Cosmopolitan Anxieties: Turkish challenges to citizenship and belonging in
Germany
Ruth Mandel,Cosmopolitan Anxieties: Turkish challenges to citizenship and
belonging in Germany, Durham, Duke University Press, 2008, 440 páginas.
José Mapril
CRIA/ISCTE-IUL e FCSH-UNL
Nas últimas décadas, os debates sobre imigração na Europa têm abordado temas
como cidadania, multiculturalidade, cosmopolitismo, coesão social e
autoctonia. Um dos casos mais emblemáticos é certamente a Alemanha, onde a
questão da migração turca assumiu uma importância central nos últimos
cinquenta anos. Este fluxo migratório teve as suas origens no crescimento
económico do pós-segunda guerra mundial. Perante uma evidente carência de mão-
de-obra, as autoridades da então República Federal Alemã (RFA) estabeleceram
acordos com vários países, entre os quais a Turquia, para o recrutamento de
mão-de-obra, com contratos temporários de trabalho. Em 1973, porém, o contexto
alterou-se e subitamente a economia, que já mostrava sinais de abrandamento,
entrou num período de crise. O choque petrolífero estagnou o crescimento
económico na Europa ocidental e a RFA não foi excepção. Os imigrantes, que até
então tinham sido indispensáveis, passaram agora a indesejáveis. Entretanto, e
contrariamente ao esperado, milhares de trabalhadores turcos não só acabaram
por permanecer, como trouxeram as suas famílias. Perante tal contexto, as
autoridades desenvolveram programas de incentivo ao repatriamento e encerraram
as fronteiras à entrada de mais população, que não através dos processos de
reunificação. A consequência foi a reconfiguração destas cadeias migratórias,
que passaram a realizar-se essencialmente através dos processos de reunião
familiar. Hoje vivem na Alemanha mais de 2 milhões de cidadãos com ascendência
turca e estão presentes em todos os quadrantes da sociedade, desde a vida
política ao futebol.
O mais recente livro de Ruth Mandel é precisamente um retrato detalhado da
constituição histórica desta diáspora e os debates que suscitou, e continua a
suscitar, na sociedade alemã contemporânea. Baseia-se na tese de doutoramento
intitulada We Called for Manpower, but People Came Instead. The Foreigner
Problem and. Turkish Guestworkers in West Germany, que a autora apresentou em
Chicago em 1988. A tese era um misto de análise às representações públicas
(oriundas de vários quadrantes políticos e dos media) e às medidas políticas
realizadas para fazer face a este fluxo migratório e, simultaneamente, uma
descrição etnográfica detalhada sobre as estratégias levadas a cabo pelos
próprios migrantes turcos para fazerem face à sua condição. Assim, Mandel
descreveu a sua implantação em Berlim, mais concretamente em Kreuzberg, e a sua
transformação em pequena Istambul, as viagens à Anatólia durante o verão, as
clivagens entre sunitas e alevis e os sentimentos de estranhamento, tanto na
Alemanha como na própria Turquia, aquando dos regressos. A tese apresenta-se
perfeitamente enquadrada nas preocupações teórico-metodológicas do momento
histórico em que foi escrita processos de integração, institucionalização do
islão na Europa e a experiência migratória.
Vinte anos depois, uma parte significativa deste material é finalmente
publicada em livro, ao qual a autora acrescentou um extenso conjunto de dados
mais recentes. A ideia central da obra é explorar etnograficamente os paradoxos
entre o cosmopolitismo, os processos de diferenciação da diferença e o
transnacionalismo. O argumento principal é: Rather then look at a Turkish
diaspora in Germany as a bounded social community, I follow the multiple
references of belonging across several decades and places. In lieu of reviving
the tired bridge metaphor, either linking or separating two distinct cultures
or peoples ever national at best , I find it cmore productive to explore the
novel and not-so-novel spaces defined by contestation and oher performances, of
interaction and mutual influencing. The bridge metaphor inadequately separates
somewhat arbitrary entities; focusing on the shifting spaces in-between
captures a more nuanced picture of the complex dynamics at work (p. 1). Assim,
Mandel procura perceber como vários quadrantes da sociedade alemã
interpretaram, nos últimos cinquenta anos, o problema dos estrangeiros
(ausländerproblamtik) e, simultaneamente, dar conta do papel que os migrantes
turcos e os turco-alemães tiveram na reequação de noções de cidadania,
nacionalismo e cosmopolitismo nas sociedades alemã e turca.
Ao longo de onze capítulos vamos desenrolando este novelo, através do
acompanhamento dos vários debates e perspectivas ao longo do tempo. A obra
poderia ser dividida em duas partes: a primeira, que inclui os cinco primeiros
capítulos e onde se contextualizam os discursos dominantes sobre o lugar dos
migrantes turcos na sociedade alemã, e uma segunda, onde os principais
protagonistas são os próprios migrantes e os seus filhos. Assim, logo no início
(capítulo 1) é analisada a forma como Berlim se constituiu historicamente como
uma cidade de fronteiras, onde Leste e Oeste são referências históricas
centrais para perceber as dinâmicas de urbanização. Até certo ponto, este
capítulo 1 estabelece o cenário central de toda a obra (pois foi essencialmente
aqui que a autora realizou a sua etnografia) a cidade de Berlim e os seus
imaginários.
No capítulo 2, Mandel revela a existência de uma hierarquia classificatória de
estrangeiros onde o critério racial, neste caso a metáfora do sangue, assume
uma importância simbólica central. Os russo-alemães, os Aussiedler, por
exemplo, são percepcionados como mais alemães quando comparados com os turcos
ou os trabalhadores convidados (os gastarbeiter). Seguidamente (capítulo 3),
analisa os processos de etnicização e racialização presentes nas autopercepções
dos seus interlocutores turcos e nas hetero atribuições da população alemã.
Mostra como a noção de ausländer se equaciona com a alteridade e como
Kreuzeberg passou a ser percepcionada como o lugar do estrangeiro, do
outro. Simultaneamente, deixa-nos ver como este mesmo lugar na cidade foi
apropriado por determinados segmentos da população alemã, os chamados
alternative, para quem este é o lugar do chique étnico.
Daqui passamos (capítulo 4) para a ambiguidade da cidade de Berlim, dividida
entre a visibilidade e a protecção das populações judaicas contemporâneas e a
invisibilidade dos turcos. Argumenta a autora que estes ocupam agora o mesmo
lugar estrutural que durante a história recente alemã foi ocupado pelos judeus
e chega mesmo a sugerir as continuidades existentes entre os estereótipos de
uns e de outros. No capítulo 5 ficamos a perceber mais detalhadamente as
ambiguidades de Kreuzberg, que é simultaneamente uma periferia e um centro,
simbólico e topográfico, o lugar do outro, do proletariado, e, simultaneamente,
uma nova centralidade na Berlim contemporânea.
No capítulo seguinte (6) somos confrontados com o duplo deslocamento dos filhos
dos migrantes turcos, entre os quais a narrativa dominante, baseada em
processos de categorização, revela a não pertença aos lugares que fazem parte
das suas histórias de vida: Alemanha e Turquia. Na Alemanha são
sistematicamente considerados Ausländer, a alteridade, e na Turquia são
apelidados de Alemanci,ouAlamanyals, remetendo a sua pertença para a Alemanha.
É precisamente a partir desta posição intersticial que Mandel analisa (capítulo
7) o papel das elites culturais de ascendência turca, que ou rejeitam a
intermediação com a restante sociedade alemã ou, pelo contrário, se tornam
profissionais étnicos. Estas elites culturais produzem aquilo que se
convencionou designar por guest worker literature, na qual manuseiam
criativamente os próprios estereótipos que as rodeiam. Aborda-se então
(capítulo 8) a problemática da cidadania e os trabalhadores convidados e para
tal a autora analisa os debates entre liberais (SPD) e conservadores (CDU)
sobre como gerir a naturalização dos migrantes turcos desde os anos 80 até à
contemporaneidade. Neste período, a alteração substantiva nas políticas levou a
que, enquanto nos anos 80 quase não existam naturalizações, em 2000 este número
aumentou de forma espectacular.
No capítulo seguinte, o 9, a problemática central passa a ser as viagens de
férias à Turquia e como estas são momentos de demonstração de riqueza e êxito
através de consumos lascivos, construção de casas ou mesmo através da
performancede rituais. Simultaneamente, são momentos de produção de alteridade
e estranhamento. No capítulo 10 Mandel mostra-nos como são as vivências do
islão entre os turcos na Alemanha, mais concretamente como aqui as clivagens,
até institucionais, entre sunitas e alevis ganharam novos contornos. Os
primeiros tornaram-se mais religiosos, enquanto os segundos mais públicos
(contrariamente ao que acontece na Turquia). No último capítulo, Mandel aborda
a polissemia das polémicas em torno do véu e argumenta que este sintetiza toda
a problemática do problema dos estrangeiros na Alemanha, onde existe uma
equação entre turco/muçulmano/árabe/estrangeiro. Através dele, vários
quadrantes da sociedade alemã procuram mostrar como os turcos nunca poderão ser
cidadãos verdadeiramente alemães.
Na conclusão voltamos à discussão central de todo o livro, nomeadamente a
produção da diferença, cosmopolitismo e transnacionalismo no momento histórico
actual. Nestas reflexões finais, Mandel sugere que se interprete a experiência
dos cidadãos turco-alemães à luz daquilo que a autora designa como um
cosmopolitismo demótico ou vernacular, através do qual as noções de cidadania
são desnacionalizadas.
Ainda que, por vezes, seja algo repetitivo, especialmente nos cinco primeiros
capítulos, este livro constitui-se como um excelente contributo para os estudos
sobre migrações na Europa contemporânea, mais concretamente devido à dimensão
historicista da análise. Assim, conseguimos mapear as percepções dos vários
intervenientes e a forma como estas se foram transformando ao longo do tempo,
desde os anos 50 até à actualidade. Através deste estudo de caso, é possível
explorar algumas das ambiguidades associadas aos fenómenos migratórios, tanto
do ponto de vista do imaginário hegemónico do Estado-nação como também da
imaginação pós-nacional e do cosmopolitismo.