Pessoas sem voz, redes indizíveis e grupos descartáveis: os limites da teoria
do actor-rede
Introdução
Neste artigo procuro estabelecer um diálogo crítico com alguns dos pressupostos
da teoria do actor-rede (TAR) e, de forma mais lata, com os estudos sociais de
ciência e de tecnologia. Argumento que estas correntes analíticas, ao
enfatizarem a componente sociomaterial, a simetria dos actantes e a lógica
reticular do poder, subestimam a importância da ordenação dos factos pelas
narrativas e o papel da imaginação emocional[1]. Seguir os actores ou
incorporar as entidades materiais, princípios basilares da TAR, implica a
inclusão num tipo qualquer de associação ou de rede. Colocar em ordem implica
escolhas epistemológicas e uma epistemologia política (Latour, 2005, pp. 249-
253), não atendendo aos que ficam fora das redes-actores. As estratégias
analíticas e de narração da TAR, baseadas em positividades, omitem ou esquecem
os não-ditos, os silêncios, as ausências, o trabalho urdido nos interstícios
das redes para ser e fazer valer, um trabalho baseado no cuidado e na gestão
das emoções, para além das redes e da lógicas de poder.
Partindo do exemplo de dois acontecimentos extremos, o furacão Katrina, em
2005, e a onda de calor em França em 2003, procurarei mostrar como os
indivíduos e grupos descartáveis são colocados no exterior das redes e dos
agenciamentos sociotécnicos e, dado que esses indivíduos e grupos são vistos
como não-produtores de valor, não são construídos socialmente como portadores
de direitos, tornando-se invisíveis e difíceis de incluir nas análises
convencionais da TAR. Mostrarei que os princípios de agnosticismo, simetria e
livre associação propostos por Michel Callon (1986) parecem recomendações
difíceis ou impossíveis de aplicar no caso da onda de calor de 2003 ou no caso
do furacão Katrina.
Como bem mostrou Boaventura de Sousa Santos (2006, p. 97), a razão metonímica
produziu e legitimou cinco formas de não-existência: o ignorante, o residual, o
inferior, o local e o improdutivo. Poderá a sociologia, como conhecimento
social humilde e produtor de conexões parciais e situadas, trazer de volta
esses indivíduos e grupos descartáveis? A resposta de Boaventura de Sousa
Santos é positiva quando afirma que [a] sociologia das ausências visa
identificar o âmbito dessa subtracção e dessa contracção de modo a que as
experiências produzidas como ausentes sejam libertadas dessas relações de
produção e, por essa via, se tornem presentes.
Ao analisar os princípios e a metodologia da TAR apresentados por Michel Callon
e Bruno Latour, apoio-me em Carlo Ginzburg (2003, p. 34), quando propõe que
estudemos as implicações cognitivas das escolhas narrativas que simultaneamente
abrem e proíbem explicações alternativas possíveis. Isto é, o hors-texte, o
fora-do-texto está totalmente imerso no texto, acoplado nas suas dobras, e vale
a pena procurar e confrontar o fora-do-texto e fazê-lo falar (Guinzburg, 2003,
p. 32)[2].
O social é plano e transitório: a teoria do actor-rede (TAR)
Os princípios básicos da teoria do actor-rede (TAR) foram estabelecidos por
Michel Callon no seu artigo seminal publicado em 1986. Esses princípios eram os
seguintes: agnosticismo, simetria e associação livre. Os mesmos podem ser
resumidos no já famoso dito seguir e respeitar os actores.
Agnosticismo significa que o cientista social não avalia, critica ou julga os
actores quando falam e argumentam sobre o social, elaboram as suas identidades
ou mobilizam casos e entidades para ilustrarem os seus argumentos. A simetria,
para além do que propunha David Bloor (1976), assume que o papel do cientista é
o de um tradutor que escolhe deliberadamente que afirmações e perspectivas
incluir na sua análise. A associação livre implica que o cientista social não
aplica um esquema ou um protocolo analítico preestabelecido, mas, pelo
contrário, que se apoia nas montagens e composições do mundo feitas pelos
actores, seja com entidades e materiais naturais, sociais, tecnológicos ou
outros.
Vinte anos depois, duas obras vão ser marcantes na consolidação desta
perspectiva analítica. Reassembling the Social (2005), da autoria de Bruno
Latour, e o artigo de Michel Callon Le renouveau de la question sociale:
individus habilités et groupes concernés (2003)[3].
O livro de Latour é mais um manifesto do que um manual ou uma introdução à TAR.
Um manifesto convincente e de grande impacto. A sociologia é aí definida como
uma prática que liga e está atenta às associações e às conexões. A sociedade é
um resultado, um produto, um efeito de múltiplas montagens. Tal fica
demonstrado nos cinco capítulos que nos devolvem as fontes da incerteza sobre o
social e nos três capítulos que se apresentam como movimentos que procuram
ultrapassar as lacunas da sociologia tradicional.
A primeira fonte de incerteza identificada por Latour prende-se com a natureza
integralmente performativa do social. Não existem grupos, mas sim formações de
grupos, e os actores, no seu afã de formação de grupos, estabelecem fronteiras
para estabilizarem o social. A segunda fonte de incerteza é que o social é
submergido, tomado de surpresa, isto é, a acção é sempre surpreendente, uma
mediação, um acontecimento (2005a, p. 45). A terceira fonte de incerteza deriva
do facto de que os objectos agem, têm agência e, como consequência, emerge a
quarta fonte de incerteza: a sociologia deveria concentrar-se nas questões que
interessam e preocupam, em vez de atender às questões de facto. A quinta e
última fonte de incerteza, apresentada como a escrita de relatos arriscados,
incita o cientista social a tomar tudo como dados e a arriscar a incorporação
nos seus escritos de actores recalcitrantes[4].
Os três movimentos que permitirão a concretização dessa nova escrita sobre o
social são: localizar o global; redistribuir o local e conectar os lugares. O
objectivo é manter a ideia de que o social é plano e descrever a produção
contínua dos lugares, das escalas e das dimensões (Latour, 2005, p. 171). O
primeiro movimento relaciona-se com a produção de trilhos contínuos, seguindo
os processos de delegação e de tradução. O segundo movimento permite estar
atento aos laços e ligações que os actores estabelecem e à inter-objectividade.
O terceiro movimento baseia-se nos móveis imutáveis que circulam de lugar em
lugar e, através de mediadores, constituem o plasma que molda a forma como
acontecem as coisas no social.
Penso que a obra de Bruno Latour La fabrique du droit(2002) é uma aplicação
virtuosa dos princípios atrás referidos. A metáfora do título transmite-nos a
frieza e a rigidez do processo de produção de leis e de legislação. Latour,
enquanto etnógrafo, aceita as leis de ferro que pautam as práticas dos seus
sujeitos do Conselho de Estado francês. Latour conforma-se e cumpre as regras
do silêncio e do segredo sobre o que está a ser discutido neste espaço quase
sagrado da justiça francesa. Mas, apesar da sua postura como cientista social,
pressentimos que, embora produza uma descrição convincente e elucidativa sobre
o fabrico das leis, há um mal-estar pessoal, um sentimento de insignificância
que não é totalmente explorado. Sabemos que ele se sentiu, durante o seu
trabalho de campo, como uma mosca invisível na parede. Mais ainda, Latour
(2002, p. 268) deplora a ausência de reflexividade de tão venerável
instituição. E, em vez de explorar este mal-estar causado pela recalcitrância
ostensivamente demonstrada pelos seus sujeitos, desvia a sua análise e a sua
escrita da instituição que estava a estudar para uma reflexão mais geral sobre
a lei como um regime específico de enunciação[5].
Talvez o seu mal-estar e a sua sensação de invisibilidade e de insignificância
fossem um indicador daquilo que sentem os cidadãos comuns quando confrontados
com a lógica opaca da lei e do direito. E, se para o etnógrafo era só uma
questão de escrita e de estudo, para os que são afectados pelas decisões dos
tribunais tais são questões de preocupação que permitem ou não uma plena
participação na construção de uma esfera pública e num mundo comum.
O livro de Latour, com fotografias de Emilie Hermant, Paris ville invisible
(1998), é igualmente uma aplicação exemplar de uma sociologia de montagens e de
associações. A materialidade de Paris e o carácter plano do social ficam bem
demonstrados nas suas ruas, becos, lugares, praças, mercados, cafés, secções de
voto e monumentos. A consistência do social assenta nas múltiplas e variadas
práticas quotidianas, nos objectos, artefactos e representações que circulam e
se cristalizam. Mas, conforme os autores viajam da École des Mines até uma
esquadra de polícia, do gabinete do presidente do município para uma mesa de
voto, de um café parisiense para um mercado, parece estranho que, apesar da
referência aos trabalhos permanentes no Pont Neuf, Latour não mencione as
pessoas que dormem debaixo dessa ponte ao longo do Sena; que essas não estejam
presentes na narrativa ou nas fotografias, invisíveis tanto como as suas
tendas, que assinalam a sua incontornável presença naquele lugar. Esta cegueira
do sociólogo e da fotógrafa deve-se à visibilidade ostensiva dessas pessoas
desprovidas no espaço público? Ou tal é uma consequência inerente da TAR, dado
que os sem-abrigo não participam directamente em nenhuma montagem sociotécnica
que pareça relevante?
Uma tipologia de grupos e a possibilidade de participação
No seu artigo Le renouveau de la question sociale, Michel Callon (2003, p.
209) estabelece as bases para uma nova análise da questão social, nomeadamente
da exclusão social. O primeiro aspecto prende-se com a noção de que o indivíduo
só pode ser compreendido a partir dos conceitos de acção distribuída e de
agenciamentos sociotécnicos[6]. No lugar de indivíduos dotados de capacidades,
temos indivíduos capacitados para a obtenção de poder e definidos pelas
modalidades distribuídas da acção.
Callon propõe uma oposição entre uma política protética e uma política de
capacitação. A política protética deriva da noção de que ao indivíduo portador
de uma deficiência será aplicada, de uma forma ad hoc, uma simples compensação
ou prótese. A política de capacitação, por outro lado, sustenta uma adaptação
estrutural para que cada indivíduo possa mobilizar as suas capacidades e o seu
potencial de acção. Tal conduz-nos à famosa frase somos todos deficientes.
Relacionada com a discussão de indivíduos capacitados para a obtenção de poder,
produzindo e sendo produzidos por agenciamentos sociotécnicos, Callon propõe
uma tipologia de grupos que são construídos pela dinâmica contínua de
enquadramento/extravasamento. Os grupos que estão inseridos em agenciamentos
sociotécnicos, com mediadores e delegados, são definidos como grupos
interessados. Estes grupos estão mobilizados e podem projectar-se na esfera
pública e generalizar as suas causas.
Quando ocorrem extravasamentos nos agenciamentos sociotécnicos, alguns grupos
podem ser afectados, mobilizando-se, ou não, para enfrentarem os desafios que
lhes são colocados. Os últimos tipos de grupos, não afectados pelos
extravasamentos e não interessados pelos agenciamentos sociotécnicos, são os
grupos órfãos. Estes são produzidos pelas dependências tecnológicas e pelos
fechamentos das redes na construção dos agenciamentos. Para que estes grupos se
tornem visíveis é necessário que o aspecto singular das causas que os excluem
do espaço público seja ultrapassado e que um destino colectivo se torne
manifesto (Callon, 2003, pp. 232-233).
Esta proposta de Callon tem a vantagem de apresentar de forma clara as
condições para a participação dos indivíduos e dos grupos na produção do
colectivo e de acentuar o papel central dos agenciamentos sociotécnicos nesse
processo. Contudo, este modelo analítico, marcado por relações e materialidades
densas, pressupõe, como o substantivo agenciamento indica, uma capacidade
para agir e para dar significado à acção que exige investimentos específicos.
Os agenciamentos sociotécnicos são proactivos e implicam positividades e a
criação de laços consistentes[7]. Como analisar, neste quadro epistemológico e
metodológico, os desfasamentos, os espaços e os tempos vazios, o quebrar de
laços, o afastamento lento e penoso da vida ruidosa e da obrigatoriedade de ter
um projecto de vida?
Para além das tecnologias e das narrativas: o papel da vulnerabilidade, das
emoções e do cuidado
O que está ausente neste quadro analítico da TAR é uma atenção às emoções
envolvidas na acção, às fragilidades e às vulnerabilidades constituintes dos
laços que tecemos uns com os outros. Os agenciamentos sociotécnicos ganharão
com a incorporação do lema sugerido pela ética do cuidado de Patricia Paperman,
somos todos vulneráveis (2005).
Ao arrepio de metáforas comuns nas ciências sociais, como construção, pilares,
engenharia, tecnologia, Patricia Paperman sugere que uma ética do cuidado
(care) é central para o reconhecimento das nossas próprias vulnerabilidades e
dependências[8]. O cuidado, numa perspectiva sociológica, permite a definição
de problemas morais e os modos para enfrentar os mesmos, como, por exemplo, a
vontade de manter uma relação mesmo quando confrontado com interesses e desejos
divergentes; dar atenção às particularidades da pessoa e da situação em que se
está imerso; responder a necessidades concretas; atender ao papel dos
sentimentos e das emoções na compreensão (e não na explicação) das situações.
De forma análoga, Talal Asad sugere que uma análise assente na dor e na acção
abre novas formas de pensar a acção incorporada, para além da abordagem
tradicional que a dor e a acção tomam como meras expressões holísticas de
identidade ou como respostas a oportunidades que se apresentam nas situações
vividas. Asad (2003, p. 73) afirma que há formas de experiência em que nos
ligamos ao mundo através dos nossos corpos e que implicam a desire to allow
one's self to be controlled by the world in certain ways.
Reflectindo sobre o impacto do 11 de Setembro e a necessidade de reinventar uma
ética não violenta, que se apresente como uma alternativa à governamentalidade
hegemónica, Judith Butler (2004, pp. 20-21) propõe os conceitos de perda e da
mágoa associada a essa perda, e de vulnerabilidade como fundadores da
reimaginação da possibilidade de comunidade. A perda fornece um sentimento de
comunidade política complexa, pois invoca os laços relacionais que têm
implicações para uma teorização da dependência fundamental e da
responsabilidade ética. Contra as definições identitárias de uma ontologia
liberal, Judith Butler sugere que devemos incorporar nas nossas análises os
efeitos contraditórios, dilacerantes, da paixão, da mágoa, da dor e da raiva:
[ ] passion and grief and rage, all of which tear us from ourselves, bid us to
others, transport us, undo us, implicate us in lives that are not our own,
irreversibly, if not fatally (Butler, 2004, p. 25).
Tal passa por uma teorização do corpo como materialidade implicadora de
mortalidade, vulnerabilidade e acção. O corpo, constituído como um fenómeno
social na esfera pública, é e não é meu. E é a vulnerabilidade de um corpo
singular, de vários corpos, de grupos e de comunidades que deve ser reconhecida
para que a atenção que lhes é dispensada seja potenciadora de um encontro
ético. A vulnerabilidade depende das regras existentes de reconhecimento
(Butler, 2004, p. 43).
A teoria do actor-rede e as emoções
Se os escritos de Michel Callon não incluem explicitamente qualquer posição
pessoal ou emocional[9], o seu artigo, escrito em co-autoria com Vololona
Rabeharisoa (2003), sobre Gino, um doente com distrofia muscular que recusou as
deixas de diálogo propostas por estes dois sociólogos e pela sua família em
torno da sua doença e que se recusou sempre a recolher informações sobre a
genética da doença e o seu impacto nos seus filhos é um dos trabalhos mais
empáticos alguma vez escritos por cientistas sociais.
Callon e Rabeharisoa (2003, p. 24) utilizam de forma magistral a posição de
Gino para explorarem as suas consequências para o papel do sociólogo no acto de
investigação, bem como para uma análise crítica da eficácia das metodologias da
sociologia enquanto disciplina científica. Simultaneamente, procedem a uma
crítica da noção ocidental de arena pública, que pressupõe um sujeito
individual livre, autónomo e responsável. O caso de Gino conduz os autores a
proporem as bases de uma sociologia que promova a emergência de formas variadas
e diferentes de nos comportarmos como humanos[10].
Embora o caso de Gino seja mobilizado pelos autores para reflectirem sobre
questões gerais que se colocam à sociologia, às ciências sociais e à humanidade
como um todo, pouca ou nenhuma atenção é dada à pessoa particular que
encontraram. Pergunto-me que teriam descoberto os autores sobre a maneira de
produzir laços alternativos e significantes, sobre a maneira de se tornar
humano e moral, se tivessem seguido a pista dada por Gino na transcrição da
entrevista que apresentam (Callon e Rabeharisoa, 2003, p. 4):
Sociologists: Do you participate in the ARM's[11] activities?
Gino: No, I don't participate in the ARM. When I was working I didn't
have the time. Now I prefer going to a football match. I like
football.
Esta resposta quase insultuosa é um sinal de recalcitrância, mas também uma
indicação de que, como salientam Callon e Rabeharisoa, Gino não é maluco ou um
monstro. Na situação particular de Gino, na sua vida específica, na sua
localização política local e pessoal, confrontado com um formato de entrevista
que reproduz um imaginário de teletecnologia, Gino afirma a sua diferença ao
declarar que não se interessa sobre as últimas descobertas genéticas e médicas
sobre a sua doença e afirma a sua mundaneidade ao declarar candidamente que
gosta de futebol. Que tipo de entrelaçamentos, de cumplicidades, de qualidades
humanas, de emoções, teriam Callon e Rabeharisoa constatado se tivessem
acompanhado Gino a um jogo de futebol?
Retomando a tipologia de grupos de Callon, e para incluir os que se definem
pelo seu desenraizamento e pelo seu afastamento do espaço público, devemos
incorporar outra categoria: a dos grupos descartáveis. O conceito de populações
descartáveis foi avançado por Henri Giroux (2006, p. 10) quando analisou a
biopolítica do furacão Katrina[12]. A biopolítica do Katrinareforçou a ideia de
que as populações pobres e afro-americanas afectadas constituíam um fardo para
o estado federal norte-americano e teriam de arranjar soluções por elas
próprias. Os indivíduos que compunham esses grupos eram percepcionados como não
tendo laços sociais estáveis, direitos de cidadania, carreiras contributivas ou
capacidades produtivas. A sua classificação inicial como refugiados era um
indicador e uma designação [ ] which suggests that an alien force inhabited
the Gulf Coast (Giroux, 2006, p. 55). A noção de grupos descartáveis não
implica positividades, uma vontade ou capacidade para agir ou se mobilizar ou a
existência de agenciamentos sociotécnicos a que se ancorar.
Um relato do Katrina: o método e as emoções
A análise das causas e impactos do furacão Katrina,na perspectiva dos estudos
da ciência e da tecnologia, está bem representada no conjunto de artigos
coligidos na edição de Fevereiro de 2007 da revista Social Studies of Science.
O objectivo desta secção especial da revista era reflectir sobre a inversão
infra-estrutural ocorrida depois da passagem do Katrinae sobre a disrupção
provocada no quotidiano das pessoas na costa do estado da Luisiana (Sims,
2007a). Os acontecimentos catastróficos de 2005 em Nova Orleães são pensados a
partir de conceitos como o de culturastecnológicas(Bijker, 2007), distribuição
de redes (Wetmore, 2007), infra-estrutura (Sims, 2007b), descrição de processos
(Hilgartner, 2007) ou o de justiça ambiental (Allen, 2007). O único artigo
escrito num tom denunciatório é o de Chandra Mukerji (2007). No conjunto dos
artigos não há tons líricos emocionais e, estranhamente, nenhum dos autores nos
relata os destinos e as lutas dos milhares que foram afectados pessoalmente
pela catástrofe[13].
Um relato lírico e pungente do Katrinaé-nos oferecido por Spike Lee no seu
documentário When the Levees Broke Down: A Requiem in Four Acts(2006). Embora o
documentário seja um género que exige um guião e uma narrativa, Spike Lee
conseguiu interpor pequenas histórias pessoais, baseadas em entrevistas, com
imagens de vídeo e fotografias reveladoras da destruição e dos cadáveres em
Nova Orleães.
A utilização ampla de fotografias derivou da necessidade de ultrapassar o
movimento contínuo inerente a todo o filme, em que o futuro se especula ao
nível do argumento ou dos arranjos técnicos e cénicos formais. Como afirma
Ulrich Baer (2002, p. 24) em relação à fotografia, [p]hotographs compel the
imagination because they remain radically open-ended. Cada fotografia está
radicalmente exposta ao futuro desconhecido e imprevisível dos sujeitos
retratados e faz apelo a uma concepção democriteana do mundo e do tempo,
baseada no momento, no acontecimento e na particularidade (Baer, 2002, pp. 5-
7).
O documentário de Spike Lee, dividido em quatro actos de uma hora cada um, é
uma apresentação caleidoscópica do sofrimento humano, da destruição das infra-
estruturas, das lutas políticas, do efeito de uma biopolítica da raça, do
desconjuntar dos agenciamentos sociotécnicos, de engenharia falhada, de pânico
mediático, de boatos, de indivíduos e grupos desprovidos e considerados
descartáveis, de uma biopolítica de Estado cínica e cruel.
O documentário de Spike Lee é um relato cheio de emoção que, através de
histórias pessoais e trágicas, nos transmite o sentimento de impotência das
pessoas (somos todos portadores de deficiência, somos todos vulneráveis e
dependentes) quando confrontadas de uma forma nua e crua com acontecimentos que
as esmagam e sobretudo quando se apercebem da ausência de um colectivo social e
político.
O documentário de Spike Lee é uma demonstração plena da importância dos lugares
e da noção de casa (home). Duas sequências marcam de forma inolvidável a
importância da ancoragem territorial. Na primeira, o músico de jazz Terence
Blanchard toca clarinete em frente da casa destruída da mãe. Logo a seguir, ele
acompanha-a no regresso doloroso e intolerável para lhe mostrar a destruição
deixada pelo Katrina. No plano imediato, quando está a ser entrevistado para o
documentário, Terence Blanchard não aguenta as lágrimas e diz: Já não posso
mais voltar a casa.
Na outra sequência, Kimberley Polk, agora a residir no Texas, conta como perdeu
o seu bebé, Serenna, quando as águas subiram de forma inesperada. O corpo foi
encontrado e devolvido à mãe meses depois da passagem do furacão. Vemos
filmagens do funeral da criança, e Kimberly Polk declara: Não quis que o
funeral fosse em Nova Orleães porque culpo Nova Orleães pela sua morte.
Os dispositivos mobilizados por Spike Lee para reforçar a ideia forte de lugar
e do direito dos antigos habitantes ao território de Nova Orleães[14]
materializaram-se na encenação de um funeral de jazzna 9th Ward e na filmagem
do Carnaval (Mardi Gras) de 2006 numa cidade totalmente destruída. Com estas
sequências, Spike Lee pretendia afirmar enfaticamente, através dos esquemas e
práticas culturais, o direito ao lugar e às raízes.
O documentário de Spike Lee é um exemplo estético ímpar de uma sociologia
lírica, atenta ao momento, às emoções e ao inacabado do social, que incorpora
também a ciência e a tecnologia, as infra-estruturas, a engenharia e as
materialidades do social. Contudo, os seus comentários pessoais em voz off
quanto às escolhas feitas durante a realização do documentário, quanto aos
eventos retratados e às personagens que aí aparecem, assumem um carácter
denunciatório, de raiva, que divergem muito do lirismo e da relevância moral e
política. Os comentários pessoais exigem um posicionamento por parte de Spike
Lee que incontornavelmente culpam, denunciam e justificam.
Sem dúvida que Spike Lee está consciente do seu ponto de vista e termina o
documentário recorrendo a um artifício magistral. Cada participante que foi
entrevistado, de frente para a câmara, enuncia o seu nome, profissão e lugar de
nascimento enquanto segura frente à face uma moldura vazia. E esta localização
reforça a ideia do social como um emaranhado de práticas, de instituições e de
agenciamentos sociotécnicos que se concatenam e se fecham em biografias
pessoais e colectivas, em relatos, fotografias, filmes, corpos e infra-
estruturas materiais.
Os idosos como pessoas descartáveis e o silêncio das ciências sociais
Como segundo estudo de caso, abordarei de seguida o impacto da onda de calor
que atingiu a França em 2003 e do silêncio quase total das ciências sociais
quando confrontadas com a morte de milhares de cidadãos franceses.
No Verão de 2003 assistimos na Europa a uma sobremortalidade de mais de 40 000
óbitos provocados pelas temperaturas elevadas (Sardon, 2006). Embora as ondas
de calor afectassem praticamente todos os países europeus, o impacto
demográfico mais devastador fez-se sentir em Espanha (13.7%)[15], França
(11.8%), Itália (11.6%) e Portugal (8.7%) (Robine et al., 2007). Em números
frios, tivemos um excesso de mortes de 29 980 em Itália, 19 490 em França, 5290
em Espanha e 2310 em Portugal.
A amplificação dos acontecimentos pelos meios de comunicação social e a
resposta da opinião pública foram cruciais na produção de um sentimento de
crise durante a onda de calor em França. Os acontecimentos, enquadrados como um
teste ao Estado francês, revelaram a sua fraqueza enquanto terapeuta global
imaginário dos seus cidadãos (Sloterdijk, 2006, p. 266). O palácio de cristal,
com a sua endosfera quente e autocomplacente, abriu fendas e os cidadãos
franceses sentiram-se completamente desmunidos, vulneráveis e à mercê dos
elementos naturais. Embora os acontecimentos do Verão de 2003 nunca tenham
corrido o risco de se tornarem uma situação de deslocação e subversão cívicas
(Jasanoff, 1997; Hilgartner, 2007), o impacto moral foi enorme, trazendo
surpresa, desconforto, consternação, perplexidade e um sentimento de
perda, no país, dos direitos humanos. A onda de calor de 2003 constituiu-se
como um caso em que o Estado francês foi impotente para demonstrar o poder do
poder (Gilbert, 1992, pp. 13-18 e 239-250).
Os cadáveres, empilhando-se lentamente aos milhares nas câmaras frigoríficas de
Rungis, o mercado abastecedor de Paris, contrariamente ao que aconteceu na onda
de calor de Chicago de 1995, em que as autoridades conseguiram naturalizar e
somatizar os acontecimentos, tornaram-se sinais do falhanço e de ruptura moral
e política do Estado, sinais de uma biopolítica inversa. Por oposição aos
efeitos do Katrina, ou de outras catástrofes naturais, as infra-estruturas
mantiveram-se intactas (Sims, 2007b), afectando pessoas que não podiam ser
rotuladas ou categorizadas conforme as suas características raciais ou médicas
(Briggs e Mantini-Briggs, 2003), normalizadas sociologicamente numa classe
social, ou até oficialmente etiquetadas como descartáveis (Giroux, 2006) ou
como marginais (Declerck, 2003).
A categoria abrangente de idosos, na sua materialidade de cadáveres que se
acumulavam diariamente, afectou de forma profunda o fio que simbolicamente liga
cada cidadão à comunidade imaginada nacional. Esta ruptura moral tinha de ser
reparada rapidamente. Esta brecha no palácio de cristal, imaginado como seguro,
em que os corpos dos idosos mortos funcionavam como autênticos reguladores da
temperatura, como indicadores da disfunção do sistema, como sinédoque do
falhanço do Estado e do corpo político, conduziram os políticos de todos os
partidos, a Assembleia Nacional e o Senado à elaboração de múltiplos relatórios
muitos dos quais em tom confessional e de medidas concretas, que
caracterizo como de expiação, de forma a que um acontecimento de tal magnitude
nunca mais se repetisse em França[16].
E, se os factos ocorridos em Agosto de 2003 foram classificados por jornalistas
e académicos como um evento simbólico e traumático na história recente da
França, poucos foram os artigos ou livros publicados por cientistas sociais que
directamente os abordassem.
Estes trabalhos académicos mobilizaram quadros analíticos convencionais. Alguns
interpretaram os acontecimentos a partir de uma antropologia da morte, da dor e
do luto (Le Grand-Sébille e Véga, 2005). Outros concentraram o seu trabalho
numa análise das origens sociais daqueles que morreram, e cujos corpos nunca
foram reclamados, bem como numa sociologia da memória (Collet, 2005). Os
processos mediáticos e as estratégias activadas para construir o evento também
foram detalhadamente analisados (Breard, 2004) ou, numa perspectiva mais
clássica, os quadros políticos de contestação activados durante a crise
(Millet, 2005). A sociologia das crises proposta por Patrick Lagadec (2005) ou
uma análise organizacional (Laroche, 2005) foram aplicadas aos relatórios
políticos e administrativos produzidos pelas instâncias oficiais.
Recorrendo ao vocabulário de Michel Callon, as ciências sociais não se
mostraram muito performativas na configuração analítica sobre a onda de calor
de 2003 em França. Mesmo se a sociologia das crises de Patrick Lagadec marcaria
explicitamente a narrativa da comissão de inquérito da Assembleia Nacional, os
trabalhos publicados assumiam uma dicotomia clara entre natureza e sociedade,
ou um tom de denúncia, como no artigo de Millet (2005).
Como refere Timothy Mitchell (2002, pp. 28-31), sempre que as ciências sociais
são confrontadas com agentes desconhecidos ou com agências que não são
exclusivamente humanas, como no seu estudo de caso sobre o Egipto, que envolvia
o mosquito Anopheles e o parasita Plasmodium falciparum, recorrem a
epistemologias e metodologias poderosas, conhecidas e reconfortantes. Em
França, a configuração da canícula de 2003 restringiu-se, de facto, a um jogo
científico exclusivo jogado pela epidemiologia e pela demografia.
Os princípios de agnosticismo, simetria e livre associação propostos por Michel
Callon (1986) pareciam difíceis ou impossíveis de aplicar no caso da onda de
calor de 2003. Quando há uma obrigação de incorporar actantes, como o clima,
dados meteorológicos, como a temperatura, o vento e a humidade, a morbilidade e
a mortalidade por golpe de calor, o Senado, a Assembleia Nacional e milhares de
cadáveres, as categorias analíticas e as dicotomias tradicionais parecem falhar
ao investigador. Há, na verdade, coisas que modificam as pessoas e as entidades
às quais estas estão ligadas. Tal exige a atenção dos cientistas sociais para a
multiplicidade das coisas sociais, que se apresentam como modos de existência
ou como modos de conexão múltiplos e contraditórios (Latour, 2005). Não se
trata de trazer de volta o social, mas de estudar o modo como o social é
reconfigurado pelos acontecimentos, incorporado e activado pelos quadros
analíticos dominantes.
Da onda de calor de 2003, outra questão intrigante emerge: por que não gerou
movimentos sociais ou protestos? Quais as condições sociais, políticas e morais
que estavam ausentes, ou excessivamente presentes, que não permitiram que se
tornasse um tema mobilizador? A resposta rápida e radical das autoridades à
crise não constitui uma resposta satisfatória.
Conforme assinalam Jean-Paul Vilain e Cyril Lemieux (1998) no seu importante
artigo sobre a constituição de grupos circunstanciais sobre as vítimas de
acidentes e os seus familiares, estes grupos representam uma nova forma de
participação pública e de construção de cidadania que, centrada na figura da
vítima, afirma novos direitos e uma nova relação com o Estado. E a França tem
assistido nos últimos anos a uma proliferação de affaires dos quais emergem
diversos, e muitas vezes conflituantes, movimentos sociais e protestos
(Boltanski e Claverie, 2007)[17].
Apesar dos impressionantes números da sobremortalidade de 2003, não se
constituíram movimentos sociais ou grupos circunstanciais. Estamos na presença
de um affaire criado pelos meios de comunicação social e que conduziu somente a
mudanças endógenas nas esferas política, científica e técnica, não extravasando
para o espaço público alargado de contestação ou mobilização social. Os
acontecimentos originaram um choque moral, no sentido proposto por James Jasper
(1998, pp. 408-420), mas tal não foi suficiente para mobilizar as pessoas.
A minha hipótese para que não tenha havido mobilização pública no caso da onda
de calor em França prende-se com o facto de que os familiares das vítimas se
remeteram a um silêncio que reflectia a ausência de luto. O ritual da morte não
foi inteiramente cumprido, pois, como salienta Magali Molinié (2006), há
necessidade de soigner les morts pour guérir les vivants (tomar conta dos
mortos para curar os vivos). A demora na recolha e identificação dos corpos, a
urgência de os enterrar em valas comuns, perturbaram todos os rituais
associados à morte e produziram uma ruptura profunda no desenrolar normal dos
acontecimentos.
E aqui cabe invocar a cultura do medo que grassava entre os pobres do Egipto
descritos por Timothy Mitchell (2002) e o silêncio de Gino relatado por Michel
Callon e Vololona Rabeharisoa (2003). Estes silêncios forçados não são
exclusivos de pessoas que habitam em países considerados menos desenvolvidos ou
em regimes repressivos. Podem também estar presentes numa cidade imaginada como
cosmopolita, Paris, onde foi retirado às famílias o direito ao luto ou onde os
mortos não tinham ninguém a quem se ligarem[18].
A propósito destes silêncios impostos, Michel Callon (2006, p. 8) escreve: [o]
que conta não é tanto a palavra a libertar mas sim o trabalho sobre os
mecanismos que impõem o silêncio, quer se trate do silêncio produzido pelos
deficientes ou pelos doentes graves ou daquele que é imposto por um terror
palpável que paralisa a palavra.
Conclusão
Neste artigo procurei mostrar os limites da teoria do actor-rede e dos estudos
sociais da ciência e da tecnologia[19]. A partir de textos programáticos e
empíricos de Michel Callon e Bruno Latour, enunciei os limites de estratégias
narrativas não reflexivas e não inclusivas das pessoas e dos grupos que não
estão inseridos em redes e agenciamentos sociotécnicos. Esses limites
evidenciam-se na abordagem convencional a acontecimentos extremos, em que as
pessoas e os grupos descartáveis são remetidos ao silêncio e à invisibilidade.
Com o caso do furacão Katrina,em 2005, a abordagem pelos estudos da ciência e
da tecnologia quedou-se por uma análise do impacto da ruptura dos sistemas
sociotécnicos e infra-estruturais, não se relatando ou invocando os destinos e
as lutas dos milhares que foram afectados pessoalmente pela catástrofe. Como
alternativa, foi analisado o documentário de Spike Lee, que, mobilizando a
ciência e a tecnologia, as infra-estruturas, a engenharia e as materialidades
do social, atende também ao momento, às emoções, ao inacabado do social e às
trajectórias pessoais e colectivas dos afectados.
Quanto à onda de calor de 2003 em França, a tipologia de grupos de Michel
Callon mostra-se insuficiente, por não incorporar os grupos descartáveis,
desprovidos de positividades ou materialidades significativas e apreensíveis
pelas ciências sociais. A invisibilidade dos idosos na sua morte lenta na
grande metrópole parisiense não mobilizou o interesse generalizado dos
cientistas sociais e a produção científica em torno deste acontecimento pautou-
se por análises do falhanço do sistema político e das organizações
sociopolíticas francesas. As ciências sociais não se mostraram muito
performativas na configuração analítica sobre este assunto.
Uma sociologia crítica deve estar atenta às potencialidades e limites das
estratégias narrativas adoptadas, ao posicionamento e à força do analista e,
para além das positividades, dos agenciamentos sociotécnicos, deve identificar,
a partir dos indícios, dos silêncios, dos fora-de-textos presentes nos textos,
as pessoas e os grupos que se situam nos interstícios dos agenciamentos
sociotécnicos e contribuir para o trabalho colectivo sempre necessário para os
tomar em conta, para os nomear, para os relatar e para os personificar em
processos políticos que permitam que os mesmos sejam tratados como pessoas e
grupos interessados. Trata-se da construção e aplicação de um versão da
sociologia e das ciências sociais que se apresente como abordagem humilde,
situada, difractária e parcial das coisas sociais e da diferença que todos
podemos fazer.