Investigando a rua através da internet (e vice-versa): considerações teórico-
metodológicas sobre um itinerário etnográfico
nbsp;
José diz: Antes de mais como é que correram os concertos do outro dia?
MC diz: Epa eu levei um amigo meu q se chama Perigo Publico i q improvisa muito
bem e da nossa parte o concerto correu mesmo bem so q houve la pessoal q nao
gostou de algumas cenas q ele disse no freestyle i vieram nos ameaçar com armas
e tivemos de bazar da festa mais cedo.
José diz: mas costuma haver confusão normalmente?
MC diz: é q o pessoal de faro acho q nao gosta muito do pessoal aki de
quarteira.
MC diz: mas confusao so verbal.
[Entrevista online, realizada através do MSN Messenger]
INTRODUÇÃO
Do breve excerto que transcrevo em epígrafe (e das circunstâncias que envolvem
a sua obtenção) podemos retirar pelo menos duas consequências acerca do uso de
metodologias qualitativas no estudo de um fenómeno cultural específico. A
primeira, e porventura mais óbvia, realça o facto de ser possível obter
informação acerca da realidade fora da internet através de uma recolha
realizada (também) online. A segunda, e pela anterior razão, evidencia a forma
como a internet pode ser considerada não só como objeto de estudo, mas
igualmente como instrumento de recolha de informação. Às anteriores implicações
podemos acrescentar, e de forma mais ampla, o facto de a internet constituir um
recurso que pode ser utilizado por vários participantes num determinado
universo cultural para trocarem impressões acerca dos interesses e experiências
que partilham e para organizarem as distintas atividades a que se dedicam.
Estas e outras questões serão examinadas ao longo deste artigo que tem como
propósito explorar a utilização de metodologias de investigação de natureza
qualitativa e, mais especificamente, abordagens de tipo etnográfico (Hammersley
e Atkinson, 2000), incluindo diferentes estratégias de observação que tomam a
internet não só como artefacto cultural mas igualmente como cultura (Hine,
2000, pp. 14 e segs.).
A particularidade da discussão que iremos empreender reside, deste modo, no
facto de as metodologias em questão terem sido aplicadas não só ao terreno
habitual das ciências sociais, que contempla territórios físicos claramente
delimitados no espaço e no tempo, mas igualmente a um terreno virtual, cujos
contornos são relativamente imprecisos e insondados. Ainda que vários dos
princípios epistemológicos e das orientações metodológicas que podemos
implementar num estudo online reproduzam aqueles que conhecemos e aplicamos
offline, a verdade é que as particularidades do terreno virtual colocam
desafios próprios que devem ser encarados de forma específica (Hine, 2000; Baym
e Markham, 2009; Miller e Slater, 2004; Sade-Beck, 2004).
Neste sentido, apesar de a discussão que iremos desenvolver se poder aplicar a
múltiplos objetos de estudo que tomam como referência a internet, a presente
abordagem irá incidir essencialmente sobre o esforço desenvolvido para definir
uma estratégia etnográfica integrada offline e online, ajustando-a a um caso
específico. Assim, num primeiro momento, apresentaremos alguns problemas
teóricos e metodológicos fundamentais subjacentes a abordagens que tomam a
internet como objeto de estudo e utensílio de observação para, num segundo
momento, apresentarmos a estratégia metodológica adotada numa pesquisa
particular. As opções seguidas no caso que iremos desenvolver, a chamada
cultura hip-hop, não pretendem ser um modelo a seguir, mas antes uma proposta
de aplicação dos princípios aqui discutidos a um objeto empírico particular
que, não obstante, apresenta afinidades com outros idênticos.
A (IN)TANGIBILIDADE DO TERRENO VIRTUAL: PROBLEMAS TEÓRICO-METODOLÓGICOS DA
INVESTIGAÇÃO ONLINE
Uma das principais dificuldades de qualquer trabalho de investigação que tome a
internet como objeto de estudo prende-se com a definição dos próprios contornos
do tema que nos propomos tratar online. O que se pode dever à singularidade do
mesmo, mas igualmente à impossibilidade de o delimitar de forma clara e
inequívoca. De facto, as fronteiras de um universo cultural fora da internet e
a sua correspondência na internet podem não ser inteiramente claras nem
completamente coincidentes. Na verdade, no trabalho de terreno tradicional
(i.e. com um referente territorial único e localizado) habituámo-nos à ideia de
que as fronteiras de um objeto de estudo podem ser facilmente delimitadas do
ponto de vista espacial. Mesmo quando consideramos objetos que não se encontram
circunscritos necessariamente a um determinado contexto geográfico, é sempre
possível delimitar, mesmo que temporariamente, um referente territorial
concreto. Vários objetos contemporâneos, associados à mobilidade e ao fluxo,
inserem-se nesta categoria; porém, apesar de intermitente, a relação com o
espaço mantém-se, mesmo que em movimento. A etnografia multi-situada
(Hannerz, 2003; Marcus, 1995) há algum tempo que procura dar conta desta
possível dispersão dos locais de observação, do mesmo modo que os estudos
contemporâneos centrados na mobilidade se têm debruçado sobre objetos
impermanentes ou cuja definição depende diretamente do movimento ou fluxo
constantes (Carmo e Simões, 2009).
É com esta questão como pano de fundo que nos propomos discutir nas páginas que
se seguem alguns problemas teóricos e metodológicos centrais associados à
abordagem da internet como artefacto tecnológico mas também como prática
cultural. Esta discussão servirá de fundamento para a integração que
pretendemos fazer na última parte deste artigo entre as estratégias
metodológicas que podemos desenvolver online e offline.
PROPRIEDADES DOS CONTEÚDOS ONLINE
Vários atributos dos conteúdos2 online (e a sua própria elaboração) possuem
consequências ao nível do tipo de observação que pode ser levado a cabo na
internet e, como tal, deverão começar por ser equacionados. Tendo em conta que
qualquer conteúdo online é gerado por alguém, num contexto particular e com
recurso a dispositivos tecnológicos específicos, não podemos separar
inteiramente o que são as características dos conteúdos enquanto produto
(acessível e visível através de determinadas interfaces) da componente técnica
e das formas de organização que envolvem a sua utilização e criação (Lievrouw,
2011, pp. 7-8). As características que pretendemos aqui discutir refletem esta
singularidade, na medida em que tanto decorrem dos artefactos (dispositivos e
software) utilizados, como das práticas inerentes à sua própria utilização,
mediante os quais se chega a um produto determinado. Propomo-nos discutir
brevemente cinco desses atributos: a fluidez característica dos conteúdos; a
convergência dos mesmos; a dificuldade inerente à distinção produtores-
consumidores; a multiplicidade da presença online; e a incorporeidade3 dos seus
participantes.
Um primeiro atributo diz respeito ao caráter fluido e, de certa forma,
impermanente dos conteúdos existentes online. Com efeito, tomando as
características técnicas e formais da internet e a sua própria lógica de
construção e utilização como princípios, somos confrontados com o principal
obstáculo a qualquer delimitação temática absoluta: o fluxo constante de
informação. A ideia de fluxo aplica-se tanto às características formais do
conteúdo como às práticas e modos de utilização do mesmo. Deste modo, o
conteúdo apresenta-se tanto como resultado de fluxos assim como estes
constituem a característica básica da experiência de produção e consumo na
internet. Por associação, seguindo uma conexão e depois outra, um conteúdo pode
trazer-nos de volta ao ponto de partida, sem que esse tenha sido o nosso
objetivo original. Do mesmo modo, podemos ser conduzidos a destinos bem
diferentes dos que desejávamos alcançar quando iniciámos um circuito a partir
de determinado ponto de partida. Isto para dizer que, do ponto de vista da
experiência de utilização (e diríamos, também de produção) determinado conteúdo
online dificilmente se confina em si mesmo, admitindo fluxos de informação de e
para fora de si, tanto como ponto de referência para outros conteúdos na mesma
cadeia (aleatória ou intencionalmente formada por associação), como (e por essa
razão) enquanto texto aberto à participação (e interpretação) de quem os
procura (ou a estes chega aleatoriamente). Assim, qualquer texto online é
sempre um hipertexto, formado por múltiplas ligações que nos remetem para
diferentes circuitos não lineares tanto a nível interno como externo. Nesta
perspetiva, a rede forma-se tematicamente a partir da interconexão entre
conteúdos postos em contacto uns com os outros. O facto de um tema reenviar
para outro que lhe esteja próximo ou, pelo contrário, para outro que lhe esteja
distante, permite considerar uma margem de incerteza e indefinição responsável
pela abertura e pelo caráter inacabado de qualquer conteúdo online, o que é
reforçado, de um modo geral, pela possibilidade de qualquer pessoa poder
intervir de alguma forma na produção do próprio conteúdo. Tal facto não impede
que seja possível, em muitos casos, circunscrever tematicamente as várias
modalidades de comunicação e encontrar um princípio de organização comum em
torno de um ou vários assuntos próximos. Foi justamente isso o que fizemos ao
delimitarmos, na pesquisa realizada, determinados conteúdos em torno de várias
expressões da chamada cultura hip-hop, mesmo que, em certos casos, estes não
fossem exclusivos e remetessem para outros interesses temáticos dos seus
autores ou utilizadores (Simões, 2010, pp. 213 e segs.).
Um segundo atributo dos conteúdos online prende-se com a forma como estes
incorporam características de outros media, num efeito óbvio de convergência
em torno da circulação de diversos conteúdos por diferentes media e suportes
tecnológicos (Jenkins, 2008 [2006]). Esta convergência é assegurada não só
pela forma como os conteúdos de outros media são integrados em diferentes
plataformas online (dos vídeos no YouTube às fotos pessoais no Facebook), mas
igualmente pelo modo como interesses e práticas existentes offline se ramificam
e interligam com práticas existentes online. Tal contribui para a dificuldade
em separar de forma clara as experiências online e offline. Os próprios meios
de comunicação tradicionalmente considerados offline (como, por exemplo, o
telefone) passam a incorporar cada vez mais características que os integram
constantemente online. As ramificações e a influência recíproca de muitas
práticas e interesses que durante longo tempo pareciam distintos, deparam-se
atualmente com dificuldades que, se não são insuperáveis, apresentam-se pelo
menos como um desafio às nossas categorias e classificações (Orgad, 2009).
Todavia, tal convergência não significa que todas as nossas práticas
quotidianas, em todas as circunstâncias, tenham sido absorvidas pelas diversas
tecnologias digitais, nem que os conteúdos desenvolvidos nas mesmas remetam
necessariamente, em todos os casos, para a realidade offline. Neste sentido, a
distinção online/offline continua a revelar-se pertinente, merecendo ser
metodologicamente equacionada (Kozinets, 2010, pp. 58-73; Slater, 2002).
Num sentido mais específico, a convergência de diferentes tipos de ficheiros
num só documento coloca-nos perante duas características essenciais dos
mediadigitais e concretamente dos conteúdos online: a remediaçãoe o
hipermedia. A remediação, tal como propõem Bolter e Grusin (2000)4, refere-se
à integração de um medium(ou vários media) no interior de outro.5 O hipermedia,
por seu lado, embora parta do mesmo princípio de integração e convergência de
diferentes tipos de ficheiros, corresponde ao modo como especificamente, dentro
de um mesmo conteúdo ou documento, é possível relacionar diferentes tipos de
ficheiros, podendo ser visto, por isso, como uma forma específica de
hiperligação. Enquanto código numérico, informação que pode ser reduzida a
unidades elementares apresentadas sob forma de ficheiros informáticos diversos,
os conteúdos onlineapresentam a possibilidade de poderem assumir múltiplas
versões e ser apresentados de diversas formas.6 Na medida em que as
propriedades dos conteúdos possuem implicações a diversos níveis, será
necessário distinguir as que dependem do tipo de ficheirosque incluem das que
podemos atribuir ao modelo de comunicaçãoque fomentam.
Um atributo adicional que afeta a distinção dos conteúdos online prende-se com
a dificuldade em identificar de forma inequívoca os seus autores ou produtores.
A quem correspondem os produtores? A quem cria um blogue ou a quem insere um
comentário no mesmo? Quem gere um fórum de discussão ou quem participa
ativamente no mesmo, criando tópicos de conversa ou respondendo aos tópicos
deixados por outrem? Estes e muitos outros exemplos revelam-nos a ambivalência
contida na identificação dos autores dos conteúdos e na distinção inequívoca
entre consumidores e produtores. De modo a superar estas dificuldades, diversos
autores têm usado termos como consumidores-produtores ou produsers (Bruns,
2008, pp. 23-34; Simões, 2010, pp. 115-119) de modo a sublinhar o caráter
interativo de vários conteúdos online e as potencialidades participativas que
oferecem (v., por exemplo, Lievrouw, 2011, pp. 13-16). Este problema
apresenta-se reforçado se a nossa ambição for identificar sem ambiguidade
produtores online, entendidos enquanto criadores de determinados objetos ou
produtos culturais. Tal acontece porque não só as fronteiras entre produção e
consumo se esbatem de forma irremediável, como também porque nos deparamos, em
muitos casos, com ausência de informação que nos permita situar os autores.
Confrontámo-nos com este preciso problema no estudo sobre o hip-hop de que
daremos conta mais à frente, ao tentarmos classificar os diferentes conteúdos e
identificar os respetivos autores, particularmente ao procurarmos estabelecer
uma ligação inequívoca entre os criadores online e o meio offline (Simões,
2010, pp. 47-56). São duas as razões que se conjugam para explicar este facto.
Por um lado, as características interativas da internet e a facilidade com que
os meios digitais permitem criar e difundir os mais variados produtos. Por
outro lado, as características de certos universos culturais e artísticos (como
é o caso referido da cultura hip-hop),que tanto podem incluir artistas
comerciais como underground, veteranos como iniciados, profissionais
como amadores. A internet apresenta-se como um veículo tanto para uns como
para outros, produzindo uma espécie de nivelamento entre estas várias
expressões.
Um quarto aspeto diz respeito à multiplicidade da presença online, que se
encontra associada tanto à diversidade de interesses a que uma mesma pessoa se
pode dedicar, como também a diferentes expressões desses mesmos interesses.
Seja como for, na prática, podemos cruzar-nos com a mesma pessoa em
diferentes plataformas virtuais sem que, em muitos casos, sequer nos
apercebamos desse facto. Esta propagação pela internet contribui para a própria
dificuldade em contemplar toda a extensão da presença de alguém online; o que é
reforçado pelo facto de uma parte da utilização não deixar qualquer rasto
detetável (como, por exemplo, ler um blogue ou os tópicos de um fórum).
Portanto, a internet representa, por um lado, convergência de interesses,
práticas, atividades, tornando em certos casos difícil destrinçar uma
experiência online de outra que não o seja; por outro lado, implica dispersão
pelos mais variados interesses e conteúdos, dado que nada indica que um mesmo
indivíduo permaneça confinado a uma só experiência de utilização. De certo
modo, e aparentemente de forma paradoxal, é a própria experiência de
convergência que permite a dispersão. É certo que podemos detetar várias pistas
que identificam conexões e circuitos online (seja através de hiperligações
deixadas, por exemplo, em sites ou blogues; seja através de referências
explícitas a outros interesses e atividades). Contudo, a tarefa de relacionar
todos os interesses e atividades a que uma mesma pessoa se dedica poderá
revelar-se complexa, senão mesmo impraticável.
Finalmente, um último atributo refere-se à intangibilidade dos participantes,
resultante da sua própria incorporeidade online. Com efeito, a ausência de
presença física na internet retira os participantes nas modalidades de
comunicação online e o seu discurso do contexto social mais vasto onde habitam
e em que este último é produzido. Como referem Mann e Stewart (2000, p. 197),
a incorporeidade separa a linguagem do investigador e dos participantes do
contexto social que daria significado às suas palavras. Tal significa que
deverá ser o próprio texto a fornecer-nos informação acerca do seu contexto de
produção e respetivos produtores.7 Este facto tem sido apontado como uma fonte
inesgotável de equívocos identitários, com repercussões tanto ao nível das
interações mantidas online como da observação que pode ser realizada acerca dos
seus participantes. Com efeito, a identidade num mundo incorpóreo pode ser
manipulada de acordo com interesses variados, em função da apresentação que
cada indivíduo pretenda fazer de si (Baym, 2010, pp. 66-70; Donath, 1999; Danet
etal., 1997). Como se depreenderá, este problema não tem resolução absoluta.
Qualquer forma de recolha de informação depende, em última instância, da boa-fé
de quem a fornece.8 Há, todavia, um pressuposto falacioso do ponto de vista
metodológico na anterior asserção: assume-se como verdadeira a informação que
se obtém (ou aquilo que se observa) offline e como falsa a informação que se
recolhe (ou aquilo que se observa) online, como se a manipulação apenas
ocorresse no segundo caso (Slater, 2002, p. 542). Ora, mesmo admitindo que a
investigação que decorre fora da internet apresenta uma possibilidade superior
de verificação sobre o que se observa ou regista comparativamente com a que
podemos assegurar dentro desta, em nenhum dos casos se pode afirmar em absoluto
que os dados estão isentos de erros deliberados, omissões ou adulterações.9
Se é verdade que online não se sabe se quem observamos é quem afirma ser,
permanecendo sempre a dúvida acerca da identidade dos nossos interlocutores, é
igualmente verdade que o seu discurso poderá revelar-se mais importante do que
os seus atributos aparentes (revelados ou entrevistos) e a sua própria
fidedignidade (Hine, 2000, p. 49; Bell, 2001, pp. 195-196). Com efeito, mesmo
que não seja possível obter inequivocamente dados sobre características
demográficas elementares, tal não significa que, ao abrigo do anonimato e da
confidencialidade, certos interlocutores não se sintam à vontade para
expressarem opiniões e sentimentos que de outro modo não o fariam (Baym, 2010,
pp. 115-118). Pelo contrário, em certas circunstâncias empíricas, poderá
revelar-se crucial ter acesso a pessoas reais, contactadas offline, de modo
não tanto a garantir que são quem afirmam ser, mas simplesmente para permitir
identificá-las como utilizadoras da internet. De facto, existem práticas de
utilização que permanecem invisíveis online por não deixarem qualquer rasto ou
forma de identificação. No seu estudo sobre doentes com cancro da mama, Orgad
(2005, 2009, pp. 44-45) identificou justamente que um número considerável de
pessoas obtinha apoio online pelo simples facto de ler as mensagens trocadas
nos fóruns, sem nunca revelar a sua presença e, deste modo, aquela prática
seria não só indicativa do modo como procuram lidar com a própria doença como
também dos seus usos da internet.
MODELOS DE COMUNICAÇÃO E INVESTIGAÇÃO ONLINE
Aludimos acima à importância do modelo de comunicação para compreender a
presença online associada a diferentes modalidades de comunicação. Como
referimos, diferentes modalidades de comunicação (email, sites, fóruns,
blogues, etc.) compreendem modelos de comunicação distintos e, deste modo,
permitem utilizações diversas. Estas diferenças possuem repercussões igualmente
metodológicas que condicionam o tipo de observação que pode ser realizada
online. Existem, pelo menos, três características fundamentais que nos permitem
diferenciar os modelos de comunicação possíveis na internet, evidenciando
atributos específicos das trocas mantidas entre os participantes das diversas
modalidades de comunicação10: a) a privacidade da relação online; b) a forma
como a mesma se inscreve no tempo; e, finalmente, c) o número de participantes
envolvidos em simultâneo nessa mesma relação.
O facto de a relação ser pública ou privada tem consequências ao nível do
alcance das mensagens trocadas, nomeadamente se se limitam a participantes que
possuem uma ligação prévia entre si (excluindo as mensagens indesejáveis e
recebidas inadvertidamente) ou, pelo contrário, se são alargadas a vários
participantes sem possuírem um interconhecimento prévio (Elm, 2009). O que
levanta a questão de saber se o destinatário é indiferenciado e generalizado ou
diferenciado e específico. Nas chamadas redes sociais presentes online,
mantidas através de sites com aplicações que permitem gerir uma ampla lista de
contactos (como o Facebook e uma miríade de outros sites idênticos), vários
participantes podem adquirir contactos por via indireta, através do vínculo a
outra pessoa que conhecem diretamente e que, por isso mesmo, decidiram
acrescentar à sua lista pessoal de contactos. Ora, tal possibilidade contribui
para o esbatimento da distinção proposta, na medida em que concorre para uma
maior indefinição das fronteiras entre público e privado ou, pelo menos, para a
dificuldade em delimitar à partida a extensão de uma rede de relações que se
constitua online (Baym, 2010, pp. 90-91; Papacharissi, 2010, pp. 61-63). Na
verdade, a construção de perfis públicos e semi-públicos dentro dos sites com
estas características, associado à possibilidade de os relacionar com a lista
de contactos dos utilizadores com quem se partilha uma dada ligação, para além
da oportunidade de visualizar a lista de contactos destes e de outros que
compartilham a mesma plataforma, parecem ser os principais atrativos destes
sites de redes sociais (boyd e Ellison, 2007). Do ponto de vista metodológico,
torna-se difícil (senão mesmo impossível, em certos casos) determinar à partida
a extensão da própria rede de relações que mantemos e podemos observar online,
assim como a natureza dos laços que estabelecemos com as diferentes pessoas que
as integram (ou que venham a integrá-las no futuro).
A forma como a comunicação se estabelece no tempo apresenta-se igualmente como
um fator diferenciador. A autonomização das trocas em relação ao espaço é
apenas parcialmente acompanhada pela sua autonomização em relação ao tempo.
Embora uma parte significativa das trocas online não ocorra em tempo real, com
sincronização entre os participantes, outra parte ocorre. É o caso das trocas
que se processam em salas de chat ou através de programas de mensagens
instantâneas (como o MSN Messenger e outros similares). O tipo de conteúdo
produzido num e noutro caso não será, em princípio, o mesmo. O que pode ser
explicado pelo facto de, no segundo caso, as mensagens serem trocadas de forma
mais espontânea e imediata, ao passo que, no primeiro caso, envolvem à partida
um grau superior de reflexividade e controlo sobre o que é dito. A presença
imediata do outro, ainda que fisicamente ausente, reflete-se desta forma na
natureza do conteúdo que acaba por ser criado. Deste modo, qualquer observação
que envolva modalidades de comunicação que impliquem sincronização entre
participantes deverá confrontar-se com problemas que decorrem da troca imediata
de informação, com relação direta entre os participantes envolvidos.
Apresentando-se como uma forma de conversação, este tipo de recolha revela-se
particularmente útil no caso de entrevistas realizadas online (através de
instantmessaging ou chat privado) ou outras modalidades de comunicação que
envolvam comunicação em tempo real. Este foi, justamente, o método que
utilizámos para efetuar as entrevistas online no nosso estudo sobre o hip-hop.
Por oposição, a observação de sites, blogues ou mesmo fóruns de discussão, pode
ser realizada de forma diferida e não envolver relação direta, ou qualquer tipo
de interação, com os participantes.
Nos últimos anos, com o aumento do acesso à internet através de dispositivos
móveis (principalmente telemóveis e tablets), a questão da mobilidade tem vindo
a impor-se igualmente como uma dimensão a considerar, com repercussões, não
tanto na natureza dos modelos de comunicação, mas ao nível das práticas. Com
efeito, os anteriores modelos de comunicação podem ser concretizados
independentemente da fixação dos participantes a determinado lugar. As
consequências deste facto para a investigação online são visíveis na forma como
os usos da tecnologia passam a estar integrados em várias atividades
quotidianas, fazendo convergir de certa forma as experiências online e offline.
Para além da inscrição espaciotemporal, o modelo de comunicação online pode ser
caracterizado igualmente pelo número de participantes envolvidos numa troca
determinada. O que tanto depende das opções individuais (que levam a escolher
comunicar com uma ou mais pessoas em simultâneo) como também das
características da modalidade de comunicação em questão (que poderão permitir
ou não levar a cabo diferentes opções). O modelo de comunicação um-para-
vários, característico dos media tradicionais, ou um-para-um, característico da
comunicação interpessoal, são complementados com um modelo que permite a
comunicação vários-para-vários (e.g. chats). Há, portanto, modalidades de
comunicação que integram características formais que permitem estabelecer
trocas de informação entre vários participantes em simultâneo, orientando-se
por isso preferencialmente para relações coletivas ou de grupo11, associadas à
formação das chamadas comunidades virtuais (retomaremos esta questão), e
outras cujo número de participantes envolvidos em simultâneo se encontra
limitado, orientando-se para o contacto pessoal. Todavia, ao contrário do que
se poderia supor, as anteriores modalidades de comunicação (e os modelos de
comunicação que lhes estão subjacentes) não só não se excluem mutuamente como
se podem encontrar imbrincados de variadas formas. Essa imbricação pode ser
pensada de dois modos. Por um lado, do ponto de vista das características que
compreendem. Por outro lado, do ponto de vista da sua utilização.
No que respeita às características, verificamos que a mesma modalidade de
comunicação (e.g. um canal de chat) pode comportar diferentes atributos que
remetem para modelos de comunicação distintos (e.g. um-para-um, vários-para-
vários), ainda que possa ser utilizada preferencialmente de determinado modo
(e.g. vários-para-vários). Ou, ainda, a mesma modalidade de comunicação de base
(e.g. um site) pode compreender outras modalidades de comunicação (e.g. um
fórum). Este facto permite falar de sobreposição não só de modelos de
comunicação (o que pressupõe utilizações diversas da mesma modalidade de
comunicação) mas também de modalidades de comunicação (o que pressupõe a
possibilidade de usar diferentes formas de comunicar a partir da mesma
modalidade de comunicação de base).
No que respeita à utilização, levantam-se novas questões que decorrem da forma
como as anteriores modalidades de comunicação são geridas em diversas práticas
de consumo e produção. Ao contrário do que poderíamos ser levados a supor, a
utilização das várias modalidades de comunicação disponíveis através da
internet não se faz de forma independente e isolada, mas de forma interligada,
e por vezes sobreposta. De facto, a ideia de que a cada modalidade de
comunicação corresponde uma utilização autónoma e exclusiva, num determinado
momento e com um único conjunto de participantes, é uma ideia que pode ser
contrariada recorrendo a uma observação elementar das práticas correntes. Não
só uma mesma pessoa pode utilizar diferentes modalidades de comunicação, em
diferentes momentos, para comunicar com diversas pessoas, como também o pode
fazer num mesmo momento em simultâneo. Esta simultaneidade refere-se não só às
características formais da modalidade de comunicação em questão (como seria o
caso daquelas que permitem realizar um modelo vários-para-vários), mas também
ao tipo de utilização da mesma (como seria o caso de uma mesma pessoa ter
várias janelas de conversação abertas em simultâneo e dialogar com várias
pessoas ao mesmo tempo).12 Por conseguinte, parece existir maior complexidade
de utilização do que aquilo que as modalidades de comunicação em si mesmas
poderiam fazer crer. Acresce a este facto que várias relações online
aparentemente coletivas (como, por exemplo, as que são mantidas através dos
chamados sites de redes sociais) têm como nódulos impulsionadores os próprios
indivíduos, que decidem com quem pretendem relacionar-se, num modelo
simultaneamente em rede e individualizado.13
A forma como, independentemente de considerarmos o seu intuito e função
ulterior, são usadas diferentes modalidades de comunicação na internet, leva-
nos a pensar que a discussão acerca dos modelos de comunicação, quando
confrontada com as práticas reais, merece alguma reavaliação, sobretudo se
tivermos em conta que a mesma pessoa pode adotar várias estratégias de
comunicação em simultâneo e, desta forma, encaixar-se em modelos aparentemente
incompatíveis.
Que estratégias metodológicas adotar para solucionar os anteriores problemas?
Como se compreenderá, esta é uma questão complexa que só poderá ter uma
resolução contextual, adequada aos objetivos de cada investigação e às
circunstâncias que envolvem o seu desenrolar. Por essa razão, propomo-nos
fazer, nas páginas que se seguem, um breve circuito pelo itinerário de
investigação que prosseguimos em condições particulares.
ENTRE A RUA E A INTERNET: INTEGRANDO METODOLOGIAS DE INVESTIGAÇÃO OFFLINE E
ONLINE
Como investigar um terreno de observação até certo ponto intangível, sem
presença física inequívoca e que se encontra em constante transformação? Esta
interrogação resume de alguma forma o desafio que nos propusemos ultrapassar
quando iniciámos a nossa pesquisa sobre a chamada cultura hip-hop14, nas suas
diversas vertentes15, e decidimos direcionar a nossa atenção para o que se
afigurava ser as suas múltiplas expressões na internet. Este não tinha sido o
ponto de partida para a investigação realizada, embora depressa se tenha
insinuado enquanto aspeto incontornável do universo cultural em questão. Com
efeito, o nosso primeiro contacto com o terreno do hip-hop deu-se por via da
rua, através da nossa experiência de observação fora da internet, dos eventos a
que assistimos, dos produtos que adquirimos e desfrutámos, das conversas que
mantivemos com as mais variadas pessoas direta ou indiretamente ligadas a este
meio. Foi, contudo, através da rua que a experiência online do hip-hop se impôs
como crucial e, em grande medida, se apresentou como inseparável da anterior.
Foram diversos os protagonistas que, desde o primeiro momento, fizeram alusão à
sua utilização regular da internet (às novidades e informação que pesquisavam
online, às músicas que ouviam, aos contactos que mantinham entre si através da
internet, aos conteúdos que desenvolviam e alimentavam online, etc.), dando-nos
a impressão imediata da importância da internet na organização das suas
práticas.
Todavia, apesar da evidente interligação entre os contextos offline e online,
confrontámo-nos, desde o início, com o problema de avaliar até que ponto o hip-
hop online coincidia com o hip-hop offline. Que protagonistas e práticas eram
transpostos para a internet e como? Tal interrogação decorria, neste caso, da
anterioridade das várias expressões da cultura hip-hop relativamente à própria
internet, a que acrescia o facto de o estudo em causa ter sido realizado num
momento em que a penetração da internet era inferior à atual.16 Em todo o caso,
as implicações quantitativas deste facto (quem e o quê se encontrava online)
afiguraram-se menos relevantes para a investigação em apreço do que as
implicações qualitativas do mesmo (como se encontrava online e porquê). Assim
sendo, do ponto de vista metodológico, procurou-se tirar partido da
interdependência entre os dois contextos, definindo-se uma estratégia de
observação que se desdobrou offline e online ou, dito de outro modo, que se
procurou insinuar num vaivém entre a rua e a internet.
Independentemente da extensão e importância que a internet apresenta num dado
universo cultural, coloca-se sempre o problema de decidir como lidar
metodologicamente com estes dois terrenos de observação. De forma alternativa,
isto é, escolhendo sob que perspetiva se deve olhar para o universo cultural em
questão (online ou offline)? Ou, assumindo que devem ser entendidos de forma
complementar, considerando-os de um modo independente ou interligado? Tal
decisão depende, por um lado, da configuração de cada objeto empírico
particular e, por outro, da validade que se atribui à informação recolhida
tanto online como offline (Mann e Stewart, 2000, pp. 203-207; Hine, 2000). A
primeira questão é principalmente de natureza prática, a segunda é
essencialmente de natureza epistemológica. Comecemos pela primeira.
Ao contrário de outros media, a distinção online/offline apenas se tem colocado
a respeito da internet (Orgad, 2009, p. 36). O que se deve, em grande medida,
ao confronto entre duas visões sobre a internet: por um lado, enquanto
artefacto cultural, por outro, enquanto cultura (Hine, 2000, pp. 14 e
segs.). No primeiro caso, a internet tem sido considerada como um meio de
comunicação, sendo por isso estudada offline em contextos sociais delimitados.
No segundo caso, a internet tem sido considerada como um espaço social
comunicativo por direito próprio (Orgad, 2009, p. 36) e, como tal, tem sido
estudada online. Assim, se é verdade que vários objetos empíricos não só
apresentam importantes expressões online como podem existir predominantemente
nas redes digitais, é igualmente certo que outros não só possuem uma expressão
reduzida online como podem simplesmente estar ausentes da internet (Orgad,
2009, pp. 35-38; Miller e Slater, 2004, pp. 47-51). Com efeito, como notámos
atrás, a progressiva inclusão das mais variadas atividades quotidianas online
não implica necessariamente que todas tenham sido transpostas para este meio e,
mesmo que fossem, que estivéssemos ligados online em todas as circunstâncias.
Há, obviamente, uma parte da nossa experiência quotidiana que escapa às redes
digitais, por mais ubíqua que a imersão digital possa parecer.
É neste sentido que se poderá entender a distinção proposta por Kozinets (2010,
pp. 63-65) entre o estudo de comunidades online e o estudo online de
comunidades. No primeiro caso estaríamos a considerar práticas e formas de
relacionamento que têm na internet o seu centro, sendo que a existência das
mesmas depende deste meio. No segundo caso estaríamos perante práticas e formas
de relacionamento que também existem online, embora tal expressão possa ser
secundária. Contudo, longe de poder ser considerada de forma simples, a
anterior distinção deve ser entendida sob a forma de um continuum que, do ponto
de vista prático, pode existir entre as duas situações extremas, traduzindo-se,
por sua vez, no plano metodológico, numa oscilação entre o que seria a
simples etnografia, assente na observação de diferentes práticas
exclusivamente offline, e a netnografia, assente na observação das mesmas num
cenário unicamente online (Kozinets, 2010, pp. 65-68).
A segunda questão prende-se com a forma como se encara a validade da informação
obtida offline e online. Até que ponto a internet constitui um meio legítimo de
obtenção de informação, com valor explicativo por si, e não uma espécie de
realidade de segunda? Para vários autores, sobretudo aqueles que se dedicaram
aos primeiros estudos online, a internet não só constituía um meio de recolha
legítimo, como várias práticas apenas faziam sentido observando o contexto
online como um domínio autónomo (Mann e Stewart, 2000, pp. 203-207; Donath,
1999; Danet etal., 1997; Paccagnella, 1997). Pelo contrário, para outros
autores, o estudo da internet terá sempre de comportar um olhar de fora do ecrã
do computador, sendo necessário compensar a observação online com algum tipo de
recolha offline (Bakardjieva e Smith, 2001; Kendall, 1999). Tal opção
justifica-se porque muitos utilizadores não deixam qualquer rasto visível
online (não participam em fóruns, não têm blogues, etc.), ainda que as suas
práticas sejam relevantes para entendermos a multiplicidade de utilizações da
internet (Bakardjieva, 2009, p. 57). Todavia, ao colocarmos demasiada ênfase
nos contextos offline [ ] corremos o risco de deixar implícito que nem as
interacções online são tão autênticas como as interacções offline, nem o é a
informação que o investigador daí retira (Orgad, 2005, p. 52).
Assim, de modo a ultrapassar esta dualidade, alguns autores têm olhado para a
possibilidade de considerar abordagens onde se procure articular a recolha em
ambos os contextos (Hine, 2000; Kozinets, 2010; Sade-Beck, 2004). Não só porque
os dados obtidos através da internet podem ser relevantes por si só, sem
necessitar de validação externa, mas também porque podem ajudar-nos a
compreender a realidade offline (Orgad, 2009, p. 37). Como sugere Hine (2000,
p. 39), a internet pode ser entendida tanto enquanto cultura como enquanto
artefacto cultural, no sentido em que [ ] a ênfase pode ser mais utilmente
colocada na produção de significados em contexto, sendo o contexto entendido
quer como as circunstâncias nas quais a internet é usada (offline), quer como
os espaços sociais que surgem através do seu uso (online). Seja como for,
mesmo admitindo a pertinência de realizar um estudo online e offline, há que
pensar concretamente na estratégia metodológica a adotar e nas suas implicações
em termos epistemológicos. Tais implicações não se prendem tanto com questionar
a validade da informação em função da sua proveniência, mas em procurar
articular dados e discursos obtidos em contextos distintos e com recurso a
métodos igualmente diferenciados.
Embora, no nosso caso, a aplicação das diferentes metodologias aos dois
terrenos de observação deva ser entendida de forma simultânea e não apenas
sequencial, a verdade é que, como referimos acima, começámos por observar o
hip-hop na rua antes de o identificar na internet. Esta deslocação do contexto
urbano para os circuitos digitais implicou uma viragem metodológica que levou a
redefinir a estratégia de observação: não só se passou a acomodar o terreno
online mas também a pensá-lo em interligação com o offline, num vaivém entre os
dois terrenos. Não obstante, do ponto de vista prático, o trabalho empírico
seguiu caminhos distintos tanto fora como dentro da internet.
Fora da internet, as características do próprio objeto empírico foram cruciais
na adoção de uma abordagem qualitativa de tipo etnográfico (Hammersley e
Atkinson, 2000) e, principalmente, no caráter multi-situado que a mesma veio
a assumir (Hannerz, 2003; Marcus, 1995). De facto, uma das principais vantagens
do trabalho qualitativo reside na sua própria adaptabilidade a objetos cujos
contornos são à partida desconhecidos ou indefinidos. Tal acontece com as
várias expressões da cultura hip-hop que incluem atividades de natureza
distinta (das atuações de rappers às missões de bombing17 de writers),
associadas a circuitos com estatutos diferenciados (uns comerciais e orientados
para o mercado, outros underground e orientados para públicos restritos) e a
práticas com um caráter igualmente diverso (umas oficiais ou instituídas,
outras não oficiais, subversivas ou mesmo ilegais).
Ao desconhecimento ou indefinição dos contornos do objeto, devemos acrescentar
o facto de as várias expressões da cultura hip-hop não se encontrarem
inteiramente confinadas no espaço. Tal não significa que não seja possível
identificar grupos de praticantes fixos num dado momento no espaço ou que estes
não mantenham uma ligação contínua com várias atividades ao longo do tempo.
Contudo, a mobilidade e o fluxo caracterizam igualmente várias destas práticas,
revelando uma relação mais descontínua e intermitente com o território do que
aquilo que os objetos tradicionais das ciências sociais nos poderiam fazer
crer.18 O local onde se realiza um concerto rap num determinado dia pode ser
ocupado por outro concerto (de outro género) num dia diferente; tal como uma
inscrição de graffiti numa parede pode ser substituída a qualquer momento por
outra; ou, ainda, os movimentos de breakdance que um grupo de b-boys inscreve
num dado lugar terminam assim que acaba o seu encontro e o espaço em questão
retoma a sua função habitual. Deste modo, assumindo (e constatando) a dispersão
do objeto empírico, decidimos recorrer a duas estratégias complementares, com
ramificações distintas offline e online ao nível dos itinerários de observação
seguidos (v. Figura_1).
Em termos genéricos, e seguindo a figura, podemos afirmar que a estratégia
offline se estrutura em torno de determinados locais (mesmo que temporários)
onde se desenrolam determinadas atividades/práticas (mesmo que efémeras e
intermitentes), e onde encontramos necessariamente os seus praticantes/
consumidores (mesmo que variáveis). Tal estratégia assume contornos um pouco
diferentes se considerarmos os dois itinerários subentendidos na figura. Por um
lado, um itinerário local, cujo propósito é identificar as atividades e os
protagonistas (individuais e coletivos) em determinado lugar (bairro, evento,
etc.). Por outro lado, um itinerário em rede, que procura identificar o modo
como se estabelecem redes de relações mais ou menos consistentes entre os
interessados nas mesmas práticas. Estes dois itinerários, como se perceberá,
complementam-se, na medida em que cada lugar/contexto funciona como um
nódulo19da rede que se forma em torno de um interesse particular (festas,
concertos, etc.). Assim, se por um lado a lógica de rede nos remete para a
importância dos laços existentes entre indivíduos e grupos, por outro reenvia-
nos para a multiplicidade de lugares (mais ou menos próximos) em torno dos
quais se podem estruturar as práticas. É neste sentido que podemos falar do
caráter multi-situado do trabalho etnográfico desenvolvido, que não esteve
preso a um só lugar, mas que procurou seguir, de certa forma, determinados
praticantes e as atividades a que os mesmos se dedicam.20
A observação de eventos e o contacto com vários protagonistas em diferentes
ocasiões foi complementado com a realização de entrevistas aprofundadas e com a
recolha de materiais diversos. Tais materiais incluem fotografias e gravações
vídeo de performances, ensaios e várias formas de desempenho, assim como outros
produtos resultantes das próprias práticas (CDs, maquetes, etc.). Neste
sentido, tanto incluem produtos públicos, destinados à circulação comercial
(mesmo que restrita), como privados e de circulação interpessoal,
correspondendo, em alguns casos, ao registo de práticas, eventos ou situações
de outro modo inacessíveis.
Uma lógica idêntica foi aplicada à observação virtual, desenvolvendo-se um
trabalho de observação e presença em diferentes contextos online. Em termos
gerais, determinado conteúdo online representou um local para observação,
através do qual pudemos observar diferentes formas de produção ou participação
online, bem como os respetivos praticantesouutilizadores. Os sites e outras
plataformas não só se apresentam como pontos de ancoragem no terreno virtual
como também, e justamente por isso, nódulos da rede formada por cada conteúdo
online, servindo simultaneamente de contexto de observação e documento para
análise.
Os anteriores nódulos não são, todavia, todos idênticos, na medida em que nuns
casos representam conteúdos que não permitem qualquer outra utilização para
além da mera escolha num menu predefinido, noutros casos representam conteúdos
interativos, que atraem participações e fomentam diferentes formas de
comunicação entre os participantes envolvidos numa troca determinada. Seja como
for, permanece a questão de saber como fazer sentido de todas as manifestações
do hip-hop online, resultantes de diferentes conteúdos e criadas por diferentes
pessoas? A resposta a esta questão passou por abordagens distintas de
diferentes tipos de software e formas de recolha, fornecendo, cada uma a seu
modo, informações diferenciadas e complementares sobre o tema em questão. Foi o
que procurámos fazer com o levantamento que realizámos de diferentes
modalidades de comunicação online (de sites a fóruns de discussão21), com a
observação intensiva de algumas delas (fóruns e salas de chat22) e com as
conversas mantidas online com os criadores de diferentes conteúdos através de
programas de mensagens instantâneas (como o MSN Messenger23). As implicações de
observar diferentes modalidades de comunicação são distintas para as conclusões
que se podem extrair, embora possam ser integradas do ponto de vista da
análise.
Alguns destes conteúdos, dado que são mantidos através de modalidades de
comunicação que permitem diferentes formas de interação entre os vários
participantes envolvidos, tendem a ser considerados como comunidades virtuais
(Feenberg e Bakardjieva, 2004; Jones, 1998; Wellman e Gulia, 1999). Contudo, se
as várias formas de interação online, asseguradas por tipos de software
distintos, representam autênticas comunidades ou apenas a possibilidade
tecnológica de as constituir, depende, em grande medida, da própria definição
de comunidade adotada e do tipo de relações observadas. Com efeito, tais
relações podem traduzir diferentes tipos de laços (com intensidade e natureza
variáveis), que se constituem à volta de múltiplos interesses (Baym, 2010,
pp.73-90). Há, porém, um lado discursivo, simbólico e até imaginado (Slevin,
2000, p. 93), que faz com que o sentimento de pertencer a uma comunidade se
possa sobrepor à própria experiência individual da mesma.
De qualquer modo, nem todos os conteúdos observados online sobre um determinado
tema envolvem necessariamente comunicação entre os seus utilizadores. De facto,
no nosso caso, uma parte significativa da presença do hip-hop online diz
respeito a sites e blogues onde a possibilidade de interação entre os
respetivos autores e consumidores é reduzida, senão mesmo inexistente. Além
disso, ainda que referentes ao mesmo tema, e em certos casos mantendo uma
ligação entre si por via de hiperligações, a verdade é que estes conteúdos
permanecem dispersos, proporcionando uma experiência algo fragmentada da
presença do hip-hop online. A unificação destas diferentes experiências depende
por isso das utilizações e, também como constatámos, da forma como vários
conteúdos online acabam por moldar a própria experiência do hip-hop fora da
internet. De modo a superar esta limitação, procurou-se diversificar os modos
de observação online, articulando abordagens mais sistemáticas de observação e
mapeamento do terreno virtual, com abordagens mais aprofundadas em torno de
modalidades de comunicação específicas. Pretendeu-se igualmente que as
anteriores formas de recolha conjugassem abordagens indiretas (baseadas em
entrevistas) com abordagens diretas (como a presença em fóruns e salas de
chat), implicando a observação contínua dos conteúdos existentes e das
mensagens efetivamente trocadas.
Serão as estratégias adotadas suficientes para podermos falar com propriedade
em etnografia virtual? Como se compreenderá, tal depende da aceção de
etnografia que professamos. Do mesmo modo que a etnografia offline sofreu
alterações nas últimas décadas em vários dos seus pressupostos (Marcus, 1995,
pp. 95-96), assumindo uma relação mais difusa com os lugares e as práticas
observadas, também a etnografia online pretende ser uma expressão dessa mesma
evolução, voltando-se para o fluxo e a conetividade (Hine, 2000, pp. 61-62).
Neste sentido, a estratégia etnográfica seguida tanto implicou observação
contínua e envolvimento com vários protagonistas através de diferentes
modalidades de comunicação e métodos de recolha, como uma relação mais
distanciada com os autores e utilizadores dos vários conteúdos. Mantém-se,
contudo, a questão de saber como combinar (e justificar) as diferentes formas
de recolha de informação sobre o hip-hop online com aquelas que obtemos fora da
própria internet? Como articular, do ponto de vista da análise, diferentes
discursos produzidos em torno de um mesmo tema?
Se a integração metodológica resulta em grande medida da própria configuração
do fenómeno analisado, que, do ponto de vista prático, surge integrado, já do
ponto de vista epistemológico somos confrontados com o problema de validade que
temos vindo a aludir. Não obstante, ainda que não se tivesse procurado uma
verdadeira estratégia de triangulação, o facto é que uma parte da recolha
offline confirmou a recolha online, do mesmo modo que esta última orientou
muitos dos momentos de observação offline. Na verdade, se não fosse através dos
contactos mantidos offline (alguns deles decorrentes de contactos em eventos),
nunca teríamos chegado a entrevistar os autores de certos conteúdos (sobretudo
de blogues e sites sobre graffiti ilegal). Através das entrevistas realizadas
online pudemos igualmente ter acesso às justificações de vários protagonistas
sobre os conteúdos online e aos discursos obtidos em primeira mão sobre eventos
e práticas de outro modo inacessíveis. A própria situação de entrevista online
implicou, na prática, várias conversas ao longo do tempo, criando
simultaneamente um nível de envolvimento determinado com os entrevistados e
circunstâncias propícias para a obtenção da informação desejada.
Assim sendo, também do ponto de vista da análise devemos fazer o esforço de
integração dos dados e discursos obtidos nos dois contextos, considerando-os
como partes do mesmo fenómeno, ainda que os respetivos protagonistas possam não
coincidir inteiramente. Deste modo, neste vaivém entre hip-hop online e
offline, tanto reconhecemos evidentes continuidades entre práticas e
protagonistas, que veem na internet um contexto adicional para se propagarem,
como também óbvias descontinuidades, que revelam a forma como a internet não se
limita a reproduzir mimeticamente o hip-hop offline, acrescentando-lhe vários
atributos. A estratégia metodológica integrada que aqui defendemos permitiu
captar não só as especificidades de cada um dos contextos, mas também a forma
como estes se cruzam e complementam, definindo um cenário mais amplo e complexo
para o entendimento de um dado fenómeno cultural.
CONCLUSÃO
Como procurámos explicitar ao longo deste artigo, as opções metodológicas
dependem em grande medida dos objetos de estudo em causa, e dos problemas de
investigação que os mesmos engendram. No nosso caso, pretendemos discutir o
alcance e as limitações de abordagens teórico-metodológicas que têm a internet
como objeto de estudo, principal ou complementar, integrando-as com outras que
contemplam igualmente observação offline. Como vimos, no centro de vários
debates encontra-se a preocupação de saber em que medida é possível considerar
a internet por si mesma, sem referência à realidade que lhe é exterior ou, em
alternativa, se o estudo da internet requer necessariamente um exame daquilo
que se passa fora desta e, em certa medida, a explica. A resposta a esta
questão não é inteiramente consensual, precisamente porque os fenómenos (e os
objetos empíricos) que podemos tomar como referência também não são todos
equivalentes. No caso específico aqui examinado, a chamada cultura hip-hop, a
referência à realidade exterior à internet foi incontornável, na medida em que
esta não só a antecedeu enquanto fenómeno de rua, como também lhe fornece
grande parte da matéria-prima para laboração online. Não obstante, à medida que
os conteúdos online vão absorvendo múltiplas práticas offline, esta relação
têm-se tornado mais interativa e complexa e, de certa forma, a internet torna-
se parte do hip-hop, constituindo uma das suas expressões. Foi deste modo que
estabelecemos um princípio de interdependência entre o online e o offline, com
repercussões ao nível da estratégia metodológica adotada e do vaivém que
definimos entre os dois contextos de observação.
Tal estratégia apoiou-se em metodologias qualitativas, que tiveram em linha de
conta o caráter disperso e diversificado do objeto de estudo, que não se
encontra confinado a um só lugar, mas apresenta-se em diferentes contextos,
alguns deles móveis e temporários. Esta particularidade levou-nos a advogar uma
etnografiamulti-situada, com o propósito de cobrir diferentes cenários onde se
desenrolam variadas práticas significativas, mas também com o objetivo de dar
conta da própria mobilidade do objeto em questão. O terreno de observação
virtual veio introduzir uma complexidade adicional ao processo de observação.
Não só o ambiente online se apresenta intangível e os respetivos protagonistas
imateriais, como os seus limites se afiguram difíceis de estabelecer de forma
clara e definitiva. Tal é, como tivemos oportunidade de discutir, o problema
inerente ao fluxo que caracteriza a organização e o uso de múltiplos conteúdos
na internet.
Sendo múltiplo, e de certo modo fugidio, o terreno online foi abordado através
de diferentes metodologias, que permitiram cobrir diferentes aspetos ou
dimensões da presença do hip-hop online. Por um lado, dando conta da
diversidade de conteúdos, identificando-os e classificando-os, por outro lado,
indagando os motivos, recursos e estratégias adotadas pelos seus respetivos
autores. Dado o caráter interativo e participativo de vários conteúdos online e
a facilidade com que os mesmos podem ser criados por qualquer pessoa, as
fronteiras entre produção e consumo tornam-se porosas, fazendo com que a
identificação dos autores dos conteúdos assumisse uma complexidade acrescida.
Tendo em conta o caráter multíplice da internet enquanto artefacto tecnológico,
mas igualmente enquanto prática cultural, parece-nos indispensável indagar as
modalidades e os sentidos da sua utilização em diversas atividades. À medida
que a internet parece absorver (e ser incorporada em) diferentes práticas
quotidianas (mesmo que não integralmente), faz porventura cada vez mais sentido
a recomendação metodológica de a considerar em interdependência com o que se
passa offline e, por isso mesmo, de a encarar como objeto de estudo e
instrumento de investigação, com um caráter multifacetado e adaptável à análise
de diferentes objetos empíricos, mesmo que (ou justamente porque) fluidos e em
constante mobilidade.