um cenário em que os fiéis se agregavam em
redor de líderes influentes ou carismáticos. Considerava tais fenómenos
sintomaticamente ligados a todas as situações de tensão política e social
sendo, onde quer que estas se verifiquem, sempre explorados com sucesso pelas
forças subversivas. Neste ponto, o problema maior prendia-se com as ligações
das chefias muçulmanas locais a centros exteriores. Noutra importante
Informação dos SCCIM, emitida em novembro de 1967, Costa Freire afirmara que o
recrutamento de muçulmanos para atividades subversivas anticoloniais em
Moçambique era, basicamente, efetuado por aqueles a quem se reconhecia uma
dignidade especial devido aos seus conhecimentos em doutrina islâmica.
Localizando na Tanzânia os centros em que os dignitários muçulmanos de
Moçambique tinham recebido os seus ensinamentos, o diretor dos SCCIM concluiu
que os laços formados durante o ensino religioso se prestavam a colocar os
antigos discípulos debaixo da alçada dos seus mestres em todas as questões,
tanto religiosas como políticas. Suspeitava-se, pois, que centros islâmicos
tanzanianos viessem a captar dirigentes muçulmanos em Moçambique para atuarem
contra o poder colonial português.11
Este tipo de inquietudes acompanhou os operacionais da intelligence portuguesa
praticamente até ao colapso da ordem colonial. No relatório que emitiu, em
junho de 1972, após a sua estadia na Guiné para observar o contexto local das
comunidades muçulmanas, Amaro Monteiro constatou que também ali a
modernização e o progressismo poderiam, a breve trecho, desestabilizar os
equilíbrios islâmicos e que, a dar-se, tal ocorreria a partir dos países
vizinhos, ou seja, de pólos externos de comandamento islâmico, aos quais os
dignitários guineenses estavam ligados por laços de subordinação, nomeadamente
para efeitos de consulta em matéria doutrinária. Acreditava-se que a influência
subversiva desses pólos seria tanto maior quanto a sua evolução os conduzisse
a maior drasticidade na pureza islâmica, em detrimento do sunismo popular e do
substrato africano12. No caso específico da Guiné, Monteiro temia que o
processo de abertura ao progressismo fosse catalisado pela eventual queda da
monarquia marroquina, dado o peso de Marrocos no panorama político-religioso da
África do norte e da ocidental, previsão que ele reiterou no já citado parecer
de 1973 sobre a 4.ª sessão da Conferência Islâmica.13 No caso de Moçambique, o
receio português nascia do vazio deixado por dois acontecimentos de relevo: a
morte, em setembro de 1963, do sheikh Said Abdallah Hassan bin Abdul Rahman,
chefe da influente confraria Qadiriyya Sadat, imam na Ilha de Moçambique,
reconhecido também como mufti para todo o território moçambicano14; e a
deposição do sultão de Zanzibar Said Jamschid bin Abdullah, em resultado da
insurreição armada de janeiro de 1964 (a chamada revolução de Zanzibar).
Visto que a influência desta última figura sobre o Islão do norte de
Moçambique tinha sido estrutural, estendendo a sua soberania religiosa até aos
distritos do Niassa, de Cabo Delgado, de Moçambique, e chegando mesmo à região
da Zambézia15, as autoridades coloniais receavam que, na sua ausência, novos
pólos de poder islâmico pudessem emergir, dentro e fora de Moçambique, com uma
atitude hostil à presença portuguesa.
Para obviar a estes problemas e, concomitantemente, para responder às novas
dificuldades entretanto colocadas pelo desencadear da guerra colonial, Amaro
Monteiro desenhou, em meados dos anos 60 e em conjugação com alguns
governadores-gerais e com altos responsáveis do Ministério do Ultramar, um
programa de ação destinado às populações muçulmanas. No território de
Moçambique, o seu objetivo estratégico maior consistiu em isolar o Islão
negro face a influências islâmicas locais de matriz asiática ou árabe. Uma
segregação que visou, como finalidade última, promover um Islão português,
partindo do princípio de que o islamismo de expressão africana, pouco
sofisticado, seria mais permeável à portugalização (Bonate, 2011, p. 37).
Esta estratégia tinha ainda o propósito de cooptar a liderança muçulmana, com
especial incidência nas regiões do norte da colónia, a fim de que as massas
islamizadas fossem não só subtraídas à influência da FRELIMO, mas pudessem
mesmo integrar os esforços de guerra dos portugueses, fortalecendo o seu
músculo militar. Quanto à Guiné, Amaro Monteiro propôs, em 1972, o reforço do
sunismo mais tradicionalista contra as correntes progressistas ou arabistas
e o bloqueamento de eventuais correntes cismáticas que, a desenvolverem-se
perante a neutralidade da Administração, poderiam provocar a exploração
subversiva de ressentimento no meio da massa16 ' uma proposta que chegou
tardiamente e que, de resto, foi recebida com desaprovação pelo general
Spínola, na sua qualidade de governador da Guiné.17
Para além de tudo isto, as autoridades portuguesas ' ou, pelo menos, algumas
figuras mais ousadas no seu seio ' desenvolveram esforços para agir sobre os
fatores islâmicos numa escala transnacional. Ao mesmo tempo que conferiam uma
atenção particular às redes que articulavam comunidades locais com centros
externos de influência, ponderaram ações de intervenção em contextos
internacionais que pudessem representar uma mais-valia para a causa
portuguesa. Como veremos, isto significou uma abertura a diversos países
árabes, feita muitas vezes na discrição dos bastidores da diplomacia.
Exemplo dessas intervenções foi a tentativa de propagandear, junto de um
universo alargado, o impacto das mensagens dos governadores-gerais de
Moçambique dirigidas às populações muçulmanas. Tais mensagens, cuidadosamente
redigidas por Amaro Monteiro, faziam parte do seu plano de atração dos
muçulmanos. Inicialmente pensado em 1965, este teve a sua primeira
concretização pública em 17 de dezembro de 1968, sob a forma de uma mensagem
difundida pelo governador-geral de Moçambique, Baltazar Rebelo de Sousa, aos
microfones do Rádio Clube de Moçambique e dos seus emissores regionais. Quando
o último governador, Pimentel dos Santos, pronunciou, por sua vez, uma mensagem
a 12 de março de 1972, havia uma consciência acrescida de quais deviam ser as
zonas do mundo islâmico a privilegiar para uma exploração internacional desse
discurso. O questionário de 1966 sobre o Islão local, igualmente concebido por
Amaro Monteiro e aplicado de norte a sul de Moçambique, permitira localizar os
principais centros islâmicos fora da colónia, aos quais os dignitários
muçulmanos estavam ligados por vínculos de subordinação doutrinária, de
certificação de títulos ou de aconselhamento em matéria jurídica. Pelo que, em
21 de abril de 1972, o governador-geral emitiu um despacho onde se identificava
o Paquistão, a Arábia Saudita e as Ilhas Comores como centros islâmicos de
relevância para os líderes muçulmanos de Moçambique.18 Atendendo ao clima
internacional relativo às nossas Províncias Ultramarinas, ao facto de as
autoridades portuguesas não estarem seguras de que a consulta dos referidos
centros, feita por muçulmanos locais, se destinava apenas a assuntos
doutrinais, e ao objetivo propagandístico de exibir uma pluralidade
confessional no espaço português, o governador achou recomendável que a sua
mensagem fosse disseminada nalguns territórios estrangeiros: antes de mais,
transmitindo o seu conteúdo aos governos das três regiões acima referidas, e,
em seguida, alargando a difusão aos governos de Marrocos, Omã e Dubai. Os
argumentos usados para justificar esta extensão revelavam um conhecimento das
conexões subtis entre as comunidades muçulmanas das duas colónias portuguesas
islamizadas e o universo islâmico mais vasto. Direta ou indiretamente, as
conceções de Amaro Monteiro devem ter influenciado esta recomendação. Assim, a
aproximação a Marrocos foi defendida na medida em que esse país perfilhava a
escola de direito islâmico maliquita, em sintonia com os muçulmanos da Guiné,
cujas ligações àquele país se davam, indiretamente, através do relacionamento
com líderes islâmicos do Senegal. Por sua vez, a aproximação a Omã e ao Dubai
obteve a sua justificação da presença, nessas regiões, de milhares de
refugiados zanzibaritas que haviam fugido após o derrube do sultanato em 1964,
sendo Zanzibar, conforme referimos, um pólo tutelar para os muçulmanos do norte
de Moçambique. No seguimento desta recomendação, acatada pelas instâncias
decisórias do Ministério do Ultramar, a tradução da mensagem do governador-
geral foi enviada, em junho de 1972, às embaixadas e consulados portugueses nas
seguintes cidades: Beirute, Rabat, Teerão, Ancara, Islamabad, Cairo, Tunes,
Colombo e Jacarta.19
Não sendo este o lugar para avaliar em pormenor a política islâmica planeada
por Amaro Monteiro para Moçambique, assunto que tratámos noutro artigo
(Machaqueiro, 2012b), é possível, ainda assim, adiantar que nem sempre as suas
indicações e sugestões receberam tradução prática pelo aparelho de poder e
algumas perderam-se nos interstícios das insuficiências e contradições
internas que atravessavam este último. Como veremos, em outubro de 1969, João
Pereira Bastos, representante de Portugal no Cairo, parecia desconhecer por
completo as iniciativas do Governo-Geral de Moçambique dirigidas à população
muçulmana, apesar da publicidade que lhes tinha sido dada, o que indicia a
existência provável de bloqueios na comunicação entre o Ministério do Ultramar
e o Ministério dos Negócios Estrangeiros. Só podemos especular sobre a natureza
dos mesmos, mas algo terão que ver com as observações negativas sobre a
administração portuguesa que Amaro Monteiro registou na sua longa entrevista
recentemente publicada (Vakil, Monteiro e Machaqueiro, 2011, pp. 114-115, 241-
242) e que, em parte, explicam a distância entre o que foi idealizado nos
documentos oficiais, e o que foi efetivamente atingido na perspetiva do poder
colonial.
JOGOS DE SOMBRAS: A CARTADA EGÍPCIA NUMA DIPLOMACIA DE BASTIDORES
Na lógica das conceções geopolíticas que citámos atrás, e com a guerra colonial
a avolumar-se no horizonte, a diplomacia portuguesa começou a ensaiar uma
curiosa aproximação aos países árabes na transição dos anos 60 para década de
70. Na verdade, ela remontava aos anos 50, o que pode parecer surpreendente se
nos lembrarmos da desconfiança e dos receios relativos ao Islão que, nesse
período, dominaram o imaginário da administração portuguesa. Não obstante esses
sentimentos, o facto é que a real politik do Estado português não regateou a
construção de alianças com países muçulmanos que lhe pudessem providenciar
apoios, nomeadamente no diferendo que o opunha à União Indiana (Franco, 2006,
p. 64).
Aí o Egito podia ser um suporte de peso, dada a sua centralidade simbólica e
política no continente africano. À época em que o rei Faruk se encontrava ainda
no poder, as potências ocidentais consideravam-no um aliado da ordem colonial.
Para a diplomacia portuguesa, em particular, o rei contribuiu para fazer
cessar a campanha jornalística contra as soberanias europeias em África, e,
graças a isso, os jornais árabes fazem agora elogio da política colonial
portuguesa. Tal levou o representante de Portugal no Cairo, António de Sèves,
a sugerir a concessão, no prazo mais breve possível, de uma condecoração
portuguesa para o rei.20 Entretanto, com o derrube de Faruk pelo movimento dos
oficiais liderado por Nasser, em 1952, a inclinação pró-ocidental do poder
egípcio foi posta em causa.
No dia 16 de agosto de 1952, Oliveira Salazar enviou um telegrama à Legação de
Portugal no Cairo, pedindo um relatório sobre a situação política entretanto
criada no Egito.21 É um documento interessante pelo que revela da visão que
Salazar tinha do mundo árabe. Em primeiro lugar, achava impossível uma
república em país árabe, o que lhe suscitava a hipótese de o Egito se
encaminhar, em alternativa, para uma ditadura militar. Em seguida, ponderava as
vantagens políticas que a Rússia poderia retirar da evolução política do Egito,
na medida em que esta lhe permitiria jogar a carta do nacionalismo contra
potenciais imperialistas ocidentais ou simplesmente ocupantes territoriais
alheios, isto apesar de, no momento, o silêncio soviético aparentar um
desinteresse significativo. Por fim, interrogava-se sobre ligações ou
afinidades do movimento egípcio com outros do norte de África e se estes são
simplesmente denunciadores de aspirações à libertação do domínio económico ou
político ou [se são] radicalmente anti-europeus no sentido de asiáticos ou
anti-ocidentais. Na cabeça de Salazar, as clivagens geopolíticas eram claras e
tinham uma cesura identitária.
O tom, nos meses e anos seguintes, foi assim de uma crescente desconfiança que
espelhava os arraigados medos em relação às intenções do mundo islâmico, à
ameaça que colocava ao Ocidente, com o Egito à cabeça: A política externa do
Egito continua a utilizar os Estados árabes, aproveitando e seguindo
sentimentos muçulmanos nas questões da minoria dos muçulmanos na Palestina, do
Norte de África e da África inglesa22. Estavam na ordem do dia os receios de
uma reativação do espírito muçulmano e da possível convergência de comunistas
e de muçulmanos em torno da ditadura que se estava a preparar no Egito23 ' não
obstante o facto de o novo regime se caracterizar, precisamente, pela
marginalização e pela exclusão graduais tanto de comunistas como de radicais
islâmicos (a Irmandade Muçulmana), depois de os ter utilizado para se
consolidar. As suspeitas relativas aos usos do Islão estendiam-se a outros
quadrantes geográficos. Em janeiro de 1954, um telegrama de António de Sèves
mobilizava as referências ao Islão. Desta feita o foco não era o Egito mas a
União Indiana, à volta da qual o autor tecia uma teoria da conspiração em
matéria de política internacional, a propósito do apoio que esse país tinha
manifestado à criação de um Estado independente no Sudão. Assim, em
convergência com os comunistas, esse novo Estado seria um ponto de partida de
irradiação de sentimentos de independência dos povos da África Central,
explorando o espírito islâmico, convergindo com o esforço dos comunistas e
parecendo continuar a querer realizar o apoio da África muçulmana às ambições
hindus24.
Estas apreensões foram crescendo com o tempo. A 2 de março de 1954, Salazar
recebeu o embaixador do Egito e, no relato confidencial que dirigiu ao ministro
dos Negócios Estrangeiros, comunicou a muito má impressão que a conversa
deixou nele.25 Os árabes não só se mostravam irredutíveis a respeito de Israel
e predispostos para a guerra, como também se afirmavam defensores da
insurreição dos povos do Norte de África contra a França, criticando a ação
desta em Marrocos e na Argélia, e pugnando em termos veementes pela
independência dessas regiões. Ligando todos estes pontos, o ditador português
pressentiu, nas palavras do embaixador, a emergência de um bloco ou comunidade
islâmica, desde o Médio Oriente por todo o mediterrâneo sul até ao Atlântico,
comunidade_de_que_o_Egipto_pretende_ser_o_Estado_hegemónico. Curiosamente,
Salazar não estava preocupado com uma eventual ligação entre o Islão e o
comunismo soviético, tema recorrentemente focado nos relatórios dos serviços de
informação e da polícia política em finais da década de 50. O presidente do
Conselho afastou essa hipótese com a convicção de que o Egipto e os outros
Estados árabes não_pretendem lançar-se nos braços de Moscovo mas exploram a
fundo o medo que o Ocidente tem dessa possibilidade. O que parecia essencial
a Salazar era a formação_de_uma_consciência_islâmica_viva, interessada em
fazer recuar o Ocidente e em dar origem a uma unidade territorial ampla,
coesa e transnacional. Era um pan-islamismo reinventado que o inquietava. Esta
sua nota para o ministro dos Negócios Estrangeiros encerrava com uma
interrogação ansiosa: Será suficiente a política de fazer esses novos Estados
amigos do Ocidente?
Após o breve regresso do presidente egípcio Naguib ao poder, derrubado que fora
em 25 de fevereiro de 1954 na sequência das suas divergências com Nasser,
também António de Sèves retornou à ideia, anteriormente insinuada pelo próprio
Salazar, de uma incompatibilidade do espírito islâmico com a construção de
nações, ou seja, a tese da natureza desnacionalizadora do Islão: sem
fundamento nacional, apenas com sentimento de solidariedade religiosa e de
tribo, é muito mais destruidor que construtor politicamente. Sendo assim, o
melhor seria, no entender do diplomata português, considerar os Estados árabes
simples realizações geográficas, estratégicas e económicas para o efeito da
defesa do Próximo Oriente26, mas não nações no sentido de entidades político-
identitárias dotadas de autonomia.
No entanto, os anos iniciais do poder de Nasser acabaram por se revelar
gratificantes para Portugal. Ao longo de 1954, a Legação portuguesa conduziu
uma batalha bem sucedida no sentido de manter o governo egípcio e os outros
Estados árabes fora do alcance da propaganda da União Indiana contra
Portugal: o Egito parecia até inclinado a favorecer Portugal na disputa em
torno de Goa.27 Apesar das duas correntes divergentes no seio dos militares que
tinham tomado o poder no Estado egípcio ' uma mais identificada com o Ocidente,
a outra mais próxima de uma perspetiva asiática28 ', os portugueses tinham
conseguido, até esse momento, o suporte do lado pró-ocidental. Além disso, a
imprensa no Cairo não exibia qualquer hostilidade em relação a Portugal, pese
embora as diligências feitas pela Embaixada indiana para inverter essa
disposição.29 Nenhum impedimento era colocado pelas autoridades egípcias aos
navios portugueses que usavam o Canal do Suez para transportar tropas e
equipamento militar destinados a Goa. E tudo isto acontecia apesar de o Egito
ter vindo, desde há algum tempo, a declarar as suas inclinações
anticoloniais.30
Em vésperas da Conferência Asiático-Africana de Bandung, em 1955, a diplomacia
portuguesa esforçou-se por persuadir os delegados de países como o Egito, a
Etiópia e o Líbano de se absterem perante uma resolução de autoria indiana que
questionasse o direito a preservar Goa como território português.31 Os
diplomatas receavam que o Egito fosse tentado a juntar-se ao anti-imperialismo
asiático a fim de compensar as recentes derrotas no braço de ferro que
mantinha com o Iraque e o Sudão.32 Isto sugere que alguma diplomacia ocidental,
ou pelo menos portuguesa, ainda pensava que uma política anti-imperialista da
parte do Egito não seria sincera, mas ditada apenas por oportunismos
conjunturais. O facto é que, na Conferência de Bandung e de acordo com as
palavras do ministro egípcio dos Negócios Estrangeiros perante o encarregado de
negócios português, o Egito não se deixara conduzir pela Índia e, condenando
todos os colonialismos, condenara apenas no quadro dos princípios da ONU as
dominações impostas pela força como nos casos da Hungria e de Marrocos33. Tal
como o secretário-geral da Liga Árabe fez questão de frisar ao representante
diplomático de Portugal no Cairo, o mesmo se poderia dizer de todos os
delegados muçulmanos, os quais nunca falaram de Goa, não obstante terem
expressamente bases inglesas no Mar Vermelho e o Primeiro Ministro indiano ter
referido Goa muito propositadamente34.
Dois anos depois, a boa vontade egípcia para com Portugal parecia intacta. Em
1957, o ministro egípcio dos Negócios Estrangeiros garantiu de novo ao
representante da Legação portuguesa no Cairo que o Egipto não poria qualquer
obstáculo ou faria qualquer reparo à passagem de barcos transportando tropas
portuguesas com destino a Goa, pois estava certo de que o Governo português não
nutria desejos imperialistas35 ' afirmação singular, em contraste com o que
viriam a ser, mais tarde, as posições públicas tomadas na Assembleia Geral da
ONU. Ainda em 1957, o referido representante da Legação portuguesa no Cairo,
José Weinholtz Brandeiro, encontrou-se no Líbano com o respetivo ministro dos
Negócios Estrangeiros e transmitiu-lhe como éramos contrários ao comunismo e
como sempre havíamos feito uma política de simpatia para com os povos árabes
sem pretendermos ir além de uma colaboração isenta de interesses
preconcebidos36. Era a síntese de toda uma estratégia política.
Este bom entendimento e as suas afinidades eletivas adquiriram contornos que,
hoje, podem parecer surpreendentes. Em março de 1957, ao ser anunciada a
criação da União Nacional Egípcia e a eleição de uma Assembleia Nacional, os
meios políticos e certos jornais do Cairo puseram em relevo que o novo regime,
sob a batuta de Nasser, só tem semelhante em Portugal e que a estabilidade,
como a continuidade governativa portuguesa, são exemplos para o mundo
inteiro37. Uma tal aproximação com a génese do Estado Novo nasceu não de uma
insinuação propagandística da diplomacia portuguesa, mas dos próprios egípcios,
como José Brandeiro sublinhou: nalguns jornais faz-se a história da revolução
do 28 de maio que afastou os partidos políticos, impôs a ordem e restabeleceu a
tranquilidade em Portugal. Frisam que o Senhor Dr. Oliveira Salazar conseguiu
fazer com a União Nacional a ligação das boas vontades vindas de vários setores
ideológicos, dentro dum pensamento construtivo que criou uma organização civil
capaz de servir de apoio a uma situação cuja obra serve de garantia para o
sucesso do empreendimento semelhante que Nasser se propõe realizar. Um dos
jornais egípcios publicado em língua francesa, La bourseégyptienne, levou a
onda de salazarismo local38 ao ponto de transcrever passagens de discursos e
afirmações de Salazar.
Seria de esperar que o progressismo, posteriormente atribuído ao Egito nas
análises da geopolítica islâmica, esfriasse, como de facto esfriou, tais
entusiasmos salazaristas. Ao mesmo tempo que Nasser começou a empenhar-se no
papel de herói anti-imperialista, tornava-se cada vez mais claro que o Estado
português não estava disposto a abdicar das suas colónias africanas. Esta
discrepância veio a resultar no corte de relações diplomáticas decidido pelo
governo da RAU, em junho de 1963, que marcou o ponto mais baixo no
relacionamento entre Portugal e o Egito.39 Pouco tempo depois, a polícia
egípcia encetou um assédio aos portugueses residentes na RAU, entre os quais
religiosas que trabalhavam num hospital e num colégio de Port Said, tendo uma
delas sido informada por um agente policial de que o governo se preparava para
proceder à expulsão de todos os cidadãos portugueses.40 Em 1964, foi a vez de
os comerciantes egípcios serem proibidos de negociar diretamente com
portugueses, uma decisão que obrigou os exportadores locais de algodão a usar
firmas suíças e inglesas a fim de despacharem as derradeiras exportações para
Portugal.41
Acontece, porém, que o texto manifesto do relacionamento de Portugal com os
países árabes, exposto no palco da ONU, não coincidia necessariamente com o
texto latente. Basta dizer que o próprio presidente egípcio nunca interditou a
circulação de navios portugueses no Canal do Suez (Abadi, 2004, p. 92). Ao fim
de alguns anos, sobretudo após o declínio político de Nasser, foi possível um
clima relacional menos tenso entre Portugal e os Estados árabes, apesar de a
década de 60 ter testemunhado a radicalização das críticas à política colonial
portuguesa por parte dos governos do Norte de África e do Médio Oriente,
acompanhadas por sucessivas ruturas nas relações diplomáticas (Abadi, 2004, p.
93). No entanto, dado que certas clivagens políticas se tornavam mais diluídas
na atmosfera complexa da Guerra Fria, alguns diplomatas suspeitavam que a
animosidade árabe contra Portugal podia ser mais encenada do que real. E
estavam dispostos a explorar essa nuance.
Se nos reportarmos ao período de 70, são bastante esclarecedoras as
movimentações desenvolvidas por João Pereira Bastos que, em 21 de julho de
1969, assumira a gerência da Missão diplomática de Portugal no Cairo.42 Por
essa altura, e até ao desfecho da ditadura e da guerra colonial, Portugal e o
Egito ' ou a República Árabe Unida, como então era designado ' estavam
oficialmente de relações cortadas, embora ambos mantivessem representações com
encarregados de negócios em cada um dos respetivos países. Portugal tinha então
os seus interesses sob acolhimento da Embaixada de Espanha no Cairo. A
reaproximação diplomática, ainda que oficiosa, entre Portugal e o Egito,
partiu, curiosamente, do próprio governo egípcio e foi transmitida a Pereira
Bastos pelo encarregado de interesses da RAU em Lisboa, Nosrat Naim. No verão
de 1969, este sugeriu-lhe haver vantagem em que o representante diplomático
português visitasse o diretor dos Negócios Políticos do Ministério dos Negócios
Estrangeiros da RAU, sugestão que, segundo Naim, veio desse mesmo organismo43.
O encontro decorreu em meados de outubro, com Abdel Menem El Nagar, que exercia
o referido cargo.
Nesse encontro, Pereira Bastos quis mostrar ao seu interlocutor todos os
alegados esforços que o Estado português estava a dispender na promoção e na
difusão da cultura árabe e islâmica, tanto na metrópole como nas colónias.44 E
aproveitou a ocasião para oferecer ao diplomata egípcio, à laia de exemplo
dessa difusão, um número de O Islão, órgão da Comunidade Islâmica de Lisboa
(CIL) cujo envio o diplomata português solicitara ao Ministério dos Negócios
Estrangeiros, com o argumento de essa publicação ser do maior interesse para
certas aproximações a tentar aqui junto de determinadas entidades45 ' gesto
que não deixa de ser muito curioso, se tivermos em conta as tensões existentes
no relacionamento entre a CIL e as autoridades portuguesas, que já analisámos
noutro lugar (Machaqueiro, 2011b). Pereira Bastos informou o embaixador egípcio
sobre a política islâmica conduzida pelos portugueses nas colónias de
Moçambique e da Guiné, salientando que árabes negros da Guiné portuguesa lutam
contra a agressão vinda de países vizinhos com armas fornecidas pelo governo
português. Mencionou ainda a existência de dezenas de associações islâmicas em
Lisboa, Bissau, Nampula, Vila Pery, Ilha de Moçambique, etc., e referiu que
bispos católicos portugueses [ ] contribuíram para as subscrições destinadas à
construção de novas mesquitas em todo o território nacional. Citou também o
facto de que em Lisboa, a Câmara Municipal cederá o terreno para a construção
de uma mesquita, entre outros detalhes nos quais parece avultar a influência
da CIL e, por conseguinte, do seu presidente Suleiman Valy Mamede. Nem uma
palavra, porém, a respeito da primeira Mensagem aos Maometanos de Moçambique,
atrás mencionada, que Amaro Monteiro concebeu e Baltazar Rebelo de Sousa
proferiu. Este desconhecimento por parte de Pereira Bastos era, no mínimo,
estranho vindo de quem se mostrava tão informado em relação às diligências
feitas para a construção da mesquita de Lisboa e leva-nos a pensar que terão
sido infrutíferas as recomendações de Amaro Monteiro e do próprio Rebelo de
Sousa, feitas, respetivamente, em 28 de dezembro de 1968 e 16 de janeiro do ano
seguinte, no sentido de o Ministério dos Negócios Estrangeiros envidar esforços
para divulgar nos países árabes, mesmo naqueles com os quais Portugal não tinha
relações diplomáticas formais, a tradução da Mensagem do governador-geral de
Moçambique dirigida aos muçulmanos em 17 de dezembro de 1968.46 Estas
recomendações foram, de facto, enviadas ao Ministério dos Negócios
Estrangeiros, a 6 de fevereiro de 1969, pelo Gabinete dos Negócios Políticos do
Ministério do Ultramar47, mas não parece que tenham tido qualquer seguimento.
Um sinal de que os planos delineados pelos atores mais voluntariosos podiam
depois embater em bloqueios inerentes ao aparelho de poder. Seja como for, este
episódio ilustra a continuidade entre as tentativas de aproximação do Estado
português a certos países árabes e a nova política islâmica que estava a ser
seguida nas colónias.
Outro aspeto interessante desta diplomacia empenhada em seduzir o mundo árabe é
a posição persistentemente dúbia do Estado português em relação a Israel. Só em
maio de 1977 o Portugal democrático decidiu reconhecer de jure esse país e com
ele estabelecer relações diplomáticas a nível de embaixada (Franco, 2006, p.
75). Em contrapartida, desde meados da década de 50 que a diplomacia
portuguesa, nos seus contactos com os países árabes, se esforçava por valorizar
o facto de Portugal não ter reconhecido oficialmente o Estado de Israel. No ano
de 1957, durante os encontros que José Brandeiro teve com os máximos dirigentes
do Líbano e, em particular, com o ministro dos Negócios Estrangeiros, o
diplomata aproveitou para frisar que a posição portuguesa de não reconhecimento
de Israel era, no fundo, fiel a uma política de simpatia para com os povos
árabes.48 Sendo assim, no início dos anos 70, os diplomatas portuguesas
puderam insinuar que Portugal e o Egito convergiam pelo menos num ponto: o
ressentimento contra Israel. Nessa época ainda se assistia ao envolvimento de
Telavive em África, encetado alguns anos antes, quando os israelitas tinham
perdido interesse em estreitar relações com Portugal, optando antes por jogar a
carta do apoio aos movimentos nacionalistas africanos, mudança de rumo
interpretada pelas autoridades portuguesas como tentativa de criar uma cintura
negra amiga de Israel que defendesse esse Estado do cerco dos árabes49. Esta
ideia fora explicitada, em 1960, num ofício do Ministério dos Negócios
Estrangeiros dirigido ao Gabinete dos Negócios Políticos do Ministério do
Ultramar, onde se dizia que o objectivo último da estratégia israelita de
aproximação e até de intervenção na política interna dos novos Estados
africanos consistiria em se opor à penetração árabe na África Central, e em
ordem a atingi-la procuraria alcançar o máximo prestígio juntos dos chefes
políticos indígenas, arvorando-se em defensor de todas as reivindicações
nacionalistas50. Interpretação que hoje só podemos considerar certeira à luz
do que sabemos sobre a chamada aliança da periferia, uma estratégia de
política externa concebida nos anos 50 pelos dirigentes da Mossad e que visava,
justamente, impedir a expansão pan-arabista de Nasser mediante o
estabelecimento de relações cordiais e de cooperação com as novas nações
africanas (Polakow-Suransky, 2011, pp. 27-29).
Uma vez mais, a atuação de Pereira Bastos, tanto nas suas relações com o poder
egípcio como nas que manteve, paralelamente, com os líbios, exemplifica bem a
posição portuguesa suscitada pela reorientação da política israelita e a
tentativa de capitalizar essa posição junto de alguns países árabes. O
diplomata pediu para ser recebido pelo diretor-geral dos Negócios Políticos da
RAU apenas depois de recolher dados sobre o apoio israelita aos movimentos
subversivos. Durante esse encontro, em outubro de 1969, o embaixador português
ofereceu diversos detalhes sobre o apoio fornecido por Israel aos terroristas
que atuam nas três frentes de subversão contra a soberania portuguesa,
argumento que veio a usar, insistentemente, nos contactos subsequentes com
representantes daqueles países. A esta linha de argumentação, El Nagar
respondeu, como depois dele outros diplomatas árabes confrontados por Pereira
Bastos,51 com a tese de que, dada a posição da RAU na cena internacional em
consequência do conflito israelo-árabe, era-lhe absolutamente necessário
assegurar o apoio dos países africanos, o que passava por condenar publicamente
a política colonial portuguesa e por cortar relações diplomáticas com
Portugal.52 Pouco depois, já em 1970, numa reunião com Omar Hefny, outro
diretor-geral dos Negócios Políticos do Ministério egípcio dos Negócios
Estrangeiros, o embaixador português denunciou o apoio israelita aos movimentos
anticoloniais nas possessões portuguesas em África, destacando o caso de Holden
Roberto, que havia visitado recentemente o Cairo e que Pereira Bastos apontou
como um recetor privilegiado, e sem escrúpulos, do auxílio de Israel.53 O
embaixador concluía este ponto com a seguinte nota: Seria por exemplo irónico
se se viesse a descobrir ter sido à custa de ajudas de países árabes que foram
sendo pagas as viagens de elementos da UPA, do MPLA e da FRELIMO para campos de
Israel onde recebem treino de terrorismo. O objetivo aqui era sempre o mesmo:
levar os interlocutores egípcios a perceber que não tinham interesse
estratégico em dar apoio a forças políticas que, em África, estavam a ser
sustentadas pelo arqui-inimigo dos árabes.
Até 1973, continuou a haver, da parte desta diplomacia de bastidores, esforços
tendentes a extrair vantagens, no relacionamento com os países árabes, da
ambiguidade que caracterizava a postura portuguesa face a Israel e ao conflito
israelo-árabe. Interessante é o facto de a argumentação portuguesa ter sempre o
fundo colonial como referência. Assim, por exemplo, Pereira Bastos felicitou o
Governo egípcio pela justíssima reprovação contida no comunicado oficial da
forma como Israel instigara durante anos a revolta no Sudão, mas, ao mesmo
tempo, lembrava que, de parceria com alguns países árabes, Israel continua a
ajudar igualmente a subversão contra a África portuguesa54. Mais tarde, mesmo
depois de países como a Síria, o Iraque e o Egito terem reconhecido a
proclamação da independência da Guiné-Bissau pelo PAIGC, o Ministério dos
Negócios Estrangeiros português continuou a reiterar a posição de neutralidade
de Portugal quanto ao conflito no Médio Oriente, esperando retirar daí
vantagens argumentativas no relacionamento com os árabes55 ' e procurando
também minorar a indignação destes últimos em relação à cedência da base das
Lages para os aviões norte-americanos que tinham transportado material militar
destinado a Israel durante a guerra do Yom Kippur.
Nesta altura, estava-se ainda em vésperas da rutura que, um a um, os países da
África subsaariana encetaram com o Estado de Israel como resposta ao
aprofundamento do conflito no Médio Oriente, levando a uma aproximação daqueles
com os países árabes, rutura e aproximação que só começaram a acentuar-se em
finais de 1972 e que se generalizaram após a guerra do Yom Kippur em 1973
(Polakow-Suransky, 2011, p. 6). Em fevereiro do ano seguinte, semelhante
evolução motivou um veredicto altamente negativo da parte do então diretor dos
SCCIM:
Esta apregoada vitória da diplomacia árabe, conseguida com algum
dinheiro (líbio e também saudita), com algumas pressões e com o apelo
a uma solidariedade que não tinha razão de existir, não resulta em
crédito para a África Negra. Esta provou não saber sobrepor os seus
reais interesses (que eram melhor servidos com a cooperação
israelita), à pressão psicológica de uma demagogia baseada em
sentimentos racistas. Os Estados africanos mostraram também a sua
pouco independência, ao seguir cegamente a orientação dos árabes e
submetendo-se aos seus caprichos, abrindo caminho a novas exigências
que lhes serão feitas na sequência desta primeira cedência.56
É de realçar como este tipo de juízo era, de certo modo, simétrico do argumento
com que a diplomacia portuguesa tentara persuadir os seus interlocutores
egípcios e líbios a abandonarem o apoio aos países africanos e a aproximarem-se
da posição portuguesa. Um argumento segundo o qual não havia razão para que
países árabes do norte de África considerassem ter de manter solidariedade com
países da África negra a que nada os ligava, nem histórica, nem culturalmente,
países esses que, para mais, mantinham relações de grande intimidade e
aproveitavam a ajuda de Israel, com o consequente apoio às posições daquele
país contrárias aos interesses árabes57. Na reta final do Estado Novo e do seu
projeto colonial, tudo apontava, porém, para a incongruência deste argumento.
PEQUENO EPÍLOGO PÓS-COLONIAL
Suleiman Valy Mamede, fundador da Comunidade Islâmica de Lisboa (CIL) e seu
primeiro presidente, confrontado com o processo revolucionário de 1974-1975 e
com a inevitabilidade da independência das colónias, sentiu, nessa altura, a
urgência de reescrever o seu passado de colaborador próximo do regime, bem como
o da Associação a que presidia (Machaqueiro, 2011b, pp. 225-226). Vale a pena
citar longamente um excerto de um texto que, por essa ocasião, publicou no
órgão oficial da CIL:
Portugal, durante o regime fascista, era indiscutivelmente o aliado
espiritual do Sionismo, embora paradoxalmente não tivesse reconhecido
o Estado de Israel.
O regime fascista servia o imperialismo por meio do Sionismo, não só
através dos órgãos de informação, que orquestravam em uníssono as
lições que recebiam, como também através de concessões que eram
feitas da própria soberania nacional. Pois, como é do conhecimento
geral, no último conflito israelo-árabe (conhecido por guerra de
Kipur) de outubro de 1973, os antigos governantes portugueses
colocaram deliberadamente a base das Lajes, nos Açores, à disposição
da aviação norte-americana, que, na altura, organizara uma autêntica
ponte aérea para Israel, país considerado como ponta de lança do
imperialismo no Médio Oriente. Esta atitude de franca hostilidade do
governo português fez com que Portugal fosse colocado na lista dos
países que deveriam sofrer o embargo petrolífero decretado pelos
árabes.
Os países árabes eram, por outro lado, considerados inimigos
acérrimos do governo português, uma vez que apoiavam abertamente a
luta de libertação das colónias portuguesas e acolhiam nos seus
países os movimentos nacionalistas. [ ]
À solidariedade afro-árabe respondiam os governantes fascistas
portugueses com a solidariedade luso-sionista [Mamede, 1975, pp. 6-
7].
Ao longo do nosso artigo, procurámos mostrar que a atuação político-diplomática
do Estado colonial português foi, na verdade, bem mais complexa do que Valy
Mamede quis dar a entender em 1975 ' tendo ele próprio sido, aliás,
protagonista dessa mesma complexidade. Sucede que, para os anos imediatamente
anteriores ao desfecho das guerras de África, e mesmo antes, os bastidores da
diplomacia contam uma história subtilmente distinta da que foi visível na
Assembleia das Nações Unidas, onde os países árabes se juntaram às novas nações
africanas na denúncia do colonialismo português. É um facto que o completo
desajustamento da ordem colonial, dentro da evolução do sistema-mundo, levou a
que os casos, aqui abordados, de aproximação ao universo islâmico, dentro e
fora das colónias, tenham resultado quase sempre em fracassos ou em desenlaces
aquém das expectativas dos que investiram em tais iniciativas. Como também é
verdade que, do lado português, as hesitações, as ambivalências e as inércias
tolheram, muitas vezes, um aparelho de poder burocratizado, pouco sensível a
ações que extravasassem demasiado para além das rotinas. Os exemplos referidos
não deixam, mesmo assim, de mostrar como alguns atores estiveram dispostos a
atuar num quadro mais amplo e ambicioso. A sua história é a narrativa dos
vários matizes de que foi feita a política colonial portuguesa de enquadramento
do Islão e das populações muçulmanas, matizes também presentes na articulação
dessa política com a diplomacia destinada aos países árabes. Uma narrativa que
só agora começamos a conhecer em todas as suas ramificações.