A nova economia do trabalho. Ensaio sobre emprego e conhecimento no mercado
global
Mário Murteira, A nova economia do trabalho. Ensaio sobre emprego e
conhecimento no mercado global, Lisboa, Imprensa de Ciências Sociais, 2007, 147
páginas.
Este é um ensaio de economia na contracorrente: questionando ideias
dogmatizadas pelas abordagens dominantes da disciplina e informado por outras
áreas do saber e do pensamento. Neste último aspecto faz recordar, aliás, que
em Portugal a sociologia, enquanto campo disciplinar, começou a emergir,
justamente, a partir da economia num movimento que Mário Murteira acompanhou
de perto, enquanto colaborador próximo de Adérito Sedas Nunes e colaborador
também da Análise Social desde o seu primeiro volume.
Como revela no «Prefácio», o autor, economista com uma longa carreira de
investigação, ensino e intervenção técnica, política e cívica em Portugal e no
estrangeiro, elaborou o texto sob a «forte motivação pessoal» de regressar ao
que fora o seu tema inicial de estudo (o trabalho) e com o fito de
«compreender, com a objectividade possível, o que mudou no mundo» (p. 13).
Tendo vivido e pesquisado tempos bem diversos dos actuais, mobiliza, assim,
eficazmente esse conhecimento (e outro) para aqui estudar o presente. Deste
modo, a análise apresentada no livro beneficia de uma profundidade temporal, de
uma abrangência cronológica que lhe dá perspectiva e a enriquece
significativamente e que permite melhor interrogar, além do presente, também
o futuro (do qual igualmente se poderá dizer que em muito tem mudado nas
últimas décadas).
Após o prefácio, o texto organiza-se em nove capítulos incluindo o
introdutório e o conclusivo , complementados por um anexo estatístico (cinco
quadros de dados demográficos e económicos).
O capítulo 1, «De Marx a Drucker» (sendo Drucker o «guru» fundador das modernas
teorias e engenharias de gestão organizacional), apresenta algumas
interrogações que fazem o pano de fundo do livro. Por exemplo: o que mudou no
mundo e nas expectativas de futuro? Onde se equivocaram os marxistas? «Como
explicar, além do mais, tão profunda mudança na conjuntura ideológica do
capitalismo nos últimos trinta ou quarenta anos?» (p. 15). Depois, chamando a
atenção para os limites que a nossa condição de seres ideológicos
inevitavelmente coloca ao conhecimento do social, contextualiza, de modo muito
esclarecedor, o surgimento da economia do trabalho (interessada no emprego, no
desemprego, nas condições e relações laborais), o seu ocaso e a emergência,
décadas depois, da «nova economia do trabalho». É aqui, nesta «emergente
disciplina, que procura identificar uma realidade socioeconómica em gestação»
(p. 19) o trabalho na contemporaneidade , que o autor situa o seu texto, do
qual indica então os grandes temas: formação do mercado global; relação entre
mercado de trabalho e «mercado do conhecimento», sendo este o «local primordial
da acumulação neste capitalismo global» (p. 20); questões de emprego,
desemprego e coesão social; sindicalismo; «desenvolvimento humano», e uma
atenção particular ao caso português.
O capítulo 2, «A globalização da economia e as tendências demográficas
mundiais», caracteriza a grande mudança, discutindo o termo «globalização» e
estabelecendo, designadamente face a prévios desenvolvimentos integradores, as
particularidades do processo actual: carácter mundial; coexistência de
integração com heterogeneidade e desigualdade; peso dos grupos ou empresas
transnacionais e crescente concentração de poder; interligação da globalização
financeira e da globalização do conhecimento; processos de marketing e
mercantilização globais; papel da tecnologia nestes processos; influência, nos
mesmos, das dinâmicas demográficas planetárias. O autor considera os aspectos
«positivos» e os «negativos» da globalização e deixa uma pergunta prática e
ética: poder-se-á condicioná-la «segundo um projecto que seja ao mesmo tempo
viável e compatível com um paradigma de autêntico desenvolvimento humano» (p.
30)?
No capítulo 3, «Da economia do trabalho à economia do conhecimento», são
discutidos os processos de «acumulação de capital no mercado global» (p. 37) e
as suas crescentes transnacionalização e financeirização (com subordinação
acentuada da função produtiva). As questões do valor do trabalho e da
exploração (com uma breve referência a Marx) são abordadas também por relação
às trocas mercantis e às cadeias produtivas globais, cujas dinâmicas
condicionam o valor da mercadoria e do trabalho influenciando também
fortemente, de acordo com a análise proposta pelo autor, as procuras e os
consumos. Segue-se uma discussão a respeito da «economia baseada no
conhecimento», problematizando o conceito e considerando as questões do
«mercado do conhecimento» (o que é o conhecimento, quem o detém, como circula
no mercado global, como é determinado o seu valor...) e das suas relações,
problemáticas sob alguns pontos de vista, com a liberdade individual de
conhecer.
A pergunta «Que futuro para o trabalho?» intitula o capítulo 4, que se inicia
com uma apreciação do lugar central do trabalho e dos trabalhadores no modelo
económico, social e político prevalecente na Europa ocidental durante as
décadas do pós-guerra. Retomando o capítulo anterior, são depois debatidos os
contornos e as condições de viabilidade da apregoada «sociedade do
conhecimento», na qual prevaleceria «um novo tipo de trabalhador, inovador e
empresário de si mesmo» (p. 58), gerindo, em autonomia individual, a obtenção e
os usos do seu saber. Com base nessa discussão, e na revisão de três possíveis
cenários de globalização («modelo liberal», «modelo da `globalização justa'» e,
justamente, «modelo da `sociedade do conhecimento'»), o autor conclui que a
concretização deste último exige uma intervenção voluntarista da sociedade
sobre a economia: «o modelo da sociedade do conhecimento não parece viável no
prolongamento puro e simples do modelo liberal» (p. 69).
Após estas abordagens de conjunto, os três capítulos seguintes cobrem aspectos
particulares de caracterização e interrogação do contexto actual. Em «Repensar
o sindicalismo» parte-se do reconhecimento de que este desempenhou «um papel
decisivo na democratização da economia de mercado» (p. 73) e da consequente
hipótese de que o seu enfraquecimento possa conduzir ao enfraquecimento da
própria democracia para considerar a «necessidade da metamorfose sindical» (p.
74) dirigida às novas formas de trabalho e relação laboral as quais, sublinha
o autor, incluem uma disparidade de situações que se articulam estreitamente na
economia global, desde os melhor posicionados «trabalhadores do conhecimento»
aos mais desprotegidos ilegais. «Coesão social no quadro da União Europeia»,
que inclui uma reflexão sobre a designada «estratégia de Lisboa», discute a
posição e o papel do «modelo social europeu» face à globalização, incluindo a
eventual importância cultural e identitária daquele modelo, bem como a
possibilidade de que um esforço europeu de coesão social conduza à afirmação do
continente no espaço global e, de modo relacionado, influencie «no sentido de
um modelo de `globalização justa' à escala mundial» (p. 93). Finalmente,
«Mobilidade do capital e do trabalho no mercado global» abre com uma reflexão
sobre a emergência de novas centralidades económicas (destacando o caso chinês)
e respectivos efeitos na «nova economia do trabalho» sobretudo, o desafio que
colocam ao modelo social europeu , caracterizando depois os grandes «actores
globais», entre os quais sobressaem as empresas transnacionais, e encerrando
com uma análise das dinâmicas de mobilidade dos vários tipos de capital:
humano, de conhecimento e financeiro.
O capítulo 8, «A globalização da economia portuguesa e os efeitos na economia
do trabalho», assenta numa revisão do último meio século: a política económica
e social da ditadura em particular o corporativismo, o condicionamento
industrial e a opressão política e cultural, instrumentos de «concentração do
poder económico em alguns grupos privados» (p. 112), perpetuando uma sociedade
desigual, viveiro de mão-de-obra barata e emigrante, «a dinâmica
anticapitalista que se seguiu ao golpe militar» (p. 115) e a transição para a
economia de mercado, consagrada com a adesão à CEE. Com base neste percurso, e
convocando um conjunto de indicadores pertinentes (relativos ao diálogo social,
ao papel do Estado e à competitividade), o autor desenha a situação actual do
país, por comparação com os modelos corporativo e social europeu, enumera
factores de atraso e sugere uma globalização da economia portuguesa que não se
limite ao actual «arrastamento periférico pela integração europeia» (p. 121).
«Utopia e ideologia na economia do trabalho» é o capítulo final. Tornadas
obsoletas as narrativas do sentido da história, mantém-se, contudo, considera o
autor, e tanto mais quanto mais se valorizar a liberdade individual, a «procura
do sentido último do `desenvolvimento humano'» (p. 124), na construção do qual
lhe surgem centrais o trabalho e o conhecimento. A ideia de «desenvolvimento
humano», que afirma não poder reduzir-se à mera acumulação de riqueza, é
discutida mediante os conceitos de «visão», «ideologia», «ciência» e «utopia».
Tipificando e caracterizando, em seguida, os díspares actores da conjuntura
global, o eonomista observa como, na complexa interacção destes, o mundo muda
rapidamente e o capitalismo se revela capaz de transformação e adaptação sem,
no entanto, ultrapassar uma «ambiguidade essencial»: são gerados mais saber,
mais riqueza, mais serviços, «mas não necessariamente mais justiça, maior bem-
estar do grande número, nem `desenvolvimento humano'» (p. 137). Ainda assim,
identifica também oportunidades e potencialidades de mudança, que passam pelas
alargadas conectividade e interacção do nosso tempo capazes, eventualmente,
de conduzir a outros padrões de conhecimento, de trabalho e de liberdade.
Mário Murteira escreveu um livro para quem quer saber e pensar sobre
globalização (nas suas múltiplas e entrelaçadas vertentes) e sobre a
importância do trabalho (e das mudanças que o atravessam) na contemporaneidade.
Não é tanto um texto de pesquisa; é uma obra estimulante de reflexão, de
propostas, de alguma provocação. É também, ainda que buscando a «objectividade»
possível, um olhar assumidamente pessoal.
Num texto de juventude sobre «A missão do intelectual» (posteriormente inserido
no seu volume de 1970 Portugal, Anos 70) assentava o autor tal missão em duas
«ideias»: «uma ideia de investigação» e «uma ideia de solidariedade», pois «não
há inquérito válido que não parta da aceitação de laços estreitos entre o eu e
os outros». A presença desse padrão ético e epistemológico é evidente também
neste livro, sendo interessante (e reconfortante) observar a sua
compatibilidade com o moderado optimismo que aí se constrói, pesem embora uma
perspectiva lúcida e crítica e uma análise sombria do estado do mundo.
Emília Margarida Marques
CEAS/CRIA, CEEP/CRIA, bpd FCT